"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 27 de maio de 2017

Diagnóstico da Civilização

As idades do homem e a morte, Hans Baldung

Em algum lugar de alguma selva, alguém comentou:

Como os civilizados são esquisitos. Todos têm relógio e ninguém tem tempo.

GALEANO, Eduardo. O caçador de histórias. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 115.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Objetos perdidos

O século XX, que nasceu anunciando paz e justiça, morreu banhado em sangue e deixou um mundo muito mais injusto que o que havia encontrado.

O século XXI, que também nasceu anunciando paz e justiça, está seguindo os passos do século anterior.

Lá na minha infância, eu estava convencido de que tudo o que na terra se perdia ia parar na lua.


Pegada do piloto do módulo lunar da Apolo 11, Buzz Aldrin, na superfície lunar. 20 de julho de 1969. 
Foto Buzz Aldrin

No entanto, os astronautas não encontraram sonhos perigosos, nem promessas traídas, nem esperanças rotas.

Se não estão na lua, onde estão?

Será que na terra não se perderam?

Será que na terra se esconderam?

GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 339. 

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Francisco de Bourbon: noivo com rendas (Parte 3)

Parte 3: Final cor-de-rosa

Depois deste episódio, a influência política do padre Claret aumentou consideravelmente, acompanhado por dois pitorescos agentes do Vaticano: Soror Maria dos Patrocínios, "a freira das chagas", que tinha inventado um falso milagre infligindo a si própria os estigmas de Cristo, e uma estrambólica personagem chamada padre Fulgêncio. Sob o conselho deste trio de religiosos fundamentalistas, Isabel começou a tomar medidas cada vez mais reacionárias, desde que as suas escapadelas adúlteras não chegassem aos ouvidos do papa. O povo começou a expressar abertamente a sua rejeição e os liberais dedicaram-se a plantar conjuras para destronar a rainha. Francisco, que se limitava a fazer a sua vida com os amigos e amantes sem intervir nos assuntos do reino, viu chegada a hora do divórcio. Participou abertamente nas conspirações opositoras, às quais ofereceu apoio institucional e celebrou alvoroçado a revolução de 1868, que obrigou Isabel II a exilar-se em França, embora também tenha seguido o mesmo caminho. Dois anos mais tarde, Isabel abdicou em Paris a favor de Afonso XII, enquanto Francisco, feliz e contente, se dedicou a desfrutar a vida e as suas alegrias durante longos anos. Morreu, já octogenário, nas sua quinta como uma personagem secundária, mas sem lhe negar o mérito de ter sido, desde os tempos do infante dom Jaime, o primeiro a ostentar sem sentimento de culpa a sua condição de gay.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 210.

Galeria de imagens: "Los borbones em pelota", aquarelas atribuídas a Valeriano Domínguez Bécquer & Gustavo Adolfo Bécquer, século XIX.

A la izquierda: Francisco de Asís sosteniendo una pelela; Isabel II en la cama siendo fornicada por el Padre Antonio María Claret; a la derecha, Carlos Marfori. Texto: ¡Oh viejo que estás jodiendo! / al infierno vas cayendo!

Francisco de Asis de Borbon. Texto: "El rey consorte, primer pajillero de la Corte."


Carlos Marfori con una botella de vino; Sor Patrocinio recibiendo el galanteo de González Bravo; Francisco de Asís requiriendo a González Bravo mientras es sodomizado por el Padre Antonio María Claret; en el suelo, dos perritos copulando (no se puede apreciar de qué sexo son los dichos perritos)


Isabel II con su intendente Carlos Marfori. Fco de Asís. A la derecha espera un batallón de guardia.
Leyenda de la acuarela:
Isabel —Espérate a que acabe mi intendente.
Paquita —¡Aguardemos la vez, como en la fuente!


Isabel II fornicando con Carlos Marfori. Texto: "¡Carlos, Carlos, yo lo espero / de tu hidalgo corazón / mételo sin dilación / que ya por joder me muero!"


Viñeta de la saga satírica Los Borbones en Pelota con el pareado "Sentada está en su poltrona, con cetro, chulo y corona"


(Reproducción o ilustración del álbum de láminas satíricas "Los Borbones en pelota")

domingo, 9 de outubro de 2016

Francisco de Bourbon: noivo com rendas (Parte 2)

Parte 2: A rainha dissoluta e o seu marido gay


Retrato do rei Francisco de Bourbon, rei consorte de Espanha por seu matrimônio com a rainha Isabel II de Espanha. Artista desconhecido 

A cerimônia nupcial celebrou-se com grande pompa e circunstância no dia 10 de Outubro de 1846, com Francisco de Assis adornado e enfeitado com as suas melhores vestes e a rainha resplandecendo, vaidosa, nos seus corpulentos dezasseis anos acabados de completar, ambos com um ar de resignação no olhar húmido. O povo de Madrid celebrou como convinha o primeiro casamento de uma rainha desde o de Isabel com Fernando, em 1496, que, para cúmulo, se tinha celebrado em segredo. Nessa noite, depois de terminados os festejos, ouvia-se pelas ruas uma cantoria desafinada e jocosa que descrevia assim o casal real: "Isabelona, tão frescalhona e dom Paquito, tão 'mariquito'".

Dentro do palácio, os protagonistas confirmavam a cançoneta. Francisco de Assis apresentou-se na alcova real com uma camisa tão carregada de bordados e rendas, que provocou o sarcástico comentário que abre a Parte 1. A noite não deu para muito mais e, na manhã seguinte, saíram ambos com forçados sorrisos de circunstância. O passar das semanas, que se transformou em meses, não trouxe qualquer novidade ao ventre da rainha e pela corte começou a correr o rumor que Francisco, para além das suas particulares tendências, também era impotente. Uma criada de quarto ventilou a confidência de o real esposo não ter força no seu... e que o tinha visto a urinar sentado na sanita. O engenho popular não tardou a inventar uma nova rima a esse respeito:

"Paquito adocicado,
De creme parece ser;
Até urina sentado
Tal como uma mulher..."

Apesar de continuar a enfeitar-se, Francisco de Assis tentou manter uma atitude prudente e formal no desempenho do papel de marido real. Também é provável que, de vez em quando, tentasse uma cópula, cujo fruto teria contentado a corte, o povo e talvez a própria interessada. Mas Isabel não tinha nascido para piloto de ensaios e as suas hormonas, em pleno desenvolvimento, pediam-lhe outro tipo de guerra. Lançou-se numa vida cada vez mais libertina, oferecendo o seu corpo adolescente e robusto às alegrias que não encontrava com Francisco. Talvez ele tivesse suportado com alívio esta situação se a rainha tivesse mantido a compostura em público. Contudo, Isabel não só não dissimulava a sua conduta adúltera, como também se permitia censurar o marido, gozando com os seus cornos, a sua impotência e os seus gostos afectados.

Alguns meses depois do casamento, Isabel II tomou por amante o general Francisco Serrano, duque da Torre, ministro da Guerra e herói da guerra carlista. Numa recepção do palácio, Serrano soltou um comentário ofensivo sobre a situação conjugal de Francisco, que não perdoou a Isabel tê-lo aplaudido ruidosamente. A partir deste incidente, quebrou-se a trégua entre ambos, que passaram a ocupar quartos separados. A rainha aproveitou a ocasião para aumentar escandalosamente a lista de amantes, incluindo o seu professor de canto, o compositor de zarzuelas Emilio Arrieta; o sedutor profissional Emilio Marfiori, a quem nomeou conselheiro do reino e ministro do Ultramar; o aristocrático duque de Bedmar e, entre muitos outros, o oficial de engenharia catalão Puig i Moltó, presumível pai de Afonso XII.

A conduta libertina de Isabel trouxe-lhe inevitavelmente problemas com o Vaticano, que chegou a ameaçá-la veladamente com a excomunhão. O assunto sanou-se graças aos bons ofícios do padre Antonio María Claret, confessor da rainha e futuro santo, que utilizou toda a sua influência junto de Pio IX. Isabel  prometeu emendar-se e devolveu à Igreja uma série de propriedades e prerrogativas perdidas com os governos liberais. A Santa Sé estabeleceu uma concordata com Espanha, em 1851, e diz-se que, quando um cardeal recordou ao pontífice a fama da rainha, este concordou sorridente e suspirou enquanto assinava. "Si, puttana; má pia".

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 208-9.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Francisco de Bourbon: noivo com rendas (Parte 1)

Parte 1: Matrimônio por impotência

Por amor de Deus, Francisco, usas mais rendas que eu!
(Isabel II, na sua noite de núpcias)

 Retrato de Francisco de Assis Bourbon, Federico de Madrazo y Kuntz

Francisco de Assis de Bourbon era o secundogénito desta nobre casa, que teve a sorte de se casar com uma rainha e o azar de esta ser sua prima Isabel II de Espanha. Muito mulher, em todos os sentidos, para que um marido homossexual e bastante efeminado pudesse levar com alguma dignidade um matrimônio de aparência por razões de Estado. O pobre Francisco, Paquito como todos lhes chamavam, tentou honestamente no início, mas sem conseguir dissimular de todo os seus adornos. Mas Isabel também não perdeu tempo. Pouco depois do casamento, lançou-se numa vida imprópria de qualquer senhora e muito menos de uma rainha. Os seus coquetismos públicos, a sua enorme colecção de amantes, as suas piadas cortantes sobre o seu efeminado marido, que o faziam corar de vergonha e o indignavam ao mesmo tempo, deterioravam tanto a sua imagem pública como a paciência do forçado cônjuge. O confronto levou a uma ruptura, nem se dando ao trabalho de manterem as aparências, e Francisco começou a tramar uma elaborada vingança.

Quando, em 1822, Francisco de Assis de Bourbon nasceu no palácio de Aranjuez, foi para fazer parte de uma família complicada.

O pai, o infante Francisco de Paula, tinha sido oficialmente o herdeiro da coroa, embora nunca tivesse chegado a reinar. A revolta de Aranjuez de 1808, que motivou a abdicação de Carlos IV, destituiu o seu primogénito a favor do irmão mais novo, que subiu ao trono como Fernando VII. A razão evocada pelos amotinados e referendada pelas Cortes de Cádis foi a de Francisco de Paula não ser, na verdade, filho de Carlos IV, mas do odiado favorito Godoy e da rainha Maria Luísa. O presumido bastardo ficou na incómoda posição de infante despeitado e ressentido, com o título de consolação de duque de Cádis. Francisco cresceu nesse ambiente paterno de rancor surdo, refugiado no amor e nos excessivos mimos de sua mãe, Luísa Carlota de Nápoles. Ao chegar à puberdade, era um menino muito bonito, baixo e gordo, de maneiras efeminadas e uma constante obsessão pela roupa requintada, pelos perfumes e adornos extravagantes. Algum tempo depois, os mexericos da corte já lhe atribuíam o seu primeiro amante na figura do duque de Baños, com quem Francisco exibia a sua afetada elegância em locais de diversão frequentados pela aristocracia e pela nova classe política.

Entretanto, sobreveio a restauração de Fernando VII, que não honrou o seu cognome de O Desejado ao derrogar a constituição liberal de 1812 (a famosa "Pepa") e provocar com isso uma série de revoltas que o obrigaram a estabelecê-la e a admitir um governo liberal. O triénio progressista terminou abruptamente com a invasão dos "Cem mil filhos de São Luís", uma tropa francesa enviada pela Santa Aliança para repor o regime absolutista. Em 1829, Fernando VII casava-se com Maria Cristina de Bourbon, que lhe deu uma filha chamada Isabel. Para que ela pudesse herdar o trono, o rei aboliu a tradicional Lei Sálica, que excluía as mulheres da sucessão, o que causou a indignação dos sectores conservadores ultracatólicos, que começaram a plantar a candidatura do infante Carlos, irmão de Fernando e, até então, legítimo herdeiro. O soberano faleceu em 1833 e Maria Cristina apressou-se a coroar a filha e a assumir a regência.

Isabel II tinha três anos de idade quando foi proclamada rainha de Espanha, com o desacordo dos ultramontanos que desencadearam a chamada primeira guerra carlista. Em 1840, as tropas reais obtém uma difícil vitória, comandadas pelo hábil e ambicioso general Baldomero Fernández Espartero. A rainha-mãe cede-lhe então a regência, que termina três anos depois com a declaração da maioridade de Isabel. Por volta dos treze anos, a rainha era uma menina gorda e caprichosa e, ao mesmo tempo, um tentador partido político para todos os grupos internos e numerosos governos europeus. Todos começaram a procurar-lhe um noivo, atendendo aos vários interesses em causa.

Entre os aspirantes com mais possibilidades estavam Leopoldo de Saxe-Coburgo, favorito da rainha-mãe; Carlos Luís Bourbon, conde de Montemolín, proposto pelos franceses, e Pedro de Bragança, filho do rei de Portugal, que na altura teria apenas oito anos. Mas os reinos patrocinadores vêem os seus candidatos recusados uns atrás dos outros. Surge então a ideia de organizar o duplo matrimónio de Isabel II e de sua irmã, a infanta Maria Luísa, com dois noivos que compensassem as diferenças políticas e dinásticas no teatro europeu. O rei de França, Luís Filipe de Orleães, aproveita e monta um maquiavélico plano. Os seus agentes em Espanha asseguraram-lhe que Francisco de Assis era homossexual e diz-se que a própria Luísa Carlota confirmou em segredo esta condição do seu filho, com a esperança de o rapaz se esforçar e lhe dar um neto que pudesse reinar. Luís Filipe, mais céptico, acredita ser pouco provável que isso ocorra e concretiza a sua proposta: Isabel casar-se-á com Francisco, que é um Bourbon, e a infanta Maria Luísa, com António de Orléans. Se, como era de esperar, a rainha e o seu cônjuge não tivessem descendência, a Casa de Orléans passaria a deter a coroa de Espanha.

Maria Cristina aceitou esta opção para consolidar as suas delicadas relações com a França e o matrimônio recebeu a aprovação do governo e das cortes. A única que se opôs frontalmente ao casamento foi a própria noiva que, de acordo com as crónicas, caiu num histérico ataque de choro e ameaçou abdicar, gritando: "Com Paquito não! Com Paquito não!".

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 204-8.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Peregrinação a Kiev e bailes de máscaras em Moscou (Parte 3)

Catarina II da Rússia, Dmitry Grigoryevich Levitsky

Naquele outono, porém, Catarina viu e sentiu o lado negro da personalidade de Elizabeth. A vaidade da imperatriz exigia que ela fosse não somente a mais poderosa mulher do império, mas também a mais bela. Não tolerava ouvir elogios à beleza de outra mulher. Os triunfos de Catarina não lhe passaram despercebidos, e sua irritação encontrou um escape. Numa noite, na Ópera, a imperatriz estava com Lestocq no camarote real, oposto ao camarote de Catarina, Joana e Pedro. No intervalo, a imperatriz notou Catarina conversando alegremente com Pedro. Como poderia essa jovem, a radiante saúde e confiança em pessoa, agora tão popular na corte, ser a mesma menina tímida que chegara à Rússia um ano antes? De repente, o ciúme da imperatriz flamejou. Olhando para a mulher mais jovem, ela pegou o primeiro agravo que lhe veio à mente. Como se o assunto não pudesse esperar, despachou Lestocq para o camarote de Catarina para lhe dizer que a imperatriz estava furiosa com ela porque tinha contraído débitos inaceitáveis. Elizabeth lhe dera 30 mil rublos para onde tinham ido? Ao dar o recado, Lestocq fez questão de que Pedro e todos à volta pudessem ouvir. As lágrimas jorraram dos olhos de Catarina e, mesmo chorando, recebeu nova humilhação. Pedro, em vez de consolá-la, disse que concordava com a tia e achava apropriado que a noiva fosse repreendida, Joana então declarou que, como Catarina não mais a consultava sobre como sua filha deveria se comportar, "lavava as mãos" daquela história.

A queda foi súbita, abrupta. O que tinha acontecido? Que crime tinha cometido a menina de 15 anos, que só pensava em agradar a todo mundo, especialmente à imperatriz? Catarina foi verificar e viu que tinha um débito de 2 mil rublos. A quantia era irrisória em vista da extravagância e generosidade da própria Elizabeth, e a reprimenda era obviamente uma desculpa para encobrir outra queixa. É verdade que Catarina gastava sem restrições. Tinha mandado dinheiro para o pai pagar as despesas de seu irmão. Tinha gastado consigo mesma. Ao chegar à Rússia com apenas quatro vestidos e uma dúzia de roupas de baixo em seu baú, e assumindo seu lugar numa corte em que as mulheres trocavam de roupa três vezes por dia, ela usou parte de sua mesada para montar um guarda-roupa. Mas a maior parte havia sido gasta em numerosos presentes para sua mãe, suas damas de companhia e para o próprio Pedro. Ela descobrira que o meio mais eficaz de pacificar o temperamento da mãe e parar com as constantes implicâncias entre Joana e Pedro era dar presentes para ambos. Percebeu que, naquela corte, presentes conquistavam amizades. Percebeu também que a maioria das pessoas a sua volta não fazia objeção a receber presentes. Portanto, ansiosa por conquistar boa vontade, não viu motivo para desprezar esse método simples e poderoso. Em poucos meses, tinha aprendido não só a língua, mas também os costumes da Rússia.

Era difícil entender e aceitar esse repentino ataque da imperatriz. Revelava as duas faces de Elizabeth, uma mulher que, alternadamente e sem aviso, encantava e intimidava. Depois, quando Catarina se lembrava da lição aprendida ao lidar com um ego inflado como o de Elizabeth, todas as mulheres da corte deviam evitar ter muito sucesso. Ela se esforçou para se reintegrar com sua protetora. E Elizabeth, quando o ataque de ciúmes cedeu, se abrandou e acabou por esquecer o incidente.

MASSIE, Robert K. Catarina, a grande: retrato de uma mulher. Rio de Janeiro: Rocco, 2012. p. 87-88.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Peregrinação a Kiev e bailes de máscaras em Moscou (Parte 2)

Catarina II da Rússia, Fyodor Rokotov

"Sabendo como minha mãe se exaltava facilmente e que seu primeiro impulso era sempre muito violento, temi que ela me desse um tapa se eu discordasse dela. Sem querer mentir para ela nem ofender o grão-duque, fiquei calada. Contudo, acabei dizendo a minha mãe que eu não achava que o grão-duque tinha feito de propósito."

Joana então se voltou contra Catarina.

Quando minha mãe estava com raiva, tinha de achar alguém com quem brigar. Permaneci em silêncio e depois explodi em lágrimas. A princípio, meu silêncio enraiveceu a ambos. Então o grão-duque, vendo que toda a raiva de minha mãe se dirigiu para mim porque eu tinha tomado o partido dele e que eu estava chorando, acusou minha mãe de ser uma megera arrogante e injusta. Ela contra-atacou, dizendo que ele era "um menininho mal-educado". Seria impossível brigar com mais violência sem chegar aos tapas.

A partir de então, o grão-duque tomou grande antipatia por minha mãe e nunca esqueceu aquela briga. Minha mãe, por sua vez, guardou por ele um irremediável rancor. Aquele relacionamento tenso se tornou cada vez mais cheio de amargor e suspeita, passível de azedar a qualquer momento. Nenhum dos dois conseguia esconder de mim seus sentimentos. E por mais que me esforçasse para obedecer a uma e agradar ao outro - e de algum modo promover a reconciliação -, conseguia isso apenas por curtos períodos. Cada um tinha sempre uma farpa de sarcasmo ou malícia pronta a ser arremessada. Minha posição ficava mais difícil a cada dia.

Catarina estava angustiada, mas o mau gênio da mãe e a simpatia de catarina pelo grão-duque surtiram um efeito: "Na verdade, naquela época, o grão-duque abriu seu coração para mim mais que para qualquer outra pessoa. Ele via que minha mãe sempre me atacava e me repreendia quando não conseguia encontrar alguma falta nele. Isso me colocou numa alta posição em sua estima; ele acreditava poder confiar em mim."

No clímax da peregrinação, a imperatriz e a corte passaram dez dias em Kiev. catarina teve uma visão inicial panorâmica da magnífica cidade, com seus domos dourados se erguendo de uma encosta na margem oeste do rio Dnieper. Elizabeth, Pedro e Catarina entraram a pé na cidade, andando com uma multidão de padres e monges atrás de uma grande cruz. Em toda parte da mais sagrada de todas as cidades russas, numa época em que a Igreja era imensamente rica e o povo devotamente piedoso, a imperatriz foi recebida com uma pompa extravagante. Na famosa igreja de Assunção no monastério Pecharsky, Catarina ficou admirada com o fausto das procissões, a beleza das cerimônias religiosas, o incomparável esplendor das próprias igrejas. "Nunca, em toda a minha vida", ela escreveu mais tarde, "algo me deixou tão impressionada quanto a extraordinária magnificência daquela igreja. Todos os ícones eram recobertos de ouro maciço, prata, pérolas e incrustados de pedras preciosas."

Embora tão impressionada por esse espetáculo visual, nunca em sua vida Catarina foi muito devotada à religião. Nem a austera crença luterana de seu pai, nem a apaixonada fé ortodoxa da imperatriz Elizabeth jamais tomaram posse de sua mente. O que ela via e admirava na igreja russa era a majestade da arquitetura, da arte e da música, mescladas numa esplêndida unidade de inspirada - embora feita pela mão do homem - beleza.

Tão logo Elizabeth e a corte retornassem de Kiev, começou nova temporada de óperas, festas e bailes de máscaras em Moscou. Cada noite Catarina aparecia com um vestido novo e lhe diziam que estava muito bonita. Ela era astuta o bastante para reconhecer que a lisonja era o óleo lubrificante da vida na corte, e estava também ciente de que algumas pessoas ainda a desaprovavam. Bestuzhev e seus seguidores, damas ciumentas que invejavam a estrela em ascensão, parasitas que mantinham minuciosa contabilidade da distribuição de favores. Catarina tentava de todas as maneiras desarmar seus críticos. "Eu tinha medo de não ser querida e fazia tudo em meu poder para conquistar aqueles com quem iria passar minha vida", ela escreveu mais tarde. Acima de tudo, ela nunca esqueceu a quem devia maior lealdade. "Meu respeito pela imperatriz e minha gratidão a ela eram extremos", ela disse. "E ela costumava dizer que me amava tanto ou mais que ao grão-duque."

Um modo certo de agradar a imperatriz era dançar. Para Catarina era fácil: assim como Elizabeth, ela gostava apaixonadamente de dançar. Diariamente, às sete horas da manhã, monsieur Lande, o mestre francês de balé na corte, chegava com seu violino e, durante duas horas, ensinava-lhe os passos da última moda em Paris. De quatro a seis da tarde, ele voltava para outra aula. E assim, à noite, Catarina impressionava a corte com sua dança graciosa.

Alguns desses bailes noturnos eram bizarros. Toda terça-feira, por decreto da imperatriz, os homens vinham vestidos de mulher e as mulheres vestidas de homem. Catarina, aos 15 anos, se deliciava com essa mudança de trajes. "Devo dizer que não havia nada mais horrendo e ao mesmo tempo mais cômico do que ver quase todos os homens vestidos desse jeito e nada mais triste do que ver as mulheres em roupas de homem." A grande maioria da corte detestava profundamente essas noites, mas Elizabeth tinha um motivo para esse capricho: ela ficava esplêndida em roupas de homem. Embora longe de ser esguia, sua silhueta de busto farto ficava realçada pelo par de pernas esbeltas, maravilhosamente bem torneadas. Sua vaidade exigia que aquelas pernas elegantes não permanecessem escondidas, e a única maneira de exibi-las era em calças justas masculinas.

Catarina descreveu o perigo com que se defrontou numa dessas noites:

Monsieur Sievers, muito alto, usando um vestido com ampla anágua armada que a imperatriz lhe emprestara, estava dançando uma polonaise comigo. A condessa Hendrikova, que dançava atrás de mim, tropeçou na anágua armada de monsieur Sievers no momento em que ela dava um rodopio segurando minha mão. Ao cair, ela esbarrou em mim com tanta força que caí debaixo da anágua, que tinha saltado como uma mola bem ao meu lado. Sievers, por sua vez, se embaraçou nas próprias saias longas, que estavam em grande desordem, e acabamos nós três estatelados no chão, eu inteiramente coberta pela anágua dele. Eu estava morrendo de rir, tentando me levantar, mas foi preciso que viessem nos ajudar porque estávamos tão embrulhados na roupa de monsieur Sievers que nenhum dos três conseguia se levantar sem fazer com que os outros dois tornassem a cair.

MASSIE, Robert K. Catarina, a grande: retrato de uma mulher. Rio de Janeiro: Rocco, 2012. p. 84-87.

sábado, 1 de outubro de 2016

Peregrinação a Kiev e bailes de máscaras em Moscou (Parte 1)

Catarina com o seu marido, o czar Pedro III e o filho, o futuro czar Paulo I, em 1760, Anna Rosina Lisiewska

A noiva chegara à Rússia, era jovem, sua saúde fora recuperada e as dificuldades envolvendo sua conversão à religião ortodoxa tinham sido superadas. Agora que ela e Pedro estavam noivos, o que impedia um casamento imediato? Um obstáculo difícil de ser vencido até mesmo por uma imperatriz, era a cautelosa opinião dos médicos quanto a Pedro. Aos 16 anos, o grão-duque mais parecia ter 14, e os doutores ainda não conseguiam detectar nele qualquer sinal convincente de puberdade. Achavam que levaria pelo menos um ano até que ele pudesse gerar um filho. Ainda que ocorresse uma gravidez, restariam nove meses até o nascimento da criança. Para Elizabeth, esse tempo - 21 meses - parecia uma eternidade. E como o casamento precisava ser adiado, a imperatriz precisava adiar também a partida de Joana.

Aceitando com relutância esses desapontamentos, Elizabeth decidiu tomar outras medidas em peregrinação a Kiev, a mais antiga e sagrada cidade da Rússia, onde a cristandade fora introduzida pelo grão-príncipe Vladimir no ano 800 d.C. A viagem de Moscou a Kiev, de quase 900 quilômetros, foi sugerida a Elizabeth por seu amante ucraniano, Razumovsky, e inclua Pedro, Catarina e Joana, com suas respectivas comitivas, além de 230 cortesãos e centenas de servos. A caminho, as fileiras de carruagens e carroças com bagagens sacolejavam dia após dia nas estradas infindáveis, infligindo cansaço, tédio, fome e sede aos passageiros. Os cavalos eram trocados frequentemente. A cada posto de muda, oitocentos animais descansados aguardavam a chegada da caravana imperial.

Enquanto os eminentes da corte russa viajavam em carruagens forradas com almofadas de veludo, uma pessoa seguia a maior parte do trajeto a pé. Elizabeth levava muito a sério a penitência e a peregrinação. Caminhando pelas estradas russas quentes e sem sombras, suando com o calor e murmurando orações, Elizabeth parava para rezar em cada igreja de cada aldeia e em cada santuário do caminho. Enquanto isso, Razumovsky, prático e modesto, tanto nas perspectivas terrenas como nas celestiais, preferia acompanhá-la em sua confortável carruagem.

Catarina e Joana começaram a viagem numa carruagem com duas damas de companhia. Pedro seguia em outra carruagem, com Brümmer e dois tutores. Um dia, cansado de seus "pedagogos", como Catarina os chamava, Pedro resolveu se reunir às duas princesas germânicas, cuja companhia ele julgou ser mais animada. Saindo de sua carruagem, ele "entrou na nossa e se recusou a sair", trazendo com ele um dos alegres jovens de sua comitiva. Não demorou para que Joana, irritada com a presença dos jovens, quisesse fazer outra arrumação. Joana tinha uma carroça equipada com pranchões e almofadas de modo a acomodar dez pessoas. Para seu aborrecimento, Pedro e Catarina insistiram em encher essa carroça com outros jovens. "Só deixamos ficar conosco os mais engraçados e divertidos da nossa comitiva", Catarina disse. "De manhã à noite, só fazíamos rir, brincar e ter alegria." Brümmer, os tutores e as damas de companhia de Joana ficaram insultados com essa troca, que ignorava a precedência da corte. "Enquanto nos divertimos, eles ficaram numa carruagem, todos os quatro, mal humorados, repreendendo, condenando, fazendo comentários azedos à nossa custa. Em nossa carruagem, sabíamos disso, e ríamos deles."

Para Catarina, Pedro e seus amigos a viagem não foi uma peregrinação religiosa, mas uma excursão, uma grande brincadeira. Não havia pressa. Elizabeth só caminhava poucas horas por dia. Ao fim de três semanas, a comitiva principal chegou à grande mansão de Alexis Razumovsky em Koseletz, onde esperaram mais três semanas até que a imperatriz aparecesse. Quando finalmente ela chegou, em 15 de agosto, o aspecto religioso da peregrinação foi suspenso temporariamente. Durante duas semanas, os "peregrinos" se reuniam numa sucessão de bailes, concertos e, de manhã à noite, em jogos de cartas tão febricitantes que às vezes 40 ou 50 mil rublos se amontoavam nas mesas.

Enquanto estavam em Koseletz, houve um incidente que gerou uma rusga permanente entre Joana e Pedro. Começou quando o grão-duque entrou numa sala em que Joana estava escrevendo. Num banquinho ao lado dela, estava sua caixa de joias, onde guardava as pequenas coisas que lhe eram caras, inclusive suas cartas. Pedro, de brincadeira, para fazer catarina rir, fingiu remexer na caixa e pegar as cartas. Joana lhe disse severamente que não tocasse naquilo. O grão-duque, ainda se exibindo, saiu correndo pela sala, mas, ao fazer piruetas para se afastar de Joana, seu casaco se prendeu na tampa aberta, jogando a caixa e todo o conteúdo no chão. Joana, pensando que ele tinha feito isso intencionalmente, teve um acesso de fúria. Pedro ainda tentou se desculpar, mas, quando ela se recusou a acreditar que havia sido por acidente, ele também se zangou. Os dois começaram a gritar um com o outro, e Pedro, apelando para Catarina, pediu que atestasse a inocência dele.

Catarina ficou no meio da briga.

MASSIE, Robert K. Catarina, a grande: retrato de uma mulher. Rio de Janeiro: Rocco, 2012. p. 82-84.

domingo, 11 de setembro de 2016

American way of life

A nova posição feminina expressava-se por meio de comportamentos considerados ousados e vistos pelos conservadores como mais uma "prova" de decadência nos padrões de convivência humana: encurtamento das saias até os joelhos, cabelo curto, hábito de frequentar bares e prática de danças como o foxtrote e o charleston. 
Foto: Inspeção de trajes de banho em 1919, Estados Unidos. Se o modelo fosse muito curto, a moça tinha que pagar multa

O milagre americano criou condições para que aflorasse, nas classes médias e na burguesia, um estilo de vida considerado modelo da moderna civilização ocidental: o american way of life (modo de vida americano). Tal como as mercadorias, ele foi exportado para o mundo todo¹.

* Prosperidade e liberdade. O modo de vida americano, tendo como base a riqueza, caracterizava-se pela construção de edifícios grandes e modernos, pela multiplicação de bairros residenciais cujas casas se ligavam por jardins e gramados, pelo aumento do número de carros e de aparelhos domésticos. Cada vez mais gerava-se a necessidade de consumir, alimentada pela propaganda e pelo crediário.

Na década da prosperidade presenciou-se também uma mudança na vida social e nos costumes, principalmente no que se refere à emancipação feminina. A mulher conquistou o direito de coto (1920), condição para a igualdade política. Nas décadas subsequentes, além de votar, as mulheres ocuparam cargos públicos e privados em vários escalões hierárquicos.

Contudo, a discriminação nos salários continuaria por muito tempo. Apesar disso, em 1940 as mulheres constituíam 25% da mão de obra do país, quando, em 1900, não passavam de 17,7%. A saída da mulher do lar e o trabalho ao lado do homem trouxeram mudanças significativas nos costumes e hábitos sociais. Cresceram sobretudo as reivindicações por igualdade de direitos.

A maior utilização do automóvel também provocou mudanças sensíveis no comportamento cotidiano, principalmente dos jovens, que puderam manter relações mais abertas e livres, longe do controle dos pais.

* Intolerância e fanatismo. A década de 1920 também foi marcada por manifestações de crescente intolerância, fanatismo e chauvinismo entre todas as classes e em todos os setores da sociedade norte-americana.

A política do cordão sanitário imposta à Rússia fez aflorar o medo do comunismo. O exacerbado chauvinismo intensificou o anti-semitismo, e a legislação praticamente pôs fim à imigração da Europa Meridional e Oriental. Organizaram-se ainda campanhas contra católicos.

Tomava corpo uma ideologia que reconhecia como 100% norte-americanos apenas os brancos e protestantes abastados, justificando perseguições aos negros, às outras minorias raciais e aos pobres em nome da preservação de um hipotético ideal de vida norte-americano.

Passou-se a investigar o conteúdo de livros didáticos e manuais escolares, para abolir as obras que não contivessem a apropriada glorificação do passado norte-americano. Grupos paramilitares, contando com o apoio de uns e o medo de outros, dominaram virtualmente o panorama de alguns estados, sobretudo os sulinos.

Nesse contexto, surgiu, em vários estados, a temida Ku Klux Klan², organização que fazia violenta pressão em prol do norte-americano 100%. Em 1925, a organização contava com aproximadamente 5 milhões de membros, levando fanatismo, violência e corrupção onde quer que penetrasse.

Outro componente do norte-americano 100% foi a ênfase na moralização dos costumes. Surgiram, então, várias ligas que se arrogavam o direito de defender qualquer aspecto da "civilização norte-americana" considerado em perigo. De 1919 a 1933, por exemplo, proibiu-se a fabricação, venda ou transporte de bebidas alcoólicas. A chamada Lei Seca contribuiu para o aparecimento de contrabandistas de álcool, os gângsteres e suas quadrinhas, cujo representante mais famoso foi Al Capone. (NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 434-435.)

 Agentes de proibição destruindo barris de álcool, Chicago, 1921

¹ Na década de 1920, os Estados Unidos estavam embriagados pelo elixir da prosperidade. O mundo não tinha visto nada parecido até então. [...] A família média americana vivia melhor, comia melhor, vestia-se melhor e usufruía mais da sociedade de consumo do que qualquer família média de outra parte do mundo. Eufóricos, os norte-americanos consumiam freneticamente relógios de pulso, geladeiras, latas de ervilhas, aparelhos de barbear, enceradeiras e tudo mais que o dinheiro e o crediário pudessem comprar. Enquanto na Europa a média era de um carro para 84 pessoas, nos Estados Unidos era de um para cada seis pessoas. (CAMPOS, Flávio de; MIRANDA, Renan Garcia. A escrita da história. São Paulo: Escala Educacional, 2005. p. 464.)

² A Klan foi organizada em 1915 pelo professor de história e pregador laico William J. Simmons. Adotou como modelo a organização de encapuzados que aterrorizava o sul do país depois da Guerra Civil. Os adeptos da Klan eram recrutados, principalmente, entre pessoas da classe média. Como só os protestantes brancos e nativos eram considerados capazes de compreender "racialmente" o norte-americanismo, a Klan deliberou a eliminação de católicos, judeus, negros e da maioria dos estrangeiros.

Referências:

CAMPOS, Flávio de; MIRANDA, Renan Garcia. A escrita da história. São Paulo: Escala Educacional, 2005. p. 464.
NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 434-435.

sábado, 3 de setembro de 2016

Vida privada no século XIX

O bebedor de Absinto, Édouard Manet

O aburguesamento do mundo, no século XIX, consolidou-se na construção de novos valores e padrões de concepções e comportamentos, que passaram a condicionar o dia a dia das pessoas, desde as atitudes sociais até os aspectos mais íntimos da vida privada.

O aburguesamento foi, nesse contexto, o estabelecimento de uma moral burguesa como modo final de contestação da dissolução dos costumes aristocráticos que, até certo ponto, caracterizaram o século XVIII. O núcleo desse processo foi a família, cuja constituição dependia da normatização e do controle do casamento. O casamento e a família representavam os espaços de definição dos papéis masculino e feminino. Ao homem, chefe da família, responsável por seu sustento e manutenção, correspondia o espaço público do trabalho, da rua e das atividades políticas. A mulher devia ser do lar. A ela correspondia o espaço privado, local de confinamento, do controle social e da proteção.

No café, Édouard Manet

* Moral burguesa e papel da mulher. O casamento burguês era rigorosamente monogâmico. Mas só se exigia fidelidade da mulher. As experiências extraconjugais eram não só consideradas normais como até estimuladas... para os homens! Os direitos de marido e pai não eram contestados e incluíam a violência. Castigos físicos (surras) nas crianças e nas esposas eram comuns. Quando muito, condenavam-se os excessos, que não eram raros.

A dupla moral burguesa, que admitia a liberdade masculina e impunha a reclusão das moças e senhoras de família, praticamente determinava a existência generalizada da prostituição.

As mulheres que se atreviam a contestar a ordenação burguesa e machista do mundo eram tratadas como prostitutas ou loucas. A mulher que permanecia solteira e não se tornava religiosa era alvo de estereótipos negativos. Muitas eram internadas pelas próprias famílias em conventos ou asilos para alienados mentais quando seu comportamento fugia dos padrões de moralidade vigente a ponto de "envergonhar" o grupo doméstico a que pertenciam.

Tempos difíceis, Hubert von Herkomer

* Opressão dos pobres. Para a moral burguesa, o principal desvio e contestação era representado pela pobreza. Para o pensamento burguês dominante, ser moral era ser rico. O pobre, portanto, era "imoral", ao qual se reservava a conversão ou a punição. Foram criadas instituições evangélicas (religiosas e leigas) cujo propósito era "converter", moralizando, os pobres. Caso não se convertesse, o pobre era punido, inclusive com a prisão.

A condenação da pobreza representava mais um estigma contra a mulher. Se fosse casada com homem pobre, era obrigada a trabalhar fora, não podendo exercer plenamente sua condição de "mulher do lar".

O aburguesamento do mundo, em especial do europeu, engendrou reações contrárias: mulheres e pobres se calaram. A oposição dos pobres estava presente principalmente nas lutas dos trabalhadores. As mulheres reagiram tanto individual quanto social e politicamente, em instituições e movimentos organizados para enfrentar o poder masculino, dando origem ao feminismo.

* Reação das mulheres. O feminismo, ou luta pelos direitos das mulheres, foi fenômeno típico da segunda metade do século XX. No entanto, suas origens recuam ao final do século XVIII. O movimento pelos direitos das mulheres ganhou expressão política na luta pela conquista do direito de voto, que nas revoluções liberais havia sido universalizado... para os homens!

A luta feminina estendeu-se por todo o século XIX. Em 1882, as várias sociedades feministas formaram a União Nacional das Sociedades em defesa do sufrágio feminino. Muitos homens integraram a luta em prol do voto feminino.

O movimento feminista foi interrompido em 1914, quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial. Em 1918, o voto feminino foi concedido às mulheres casadas, às chefes de família e às universitárias com mais de 30 anos. Só em 1928 o direito de voto foi estendido a todas as mulheres maiores de 21 anos, tal como acontecia com os homens.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 370-372.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Vício solitário: a masturbação no século XIX nos colégios internos

Masturbação, 1911, Mihály Zichy

Quando se apagam as luzes do dormitório, um jovem regente, responsável por vigiar os outros estudantes, toma sua posição estratégica. Enquanto finge dormir, observa atentamente as atitudes do suspeito, numa cama próxima. Algum tempo depois, começam os movimentos característicos e a respiração "frequente e suspirosa". Está armado o flagrante. Silenciosamente, o regente levanta-se, aproxima-se da cama e surpreende o estudante no meio da manobra. Dá início, então, ao escândalo. Os pensionistas acordam sobressaltados e, sentados em seus leitos, testemunham o sermão público contra aquelas "imundas práticas". "Confuso e envergonhado, o delinquente agradece os bons conselhos" e promete deixar para trás a masturbação.

A cena aconteceu no Seminário de Diamantina, provavelmente no início de 1860, em Minas Gerais, e foi uada como exemplo pelo médico João da Matta Machado em 1875. Ele ensinava que, se houvesse fortes suspeitas de masturbação contra um interno do colégio, deveria ser provocada a "confissão de delito" ou a acusação direta. E se esses meios se mostrassem ineficazes, não se poderia hesitar em utilizar o recurso extremo de surpreender o colegial em "flagrante delito" e expô-lo ao escárnio dos colegas.

Jovem sendo penetrado. Os outros três homens se masturbam. Miniatura otomana do livro Sawaqub al-Manaquib, século XIX, Artista desconhecido

A prática do onanismo entre alunos de internatos era uma preocupação e objeto de estudo de muitos médicos no século XIX. Para eles, a vida reclusa contribuía para propagar e agravar a prática das "manobras secretas" entre os meninos e as meninas. Para reprimir o "terrível inimigo" entre os colegiais, os médicos indicavam um conjunto de "regras higiênicas" direcionado aos diretores dos colégios, aos professores e às famílias.

Na tese A libertinagem e seus perigos relativamente ao físico e moral do homem, publicada em 1853, o médico Marinonio de Freitas Britto registrou que a masturbação estava muito difundida entre os meninos e os moços na cidade de Salvador. Segundo ele, os indivíduos afeitos à masturbação alegavam que esta era uma forma de saciar seus prazeres sexuais sem o perigo de contraírem a sífilis. No mesmo ano, o dr. Sulpício Germiniano Barroso também alertou para a prática generalizada e de efeitos assustadores que muitas vezes requeriam intervenção médica. "A julgar pela minha própria experiência, em dez masturbadores em quem a saúde se alterou imediata ou consecutivamente pode-se contar nove que se perderam no colégio ou em um internato", reforçou em 1858 o dr. Antenor Augusto Ribeiro Guimarães. No Rio de Janeiro, João da Matta Machado dizia-se espantado, em 1875, com o desleixo dos educadores diante das "manobras secretas" entre colegiais.

Satisfação de si mesmo, Egon Schiele

Diante desse que foi considerado um problema de saúde pública, a medicina tentava fazer a sua parte. "Regras higiênicas" eram indicadas para extinguir ou prevenir o aparecimento da masturbação nos internatos. O receituário do dr. José Bonifácio Caldeira de Andrada Junior, por exemplo, recomendava: não aceitar no internato adolescente de costumes e hábitos suspeitos; proibir a leitura de livros eróticos e as conversas levianas; dividir os dormitórios de acordo com as idades (pequenos, médios e grandes); proibir o diálogo muito livre entre os alunos internos e os externos; prevenir o aparecimento precoce da sensualidade por meio de exercícios físicos; abolir alimentos excitantes; repreender ou expulsar do colégio o masturbador, segundo a gravidade do "crime"; e medicar os que necessitavam de cuidados médicos.

Era importante identificar os estudantes masturbadores a fim de reprimir, evitar o "contágio" e as consequências do "vício execrando". A "campanha antimasturbatória" era fundamentada na moral religiosa e reproduzia ensinamentos contidos em obras de médicos europeus, como o famoso tratado Do onanismo ou das doenças decorrentes da masturbação, escrito em 1758 pelo suíço Samuel Tissot. Este tipo de literatura denunciava o prazer solitário como capaz de provocar "não apenas as piores doenças, mas também as piores deformidades do corpo e, por fim, as piores monstruosidades do comportamento", nas palavras do filósofo Michel Foucault (1926-1984).


Eros. Homem se masturbando, Egon Schiele

Influenciados por esses argumentos, os médicos brasileiros listavam uma série de danos decorrentes da prática da masturbação. Mencionavam, entre outros, a magreza, a palidez, o encovamento dos olhos, salivações abundantes, vômitos, estatura diminuída e curvada para diante. Em relação ao comportamento, os onanistas tornavam-se tímidos, melancólicos, indolentes, buscando sempre o isolamento. No intelecto, o vício ocasionaria a completa estupidez e idiotismo, resultando na incapacidade para o exercício de qualquer atividade ou profissão que exigisse a mínima concentração.

O opróbrio (vergonha pública) completava o quadro deplorável pintado pelos médicos, como descrito de forma dramática na tese Generalidades acerca da educação física dos meninos (1846), de autoria do dr. Joaquim Pedro de Mello: "Os indivíduos que têm a infelicidade de se lançarem a tão torpe vício [...] trazem em seu semblante, em todo o seu corpo, e tão bem em sua inteligência estampada a ignominiosa marca, que a todos denuncia a sua lastimável paixão".


Masturbação feminina. Shunga, 1824, Katsushika Hokusai

Drasticamente, os médicos também consideravam a masturbação como capaz de causar ou contribuir para o aparecimento de doenças como a tuberculose e a epilepsia. "Abusos de toda espécie, os excessos venéreos, a masturbação e a sífilis são causa de tísica pulmonar", afirmou o dr. Candido Teixeira de Azevedo Coutinho em tese defendida no Rio de Janeiro em 1857. Da mesma forma, Miguel Antonio Heredia de Sá, em Algumas reflexões sobre a cópula, onanismo e prostituição do Rio de Janeiro (1845), procurou explicar como se dava a manifestação da tuberculose nos indivíduos que buscavam o prazer sozinhos: as pessoas "dadas desde a tenra infância à masturbação têm o tórax acanhado e incompletamente desenvolvido, contém quase sempre, ou sempre, catarros crônicos, e afecções mais ou menos profundas do órgão pulmonar, que repetindo-se termina na tísica".

Na tese, o dr. Heredita de Sá registra o caso de um menino epilético e já idiota pelos efeitos do onanismo. Internado no Hospital da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, o rapaz apresentava na expressão da face "o vício e o padecer; teria ao muito doze anos; seu corpo era franzino e atrofiado, mas os órgãos genitais eram prodigiosos e tão completamente desenvolvidos como se fossem de um homem". O dr. Sulpício Germiniano Barroso, por sua vez, estava certo de que a epilepsia era uma afecção nervosa que, apesar de ter também outras causas, manifestava-se nos indivíduos apegados à masturbação. Para ilustrar, o médico descreve o caso de um rapaz que se entregou ao vício e acabou contraindo a doença: "todas as vezes que tinha poluções era acometido imediatamente do ataque, e a mesma coisa sucedia quando se masturbava: os acessos foram repetindo-se com tal intensidade que o indivíduo morreu em um deles".


A chegada do século XX não fez desaparecer o alardeio repressivo contra a prática da masturbação entre internos de colégios. Em 1927, a médica Ítala Silva de Oliveira, em sua tese Da sexualidade e da educação sexual, alertou para a proliferação do vício que, segundo ela, campeava na penumbra dos dormitórios dos internatos. Mas na mesma época já havia médicos que se afastavam da tese dominante, que condenava a prática da masturbação, também agora influenciados pelas novas correntes de estudo europeias. O dr. Oscar Bastos Rabello, por exemplo, lembrou em sua tese de 1920 que o médico suíço Auguste Henri Forel (1848-1931) não via mal na prática. Se espaçada, higiênica e moderada, não havia qualquer base na medicina para condenar a masturbação.


Nos internatos, dali para frente, a perseguição ao onanismo seria fundamentalmente religiosa.


Joaquim Tavares da Conceição. Vício solitário. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 10 / Nº 112 / Janeiro 2015. p. 50-53.

sábado, 25 de junho de 2016

Valores burgueses (1870-1914)

M. Jourdain, Le Bourgeois Gentilhomme, o personagem-título da peça de Molière

"Espetacular" parece ser a palavra correta para descrever os diversos aspectos do mundo público burguês. A sociedade nervosa e de estímulos contínuos se manifesta com especial intensidade no centro do capitalismo: o consumo de mercadorias. Através do consumo, ato final e ao mesmo tempo regenerador, é possível perceber traços e valores dessa "nova era".

O próprio ato de consumir mudou de sentido. Se tomarmos a Inglaterra como parâmetro, podemos notar que em Londres se realizava uma transformação que ainda caracteriza a cultura urbana contemporânea: o consumo como prazer, diversão e exercício de sociabilidade.

Durante quase toda a era vitoriana, consumir foi um ato associado ao desperdício, à indulgência e mesmo à imoralidade e à falta de controle. No entanto, desde os anos de 1860, restaurantes, hotéis, teatros, museus, exposições e clubes, associados à expansão do transporte público e ao advento da imprensa popular, alteravam gradualmente esse sentido negativo do ato de consumir.

Como componentes dessa "nova era de consumo" estavam as lojas de departamento. O auge do consumo como um ato refinado e seguro pode ser estabelecido com a fundação da grande loja de atendimento de massa por Harry Gordon Selfridge, na Oxford Street, em 1909. Em sua loja ele introduziu um restaurante, montou vitrines espetaculares, acreditou em uma decoração luxuosa e se amparou em um forte esquema publicitário. Nesse ambiente comercial, Selfridge esperava que seus clientes considerassem as compras não como uma ação econômica, mas como uma celebração social e cultural. Consumo como lazer era a nova tônica do mercado capitalista da virada do século XIX.

O consumo de massa não se limitou aos produtos feitos pelo sistema fabril. Ele se expandiu para áreas que também adotaram um modelo de produção massiva, mas que faziam parte de uma nova fronteira da indústria: a circulação de informações. Durante a guerra hispano-americana em 1898, o New York Journal, de propriedade de William Randolph Hearst, alcançou a cifra de um milhão de leitores. No mesmo ano era lançado na Grã-Bretanha o primeiro jornal popular: o Daily Mail.

Esses jornais apresentavam notícias e artigos curtos, notícias políticas e econômicas eram simples e informativas e os grandes espaços estavam dedicados aos esportes, às "fofocas" e aos assuntos "femininos". No entanto, a imprensa popular americana e depois a inglesa viviam alimentando uma indústria de notícias espetaculares. Campanhas moralizadoras, tragédias sexuais, crimes violentos, o cotidiano em forma de sensações exacerbadas eram os produtos dessa nova indústria que surgia. No novo capitalismo não apenas a mercadoria era o espetáculo, como na Selfridges, mas o espetáculo também era mercadoria, isso garantia as vendas e a publicidade que sustentava os jornais populares.

Em um mundo público tão intenso e espetacular foi impossível não ressignificar o espaço privado burguês. A casa tornou-se um refúgio, misto de isolamento e proteção em uma cidade cheia de ameaças e terrores, e a família, o conjunto de laços sociais estáveis impossíveis de serem mantidos na esfera da multidão urbana.

Acompanhando essa tendência de perceber a casa e a família como locais estáveis, podemos ver como se desenvolveu na sociedade burguesa um profundo fascínio pelo íntimo e pelo subjetivo. Cartas, diários e relatos em primeira pessoa fizeram um profundo escrutínio do mundo subjetivo. O indivíduo passou a ter suas sensações e seus sentimentos colocados em primeiro plano frente a qualquer outro problema.

[...]

A leitura como um ato de intimidade individual permitiu um "fervor" mais pessoal, uma "devoção" privada, rompendo com as mediações das regulamentações eclesiais da Idade Média e criando uma relação secularizada com o livro e a leitura.

A literatura colocou o subjetivo no foco de sua preocupação narrativa, as artes plásticas passaram a investigar as "impressões" visuais, o século XX poderia ser chamado de a "Era do indivíduo". Nesse novo tempo as sensações e os desejos mais íntimos, progressivamente, irão interagir com a sociedade da mercadoria-fetiche e se tornarão parte integrante do mercado capitalista.

PARADA, Maurício. Formação do mundo contemporâneo: o século estilhaçado. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: Editora PUC, 2014. p. 25-7. (Série História Geral)

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A cidade do Novo Mundo no século XIX

5ª Avenida no Madison Square, Nova Iorque, 1894-1895. 
Theodore Robinson 

Apenas na segunda metade do século XIX assume o fenômeno urbano proporções dignas de nota. Nos Estados Unidos em 1850, mais de 19 milhões de habitantes, num total de 23 milhões, vivem ainda nos campos. Todas as cidades das regiões austrais são modestíssimas. Mas em 1900, de 75 milhões, 30 milhões de americanos são citadinos, 12 milhões aglomeram-se em cidades de mais de 100.000 habitantes - em número de 30. A partir de 1870, Chicago saltou, de 300.000 para 1.700.000; Nova Iorque ultrapassou os 3 milhões e Filadélfia, 1 milhão. O avanço, bem modesto na África do Sul, vigoroso no Canadá, afirma-se excepcionalmente rápido na Austrália, onde, em 1890, Sydney, Melbourne e Adelaide reúnem um quarto da população total, cabendo a Melbourne quase a metade dos habitantes de Victoria.

Rua George, Sydney, 1883. Alfred Tischbauer 

Nestas condições, surgem por toda a parte cidades novas e cidades-cogumelos. Na frente pioneira a cidade é uma formação primária - a rural non farm - que agrupa os albergues, as igrejas, as escolas, os postos de mudas de cada township. Corresponde, com efeito, à função de intercâmbio que se impôs imediatamente com homens do campo. Mas frequentemente a mina ou fábrica cria a cidade. Em tal caso, a toponímia evoca com intensidade o pensamento criador: assim, ao redor de Pittsburgh, os Bessemer, Etna, Carnegie, Monessen (Essen e Monongahela), alhures os Ironton, Ironmoutain e Ironwood. Há também capitais fundadas para abrigar os serviços governamentais e administrativos, a exemplo de Washington.
Passou o tempo em que era possível a compra de "todo o maldito pântano" de Chicago por um par de velhos sapatos, como se pretendeu mais tarde. John Astor, o comerciante de peles, deu o exemplo com a aquisição de terrenos em Nova Iorque; um de seus filhos, falecido em 1875, deixa uma fortuna de 100 milhões de dólares, dos quais 700 imóveis às margens do Hudson; em 1912, graças a novas compras e à alta da renda territorial, os Astor possuem um capital de 450 milhões. Em Chicago, o preço de 1.000 metros quadrados passa, de 20 dólares em 1830, a 1 milhão em 1892.

O loteamento regular de amplas superfícies, geograficamente cadastradas, explica o plano em tabuleiro. A este do Atlântico, a rua é alinhada segundo as casas, pois acompanha o desenho irregular das propriedades; aqui, a casa é que vem se colocar ao longo da rua. Resulta daí uma extrema monotonia, sublinhada pela numeração das ruas. Chicago, com 44.000 hectares, tem uma densidade quatro vezes menor que Londres (30.000) e Filadélfia (33.500), cinco vezes.

Este gigantismo dispersa as habitações, em geral pouco elevadas, frequentemente construídas de tijolos. O hábito de construir em altura apenas se manifestou após 1890, nos bairros de negócios, onde o terreno atingiu enormes valores: assim, por volta de 1890, na ponta de Manhattan, na cidade baixa, próxima do porto, levantam-se cerca de trinta imóveis de 10 a 30 andares, construídos por ricos particulares, companhias de seguros ou bancos. Não longe destes gigantes, que abrigam lojas e escritórios, estende-se uma zona de habitações, já escurecidas e maltratadas, progressivamente abandonadas à gente pobre; assim, por vezes, o slum é vizinho do arranha-céu; depois, estende-se para além uma nova cidade industrial, cercada por um subúrbio residencial. Em Nova Iorque, a parte oriental da cidade baixa é o bairro do sweating system; um segundo centro de negócios e de residências constitui-se no centro. Verifica-se a justaposição de conjuntos disparatados, sendo as perspectivas cortadas pelas vias férreas e pelas instalações industriais. Em Adelaide, ao contrário, a cidade do trabalho e a das residências são distintas, cada uma cercada de parques. As cidades australianas, de resto, parecem ser as mais cuidadas; as ruas são calçadas de madeira e as casas, pouco originais, não salientam demasiado as diferenças sociais. Nos Estados Unidos, bairros ricos e bairros pobres contrastam rudemente. Os viajantes descrevem complacentemente as belas vivendas dos círculos opulentos de Boston, de Filadélfia e de Nova Iorque; assim, o Barão de Hübner, por volta de 1875, admira, em Chicago, "a célebre Michigan Avenue... bairro da plutocracia, (suas) casas luxuosas, todas de madeira, mas estucadas e construídas nos mais diversos estilos, italiano clássico barroco, gótico, românico, quase todas cercadas ou precedidas de belos jardinzinhos..." Mas a poeira, no verão, a lama, no inverno, são verdadeiros flagelos. O fato de a 5ª Avenida em Nova Iorque ser um pouco tratada é uma exceção, nota um observador. Há imundícies por toda parte; em qualquer estação, é preciso usar botas de borracha. No Canadá, relata um outro, apenas são pavimentadas as ruas de Toronto e Winnipeg. A iluminação é superior à das cidades europeias, mas o sistema de esgotos deixa a desejar e, por vezes, há falta de água. Já em 1878 Búfalo inaugura um aquecimento central a vapor, adotado em seguida por Detroit e Nova Iorque. Multiplicam-se os meios de locomoções e, ao contrário das cidades australianas, que dão uma impressão de tranquilidade, com seus ônibus puxados por cavalos, as aglomerações americanas espantam o visitante com o estrépido de seus veículos.

Tempestade de neve, Madison Square, Nova Iorque, ca. 1890. Childe Hassam

O colorido étnico caracteriza também as cidades dos Estados Unidos. Em Nova Iorque, italianos, irlandeses, judeus, negros têm seus bairros próprios. O melting-pot não faz, de maneira alguma, desaparecerem estes particularismos; cria e acrescenta a cada tipo especial um tipo suplementar, americano, que é o tipo comum.

SCHNERB, Robert. O Século XIX: as civilizações não-eruopeias; o limiar do século XX. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996. p. 39-41, (História geral das civilizações, v. 14)