"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador História vista de baixo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História vista de baixo. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 9 de abril de 2014

A pobreza no período medieval

O pobre era o indivíduo que não tinha o necessário para garantir a própria subsistência: doente, inválido, peregrino, idoso, viúva, órfão ou vítimas de crises. Além disso, existia uma outra pobreza, “laboriosa”, que sobrevivia dificilmente abaixo dos limites da indigência. Também havia os “pobres envergonhados”, ou seja, os desclassificados que tinham vergonha de mendigar na rua. Esses pobres apareceram no século XIII, no momento em que a economia monetária chacoalhava as hierarquias antigas e aumentava a mobilidade social.


As sete obras de misericórdia, Pieter Brueghel, o Jovem

Esses diferentes exemplos dizem respeito a uma pobreza “social”, assumida, involuntária. Mais havia na Idade Média uma pobreza “religiosa”, escolhida, voluntária: a dos monges e eremitas, que se afastavam do mundo e se aproximavam de Deus.

O cristianismo encontrou um lugar central para a esmola na “economia da salvação”. A esmola apagava o pecado e, com isso, era a melhor maneira de reconciliar-se com a misericórdia divina. O pobre se tornava assim o interesse privilegiado. Mas a esse dever da esmola deviam responder a prece e a paciência do pobre. Este devia aceitar seu estado e não questionar a distribuição desigual de bens.

Por outro lado, subsistia uma ambivalência na pobreza medieval, às vezes exaltada no discurso religioso e desprezada na realidade social. Desse hiato entre pobreza-valor e pobreza-estado, conclui-se a eficácia extremamente reduzida do elogio à pobreza voluntária. E o discurso da Igreja, justificando a riqueza, serve para forçar os ricos a fazer certa redistribuição de renda.


Pobreza. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 2: Idade Média. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 50.

NOTA: O texto "A pobreza no período medieval" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A voz das ruas: a primavera brasileira


A primavera brasileira, que chegou no inverno, tem feito reivindicações sociais e econômicas de forma precisa, relativas aos transportes públicos, à educação e à saúde. Do mesmo modo, formularam-se críticas contundentes a escolhas e decisões do governo em matéria de política econômica, como, por exemplo, os gastos – indecentes – autorizados para a construção de monumentais estádios de futebol, quando, em contraste, os serviços públicos apresentam um quadro de lamentável precariedade. Com as manifestações do dia 11 de julho, suscitadas pelas centrais sindicais, e por organizações de trabalhadores da cidade e do campo, estas questões ganharam ainda em amplitude e profundidade. De modo imprevisto, pode-se dizer que elas entraram na pauta atual dos debates que se travam na sociedade, constituindo um ganho irreversível dos movimentos em curso.

Mas não apenas de direitos econômicos e sociais tem falado a Rua.

Apareceram com grande força reivindicações de caráter político. O principal alvo tem sido a mal chamada “classe política”, evidenciando-se um processo de autonomização crescente entre os políticos profissionais e os partidos, de um lado, e a sociedade, de outro. O autismo de certos representantes, como os notórios presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, que se permitiram usar aviões da Força Aérea para viagens privadas, resumem, mas não exaurem, o descompasso entre os partidos políticos e os cidadãos comuns.

O problema não é apenas brasileiro. Trata-se de um fenômeno universal.

Criados originalmente por movimentos de trabalhadores, ao final do século XIX, no contexto da civilização fordista triunfante, os partidos, nas primeiras décadas de sua existência, dispunham de elevada representatividade e pareciam exprimir fielmente anseios e aspirações sociais. No entanto, já antes da Primeira Grande Guerra, em luminoso estudo, Robert Michels, analisando o partido social-democrata alemão, apontava nítidos sinais de burocratização, devido a padrões de organização centralizados, verticais, hierárquicos. Abria-se um fosso entre representantes e representados, constituindo-se os primeiros numa espécie de “estrato diferenciado”, que se reproduzia continuamente, através de mecanismos próprios, longe da vontade e do controle dos últimos.

A tendência acentuou-se com o passar das décadas, afetando o conjunto da vida partidária, baseada no modelo fundado pela social-democracia alemã, embora os partidos fossem muito diferentes entre si e defendessem diferentes programas e objetivos.

As estruturas partidárias, contudo, mantiveram-se, protegidas por instituições e legislações específicas, reproduzindo-se, nutrindo-se da própria seiva, ampliando-se, monopolizando a competição pelo poder e quase toda a vida política das sociedades. Nos anos 1920 e 1930, questionado fortemente por alternativas de direita (nazi-fascismo) e de esquerda (socialismo soviético), o regime dos partidos sobreviveu a duras penas. O programa democrático, em nome do qual fora esmagado o nazi-fascismo, deu a eles um fôlego renovado.

Entretanto, desde os anos posteriores à Segunda Guerra Mundial, teve início uma curva descendente, lenta, mas insofismável, da influência dos partidos políticos na vida social. Nos anos 1960 e, especialmente, no ano quente de 1968, quando se multiplicaram contestações e questionamentos à ordem vigente, os partidos pouco tiveram a dizer, sempre a reboque dos acontecimentos, perdendo prestígio e representatividade.

Nos regimes democráticos, mais consolidados, é claro, há décadas, o crescimento da abstenção e do voto nulo. Desconfiados, os cidadãos afastam-se dos partidos, que já não empolgam as pessoas, sobretudo a juventude. Por outro lado, em inúmeras convulsões que têm marcado os últimos anos – derrocada de ditaduras, desagregação do socialismo na União Soviética e na Europa central, “primaveras árabes”, entre outros -, os partidos políticos têm evidenciado notável incapacidade de diálogo e de protagonismo, sendo praticamente ignorados.

O Brasil não escapa dessa tendência. Ao contrário, alguns aspectos particulares a têm reforçado em nossas latitudes: o esplêndido isolamento de Brasília, transformada numa espécie de “ilha da fantasia”; as mordomias, existentes desde a fundação da nova capital, ampliadas à época da ditadura e, desde então, sempre reforçadas; salários desproporcionalmente altos; crédito fácil e barato; aposentadorias compensadoras; planos de saúde especiais; passagens aéreas gratuitas; assessorias sem tamanho; privilégios que não encontram paralelo no mundo, mesmo em países muito mais ricos, e que não se limitam ao Parlamento federal (Câmara e Senado), estendendo-se ao Executivo e ao Judiciário.

Construiu-se uma espécie de barreira que separa os (podres) Poderes da cidadania, intensificando dinâmicas que isolam, cada vez mais, as elites políticas da população.

Quando os episódios eleitorais, por mais que se renovem os parlamentos – e o índice de renovação não é desprezível -, a situação se reproduz. Os novos eleitos, cedo ou tarde, uns mais, outros menos, tendem a ser engofados por esse mundo de privilégios, onde (quase) todos fazem o que “todos fazem”. Em meio à prevaricação, o anormal converte-se em norma, e “otário” é quem luta contra a insânia.

Espelho da nacionalidade, deputados e senadores, desembargadores e ministros dos tribunais, presidente e governadores não são “monstros”, ou extraterrestres, mas brasileiros, eleitos ou nomeados por brasileiros. Em certo sentido, representativos, a par das distorções não negligenciáveis derivadas da legislação eleitoral e da ação do poder econômico.

O coro de tudo arrasar e destruir, sob a alegação de que o regime é falido, não se sustenta. Já passamos por uma longa – e recente – ditadura, feita em nome da luta contra a corrupção e que só fez multiplicar desmandos de toda a ordem, acrescentando-se a tortura como política de Estado.

Não se trata, portanto, de desmontar o regime dos partidos, mas de impedir que eles dominem sem contraste a vida política. Sociedades complexas não dispensam representantes, mas podem aprender a regular e a reduzir seu poder, a controlá-los. Assim como é sabido que monopólios são deletérios na vida econômica, trata-se, na vida política, de acabar com o monopólio dos partidos.

Os movimentos sociais da “primavera” brasileira, tão eficazes na denúncia dos desmandos econômicos e sociais e na formulação de reivindicações nessas áreas, estão desafiados a formular uma plataforma de reforma política que, sem destruir o regime democrático, o aperfeiçoe, impedindo que as dinâmicas autonomistas cavem abismos intransponíveis entre representantes e representados.

É com esse ânimo e essa intenção que têm circulado na sociedade algumas ideias que merecem sem consideradas. Elas aqui vão relacionadas na perspectiva de contribuir para um urgente e decisivo debate.

1 Extinção do Senado e criação de um Parlamento unicameral. A noção do respeito pela Federação, assegurando-se a todos os estados patamares razoáveis de poder e influência, para que não sejam esmagados pelos mais poderosos, pode ser garantida mediante quocientes desiguais de representação, beneficiando estados menores ou menos populosos.

2 Extinção do maldito instituto da reeleição. Introduzido em má hora, por métodos heterodoxos e casuísticos, espalhou-se como praga, contaminando múltiplas instituições públicas, inclusive escolas e universidades. Hoje em dia, o político ou o administrador que não consegue se reeleger se tem como fracassado. Desde a primeira investidura, só pensa na segunda ou na terceira, contribuindo para viciar o processo político. A reeleição deveria ser proibida em todos os níveis e para todos os cargos públicos. Respeitado um período de “quarentena”, a ser definido, o político poderia concorrer de novo.

3 Redução dos mandatos de parlamentares, em todos os níveis, para dois anos, o que, aliás, já é praticado nos Estados Unidos (deputados estaduais em diversas unidades da federação norte-americana têm mandato de apenas um ano).

4 Diminuição drástica dos privilégios e das assessorias dos parlamentares que passariam a ter assessores profissionais, aprovados em concursos públicos.

5 No financiamento das campanhas eleitorais, proibição, sob severas penas, de doações de pessoas jurídicas, fixando-se um teto de R$ 5 mil reais para doações de pessoas físicas.

6 Manutenção e ampliação do horário eleitoral gratuito, estabelecendo-se tetos para o custo de tais programas.

7 Estabelecimento de candidaturas avulsas. Qualquer cidadão poderia ser candidato para cargos parlamentares, caso contasse com aprovação de 20 mil eleitores registrados, aumentando-se o quociente para candidaturas a cargos executivos.

8 Facultar a determinadas instituições civis a possibilidade de indicar candidatos.

9 Ampliação da legislação sobre plebiscitos e referendos. Plebiscitos obrigatórios para questões indicadas por mais de 500 mil cidadãos.

10 Ampliação da legislação concernente às iniciativas populares, obrigando-se o Parlamento a considerar tais iniciativas prioritariamente, caso reunidas 300 mil assinaturas, aferidas por meios eletrônicos.

11 Regulamentação das mídias impressas e audiovisuais, segundo padrões já definidos em regime democráticos europeus.

Se a primavera brasileira conseguisse unificar-se em torno de alguns desses pontos, formulando uma plataforma de reforma política, a ser aprovada por um plebiscito nacional, poderíamos, talvez, quebrar o círculo vicioso que bloqueia e desmoraliza o regime democrático. Em vez de destruí-lo, trata-se de radicalizá-lo, democratizando a democracia.


Daniel Aarão Reis é historiador da Universidade Federal Fluminense (UFF). In: Revista História Viva. Ano IX, nº 118. p. 27-29.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Revolta do Vintém

Charge sobre a Revolta do Vintém

Não é de hoje que aumentos das tarifas de transporte público tornam-se estopim para manifestações e revoltas populares no Brasil. Em 1880, a cobrança de uma taxa na passagem de bonde transformou a capital do Império, o Rio de Janeiro, em praça de guerra - e contribuiu para desestabilizar a monarquia brasileira, que cairia nove anos depois. O movimento, considerado o primeiro grande distúrbio urbano no país pela melhoria dos serviços públicos, ficou conhecido como Revolta do Vintém. Pelo menos três pessoas morreram e centenas ficaram feridas durante os dias em que a confusão tomou conta das ruas do Rio. Um vintém equivale a menos de 20 centavos em dinheiro de hoje, mas o cálculo é uma aproximação.

A revolta começou em 13 de dezembro de 1879, quando a Coroa anunciou um imposto de 20 réis - equivalente a um vintém - sobre as tarifas de bondes puxados a burro, um dos principais meios de transporte da população na época. O tributo, chamado de "imposto do vintém" seria cobrado diretamente nas passagens a partir de 1º de janeiro de 1880 e foi instituído pelo governo como forma de diminuir o déficit público. Na prática, era um aumento no preço da passagem, e considerável: da ordem de 20%.

Não tardou para que a medida ganhasse as páginas dos jornais e a reação negativa da população. A primeira crítica era que o novo imposto atingiria da mesma maneira os ricos e os pobres, já que o bonde era praticamente o único meio de deslocar-se por grandes distâncias na cidade. A primeira manifestação ocorreu no dia 28 de dezembro. Foi um ato pacífico que reuniu 5 mil pessoas (a população do Rio era de 1,1 milhão de habitantes) no Campo de São Cristóvão para ouvir o discurso do abolicionista e republicano José Lopes Trovão. Dono do jornal Gazeta da Noite, Trovão tornou-se um dos principais líderes do movimento. Dali, a multidão seguiu em passeata até o Palácio da Boa Vista, onde estava o imperador dom Pedro II.

Um mensageiro da Coroa trouxe a informação de que o monarca, mesmo a contragosto, aceitaria receber uma comissão de manifestantes para discutir a taxa, mas o recado foi ignorado. Os republicanos procuravam tirar o máximo de proveito político da situação. Mesmo assim, o dia terminou sem incidentes e a multidão se dispersou em paz.

Nos dias seguintes, a imprensa conservadora criticou o fato de os manifestantes não terem aberto o diálogo com dom Pedro II. No dia em que o imposto começaria a ser cobrado, uma grande manifestação foi organizada no Largo do Paço. Trovão fez um breve discurso pedindo que a população reagisse pacificamente à cobrança do imposto, mas não foi ouvido. Grupos de manifestantes começaram a seguir pelas ruas da Carioca, Uruguaiana, Visconde do Rio Branco e Largo São Francisco, ponto de partida e chegada da maioria das linhas.

Ali, começou o confronto. Para protestar contra a cobrança do vintém adicional, os manifestantes tomavam os bondes, espancavam os condutores, esfaqueavam os animais utilizados como tração, despedaçavam os carros, retiravam os trilhos e, com eles, arrancavam as calçadas. Os focos de tumulto pipocaram em vários pontos do centro do Rio de Janeiro, com barricadas e depredação. Manifestantes entraram em conflito com a polícia, que respondeu à bala, matando três pessoas.

A confusão continuou no dia seguinte. Trilhos de bonde continuaram a ser arrancados das ruas e as chaves dos veículos, roubadas. Das janelas, garrafas e pedras eram atiradas em direção aos veículos. No decorrer do dia, várias pessoas foram presas e a polícia solicitou reforço do Exército, que passou a controlar a situação reprimindo os focos com golpes de cassetete - ou tiros. No dia 3 de janeiro, a situação estava um pouco mais calma, resumindo-se a alguns focos de tumulto na Rua do Ouvidor, rapidamente sufocados pelas tropas do Exército.

A situação só foi totalmente controlada no final do dia 4, quando alguns manifestantes tentaram impedir a circulação de bondes na Rua Sete de Setembro, sem sucesso. Por causa da pressão popular, o imposto acabou sendo revogado em setembro de 1880. Mas os danos foram além de manifestantes mortos e dos bondes destruídos. Diante do desgaste político, todos os integrantes do Ministério da Fazenda foram substituídos por ordem do imperador.

Não se sabe ao certo o número de feridos durante as manifestações e tampouco se os mortos foram apenas os três registrados no primeiro dia do confronto. O que se sabe é que o Rio de Janeiro viveu dias de grande tumulto, com saques de lojas, roubos e população em pânico. [...]

"A Revolta do Vintém representou uma mudança na forma de atuação política, até então concebida apenas como a atividade institucional e parlamentar, com um sistema eleitoral marcado pelo voto indireto e censitário", afirma o historiador Claudio H. M. Batalha [...]. "A política deixou de ser restrita ao Parlamento e passou a ser feita também nas ruas, por meio de panfletos, comícios e manifestações." Batalha lembra que a revolta teria efeitos de longo prazo, ao ampliar as campanhas abolicionistas e republicana com gente na rua.

É muito difícil - tirando o foco de que a razão que deu início ao protesto foi o aumento no preço do transporte urbano - traçar paralelos entre o que aconteceu na década final do império e as manifestações que começaram a ocupar as ruas das principais cidades brasileiras em junho.

"Ambos tiveram como estopim o aumento do custo das passagens do transporte público, depararam-se com reações violentas da polícia e a questão inicial dos transportes apontou para outros problemas enfrentados pela população", afirma Batalha. "Mas na Revolta do Vintém as lideranças políticas tiveram papel essencial, enquanto que o processo recente é muito mais horizontalizado", diz o historiador. Para Batalha, assim como a Revolta do Vintém mudou a percepção da política, dos gabinetes para as ruas, no final do Império, muita gente acredita que algo similar ocorrerá a médio prazo no processo que o país vivenciou a partir do meio do ano. [...]

Marcus Lopes. Passe livre, versão século 19. In: Revista Aventuras na História. Edição 121, Agosto 2013. p. 56-59.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

El Diablo es indio

The Moose Chase, George de Forest Brush

Los conquistadores confirmaron que Satán, expulsado de Europa, habia encontrado refugio en las islas y las orillas del mar Caribe, besadas por su boca llameante.

Allí habitaban seres bestiales que llamaban juego al pecado carnal y lo practicaban sin horario ni contrato, ignoraban los diez mandamientos y los siete sacramentos y los siete pecados capitales, andaban en cueros y tenian la costumbre de comerse entre si.

La conquista de América fue una larga y dura tarea de exorcismo. Tan arraigado estaba el Maligno en estas tierras, que cuando parecia que los indios se arrodilaban devotamente ante la Virgen, estaban en realidad adorando a la serpiente que ella aplastaba bajo el pie; y cuando bessaban la Cruz estaban celebrando el encuentro de la lluvia con la tierra.

Los conquistadores cumplieron la misión de devolver a Dios el oro, la plata y las otras muchas riquezas que el Diablo habia usurpado. No fue fácil recuperar el botin. Menos mal que, de vez en cuando, recibian alguna ayudita de allá arriba. Cuando el dueño del Inferno preparó de los españoles hacia el Cerro Rico de Potosí, un arcángel bajó de las alturas y le propinó tremenda paliza.

GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p.118-119.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

El Diablo es gitano

Dança cigana no jardim de Alcázar, Alfred Dehodencq

Hitler creia que la plaga gitana era uma amenaza, y no estaba solo.

Desde hace siglos, muchos han credo y siguen creyendo que esta raza de origen oscuro y oscuro color lleva el crimen en la sangre: siempre malditos, vagamundos sin más casa que el camino, violadores de doncellas y cerraduras, manos brujas para la baraja y el cuchillo.

En una sola noche de agosto de 1944, dos mil ochocientos noventa y siete gitanos, mujeres, niños, hombres, se hicieron humo en las câmaras de gas de Auschwitz.

Una cuarta parte de los gitanos de Europa fue aniquilada en esos años.

Por ellos, ¿ quién preguntó?

GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p.118.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

El Diablo es homosexual

O banho turco, Charles Demuth

En la Europa del Renacimiento, el fuego era el destino que merecian los hijos del inferno, que del fuego venian. Inglaterra castigaba con muerte horrorosa e quienes hubiesen tenido relaciones sexuales con animales, judios e personas de su mismo sexo.

Salvo en los reinos de los aztecas y de los incas, los homosexuales eran libres en América. El conquistador Vasco Nuñez de Balboa arrojó a los perros hambrientos a los indios que practicaban esta anormalidad con toda normalidad. Él creia que la homosexualidad era contagiosa. Cinco siglos después, escuché decir lo mismo al arzobispo de Montevideo.

El historiador Richard Nixon sabia que este vicio era fatal para la Civilización:

¿ Ustedes saben lo que pasó con los griegos? La homosexualidad los destrujó! Seguro. Aristóteles era homo. Todos los sabemos. Y también Sócrates. ¿ Y ustedes saben lo que pasó con los romanos? Los últimos seis emperadores eran maricones…

El civilizador Adolf Hitler habia tomado drásticas medidas para salvar a Alemania de este peligro. Los degenerados cukpables de aberrante delito contra la naturaleza fueron obligados a portar un triângulo rosado. ¿ Cuántos murieron en los campos de concentración? Nunca se supo.

En el año 2001, el gobierno alemán resolvió rectificar la exclusión de los homosexuales entre las víctimas del Holocausto. Más de medio siglo demoró en corregir la omisión.

GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p.117-118.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

El Diablo es extranjero

Imigração, Fabrício Dom

El culpómetro indica que el immigrante viene a robamos el empleo y el peligrosimetro lo señala con luz roja.

Si es pobre, joven y no es blanco, el intruso, el que vino de afuera, está condenado a primera vista por indigencia, inclinación al caos o portación de piel. Y en cualquer caso, si no es pobre, ni joven, ni oscuro, de todos modos merece la malvenida, porque llega dispuesto a trabajar el doble a cambio de la mitad.

El pánico a la pérdida del empleo es uno de los miedos más poderosos entre todos los miedos que nos gobiernan en estos tiempos del miedo, y el immigrante está situado siempre a mano a la hora de acusar a los responsables del desempleo, la caida del salario, la inseguridad pública y otras terribles desgracias.

Antes, Europa derramaba sobre el sur del mundo soldados, presos y campesinos muertos de hambre. Esos protagonistas de las aventuras coloniales han pasado a la historia como agentes viajeros de Dios. Era de Civilización lanzada al rescate de la barbarie.

Ahoram el viaje ocurre al revés. Los que llegan, o intentan llegar, desde el sur al nortem son protagonistas de las desventuras coloniales, que pasarán a la historia como mensajeros del Diablo. Es la barbarie lanzada al asalto de la Civilización.

GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p.116-117.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

El Diablo es pobre

Pena - as tristezas de um homem velho, Théodore Géricault

En las ciudades de nuestro tiempo, immensas cárceles que encierram a los prisioneros del miedo, las fortalezas dicen  ser casas y las armaduras simulan ser trajes.

Estado de sitio. No se distraiga, no baje la guardia, no se confie. Los amos del mundo dan la voz de alarma. Ellos, que impunemente violan la naturaleza, secuestran países, roban salarios y assesinan gentios, nos advierten: cuidado. Los peligrosos acechan, agazapados en los suburbios miserables, mordiendo envidias, tragando rencores.

Los pobres: los pelagatos, los muertos de las guerras, los presos de las cárceres, los brazos disponibles, los brazos desechables.

El hambre, que mata callando, mata a los callados. Los expertos, los pobrólogos, habian por ellos, Nos cuentan en qué no trabajanm qué no comen, cuánto no pesan, cuánto no miden, qué no tienen, qué no piensan, qué no votan, en qué no creen.

Sólo nos falta saber por qué los pobres son pobres. ¿ Será porque su hambre nos alimenta y su desnudez nos viste?

GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p. 116.

domingo, 20 de outubro de 2013

El Diablo es mujer

Mulheres protestando, Di Cavalcanti

El libro “Malleus Maleficarum”, también llamado “El martillo de las brujas”, recomendaba el más despiadado exorcismo contra el demonio que lleva tetas y pelo largo.

Dos inquisidores alemanes, Heinrich Kramer y Jacob Sprenger, escribieron, por encargo del papa Inocencio VIII, este fundamento jurídico y teológico de los tribunales de la Santa Inquisición.

Los autores demostraban que las brujas, harén de Satán, representaban a las mujeres en estado natural, porque toda brujeria proviene de la lujuria carnal, que en las mujeres es insaciable. Y advertían que esos seres de aspecto bello, contacto fétido y mortal compañía encantaban a los hombres y los atraían, silbidos de serpiente, colas de escorpión, para aniquilarios.

Este tratado de criminologia aconsejaba someter a tormento a todas las sospechosas de brujeria, Si confesaban, merecian el fuego. Se no confesaban, también, porque sólo una bruja, fortalecida por su amante el Diablo en los aquelarres, podia resistir semejante suplicio sin soltar la lengua.

El papa Honorio III habia sentenciado:

- Las mujeres no deben hablar. Sus labios llevan el estigma de Eva, que perdió a los hombres.

Ocho siglos después, la Iglesia Católica les sigue negando el púlpito.

El mismo pánico hace que los fundamentalistas musulmanes les mutilen el sexo y les tapen la cara.

Y al alivio por el peligro conjurado mueve a los judios muy ortodoxos a empezar el dia susumando:

- Gracias, Señor, por no haberme hecho mujer.


GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p.115-116

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

El Diablo es negro

Crianças negras, Emmanuel Zamor

Como la noche, como el pecado, el negro es enemigo de la luz y de la inocencia.

En su célebre libro de viajes, Marco Polo evocó a los habitantes de Zanzibar: Tenian boca muy grande, labios muy gruesos y nariz como de mono. Iban desnudos y eran totalmente negros, de modo que quien los viere en cualquier otra región del mundo creeria que eran diablos.

Tres siglos después, en España, Lucifer, pintado de negro, entrada en carro de fuego a los corrales de comedias y a los tablados de las ferias. Santa Teresa nunca pudo sacárselo de encima. Una vez se le paró al lado, y era un negrillo muy abominable. Y otra vez ella vio que le salia una gran llama roja del cuerpo negro, cuando se sentó encima de su libro de oraciones y le queimó los rezos.

En América, que habla importado millones de esclavos, se sabia que era Satán quien sonaba tambores en las plantaciones, llamando a la desobediencia, y metia música y memeos y tembladeras en los cuerpos de sua hijos nacidos para pecar. Y hasta Martin Fierro, gaucho pobre y castigado, se sentia bien comparándose con los negros, que estaban más jodidos que él:

- A éstos los hizo el Diablo – decia – para tizón del inferno.


GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p.114-115

El Diablo es judío

Gassing, David Olère

Hitler no inventó nada. Desde hace dos mil años, los judíos son los imperdonables asesinos de Jesús y los culpables de todas las culpas.

¿Cómo? ¿Qué Jesús era judío? ¿Y judíos eran también los doce apóstoles y los cuatro evangelistas? ¿Cómo dice? No puede ser. Las verdades reveladas están más aliá de la duda: en las sinagogas el Diablo dicta clase, y los judíos se dedican desde siempre a profanar hostias, a envenenar aguas benditas, a provocar bancarrotas y a sembrar pestes.

Inglaterra los expulsó, sin dejar ni uno, en el año 1290, pero eso no impidió que Marlowe y Shakespeare, que quizá no habian visto un judío en su vida, crearan personajes obedientes a la caricatura del parásito chupasangre y el avaro usurero.

Acusados de servir al Maligno, estos malditos anduvieron los siglos de expulsión en expulsión y de matanza en matanza. Después de Inglaterra, fueron sucesivamente echados de Francia, Austria, España, Portugal y numerosas ciudades suizas, alemanas y italianas. En España habian vivido durante trece siglos. Se llevaron las llaves de sus casas. Hay quienes las tienen todavía.

La colosal carnicería organizada por Hitler culminó una larga historia.

La caza de judíos ha sido siempre un deporte europeo.

Ahora los palestinos, que jamás lo practicaron, pagan la cuenta.


GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p.114.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

El Diablo es musulmán

Derviches, Jean-León Jérôme

Ya el Dante sabia que Mahoma era terrorista, Por algo to ubicó em uno de los circulos del Inferno, condenado a pena de taladro perpetuo: Lo vi rajado, celebro el poeta en “La divina comedia”, desde la barba hasta la parte inferior del vientre...

Mas de un Papa habia comprobado que las hordas musulmanas, que atormentaban a la Cristiandad, no estaban formadas por seres de carne y hueso, sino que eran um gran ejército de demônios que más crecia cuanto más sufria los golpes de las lanzas, las espadas y los arcabuces.

Allá el año 1564, el demonólogo Johann Wier habia contado los diablos que estaban trabajando em la tierra, a tiempo completo, por la perdición de las almas cristianas. Habia siete miliones cuatrocientos nueve mil ciento veintisiete, que actuaban divididos em setenta y nueve legiones.

Muchas águas hirvientes han pasado, desde aquel censo, bajo los puentes del inferno. ¿Cuántos suman, hoy dia, los enviados del reino de las tinieblas? Las artes de teatro dificultan el conteo. Estos engañeros  siguen usando turbantes, para ocultar sus cuernos, y largas túnicas tapan sus dolas de dragón, sus alas de murciélago y la bomba que llevan bajo el brazo.


GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p. 113-114.

sábado, 17 de agosto de 2013

Heróis e pessoas comuns

Os estudos tradicionais de história referem-se, geralmente, à vida e às ações das elites sociais, focalizando apenas personagens que, por algum motivo, tiveram destaque: governantes, comandantes militares, grandes artistas ou cientistas, enfim, indivíduos que tiveram o reconhecimento dos seus contemporâneos. Trata-se da chamada história dos grandes homens.

Durante muito tempo, o próprio estudo da história confundiu-se com essa forma de abordagem. E ela não impregnou apenas a ciência. As obras de ficção, particularmente as da literatura e do cinema, têm como temas privilegiados a vida e as ações dos heróis.

Por essa razão, quando se estuda história tendo como referência a sociedade, no seu sentido mais amplo, isto é, como resultado da ação de todos os seres humanos, uma das grandes dificuldades é recuperar a vida e as ações dos homens comuns e, mais ainda, das mulheres comuns, dos jovens e das crianças.

No entanto, os chamados "grandes homens" são, por definição, aqueles indivíduos, homens ou mulheres, que, por ações praticadas ou por obras criadas, representam o conjunto da sociedade do seu tempo, sem o qual eles não existiriam.

Portanto, o conhecimento das sociedades humanas, mesmo daquelas que se apresentam como grande "civilização", só se torna completo quando se leva em conta a vida cotidiana, que é, por definição, o espaço da participação popular, da existência das pessoas comuns. É o espaço da rotina, da repetição, diferente do inusitado, da mudança, que, em geral, assinalam os chamados "grandes acontecimentos".

A colheita do feno, Pieter Bruegel

Mas a produção desse conhecimento requer um tipo de estudo complicado e complexo. Para realizá-lo, quase sempre, é preciso recuperar a participação popular por meio de registros documentais e vestígios materiais que foram produzidos por membros das elites, ou por sua ordem, e a elas se referem.

Atualmente, muitos historiadores e os demais interessados nos conhecimentos históricos têm voltado sua atenção para um aspecto por meio do qual se pode conhecer a vida das pessoas comuns: a história da vida privada.

O público e o privado compõem a história. Até muito recentemente, porém, apenas o primeiro elemento era considerado objeto dos estudos históricos. A chamada Nova História abriu espaço para a busca do segundo elemento e, assim, a construção de uma visão tão completa quanto possível da existência da humanidade.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 18-19.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A Balaiada

Como a Cabanagem, outros movimentos fizeram inflamar o que o regente Feijó chamou de "o vulcão da anarquia". A Sabinada, a Balaiada e a Farroupilha, embora não tão intensas quanto a revolta dos cabanos, estavam marcadas pelo clima de violência social que caracterizou o período da regência. Aproveitando a brecha das lutas políticas no seio da classe dominante, o povo emergiu como força de contestação, passando a exigir melhores condições de vida. Em alguns momentos houve a participação de negros aquilombados, que desta forma protestavam contra a escravidão a que eram submetidos. Foi o que aconteceu na Balaiada, que não se pode dizer que tenha sido um único movimento. Caracterizou-se por sucessivas e ininterruptas rebeliões da população sertaneja e escrava do Maranhão, que se alastraram por toda a província, atingindo também o Piauí, no período de 1831 a 1841.

Na época, a província do Maranhão contava com cerca de 200.000 habitantes, sendo 90.000 escravos e o restante composto por sertanejos ligados à lavoura e à pecuária. Após a Guerra de Independência dos Estados Unidos, o principal produto maranhense, o algodão, sofreu grande declínio. O poder estava nas mãos dos proprietários rurais e e comerciantes das principais cidades e a população sertaneja foi a que mais sofreu com a crise por que passou o Maranhão e todo o país durante a regência.

"Será o caráter de sua participação no movimento - aliada à dos negros - que dará à Balaiada uma configuração especial dentre as mobilizações ocorridas no período. Se a rebeldia desses grupos já possibilitara sua participação como braço armado durante os conflitos da independência, na revolta dos balaios a participação dos negros e homens livres (sertanejos) adquire um caráter próprio, escapando ao controle das disputas partidárias." (MENDES JR., A. et al. Brasil - História, Texto e Consulta. São Paulo: Brasiliense, 1977. V. II, p. 235.)

Em determinado momento, sua luta ganha autonomia, fugindo ao âmbito das divergências entre as facções políticas locais, divergências estas que haviam provocado o movimento.

Chega mesmo a perder o apoio do grupo liberal Bem-te-vi, que editava um jornal com o mesmo nome - O Bem-te-vi - e que se opunha aos governistas.

Fabricantes de balaios

Lideravam o movimento o vaqueiro Raimundo Campos, o "Cara preta", Manuel dos Anjos Ferreira, o "Balaio" (daí o nome da revolta), e o negro Cosme, chefe de um quilombo. Em 1839, os balaios chegam a tomar a vila de Caxias, constituindo um Conselho Militar formado por alguns de seus chefes, que aceitaram a participação de elementos bem-te-vis. Pelas ruas da vila de Caxias os quilombolas do preto Cosme cantavam:

"O Balaio chegou!
O Balaio chegou!
Cadê branco!
Não há mais branco!
Não há mais sinhô!"

Estes, porém, foram os últimos momentos de comemoração e vitória para os balaios. Faltava ao movimento uma unidade. Cada grupo e cada chefe agiam isoladamente, havendo entre eles muitas divergências. As alianças com bem-te-vis e elementos moderados, que procuravam conter as revoltas, também contribuíram para o desgaste do movimento.

Em 1840, o coronel Luís Alves de Lima, futuro Barão de Caxias, é nomeado para a presidência e o comando de armas da província. Explorando o isolamento e as rivalidades entre os grupos rebeldes e contando mesmo com o apoio bem-te-vi, os legalistas derrotam os balaios. Quando, em 1841, é concedida a anistia aos envolvidos no movimento, a província está "pacificada".

ALENCAR, Chico et al. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 144-146.

sábado, 10 de agosto de 2013

A Cabanagem

De 1822 a 1824, o Grão-Pará viveu dias agitados. Requisitados pela classe dominante local a participar das lutas pela independência, o povo tentou obter o controle da situação. Por exigir melhores condições de vida, Batista de Campos e a massa de homens que o seguia foram ferozmente reprimidos.

Ao final do massacre, porém, a junta governativa da província assim se pronunciou:

"Sentimos não poder afirmar que a tranquilidade está inteiramente restabelecida porque ainda temos a temer principalmente a gente de cor, pois que muitos negros e mulatos foram vistos no saque de envolta com os soldados, e os infelizes que se mataram a bordo do navio, entre outras vozes sediciosas, deram vivas ao rei do Congo, o que faz supor alguma combinação de negros e soldados." (REIS, A. C. F. In: História Geral da Civilização Brasileira. Tomo II, vol. 2, 1977. p. 86)

Era uma suposição, mas que na prática se confirmou. De fato, desde os primeiros movimentos de independência até a eclosão da Cabanagem em 1833, a província do Pará esteve sempre intranquila. No interior, como na capital, eram comuns as notícias de levantes populares, que contavam inclusive com a adesão da tropa insatisfeita com os baixos soldos e com as determinações do poder central e das autoridades locais.

Para se sublevar constantemente, a população tinha motivos de sobra. A economia da região consistia na exploração das chamadas drogas do sertão e da pesca.

A força de trabalho era composta por negros escravos, mestiços e índios, em sua maioria sofrendo um processo de destribalização, submetidos a um regime de semi-escravidão.

Após a abdicação, as lutas entre as facções políticas se alastraram por todo o país. Detinham o poder na região os comerciantes de Belém, que apoiavam uma política centralizadora e se identificavam com os interesses lusitanos. Os senhores de terras, que se opunham a eles, formavam um grupo numericamente pequeno e desorganizado. O resto da população era composto por escravos e pela massa de homens livres - índios e mestiços - que vivia em cabanas à beira dos rios, em condições miseráveis.

O cabano paraense, Alfredo Norfini

Convocada pelos setores liberais a participar nos movimentos de oposição às medidas centralizadoras do Governo imperial, essa população, liderada por Batista de Campos, deu às lutas uma orientação mais ampla e radical. Depôs todos os governantes nomeados pelo poder central, exigiu reformas que melhorassem suas condições materiais e a expulsão dos portugueses, tidos como responsáveis pela miséria em que viviam.

Em dezembro de 1833, Lobo de Souza conseguiu assumir o governo. Perseguindo, prendendo e deportando todos os suspeitos e implicados nos acontecimentos, Lobo acabou incentivando ainda mais as revoltas. Novos líderes populares apareciam. Os irmãos Vinagre, lavradores, e o seringueiro Eduardo Angelim agitavam o interior e a capital, reafirmando o caráter popular das lutas.

Em 1835, os cabanos, como eram chamados os revoltosos, ocupam Belém. O governo é entregue a Félix Antônio Malcher, um fazendeiro da região. Embora todos os cabanos concordassem quanto à necessidade de controlar a política centralizadora do Rio de Janeiro, uma parte deles começava a temer a feição e as proporções violentas do movimento. Foi o caso de Malcher, deposto e executado após tentar reprimir os elementos mais radicais e jurar fidelidade à regência.

Para "segundo presidente cabano" foi escolhido Francisco Vinagre, que também não foi capaz de resolver as divergências entre os cabanos. Preocupado como seu antecessor em "defender a ordem", Vinagre ajuda as tropas e navios enviados pela regência, comandados pelo almirante inglês Taylor, fazendo um acordo pelo qual os legalistas se comprometiam a pacificar a província. Derrotados, os cabanos se retiram para o interior. Conseguem, no entanto, mobilizar a população rural e, liderados por Antônio Vinagre e Angelim, retomam a capital.

Seria essa, porém, mais uma vitória temporária. Os cabanos não tinham suas reivindicações sistematizadas num programa de ação para quando chegassem ao poder. Não tinham uma teoria e um partido capazes de conduzir os ideais revolucionários. Quando assumiam o governo da província tornavam-se vulneráveis. Além do "espontaneísmo", as divisões internas do movimento acabaram por enfraquecê-lo.

Em 1836, não conseguem resistir à força militar enviada pelo Rio de Janeiro. Abandonam definitivamente a capital e lutam por mais três anos no interior, onde os aguarda um final trágico. Em 1839, ao findar a Cabanagem, dos 100.000 habitantes do grão-Pará, 40.000 haviam morrido nos incêndios, destruições e assassinatos que as forças governamentais promoveram. A Cabanagem foi o movimento mais radical de todos. O único em que a classe dominada conseguiu ocupar o poder de toda uma província, ainda que de maneira desorganizada e descontínua.


ALENCAR, Chico et al. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 142-144.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Enquanto na fábrica: o amor "visto de baixo"

O violeiro, Almeida Junior

A afirmação [...] da feminista Maria Lacerda de Moura: "Ambos, homens e mulheres, nasceram pelo amor e para o amor" seria realidade para todos? Ao mesmo tempo em que o país passava a crise do café, a crise das Bolsas de 29, a criação de pequenas indústrias, na base da pirâmide formava-se nova classe com regras próprias de organização. Nela, os "casamentos", ou melhor dizendo, as uniões, eram precoces, as uniões, consensuais e concubinatos eram regra embora sujeitos à instabilidade e a circulação de crianças, "bastardas", na casa de parentes e familiares, bastante comum. Longe de ser fruto de "ignorância" ou "irresponsabilidade", como acusavam médicos higienistas e juristas, essa classe trabalhadora possuía uma cultura diversa daquela das elites. Uma cultura popular que se chocava, muitas vezes, com a das camadas dominantes. Era difícil, se não impossível, adaptar-se à camisa de força dos valores burgueses quando se tinha de sobreviver em condições tão árduas.

No mundo do trabalho, cada vez mais urbano ou industrializado, a confusão entre a mulher fácil e a esposa e mãe era enorme. Por um lado, embora as mulheres correspondessem à grande parcela da força de trabalho e esses fossem tempos de forte militância em favor de seus direitos, a mentalidade machista era muito arraigada. Mesmo entre anarquistas e comunistas, a fábrica, espaço de trabalho para milhares de imigrantes e seus descendentes, era considerada um "lupanar", um "bordel", um "antro de perdição". A maior parte da imprensa operária atacava as mulheres que deixavam seus lares para trabalhar no seu ganha-pão. Não poucas operárias tinham de provar em casa que trabalhavam em "serviço honesto". Outras contavam com o depoimento de amigos e colegas para testemunhar que "na fábrica, se comportava bem..." O jornal A Razão, em editorial de 29 de julho de 1919, repetia argumentos já conhecidos pelo leitor. Seduzidas pelas facilidades do mundo moderno, pelo discurso radical do feminismo e do anarquismo e convivendo de perto com o submundo da prostituição, as mulheres deixariam de ser mulheres: "O papel de uma mãe não consiste em abandonar seus filhos em casa e ir para a fábrica trabalhar, pois tal abandono origina, muitas vezes, consequências lamentáveis".

De fato, algumas dessas consequências eram dramáticas para as casadas ou noivas. O assédio de chefes e patrões não era raro. É da operária Luiza Ferreira de Medeiros o depoimento sobre o cotidiano na Fábrica Têxtil Bangu, no subúrbio do Rio de Janeiro, durante a Primeira Guerra:

Mestre Cláudio fechava as moças no escritório para forçá-las à prática sexual. Muitas moças foram prostituídas por aquele canalha. Chegava a aplicar punições de dez a quinze dias pelas menores faltas, e até sem faltas, para obrigar as moças a ceder a seus intentos. As moças que faziam parte do sindicato eram vistas como meretrizes, ou pior do que isso: eram repugnantes.

Com a crescente incorporação das mulheres ao mercado de trabalho e à esfera pública, lembra a historiadora Margareth Rago, a questão do trabalho feminino era motivo de discussão com outros temas que envolviam as mulheres: virgindade, casamento e prostituição. Enquanto o mundo do trabalho cabia como uma luva na metáfora do "cabaré", o lar era valorizado como o espaço sagrado da "santa rainha do lar", do "reizinho da família". Com o vertiginoso crescimento urbano das primeiras décadas do século, o mundo do trabalho passou a ser visto como algo profundamente ameaçador para as mulheres e não faltavam críticos dessa situação:

São Paulo caminha para uma perdição moral [...]. Outrora, em suas ruas onde só se encontravam famílias e casas habitadas por quem tem o que fazer, se veem hoje, caras impossíveis, mostrando, embora cobertas pelo cold cream e pelo creme Simon, polvilhado pelo pó de arroz, os sulcos que não se extinguem, deixados pelo deboche e pelas noites passadas em claro libando, em desenvolta moralidade, as taças de champagne falsificado, entre os pechisbeques do falso amor.

Junto ao clamor pela "volta ao lar" dessas que não se sabia se trabalhadoras direitas ou prostitutas disfarçadas, corria também a preocupação de médicos, como o dr. Potyguar de Medeiros, com a educação como meio de escapar ao ineroxável meretrício. Em seu estudo de 1921, Sobre a phrophylaxia da syphilis, dizia que as jovens trabalhadoras não tinham meios para se defender das armadilhas do mundo moderno.

Nas habitações coletivas que se erguiam nas cidades em crescimento, nas pensões, nos porões ou casebres de favelas, casais se faziam e desfaziam ao sabor das necessidades de uma população itinerante. Elas são o espaço de outra moral, de outra família e, por conseguinte, de outros afetos e amores. Uma série de fatores somava-se para que as mulheres pobres garantissem sua autonomia: a ausência de propriedade, os entraves burocráticos, a dificuldade de homens pobres se fazerem, como os burgueses, de únicos mantenedores da família. Não deviam ser poucas a pensar, como a mulata Rita Baiana, do romance O cortiço, de Aluísio de Azevedo: "Casar? Protestou Rita. Nessa não cai a filha do meu pai! Casar! Livra! Para quê? Para arranjar cativeiro? Um marido é pior que o Diabo, pensa logo que a gente é escrava! Nada! Qual! Deus te livre! Não há como viver cada um senhor e dono do que é seu!".

DEL PRIORE, Mary. História do amor no Brasil. São Paulo: Contexto, 2012. p. 266-168.