"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 22 de março de 2016

A Confederação do Equador

Estudo para Frei Caneca, Antônio Parreiras

"As constituições, as leis e todas as instituições humanas são feitas para os povos e não os povos para elas".
(Trecho do manifesto dos revolucionários da Confederação do Equador)

O autoritarismo de d. Pedro produziu fortes reações entre os grupos descontentes identificados com os liberais. Foi na província de Pernambuco que se manifestou mais radicalmente a oposição à centralização do governo imperial. Os liberais pernambucanos eram favoráveis a uma República federativa, e para eles a Constituição de 1824 representou um retrocesso político. Nos jornais tiveram destaque como expressão desse descontentamento artigos de Cipriano Barata e frei Caneca, dois grandes ideólogos liberais. Cipriano era conhecido por sua intensa atividade política desde a época da Conjuração Baiana, no final do século XVIII. Seu jornal tinha um nome curioso: Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco. Frei Joaquim do Amor Divino Caneca era carmelita, de sólida formação intelectual, e dirigia outro jornal, o Tifis Pernambucano.

"A situação do Nordeste era particularmente crítica. A economia açucareira estava em franca decadência, pois não conseguia concorrer com a produção europeia de açúcar de beterraba. A crise econômica acentuou as tensões políticas". (PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza; CARVALHO, Yone de. História do mundo ocidental. São Paulo: FTD, 2005. p. 291)

Para tentar conter esse clima de rebeldia, D. Pedro nomeou Francisco Pais Barreto o novo presidente da província de Pernambuco, substituindo Manuel Paes de Andrade que fora eleito pelo povo e defendia maior autonomia regional. A nomeação de Pais Barreto não foi aceita pelas comarcas de Olinda e Recife, mas o imperador manteve sua decisão. Criou-se o pretexto para um rompimento com o governo central. Com o apoio das forças militares, Paes de Andrade, que já havia participado do movimento pernambucano de 1817, proclamou, em 2 de julho de 1824, a Confederação do Equador.

Os rebeldes pernambucanos procuraram apoio de outras províncias e conseguiram a adesão quase imediata da Paraíba, do Rio Grande do Norte e do Ceará. Juntas formaram a Confederação do Equador, tendo como modelo a Constituição da Colômbia. A intenção era criar um governo republicano e federativo, em que o poder Legislativo fosse soberano. Alguns propunham o fim da escravidão, o que afastou do movimento muitos proprietários rurais que não queriam abrir mão dos seus escravos. Foram principalmente as brigadas populares que contribuíram para radicalizar a luta contra o governo, ameaçando os grandes proprietários.

Execução de frei Caneca, Murillo La Greca

"O crescente aumento de indivíduos negros e mulatos no movimento atemorizou a aristocracia liberal. Isso provocou divisão no meio do movimento, o que facilitou a ação repressiva e a consequente derrota dos revolucionários. [...]

A repressão imperial foi implacável. Muitos líderes foram executados, inclusive frei Caneca. O imperador, por razões políticas, e os ingleses, por interesses econômicos, não admitiam a fragmentação política do Brasil." (PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza; CARVALHO, Yone de. História do mundo ocidental. São Paulo: FTD, 2005. p. 291)

Referências:

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza; CARVALHO, Yone de. História do mundo ocidental. São Paulo: FTD, 2005. p. 291
REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 371-2.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Revolução de 1817 em Pernambuco

Bênção das bandeiras da Revolução de 1817, Antônio Parreiras

Os acontecimentos de 1817 em Pernambuco podem ser considerados como uma síntese exemplar do que ocorria em todo o Brasil na época. A permanência da Corte portuguesa no Brasil aprofundou o conflito de interesses entre colônia e metrópole. D. João manteve uma atitude ambígua, procurando equilibrar-se entre esses dois pólos, sempre sem ferir os acordos feitos com a Inglaterra.

O Nordeste era uma região fundamental para a economia agroexportadora, muito sensível às flutuações dos preços do açúcar e do algodão nos mercados europeus, então em baixa. A população era duramente onerada pelos impostos criados por D. João para manter funcionando a burocracia e o exército.

A situação se agravou no ano de 1816. A seca desse ano foi particularmente acentuada, prejudicando a colheita dos produtos exportáveis e principalmente a alimentação da população local.

O comércio local continuava sendo monopolizado pelos portugueses, de quem dependiam os grandes proprietários para a exportação de seus produtos, para o provimento de mão-de-obra escrava e para a importação de manufaturados. O endividamento progressivo da aristocracia da terra despertava-lhe a consciência de que não bastava lutar contra este ou aquele grupo de negociantes lusitanos: o problema fundamental era atingir o centro do poder e ampliar os benefícios do liberalismo, inaugurado em 1808.

Para a população livre não-proprietária, o quadro era desolador: o monopólio do comércio significava carestia crônica, agravada pela seca dos anos de 1816 e 1817 e pelo aumento dos impostos.

Assim sendo, essas duas camadas integraram o bloco de forças que em 1817 tomou o poder em Recife. Entre proprietários de terra e homens livres pobres, devemos acrescentar uma grande participação do clero, que além de identificar-se com os primeiros (a Igreja era proprietária de grandes extensões de terra), também foi responsável pela divulgação das "novas ideias" (pensamento iluminista), principalmente no Seminário de Olinda ou através do Areópago de Itambé, sociedade secreta que não admitia europeus como seus membros.

A animosidade entre portugueses e colonos não era novidade na região. Os historiadores são unânimes em destacar o aumento do sentimento antilusitano e a multiplicação de sociedades secretas e lojas maçônicas, centros de divulgação do pensamento iluminista e anticolonial. A independência das Treze Colônias inglesas da América do Norte repercutiu fortemente entre os pernambucanos. Discutiam-se nas ruas as constituições da França revolucionária.

As reuniões da liderança revolucionária não passaram despercebidas ao governador Caetano Pinto Miranda Montenegro, que ordenou a prisão dos revoltosos em 6 de março de 1817.

Os líderes civis do movimento não ofereceram resistência às autoridades militares portuguesas. No entanto, quando essas autoridades tentaram prender os líderes militares brasileiros do movimento, encontraram tenaz resistência. Essa resistência incentivou o levante revolucionário.

Na Fortaleza das Cinco Pontas, o capitão José de Barros Lima, conhecido como Leão Coroado, resistiu à voz de prisão proferida pelo brigadeiro português Barbosa de Castro, que morreu durante o conflito. Os revolucionários saíram às ruas, sob a liderança do mulato Pedro Pedroso, e garantiram a vitória de seu movimento. O governador Montenegro fugiu para o Rio de Janeiro.

Inicialmente se organizou um governo provisório, considerado o primeiro governo genuinamente brasileiro. [...] O novo governo era assessorado por um secretário [...] e por um Conselho de Estado, que reunia a elite local.

O objetivo do governo provisório era implantar a República. Seus poderes eram delimitados por uma Lei Orgânica, que deveria vigorar até que uma assembleia elaborasse a Constituição. A Lei Orgânica, de inspiração liberal-iluminista, determinava a liberdade de consciência, a liberdade de imprensa e a liberdade religiosa, embora se adotasse o catolicismo como religião oficial.

Tomaram-se medidas para a difusão do movimento: a revolução triunfou na Paraíba e no Rio Grande do Norte. Os emissários enviados ao Ceará e à Bahia não tiveram a mesma sorte. Procurou-se também apoio no estrangeiro, através de representantes que embarcaram para os Estados Unidos, Argentina e Inglaterra. Enquanto isso, o governo de D. João organizava a repressão na Bahia e no Rio de Janeiro. Nesse momento, revelou-se a fraqueza maior dos revolucionários de 1817: suas divisões internas, principalmente no que dizia respeito aos escravos. Os líderes mais radicais pregavam a mobilização e a participação dos escravos na luta contra os portugueses, apontando para uma perspectiva abolicionista, mas os proprietários de terra, muito influentes no movimento, não admitiam nenhuma atitude nessa direção, demonstrando que seu liberalismo terminava exatamente onde começava o questionamento do trabalho escravo.

A eficiente repressão portuguesa obrigou os revolucionários a se renderem. Recife foi retomada no dia 19 de maio de 1817. As punições foram rigorosas: pena de morte para os principais líderes e prisão para 117 pessoas. Muitos, como frei Caneca, voltariam à cena política logo após 1822, lutando pelo ideário liberal-iluminista.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza; CARVALHO, Yone de. História do mundo ocidental. São Paulo: FTD, 2005. p. 275-6.

sábado, 16 de agosto de 2014

Salvador na época do levante dos Malês

Uma rua da Bahia. Litografia de François-Auguste Biard, 1862.

Nas primeiras décadas do século XIX, os negros eram os senhores das ruas de Salvador, capital da província da Bahia. Veja um quadro com estimativa da população de Salvador em 1835, ano da grande Revolta dos Malês.

Estimativa da população de Salvador em 1835

Origem
Números Absolutos
%
Africanos
- Escravos
- Libertos
Brasileiros/europeus
- Livres brancos
- Livres e libertos (negros/mestiços)
- Escravos

17.325
  4.615

18.500
14.885

10.175

  26,5
    7,1

  28,2
  22,7

  15,5
Total
65.500
100,0

Fonte: REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil. A história do levante dos Malês (1835). São Paulo: Brasiliense, 1986. p.16.

Escravos e libertos trabalhavam como artesãos, alfaiates, vendedoras ambulantes, lavadeiras, barbeiros, músicos, pedreiros, carpinteiros, carregadores de água, de mercadorias e de cadeiras de arruar, que transportavam pessoas. A grande maioria, porém, era composta de escravos de ganho, isto é, escravos que eram obrigados a entregar ao seu senhor, por dia ou por semana, uma quantia previamente determinada, que obtinham com seu trabalho. Na maioria das vezes os senhores respeitavam o acerto e o escravo podia ficar com o excedente. Eles costumavam se agrupar por etnia em locais específicos da cidade chamados cantos.

Nesse sistema, o escravo tinha certa autonomia, pois podia decidir onde, como e com quem trabalhar; ainda que tivesse o que prestar contas ao senhor. Com isso, alguns só apareciam nas casas dos seus proprietários no momento de prestar contas. Em contrapartida, esse escravo tornava-se responsável pelo próprio sustento, pagando por sua comida e vestuário.

Os escravos ocupavam o porão do sobrado dos senhores, onde dormiam amontoados. Eram locais escuros e com pouca ventilação, sem nenhum tipo de separação, ou seja, não havia privacidade. Não havia móveis e todos dormiam em esteiras estendidas no chão. Geralmente possuíam um caixote para guardar seus pertences - roupas, instrumentos de trabalho, amuletos, dinheiro. Alguns escravos conseguiam alugar espaços que ocupavam apenas durante o dia, retornando à noite para a casa do senhor.

Os que recebiam autorização do senhor para morar fora alugavam espaços nos quartos de libertos conhecidos. Os que conseguiam melhores ganhos alugavam quartos individuais, em busca de privacidade e da possibilidade de formar uma família. Há poucos registros da existência de filhos, mas os pesquisadores apontam que os escravos estabeleciam laços de solidariedade e parentesco constituindo formas diferentes de família.

As ruas da cidade não eram apenas seu espaço de trabalho. Após o cumprimento das tarefas cotidianas, eles se reuniam para cantos, danças, jogos de capoeira e batuques. Outras vezes, divertiam-se frequentando botequins, tabernas e casas de calundus. Possivelmente, nesses locais, tanto quanto nos cantos, foram iniciadas as discussões e a gestação da maior revolta de escravos do século XIX, a revolta dos Malês.

DREGUER, Ricardo; TOLEDO, Eliete. Novo História: conceitos e procedimentos. São Paulo: Atual, 2009. p. 183.

NOTA: O texto "Salvador na época do levante dos Malês" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Mundos imaginados: utopias e distopias

Procurando na história mundial os mundos imaginados, encontraremos as previsões de sociedades ideais tão antigas quanto as primeiras expressões do pensamento humano em tradições escritas e orais e nas artes. Os desenhos mitológicos das origens dos mundos natural e humano eram explicações, provenientes da experiência do mundo e da imaginação. Incorporadas nesses mitos estavam ideias de família e vida comunitária: como as pessoas deveriam viver juntas, compartilhar recursos e escolher líderes entre si. A religião inspirou a imaginação de mundos além do reino da experiência humana, e esses mundos incorporaram a completa realização do que significava ser humano, bem como as mais terríveis provações que um ser humano podia sofrer. Seja no budismo, no cristianismo ou no islamismo, a percepção de um paraíso e de um inferno encorajou as pessoas a acreditar e praticar suas crenças como indivíduos e como membros de uma comunidade.


A idade de ouro, Lucas Cranach

Visões religiosas também inspiraram movimentos milenares que projetaram esperança em uma nova era – a chegada do milênio que conduziria a um novo mundo – e exortava os seguidores a agir para chamar a nova era. Os movimentos milenares são encontrados ao redor do mundo em muitos contextos religiosos diferentes, incluindo budistas e cristãos, assim como em numerosas tradições sincréticas. Eles surgem das diferentes condições históricas e frequentemente tornam-se violentos, como resposta à opressão social, política e econômica. Houve movimentos milenares cristãos na Europa medieval e alguns movimentos budistas na China medieval. A grande Rebelião de Taiping, na metade do século XIX, na China – resultou na morte de, talvez, 20 milhões de pessoas – aglutinou-se sob a liderança de Hong Xiuquan (1811-1854), que teve uma visão de que ele seria o irmão mais novo de Jesus Cristo, enviado por seu pai para trazer o povo chinês de volta à sua crença original em Deus e para criar um “Reino Divino da Grande Paz (Taiping)”. Índios Arawakan, do noroeste da Amazônia, seguiram um xamã indígena e líder milenar, Venancio Kamiko, durante os anos de 1850, para resistir contra o controle colonial sobre seu mundo. No Congo, um movimento milenar originou-se com as reivindicações de uma jovem garota congolesa de que ela seria Santo Antônio, na primeira década do século XVIII. Beatriz Kimpa Vita anunciou que ela veio para ensinar a verdadeira religião: os padres eram impostores, Deus e seus anjos eram negros, e o reino dos céus era próximo da pátria congolesa, onde Cristo realmente havia vivido e morrido. Sugerir uma alternativa tão radical em meio ao confronto de culturas era algo perigoso, e o fundador do movimento foi executado. Contudo, o movimento sobreviveu e tornou-se a primeira Igreja sionista africana; o nome “Sião” refere-se à cidade bíblica que era um símbolo de esperança.

Juntos, visionários religiosos, filósofos, artistas, historiadores e escritores de todo o mundo produziram visões seculares de sociedades perfeitas. Em sua obra República, o filósofo grego Platão (427-347 a.C.) descreveu o Estado ideal como uma nação governada por um rei-filósofo. O mundo material dos fenômenos, acreditava Platão, é um mundo de sombras vagamente refletidas a partir do mundo real das ideias. É esse mundo das ideias que os reis-filósofos compreendiam e no qual estavam qualificados para governar. Além do mundo das coisas e das experiências, compreendido pelos sentidos, há outro, um mundo fundamental das formas e tipos eternos. Para tudo que experimentamos por meio dos sentidos há uma essência dessa realidade imutável, independente dos “acidentes” materiais que as cercam. Os “acidentes” da vida cotidiana são transcendidos por essências e formas eternas, as quais são objetivos de conhecimento. O rei-filósofo é, por educação, senão por desejo, capaz de guiar o Estado para sair desse caos e das ilusões do mundo externo dos fenômenos sentidos para a ordem e os modelos eternos.

O filósofo chinês Confúcio, no sexto século a.C., ensinou que a sociedade ideal existiu no passado, sob o governo dos reis sábios da antiguidade. A noção do Mandato Divino, que se desenvolveu como a sansão para governar na China imperial, significava que a responsabilidade do governante era de manter a ordem do Paraíso na sociedade humana; se e quando um governante falhasse, então o Mandato era declinado para um novo imperador. O essencial para a harmonia da sociedade, para Confúcio e seus seguidores, era a realização adequada do ritual e das práticas cerimoniais elaboradas em uma compilação de textos do final do primeiro século a.C. e do século I d.C. Nesse texto, o Livro dos Ritos, a sociedade sob os reis sábios da antiguidade é retratada como uma era de “Grande Harmonia”, na qual todos tinham suas próprias tarefas e seu lugar, todos eram cuidados de acordo com suas necessidades. Esse ideal foi ressuscitado, no final do século XIX, pelo reformador chinês Kang Youwei (1858-1927), que promoveu a sociedade ideal da Grande Harmonia como algo central ao pensamento confucionista. Ele argumentou que Confúcio teria dado apoio às reformas modernas de Kang, defendendo que eles teriam vivido na mesma época.

O termo “utopia”, usado para descrever uma sociedade ideal, foi cunhado, a partir do grego, por Sir Thomas Morus, ao escrever sobre um mundo imaginário em uma ilha, Utopia (1516), onde a propriedade privada não existia e a tolerância religiosa reinava. Como muitas utopias, essa foi inspirada pelas observações do escritor sobre seu mundo contemporâneo, mas também por relatórios do “Novo Mundo”. Escrito quase um século depois da Utopia de Morus, a peça de William Shakespeare, A tempestade (1611), ocorreu em uma ilha, referida como o “bravo novo mundo”, onde “não havia necessidade de trabalho, de ricos ou de pobreza”. Para os europeus, esse Novo Mundo era um espaço virgem, um paraíso preenchido pela promessa da possibilidade humana; para os povos indígenas do Novo Mundo, a presença europeia trouxe a morte e a destruição.


Mapa: ilha de Utopia

Fazendo par com o conceito de utopia está o de distopia, o mundo imaginado oposto, de total privação e miséria. Durante muito tempo sob o domínio de escritores de ficção científica, uma das mais conhecidas distopias é a de George Orwell, em sua obra 1984 (1949), na qual o personagem principal é gradualmente privado de sua humanidade individual para ser absorvido pelo “grande irmão (Big Brother)” do Estado totalitário do século XX. O romance distópico de Aldous Huxley, Admirável mundo novo (1932), retirou seu nome da frase utilizada por Shakespeare em A tempestade, e retratou um mundo onde todas as necessidades humanas são satisfeitas e não há guerra ou pobreza, mas também não há religião, filosofia, família ou diferença cultural para enriquecer a vida humana. Drogados em soma, as pessoas da obra de Huxley escapam de qualquer coisa desagradável, incluindo emoções e memórias dolorosas. Conforme o romance de Huxley Admirável mundo novo vai sendo esclarecido por meio da retração de um mundo utópico que, na verdade, é distópico, visões de sociedades ideais – libertação do desejo, da fome e do medo – nem sempre produzem resultados desejáveis. Os avanços tecnológicos que tornaram possíveis os mundos descritos por Orwell e Huxley foram um produto da Revolução Industrial, que gerou suas próprias visões paralelas de utopia e distopia.

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 340-342.

NOTA: O texto "Mundos imaginados: utopias e distopias" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Revolta do Vintém

Charge sobre a Revolta do Vintém

Não é de hoje que aumentos das tarifas de transporte público tornam-se estopim para manifestações e revoltas populares no Brasil. Em 1880, a cobrança de uma taxa na passagem de bonde transformou a capital do Império, o Rio de Janeiro, em praça de guerra - e contribuiu para desestabilizar a monarquia brasileira, que cairia nove anos depois. O movimento, considerado o primeiro grande distúrbio urbano no país pela melhoria dos serviços públicos, ficou conhecido como Revolta do Vintém. Pelo menos três pessoas morreram e centenas ficaram feridas durante os dias em que a confusão tomou conta das ruas do Rio. Um vintém equivale a menos de 20 centavos em dinheiro de hoje, mas o cálculo é uma aproximação.

A revolta começou em 13 de dezembro de 1879, quando a Coroa anunciou um imposto de 20 réis - equivalente a um vintém - sobre as tarifas de bondes puxados a burro, um dos principais meios de transporte da população na época. O tributo, chamado de "imposto do vintém" seria cobrado diretamente nas passagens a partir de 1º de janeiro de 1880 e foi instituído pelo governo como forma de diminuir o déficit público. Na prática, era um aumento no preço da passagem, e considerável: da ordem de 20%.

Não tardou para que a medida ganhasse as páginas dos jornais e a reação negativa da população. A primeira crítica era que o novo imposto atingiria da mesma maneira os ricos e os pobres, já que o bonde era praticamente o único meio de deslocar-se por grandes distâncias na cidade. A primeira manifestação ocorreu no dia 28 de dezembro. Foi um ato pacífico que reuniu 5 mil pessoas (a população do Rio era de 1,1 milhão de habitantes) no Campo de São Cristóvão para ouvir o discurso do abolicionista e republicano José Lopes Trovão. Dono do jornal Gazeta da Noite, Trovão tornou-se um dos principais líderes do movimento. Dali, a multidão seguiu em passeata até o Palácio da Boa Vista, onde estava o imperador dom Pedro II.

Um mensageiro da Coroa trouxe a informação de que o monarca, mesmo a contragosto, aceitaria receber uma comissão de manifestantes para discutir a taxa, mas o recado foi ignorado. Os republicanos procuravam tirar o máximo de proveito político da situação. Mesmo assim, o dia terminou sem incidentes e a multidão se dispersou em paz.

Nos dias seguintes, a imprensa conservadora criticou o fato de os manifestantes não terem aberto o diálogo com dom Pedro II. No dia em que o imposto começaria a ser cobrado, uma grande manifestação foi organizada no Largo do Paço. Trovão fez um breve discurso pedindo que a população reagisse pacificamente à cobrança do imposto, mas não foi ouvido. Grupos de manifestantes começaram a seguir pelas ruas da Carioca, Uruguaiana, Visconde do Rio Branco e Largo São Francisco, ponto de partida e chegada da maioria das linhas.

Ali, começou o confronto. Para protestar contra a cobrança do vintém adicional, os manifestantes tomavam os bondes, espancavam os condutores, esfaqueavam os animais utilizados como tração, despedaçavam os carros, retiravam os trilhos e, com eles, arrancavam as calçadas. Os focos de tumulto pipocaram em vários pontos do centro do Rio de Janeiro, com barricadas e depredação. Manifestantes entraram em conflito com a polícia, que respondeu à bala, matando três pessoas.

A confusão continuou no dia seguinte. Trilhos de bonde continuaram a ser arrancados das ruas e as chaves dos veículos, roubadas. Das janelas, garrafas e pedras eram atiradas em direção aos veículos. No decorrer do dia, várias pessoas foram presas e a polícia solicitou reforço do Exército, que passou a controlar a situação reprimindo os focos com golpes de cassetete - ou tiros. No dia 3 de janeiro, a situação estava um pouco mais calma, resumindo-se a alguns focos de tumulto na Rua do Ouvidor, rapidamente sufocados pelas tropas do Exército.

A situação só foi totalmente controlada no final do dia 4, quando alguns manifestantes tentaram impedir a circulação de bondes na Rua Sete de Setembro, sem sucesso. Por causa da pressão popular, o imposto acabou sendo revogado em setembro de 1880. Mas os danos foram além de manifestantes mortos e dos bondes destruídos. Diante do desgaste político, todos os integrantes do Ministério da Fazenda foram substituídos por ordem do imperador.

Não se sabe ao certo o número de feridos durante as manifestações e tampouco se os mortos foram apenas os três registrados no primeiro dia do confronto. O que se sabe é que o Rio de Janeiro viveu dias de grande tumulto, com saques de lojas, roubos e população em pânico. [...]

"A Revolta do Vintém representou uma mudança na forma de atuação política, até então concebida apenas como a atividade institucional e parlamentar, com um sistema eleitoral marcado pelo voto indireto e censitário", afirma o historiador Claudio H. M. Batalha [...]. "A política deixou de ser restrita ao Parlamento e passou a ser feita também nas ruas, por meio de panfletos, comícios e manifestações." Batalha lembra que a revolta teria efeitos de longo prazo, ao ampliar as campanhas abolicionistas e republicana com gente na rua.

É muito difícil - tirando o foco de que a razão que deu início ao protesto foi o aumento no preço do transporte urbano - traçar paralelos entre o que aconteceu na década final do império e as manifestações que começaram a ocupar as ruas das principais cidades brasileiras em junho.

"Ambos tiveram como estopim o aumento do custo das passagens do transporte público, depararam-se com reações violentas da polícia e a questão inicial dos transportes apontou para outros problemas enfrentados pela população", afirma Batalha. "Mas na Revolta do Vintém as lideranças políticas tiveram papel essencial, enquanto que o processo recente é muito mais horizontalizado", diz o historiador. Para Batalha, assim como a Revolta do Vintém mudou a percepção da política, dos gabinetes para as ruas, no final do Império, muita gente acredita que algo similar ocorrerá a médio prazo no processo que o país vivenciou a partir do meio do ano. [...]

Marcus Lopes. Passe livre, versão século 19. In: Revista Aventuras na História. Edição 121, Agosto 2013. p. 56-59.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Cristianismo

O cristianismo antigo tem duas etapas históricas claramente distintas. Houve uma primeira fase em que se difundiu pelas comunidades judaicas da Ásia Menor e do Egito e que “incluía uma grande variedade de vozes, um extraordinário leque de pontos de vista”. Na Síria e no Egito, convivia com seitas judias diversas, antes da fase de predomínio do gnosticismo, em que a doutrina se impregnou de traços do pensamento oriental e do paganismo greco-romano. Era lógico que as diferenças doutrinais não fossem vistas como decisivas a grupos que compartiam a crença de que o fim do mundo estava próximo. Este componente escatológico, herdado da tradição apocalíptica que florescia na Palestina nos tempos de Cristo, foi um elemento fundamental do cristianismo ao redor do ano 200 quando, não tendo chegado o fim do mundo, os cristãos voltaram à vida normal. Desde este momento, as posturas extremas sobre o ascetismo conservaram-se apenas entre os grupos mais extremados do cristianismo oriental. Na cristandade ortodoxa, a norma da castidade absoluta ficou para os “pais do deserto” – os ascetas egípcios ou os eremitas da Síria ou Capadócia -, de quem os monges a tomaram e, só gradualmente e muito mais tarde, generalizou-se no clero secular.

Folio Papiro 46 contendo 2 Corintians, 11:33-12:9 (uma das primeiras coleções do século III das epístolas paulinas)

ενσαργανηεχαλασθηνδιατουτειχουσ
καιεξεφυγοντασχειρασαυτουκαυχασ
θαιδειουσυμφερονμ[ε]νελευσομαιδε
εισοπτασιασκαιαποκαλυψεισκυοιδα
ανθρωπονενχωπροετωνδεκατεσσαρων
θιτεενσωματιουκοιδαειτεεκτοστουσω
ματοσουκοιδαοθσοιδεναρπαγεντατον
τοιουτονεωστριτουουρανουκαιοιδατον
τοιουτονανθρωπονειτεενσωματιειτε
χωριστουσωματοσουκοιδαοθσοιδενοτι
ηρπαγηεισυονπαραδεισονκαιηκουσεν
αρρηταρηματααουκεξονανθρωπωλα
λησαιυπερτουτοιουτουκαυχησομαιυπερ
δεεμαυτουουδενκαυχησομαιειμηενταις
ασθενειαισεανγαρθελωκαυχησομαι
ουκεσομαιαφρωναληθειανγαρερω
φειδομαιδεμητισεμελογισηταιυπερ
οβλεπειμεηακουειτιεξεμουκαιτη
υπερβολητωναποκαλυψεωνιναμη
υπεραιρωμαιεδοθημοισκολοψτησαρκι
αγγελοσσαταναιναμεκολαφιζηινα[μη]
υπεραιρωμαιυπερτουτουτρις[τονκυριον]
παρεκαλεσαινααποστηα[πεμουκαιει]
ρηκενμοιαρκεισοιηχα[ρισμουηγαρ]
δυναμισ[ενασθενειατελειταιηδισταουν]

A segunda etapa da história do cristianismo antigo é a de sua associação com o poder político do Império Romano, que o transformou em um “governo eclesiástico paralelo ao secular”, que com ele colaborava no cumprimento dos decretos imperiais. Seu caráter plural e comunitário desapareceu. O cristianismo transformou-se na Cristandade, que via a si mesmo como uma comunidade unitária e hierarquizada aspirava incluir todos os homens, estendendo seu controle a todas suas atividades.

Desde o primeiro momento, o imperador Constantino deu um sentido político a sua aliança com o cristianismo. A Igreja seria um dos apoios essenciais do império cristão que sobreviveria no Oriente até o século XV. No Ocidente, onde a estrutura imperial ruiu muito antes, a Igreja tentou restabelecê-la com a coroação de Carlos Magno em Roma ou com o papado imperial, que levaria os pontífices romanos a reunir o poder político e a função sacerdotal na sua pessoa, como herdeiros do império.

Nesta nova situação, criada pelo reconhecimento político do cristianismo, não podia permanecer a convivência pacífica das diversas correntes; era necessário eliminar os dissidentes: hereges e cismáticos. Os primeiros dissidentes perseguidos, os donatistas do norte da África, não discordavam na doutrina, mas se opunham à aliança do cristianismo com o poder político; consideravam-se os autênticos herdeiros da Igreja dos mártires e condenavam os que se aliavam ao império, valendo-se da força deste para impor-se nas divergências entre os cristãos. Alguns fiéis optaram por soluções pessoais que não ameaçavam a Igreja hierárquica e eram aceitos por esta, como os amacoretas, que se retiraram para o deserto, ou os monges, que se encerravam em mosteiros para levar vida em comum.

A “oficialização” do cristianismo não deve ser confundida com a cristianização do império, que se produziu a longo prazo e em uma série de etapas. O século IV foi um período de convivência pacífica em que a velha religião continuou a abrir templos, receber subsídios e regular a passagem do tempo com suas festas. Após a fugaz restauração do paganismo por Juliano, a situação começou a ser modificar com Teodósio I, que apoiou o estabelecimento da unidade religiosa através da força: fechou os templos pagãos e condenou os sacrifícios de animais como atos de alta traição.

Apesar das mediadas repressivas, entretanto, os sacrifícios continuariam a ser feitos de forma clandestina. Seriam necessárias perseguições e campanhas militares para acabar com as últimas comunidades pagãs, o que parece não ter acontecido até o século IX (os pagãos tinham, agora, mártires como Hypatia, uma professora de filosofia que foi apedrejada em Alexandria pelos seguidores do bispo). Frente a esta situação, os últimos filósofos pagãos começaram a fugir para a Mesopotâmia, onde estabeleceram uma comunidade que conservou a cultura grega e a transmitiu ao mundo islâmico.

A igreja cristã de Roma não era única. Havia, para começar, a do Oriente, quer dizer, a que seguiu associada ao império (que chamamos de bizantino) e que, depois, esteve associada aos novos poderes que os substituíram: o sultão turco ou os soberanos de cada país nas diversas igrejas nacionais. Houve também uma cristandade asiática muito importante que, no século XIII, se estendia desde o Egito até o mar da China, com núcleos relevantes na Mesopotâmia, Armênia, Cáucaso e Síria, e com conventos na Ásia Central, entre os turcos e mongóis.

A maior das igrejas cristãs asiáticas foi a nestoriana. Sua origem remonta à Igreja persa, que se tornou independente do Ocidente em 424, rompendo seus laços com Bizâncio. Seu chefe, o catholicos, residia em Ctesifonte, porém a atividade missioneira pela rota das caravanas criou comunidades cristãs desde Java até Azerbaijão. Em 1009, os kerait, o maior e mais culto dos povos mongóis da Ásia central, converteram-se ao cristianismo nestoriano. Mais tarde, seriam dominados por Genghis Khan, que respeitava as religiões dos povos que integravam seu império, não faltando, entre seus sucessores, quem mostrasse simpatia pelos cristãos.

Os mongóis foram, durante muito tempo, a grande esperança do cristianismo do Ocidente. Em 1258, organizaram uma cruzada que reconquistou Alepo e Damasco, onde as tropas vencedoras entraram em 1260 com um general nestoriano mongol na liderança, acompanhado de um príncipe armênio e de um cruzado ocidental. Porém, não encontraram apoio nem nos cruzados de Jerusalém nem no papa de Roma, que preferia a aniquilação dos hereges ao triunfo de um cristianismo plural (de forma semelhante, os cristãos do Ocidente permaneceram, mais tarde, indiferentes à tomada de Constantinopla pelos turcos).

Enquanto que se produzia o grande movimento de fechamento e de intolerância que, de 950 a 1250, converteu a Europa numa sociedade repressora (a perseguição aos judeus, a segregação dos grupos minoritários, o estabelecimento da Inquisição e o uso da tortura judicial), iniciava-se uma grande etapa de florescimento das heresias, que culminou nos séculos XII e XIII, durando até o XV. Era uma conseqüência da crise da igreja e da vontade de reforma que haviam surgido entre o clero e entre os fiéis.

Um dos pontos centrais de oposição à hierarquia da Igreja era a pretensão de impor, ao conjunto da sociedade, o monopólio da interpretação religiosa por parte dos clérigos ordenados, reduzindo o fiel à posição de receptor passivo de uma religião que lhe era transmitida exclusivamente pela via oral. Em seu afã por recuperar a pureza do cristianismo primitivo, os críticos da Igreja retomariam diretamente os textos, especialmente o das escrituras. Por mais limitada que fosse a alfabetização, parece claro que a heresia a havia estimulado com as traduções de textos bíblicos às línguas “vulgares”, como as que sabemos que foram feitas em Languedoc, na França ou na Catalunha, no século XIII.

A história destes movimentos chegou-nos na versão dos seus repressores, que ressaltaram os aspectos doutrinais e os ritos que divergiam dos “ortodoxos”, acrescentando-lhes uma carga de maldade diabólica, ao mesmo tempo que omitiam as queixas dos dissidentes contra a Igreja oficial.

Este é, por exemplo, o caso dos cátaros, que têm sua origem no movimento dos bogomilos da Bulgária, onde se podem encontrar elementos do dualismo oriental – a crença de que o mundo está dominado, ao mesmo tempo, por um princípio do bem e um princípio do mal -, mas que foram perseguidos, principalmente, porque propugnavam um retorno da Igreja à pureza e à pobreza evangélicas e porque davam apoio à resistência dos camponeses contra o feudalismo. O catarismo do Languedoc, que influiu fortemente na Catalunha, defendia uma vida simples de trabalho e abrigava crenças mais próximas do patrimônio da cultura popular do que da teologia romana. Oferecia, aos fiéis, sermões e orações na língua vulgar e, o que era mais importante, o exemplo de uma Igreja que não exigia dízimos, nem excomungava, nem matava como fazia a de Roma e que não estava comprometida com os senhores feudais que oprimiam os camponeses. Representava, por tudo isso, uma ameaça à ordem estabelecida, justificando uma cruzada e repressão feroz.

Todos estes movimentos religiosos, que se relacionaram e se entrelaçaram sutilmente até chegar a guerra dos camponeses alemães do começo do século XVI, estão estreitamente associados a levantes sociais que torna-se difícil separá-los. O movimento inglês dos lolardos de Wycliffe coincide no tempo, e em alguns de seus protagonistas, com a grande rebelião de Wat Tyler (a revolta de 1381 que propunha liquidar com o feudalismo). Apesar das perseguições que sofreram, grupos de clérigos lolardos continuaram mantendo sua fé em segredo, sobrevivendo por mais de um século até acabar fundindo-se com o protestantismo. Eram, na sua maioria, manifestações de uma religião de artesãos, pregada diretamente nos círculos que liam a Bíblia traduzida em língua vulgar, como ocorria na Itália e na França com a dos valdenses, um movimento que pode ser qualificado de religião dos laicos.

Os escritos de Wycliffe tiveram relação com o aparecimento, na Boêmia, do movimento dos hussitas, de cujas ramificações, uma, a dos taboritas, fazia propostas radicais de transformação social. Enquanto organizavam-se seis cruzadas contra os hussitas, começavam, na Alemanha, movimentos que tinham um duplo componente religioso e social e que culminaram, em 1524, com o início da guerra dos camponeses e o movimento, duplo e paralelo, da Reforma e da Contrarreforma, que não apenas tendiam à renovação do cristianismo, mas à consolidação da ordem social.


FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: Edusp, 2000. p. 302-306.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A Guerra dos Farrapos

[...] Antes mesmo da Balaiada e da Sabinada, começava, em 1835, no sul do país, a Guerra dos Farrapos. Embora possa ser enquadrada na mesma perspectiva das outras revoltas, a Farroupilha apresenta características próprias. Foi uma luta da classe dominante local contra os efeitos do centralismo político e administrativo, mas na qual essa classe se apresentava organizada e coesa, impedindo que o povo tivesse maior participação, como acontecera nas outras revoltas.

A economia da região possuía também características especiais. A província de São Pedro do Rio Grande do Sul não estava ligada, como as demais, diretamente ao mercado externo. Lá não eram cultivados produtos tropicais para exportação. A riqueza da região era gerada na venda de charque, couros e gado muar para o mercado interno, isto é, para as províncias agro-exportadoras.

Mesmo sendo "o celeiro do país", o Rio Grande não era forte o suficiente para impor seus interesses. Aos proprietários de terras e de escravos que dominavam o império, não interessava obter aqueles produtos a preços altos, principalmente o charque, que era a alimentação básica de seus escravos. Assim, o governo mantinha baixos os impostos dos artigos similares importados da região platina. Também não oferecia garantias para a venda da produção sulina para o exterior e, além disso, sobrecarregava-a de impostos nos portos nacionais.

Diziam os estancieiros do Sul que a prosperidade da província ficava ao sabor da desorganização da produção platina: nos momentos em que havia lutas internas no Prata, o charque do Rio Grande tornava-se concorrente no mercado; quando as coisas lá corriam bem, a economia rio-grandense sofria grandes perdas. Concentravam, então, seus esforços na exigência de reformas na política tarifária por parte do governo central. Não podiam perceber que era a utilização do trabalho escravo que encarecia a produção, tornando-a menos competitiva no mercado. As estâncias platinas estavam organizadas como empresas capitalistas e a produtividade do trabalho assalariado era maior do que a do trabalho escravo. No Brasil, os gastos iniciais para a compra de escravos eram grandes e as despesas com alimentação, vestuário e alojamento também. Uma vez que o charque sulino se destinava a um mercado livre e competitivo, não tendo a garantia da venda total da produção nem dos altos lucros dos preços de monopólio, a situação se tornava desfavorável aos produtores rio-grandenses que, além disso, tinham de arcar com as despesas da escravidão mesmo nos momentos críticos de retração do mercado.

Além das desavenças de caráter econômico com o governo imperial, havia outras de cunho político e administrativo: os fazendeiros sulinos eram contra a nomeação direta dos presidentes de província e dos funcionários locais pelo poder central.

Em 1835, estoura no Rio Grande do Sul a Farroupilha. Em 1836, é proclamada a República Rio-Grandense. Comandando as forças locais contra as tropas do governo e as dos países vizinhos que as ajudavam, estavam líderes como Bento Gonçalves, Bento Manuel Ribeiro, Davi Canabarro e até o italiano Garibaldi.


Proclamação da República do Piratini, Antônio Parreiras

Em 1838, os rebeldes lançam um manifesto acusando diretamente o governo pela má escolha dos diplomatas, pelos tratados contrários aos interesses da nação, pelos impostos cobrados e pelas dívidas assumidas. E ainda pela "política feroz e covarde" em relação aos rebeldes, pelo desprezo às representações do povo, pelo desrespeito a ordens legais de habeas corpus, etc. E assim concluíram:

"Esses males, nós os temos suportado em comum com as outras províncias da União Brasileira; amargamente os deplorávamos em silêncio sem contudo sentirmos abalada a nossa constância, o nosso espírito de moderação e de ordem. Para que lançássemos mão das armas foi preciso a concorrência de outras causas, outros males que nos dizem respeito particularmente a nós, e que nos trouxeram íntima convicção da impossibilidade de avançarmos na carreira da civilização e prosperidade, sujeitos a um governo que há formado o projeto iníquo de nos submeter à mais abjeta escravidão, ao despotismo mais abominável".

Em 1839, é proclamada a República Juliana em Santa Catarina, por onde o movimento já se alastrara. Apesar da sucessão de "repúblicas", os estancieiros não queriam a separação da província do resto do Império. A economia da região, como vimos, era dependente das áreas agro-exportadoras. Queriam apenas a autonomia política e administrativa, queriam o federalismo.

A nomeação do barão de Caxias para presidente da província, em 1842, marca o início da "pacificação". Caxias isola os rebeldes, impedindo-os de receberem auxílio do Uruguai, e reforça os contingentes militares. Obtém ainda o apoio de Bento Ribeiro, dividindo os farrapos.

Mas, durante dez anos os gaúchos resistiram às tropas imperiais. Alguns fatores explicam a continuidade do movimento. O desenvolvimento histórico da região possibilitou a formação de uma classe dominante coesa e semi-organizada militarmente. os homens livres não proprietários estavam mais integrados que nas outras regiões, na medida em que o trabalho escravo teve aí menor peso. No momento da luta, essa massa de agregados pôde ser utilizada sem nenhum risco para os proprietários rurais.

Mais que as lutas armadas, foram as concessões feitas aos farrapos que possibilitaram a volta a normalidade. Concedeu-se anistia aos revoltosos, fortaleceu-se a Assembléia local, diminuíram-se os impostos. Enfim, consolidou-se o domínio dos estancieiros no sul do país.

Nesse aspecto, a Farroupilha assemelhou-se às demais revoltas da época. Passando o calor das lutas, foram os senhores sempre os vitoriosos. Durante o desenrolar das rebeliões, os ideais populares, embora não sistematizados em um programa de lutas e reivindicações, ganhavam certa autonomia - em relação às divergências entre liberais e conservadores - que alarmava até os mais liberais. Para os senhores, cabia ao povo concentrar-se em praças públicas e reagir armado contra o domínio desse ou daquele grupo da aristocracia rural, contra esse ou aquele regente. Não cabia ao povo lutar por seus verdadeiros interesses...

ALENCAR, Chico et al. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 146-148.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A Sabinada

Enquanto os balaios agitavam o Maranhão, em 1837 estourou na cidade de Salvador a Sabinada. Precedida por uma série de rebeliões, inclusive de escravos, a Sabinada foi uma conspiração de protesto contra alguns fatos acontecidos naquele ano, como a apresentação da Lei Interpretativa do Ato Adicional (emenda que mais tarde seria feita ao Ato Adicional de 1834) e a prisão do líder farroupilha Bento Gonçalves em Salvador. Diferentemente das demais rebeliões ocorridas no país, foi um movimento realizado por representantes da camada média da população em favor da república, que não mobilizou os setores menos favorecidos nem contou com o apoio de proprietários de terras.

Vista da cidade de Salvador na década de 1830. Detalhe da obra Bahia. Panorama da cidade de São SalvadorFriederich Salathz e Johan Steinmann

Em novembro, liderada pelo cirurgião Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira, rebela-se a guarnição do Forte de São Pedro em Salvador, ocasionando a fuga de Bento Gonçalves. A partir daí, a Sabinada ganha a adesão de parte das tropas do governo e o presidente da província é obrigado a fugir. Os rebeldes proclamam então a República baiana, que deveria durar até o imperador assumir o trono.

A repressão veio logo a seguir e foi facilitada pelo fato de os participantes do movimento se terem isolado, não buscando o apoio de outras camadas da população nem de outras regiões da província.

Em 1838, ajudadas pelos proprietários rurais do Recôncavo, as tropas do governo empreenderam um verdadeiro massacre:

"Enfurecidos pela bravura com que se debatia o adversário, os soldados do Império assemelhavam-se a uma horda de bárbaros lançada sobre a cidade. A passagem de cada pelotão assinalava-se por atos de crueldade. Nas grandes fogueiras das casas incendiadas, lançavam pessoas vivas, indefesos prisioneiros. Dos chefes rebeldes, a nenhum dos que caíram prisioneiros, no ardor do embate, foi poupada a vida." (VIANA FILHO, 1938. p. 187)

Os que escaparam do massacre foram julgados por um tribunal que ficou conhecido como "o júri de sangue".

ALENCAR, Chico et al. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 146.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A Balaiada

Como a Cabanagem, outros movimentos fizeram inflamar o que o regente Feijó chamou de "o vulcão da anarquia". A Sabinada, a Balaiada e a Farroupilha, embora não tão intensas quanto a revolta dos cabanos, estavam marcadas pelo clima de violência social que caracterizou o período da regência. Aproveitando a brecha das lutas políticas no seio da classe dominante, o povo emergiu como força de contestação, passando a exigir melhores condições de vida. Em alguns momentos houve a participação de negros aquilombados, que desta forma protestavam contra a escravidão a que eram submetidos. Foi o que aconteceu na Balaiada, que não se pode dizer que tenha sido um único movimento. Caracterizou-se por sucessivas e ininterruptas rebeliões da população sertaneja e escrava do Maranhão, que se alastraram por toda a província, atingindo também o Piauí, no período de 1831 a 1841.

Na época, a província do Maranhão contava com cerca de 200.000 habitantes, sendo 90.000 escravos e o restante composto por sertanejos ligados à lavoura e à pecuária. Após a Guerra de Independência dos Estados Unidos, o principal produto maranhense, o algodão, sofreu grande declínio. O poder estava nas mãos dos proprietários rurais e e comerciantes das principais cidades e a população sertaneja foi a que mais sofreu com a crise por que passou o Maranhão e todo o país durante a regência.

"Será o caráter de sua participação no movimento - aliada à dos negros - que dará à Balaiada uma configuração especial dentre as mobilizações ocorridas no período. Se a rebeldia desses grupos já possibilitara sua participação como braço armado durante os conflitos da independência, na revolta dos balaios a participação dos negros e homens livres (sertanejos) adquire um caráter próprio, escapando ao controle das disputas partidárias." (MENDES JR., A. et al. Brasil - História, Texto e Consulta. São Paulo: Brasiliense, 1977. V. II, p. 235.)

Em determinado momento, sua luta ganha autonomia, fugindo ao âmbito das divergências entre as facções políticas locais, divergências estas que haviam provocado o movimento.

Chega mesmo a perder o apoio do grupo liberal Bem-te-vi, que editava um jornal com o mesmo nome - O Bem-te-vi - e que se opunha aos governistas.

Fabricantes de balaios

Lideravam o movimento o vaqueiro Raimundo Campos, o "Cara preta", Manuel dos Anjos Ferreira, o "Balaio" (daí o nome da revolta), e o negro Cosme, chefe de um quilombo. Em 1839, os balaios chegam a tomar a vila de Caxias, constituindo um Conselho Militar formado por alguns de seus chefes, que aceitaram a participação de elementos bem-te-vis. Pelas ruas da vila de Caxias os quilombolas do preto Cosme cantavam:

"O Balaio chegou!
O Balaio chegou!
Cadê branco!
Não há mais branco!
Não há mais sinhô!"

Estes, porém, foram os últimos momentos de comemoração e vitória para os balaios. Faltava ao movimento uma unidade. Cada grupo e cada chefe agiam isoladamente, havendo entre eles muitas divergências. As alianças com bem-te-vis e elementos moderados, que procuravam conter as revoltas, também contribuíram para o desgaste do movimento.

Em 1840, o coronel Luís Alves de Lima, futuro Barão de Caxias, é nomeado para a presidência e o comando de armas da província. Explorando o isolamento e as rivalidades entre os grupos rebeldes e contando mesmo com o apoio bem-te-vi, os legalistas derrotam os balaios. Quando, em 1841, é concedida a anistia aos envolvidos no movimento, a província está "pacificada".

ALENCAR, Chico et al. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 144-146.

sábado, 10 de agosto de 2013

A Cabanagem

De 1822 a 1824, o Grão-Pará viveu dias agitados. Requisitados pela classe dominante local a participar das lutas pela independência, o povo tentou obter o controle da situação. Por exigir melhores condições de vida, Batista de Campos e a massa de homens que o seguia foram ferozmente reprimidos.

Ao final do massacre, porém, a junta governativa da província assim se pronunciou:

"Sentimos não poder afirmar que a tranquilidade está inteiramente restabelecida porque ainda temos a temer principalmente a gente de cor, pois que muitos negros e mulatos foram vistos no saque de envolta com os soldados, e os infelizes que se mataram a bordo do navio, entre outras vozes sediciosas, deram vivas ao rei do Congo, o que faz supor alguma combinação de negros e soldados." (REIS, A. C. F. In: História Geral da Civilização Brasileira. Tomo II, vol. 2, 1977. p. 86)

Era uma suposição, mas que na prática se confirmou. De fato, desde os primeiros movimentos de independência até a eclosão da Cabanagem em 1833, a província do Pará esteve sempre intranquila. No interior, como na capital, eram comuns as notícias de levantes populares, que contavam inclusive com a adesão da tropa insatisfeita com os baixos soldos e com as determinações do poder central e das autoridades locais.

Para se sublevar constantemente, a população tinha motivos de sobra. A economia da região consistia na exploração das chamadas drogas do sertão e da pesca.

A força de trabalho era composta por negros escravos, mestiços e índios, em sua maioria sofrendo um processo de destribalização, submetidos a um regime de semi-escravidão.

Após a abdicação, as lutas entre as facções políticas se alastraram por todo o país. Detinham o poder na região os comerciantes de Belém, que apoiavam uma política centralizadora e se identificavam com os interesses lusitanos. Os senhores de terras, que se opunham a eles, formavam um grupo numericamente pequeno e desorganizado. O resto da população era composto por escravos e pela massa de homens livres - índios e mestiços - que vivia em cabanas à beira dos rios, em condições miseráveis.

O cabano paraense, Alfredo Norfini

Convocada pelos setores liberais a participar nos movimentos de oposição às medidas centralizadoras do Governo imperial, essa população, liderada por Batista de Campos, deu às lutas uma orientação mais ampla e radical. Depôs todos os governantes nomeados pelo poder central, exigiu reformas que melhorassem suas condições materiais e a expulsão dos portugueses, tidos como responsáveis pela miséria em que viviam.

Em dezembro de 1833, Lobo de Souza conseguiu assumir o governo. Perseguindo, prendendo e deportando todos os suspeitos e implicados nos acontecimentos, Lobo acabou incentivando ainda mais as revoltas. Novos líderes populares apareciam. Os irmãos Vinagre, lavradores, e o seringueiro Eduardo Angelim agitavam o interior e a capital, reafirmando o caráter popular das lutas.

Em 1835, os cabanos, como eram chamados os revoltosos, ocupam Belém. O governo é entregue a Félix Antônio Malcher, um fazendeiro da região. Embora todos os cabanos concordassem quanto à necessidade de controlar a política centralizadora do Rio de Janeiro, uma parte deles começava a temer a feição e as proporções violentas do movimento. Foi o caso de Malcher, deposto e executado após tentar reprimir os elementos mais radicais e jurar fidelidade à regência.

Para "segundo presidente cabano" foi escolhido Francisco Vinagre, que também não foi capaz de resolver as divergências entre os cabanos. Preocupado como seu antecessor em "defender a ordem", Vinagre ajuda as tropas e navios enviados pela regência, comandados pelo almirante inglês Taylor, fazendo um acordo pelo qual os legalistas se comprometiam a pacificar a província. Derrotados, os cabanos se retiram para o interior. Conseguem, no entanto, mobilizar a população rural e, liderados por Antônio Vinagre e Angelim, retomam a capital.

Seria essa, porém, mais uma vitória temporária. Os cabanos não tinham suas reivindicações sistematizadas num programa de ação para quando chegassem ao poder. Não tinham uma teoria e um partido capazes de conduzir os ideais revolucionários. Quando assumiam o governo da província tornavam-se vulneráveis. Além do "espontaneísmo", as divisões internas do movimento acabaram por enfraquecê-lo.

Em 1836, não conseguem resistir à força militar enviada pelo Rio de Janeiro. Abandonam definitivamente a capital e lutam por mais três anos no interior, onde os aguarda um final trágico. Em 1839, ao findar a Cabanagem, dos 100.000 habitantes do grão-Pará, 40.000 haviam morrido nos incêndios, destruições e assassinatos que as forças governamentais promoveram. A Cabanagem foi o movimento mais radical de todos. O único em que a classe dominada conseguiu ocupar o poder de toda uma província, ainda que de maneira desorganizada e descontínua.


ALENCAR, Chico et al. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 142-144.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A Revolução Haitiana

Batalha em Santo Domingo, January Suchodolski

Os ideais europeus do século XVIII, como o de que "o homem nasce livre e igual em direitos" e de "liberdade, igualdade e fraternidade", também se espalharam para as praias do Caribe, onde foram traduzidos em questões sobre propriedade, trabalho e raça. Logo depois da Revolução Francesa (1789), fazendeiros brancos em Santo Domingo (o terço ocidental da ilha de Hispaniola, atual Haiti) receberam o controle das assembleias coloniais e uma grande parcela de autonomia. Então, na Assembleia Nacional de Paris, em 1791, respondendo às pressões da sociedade abolicionista europeia, Lês Amis des Noirs ("Os Amigos dos Negros"), aprofundaram a extensão dos direitos a todas as pessoas livres, incluindo mulatos (aqueles com mistura de raças), decretando que as "pessoas de cor, nascidas de pais livres" deveriam ter direito a voto nas assembleias coloniais. Os fazendeiros brancos exigiram que a lei fosse repelida e ameaçaram aliar-se ao império britânico se não fossem atendidos. Tanto os fazendeiros brancos quanto os mulatos começaram a se armar, e então o conflito que estourou entre eles ofereceu aos escravos a oportunidade de se revoltar.

Ataque e tomada de Crête-à-Pierro, Auguste Raffet

A ameaça potencial da revolta escrava de Santo Domingo foi enorme. A maior parte dos escravos, diferentemente daquelas nos Estados Unidos, era nascida na África, e eles formavam a maioria da população, superando em números outros grupos étnicos por uma razão de 30 para 1. Como o interior montanhoso da colônia oferecia amplos esconderijos inacessíveis, existiram várias comunidades de quilombos (em guerra pela liberdade). Crenças comuns, como aquelas da religião derivada da África do Vodum (Vudu), e o compartilhamento de mitos e heróis, uniu diversas populações escravas. Em 1791, os escravos do norte de Santo Domingo exigiram sua própria liberdade e se rebelaram; durante grande parte do período entre 1791 e 1792, ataques e revoltas escravas se espalharam pela ilha. Os franceses enviaram tropas com  relutância. Tentativas de negociação para restaurar a ordem colonial falharam ao tentar ganhar o apoio de escravos. Em 1793, a Assembleia Nacional Francesa garantiu a emancipação dos escravos, um ato que liberou os negros e irritou ainda mais os fazendeiros, que aceitaram o auxílio dos britânicos (os quais estavam alarmados com a possibilidade de que a rebelião escrava pudesse se espalhar para suas colônias) contra os escravos rebeldes.

O general Toussaint L'Ouverture, Artista desconhecido

Mais de 100 mil escravos participaram da rebelião sob a liderança de Toussaint L'Ouverture (1746-1803), o filho instruído de pais escravos. Em seus esforços para libertar seus companheiros negros escravos, Toussaint lutou durante uma década contra a intervenção, e o bloqueio das nações escravocratas (França, Grã-Bretanha, Espanha e Estados Unidos), e até mesmo contra a oposição dos mulatos. Em 1801, ele e seus apoiadores controlaram toda a ilha de Hispaniola, mas muitas batalhas foram travadas antes da vitória final estabelecer a independência do Estado-Nação do Haiti.

Uma vez que Napoleão assumiu firmemente o controle na França, ele enviou um enorme exército para invadir Santo Domingo. L'Ouverture foi induzido a se encontrar com os franceses, e foi traçoeiramente capturado e levado para a Europa, onde foi aprisionado e depois morto em 1803. Jean-Jacques Dessalines e Henri Christophe continuaram a luta no Haiti; a tenacidade negra e a febre amarela derrotaram os massivos esforços franceses de recuperar o controle de Santo Domingo. Em 1º de Janeiro de 1804, a independência da metade ocidental de Hispaniola foi proclamada, à nova nação foi dado o nome de Haiti. Mas a independência veio com um alto preço, deixando o país empobrecido e infestado de disputas políticas pelos próximos 200 anos.

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 214-215.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Quebra-quilo, cortiço e vintém

Revolta do Vintém. Caricatura de Angelo Agostini

Tião Carga d'Água era um negrão simpático. No seu burrico ele levava barris e vendia água para toda a gente de Quipapá. Quem não conhecia o Tião naquela cidadezinha do interior de Pernambuco?

Pois num dia de feira o Carga d'Água virou "atirador de rapaduras". Tudo começou com um bate-boca. De um lado, os feirantes inconformados, pois julgavam que o governo havia criado novos impostos:

- A gente dá um duro danado para tirar da terra o que vende e o governo ainda cria novas taxas?

De outro lado, os funcionários do Império: eles tentavam explicar que não se tratava de impostos, mas sim de um novo sistema de pesos e medidas, o sistema métrico decimal.

Quem vai entender? Quem aceitaria?

O tempo foi esquentando, e Tião Carga d'Água,  junto com outros populares, entrou na briga. Se era contra o governo, podiam contar com ele! Logo o delegado baqueou com uma rapadura que lhe atingiu a testa, sendo amparado por seus soldados. Os feirantes ficaram mais animados ainda:

- Vamos botar esses ladrões para correr! Fora, cambada do governo!

No ano de 1874 conflitos como o de Quipapá ocorriam em muitas outras cidades do interior de Pernambuco, Alagoas e Paraíba. Onde as autoridades chegassem para implantar o novo sistema de pesos e medidas os protestos explodiam. Era a Revolta do Quebra-Quilo.

Como fogo em capim seco, a desobediência se alastrava. Os mais exaltados jogavam longe os pesos que o governo de D. Pedro II havia mandado, enquanto os arquivos das Coletorias e Cartórios, onde estavam guardadas as listas dos devedores, eram destruídos.

Manuel do Carmo era tão simpático e popular como o Tião de Quipapá. Só que era escravo e trabalhava na terra. Morava em Campina Grande, na Paraíba.

Ele e seus companheiros de cativeiro cercaram a casa-grande do Sítio Timbaúba:

- Nós qué sabê pruquê os nossos fio continua trabaiando como escravo!

Pela Lei do Ventre-Livre, em 1871, os filhos das escravas nascidos daquele ano em diante deviam estar em liberdade. O capataz mostrou um livro de registro. Nele, para surpresa dos negros escravos, não havia anotação de nenhum nascimento depois de 1871... Dessa forma nenhuma criança negra poderia estar livre!

Manuel do Carmo e os outros negros, que já não acreditavam muito nas leis do governo, ficaram furiosos. Naquela mesma noite eles reuniram todos os escravos, inclusive as crianças de peito, e fugiram para a mata. Quebravam à força a gaiola da escravidão.

Nas últimas décadas do século XIX, o Nordeste estava mesmo agitado. Pequenos roceiros revoltavam-se, escravos reagiam, havia descontentamento por toda parte. E uma seca terrível tornava a situação ainda mais grave. Os grandes fazendeiros, com os seus jagunços e a ajuda da política, trataram de se defender:

Toca, toca, minha gente
Toca, toca a reunir
Que os matutos quebra-quilos
Por aí não tardam a vir!

A violência contra os matutos e os escravos rebeldes foi enorme. Era preciso "manter a ordem", diziam as autoridades e os fazendeiros. Inúmeras prisões ocorreram e alguns presos morreram cruelmente. Eles foram obrigados a vestir um colete de couro fresco, que encolhia com o calor e os sufocava lentamente!

Mas o sofrimento e a revolta não existiam só no Nordeste.

O Rio de Janeiro, capital do Império, não era nenhum paraíso. Dos seus 235 mil habitantes, cerca de 50 mil eram escravos e 40 mil eram pessoas muito pobres, que viviam de biscates e esmolas. Havia também milhares de brancos, mestiços e negros livres obrigados a trabalhar 10, 12, às vezes 14 horas diárias, recebendo, em troca, míseros salários. Eram comerciários, trabalhadores do porto e operários das manufaturas e das primeiras fábricas que surgiam. Muitos deles eram estrangeiros e tinham vindo "tentar a sorte" no Brasil.

Boa parte dessa gente morava em habitações coletivas - as casas de cômodos e os cortiços - do centro da cidade. As condições dessas habitações eram péssimas. Os quartos eram pequenos, não tinham janelas e havia um só banheiro para várias famílias que lá moravam. Tudo contribuía para as epidemias de febre amarela, tifo, varíola, tuberculose e diarréia.

Os donos dos cortiços eram portugueses bem-sucedidos no comércio. Ou barões e viscondes que não queriam mais morar no centro. Ou mesmo instituições de caridade, como a Santa Casa de Misericórdia. Para todos esses, o negócio era lucrar, mesmo às custas da saúde da população.

A alimentação do povo da Capital chegava a ser pior que a dos pobres do interior. Quem podia pagar os preços da carne, depois que ela passava pelas mãos de poderosos comerciantes intermediários?

Sobravam no prato o feijão, a farinha e a carne-seca. E a laranja ou banana na sobremesa. Faltavam as proteínas da carne fresca, do leite e dos ovos, o ferro e as vitaminas das verduras e de muitas outras frutas.

Na cidade de São Paulo, um número menor de pessoas vivia nessas condições. Mas só por um motivo: menos gente morava aí... Essa que hoje é a maior cidade brasileira não tinha, em 1880, mais que 80 mil habitantes.

Como no Rio de Janeiro, a maioria da população era subnutrida e vivia em choupanas ou cortiços que só agradavam mesmo os ratos. Quando os rios Tietê e Tamanduateí transbordavam, devido às chuvas, inúmeras famílias ficavam desabrigadas.

No Rio de Janeiro e em São Paulo, alguns não sentiam na carne esses problemas. Eram as famílias das classes abastadas, que moravam em confortáveis chácaras, comiam do bom e do melhor e se vestiam elegantemente. Pareciam viver em outro país.

O que pensaria Tião Carga d'Água ao ver aquela gente passeando num coupé - um veículo fechado, de quatro rodas, puxado por dois burros bem tratados? E o que dizer daquele milionário extravagante, que mandou vir da África uma parelha de zebras para puxar sua carruagem?

Morando e comendo mal, parte da população do Rio de Janeiro ao menos podia viajar nos bondes puxados a burro, um meio de transporte coletivo. Mas certas madames condenavam:

- É imperdoável deslize de polidez misturar pessoas de hábito educado com gente do povo!

Um senhor, que já começava a se destacar como político e advogado da "Light" - companhia que passou a explorar todas as linhas -, não pensava assim:

- O bonde foi a salvação da cidade, o grande instrumento de seu progresso material. Foi ele que dilatou a zona urbana, arejando a cidade e tornando possível a moradia fora da região central. Se não existisse, era preciso inventá-lo.

Esse senhor era Rui Barbosa. Apesar de tantos elogios aos bondes, ele não dispensava, no entanto, sua chique carruagem modelo landau...

Pois o bonde, a "salvação da cidade", foi o estopim de um conflito que fez a Corte parecer o sertão do Quebra-Quilo! No primeiro dia de 1880 o governo deu um "presente de ano novo" para a população carioca: aumentou as passagens dos bondes em 20 réis...


Morar mal, comer pior e ainda por cima ter que pagar mais pelo transporte era insuportável!

Daí, cerca de quatro mil pessoas decidiram ir até a Quinta da Boa Vista, para entregar um "Manifesto ao Imperador". Lá encontraram a polícia, que lhes barrou o caminho. Disposta assim mesmo a impedir o aumento, a multidão reuniu-se no Campo de São Cristóvão, iniciando um grande comício de protesto. A cavalaria imperial atacou os manifestantes, e eles reagiram. Era o começo da "Revolta do Vintém".

Para se defender, o povo atirou pedras na polícia, arrancou trilhos e quebrou muitos bondes. Os tumultos duraram três dias e estenderam-se por vários bairros da cidade, como se em cada um houvesse um barril de pólvora. Diversas lojas foram saqueadas. De forma desordenada e explosiva, a população mostrava que daquele jeito não era possível viver.

A "Revolta do Vintém" só terminou quando o Exército entrou em ação. Nas ruas da cidade, semidestruída pela rebelião popular, havia dez mortos.

O imperador explicou-se:

- É a primeira vez que sucede isso no Rio, desde 1840. Há quase quarenta anos que presido esse governo, sem que houvesse necessidade de atirar no povo. Mas que remédio? A Lei tem que ser respeitada.

Os belos e calmos dias do Segundo Reinado estavam no fim. É o que pareciam mostrar acontecimentos como a Revolta do Quebra-Quilo e a Revolta do Vintém. Não era à toa que a cabeça do imperador ficava cada dia mais branca...

ALENCAR, Chico et alli. Brasil Vivo 1: uma nova história da nossa gente. Petrópolis: Vozes, 1991. p. 146-148.