"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quinta-feira, 19 de março de 2015

A Europa depois de Roma

Guerreiros germânicos, Philipp Clüver

Na Europa, os séculos anteriores e posteriores à queda do império ocidental formaram um período tumultuado, à medida que onda após onda de invasores, eles próprios empurrados por outros ciclos de povos entrando na Europa pela Ásia, abria caminho através do continente procurando uma residência permanente.

Uma consequência da fragmentação do império ocidental, e do povoamento das regiões setentrionais pelos recém-chegados, foi o surgimento de novos idiomas. [...] o latim falado nos anos de decadência do império era reconhecivelmente a mesma língua. À medida que o império cedia terreno para uma variedade de chefetes independentes, a língua se libertava. [...] Ao longo dos oito ou nove séculos seguintes, eles se transformaram nas línguas românicas, como o italiano, o espanhol, o português, o francês e o romeno. [...] Mais ao norte, contudo, onde os invasores se viram em territórios esparsamente povoados, não houve pressão para adotar os hábitos de fala da população local e seus descendentes, separados por rios, mares e montanhas, gradualmente desenvolveram dialetos que mais tarde se tornariam o holandês, o alemão e o sueco.

Nas terras baixas da Bretanha, onde uma cultura romana floresceu por séculos, seria de se esperar que os recém-chegados adotassem p latim [...]. Mas isso não aconteceu. Eles mantiveram sua língua germânica, que acabaria se tornando o que conhecemos com inglês. [...].

Ambos os grupos linguísticos - o germânico e o latim - eram membros da família indo-europeia, que se originava de algum lugar nas regiões da estepe onde a Europa se encontra com a Ásia. A leste das terras ocupadas por povos falantes de germânico, os eslavos praticavam um terceiro grupo de dialetos indo-europeus, os predecessores do tcheco, servo-croata e russo. [...]

Uma sucessão de epidemias, que provavelmente incluía varíola, sarampo, gripe e peste, atacou as terras densamente povoadas em torno do Mediterrâneo do século II ao VII. Elas sem dúvida desempenharam um proeminente papel no enfraquecimento do império ocidental. Durante esses séculos, ondas de povoamento desembocaram nas regiões esparsamente povoadas ao norte. Como em toda parte, povoamento significava agricultura. [...] Esses povos contavam com o conhecimento acumulado das populações existentes no norte e dos povos civilizados do sul, e suas novas terras tinham solo fértil e chuva abundante. O clima frio favorecia trigo, cevada, aveia e centeio. Além disso, a chuva constante significava pasto vistoso, que significava vacas felizes. [...] À medida que derrubavam florestas e preparavam novas terras para cultivar, a produção de alimento cresceu e sua população aumentou ainda mais. [...]

[...]

A nova tecnologia mais importante foi o pesado arado de duas rodas, com uma lâmina de ferro que cortava a camada superior de grama e solo, uma relha de ferro e uma aiveca que abria a leira. Com ela era possível trabalhar o terreno mais duro. E, o mais importante, enterrava e matava as ervas daninhas. Ao criar leiras, formava canais para que a água da superfície fosse drenada. [...]

Mas as consequências da introdução do arado pesado foram muito além. Em solos pesados, ele requeria mais de oito bois, comparado com a simples parelha que até então fora suficiente. [...] esse novo arranjo significava que tarefas como semear, gradar e colher também necessitavam de uma organização cooperativa, o que só podia ser feito sob os auspícios de um conselho aldeão. [...] Ele introduziu entre as pessoas a ideia de que os costumes e as instituições não eram imutáveis; acostumou-se ao pensamento, e à prática, do autogoverno, e forneceu uma drástica ilustração da mudança tecnológica. [...]

O número de inovações importantes ocorridas na chamada Idade das Trevas europeia é grande [...]:

1. A implementação da rotação de culturas com três áreas em lugar da rotação precedente, com duas. [...]
2. A introdução do arreio em colar inventado na China, que tornou possível pela primeira vez aos cavalos da Europa puxar cargas pesadas. [...]
3. A introdução da ferradura e do balancim [...] que respectivamente protegia a pata do animal e possibilitava puxar grandes carros.

Mas não foi apenas na agricultura que esses séculos mostraram entusiasmo pela inovação. Em 1044, encontramos o primeiro moinho de marés de Veneza. O Domesday Book, levantamento feito sob as ordens de William I, rei da Inglaterra em 1086, revelou que havia 5 mil moinhos d'água só na Inglaterra. [...]

Enquanto a tecnologia transformava a vida das pessoas, mudanças ocorriam na estrutura social. Nas caóticas condições criadas com o fim da soberania romana e as ondas migratórias, as pessoas procuravam proteção para suas vidas e propriedades. Ao mesmo tempo, indivíduos ambiciosos tiravam vantagem dessas condições para aumentar sua riqueza e influência. A partir desse encontro do desejo por segurança com a avidez pelo poder, brotou gradualmente um novo quadro de composições sociais: a instituição conhecida como feudalismo. Em sua forma mais desenvolvida, consistiu em uma hierarquia de garantias e obrigações mútuas. No nível mais baixo estava o camponês, que tinha o direito de trabalhar, manter e legar sua terra em troca da obrigação de prestar serviço ao seu superior, que podia ser o senhor de uma propriedade ou o abade de um mosteiro. [...] O direito à proteção do camponês por parte de seu senhor criava uma obrigação recíproca sobre esse mesmo senhor de lhe assegurar proteção.

Enquanto o sistema do feudalismo tomava forma, uma batalha pelo poder de um tipo diferente tinha lugar: a luta pelo domínio entre a Igreja e o Estado. [...]

[...]

Os papas não estavam apenas engajados em uma luta contínua pela supremacia com os soberanos seculares do continente; viviam em conflito pela supremacia com a Igreja oriental baseada em Constantinopla [...]. O ano de 1054 testemunhou uma ruptura entre os dois, após prolongada disputa teológica. A partir daí, Roma ficou esperando por uma chance de subjugar a rival oriental.

Quarenta anos depois, a oportunidade se apresentou. Os seldjúcidas - um grupo de tribos turcas muçulmanas sunitas - haviam surgido antes vindos da Ásia e tomando controle da Pérsia (Irã), Mesopotâmia (Iraque) e Síria setentrional. Teoricamente, estavam sujeitos à soberania espiritual do califa de Bagdá, mas seu imperador, o sultão, era o efetivo soberano de toda a região. Após conquistar a Armênia, eles haviam se voltado para o império bizantino, e infligido uma sangrenta derrota sobre seus exércitos [...]. No ano seguinte, eles varreram a Palestina e a Jerusalém ocupada. Aí massacraram milhares de muçulmanos xiitas. Menos tolerantes que seus predecessores árabes, eles também fecharam a cidade para as peregrinações cristãs. Por volta de 1092, postaram-se às margens do Bósforo, em posição para atacar Constantinopla. [...]

O papa Urbano II, sabia aproveitar oportunidade quando surgia. [...] Havia outros benefícios de uma campanha militar contra os turcos. A crescente prosperidade e o aumento populacional na Europa ocidental e setentrional haviam criado uma classe de jovens inquietos de boa estirpe, com tempo de sobra, que precisavam de escape para a agressividade juvenil. Sua inquietação encontrara expressão em mesquinhas guerras e rusgas que se tornaram uma grave preocupação para as autoridades eclesiásticas. Se em vez disso pudessem ser persuadidos a combater os turcos, o povo que ficava para trás podia alimentar esperanças de uma existência mais pacífica. Isso funcionara com o islã, quatrocentos anos antes. A primeira onda de guerra santa sob a liderança Maomé fora parcialmente inspirada na necessidade de encontrar alívio para os instintos belicosos dos jovens membros tribais cujos feudos haviam tornado a vida do povo árabe miserável.

Para os jovens em questão, a oportunidade de matar com consciência limpa, e conquistar butins no processo, não precisou de grande promoção. E uma agora próspera cristandade ocidental dispunha dos recursos para montar o tipo de expedição que o papa tinha em mente.

Em 18 de novembro de 1095, Urbano convocou um conselho na cidade de Clermont, no sul da França. Em uma apinhada assembleia ao ar livre, proferiu um dos discursos mais graves da história europeia, Ele conclamou seu público a decretar uma trégua em suas disputas, a voltar as energias belicosas contra os turcos, a acorrer em auxílio de seus companheiros cristãos no leste e a reabrir a cidade santa de Jerusalém para as peregrinações cristãs. A reação ao seu discurso foi entusiástica. Quatrocentos anos após Maomé, a jihad - conflito sagrado - voltava a ser apregoada. Mas dessa vez os guerreiros marchavam ao som de um hino diferente.

AYDON, Cyril. A história do homem: uma introdução a 150 mil anos de história humana. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 139-146.

domingo, 21 de setembro de 2014

Avanços da tecnologia no Mundo Clássico (500 a.C. - 600 d.C.)

A era clássica assistiu a grandes mudanças da sociedade humana. No mundo inteiro, a população cresceu, a produção de alimentos se intensificou e os Estados ficaram ainda mais complexos, com estruturas sociais e políticas cada vez mais sofisticadas. Desenvolveram-se talentos especializados nas artes e no artesanato, na arquitetura e na poesia; forçaram-se os limites do conhecimento na astronomia, na matemática e na engenharia. Nas civilizações mais desenvolvidas, houve avanços tecnológicos importantíssimos. Descobriram-se o ferro fundido e o aço; o poder do vento e da água foi utilizado; a equitação e a arte da guerra foram revolucionadas com a invenção do estribo por volta de 300 a.C. A chegada do leme e da bússola transformou as viagens marítimas.

- Metalurgia. Na era clássica, o ferro se tornou cada vez mais disseminado como matéria-prima de ferramentas e armas afiadas e resistentes. Por volta de 500 a.C., os chineses aprenderam a produzir ferro fundido acrescentando carbono ao metal quando ainda derretido. Com o baixo ponto de fusão, a facilidade de ser moldado e a resistência ao desgaste, o ferro fundido era excelente para fazer armas e estatuetas. No século III a.C., os indianos misturaram ferro, carvão e vidro para criar um metal muito mais duro e forte: o aço.

- Tecnologia energética. No mundo antigo, a maior parte da energia era fornecida por animais ou seres humanos. Na era clássica, os gregos encontraram meios de amplificar a energia disponível com alavancas e sistemas de roldanas. Entretanto, os métodos de tração animal na verdade pouco mudaram além do desenvolvimento de arreios mais eficazes para bois e burros e rodas que giravam mais suavemente.

Aos poucos, as civilizações descobriram meios de usar a força do vento e da água para mover as suas máquinas. Embora as velas fossem usadas para deslocar barcos e navios desde o quarto milênio a.C., houve avanços importantes no início da era clássica. Por volta de 500 a.C., os gregos e os fenícios começaram a construir navios com dois mastros: um mastro central com vela redonda e um mastro menor com vela triangular. Isso permitiu a construção de navios muito maiores que podiam levar cargas muito mais pesadas.

No século I a.C., inventaram-se na China, na Índia e no Império Romano as primeiras rodas d’água para aproveitar a energia gerada pela água ao cair de certa altura ou se deslocar rio abaixo. No final do século I, na Síria, as rodas d’água foram equipadas com tubos ou baldes para criar meios de irrigação. O eixo giratório da roda d’água também podia mover outras máquinas, geralmente moinhos para transformar cereais e outros grãos em farinha. No entanto, os primeiros moinhos de vento só foram construídos por volta de 650 d.C.

- Transporte. Nas viagens marítimas, surgiram duas inovações importantíssimas na era clássica. Entre 300 e 100 a.C., os chineses inventaram o leme e tornaram a navegação muito mais fácil. Depois, no século I d.C., inventou-se a bússola, também na China. Descobriu-se que uma agulha de ferro imantada que flutuasse na água sobre uma lasca de madeira apontava a linha Norte-Sul. A bússola tornou-se inestimável para os navegantes.


Uma estrada romana em Pompeia. 
Foto: Paul Vlaar

Em termos de viagem terrestre, os melhores construtores de estradas do mundo clássico foram os romanos. Eles inventaram uma ferramenta especial de topografia, chamada groma, para construir as estradas mais retas que fosse possível. As estradas romanas tinham três camadas, com profundidade de cerca de um metro: sobre uma base de areia e argamassa, dispunham-se filas de pedras planas e, superfície, uma mistura de cal e cascalho. Em razão das excelentes estradas, os romanos puderam desenvolver vários veículos com rodas para percorrer grandes distâncias de forma rápida e confortável. Deles, um dos maiores era o clabularium. Puxado por oito bois, podia transportar cargas de até meia tonelada.


WOOLF, Alex. Uma Nova História do Mundo. São Paulo: M.Books do Brasil, 2014. p. 98-99.


NOTA: O texto "Avanços da tecnologia no Mundo Clássico (500 a.C. - 600 d.C.)" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 26 de abril de 2014

Os progressos tecnológicos na Europa medieval

Apesar da aparente estagnação da Europa medieval, o processo de evolução de sua sociedade não parou, criando-se novas soluções para os problemas que a afligiam, embora em ritmo bastante lento. Nos séculos XI e XII, por exemplo, a Europa conheceu um relativo desenvolvimento econômico, graças ao aumento populacional ocorrido em suas diferentes regiões. Embora a idéia de renovação contrariasse a mentalidade da época, era necessário criar meios para alimentar, vestir e abrigar a população que crescia.

Por volta do ano 1000, já fora introduzido um sistema de atrelagem que permitiu um melhor aproveitamento da tração animal, aumentando o rendimento do trabalho. Tal inovação, que compreendia novos sistemas de arreios e a atrelagem de vários animais, em linha, tornou possível também a utilização do cavalo, mais veloz do que o boi, como animal de tração, para o transporte e nas atividades agrícolas.


Mês de fevereiro. Abel Grimmer

Os progressos tecnológicos mais importantes do período medieval foram o moinho d’água e o arado, difundidos a partir do século XI. O moinho d’água já era conhecido na Ilíria desde o século II a.C., mas escassamente utilizado. No Império Romano, por exemplo, a mó era acionada por escravos ou animais. Também o arado de rodas já era empregado no século I a.C., mas seu uso só foi aperfeiçoado durante a Idade Média, ao longo de um lento processo.


Velha mulher que leva um saco de trigo ao moinho. Atribuído a  Barthélémy d'Eyck e/ou Jean Colombe

Ao Ocidente medieval deve-se ainda a difusão e o aperfeiçoamento de uma série de mecanismos, tais como o parafuso, a roda, a catraca, a engrenagem e a polia. Por outro lado, a construção de igrejas e castelos permitiu o desenvolvimento de alguns aparelhos, como roldanas e certos tipos de guindastes rudimentares, que já eram conhecidos desde a Antiguidade. A nobreza feudal, permanentemente voltada para atividades guerreiras, favoreceu o desenvolvimento de novas técnicas na metalurgia, na balística e outros setores ligados à produção de artefatos bélicos.

As populações medievais não incluíam a tecnologia entre os valores de sua cultura. No entanto, as vantagens oferecidas pelos engenhos mecânicos como poupadores de trabalho é mencionada em alguns textos da época. No século XIII, um monge de Clairvaux chegou a escrever um verdadeiro hino de louvor ao maquinismo. Acerca do moinho d’água do mosteiro, dizia ele: “O rio não contradiz nem recusa nada do que se lhe pede. Levanta ou abaixa, alternadamente, os enormes pilões, poupando ao homem uma grande fadiga... Ele combina seus esforços com os nossos, e depois de haver suportado o penoso calor do dia, espera apenas uma recompensa por seu labor: a permissão de ir embora livre, depois de haver cuidadosamente cumprido tudo que lhe pedimos...”

A madeira retirada dos bosques era a principal matéria-prima utilizada na confecção dos artigos manufaturados medievais. Além de sua importante função como combustível, servia para fazer vigas de construção, tábuas para os telhados, mastros de navio, instrumentos artesanais e agrícolas, calçados e toda espécie de utensílios. Os grandes troncos eram muito raros e ansiosamente procurados. A madeira tornara-se tão preciosa, que passou a ser encarada como símbolo dos bens terrestres, constituindo um dos principais produtos de exportação do Ocidente para o mundo muçulmano. Sua importância só se igualava à da pedra, que também era largamente empregada, formando ambas o par de matérias-primas imprescindíveis às técnicas de construção conhecidas na época.

Os arquitetos medievais costumavam ser ao mesmo tempo carpinteiros e pedreiros, e os homens que erguiam as construções eram qualificados como “trabalhadores em madeira e pedra”. A partir do século XI, verificou-se uma progressiva substituição da madeira pela pedra na edificação de igrejas, pontes e residências. Possuir uma casa de pedra era sinal de riqueza e de poder; e, no final da Idade Média, o largo emprego da pedra na arquitetura acompanhou a ascensão da burguesia.

O ferro, ao contrário da madeira e da pedra, quase nunca era utilizado. Na verdade, tratava-se de material bastante escasso, chegando mesmo a ser mencionado em documentos com o respeito devido aos metais preciosos. A maior parte da produção medieval de ferro destinava-se à fabricação de armamentos, o que era feito com o emprego de técnicas helenísticas aperfeiçoadas pelos romanos. Entre outras armas, fabricavam-se espadas de requintado acabamento, que passaram até a ser exportadas para o Oriente. Em menor escala, eram produzidos alguns instrumentos agrícolas, tais como foices, relhas de arado e pás.


HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 176-178. Volume II.

NOTA: O texto "Os progressos tecnológicos na Europa medieval" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Alimentação nas sociedades contemporâneas

Os dois últimos séculos trouxeram para a alimentação os efeitos combinados da Revolução Industrial, agrícola e dos transportes, provocando a maior globalização da história alimentar com o intercâmbio de produtos e a difusão de tecnologias de refrigeração, conservação, cozimento a gás e elétrico.

Consolidou-se também o intercâmbio que fez os produtos americanos como o milho, a batata, o tomate, o pimentão e muitos outros incorporarem-se à agricultura e à culinária europeia, africana e asiática, de onde, da mesma forma, vieram produtos como o trigo, o centeio, o arroz e tantos outros que se espalharam pelo mundo, integrando-se às tradições culinárias locais.

Esse processo dividiu a economia global em países produtores de matérias-primas, que foram submetidos a regimes de exploração colonial para sua especialização em monoculturas de exportação para os países centrais. Assim o açúcar, o café, o chá, o cacau, a carne e outros alimentos foram concentrados em regiões produtoras periféricas, embora o consumo maior se realizasse nas metrópoles europeias.

A invenção da lata, em 1804, também foi uma conseqüência imediata das guerras napoleônicas e da necessidade militar de garantir abastecimento. Depois disso, a invenção da indústria de refrigeração permitiu, a partir do final do século XIX, o transporte internacional de carne em navios frigoríficos. Isso fez países como a Argentina e a Nova Zelândia passarem a economias de intensa especialização pecuária, começando uma criação de animais em grande escala. Mais tarde, a pasteurização e as técnicas de higiene e assepsia também aumentaram a qualidade e a integridade dos alimentos.


Campbells.
 Imagem: Balougador

No século XX, a expansão da eletricidade e do gás na vida doméstica fez com que a cozinha das casas se tornasse o local de maior influência da Revolução Industrial na vida cotidiana do lar. Primeiro fogões e geladeiras e, depois, especialmente no segundo pós-guerra, eletrodomésticos se tornaram bens de consumo de massa.

A descoberta dos fertilizantes artificiais, no início do século XX, após o uso de insumos como o guano e o nitrato, e a utilização maciça de agrotóxicos ampliaram enormemente o volume de grãos produzidos, mas não conseguiram acabar com a fome no mundo, pois as estruturas de renda desiguais entre os países e em seu interior não permitiam o acesso dos famintos aos alimentos.

As conseqüências socioambientais do modelo agroindustrial baseado em grandes unidades de produção extensiva de monocultura com uso intensivo de insumos técnicos são cada vez mais preocupantes. A eutrofização (causada pelos fertilizantes nitrogenados) das águas, a expansão de doenças devido à criação animal intensiva em confinamento (como a vaca louca e, mais recentemente, as gripes aviária e suína) e o uso de terras para a produção maciça de forragem animal como a soja, por exemplo, trazem graves problemas sociais e ambientais. A expansão de um modelo de alimentação excessivamente rico em gorduras animais, açúcares e carboidratos, com o aumento exponencial da obesidade, também é uma característica marcante de um modelo agroindustrial e cultural cujos efeitos são catastróficos para o equilíbrio ambiental do planeta, devido à busca da produtividade máxima a qualquer custo. O consumismo voraz e perdulário nos países centrais é associado a pólos crescentes de miséria e fome nas grandes cidades e nos países periféricos. A alimentação contemporânea faz parte, assim, de um modelo insustentável que compromete os recursos naturais e humanos em contradição com as grandes conquistas tecnológicas que ampliaram a capacidade produtiva.

Henrique Carneiro. Alimentação. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 4: Idade Contemporânea. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 8-9.

NOTA: O texto "Alimentação nas sociedades contemporâneas" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 23 de março de 2013

A trajetória dos índios no continente americano

Não se sabe quando o continente americano foi povoado, qual a antiguidade do ser humano na América. Alguns estudiosos consideram que a presença humana é antiquíssima. A arqueóloga Maria Conceição Beltrão investigou sítios na Bahia e propôs que ali houvesse vestígios de um antepassado humano, o Homo erectus, entre 500 mil e 1 milhão de anos. Teriam chegado à América do Sul por uma ponte de gelo, que possivelmente ligava a África Meridional à Patagônia. Outros estudiosos pensam que apenas a nossa espécie, o Homo sapiens, tenha chegado à América. A pesquisadora Niède Guidon, ao estudar sítios arqueológicos no Piauí, sustenta que ali havia ocupação humana há mais de 50 mil anos. Teriam chegado àquele local por duas vias possíveis: ou pelas ilhas do Pacífico ou pelo Oceano Atlântico. Ainda com relação à Alta Antiguidade, outros estudiosos, como o biólogo Walter Neves, propõem que havia mesmo uma migração humana anterior à última glaciação - provavelmente há mais de 20 mil anos - de grupos humanos diferentes dos índios que conhecemos hoje. Eles teriam vindo da Ásia pelo estreito de Bering, colonizado o continente, mas não teriam sobrevivido à chegada mais recente, na última glaciação, dos antepassados dos índios atuais, chamados de mongoloides em virtude de suas características físicas, como o olho puxado.

Na verdade, não há muitas evidências concretas da presença de grupos humanos anteriores e diversos da população indígena. Os estudos mais recentes sobre a pré-história mundial não apresentam motivos, até o momento, para aceitar essa presença de grupos humanos anteriores aos asiáticos ou mongoloides. Os arqueólogos Chris Gosden e Clive Gamble são dois estudiosos que ponderam pela dificuldade das hipóteses da presença do Homo sapiens na América há muitos milênios. Nossa espécie teria saído do continente africano há apenas cem mil anos e sua chegada à América tardaria muito tempo. A navegação e colonização das ilhas do oceano Pacífico são muito tardias, apenas nos últimos milhares de anos, o que dificulta a teoria da chegada mais antiga por essa via. Por fim, não há vestígios humanos numerosos e bem datados que possam fundamentar essas hipóteses.

Sobram, entretanto, evidências da presença indígena a partir dos últimos 12 mil anos. As análises genéticas, linguísticas e arqueológicas parecem indicar que a colonização do continente pelos índios se deu de Norte a Sul a partir do estreito de Bering, tendo ocupado toda a imensa área do Alaska à Patagônia em poucos milhares de anos.

Como podemos narrar e interpretar a história indígena nos últimos milhares de anos? Isso depende do ponto de vista que adotarmos e do nosso objetivo.

O modelo interpretativo mais difundido visa a entender, a partir de um número limitado de variantes, os grandes momentos dessa trajetória. Essas variantes são o domínio técnico do mundo material (tecnologia) e a consequente configuração das relações de poder na sociedade, referente ao grau de estratificação social existente. Essa abordagem deriva do evolucionismo, surgido na Biologia, aplicado às sociedades humanas. A partir dela, estuda-se o passado indígena observando o processo que leva ao conhecimento crescente das técnicas, com a passagem de um estágio menos elaborado a outro tecnologicamente mais evoluído.

Segundo a narrativa construída a partir desse enfoque, o uso da pedra permitiu a confecção de artefatos líticos necessários à caça, à pesca e à coleta. As sociedades primitivas, de caçadores e coletores, eram nômades e viviam em assentamentos temporários, pois mudavam de lugar com frequência. Elas tinham também uma estrutura social pouco diferenciada, com chefes e xamãs que exerciam um poder brando sobre o grupo. Esses foram os primeiros habitantes do continente americano, que viveram assim por milhares de anos.

Após esse período, em alguns lugares apenas, certos grupos humanos passaram a dominar novas técnicas, passado a produzir vasos de cerâmica e a domesticar plantas e animais. Com isso, tais grupos tornaram-se mais sedentários e constituíram aldeias maiores e mais estáveis. Como resultado desse processo, as diferenças sociais aumentaram. Os caciques adquiriram um poder mais efetivo e os conflitos entre as tribos indígenas intensificaram-se, com um grande aumento das guerras e, até mesmo, com a formação de confederações de tribos, que lutavam umas contra as outras.

Por fim, da evolução dessas sociedades, em algumas partes do continente americano, surgiram Estados. Na América do Sul, isto ocorreu apenas nos Andes. Ali, alguns grupos atingiram um domínio tecnológico excepcional, por meio de uma produção agrícola intensiva e elaborada, com a produção de grande excedente que podia ser acumulado por uma elite dominante. Isso permitiu o desenvolvimento de um Estado que abrangia uma sociedade muito bem estratificada, como a inca, com um sistema monárquico elaborado, com uma corte real e, com o tempo, a formação de um verdadeiro império, que se estendia por uma imensa área nos Andes. O domínio tecnológico dos metais permitiu a formação de um grande exército. O uso da escrita possibilitou a administração do império. Processos semelhantes ocorreram na América Central, com os maias, e na América do Norte, com os astecas.

Podemos apresentar, de forma esquemática, essa perspectiva no seguinte quadro:

Perspectiva tecnológica evolucionista da História indígena

Tecnologia

Estrutura social
Formação política
pedra
caçadores e coletores
xamanismo

cerâmica
agricultores
cacicado tribal

metais e escrita
populações urbana e rural
monarquia e império


classes sociais



Essa perspectiva é muito útil para compreender, em grandes traços, processos tecnológicos, sociais e políticos.

Posteriormente, os estudiosos de língua inglesa procuraram aprimorá-la, com a definição de cinco etapas esquemáticas:

* Hunters and gatheres (caçadores e coletores)
* Agriculture (agricultura)
* Rank (classe social, graduação)
* Chiefdoms (chefias)
* State (Estado)

Segundo esta gradação, temos uma imagem piramidal explicativa de que, no passado mais remoto, havia apenas caçadores e coletores, sendo que alguns evoluíram para, numa etapa mais recente (em 1500 d.C.), chegar a formar um Estado imperial, como o inca:

Estado imperial
Chefias ou cacicados
Tribos com estratificação social
Agricultores sedentários e ceramistas
Sociedades de caçadores e coletores itinerários

A perspectiva evolucionista chegou a ser criticada por diversos estudiosos por dar a entender que haveria uma progressão valorativa: da "simplicidade e barbárie" dos caçadores e coletores para a "sofisticação e complexidade" das sociedades com classes sociais, estratificação, cidades, províncias e até um império, como o inca. Como se fosse melhor viver em um império do que em uma tribo. Além disso, a progressão evolucionista, adotada sem as devidas ressalvas, pode dar a falsa impressão de que cada etapa põe fim à anterior, quando, na verdade, mesmo à época dos incas, coexistiam caçadores, coletores, agricultores, tribos confederadas e cacicados. E, mais do que isso, tinham lugar ao mesmo tempo, numa mesma cultura, tecnologias de diferentes "etapas tecnológicas". Por exemplo, o uso dos metais não significou o abandono total do uso da pedra. (Mesmo nos dias atuais, é possível observar sua aplicação na separação dos grãos do milho nos campos europeus, em particular no espanhol.) Igualmente, comunidades que adotaram a agricultura nem por isso deixaram de caçar ou coletar quando tinham oportunidade. (Hoje, como obtemos alguns tipos de cogumelo? E certos tipos de trufa? Por meio da coleta, claro, e neste aspecto somos coletores.)

Entretanto, essa classificação não foi abandonada pelos estudiosos, pois, sem a carga valorativa, tem sido muito útil para compreender alguns aspectos da trajetória indígena e, nesse sentido, continua sendo empregada. Com ela, podemos visualizar a importância das transformações tecnológicas e seus impactos na estrutura social e política das sociedades indígenas. Contudo, esta não é a única maneira de se observar a experiência histórica dos índios e outras abordagens, que, por exemplo, se baseiam na valorização da diversidade cultural, nos ajudam a ter uma visão mais acurada, pois complementam aquela baseada na evolução tecnológica.

Essas outras abordagens, chamadas por alguns de "culturalistas", por enfatizar as especificidades culturais, apresentam uma visão mais difusa do passado indígena e não fazem uma classificação que possa ser comparada àquela proposta pelo evolucionismo.

Nessa perspectiva, o nomadismo da floresta tropical, modo de vida praticado por diversos grupos humanos como os nucaques, é explicado não como o resultado de uma tecnologia primitiva, mas é tido como fruto de escolhas culturais desses grupos que os levaram a não quererem adotar outras tecnologias. Poderiam ter domesticado animais e plantas ou desenvolvido a cerâmica para armazenamento de alimentos, já que tiveram contato com povos que dominavam tais técnicas, mas escolheram, por suas disposições simbólicas e culturais, não fazer nada disso.

No extremo oposto, os incas criaram um grande império, com escrita, corte real e as melhores estradas do mundo no século XV. Porém, muitos povos sob seu jugo mantiveram-se como tribos de agricultores, sem grande diferenciação interna e pouco contentes com o fato de terem de pagar tributos para o Estado imperial inca. Só aceitavam o domínio inca por imposição militar, mas sua visão de mundo nada tinha a ver com a inca.

Ainda no mesmo século XV, outros povos da América viviam em tribos confederadas e em guerra entre si, como os tupis.

As classificações e esquemas podem ser didaticamente úteis, mas sempre podem ser reavaliados. Por exemplo, estudos das sociedades indígenas americanas têm mostrado que muitos conceitos explicativos como os fundados no colonialismo e na dominação social (que reconhecem "inferioridades" e "superioridades" entre culturas e povos distintos) devem ser revistos. Os índios nunca utilizaram a roda e nem por isso as estradas incas deixaram de ser as melhores do mundo à sua época, no século XV. A ideia da "domesticação" de animais não se aplica a muitas sociedades indígenas que como os nucaques não usam os animais em cativeiro para produzir alimentos ou outros bens, mas os incorporam em seu convívio de maneira simbólica e espiritual. A oposição radical entre sociedades letradas e ágrafas tampouco parece muito esclarecedora. Em primeiro lugar, sistemas de escrita foram utilizados por indígenas, como no caso da grafia por ideogramas dos maias. Os incas usaram um método original, composto por cordas e nós para registrar sua língua quíchua. Em seguida, como argumenta o estudioso britânico Gordon Brotherston, os desenhos corporais, os penachos, os vasos de cerâmica, as pinturas em couro e nas paredes das cavernas, tudo isso e muito mais consistem em sistemas de escrita, de transmissão de informação de maneira sofisticada e complexa (tão longe, portanto, da simplicidade atribuída aos índios ainda por alguns).

Outras visões antes consagradas também têm sido criticadas, como a que afirma que nas sociedades caçadoras e coletoras há necessariamente uma divisão de tarefas por sexo, ou seja, o homem é o caçador e a mulher é quem faz a coleta e que, por isso, o homem é hierarquicamente superior à mulher. Essa imagem contradiz os resultados de estudos, tanto de comunidades indígenas vivas, como do passado, que mostram que, em muitas delas, às mulheres cabem múltiplas funções e não só as chamadas "domésticas". Eles revelam a existência de grupos indígenas em que a posição da mulher é proeminente, algo muito distante da imagem da mulher passiva que os europeus que os contataram traziam consigo. Basta lembrar que, quando chegaram ao Amazonas, os colonizadores encontraram mulheres guerreiras que chefiavam suas tribos e, por isso, deram a elas o nome das míticas lutadoras gregas antigas: "amazonas". Esse nome deriva da posição hierárquica excepcional dessas índias, também no campo da guerra, considerado pelos colonizadores como apanágio masculino. A arqueóloga norte-americana Anna Roosevelt estudou os assentamentos pré-históricos amazônicos, assim como a cerâmica marajoara, com sua onipresente representação dos atributos femininos da fertilidade e concluiu, de forma enfática, que as mulheres ocupavam uma posição hierárquica relevante. Para além do caso bastante conhecido das amazonas, estudiosas têm mostrado que, em outras tribos indígenas, as mulheres também exerciam papéis sociais muito importantes e valorizados. A arqueóloga cubana Lourdes Dominguez estudou diversas tribos indígenas, dentre as quais as de língua aruaque, presentes tanto no Caribe, como na América do Sul - povos que viviam no Brasil, na Venezuela e nas ilhas caribenhas. Entre eles, encontrou tribos em que as principais divindades eram femininas e a linhagem era materna, tanto no que se refere à descendência como à herança, de modo que a criança era considerada pertencente à família da mãe, assim como os bens eram passados por linha materna. Documentos do início da colonização também se referem a "cacicas", no feminino.

É bom notar que, apenas nas últimas décadas, com a crescente participação das mulheres como estudiosas das sociedades indígenas, foi possível perceber que nem todas as sociedades indígenas eram (ou são) patriarcais. [...] 

Nessa mesma linha, também cabe comentar [...] sobre a diversidade de sexualidades registrada em tribos indígenas. Pesquisas têm mostrado a existência de sociedades indígenas que reconhecem mais do que dois sexos. A arqueóloga norte-americana Barbara L. Voos é uma das estudiosas desses personagens sociais que não são considerados nem "homem" nem "mulher", mas estão em uma terceira categoria designada "muxes" pelos zapotecas, "berdaches" pelos illinois, "winktes" pelos lacotas, "ikoneta" pelos ilinos, "egwakwe" pelos chipewas, "axi" pelos xumaxes, "miati" entre os hidatsas, entre muitos outros nomes que variam de tribo a tribo. O que importa é o reconhecimento da existência de pessoas que não são tratadas como homens ou mulheres, são vistas como de um outro tipo.


Dança para o berdache, George Catlin


Isso se reflete nas relações sociais estabelecidas dentro do grupo. Um grupo indígena, por exemplo, que admite homens, mulheres, e homens que vivem como mulheres e vice-versa, organiza as relações humanas de uma maneira particular. Esta conclusão é um alerta contra as óticas interpretativas que ignoram a diversidade de sexualidades e de relações de gênero entre os indígenas, mas também na nossa sociedade. E é por isso também que esse tema é muito importante hoje [...], no Brasil, pois embora nossa sociedade reconheça a existência de gays, lésbicas e transgêneros, entre outros, com vários direitos garantidos por lei, ainda há muito preconceito e discriminação por conta de suas diferenças.

FUNARI, Pedro Paulo; PIÑON, Ana. A temática indígena na escola: subsídios para professores. São Paulo: Contexto, 2011. p. 38-49.