"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 20 de junho de 2017

A Revolta dos Intelectuais

Tortura usada contra bruxas acusadas, 1577.
Johann Jakob Wick

Exaltaríamos o Renascimento na Itália além dos limites se não observássemos que ali, como em outros lugares, a civilização era da minoria, pela minoria e para a minoria.

O homem simples e comum lavrava a terra, puxava carroças ou carregava fardos, labutava do amanhcer ao pôr-do-sol, e à noite não tinha mais forças para pensar; deixava os outros pensarem por ele, assim como os outros o faziam trabalhar. Recebia suas opiniões, religião e respostas aos enigmas da vida do próprio ambiente em que vivia ou herdava-as juntamente com a morada dos ancestrais. Aceitava não somente as fascinantes, confortadoras, inspiradoras e terríveis maravilhas da teologia tradicional, que diariamente lhe eram inculcadas no espírito pelo contágio ou pelas artes, mas acrescentava-lhes demonologia, feitiçaria, presságios, magia, adivinhação e astrologia, compondo a metafísica popular que a Igreja condenava como sendo mais perturbadora do que a heresia. Maquiavel, embora cético em religião, sugeriu a possibilidade de que "o ar esteja povoado de espíritos" e declarou-se convicto de que os grandes acontecimentos são anunciados por sortilégios, profecias, revelações e "sinais no céu".

Entre o povo era particularmente difundida a noção de que Satã e um certo número de demônios menores pairavam no ar e podiam usar poderes sobrenaturais para ajudar os seus fiéis devotos. Uma certa classe de mulheres declarava ter acesso a esses demônios, e através deles a conhecimentos e poderes sobrenaturais. Em 1484, uma bula do Papa Inocêncio VIII proibiu que se recorresse a tais feiticeiras e solicitou à Inquisição que ficasse alerta a essas práticas. O papa não especificou qualquer punição em particular, mas a Inquisição, seguindo o mandamento do Antigo Testamento - "não permitirás que uma feiticeira viva" - fez da feitiçaria um crime capital; e em 1485, só em Como quarenta e uma mulheres foram queimadas por feitiçaria. Essas execuções se multiplicaram: cento e quarenta em Brescia, em 1486; e outras trezentas em Como em 1514, no pontificado do refinado e gentil Leão X.

Queima de três bruxas em Baden, Suíca, 1585. 
Johann Jakob Wick

Nesse ambiente, a ciência marcou passo; na verdade, ficou abaixo do nível que alcançara com Alberto Magno no século XIII. Não pôde desfrutar, como a arte, do apoio unido do laicato e da Igreja. A única ciência próspera foi a medicina, pois pela saúde os homens sacrificariam qualquer coisa menos o apetite. Os médicos foram condenados pelos elevados honorários, e invejados pela sua alta posição social e pelas espalhafatosas roupas escarlates. Destruíram a hostilidade medieval para com a dissecação de cadáveres; às vezes, eclesiásticos os ajudavam. Em 1319, estudantes de medicina em Bolonha roubaram um cadáver no cemitério e levaram-no a um professor da universidade, que o dissecou para instruí-los; foram processados, porém declarados inocentes; e daí em diante as autoridades civis fizeram vista grossa ao uso "em anatomia" de criminosos executados e não reivindicados. Logo a dissecação era praticada em todas as escolas médicas da Itália, inclusive nas escolas papais de Roma. Ainda assim, por volta de 1500, a anatomia só alcançara o conhecimento que Hipócrates e Galeno possuíam na Antiguidade grega e romana.

A cirurgia ficou famosa rapidamente quando o seu repertório de operações e instrumentos aproximou-se da variedade e da competência das antigas práticas egípcias. Por volta de 1500, muitos médicos europeus assimilaram o ideal hipocrático de aliar filosofia à medicina; com facilidade passavam de um assunto a outro, no estudo e no ensino; e alguns, por serem também cavalheiros, constituíram a nata da época.

DURANT, Will. O livro de ouro dos heróis da história. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. p. 307-9.

sábado, 9 de maio de 2015

Reascensão da barbárie: violências e feitiçaria na Idade Moderna

A fraqueza do controle de si dá aos impulsos e à vontade de ultrapasse formas bem distanciadas dos ideais generosos do humanismo. A violência ocorre em toda parte, incontestavelmente mais surpreendente em populações que, de resto, teriam tendência em refinar-se. Nas relações sociais a força desempenha um papel importante mas tende a recuar no decurso do século XVII.

O duelo após o baile de máscaras, Thomas Couture

Os Grandes fazem-se acompanhar de um séquito armado, tão eficiente quanto ostentatório. Os castelos estão armados. Na Inglaterra, a bela época dos arsenais particulares vai de 1550 a 1620 (L.Stone). O século XVII assiste ao recuo das tropas senhoriais. Na França, a ordenança de Henrique III, que reserva ao rei o direito exclusivo de recrutar homens de armas (1583) é mal aplicada. Richelieu tem de destruir os castelos fortificados distanciados das fronteiras, mas os palácios nobiliários possuem salas de armas. De resto, é admitido garantir-se a segurança pessoal pelas armas na própria casa ou em viagem. Produz-se, todavia, uma mudança de que é testemunha a voga dos duelos, que representam um progresso na medida em que substituem a emboscada. As ordenações contra os duelos conseguem apenas reduzir-lhes a frequência. O duelo, forma nobiliária do combate singular, tem equivalentes em todos os escalões da sociedade.

A violência dos costumes manifesta-se também pelo número de raptos e retiradas pela força, que cresce quando afrouxam os laços familiais. O casamento contrário à vontade dos pais continua a ser feito. O concílio de Trento e o Estado outorgam ao padre, nos países católicos, um papel mais importante na celebração do matrimônio. A instituição dos registros paroquiais faz dele, igualmente, um verdadeiro oficial de estado civil.

Um último testemunho do retrocesso relativo da violência em meados do século XVII é o número crescente de processos nos Estados do Ocidente. Na Inglaterra, num século, multiplicaram-se de seis a dez (L. Stone).

Feitiçaria, Dosso Dossi

A feitiçaria e os processos dela decorrentes representam um mal endêmico cujo apogeu se situa entre o fim do século XVI e a metade do XVII. Embora certas regiões sejam mais atingidas do que outras (Lorena, Franco-Condado-Labourd), a feitiçaria constitui um fenômeno geral que atinge, simultaneamente, países católicos e países protestantes, regiões devastadas pela guerra e regiões poupadas.

É característico o fato de que os juízes e todos os espíritos superiores acreditem nas constantes intervenções do diabo. Jean Bodin, humanista, precursor das ciências políticas, escreve De la Démonomanie des sorciers (1580) e, em seu cargo de juiz, se revela um temível caçador de feiticeiras. As enormes lacunas do conhecimento científico deixam um lugar considerável ao sobrenatural. No domínio do inexplicável, tudo o que conduz ao bem é atribuído a Deus e tudo o que conduz ao mal, a Satã. Os que atuam por vias incompreensíveis: curandeiros, algebristas e, do mesmo modo, todos aqueles em que não se confia, passam por pessoas que obtêm do diabo o poder de praticar sacrilégios. O murmúrio público acusa a torto e a direito. Desde que a justiça civil dele se apodere, a sorte do acusado está quase fixada. Armado de um tratado de demonologia, o juiz faz perguntas que sugerem as respostas ao infeliz esgotado pelo cativeiro, pelos gravosos testemunhos e pela tortura. A Igreja, naturalmente, só deseja salvar o incriminado e curá-lo pelos exorcismos. Mas se ele confessa delitos, ela nada mais pode fazer em seu favor. Por fim, o acusado, alucinado, não deixa de denunciar numerosos cúmplices. Dessa maneira, centenas de infelizes são queimados na região de Labourd, em 1609, e vários milhares nas margens ocidentais do Império.

Um outro aspecto do mal é a possessão, o contrário do misticismo. A obsessão e a histeria são postas na conta do demônio e vêm de um filtro ou de um sortilégio.

O "possesso" faz-se exorcizar em público e acusa. Só alcança o repouso pela morte de seu "algoz". As vítimas dos processos de feitiçaria o mais frequentemente são mulheres, pastores, algumas vezes padres; as dos processos de possessão são amiúde padres. Entretanto, a publicidade dada a tais processos acabam por despertar a desconfiança de alguns médicos. O processo de Loudon no qual ursulinas, inclusive a superiora, se pretendem vítimas do Padre Urbain Grandier, que os juízes condenam à fogueira, suscita controvérsias. Começa-se a falar de doença do espírito. A partir de 1640, o Parlamento de Paris renuncia à perseguição da feitiçaria. Deve-se esperar por 1660 para que, na França, ocorra um refluxo e pela ordenança de 1682 para que a feitiçaria não seja mais considerada como um delito em si mesma. Mas continua a haver juízes retardados. Nos demais países, o recuo dos processos de feitiçaria é mais lento ainda.

O tímido refluxo da violência e dos processos de feitiçaria em meados do século XVII não deve fazer esquecer que todo o período de 1580-1680 se coloca sob o signo desses dois males. Wallenstein exprime bem a inquietação da época: alternadamente, ambicioso, violento, ligando finanças e política, herói de cruzada católica, personagem faustoso circundado de artistas e, ao mesmo tempo, presa derrisória dos adivinhos que, finalmente, lhes paralisam a ação.

CORVISIER, André. História moderna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 133-5.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O homem do século XVI: o conhecimento

A quermesse de São Jorge com a dança ao redor do poste, Pieter Brueghel, o Jovem

A um nível diferente do psiquismo, o homem do século XVI não possui exatamente as mesmas faculdades naturais de conhecer o mundo exterior, nem mesmo a aparelhagem mental do homem do século XX. Entretanto, sua necessidade de certeza é, talvez, ainda maior do que a nossa. Porém, por um exemplo, o da França, esclarecido por trabalhos recentes, quantos outros permanecem de nós desconhecidos.

- Os sentidos. Eles são, provavelmente, mais aguçados do que os nossos num universo em que o homem se situa, mais amiúde, num estado de alerta. A hierarquia não é a mesma de hoje (L. Febvre).

A vista, que é o nosso sentido primordial, não vem, então, senão após o ouvido e o tato. Antes da propagação do livro impresso, a leitura constitui um meio de informação menos utilizado do que a audição. Os conselheiros dos soberanos são chamados auditores e as relações quase sempre são orais. A Palavra de Deus é comunicada muito mais pelo sermão ou pela prédica do que pela leitura. Entendimento significa compreensão. O tato é o órgão da certeza. Fornece ao homem a confirmação do que ele vê. As práticas religiosas ratificaram tal confiança (imposição das mãos, toque das relíquias). Todavia, no século XVI, desenvolve-se a função da vista, época em que o uso dos vidros brancos e dos óculos dão um prolongamento à atividade do homem.

- A influência do meio natural sobre o pensamento. Devido à falta de confiança na vista, o órgão do conhecimento científico, o homem permanece orientado para o qualitativo. Nem o espaço, nem o tempo são medidos com exatidão.

As medidas do espaço são tomadas de empréstimo ao corpo humano: polegada, pé, passo, cúbito, ou ao deslocamento do homem: dia de marcha. A jornada de carruagem é a unidade de superfície mais difundida. Todas estas medidas têm um valor variável. Não existe nenhuma possibilidade de avaliar as grandes distâncias.

Depara-se a mesma imprecisão para a expressão do tempo. A duração é o tempo vivido. Não se conta em horas, mas em preces: o tempo de uma ave, de dois padres-nossos. O tempo-instante é fixado pelos incidentes metereológicos contemporâneos. A data é expressa segundo um acontecimento e com relação às festas.

A divisão do tempo é baseada na alternância do dia e da noite. A relojoaria já produziu obras estimáveis a serviços das municipalidades, mas frágeis e pouco numerosas. O começo da jornada não estava fixado com uniformidade. Situa-se, na Itália, no começo da noite. Ocorre o mesmo com o início do ano. É somente no decorrer do século XVI que se introduz a ordem na questão da data.

Na realidade, só o ritmo das estações e a alternância do dia e da noite é que contam. Os meses são expressos pelos trabalhos do campo ou, entre as pessoas de saber, pelos símbolos do zodíaco. A divisão do dia em horas equivalentes durante todos as estações mal começa a impor-se. É verdade que, vivendo embora uma vida mais curta do que a nossa, o homem do século XVI é menos apressado que o do século XX. Dia de entrevista e tempo transcorrido num trabalho são noções muito elásticas.

Em contrapartida, o homem é muito mais sensível às concomitâncias percebidas na natureza. O animismo é alimentado por uma imaginação muito concreta: demônios, íncubos, súcubos, lêmures para as pessoas de saber, duendes, diabretes para todos, são companheiros da vida cotidiana.

- A fraqueza da expressão abstrata. As línguas vivas não permitem expressar perfeitamente os conceitos. Faltam ao francês da época muitos termos abstratos. O progresso da tipografia não permitiu ainda a codificação de Villers-Cotterêts que torna o seu emprego obrigatório nos atos jurídicos (1539). Mas ele não convém de todo à ciência. É, pois, verossímil que as outras línguas europeias não estejam melhor aparelhadas.

O latim, que apresentava a vantagem de ser compreendido pelo mundo erudito da Europa, podia enriquecer-se de neologismos, mas tendo sido "feito para exprimir as tentativas de uma civilização morta há uma dúzia de séculos... seria ele capaz de acolher ideias ainda por vir?" (L. Febvre).

A expressão do quantitativo está ainda mal dividida. O cálculo, contudo, dotou-se de usos simples, mas apenas para a contabilidade comercial. O cálculo científico está embaraçado por dificuldades de expressão. Os algarismos gobar (ditos árabes), hindus de origem, não penetraram a vida corrente onde imperam sempre os algarismos romanos cuja utilização nas contas feitas no papel é de tal modo complicado, que se empregam preferentemente o tabuleiro de xadrez, o ábaco e as fichas.

- Necessidade de certeza. Será talvez por causa de todas estas debilidades que se torna imperioso a necessidade de certeza? Prisioneiro do meio natural, o homem o conhece mal. Ele desdenha a observação metódica e não vê nela senão curiosidade, mas não faz disso um dever. O homem prefere raciocinar, sem se preocupar com o valor das bases desse raciocínio.

Consciente da fragilidade de sua ação sobre a natureza, ele considera como uma experiência miraculosa tudo quanto sabe fazer, sem ousar arriscá-lo por mudanças demasiado rápidas de método. Ele situa a idade de ouro nas origens da humanidade e apóia-se na tradição, não por preguiça de espírito ou por rotina, mas por razão. Por isso os trabalhos científicos estão atulhados de citações. Entrincheira-se atrás de autoridades e discute-se, sobretudo, os desacordos. É por aí, unicamente, que o pensamento avança.

Enfim, a necessidade de certeza sacia-se nas crenças animistas que se misturam às mais evoluídas religiões. Assim se explicam, sem se admitir a dúvida, as relações entre os seres, os seres e as coisas e entre as próprias coisas. Agir sobre a natureza é descobrir o caráter dos espíritos e forçá-los a agirem. Por isso a magia é apenas uma falsa ciência.

A magia é inocente. Não ocorre o mesmo com a feitiçaria. A feitiçaria, praticada entre os cristãos, é muito mais temível. Faz-se acompanhar de perversão ou mesmo de inversão de todos os preceitos das leis divinas e naturais. Sabemos hoje que ela revela do domínio da patologia. A feitiçaria só teria para o historiador um interesse limitado se as autoridades humanas não tivessem crido nas narrativas dos feiticeiros e na realidade do sabá. A feitiçaria constitui, portanto, um elemento negativo do conhecimento que não se deveria subestimar.

Fraco domínio sobre a natureza, força da tradição, magia e feitiçaria eram, igualmente, obstáculos aos progressos da humanidade. É na Europa Ocidental que o espírito de empreendimento suscita os maiores esforços no sentido de lhes escapar.

CORVISIER, André. História moderna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 21-23.

NOTA: O texto "O homem do século XVI: o conhecimento" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Cultura popular e vida cotidiana na Europa moderna

O Renascimento, que marcou a cultura europeia da época moderna, impregnou-a de valores eruditos e elitistas.

Até por volta da segunda metade do século XX, a historiografia tradicional nem sequer levantava questões sobre a vida das pessoas comuns. Atualmente, porém, as questões envolvendo a vida, as ações, os sentimentos e as concepções de homens e mulheres comuns constituem um dos principais campos de estudos históricos, gerando novos temas, como a história dos oprimidos, excluídos, marginais e vencidos. Isso indica um tipo de avaliação qualitativa sobre o sentido histórico da expressão povo em oposição à história dos grandes homens, isto é, os vencedores, dominantes, opressores e heróis.

Essa nova abordagem requer, também, a utilização de novos tipos de documentos e/ou uma nova leitura dos documentos tradicionais. Nesse sentido, há dois tipos de fontes fundamentais: as obras de arte - literatura e artes visuais -, que em geral registram a vida das pessoas comuns, incluídas no conjunto da sociedade; e os documentos jurídicos e inquisitoriais, entre os quais se encontram processos contra os transgressores das normas vigentes, isto é, os oprimidos e marginalizados.


A leiteira, gravura de 1510 do artista holandês Lucas de Leyde.

* Homens e mulheres comuns. Os grandes (como os reis) eram poucos e quase todos aparentados. Podem, assim, ser conhecidos em suas individualidades. Já o povo, formado pelos mais diversos grupos e categorias sociais - que em muitos casos nem a mesma língua falavam, é mais facilmente conhecido por meio de tipos, componentes de uma multidão (camponeses, soldados, artesãos).

Dois setores fornecem alguns tipos mais significativos da cultura popular e do modo de vida de homens e mulheres comuns, na época moderna: o trabalho e a feitiçaria.

* Trabalho e cultura popular. O trabalho era o principal elemento de identificação da parte da população conhecida como povo. Na Europa moderna, 80 a 90% dessa categoria ainda era constituído por camponeses. Entretanto, a importância dos trabalhadores urbanos foi crescendo gradualmente.

Na época moderna, o campo e a cidade partilhavam de uma identidade popular comum, conferida por sua posição frente aos poderosos. Para estes, o trabalhador, do campo ou da cidade, seria o povo e, como tal, alguém a ser sobretudo controlado.

Embora partilhassem de uma identidade comum, camponeses e cidadãos (habitantes da cidade) hostilizavam-se. Ou melhor, os cidadãos desprezavam e discriminavam os camponeses.

- A vida nos campos. Entre os camponeses havia uma diversidade muito grande, conforme as regiões que habitavam e as atividades que desenvolviam. Os homens do campo eram agricultores, artesãos, pastores, mineiros. Entre eles havia muitas diferenças culturais e antagonismos.

Os agricultores estavam ainda muito marcados pelas estruturas feudais, algumas das quais persistiram durante toda a época moderna. Entre os pastores, porém, eram raros os servos da gleba; já os artesãos levavam vida itinerante, praticando seu ofício em diferentes aldeias.

Cada grupo desenvolvia culturas distintas e próprias. As canções, poesias, danças e outras manifestações populares revelam uma extraordinária diversidade de condições de vida e visões de mundo.

De modo geral, a cultura popular camponesa apresentava profundos vínculos com as tradições pagãs, notadamente nos aspectos religiosos. Muitos mitos e práticas rituais cristãs eram adaptações ou mesmo transposições de cultos e lendas referentes às antigas divindades e seres sobrenaturais. Por isso, no imaginário popular moderno, o espaço do campo era habitado por seres fantásticos (duendes, anões, gnomos, fadas, bruxas, magos e prestidigitadores de toda sorte) que interagiam e interferiam na vida dos seres humanos. Acreditava-se que percorriam os campos e as aldeias, às vezes auxiliando, mas quase sempre causando medo e prejuízos aos habitantes.

Esses seres eram considerados poderosos, podendo ser conjurados por meio de mágicas e sortilégios, tanto para fazer o bem quanto para provocar malefícios.

- O cotidiano nas cidades. Embora ainda vigorassem instituições e normas feudais na regulamentação dos ofícios e da prática do comércio, as atividades nas cidades eram cada vez mais desenvolvidas de acordo com as novas exigências capitalistas. O trabalho assalariado tornou-se predominante, e a produção manufatureira submeteu-se às necessidades do comércio, ficando mais sob o controle de quem vendia as mercadorias do que de quem as produzia.

A cultura popular nas cidades apresentava-se, mais do que no campo, extremamente diversificada. Apesar das modificações das formas de trabalho, os artesãos urbanos continuavam organizados em corporações ou guildas que, além de defender os interesses da categoria, eram responsáveis por manifestações culturais específicas.

As festas, a arte, a religião ensejavam os mais diferentes tipos de manifestações culturais da população urbana, cujos registros - alguns recolhidos bem posteriormente - compõem uma espécie de patrimônio constituído de poemas, canções, pinturas e peças de teatro que representam a modernidade tanto quanto as belas-artes clássicas do Renascimento.

* Feitiçaria e Inquisição. O crescimento da massa trabalhadora, do qual dependia o desenvolvimento econômico das nações modernas, e as mudanças em sua condição de vida eram ensejos para muitas situações de conturbação da ordem e conflitos, sobretudo quando havia carestia ou escassez dos gêneros de subsistência. Ou, no contexto das reformas religiosas, quando havia contestação às igrejas oficiais.

Nessas ocasiões, os trabalhadores eram tratados como transgressores, tanto da ordem social como da ortodoxia religiosa.

Dentre os diversos tipos de transgressores, os praticantes da feitiçaria - ou mais especificamente as feiticeiras - eram apontados como os principais perturbadores da ordem terrena e divina.

O desenvolvimento da modernidade tinha por fundamentos o humanismo e o uso da razão, do discernimento crítico. No entanto, isso não foi capaz de conter, e talvez tenha até estimulado, um dos mais violentos e irracionais processos de perseguição a pessoas cujo crime era ser diferente, estranho, isto é, pessoas consideradas o outro.

A instituição que chamou a si o encargo e o presumido direito de exercer o controle sobre o pensamento e a ação das pessoas, vigiando, coibindo e punindo os desvios e as contestações, foi a Inquisição.

As pessoas identificadas como hereges eram consideradas "perigosas e ameaçadoras" para as instituições e a sociedade organizada. Dois grupos foram os principais enquadrados nessas categorias: os cristãos-novos (judeus) e os praticantes de feitiçaria. Entre estes últimos, embora houvesse homens, a grande maioria era de mulheres. Herdeiras da misoginia medieval, também eram muito discriminadas na época moderna.

A perseguição inquisitorial aos judeus convertidos ao catolicismo foi típica, quase exclusiva, dos países da península Ibérica, estendendo-se às suas colônias na América. As feiticeiras foram caçadas em toda a Europa. O período compreendido entre o século XV e meados do século XVI foi marcado pela caça às bruxas.

Além da violência da execução, os processos inquisitoriais admitiam o uso da tortura como meio de obter a confissão das acusadas. Mesmo que escapasse da morte, a mulher não estava livre dos tormentos.

O tribunal religioso recebia as denúncias, interrogava e concluía pela culpa ou não dos acusados. Os considerados inocentes (raros) eram liberados, depois de pagas as custas do processo. Os condenados a cumprir penitência eram mantidos em prisão perpétua pela Igreja.

Os culpados de falta grave, os que não confessavam sua culpa e os reincidentes eram entregues ao poder laico, que, depois de um novo julgamento meramente formal, estabelecia e executava a sentença de morte. A condenação e a execução deviam ser assumidas pelo Estado, pois a Igreja, generosa e caridosa por definição, não podia sujar as mãos com o sangue dos cristãos.

* Expansão do mundo moderno e o outro. A modernidade europeia foi múltipla e diversificada. Foi uma época marcada pelas criações fulgurantes da arte renascentista e pela intolerância em relação ao outro - diferente e, por isso, inimigo -, reafirmada pela renovação religiosa. Nesse período a Europa expandiu suas fronteiras continentais pelo mundo, sem reconhecer limites, como afirmam os versos de Camões, em Os Lusíadas:

Por mares nunca dantes navegados
Nossos mundos ao mundo ião mostrando
E mais mundo houvera lá chegara.

Mas nos novos mundos havia outros povos, diferentes dos europeus. Para cada novo e estranho povo, tratado como o outro, o inimigo, não faltaram fogueiras... e outras penitências!

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 265-269.