"A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado". (Marc Bloch)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

As grandes civilizações do Extremo Oriente: Índia e China

Escultura em terracota, artista desconhecido. Período Gupta

* Introdução. Durante os mesmos séculos em que, na bacia do Mediterrâneo, deu-se o apogeu e a decadência da Grécia e de Roma, a organização de reinos germânicos e a formação do império árabe, no Extremo Oriente a Índia e a China desenvolveram alto grau de civilização.

Na Antiguidade, raros, porém, haviam sido os contatos entre os povos do Ocidente e do Extremo Oriente. Alexandre Magno não havia ultrapassado o rio Indo; os romanos haviam conseguido manter apenas um comércio muito irregular com a China, para a obtenção da valiosíssima seda (séculos II-III d.C.).

Foi somente a partir dos árabes que se estabeleceram contatos mais significativos com as longínquas regiões orientais, quando suas caravanas e navios mercantes conseguiram manter um comércio de certa forma estável e regular. Aproximando assim dois mundos até então distanciados um do outro, os árabes desempenharam importante papel histórico.

1. Índia भारत

Sabemos que a mais antiga civilização da Índia - testemunhada pelas ruínas de Mohenjo-Daro e Harapa - transformou-se, por volta de 1600 a.C., com a invasão de povos provenientes do sudoeste da Ásia.

[...] as populações do Indo construíam canais de irrigação; plantavam trigo, cevada e outros cereais, tendo sido talvez os primeiros a cultivar o algodão; criavam bois e camelos; estocavam suas colheitas em enormes celeiros, controlados pelo governo. Sabiam moldar o ouro, a prata, o cobre e o bronze; faziam colares, braceletes e brincos com pedras preciosas; gravavam delicados sinetes com figuras e símbolos; chegaram a estabelecer certos pesos e medidas, valiosos em suas trocas de produtos.

É certo que mantiveram contatos comerciais com os povos vizinhos do Afeganistão, do sul da Índia e da Mesopotâmia - onde foram encontrados objetos por eles trabalhados - trocando seus produtos por prata, cobre, lápis-lazúli e turquesas.

Estes povos, os árias, indo-europeus, vindos talvez das regiões do Cáucaso, estabeleceram-se às margens do rio Ganges, ampliando, nos séculos sucessivos, sua área de influência até a região da atual Nova Délhi, e impondo-se às primitivas populações com a introdução de técnicas agrícolas, artesanais e militares muito desenvolvidas. Já no século III a.C., sob o rei Asoka, a Índia formava um grande reino unificado.

* Sociedade. A sociedade da Índia, que se fora aos poucos estruturando, dividia-se em rígidas camadas sociais, as castas, consideradas de instituição divina. As pessoas pertenciam a uma determinada casta por nascimento; não podiam mudar de casta, nem casar ou ter o menor contato com elementos de outra casta.

As castas eram quatro: dos sacerdotes (brâmanes), dos guerreiros (xátrias), dos camponeses, comerciantes e artesãos (vaicias), da população conquistada (sudras). Abaixo destes havia os párias, que não pertenciam a casta alguma (daí o termo pária significar, para nós, ainda hoje, o indivíduo fora da sociedade).


Concerto da noite, artista desconhecido. Período Mughal

* Religião. As crenças religiosas mais antigas da Índia encontram-se documentadas em vários textos sagrados, redigidos em língua sânscrita, dentre os quais sobressaem os Vedas.

Os textos sagrados revelam a crença em uma série de divindades personificadoras das forças da natureza, afirmam a sobrevivência da alma e a íntima comunhão de cada indivíduo com o universo.

Por volta de 500 a.C. surgiram, na Índia, os ensinamentos morais e filosóficos de um membro da casta guerreira, Sidarta Gautama, conhecido como Buda (Iluminado). Esses ensinamentos, ganhando muitos adeptos, transformaram-se em religião, a religião budista. O budismo prega a gradativa purificação do homem, a fim de permitir-lhe vencer o sofrimento e a miséria, conduzindo-o à perfeita paz e liberdade do espírito (o Nirvana).

Quando o homem culto, em sendo sincero, repele a vaidade, ele, o sábio, acendendo aos elevados patamares da sabedoria, contempla das alturas os tolos; livre da tristeza, ele contempla do alto as multidões que se lamentam, como aquele que do topo da montanha baixa seu olhar sobre os que estão na planície.
[do Damapada, coletâneas de aforismas budistas]

A religião budista tornou-se religião oficial em parte da Índia (século III a.C.) e penetrou, a seguir, em outras regiões do Extremo Oriente, como China, Japão, Ceilão, Tibete.

Com a expansão dos árabes até a Índia, aí se difundiu também a crença muçulmana; e o domínio dos turcos acabou intensificando a islamização de boa parte dos territórios indianos.


Pintura em tumba, artista desconhecido. Período Han



2. China 中國

O berço da civilização chinesa [...] foi a extensa planície central cortada pelo rio Amarelo. Este rio deságua na costa leste da China, no Oceano Pacífico, depois de percorrer uma planície extremamente fértil. Deve-se essa fertilidade ao limo depositado pelas águas do rio ao transbordar; ao regime das chuvas que caem sobre a região; ao clima ameno que jamais alcança extremos de frio ou de calor; a uma espécie de poeira amarela, trazida pelos ventos, rica em sais minerais que, ao misturar-se com a terra, faz com que seja desnecessário adubá-la artificialmente.

Por volta de 4000 a.C. a China já possuía uma população considerável, espalhada em aldeias [...]. A primeira civilização importante foi a que se desenvolveu na planície do rio Amarelo, a cultura Yang-Shao (cerca de 3000 a.C.). Era constituída de agricultores que plantavam uma espécie de milho e, mais tarde, arroz; criavam, para sua alimentação, porcos, ovelhas e gado; domesticavam animais, especialmente o cachorro. Inicialmente não conheciam os metais, mas deixaram maravilhosas cerâmicas, com desenhos coloridos de vermelho, branco, preto; não representavam figuras humanas, nem mesmo animais ou plantas. As aldeias perto do delta alcançaram esse desenvolvimento só mais tarde (entre 3000 e 2000 a.C.). Sua cultura foi conhecida como a cultura Lung-Shan. Também os moradores dessas aldeias não tinham metais, que só vieram a conhecer depois de 1600 a.C.; e sua cerâmica, sobre fundo preto, tinha como única decoração desenhos geométricos.

Os agricultores constituíam nove décimos da população. Produziam gêneros em grande quantidade, servindo para alimentar sacerdotes, governantes, soldados, artesãos, mercadores e estudantes, grupos esses bem menores, mas muito importantes na vida chinesa.

Estruturada em base agrícola, a sociedade chinesa, tradicional e conservadora, evoluiu lentamente, com o correr dos séculos, sobrevivendo a crises políticas e econômicas, aperfeiçoando técnicas, atingindo alto grau de civilização e cultura, vindo assim a constituir, na época medieval, um dos mais importantes e mais poderosos impérios do Extremo Oriente.

* Filosofia e religião da China. A civilização chinesa, desde os mais remotos tempos, apoiou-se nos princípios filosóficos expressos no Tao (= caminho), que oferecia aos homens uma solução prática para a vida.

No século VI a.C., o pensador Lao-Tsé, baseando-se no Tao, desenvolveu uma doutrina filosófica, o taoísmo, que aconselhava sobretudo a meditação, a fim de permitir ao homem, penetrando em seu mundo interior, sentir melhor as forças básicas do universo. Essa doutrina filosófica transformou-se em religião cuja essência consiste em ser o homem bom, humilde, tolerante, devendo respeitar ao máximo as leis da natureza.

Os sábios de antigamente tinham sutil sabedoria e profunda compreensão. Tão profunda que não podiam ser compreendidos. Essa a razão por virem assim descritos:
Cautelosos, como cruzar um rio no inverno,
Irresolutos, como temer o perigo por toda parte,
Graves, como aquele que se sente hóspede,
Anulando-se, como o gelo que principia a derreter,
Genuínos, como um tosco pedaço de lenha,
De mente aberta, à semelhança de um vale [...].
[O livro de Tão, XV]


No século V a.C., outro grande pensador,Confúcio, sublinhou a ideia de que o homem pode vir a ser feliz na Terra, bastando para tanto desenvolver todas as boas qualidades que a natureza humana encerra; e, como Lao-Tsé, pregou a bondade, a tolerância e o respeito. Além disso, relevou especialmente as vantagens da educação, das boas maneiras, da tradição, para a conquista de um harmonioso relacionamento humano entre todas as classes sociais.

Os ensinamentos de Confúcio transformaram-se para o povo da China em um admirável sistema de princípios morais e, através da obra de seus seguidores, tornou-se doutrina conhecida por confucionismo.

O taoísmo, o confucionismo e depois o budismo (vindo da Índia) desempenharam papel importante na história da civilização e da cultura chinesa.

* Evolução histórica da China. O regime de governo predominante na China era a monarquia teocrática: o imperador intitulava-se filho de Deus, encarnando a suprema autoridade política e religiosa. Dentre as várias dinastias imperiais que governaram a China destacaram-se:

- A dinastia Ch'in (século III a.C.): unificou a China, antes dividida em numerosos principados; fortificou o poder central, destruindo o poder dos nobres; instituiu rígido controle burocrático e militar nas províncias, impondo a todas elas as mesmas leis e o mesmo sistema de pesos e medidas. Construiu larga rede de estradas; para defender as fronteiras do norte e do leste contra a invasão dos hunos, fez construir a Grande Muralha, aproveitando algumas fortificações já existentes.


A Grande Muralha da China

- A dinastia Han (séculos III a.C. - III d.C.): foi uma das mais célebres e ilustres na história da China. Estendeu as fronteiras territoriais, estabeleceu contato com outros povos, desenvolvendo o comércio sobretudo por intermédio de caravanas na rota da seda, em cujo percurso comerciavam-se artigos de luxo (tecidos de seda, especiarias e peles) que alcançavam elevadíssimo preço. O contato entre mercadores de várias procedências favoreceu a troca de informações e conhecimentos importantes. De um desses contatos estabelecido com regiões da Índia resultou a penetração na China da religião budista (século I a.C.).

Na mesma época, entretanto, em que as tribos germânicas começaram a transpor as fronteiras do Império Romano, apressando o seu declínio, povos bárbaros da Ásia central, iniciaram ataques à China, rompendo a Grande Muralha e ameaçando o império.

Sobreveio, assim, um longo período de quatro séculos conturbado por invasões e guerras, com insegurança política, falta de governo central, declínio econômico, que só veio a terminar com a ascensão de uma nova dinastia.

- A dinastia Tang (séculos VII-X): teve longa duração, conseguiu repelir invasores, expandir o território chinês em várias regiões asiáticas, fortalecer a administração, incentivar a educação e as artes, levando a cultura a um elevado nível de florescimento, dar prosperidade ao país, restabelecendo o equilíbrio econômico e o comércio exterior. Mas o avanço dos árabes na Ásia acabou provocando novo declínio econômico e a queda da dinastia Tang.

Sucedeu-se uma fase assinalada por contínuas ameaças externas e, por fim, no século XIII, a China foi tomada de assalto pelos mongóis sob a chefia de Gêngis-Cã. Seus sucessores estenderam rapidamente o poderio mongólico para além da China, até a Pérsia, a Rússia, a Ásia central. Nesse processo, porém, assimilaram hábitos e costumes chineses; demonstrando grande habilidade política, durante o governo de Cublai-Cã, o célebre veneziano Marco Polo teve ocasião de visitar a China e outras remotas regiões asiáticas.

No século XIV os chineses conseguiram libertar-se do domínio mongólico e instituiu-se o governo da dinastia Ming (séc. XIV-XVII), que marcou o início do isolamento da China com relação à Europa, isolamento esse que, durante 300 anos, iria intensificar-se cada vez mais.


Manhã de Primavera no Palácio Han, Qiu Ying 

3. Arte do Extremo Oriente

A arte hindu evoluiu lenta e continuamente, sempre por um processo de justaposição de formas antigas e novas. 

A arquitetura é essencialmente religiosa e marcada, a partir do século VI a.C., pela filosofia budista.

Os santuários eram concebidos como modelo, em escala reduzida, do universo. No centro havia o templo onde se encontrava a imagem divina. O santuário era fechado por uma muralha, simbolizando as montanhas que circundam a Terra, e pontilhado por pequenos lagos que lembram os oceanos terrestres. Na direção dos quatro pontos cardeais abriam-se portas representando aberturas na abóboda celeste, isto é, as estrelas, através das quais estabelecia-se o contato entre Deus e os homens.

Os santuários hindus, dos mais simples aos mais complexos, seguiam este esquema simbólico. Caracterizavam também os santuários uma variedade rebuscada de detalhes, ornamentação profusa com baixos-relevos e esculturas. À ornamentação rebuscada na arquitetura contrapunha-se a simplicidade da pintura, uma das mais belas manifestações da arte hindu.

A arte da China, como a vida chinesa, era de caráter acentuadamente conservador. Sobressaía o gosto pelos pequenos objetos de adorno e ornamentação, executados em materiais difíceis de serem trabalhados, bronze, jade, laca, marfim, exigindo paciência, minúcia e grande habilidade técnica.

Também na arquitetura transparece a índole conservadora dos chineses. Palácios, edifícios administrativos, templos obedecem a um mesmo esquema arquitetônico: várias construções, unidas umas às outras por pátios e pavilhões formavam um todo harmonioso, integrado na paisagem, evidenciando a preponderância do conjunto sobre a construção isolada.

Com a difusão do budismo na China, ganhou importância a escultura e multiplicaram-se os edifícios religiosos, aparecendo templos cercados de muros. Um elemento chinês típico é o telhado de pontas curvas, característico dos pagodes.

Nos séculos VII e VIII desenvolveu-se a arte da porcelana com a qual os chineses se tornaram famosos; e, paralelamente, foi evoluindo a pintura, sobretudo a pintura da paisagem, realizada com rara beleza e delicadeza de traços e de colorido, sobre papel ou seda.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 11-12 e 148-154.

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