"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Alimentação nas sociedades contemporâneas

Os dois últimos séculos trouxeram para a alimentação os efeitos combinados da Revolução Industrial, agrícola e dos transportes, provocando a maior globalização da história alimentar com o intercâmbio de produtos e a difusão de tecnologias de refrigeração, conservação, cozimento a gás e elétrico.

Consolidou-se também o intercâmbio que fez os produtos americanos como o milho, a batata, o tomate, o pimentão e muitos outros incorporarem-se à agricultura e à culinária europeia, africana e asiática, de onde, da mesma forma, vieram produtos como o trigo, o centeio, o arroz e tantos outros que se espalharam pelo mundo, integrando-se às tradições culinárias locais.

Esse processo dividiu a economia global em países produtores de matérias-primas, que foram submetidos a regimes de exploração colonial para sua especialização em monoculturas de exportação para os países centrais. Assim o açúcar, o café, o chá, o cacau, a carne e outros alimentos foram concentrados em regiões produtoras periféricas, embora o consumo maior se realizasse nas metrópoles europeias.

A invenção da lata, em 1804, também foi uma conseqüência imediata das guerras napoleônicas e da necessidade militar de garantir abastecimento. Depois disso, a invenção da indústria de refrigeração permitiu, a partir do final do século XIX, o transporte internacional de carne em navios frigoríficos. Isso fez países como a Argentina e a Nova Zelândia passarem a economias de intensa especialização pecuária, começando uma criação de animais em grande escala. Mais tarde, a pasteurização e as técnicas de higiene e assepsia também aumentaram a qualidade e a integridade dos alimentos.


Campbells.
 Imagem: Balougador

No século XX, a expansão da eletricidade e do gás na vida doméstica fez com que a cozinha das casas se tornasse o local de maior influência da Revolução Industrial na vida cotidiana do lar. Primeiro fogões e geladeiras e, depois, especialmente no segundo pós-guerra, eletrodomésticos se tornaram bens de consumo de massa.

A descoberta dos fertilizantes artificiais, no início do século XX, após o uso de insumos como o guano e o nitrato, e a utilização maciça de agrotóxicos ampliaram enormemente o volume de grãos produzidos, mas não conseguiram acabar com a fome no mundo, pois as estruturas de renda desiguais entre os países e em seu interior não permitiam o acesso dos famintos aos alimentos.

As conseqüências socioambientais do modelo agroindustrial baseado em grandes unidades de produção extensiva de monocultura com uso intensivo de insumos técnicos são cada vez mais preocupantes. A eutrofização (causada pelos fertilizantes nitrogenados) das águas, a expansão de doenças devido à criação animal intensiva em confinamento (como a vaca louca e, mais recentemente, as gripes aviária e suína) e o uso de terras para a produção maciça de forragem animal como a soja, por exemplo, trazem graves problemas sociais e ambientais. A expansão de um modelo de alimentação excessivamente rico em gorduras animais, açúcares e carboidratos, com o aumento exponencial da obesidade, também é uma característica marcante de um modelo agroindustrial e cultural cujos efeitos são catastróficos para o equilíbrio ambiental do planeta, devido à busca da produtividade máxima a qualquer custo. O consumismo voraz e perdulário nos países centrais é associado a pólos crescentes de miséria e fome nas grandes cidades e nos países periféricos. A alimentação contemporânea faz parte, assim, de um modelo insustentável que compromete os recursos naturais e humanos em contradição com as grandes conquistas tecnológicas que ampliaram a capacidade produtiva.

Henrique Carneiro. Alimentação. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 4: Idade Contemporânea. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 8-9.

NOTA: O texto "Alimentação nas sociedades contemporâneas" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O século da História e da Filosofia

Os europeus, que vivem grandes transformações no campo da economia, da ciência, da política, procuram dominar o passado para saber de onde eles vêm e para aonde vão. A análise dos documentos, o modo de contar a história, os esforços para explicá-la, a criação de sociedades acadêmicas e de revistas especializadas fazem da história uma das grandes preocupações da Europa do século XIX. A pesquisa e a reflexão históricas desenvolvem-se muitas vezes tendo como objeto a nação. Por exemplo, dois importantes nomes demonstram isso na França: Jules Michelet, importante escritor e militante democrata que acolhe no Collège de France o grande poeta polonês exilado, Adam Mickiewicz, e escreve uma grande História da França; e  Ernest Lavisse que também publica, de 1900 a 1912, a obra História da França, mais nacionalista, que atingirá um grande público, particularmente nas escolas.

O conhecimento da história é muito importante para os europeus e para a construção da Europa. É preciso conhecer o passado para saber como preparar o futuro, desenvolver as boas tradições da Europa, evitar que os erros e os crimes recomecem. Também é preciso evitar que se manipule a história forjando mitos nacionalistas. A História não deve ser um fardo a ser carregado ou uma má conselheira que legitima a violência. Com o tempo ela deve trazer a verdade, servir ao progresso.

No campo da Filosofia - que, pelas mesmas razões, procura compreender o que é o homem, a sociedade, a história -, há uma influência especial do pensamento alemão, de Immanuel Kant a Friedrich Hegel.

Continua existindo, na arte, na literatura, ou a influência de um país, ou a difusão de movimentos em toda a Europa. No final do século XIX, é o romance russo que está na moda com dois nomes importantes, Leon Tolstoi e Fiódor Dostoiévski. [...]

Art Nouveau: Salomé, Alfons Mucha

Na arte, é o triunfo da pintura impressionista [...] do inglês William Turner, dos franceses Édouard Manet, Claude Monet, Edgard Degas, Auguste Renoir [...] Depois é o estilo Modern Style ou Art Nouveau, e, no início do século XX, o cubismo (o francês Braque, o espanhol Pablo Picasso), o surrealismo... 

LE GOFF, Jacques. Uma breve história da Europa. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 132-134.

domingo, 29 de setembro de 2013

O mundo em 1913

Quando Henry Ford iniciou sua primeira linha de montagem, em 1913, o mundo estava agitado. Uma das evidências mais marcantes acerca disso era quantas pessoas havia, em comparação com qualquer outro momento do passado. Nos 150 anos desde 1763, a população mundial mais do que dobrara, indo de 800 milhões para mais de 1,6 bilhão de pessoas. Isso se deveu em parte aos avanços na medicina. Graças a um melhor entendimento dos processos infecciosos e da importância da higiene, melhorias no saneamento, introdução da vacinação e fornecimento de água limpa, a expectativa de vida em muitos aumentara. Isso era particularmente verdadeiro nas cidades dos países industrializados. Antes do século XIX, as cidades eram um escoadouro populacional, em que as pessoas morriam precocemente. Somente o constante reabastecimento oriundo do campo possibilitara manter a quantidade de gente existente. Agora o número de habitantes das cidades crescia rápido e, em muitos países, ocorrera um notável aumento na proporção de população total vivendo em um ambiente urbano.

Nesses países, a queda de taxa de mortalidade tivera lugar contra um cenário de taxas de natalidade estáveis, com o resultado de que o crescimento populacional fora particularmente acelerado. Um dos exemplos mais marcantes dessa tendência foi a Inglaterra, onde uma população de cerca de 7 milhões de pessoas em 1763 aumentara em 1913 para 40 milhões, a despeito da emigração de quase 20 milhões de pessoas.

Mas higiene melhorada e avanços médicos não teriam levado a aumentos populacionais não fosse a quantidade cada vez maior de alimento disponível. Entre 1763 e 1913, a área de terra cultivada do mundo praticamente triplicara e, em muitos países, técnicas melhoradas haviam resultado em produção maior por hectare tanto de colheitas como de gado. Os padrões de vida melhoraram consideravelmente, a despeito de dobrar a população no mundo todo.

Nem todo país se beneficiou do aumento de alimento disponível. A tiranizada colônia britânica da Irlanda registrara uma população de 6,5 milhões ainda em 1840, mas, devido à fome e ao empobrecimento esmagador, perdera 5 milhões para a emigração e, agora, tinha menos de 4 milhões. Essas regiões de privação contra um cenário de comparativa abundância revelam que ocorreu um grande aumento da desigualdade nos padrões de vida entre as nações prósperas e as menos afortunadas.

O crescimento populacional global durante o século precedente ou um pouco além disso fora acompanhado de um volume assombroso de deslocamentos entre os países. Em 1890, essas migrações vinham ocorrendo havia setenta anos, mas atingiram um pico no quarto de século entre 1890 e 1913. O motivo para isso incluía:

1. a remoção de obstáculos legais à migração em inúmeros países;
2. uma queda acentuada no custo da viagem oceânica;
3. uma depressão agrícola causada pela importação de grãos baratos de países como Argentina e Estados Unidos, o que culminou em escassez para os trabalhadores rurais europeus.

O fator mais importante nessas migrações foi a queda nos custos de transporte associada à chegada do barco a vapor, que atuou não só como "empurrão", mas também como "puxão". Facilitando o transporte de gêneros alimentícios por longas distâncias, ele tornou grande parte da atividade agropecuária tradicional pouco rentável em face da competição de países como Estados Unidos e Austrália, lançando no desemprego trabalhadores de outros países. Esse foi o "empurrão". Ao mesmo tempo, proporcionou viagens mais baratas, tornando possível à gente pobre deixar seus lares pela oportunidade de uma vida melhor em outro lugar. Esse foi o "puxão".


Os emigrantes, Angiolo Tommasi

Algumas dessas migrações atingiram proporções fenomenais. Entre 1840 e 1913, algo como 60 milhões de europeus partiram de suas casas para tentar a sorte em outro lugar. Por volta de três quartos deles foram parar na América do Norte, onde as estradas de ferro haviam desbravado o país e a terra era barata. Outros 10 milhões e tanto, na maioria espanhóis, portugueses e italianos, acabaram desembarcando na América Latina. Quantidades substanciais vindas da Inglaterra e da Irlanda encontraram um novo lar em países como Canadá, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul. Essa foi uma época em que os impérios europeus atingiram seu ápice e foi de muitas maneiras uma era dourada de oportunidade para emigrantes europeus em busca de um novo lar em países onde ainda podiam se sentir "em casa";

Não foi apenas da Europa ocidental e meridional que as pessoas saíram para tentar fazer fortuna em terras estrangeiras. Na segunda metade do século XIX, quatro ou cinco milhões de pioneiros russos encontraram um novo lar na Sibéria. E no sul e no leste da Ásia as pessoas estavam igualmente se deslocando à procura de uma vida melhor, ou apenas um modo de ganhar a vida. Entre 1830 e 1913, dezenas de milhões de trabalhadores indianos com contratos de curta duração supriram a mão de obra necessária em minas e fazendas em colônias britânicas como Trinidad, África do Sul, Ceilão e Burna. Durante esse mesmo período, talvez até 15 milhões de camponeses chineses, desesperados por fugir de dívidas, tiraram vantagem do comércio de "cules", que os fornecia como mão de obra para patrões do mundo todo, mas sobretudo para as fazendas de borracha e as minas de estanho da Malásia.

Graças à disponibilidade maior de alimentos, e a essas grandes migrações, algumas áreas do mundo haviam registrado grandes crescimentos populacionais desde 1763. A população da Europa, excluindo a Rússia, mesmo com suas perdas para a migração, explodira de cerca de 110 milhões para algo em torno de 350 milhões. A própria Rússia, incluindo a Sibéria, tinha agora uma população de 150 milhões. A população dos Estados Unidos, na outra ponta dessa maré de imigração europeia, atingira os 100 milhões.

Entre as nações asiáticas, o Japão abrigava 60 milhões de pessoas: um povo próspero, instruído e transbordando de autoconfiança nacional. A China, com mais de 500 milhões, e um passado brilhante, deveria ter se tornado uma das grandes potências mundiais. Mas os anos de guerra e fome, governo complacente e ineficaz e maus-tratos por parte dos algozes estrangeiros haviam-na reduzido a uma sombra de seu antigo eu e deixado grande parte de sua população atolada em dívidas e ignorância.

A população de 350 milhões da Índia - igual à da Europa - continuava sujeita aos caprichos de uma certa ilha ao largo da costa europeia. Por ora, as classes cultas indianas não tinham outra escolha a não ser se deixar ficar sob a tutela de pessoas cujos ancestrais iletrados ainda corriam por aí em peles de animais quando seus próprios ancestrais criavam obras-primas supremas da arte e da literatura. Mas elas não iam continuar aturando isso por muito mais tempo.

Dois outros vastos territórios, Austrália e Canadá, continuavam teoricamente parte do império britânico, mas seus habitantes não podiam ser tutelados como era o povo da Índia. A Índia britânica fora criada por um empreendimento comercial, que obtivera controle de um subcontinente densamente povoado por intermédio de armamentos superiores e velhacarias diplomáticas. O Canadá e a Austrália, por outro lado, haviam sido efetivamente esvaziados de seus povos nativos por uma combinação de doenças europeias e limpeza étnica. Esses lugares haviam sido repovoados, como acontecera nos Estados Unidos, por imigrantes europeus de mentalidade independente, que teriam rapidamente afirmado sua independência se a Inglaterra tentasse tratá-los como o fez com aquelas colônias cujos povos tinham uma cor de pele diferente. O Canadá vinha se autogovernando na prática desde a promulgação da Lei do Governo do Canadá, em 1867. Um terço de seu povo era cultural e linguisticamente francês e muitos deles teriam preferido formar uma nação separada. Mas em 1913 os sentimentos separatistas não eram fortes o bastante para ameaçar a sobrevivência do Estado.

A Austrália se tornara uma commonwealth autogovernada desde 1901, com uma constituição que proporcionava a seus estados individuais, como as províncias canadenses, uma grande dose de controle sobre os próprios negócios. Como o Canadá, ela era abençoada com extensas terras de cultivo de trigo e rica em recursos minerais. Os cidadãos de ambos os países usufruíam um padrão de vida que causava inveja a outros povos.

Também a antiga colônia britânica da Nova Zelândia era, para todos os propósitos práticos, agora um país independente. Ela fora administrada separadamente de New South Wales desde 1841 e, em 1907, fora designada um "domínio", assumindo seu lugar junto a Austrália e Canadá como um território autogovernado unido à Inglaterra apenas por laços de amizade e um rei compartilhado.

Conforme o ano de 1913 se aproximava do final, os bronzeados jovens desportistas da Austrália e da Nova Zelândia, como os atletas de todas as nações bem nutridas, já ansiavam pelos próximos Jogos Olímpicos. Excetuando as mulheres. Ao contrário dos gregos, o mundo moderno não estava preparado para o espetáculo de mulheres atletas exibindo suas habilidades físicas em público. O antigo festival grego fora revivido em 1896 como resultado do entusiasmo de um aristocrata francês, o barão Pierre de Coubertin, que visitara a pequena vila inglesa de Much Wenlock na época de seus Jogos Olímpicos anuais, uma mistura de "esportes viris e recreações ao ar livre" que atraía atletas de toda a região. O que viu por lá o persuadiu de que um festival similar em escala internacional podia ser um meio de promover a paz e a boa vontade entre as nações. As Olimpíadas de 1896 foram tal sucesso que ficou resolvido que se repetiriam a intervalos de quatro anos. Em 1916 o lugar planejado para sediá-las era Berlim. Mas em 1914 ocorreu um evento que comprometeu os países do mundo numa disputa muito mais desesperadora.

AYDON, Cyril. A história do homem: uma introdução a 150 mil anos de história humana. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 309-313.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

A época de Napoleão

"O grande homem é grande não porque suas particularidades individuais imprimam uma fisionomia individual aos grandes acontecimentos históricos, mas porque é dotado de particularidades que o tornam mais capaz de servir às grandes necessidades sociais de sua época, surgidas sob a influência de causas gerais e particulares".
Georg Plekhanov

Bonaparte cruzando a passagem de Saint-Bernard Grand. Jacques-Louis David

É muito difícil prever com segurança quais serão os resultados finais de uma revolução. Quando o processo revolucionário é longo e abarca todos os setores de uma sociedade, mais difícil se torna a previsão. À medida que os acontecimentos vão se sucedendo, as reações das pessoas, dos grupos são incontroláveis. Adquirem, na maioria das vezes, rumos que nem os próprios líderes desejam.

Despedida de Napoleão para a Guarda Imperial no Cheval-Blanc, Antoine Alphonse Montfort 

Com a Revolução Francesa não foi diferente. Três anos após o início da luta armada, o país se viu mergulhado em uma profunda crise interna, sofrendo ameaças externas de todos os vizinhos conservadores. Os monarcas e os nobres temiam que os ventos revolucionários franceses os derrubassem do poder e que aquelas perigosas ideias liberais tomassem conta da cabeça dos trabalhadores e da burguesia.


O Imperador Napoleão em seu estúdio nas Tulherias, Jacques-Louis David

A República francesa, proclamada em 1702, era dirigida pelos revolucionários da ala mais moderada e com o apoio da alta burguesia que não desejava as medidas radicais da chamada ala dos jacobinos. Entretanto, de 1793 a 1794, foram os jacobinos que dominaram a Convenção e governaram o país. Mas, em 1794, novamente os moderados, chamados de girondinos, através de um golpe, tomaram o poder. Governaram até 1795 e esse período ficou chamado de República Conservadora. Não eram radicais, não defendiam os ideais dos trabalhadores e da pequena burguesia, estavam defendendo a alta burguesia: os donos de indústrias, os grandes comerciantes e os proprietários de terra.

Retrato de Napoleão Bonaparte como Primeiro Cônsul, Ingres

Os moderados criaram uma forma diferente de governar. O poder executivo ficou nas mãos de um grupo, o chamado Diretório. O poder legislativo foi exercido por dois Conselhos. Aos poucos foram acabando com os avanços revolucionários mais radicais, mas enfrentaram crises econômicas e frequentes conspirações. Os revolucionários viviam uma situação de temor e apoiaram a intervenção do exército na política.

Napoleão revista a Guarda Imperial antes da Batalha de Jena, Horace Vernet

O exército foi a força maior com a qual a alta burguesia contou. Conseguiu grandes vitórias no exterior, como a do Egito, onde derrotou os ingleses, e a Itália. À frente desse exército estava a figura que mais e mais se destacava. Era o general Napoleão Bonaparte¹.

¹ "A Revolução Francesa permitira a Napoleão Bonaparte, nascido na ilha de Córsega [...] e educado nas melhores escolas militares da França, ascender rapidamente ao posto de general". (HOLLANDA, Sérgio Buarque de et alli. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 210.)


Bonaparte na Ponte de Arcole. Antoine-Jean Gros

Foi assim que Napoleão deu o golpe militar, dissolvendo o Diretório em 18 de novembro de 1799. Para dirigir o país, Napoleão criou o Consulado formado por três chefes, dos quais ele era um.

Poucos meses depois Napoleão foi eleito cônsul e, em seguida, foi proclamado imperador com o apoio do exército e da alta burguesia. Como imperador, Napoleão governou de 1799 a 1815.

Napoleão Bonaparte no golpe de 18 Brumário em Saint-Cloud, François Bouchot

São os rumos inesperados da revolução: os liberais aclamaram Napoleão Bonaparte como imperador da França, um imperador com todos os poderes nas mãos; às vezes governava com o absolutismo dos reis tão condenados pelos liberais. Verdadeiramente esses rumos não foram traçados pelos revolucionários de 1789!


Napoleão diante da Esfinge, Jean-Léon Gérôme

Ao longo de seu governo, Napoleão Bonaparte tomou muitas medidas liberais, jamais abandonando os burgueses endinheirados, que tinham grandes interesses econômicos. Foi para eles que o imperador de fato fez as reformas, porque acreditava que seriam eles os homens que fariam da França um país capitalista industrializado.

Primeira esposa de Napoleão: Imperatriz Josefina em trajes de coroação, François Gerard

Napoleão nunca foi um democrata. Jamais acreditou que se poderia governar no regime democrático. Mas também foi muito mais liberal do que os reis absolutos. Muitas reformas feitas por ele foram tão importantes e necessárias que vigoram até hoje, em quase todo o mundo ocidental.

Segunda esposa de Napoleão: Imperatriz Marie-Louise, Jean-Baptiste Isabey

Entre suas várias reformas algumas provocaram impacto extraordinário. Napoleão subordinou a Igreja ao Estado, que passou a pagar os salários dos padres; criou os liceus e as universidades e determinou que a educação² fosse monopólio do Estado; tornou obrigatório o ensino primário, que ficou a cargo das prefeituras; promulgou o Código Civil, que praticamente influenciou todo o mundo ocidental, e incentivou a industrialização.

² "No setor educacional ordenou o funcionamento de numerosas escolas públicas, até então escassas, para o ensino em diferentes graus, às quais acorreram crianças, adolescentes e jovens, em número cada vez maior". (HOLLANDA, Sérgio Buarque de et all. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 212.)


Napoleão abdicando em Fontainebleau, Paul Delaroche

O período em que Napoleão ficou no poder não foi fácil. Houve crises financeiras, greves nas fábricas e ele usou sua força no sentido de reprimir e vigiar.

A Europa toda foi sacudida por Napoleão e a América, também.

Napoleão atravessando os Alpes, Paul Delaroche

Na Europa, a grande rival era a Inglaterra³, que, já bastante industrializada e com uma economia liberal, não desejava ter a burguesia francesa também ocupando os seus espaços. Mas os outros países, como a Prússia, a Rússia e a Áustria, sentiam o impacto das ideias francesas e tentavam abafá-las.

³ "A Inglaterra, primeira potência naval da época, era o único país que Napoleão não conseguia vencer pelas armas. Como a nação inglesa dependia em grande parte do seu comércio com as demais nações europeias, Napoleão decidiu mover-lhe uma guerra econômica. Para tanto decretou o Bloqueio Continental (1806), isto é, declarou todos os portos europeus fechados a navios e mercadorias inglesas, interditando também o comércio europeu com a Inglaterra. Apesar do bloqueio, a Inglaterra intensificou o comércio de produtos coloniais, procedentes do Extremo Oriente, dos Estados Unidos, e sobretudo de produtos coloniais da América Latina, através de portos do Mar do Norte, do Mediterrâneo e outros de Portugal, seu tradicional aliado". (HOLLANDA, Sérgio Buarque de et alli. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 213.)

[...] A Rússia quebrou o Bloqueio, porque precisava importar produtos industrializados da Inglaterra. Napoleão, furioso, marchou com seu exército contra ela, e enfrentou dificuldades insuperáveis, como o frio e a fome. Foi uma campanha sem sucessos. A derrota foi flagrante e marcou o início de seu declínio.


Retirada de Napoleão de  Moscou. Adolph Norther

Em 1814, a situação do país era tão difícil que Napoleão foi obrigado a abdicar, retirando-se para uma ilha. Voltou logo a seguir e governou mais cem dias. Finalmente, em 1815, numa batalha na Bélgica, em Waterloo, foi derrotado pelo exército inglês e enviado prisioneiro para a ilha de Santa Helena, onde ficou até morrer.

Napoleão em Santa Helena, Francois-Joseph Sandmann

"Na minha carreira encontrar-se-ão erros, sem dúvida; mas Arcole, Rivoli, as Pirâmides, Marengo, Austerlitz, Iena, Friedland são de granito; o dente da inveja nada pode contra elas [...] Eu aterrei o abismo anárquico e pus ordem no caos. Eu limpei a Revolução [...] E depois sobre que poderiam atacar-me de que um historiador não pudesse defender-me? [...] Enfim, seria a minha ambição? Ah! sem dúvida, ele encontra-la-á em mim - e muita; mas a maior e a mais alta que talvez jamais tenha existido: a de estabelecer, de consagrar o império da razão e o pleno exercício, o inteiro gozo de todas as faculdades humanas [...] Em poucas palavras, eis, pois, toda a minha história [...] Milhares de séculos decorrerão antes que as circunstâncias acumuladas sobre a minha cabeça possam encontrar um outro na multidão para reproduzir o mesmo espetáculo." BONAPARTE, Napoleão. O processo Napoleão. In: FREITAS, Gustavo de. 900 textos e documentos de história. Lisboa: Plátano, 1976. v. III, p. 124.

A Batalha de Austerlitz, François Gérard

O poder político voltou para as mãos da família dos Borboun - Luís XVIII - que governou até 1824. Surpresa nos rumos da grande revolução!

BONAPARTE, Napoleão. O processo Napoleão. In: FREITAS, Gustavo de. 900 textos e documentos de história. Lisboa: Plátano, 1976. v. III, p. 124.
GARCIA, Ledonias Franco. Estudos de história: sociedades contemporâneas. Goiânia: UFG, 1998. p. 79-83.
HOLLANDA, Sérgio Buarque de et alli. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 210, 212-213.

sábado, 18 de maio de 2013

O significado do adjetivo "contemporâneo"

[...] ser contemporâneo é pertencer ao mesmo tempo, ou seja, ser do mesmo tempo. Um exemplo desse sentido da palavra: "Garrincha, que foi um grande jogador de futebol, foi contemporâneo de Pelé na seleção brasileira de futebol". Outro exemplo: "Cristóvão Colombo, que chegou à América, foi contemporâneo de Pedro Álvares Cabral, que chegou ao Brasil". Mais um exemplo: "Chico Buarque, Milton Nascimento e Gilberto Gil são compositores de música brasileira contemporânea".

Esses três exemplos simples nos ajudam a compreender que Garrincha e Pelé foram companheiros de futebol na seleção brasileira; que Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral fizeram suas viagens de exploração na mesma época e que os três compositores, Chico, Milton e Gil, estão produzindo, cada um no seu estilo, trabalhos que caracterizam a música popular hoje no Brasil.

Observe que, em todos os exemplos, o acontecimento ao mesmo tempo é o fator que marca a contemporaneidade. [...]

Mas em História, quando nos referimos ao período contemporâneo, ou às sociedades do mundo contemporâneo, o significado do adjetivo contemporâneo é um pouco diferente daquele com que a palavra foi empregada nos exemplos anteriores. Em História, para os acontecimentos serem contemporâneos não basta pertencerem ao mesmo tempo, é preciso possuírem algumas características que revelam um determinado modo de ser e de pensar da época. Nem sempre os acontecimentos contemporâneos se deram ao mesmo tempo. Pode até haver uma distância de muito mais de um século entre um e outro acontecimento e, no entanto, serem contemporâneos porque possuem as características próprias que definem aquele grande período histórico.

Assim, o período histórico que fica entre o final do século XVIII e nossos dias é chamado de período contemporâneo porque as sociedades que nele vivem, em geral, possuem algumas características próprias da época. Diferentes das características que marcaram os períodos anteriores: Antiguidade, Tempos Medievais e Tempos Modernos. Vale lembrar, é claro, que essa é uma foram muito ocidental e cristã de enxergar e analisar a História. Muitas sociedades orientais, muitas sociedades africanas jamais poderiam ser estudadas a partir dessa visão ocidental. A trajetória de seus povos foi outra e a visão cristã do mundo não tem sentido entre aqueles que nunca foram cristãos.

[...]

[...] a Idade Moderna chegava ao final porque grandes transformações do século XVIII revolucionaram as instituições políticas, a sociedade, a economia, o pensamento. As características que marcaram todos esses campos durante a Idade Moderna foram sendo transformadas pelas revoluções: a Industrial, a Americana e a Francesa. E as transformações foram tantas que os historiadores passaram a aceitar como contemporânea a História que aconteceu depois porque era muito recente, muito próxima deles naquele tempo.

Na verdade, os historiadores do século XIX chamaram aquele tempo em que estavam vivendo de tempos contemporâneos porque percebiam que se tratava mesmo de uma outra época, diferente dos tempos anteriores às revoluções. Mas hoje, passados mais de 200 anos, será que podemos afirmar que ainda são contemporâneos? Como ficamos diante dessa pergunta?

Encontramos diversas opiniões a respeito desta questão. Muitos historiadores pensam que a Segunda Guerra Mundial, que terminou em 1945, e na qual se usou a bomba atômica, mudou muito o mundo e, portanto, depois dela, estamos vivendo um outro período da História. Outros pensam diferente: apontam a chegada do homem à lua em 1969 como sendo o marco de um novo período histórico, que poderia chamar-se Era Espacial. Outros ainda aceitam que entramos em outro período quando os homens inventaram e passaram a usar os robôs que, de fato, são um avanço tecnológico fantástico.

O homem no espaço. O astronauta Edward White flutua suavemente fora da nave espacial Gemini IV, à qual está ligado por uma corda, 160 km acima da Terra.


[...]

Não há uma linha divisória separando um período do outro na História e também não é possível estabelecer uma data que marque o final de um período e o início do outro.

Não há limites rígidos nos processos de mudanças e transformações. Os homens em sociedades, espalhados pelos continentes e vivendo suas próprias experiências, não constroem ao mesmo tempo, nem na mesma intensidade as suas histórias.

Foram os historiadores que, a partir de estudos e análises apoiados nas mais variadas fontes documentais, concluíram que, desde o final do século XVIII até os nossos dias, no Ocidente, vive-se nos tempos contemporâneos.

Por quê?

Porque, quando se analisam os acontecimentos históricos em conjunto - aspectos políticos, econômicos, sociais, culturais -, é possível perceber muitas características dos tempos contemporâneos.

Alguns exemplos: revolução do trabalho industrial, com todas as suas características, circulação de um volume imenso de dinheiro obtido na indústria, o aparecimento e a consolidação das democracias, o crescimento das cidades, o surgimento da classe operária, um modo de expressão da época através da literatura, artes, filosofia e ciências etc.

No entanto, é preciso não perder de vista que nem todas as sociedades passaram pelos mesmos estágios de vida. Enquanto algumas viviam em determinados níveis de desenvolvimento, muitas outras viviam em níveis e direções totalmente diferentes. Essa diversidade de experiências de cada sociedade resultou no quadro geral que presenciamos hoje no mundo contemporâneo.

Um exemplo dessa diversidade de níveis de desenvolvimento pode ser comprovado quando observamos os russos e os norte-americanos desvendando o espaço cósmico, utilizando a mais sofisticada tecnologia inventada, enquanto muitos povos espalhados pela África, em ilhas da Oceania, na América, sequer conseguiram atingir os estágios básicos do desenvolvimento que nos permitissem dizer que estão no mundo contemporâneo.

Naturalmente podemos afirmar que esses povos são contemporâneos nossos porque vivemo no mesmo tempo em que nós vivemos e vice-versa. Entretanto, se considerarmos que as sociedades do período histórico contemporâneo possuem determinadas características, aqueles povos estão muito distantes de nós.

Isso não significa que são melhores ou piores do que nós. Mas significa que vivem a sua história pelos caminhos que conseguiram percorrer, no ritmo de sua cultura e, principalmente, conservando as suas raízes mais ou menos isoladas do movimento do restante do mundo.

GARCIA, Ledonias Franco. Estudos de história: sociedades contemporâneas. Goiânia: UFG, 1998. p. 13-15, 17-18.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Século XIX, o século das máquinas e do dinheiro

Primeiro a Grã-Bretanha, depois são os países do continente que exploram as novas técnicas, constroem máquinas, criam a indústria. A usina invade a paisagem europeia, com suas chaminés e sua fumaça. Explora-se de modo considerável o carvão e o ferro. As regiões negras aparecem na Inglaterra (as Middlands), na França (o Norte e a Lorena) e na Alemanha (o Ruhr). Com o trabalho do algodão surge a indústria têxtil. Dessa forma, aparecem novos trabalhadores, os operários, que formam a classe operária e muitas vezes vivem em condições insalubres e miseráveis. A máquina a vapor provoca uma grande transformação nos meios de comunicação. As estradas de ferro transportam viajantes e mercadorias. Os barcos a vapor desbancam os grandes veleiros.

A Estação de Saint-Lazare: Chegada de um trem, Claude Monet


No fim do século, acontece uma segunda Revolução Industrial. A eletricidade aparece. O motor à explosão permite a utilização do gás e do petróleo. A Torre Eiffel, em 1899, é ainda construída em ferro, mas fabrica-se mais e mais o aço. Os produtos químicos permitem que os colorantes, os têxteis artificiais, os fertilizantes para a agricultura se multipliquem. A produção de tantos produtos novos supõe que se possa comprá-los e financiar sua fabricação. É preciso reunir os capitais, organizar o crédito, fazer com que o dinheiro circule. Os bancos se desenvolvem, o papel-moeda difunde-se, criam-se sociedades por ações nas quais aqueles que trouxeram dinheiro, os acionários, têm um número de títulos que corresponde ao número de ações que eles compraram. É o mundo do capitalismo. A Europa entrou na era do dinheiro. Mais do que nunca, ela se divide entre ricos e pobres.

O carro de primeira classe, Honoré Daumier


A máquina de costura, a bicicleta, o telefone mudam a vida dos europeus. São de fato invenções europeias, mas os Estados Unidos da América participam doravante do progresso científico e econômico. O americano Thomas Edison faz inúmeras invenções, entre as quais a lâmpada incandescente que ilumina por aquecimento intensivo de um fio. Depois é o automóvel, e, então, o avião e, por fim, o cinematógrafo dos irmãos Lumière [...]. Um novo homem apareceu: o engenheiro.

LE GOFF, Jacques. Uma breve história da Europa. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 117-119.

domingo, 26 de agosto de 2012

Reflexão sobre o choque de épocas no século XX


No vagão, Joel Kass

Desde os tempos mais recuados, os homens mostraram-se capazes de criações admiráveis. Mas cometeram os crimes mais odiosos. Os mais fortes dominaram os mais fracos. Homens reduziram à escravatura e massacravam outros homens, mulheres e crianças. E para mais, há só dois séculos que se impôs pouco a pouco a ideia de que todos os seres humanos, não importa a sua origem, a cor do rosto ou as suas crenças, têm o mesmo direito à vida, à justiça e ao respeito.

No entanto, no século XX, as guerras tornaram-se mundiais, milhões de pessoas foram e continuam a ser assassinadas através de terríveis genocídios. A tentativa de Hitler de exterminar de um modo organizado e industrial todos os judeus da Europa é como que um auge do Mal na História.

Pode-se tentar compreender como forças más, vindas de todas as épocas, se reuniram na Shoah, e como estas continuam a circular entre nós.

Massacre, Joel Kass

[O que é um ser humano?] Durante milhares de anos, para o membro de uma tribo, de uma aldeia, o "homem", o ser humano, era aquele que vivia como ele próprio, a seu lado, e que tinha a mesma língua e os mesmos hábitos. Em muitas tribos a palavra "homem" designava os membros do grupo. Aos das outras tribos, ou das aldeias longínquas, não chamavam "homens", mas "malvados", "maus", ou ainda "macacos de terra", "ovos de piolhos"...! O estrangeiro era também um "fantasma", uma "aparição".

Para os gregos, os "bárbaros" (barbaroi) eram os estrangeiros. Aqueles cuja língua se não percebia. E o filósofo Aristóteles escrevia que os bárbaros tinham nascido para ser escravos.

A entrada para o forno, Joel Kass 

[A divisão dos homens] Durante a Antiguidade, os que eram ricos, os que tinham o poder, os que conheciam a escrita e eram instruídos foram, por todo o lado, apenas um pequeno número de homens (quase não houve mulheres) entre a multidão de pessoas. Na Europa, a cristandade tinha-se organizado em torno das "ordens": os homens da Igreja, os senhores e os trabalhadores.

Os "instruídos" ignoravam ou desprezavam aqueles que designavam como "vilões", ou seja, os que trabalhavam com as mãos. No entanto, era esse mesmo trabalho que alimentava os instruídos, que os vestia, e esses trabalhos manuais também exigiam saber. Mas, na cabeça dos poderosos, havia, contudo, o alto e o baixo, os homens que acreditavam ser superiores e os inferiores.

Na Índia, a sociedade também estava dividida em castas. Nas cidades do mundo muçulmano havia pobres e ricos, letrados e mendigos. Mas não havia "ordens" como na cristandade.

Em frente do forno, Joel Kass

[A rejeição dos homens "selvagens"] Na Idade Moderna, depois da "descoberta" da América e dos "índios" a que os europeus chamaram "selvagens", os espanhóis enviaram comissões de inquérito às Antilhas para se certificarem se os habitantes possuíam, ou não, uma alma. Quanto aos antilhanos, estes observavam os cadáveres dos brancos para verem se estes apodreciam como os seus. O cristianismo tinha afirmado que todos os homens descendiam de Adão, logo de Noé, após o Dilúvio. Os cristãos podiam pensar, assim, que os homens formavam uma única grande "família". Mas eles justificaram a escravatura dos negros dizendo que estes descendiam de Cham, o filho maldito de Noé.

Carregando o morto, Joel Kass

[Diferentes, logo inferiores] Durante a grande rearrumação de ideias nos princípios da Idade Moderna, pôs-se o problema de saber se os índios da América também descendiam de Adão e a que filho de Noé ligar a sua ascendência. Alguns de entre os homens das Luzes punham em questão a autoridade da Bíblia. Mas todos estavam preocupados com o problema dos negros. Muitos pensavam que os "negros" (palavra inventada no século XVI) eram inferiores aos brancos. Na sua discussão, utilizavam também uma palavra nova, raça. Eles deram-lhe então, mais ou menos o mesmo sentido que nação, tal como esta era compreendida na Antiguidade, dado que aplicavam a noção de raça a todos aqueles que descendiam de uma mesma família, de um mesmo povo. A ideia dos direitos do homem foi contrariada pelo racismo e pelo anti-semitismo, quando estes apareceram na Europa do século XIX, entre certos escritores franceses, alemães e austríacos.

O Iluminismo conduziu às afirmações dos revolucionários americanos, depois às dos revolucionários franceses sobre a igualdade entre os homens. No entanto, foi na Época das Luzes que começou a espalhar-se a ideia de desigualdade entre as raças, totalmente contrária aos direitos do homem, e os europeus afirmaram a sua pretendida superioridade sobre os outros.

Crucificado, Joel Kass

[Ciência, raça e racismo] Durante todo o século XIX, utilizou-se muito a palavra "raça" dando-lhe um sentido novo, um sentido "biológico". A ciência tinha-se desenvolvido. Alguns sábios tinham-se lançado em cálculos, mediam os crânios dos humanos para daí deduzirem a inteligência de cada um e comparavam as cores da pele. Outros estudavam as línguas. O francês Ernest Renan, que tinha muita influência, afirmava que, entre os brancos, havia dois grandes grupos de línguas, logo, de "raças": os arianos (os germanos e os celtas) e os semitas (os árabes e, sobretudo, os judeus). A "raça ariana" dizia ele, seria o futuro da humanidade, enquanto a "raça semita" - ele também falava de "raça judaica" - tinha o cérebro atrofiado.

Na Antiguidade, os cristãos tinham perseguido os judeus porque estes eram "infiéis". Na Idade Moderna, o anti-semitismo entroncou no antijudaísmo cristão. O anti-semitismo tornou-se algo de diferente porque se misturou com o racismo e com certas formas de nacionalismo.

Velhas memórias, Joel Kass

[Como o racismo e o anti-semitismo se misturaram com o nacionalismo] Depois da Revolução Francesa, os judeus tornaram-se cidadãos como os outros. Participavam nas eleições e no grande desenvolvimento da indústria. O anti-semitismo apoiava-se nos sábios que pretendiam que as raças não eram iguais. Os anti-semitas diziam que os judeus eram uma "raça" diferente das outras, má e prejudicial.

O nacionalismo era uma espécie de nova religião. Era acreditar não somente que a nação era superior a tudo, mas que esta deveria ser pura, e que estava "manchada" pela presença dos judeus e dos estrangeiros. Na França, os manuais de história, que asseguravam que todos os franceses descendiam dos gauleses, desenvolveram assim o nacionalismo através da ideia falsa de que os verdadeiros franceses, os franceses de cepa, descendiam apenas dos "gauleses".

[...]

[...] Desde o século XIX até a Segunda Guerra Mundial, muitos estrangeiros tinham imigrado para França. Alguns tinham vindo para trabalhar, outros, nomeadamente os judeus da Europa central, tinham fugido a perseguições nos seus países. Entre as duas guerras, alguns jornais franceses estavam cheios de insultos anti-semitas e xenófobos (contra os estrangeiros). Foram esses jornais e essas pessoas que, mais tarde, "colaboraram" com Hitler durante a Ocupação e aprovaram as suas acções contra os judeus.

O anti-semitismo conduzira Hitler e os nazis a essa loucura criminosa de que Auschwitz é bem o símbolo.

[...]

Desde o Paleolítico que os homens foram migrantes. As migrações continuarão e acelerar-se-ão no século XXI porque o mundo, na Idade Electrónica, é uma aldeia planetária onde toda a gente comunica, mesmo que as fronteiras existam e mesmo que continuem absurdas guerras para a defesa de algumas delas.

[...]

CITRON, Suzanne. A História dos Homens. Lisboa: Terramar, 1999. p. 321-325, 328, 331.

domingo, 17 de junho de 2012

A cidade e as multidões no século XIX

"A instabilidade do mercado de trabalho acentua a extrema exploração do trabalhador e força-o a residir no centro da cidade, próximo aos lugares onde sua busca de emprego ocasional acelera e piora as condições sanitárias das moradias. [...] É na região central da cidade que o problema se manifesta de forma mais aguda; seu excesso populacional transborda, entretanto, para os bairros próximos, até atingir o perímetro industrial ainda interno à área urbana." (BRESCIANI, Maria Stella Martins. Londres e Paris no século XIX: o espetáculo da pobreza. São Paulo: Brasiliense, 2004. p. 37.)

Ilustração de Gustave Doré

A contraposição à pujança e ao otimismo burguês era dada pelos mais impressionantes símbolos exteriores do novo mundo industrial: as cidades e multidões. A intensa migração e a explosão demográfica fizeram das grandes cidades - especialmente Londres e Paris, mas também Berlim, Viena e São Petersburgo, no continente europeu, e Chicago e Melbourne, no além-mar - espaços onde se concretizava o ritmo da transformação industrial. Esses locais tornaram-se a expressão maior da contradição que se desenvolvia, fazendo com que alguns observadores colocassem, de um lado, os "ricos-civilizados" e, de outro, os "pobres-selvagens".

No centro das cidades, milhares de pessoas se deslocavam por um emaranhado de edifícios, percorrendo longos trajetos a pé ou nos recém-criados transportes coletivos. À multidão misturavam-se a nova pequena burguesia dos escritórios e lojas de departamento, funcionários públicos, trabalhadores urbanos e inválidos, pedintes, mendigos profissionais, prostitutas, vendedores de empadas, tocadores de realejo, batedores de carteira, etc. A impressão caótica fazia com que observadores descrevessem essa situação como um espetáculo que causava, ao mesmo tempo, fascínio e terror.


No século XIX, a cidade foi sinônimo também de superpovoamento, insalubridade e proliferação de cortiços. Junto ao centro da cidade, bairros miseráveis tinham péssimas condições de moradia e uma superpopulação marcada pelo desenraizamento - perda de costumes seculares causada pela migração. Nesse amontoado de moradias precárias, com uma só peça e poucos móveis e objetos, a ausência de serviços públicos básicos, como saneamento e abastecimento de água, aumentava ainda mais os riscos decorrentes da poluição do ar e das águas, provocando, por exemplo, o aparecimento de doenças respiratórias e intestinais.

Grande parte dos operários europeus do século XIX viviam em bairros pobres, não muito distantes das fábricas. Moravam em habitações coletivas onde não havia água encanada, utilizando água dos chafarizes públicos, que carregavam em potes. Nessas moradias havia apenas uma latrina coletiva, que ficava na parte externa dos prédios.

Temendo os riscos de revolta em razão da miséria e da grande concentração de pessoas nos bairros operários, os burgueses procuravam solucionar o problema da moradia. Assim, por meio do financiamento de sociedades filantrópicas, patrocinavam a construção de vilas operárias. Essas vilas eram formadas por conjuntos de pequenas casas iguais e geminadas. Porém, muitos operários se recusavam a morar nessas vilas por considerar que elas eram uma forma de os patrões estenderem o controle e a disciplina exercidos na fábrica até o ambiente das casas de seus empregados.

Na maioria das casas operárias, um mesmo cômodo servia como local de refeições e dormitório para toda a família. Tal situação incomodava muito os operários - que procuravam separar seu quarto do das crianças tão logo conseguiam juntar algum dinheiro. (DREGUER, Ricardo; TOLEDO, Eliete. Novo História: conceitos e procedimentos. São Paulo: Atual, 2009. p. 125.)

Contudo, não era à condição das moradias que a maioria das reivindicações operárias se dirigia. Segundo a historiadora Michelle Perrot, os operários preferiam a liberdade de morar no centro e circular livremente pelo espaço público, mesmo tendo de viver em habitações precárias. Em tempos de instabilidade do mercado de trabalho, viver no centro poderia significar mais oportunidades de emprego que nas vilas operárias afastadas, ainda que estas oferecessem condições mais dignas. As principais reclamações nesses cortiços, expressas em manifestações geralmente lideradas pelas mulheres, diziam respeito aos valores dos aluguéis.

Além do trabalho doméstico na manutenção da família, do transporte da água, da alimentação e da criação dos filhos, para complementar a renda familiar, as mulheres das classes populares urbanas dedicavam-se a outros serviços. Lavagem de roupas, pequenos comércios em bancas na rua, vendas de porta em porta e trabalhos ligados à entrega, faxina, cozinha e costura tornavam-nas agentes de uma economia informal, fundamental na manutenção dos lares.

A tudo isso somava-se a administração do orçamento doméstico, que as deixava mais sensíveis ao problema do aumento do aluguel e do custo de vida em geral. Pontos de água coletivos tornavam-se locais de sociabilidade, onde se discutiam diversos assuntos, como o planejamento de manifestações públicas, expressão política decisiva dessas mulheres. Ao contrário do que o ideal burguês pregava, a princípio, o controle da circulação exterior, para elas, foi muito menos rígido.

Menos satisfeitos com a condição das moradias populares estavam os médicos sanitaristas. Escandalizados, esses reformadores sociais denunciavam as precárias condições de higiene e saneamento como prováveis focos de infecções. Algumas destas se alastraram e se tornaram epidemias, como as de febre tifóide e cólera.

Assim, em campanha aberta, defendiam uma intervenção mais drástica contra os cortiços e hábitos populares, que, ao seu ver, geravam outros grandes flagelos sociais, como a tuberculose, o alcoolismo e a sífilis. Grandes avenidas e bulevares foram projetados e executados, assim como outras medidas: o aumento do valor dos aluguéis, o deslocamento de bairros considerados infectos ou, até mesmo, a demolição deles, com o intuito de forçar os pobres a procurar habitação em outros lugares, longe do centro da cidade.

Com o crescente medo da revolução popular, das violentas manifestações de rua e dos ativistas urbanos, principalmente após a dura experiência da Comuna de Paris, as autoridades públicas passaram a ver a boa moradia como uma chave da paz social. Soluções filantrópicas, como a construção de vilas operárias mais bem projetadas, com creches, escolas, abastecimento de água e moradias amplas, foram tentadas nesse sentido.

[...] Nesse momento, houve uma diferenciação entre a classe operária, com emprego formal e alguns direitos garantidos, e uma massa sujeita a situações de pobreza extrema, com emprego casual e superexploração do trabalho.

Durante algum tempo, as multidões continuaram assustando. [...]

BRESCIANI, Maria Stella Martins. Londres e Paris no século XIX: o espetáculo da pobreza. São Paulo: Brasiliense, 2004. p. 37.
DREGUER, Ricardo; TOLEDO, Eliete. Novo História: conceitos e procedimentos. São Paulo: Atual, 2009. p. 125.
MORENO, Jean; VIEIRA, Sandro. História: cultura e sociedade. O contemporâneo: mundo das rupturas. Curitiba: Positivo, 2010. p. 40-41.

terça-feira, 1 de maio de 2012

A questão social e a organização sindical na Europa no século XIX

Cena do filme "Oliver Twist", de Roman Polanski. O filme, baseado na obra de Charles Dickens, apresenta uma visão crítica de problemas sociais da Inglaterra em plena Revolução Industrial.

Durante a primeira metade do século XIX, graças ao processo de industrialização, a população das principais cidades europeias cresceu, reforçando o contraste entre as grandes fortunas e a extrema pobreza. Paris, a chamada Cidade Luz, embora tenha mantido seu traçado urbano praticamente inalterado até 1850, experimentou nessa época um grande aumento populacional. A industrialização na França não foi tão intensa quanto na Inglaterra, porém a população parisiense passou de 600 mil habitantes, em 1789, para 1,2 milhão, em 1851.

Nos bairros industriais das metrópoles modernas aglomeravam-se trabalhadores de aspecto cansado e que viviam quase na miséria. A respeito de Londres, no ano de 1839, um reformador sanitário afirmava:

[...] apesar dos esforços sistemáticos, em larga escala, para alargar as ruas [...] aumentar e aperfeiçoar a drenagem e a rede de esgotos [...] nas regiões em que residem as classes mais ricas, nada foi feito para melhorar as condições dos distritos habitados pelos pobres. (Apud E. Thompson. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. p. 187.)

A aglomeração humana em moradias insalubres era motivo de preocupação até para os burgueses, porque as epidemias de febre tifóide e cólera proliferavam pelas cidades.

A possibilidade de que essa multidão de miseráveis se organizasse contra as forças que a oprimiam atemorizava os mais ricos. Sobre esse temor afirma Michelet, historiador francês da época:

[...] que três homens estejam na rua a falar de salários, que eles peçam ao empresário enriquecido com o trabalho deles um centavo de aumento, e o burguês se assusta, grita e usa a força. Ao contrário da antiga burguesia, extasiada com seus privilégios que desejava estender, a nova olha para a multidão que sobe atrás dela, tal como ela um dia subiu, e se assusta e recua, protegendo-se junto ao poder. Liberal em seus princípios, egoísta na prática, ela não sabe o que quer. (Apud M. S. Bresciani. Londres e Paris no século XIX. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 65.)

Nos primeiros quarenta anos do século XIX, os trabalhadores começaram a organizar-se em sindicatos, em geral proibidos pela legislação. Já na metade do século, vários direitos trabalhistas haviam sido conquistados graças à força dos movimentos sindicais que contaram com a adesão de intelectuais e de outros segmentos da sociedade.

Na Inglaterra, no período de 1790 a 1830, formou-se a consciência da identidade de interesses entre os diversos grupos de trabalhadores, ampliando-se suas formas de organização política. Por volta de 1830, havia instituições operárias sólidas, como sindicatos, sociedades de auxílio mútuo, movimentos religiosos e partidos políticos.

O movimento sindical abrigava várias tendências, desde as que se dispunham a lutar em defesa de reivindicações prioritariamente econômicas até aquelas que concebiam o movimento como uma atividade política que poderia contribuir para uma revolução social. Muitos entendiam que a luta de cada categoria de trabalhadores estava inserida num contexto social e político mais amplo. Os que assim pensavam estiveram envolvidos nas Revoluções de 1848, no movimento cartista da Inglaterra e na Comuna de Paris de 1871.

Na segunda metade do século XIX, o sindicalismo revolucionário preconizava a greve geral como instrumento de luta para a transformação da sociedade. Partindo das ideias de Proudhon, George Sorel e Arturo Labriola, estabelecia como objetivo central de sua luta as relações econômicas, privilegiando as greves e a sabotagem das máquinas nas fábricas.

Os sindicalistas revolucionários não pretendiam formar um governo do proletariado, pois rejeitavam toda forma de governo instituído. Queriam o fim do Estado e sua substituição por federações de conselhos executivos de sindicatos, que seriam os administradores das comunidades econômicas.

REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 416-417.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Aspectos culturais do século XIX: burguesia e cultura

O Romantismo, nome dado a um movimento cultural característico da Europa no século XIX, está, de certa forma, ligado às aspirações políticas e sociais da burguesia revolucionária do período. Se o classicismo e o barroco ligavam-se a uma sociedade aristocrática, o Romantismo estava ligado aos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, pregados, no plano jurídico ao menos, pela burguesia em ascensão.

O Romantismo fundava-se mais nas emoções do que na racionalidade. Os românticos procuraram combater o que julgavam excessivo no racionalismo, herdado do Renascimento e do Século das Luzes. Assim podemos dizer que o Romantismo reagiu ao racionalismo, num plano mais emotivo, com apego à natureza e ao povo. As inspirações dos artistas românticos eram procuradas junto a gente simples, numa manifestação antielitista e antiaristocrática. Pesquisavam-se a cultura popular e o folclore para produzir não só pinturas e esculturas, mas principalmente música.

Além disso, a obra romântica tinha um sentido épico. Ressaltava-se o heroísmo, o sacrifício e o sangue derramado nas batalhas ou em disputas amorosas. Todo esse ideário estava relacionado à realidade das lutas políticas e sociais da época.

A nova arte poética do período teve como um dos grandes representantes o alemão Goethe (1749-1832). Em Fausto, uma de suas principais obras, o enaltecimento das liberdades individuais era o tema presente e que se repetiu em todo o seu trabalho.

Os ingleses Coleridge (1772-1834) e Wordsworth (1770-1850) tinham na natureza a base de sua temática, chegando a uma espécie de adoração mística dos fenômenos naturais.

Na França, um dos escritores românticos mais conhecidos foi Victor Hugo (1820-1885). Criticou o governo de Napoleão III com o livro Napoleão, o Pequeno e denunciou a situação de penúria dos pobres com Os miseráveis.

A novela de folhetim marcou a maior parte da produção literária da época. Os textos eram publicados em capítulos, veiculados pelos jornais. A comédia humana, de Balzac (1799-1850), pode ser considerado um dos melhores exemplos do gênero. Outro exemplo foi Alexandre Dumas com Os três mosqueteiros. O mesmo se pode dizer do popular O vermelho e o negro, de Stendhal (1793-1842), que descreve a sociedade francesa às vésperas da revolução de 1830.

Inicialmente, o tema constante na produção das artes plásticas foi a Revolução Francesa e o Período Napoleônico. Esses temas históricos eram reinterpretados pelos artistas através da recriação do classicismo greco-romano. Basta lembrar os arcos do triunfo e as colunas que Napoleão mandou construir.

Pode-se dizer que Jacques-Louis David (1746-1828) transformou-se no artista oficial da Revolução Francesa. David imortalizou, em famoso quadro, o assassinato de Jean-Paul Marat, um dos líderes da Revolução Francesa. Ainda na França, destacaram-se Eugène Delacroix (1798-1863) e Ingres (1780-1867).

A morte de Marat, Jacques-Louis David

Na segunda metade do século XIX, a pintura europeia sofreu uma verdadeira revolução por meio do movimento chamado impressionismo. Os pintores impressionistas procuravam captar o cotidiano da vida urbana e do campo. Como o próprio nome do movimento sugere, os pintores procuravam captar as impressões dos efeitos da luz na cena desejada. Os pintores mais importantes desse movimento foram Edouard Manet, Claude Monet, Renoir, Cézanne, Degas, entre outros.

O virtuosismo do músico do período anterior foi, de certa forma, substituído por uma interpretação mais emocional. A música para os românticos não era só uma obra de arte, mas um meio para comunicar o estado da alma.

Os compositores românticos captaram o momento político interpretando-o através de suas músicas. Um dos compositores que demonstraram de forma notável essa relação foi Richard Wagner (1813-1883). Quando Wagner compôs Lohengrin, havia recebido forte influência dos socialistas utópicos e da revolução de 1848.

O nacionalismo marcou a produção musical do período. As óperas de Rossini, Bellini e Verdi são um apelo à unificação da Itália. A Rapsódia húngara, de Liszt, e as Polonaises, de Chopin, são verdadeiros panfletos de nacionalismo.

A ópera, enfim, significou a passagem da música de câmara para a música dos grandes teatros. Prenunciava-se a participação de um público maior nos espetáculos artísticos.

PEDRO, Antonio et alli. História do mundo ocidental. São Paulo: FTD, 2005. p. 311.