"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 6 de outubro de 2015

Os mitos dos povos primitivos

Pajé, E. Goodall

Os mitos, a religião, foram, em princípio, a forma que o homem encontrou para tentar explicar a origem da terra, sua própria origem. É através das crenças e mitos que o homem primitivo passa a sua cultura para seus descendentes, além de utilizá-los como uma forma de manter o grupo unido, fiel a suas tradições. [...] na medida em que todos os membros de uma sociedade se sentiam fiéis ao mesmo ancestral, entendiam que todos tinham uma origem comum, aumentava seu sentimento de unidade.

Além disso, o respeito às tradições deixadas pelos antepassados permitem que a tribo organize o comportamento do grupo, fazendo com que todos respeitem as regras básicas, para que a tribo possa sobreviver. Por exemplo: para o homem Tonga (tribo africana do sul de Moçambique), alguma coisa de ruim pode lhe acontecer, caso não tenha cumprido devidamente os ritos determinados pela tradição com relação aos seus antepassados. Se procurar um feiticeiro para aconselhá-lo, este certamente dirá: "Teu antepassado reclama o rito que não foi cumprido". Para este homem, a importância do seu antepassado é tão grande, é tão presente em sua mente, que muito provavelmente o rito cumprido solucionará o seu problema. Ele se sentirá melhor, pois seu antepassado o perdoou. Ele agora está integrado ao seu grupo novamente.

Os mitos dos povos primitivos estão cheios de sabedoria.

Alguns deles nos dão hoje a explicação correta sobre o tipo de plantas que podem ser usadas para a alimentação, quais podem ser usadas na medicina, além de nos relatar a origem de vários grupos, suas tradições e sua história.

Durante muito tempo, os homens modernos desprezaram os mitos e as religiões do povo primitivo. Achavam que todo homem que não vivesse dentro de uma sociedade moderna não devia ser levado "a sério".

Entendiam sua religião, seus ritos, apenas como uma maneira primitiva de "botar para fora" as suas angústias e medos diante de uma natureza desconhecida e, por isso, ameaçadora.

Demorou muito para que os historiadores e outros pesquisadores de nossa época percebessem que o homem primitivo, associando os seus conhecimentos práticos, culto aos antepassados e magia, exprimiam um conhecimento sobre a sua realidade, os homens e a natureza.

Foi muito difícil para o homem moderno entender que podia aprender muito com as crenças e mitos do homem primitivo. Foi difícil perceber que, para entender como viviam, era preciso entender a fundo sua religião. Esta tarefa foi muito dificultada pelos países que exploravam os povos que viviam em uma organização social igualitária, seja na América, seja na África. Estes justificavam sua dominação, dizendo que todas as manifestações destes grupos eram selvagens, primitivos, ignorantes, incapazes de construírem por si só o seu caminho. Por outro lado, os pesquisadores e outros cientistas, que não aceitavam a dominação e exploração exercida contra estes grupos, na tentativa de denunciar os "civilizados" e mostrar que estes não passavam de exploradores, e que seu único interesse em relação a estas comunidades era utilizá-las para se enriquecer cada vez mais, acabavam por cair em outro extremo: analisavam a vida social e política destes grupos como sendo um verdadeiro paraíso! Sem problemas, conflitos ou injustiças, e que tudo de errado, que quebrava a harmonia perfeita dos povos primitivos, tinha sido trazido pelo invasor.

Ora, jamais existiu uma sociedade assim, sem conflitos!

É importante lembrar que se, por um lado, as crenças representavam conhecimentos sobre a realidade que permitiam ao homem relacionar-se com a natureza e entre, por outro lado, algumas crenças e ritos, por estarem ligados a contradições sociais profundas, ou a alguns fenômenos naturais que atemorizavam aos homens, ao invés de permitir que o homem cada vez mais ultrapassasse os desafios que surgiam, o impediam, colocando regras respeitadas muitas vezes pelo medo, que o homem aceitava sem jamais questioná-las.

Os mitos e crenças de que falamos, são formas que o homem primitivo encontrou para explicar, regular e manter o seu mundo. O mundo do homem primitivo. Neste tipo de sociedade, onde não há a exploração do homem pelo homem, e a divisão do trabalho está pouco desenvolvida, as explicações que os homens fazem do seu mundo estão ligadas à sua vida. Não há separação entre o trabalho e a cultura, o trabalho e o prazer etc. Mas todos os homens procuram explicar o mundo em que vivem. E a maneira pela qual constroem esta explicação vai variar de época para época. As ideias que os homens produzem, as explicações do mundo que elaboram, estão ligadas à sua atividade material, à sua maneira pela qual o homem se organiza para sobreviver na sua relação com outros homens.

Com o surgimento da sociedade de classes, e a divisão entre os que produzem e os que não produzem, a unidade entre o pensar/saber e fazer vai aos poucos desaparecendo.

"A produção de ideias, de representações e da consciência está em primeiro lugar, direta e intimamente ligada à atividade material e ao comércio material dos homens; é a linguagem da vida real".

"As ideias da classe dominante são ideias dominantes em cada época; em outros termos, a classe que exerce o poder material dominante na sociedade é, ao mesmo tempo, seu poder espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe com isso, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual".

A classe dominante tem de "representar" os seus interesses como os interesses de todos os membros da sociedade - tem de dar às suas ideias a forma de universalidade e representá-las como as únicas racionais e válidas.

Às ideias, à moral, à religião, aos costumes etc chamamos de ideologia.

A ideologia faz com que as ideias expliquem as relações sociais e políticas, tornando impossível perceber que tais ideias só são explicáveis pela própria forma de sociedade e da política.

BARBOSA, Leila Maria Alvarenga; MANGABEIRA, Wilma Colonia. A incrível história dos homens e suas relações sociais. Petrópolis: Vozes, 1989. p. 52-5.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Art rock made in África

"Arte rupestre da África é a herança comum de todos os africanos, mas é mais do que isso. É patrimônio comum da humanidade. "

Nelson Mandela


A pintura rupestre do continente africano constitui um valioso testemunho da mentalidade mágica dos povos pré-históricos. Suas representações transcendiam objetivos artísticos, cumprindo, primordialmente, um conjunto de funções mágicas de finalidade pragmática: a perpetuação da existência de caça abundante, o alcance do êxito nas guerras e a preservação da capacidade de reprodução da espécie humana. Seu estudo permitiu a reconstituição histórica da vida de povos caçadores, pastores e de civilizações que já haviam adotado a utilização da roda.

As sociedades africanas tradicionais assentavam-se sobre categorias de sexo, idade, relações de parentesco. As divisões baseadas no sexo abrangiam as tarefas e funções de grupo social, manifestando-se já no ritual de iniciação dos jovens e na participação em sociedades distintas e exclusivas. Em geral, cabia às mulheres a tarefa de cultivar a terra, o que as tornava responsáveis pela sobrevivência do grupo, tanto ao nível de subsistência imediata - assegurando a alimentação - como a longo prazo, pela reprodução da espécie. Aos homens pertencia o monopólio das relações com o sagrado e, portanto, a exclusividade das decisões que diziam respeito à coletividade.

Outro elemento regulador da sociedade africana tradicional foi a idade. As gerações apresentavam relações de dominação/subordinação, com preeminência dos mais velhos. Os anciãos possuíam grande prestígio. Existiam também classes de idade: a dos meninos, formada a cada sete anos na época da iniciação sexual; outra reunia os guerreiros solteiros, que só poderiam se casar quando atingissem a terceira classe de idade, por volta dos trinta anos. Todos esses grupos rigidamente estruturados, asseguravam o cumprimento das funções sociais mais significativas segundo as categorias de idade. A passagem de uma classe para outra exigia uma formação complementar, coroada pela realização de um cerimonial específico.

Quando o exercício do poder político é regulado por cerimônias e ritos, o fato geralmente provoca uma ativa criação artística. Tal pressuposto encontra confirmação na África, onde os mais importantes centros de manifestação artística desenvolveram-se junto aos grandes grupos tribais e reinos mais importantes: África ocidental e África central. O domínio do sagrado constitui também ambiente propício às manifestações artísticas. As representações dos ancestrais, os objetos e as máscaras utilizadas pelos membros de associações o atestam. A vida religiosa, assim como as práticas mágicas, é particularmente rica em símbolos materiais e rituais que estabelecem a relação com o sagrado.

Entre os povos primitivos é praticamente inexistente a distância entre o mundo da objetividade e o da subjetividade. Inserido em um ambiente do qual depende de maneira absoluta, o homem primitivo atribui à natureza uma força muito maior do que a sua. As doenças, a morte, os insucessos na caça ou na agricultura, a fome, a seca são acontecimentos que, a um tempo, o desafiam e o submetem. Ser pensante, o homem busca explicar, em termos religiosos, essa força que o domina. Nesse processo de adaptação entre o homem e a natureza, a realidade e a fantasia são fundidas, resultando no aparecimento dos elementos mais conhecidos das religiões primitivas: o culto aos antepassados, as práticas mágicas, o mundo dos espíritos, o animismo e o totemismo.

HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 31-35. Volume III.

Galeria de imagens:

Homem com arco e flecha e cão. Argélia

Gatos em combate. Líbia

Girafa e homens. Namíbia

Figura com atributos masculinos e femininos. África do Sul

Homens e girafas. Zimbábue

Cavalo e homem armado. Mauritânia

Guerreiro e girafas. Argélia

Tchitundu Hulu. Angola

Detalhe de duas pessoas copulando. Argélia

Mulher e cão. Malawi

Inscrição geométrica. Uganda

Homem lançando lança. Argélia

Figuras brancas com as mãos nos quadris. Tanzânia

Antílope. Marrocos

Homens e animais. Zimbábue

Rinocerontes. Botswana

Homem com arco. Argélia

Quatro homens correndo com equipamentos sobre os ombros. África do Sul

Vaca e animal simbólico. Somália

Camelo. Sudão

Crocodilo. Líbia

Dois homens nus com o pênis ereto. África do Sul

Guerreiro montado em cavalo. Chade

Leão, dois guerreiros com lanças e montados em cavalos. Abaixo, cães, uma mulher e um guerreiro. Nigéria

Arte rupestre. Mali

Homem sentado com as pernas cruzadas. Argélia

Camelo branco montado por guerreiro. Chade

Homem e vaca. Egito

Inscrição rupestre. Gabão

Vacas e bezerros. Etiópia

Elefante, homens e girafas. Quênia

Guerreiro. Nigéria

NOTA: O texto "Art rock made in África" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico/antropológico.

domingo, 2 de março de 2014

A exploração da Oceania

Os navios Resolution e Adventure, ancorados diante da ilha de Taiti, em 1773. William Hodges

Povo aborígene pescando e acampando em Merri Creek. Charles Troedel

Os primeiros navegadores europeus que se empenharam na exploração do oceano Pacífico estavam, em sua maioria, a serviço da Companhia Holandesa das Índias Orientais. Nessas viagens, chegaram às costas australianas, à Nova Guiné, à Nova Zelândia e a vários arquipélagos, como os das ilhas Salomão, Tonga e Fidji. Entre os grandes exploradores desse período inicial destacou-se o holandês Abel Tasman (1603-1659), que descobriu a ilha batizada por ele de Tasmânia e explorou a costa meridional da Austrália, dela fazendo os primeiros mapas. Até a metade do século XVIII, porém, não houve maior interesse pela exploração do continente australiano, já que nele não se encontravam especiarias e jazidas de metais preciosos.


Uma oferenda antes do Capitão Cook nas ilhas Sandwich, John Webber

Timmy, um aborígene da Tasmânia, atirando uma lança. Benjamin Duterrau

Em 1768, uma expedição inglesa comandada pelo capitão James Cook (1728-1779), seguiu para os chamados “mares do Sul” a fim de explora-los. Cook fez um detalhado relatório dessa viagem, de grande importância para o conhecimento geográfico da época. Depois de atingir as ilhas do Taiti e da Nova Zelândia, o navegador inglês chegou à costa meridional da Austrália, que chamou de Nova Gales do Sul e da qual tomou posse em nome da Grã-Bretanha.


Representação de um sacrifício humano no Taiti, John Webber

Canoas aborígenes comunicando-se com o monarca e Tom Tough, 28 de agosto de 1855. John Thomas Baines

Em 1786, a Nova Gales do Sul tornou-se uma possessão da Coroa britânica, que ali instalou uma colônia penal. O primeiro grupo de deportados (cerca de setecentos) foi levado para a colônia pelo capitão Arthur Phillip, que se estabeleceu na região onde atualmente se encontra a cidade de Sidney. Nos primeiros anos, a vida da colônia foi marcada por uma série de dificuldades e incidentes, tendo o governador entrado em choque com alguns oficiais que haviam recebido concessões de terras e pretendiam explora-las utilizando a força de trabalho dos deportados. A situação agravou-se ainda mais com a nomeação de William Bligh (1754-1817) para governador da Nova Gales do Sul. Devido à sua extrema severidade, Bligh já havia provocado, em 1789, o motim da tripulação de um navio por ele comandado, o Bounty. A crise chegou a tal ponto que, em 1808, os colonos se rebelaram e aprisionaram o governador, o que levou o governo britânico a retirar suas tropas da região. Apesar de todos esses problemas, a Austrália logo passou a desempenhar um papel muito importante na economia colonial inglesa, principalmente depois que nela foi introduzido a criação de bovinos e ovinos.


Tambores do Taiti. Ídolos das iIlhas Sandwich. Pás. Altar. John Webber

Corrobore, sul da Austrália. WR Thomas

O primitivo estágio de desenvolvimento cultural em que se encontravam os aborígines australianos despertou grande interesse nos exploradores e estudiosos europeus. James Cook e Louis Antoine Bougainville (1729-1811), por exemplo, fizeram análises bastante minuciosas do modo de vida e dos costumes desses povos. Tendo participado da terceira expedição de James Cook ao Pacífico (1776-1779), os naturalistas George Louis Leclerc Buffon (1707-1788), Johann Reinhold Forster (1729-1798) e Johann Georg Adam Forster (1729-1794) realizaram profundos estudos etnológicos sobre os nativos da Austrália e das ilhas do Pacífico, que se estendiam desde o sudeste asiático até o oeste das Américas. Como essas populações ainda se achavam culturalmente na Idade da Pedra, esses cientistas europeus chegaram a acreditar, em um primeiro momento, que haviam desvendado o mistério da origem do homem.

HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 110 e 112. Volume IV.

NOTA: O texto "A exploração da Oceania" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 1 de março de 2014

Pindorama - Os donos da terra

"Antigamente não havia civilizados, mas apenas índios. Uma mulher indígena ficou grávida. Toda vez que ela ia tomar banho no ribeirão próximo da aldeia, seu filho, que ainda não havia nascido, saía de seu ventre e se transformava em animais, brincando à beira da água. Depois voltava outra vez ao ventre materno. A mãe não dizia nada a ninguém. Uma dia o menino nasceu. Era Aukê. Ainda recém-nascido, transformava-se em rapaz, em homem adulto, em velho. Os habitantes da aldeia temiam os poderes sobrenaturais de Aukê e, de acordo com seu avô materno, resolveram matá-lo. As primeiras tentativas de liquidá-lo não tiveram sucesso. Uma vez, por exemplo, o avô o levou ao alto de um morro e empurrou-o de lá no abismo. O menino, porém, virou folha seca e foi caindo devagarinho, voltando são e salvo para a aldeia. Até que o avô resolveu fazer uma grande fogueira e nela atirá-lo. Dias depois, quando foi ao local do assassinato para recolher as cinzas do menino, achou lá uma casa grande de fazenda, com bois e outros animais domésticos. Aukê não havia morrido mas, sim, transformara-se no primeiro homem civilizado. Aukê ordenou, então, ao avô que fosse buscar os outros habitantes da aldeia. E eles vieram. Quando Aukê os fez escolher entre a espingarda e o arco, os índios ficaram com medo de usar a primeira, preferindo o segundo. Por terem preferido o arco, os índios permaneceram como índios. Se tivessem escolhido a espingarda, teriam se transformado em civilizados. Aukê chorou com pena dos índios não terem escolhido a civilização." (MELATTI, J. C. Índios do Brasil. 1970. p. 27-8)

Aí está resumido o mito das várias tribos Timbira, do grupo Jê, que habitam o sul do Maranhão e o norte de Goiás, a respeito da origem dos brancos. Os nativos revelam em suas lendas uma história de dominação, de subordinação perante os europeus. E a atitude dos primeiros donos da nossa terra diante dos civilizados é parecida com a de muitos outros grupos tribais do continente em relação aos conquistadores, tidos como seres excepcionais: cavalo e cavaleiro num só corpo! Demônios donos do raio e do trovão - gerados por seus canhões.


Banquete funerário dos índios Bororó. Brasil Central. Wilhen Kuhnert

O mito dos Timbira diz que "antigamente não havia civilizados, mas apenas índios". Esse "antigamente" vai muito além do que pensamos. As pesquisas já permitem dizer que desde 8000 a.C. grupos humanos habitam a parte do continente sul-americano que hoje constitui o Brasil. Machados e martelos de pedra, pedaços de cristal de quartzo e ornamentos de conchas encontrados na região de Lagoa Santa, atual Estado de Minas Gerais, foram examinados e deram base a essa afirmação.

Mas isso não quer dizer que o ser humano é originário da América. Ele teria chegado ao nosso continente em sucessivas migrações, através do estreito de Bering, principalmente. Acredita-se que os primeiros homens a chegar à América do Norte, oriundos da Ásia, eram simples caçadores. Isso há mais de quarenta mil anos! Na região Ártica está o último grupo a chegar: o dos esquimós.


Índios brasileiros no mapa "Terra Brasilis". Atlas Miller, ca. 1519

E os povoadores do Brasil? Quase nada se sabe sobre a vida humana aqui até a chegada dos europeus. Isso é muito ruim, pois passamos a analisar tudo com noções criadas pelos colonizadores, que sempre se consideraram superiores aos nativos. O próprio termo índio, por exemplo, é uma criação dos espanhóis, fruto de um engano dos que se imaginavam nas Índias...

Para os diferentes grupos tribais que viviam aqui não existia Brasil. A nação de um índio é a sua terra, é a área onde ele vive com sua tribo. É Pindorama, a terra das palmeiras, para uns, é Piratininga para outros e assim por diante. Como disse um chefe Seattle ao presidente norte-americano em 1855, "somos parte da terra e ela é parte de nós".


Dança em frente ao tronco. Festa do Kuarup, na aldeia Kamayurá. Alto Xingu (MT). Foto: Marcello Casal Jr. Agência Brasil

Os grupos tribais mais importantes eram os do tronco Jê, Nu-aruak e Karib, além do Tupi. Não podemos generalizar os costumes dos Tupi para todos os outros grupos. Isso aconteceu porque foi com as tribos do tronco Tupi que os colonizadores tiveram o primeiro contato. Disso resultou que muitos indígenas aprenderam o tupi-guarani com missionários portugueses, pois não falavam essa língua. E, embora tivessem outras divindades, foram catequizados para crer em Tupã, o ser sobrenatural que, segundo a crença tupi, controlava o raio e o trovão.

Assim como os Tupi não eram o único grupo tribal brasileiro, havia na América pré-colombiana um grande número de povos, com modos de vida bastante diversos. Uma enorme riqueza e variação em matéria de vida social! Os Asteca, os Inca e os Maia realizaram magníficas obras arquitetônicas e artísticas e construíram grandes cidades, como Tenochtitlán, Cuzco e Chichén Itzá, além de conhecerem eficientes técnicas de irrigação e fertilização do solo. Povos como os Jê, os Charrua e os Esquimó, por outro lado, eram nômades ou seminômades, extremamente hábeis na pesca, na caça, na coleta ou na prática de uma agricultura simples.

Foi com os nativos da América que os europeus conheceram o tabaco, o cacau, o milho, o tomate e a batata. Cada sociedade indígena que os conquistadores "conheciam" tinha um novo mundo a revelar.

[...]

Em geral, os nativos do Brasil viviam - e os remanescentes ainda vivem - em regime de comunidade primitiva. A terra pertence a todos e cada casal faz uma roça, de onde extrai alimentos para si e seus filhos. Quando aquele pedaço de terra é abandonado, outros podem utilizá-lo. Arcos, flechas, machados de pedra e outros instrumentos de trabalho, quase sempre rudimentares, são de propriedade individual. A divisão das tarefas de sobrevivência é natural, isto é, por sexo e por idade. Todos trabalham! As mulheres cozinham, cuidam das crianças, plantam e colhem, ajudando diariamente os homens, nesse caso. Estes participam de atividades guerreiras, da caça e da pesca, da derrubada da floresta para fazer a lavoura. Troncos e tocos são queimados antes da semeadura: é a coivara, método que até hoje é utilizado no campo brasileiro.


Aldeia de caboclos, Jean-Baptiste Debret

Uma sociedade organizada dessa maneira não tem classes sociais. O trabalho para a sobrevivência também cabe aos chefes de aldeias, unidades políticas independentes que compõem as tribos. O índio é tão consciente de sua função social que muitos velhos preferem isolar-se do resto do grupo, para não atrapalhá-lo. [...]

Numa sociedade sem classes, a competição não é tão acirrada. Isso explica a forma curiosa como os índios Kanela terminam suas partidas de futebol, jogo que aprenderam com o branco: sempre fazem o possível para dar empate.

Vivendo solidariamente, a penúria de um é a de todos e a fartura chega também para toda a tribo. Assim, nas épocas de escassez, todos emagrecem, voltando ao peso normal nos períodos de abundância. Por isso, se entende o espanto dos índios, neste relato do sertanista Chico Meirelles:

"Quando levei os Xavante ao Rio de Janeiro pela primeira vez, eles quiseram saber de onde vinha nossa comida. Levei-os ao mercado, onde existe uma quantidade enorme de frutas e legumes, mas também existe uma multidão de crianças e velhos catando comida no lixo. Eles me perguntaram como que nós, tão ricos, que dávamos presentes a eles, permitíamos aquele espetáculo. A cena foi um choque para eles. Muitas vezes a camisa que damos ao índio, ele entrega a um trabalhador." (Revista Veja, 23/05/1973)

Numa sociedade com pequeno desenvolvimento técnico, a produção de excedentes é reduzida. Por isso, as trocas são poucas, quase que só existindo no caso de um grupo produzir o que o outro não tem. As trocas rituais servem para estreitar os laços de amizade e isso é feito também com os brancos, conforme comprova o interessante relato de Meirelles:

"No fim da tarde, reúno sanfoneiro, tocador de cavaquinho, de pandeiro, começo a fazer barulho. Passado algum tempo, os índios chegam perto e - sem sair a mata - imitam onças, guarás, gaviões. É fácil perceber que são índios, pois não é possível aparecer tanto bicho diferente de uma só vez... Com os Cinta-Larga, um dos presentes que deixamos foi meia dúzia de cachorrinhos, nascidos em nosso acampamento. Eles ficaram malucos com os animais, mas não sabiam como pedir mais cachorros. Sabe o que fizeram? Pegaram um camaleão, cortaram o rabo e deixaram amarrado numa árvore. Existe muito camaleão na floresta e eles não precisam dessa bicho. Deixei, então, mais cinco cachorros e, quando voltamos, já tinham pegado os cães e havia mais de cem camaleões amarrados nas árvores!"

Nada mais eficiente do que a educação entre os índios. Os curumins aprendem e se divertem ao mesmo tempo: conhecer não é algo desligado da vida, como hoje em dia acontece muitas vezes conosco. As indiazinhas brincam com bonecas, os meninos flecham calangos e passarinhos com pequenos arcos. Nesses jogos infantis, eles imitam os adultos. E os ajudam também: as meninas menores tomam conta de irmãos pequeninos, as maiores mastigam as raízes com que se fazem as bebidas. Os meninos, muitas vezes junto com os velhos, carregam armas e caças ou espantam os pássaros das roças, nas vésperas das colheitas. O valor que os nativos dão aos seus filhos está comprovado num simples exemplo: em muitas tribos os adultos só conversam com as crianças acocorados, ficando assim em pé de igualdade com elas.

Em suma, um universo diferente do nosso. Hoje já se revê tudo que se disse preconceituosamente sobre o "atraso" e a "preguiça" dos índios. E nem todos acham importante "integrar o índio à civilização". Uma grande autoridade no assunto, o sertanista Orlando Villas Boas, criador do Parque Nacional do Xingu, comenta:

"Que diferença enorme entre as duas humanidades: uma tranquila, onde o homem é dono de todos os seus atos; outra, uma sociedade em explosão, onde é preciso um aparato, um sistema repressivo para poder manter a ordem e a paz. Se um indivíduo der um grito no centro de São Paulo, uma rádio-patrulha poderá levá-lo preso. Se um índio der um tremendo berro no meio da aldeia ninguém olhará para ele, nem irá perguntar por que ele gritou. O índio é um homem livre." (Revista Visão, 10 fev. 1975)

A vida em Pindorama era extremamente oposta à do nosso país de hoje. Talvez por isso o escritor paulista Oswald de Andrade (1890-1954) tenha afirmado que "antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade..."

Não podemos, entretanto, mitificar o índio, imaginando-o um ser humano perfeito e suas tribos o paraíso na terra. Como qualquer sociedade, a comunidade primitiva tem suas "falhas": em muitos casos a mulher é discriminada, por vezes ocorrem guerras violentas entre grupos e a solidariedade quase sempre provém mais das adversidades da natureza do que de uma escolha racional. O que não existe é a exploração de uma classe por outra, e isso traz consequências positivas para todo o corpo social.

ALENCAR, Francisco [et alli]. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 4-8.

NOTA: O texto "Pindorama - Os donos da terra" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 1 de junho de 2013

África Negra 1: O grande movimento migratório africano. Cuxitas (cultura Nok). Bantus. Pigmeus. Khoisans

Figura em terracota. Cultura Nok. 
Foto: Jastrow

O desenvolvimento das sociedades africanas, sobretudo as que se estabeleceram ao sul do Saara - a chamada África Negra -, foi, até pouco tempo, considerado como um fenômeno que não sofreu influências externas, exceto na costa oriental. Essa percepção, por parte dos estudiosos, decorre do tipo de desenvolvimento vivenciado ao norte do Saara, pois a região fazia parte do mundo mediterrâneo e vinculava-se, em grande medida, aos acontecimentos do Oriente Próximo.

Era comum, assim, que os caucasóides se deslocassem apenas para o norte e para o nordeste, enquanto os negros do Saara tendiam a se movimentarem para o sul, especialmente para o Sahel. Nos dois casos, o resultado foi um aumento populacional e o consequente desenvolvimento da agricultura, como a forma mais eficaz de manter a população em crescimento. Cabe ressaltar que, independentemente do aumento da população resultante da imigração do Saara, o desenvolvimento da agricultura parece ter produzido um aumento demográfico também na metade sul da África, onde, eventualmente, absorveram as outras populações, com exceção do extremo sudoeste do continente.

O Vale do Níger e a bacia do Lago Tchad ofereciam, como o Vale do Nilo, condições favoráveis para o aumento da população e para a agricultura, ao contrário do que até recentemente se acreditava. Mais para o sul, entre os atuais territórios de Gana e da Nigéria, onde existe uma interrupção da floresta tropical sem condições para o cultivo de cereais, houve a tendência ao cultivo de vegetais que, provavelmente, deu origem aos inhames africanos.

As transformações ambientais (ressecamento do Saara) e civilizacionais (na bacia do Nilo) geraram um movimento migratório que levou sucessivas gerações de pastores cuxitas e não-saarianos a avançar pela margem sul da faixa de Sahel no sentido leste-oeste, possivelmente iniciado por volta do ano 2750 a.C.. Os cuxitas, que pertenciam ao grupo hamita, estabeleceram-se no Lago Tchad e nas savanas a oeste deste, enquanto os nilo-saarianos se assentaram no curso médio do Rio Níger. A sudoeste deles, na zona de floresta, estavam os negros, futuros bantus. Então, a revolução neolítica, trazida pelos novos vizinhos, ingressou em sua região, fazendo com que o processo anterior de conversão dos agricultores em pastores começasse a ser revertido. O cultivo do sorgo permitiu aos povos negros crescerem numericamente e se expandirem por toda a região ocidental ao sul do Saara.

No século II a.C. eles criaram a cultura Nok (na atual Nigéria), onde começaram a fabricar utensílios e armas de ferro, difundindo a prática aos seus territórios. Logo se desenvolveu um conjunto de centros políticos e, no início da era cristã, quando os romanos estabeleceram sua hegemonia no Mediterrâneo, os bantus iniciaram uma intensa migração rumo ao leste, através da floresta equatorial, atingindo o Lago Vitória. A floresta era habitada pelos pigmeus e o leste e o sul da África pelos khoisan, povos nativos e bastante primitivos que viviam da caça e do pastoreio. Esses povos, que ainda se encontravam na Idade da Pedra, não tinham condições de enfrentar os bantus, e os pigmeus se retiravam para o interior das densas florestas do Congo, enquanto os khoisans refluíram cada vez mais para o sul.

Aldeia Khoisan, Samuel Daniell

[...]

Apesar de reduzidos numericamente, eles se adaptaram a ambientes inóspitos e sobreviveram. No ano 200 d.C., os bantus chegaram ao Oceano Índico e ocuparam a região dos lagos por completo. No ano 500 eles retomaram a migração para o sul (sempre empurrando os khoisans), colonizando o oeste de Madagascar, enquando um grupo de malaio-indonésios aportava no leste da ilha, após uma travessia marítima "cega".

VISENTINI, Paulo Fagundes et alli. História da África e dos africanos. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 31-32.

sábado, 17 de novembro de 2012

Em direção à Polinésia / Ilha de Páscoa / Maoris

Moais, Ilha de Páscoa

O mundo ainda encontrava-se dividido em centenas de minúsculos mundos que eram quase independentes. Enquanto a Europa e a China formavam cada uma grandes mundos, com o tráfego fluindo entre si, a África, as Américas e a Australásia consistiam de vários mundos pequenos e isolados [...].

[...] Em toda a história humana, houve somente três grandes passos que cruzaram os mares para povoar grandes terras desabitadas: um foi a migração, há mais de 50.000 anos atrás, da Ásia para a Nova Guiné e Austrália, outro foi a migração da Ásia para o Alaska há mais de 20.000 anos, seguido pela lenta ocupação de todo o continente americano; o terceiro, em tempos bem recentes, foi a migração dos povos da Polinésia para uma extensa faixa de ilhas desabitadas dos oceanos Pacífico e Índico. Uma das marcas de que essa migração é recente é que ela aconteceu na era cristã [...].

[...]

A lenta migração em direção às ilhas começou no sul da China, de clima tropical e coberta de florestas. [...] Uma vez em terra, eles estabeleciam seus modos de vida [...]; faziam suas próprias ferramentas de pedra, sabiam fazer o tipo de cerâmica na época comumente usada na China e, provavelmente criavam porcos, galinhas e cães. Não há dúvidas que eram hábeis na navegação. [...]

Sua sucessão de viagens lentamente movia-se para o leste, intermitentemente, de ilha em ilha. Nos mil anos que se seguiram, esses povos do mar chegaram às ilhas das Filipinas, das quais pedaços de terra foram limpos para plantações. [...] Nesses lugares, os habitantes existentes foram derrotados em guerra, reduzidos por novas doenças, empurrados para as colinas menos favoráveis ou simplesmente absorvidos nas classes dos povos invasores.

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As viagens desses povos, apinhados em suas canoas, seguiam um tipo de lógica. Aventurando-se rumo ao leste, eles tinham a probabilidade de descobrir ilhas, habitadas ou não, de clima tropical e vegetação como a que tinham acabado de deixar para trás. Na fase inicial da migração, os ventos também foram favoráveis. [...]

A lenta rota da migração equatorial chegou à ilha de Nova Guiné, já há muito povoada, ocupando algumas partes da costa por volta de 1600 a.C. Em seguida, entrou na região das ilhas tropicais, onde nenhum ser humano vivia. Em 1200 a.C., as velas marrons de seus barcos já se encontravam nas vilas costeiras de Nova Caledônia, Tonga, Fiji, Ilhas Salomão e Samoa. Em 500 d.C., seus barcos foram vistos em torno do Havaí e da Ilha de Páscoa. [...]

Ao longo de uma linha de ilhas que formavam um tipo de Via Láctea cruzando o Pacífico, esses marinheiros deixaram para trás evidências eloquentes de suas origens. Mesmo hoje, desde as partes isoladas das montanhas de Taiwan até a Ilha de Páscoa e a Ilha Pitcairn, a leste, a família de línguas austronésias sobrevive.

Para os polinésios, o fato de encontrarem a presença de vulcões na Ilha de Páscoa foi um triunfo especial. Era um mero ponto no oceano, a 1600 quilômetros da terra habitada mais próxima. Um dia densamente arborizada, tornou-se tão desmatada pelos novos colonizadores que, no final, seus imponentes monumentos não eram antigas árvores, mas estátuas de pedra, em torno de seiscentas delas no total. [...] Na língua e na sociedade, os habitantes da Ilha de Páscoa eram polinésios, mas suas estátuas e sua forma de escrita sugerem um antepassado ou influências diferentes.



Os polinésios iam desde tribos que viviam em conflito entre si a fortes monarquias que governavam muitas ilhas. O Havaí, com talvez 200.000 mil habitantes ou mais, era praticamente uma monarquia na época da chegada dos primeiros europeus. [...]

Durante essa longa temporada de migrações, outros exploradores alcançaram a imensa ilha desabitada de Madagáscar. A nordeste de Madagáscar, o mar contínuo se estendia até o arquipélago indonésio, a cerca de 5000 quilômetros de distância. [...]

A primeira viagem a Madagáscar, favorecida pela monção de nordeste, aconteceu quando a cidade de Roma estava em rápido declínio, por volta de 400 d.C. [...]

Madagáscar e Nova Zelândia foram as últimas áreas habitáveis de tamanho considerável a serem descobertas e colonizadas pela raça humana. [...] Triunfos na história das navegações humanas eram parte de uma saga de descobrimentos e migrações que praticamente se findaram por volta de 1000 d.C.


Dança de guerra maori, Nova Zelândia, Joseph Jenner Merrett

[Maoris] Do mar, os vilarejos fortificados dos primeiros maoris devem ter sido facilmente avistados. Alguns ocupavam promontórios estreitos e, portanto, eram rodeados nos três lados pelo mar, sua primeira linha de defesa. A subida íngreme e geralmente perpendicular da praia ou dos rochedos até o forte era a segunda linha de defesa. A terceira linha de defesa ainda mais alta era uma cerca de mourões resistentes bem construída, com uma fileira de piquetes de madeira entre si, fincados no chão em espaçamento regular. [...]



Discurso de guerra, Augustus Earle.
 Um chefe Maori em pé numa canoa encalhada, abordando uma multidão de guerreiros, principalmente sentados, com alguns em pé. Duas outras longas canoas estão na praia, e uma com vela está no mar. Um cão (kurī) fareja o chão em primeiro plano. A maioria dos homens estão armados. Uma cabaça e kit de linho são centralmente posicionados entre um grupo de homens.  Earle diz: "um grupo de guerreiros tinha coletado na Baía das ilhas com a finalidade de fazer uma visita hostil a uma tribo de Hauraki. Eles foram detidos por ventos contrários; e por vários dias estavam constantemente envolvidos em ouvir os discursos de seus chefes, que lhes de uma canoa transportada na praia... uma [canoa], que eu medi, tinha 70 metros de comprimento e carregava cem homens a lutar." Augustus Earle

Nos pontos mais altos do vilarejo havia residências de madeira, com depósitos espalhados em alguns lugares. Os depósitos ficavam sobre plataformas para que os ratos não pudessem roubar alimentos [...]. As casas em si, com seus telhados inclinados feitos de sapê, não tinham paredes e deixavam entrar a brisa do mar. [...]

Taupiri, George French Angas

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Uma enorme extensão de terras no interior era necessária para abastecer cada tribo ou vilarejo com alimentos. Os pomares eram cavados com pedaços de pau compridos, de formato semelhante a um pé-de-cabra. A camada superficial do solo era, então, empilhada em fileiras perfeitas com uma pá de madeira e o solo removido plantado com tubérculos. A kumara era o mais valioso desses vegetais. Semelhante a um inhame ou batata doce bem comprido, com uma das pontas ligeiramente grossa e a casca externa rosa-avermelhada, plantava-se a kumara em dias ditados pela fase da lua.


Harriet, esposa de Heke, Hona Heke e Kawiti. Joseph Jenner Merrett

[...] Nas ilhas do Norte e do Sul, o enorme pássaro moa, capaz de correr com grande velocidade, mas incapaz de voar, era uma presa fácil dos caçadores maoris. [...]

Os maoris caçaram o moa com tanto vigor que, por volta de 1400 ou 1500, a espécie estava praticamente extinta. As águias de asas compridas que caçavam os filhotes de moa também estavam condenadas; já não se viam mais águias sobrevoando a região quando os primeiros colonizadores europeus ali chegaram.


Casa de Otawhao, construído por Puatia, para comemorar a tomada de Maketu.  Mostra uma casa esculpida, chamada de wharepuni ou wharenui. George French Angas e J. W. Giles

Não possuindo cerâmica, os maoris usavam a casca externa das cabaças que, no verão, cresciam das trepadeiras que se esparramavam nos telhados das casas ou pelos pomares plantados. Não tinham rebanhos [...]. A pedra tinha de ser usada em vez do metal, e era modelada ou manufaturada com habilidade de artesão [...]. 

Os europeus que viram os polinésios, quando seu modo de vida estava prestes a mudar, ficaram impressionados com sua coragem. Os observadores também notaram a violência dos polinésios: os sacrifícios humanos e o canibalismo. [...]

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do mundo. São Paulo: Fundamento Educacional, 2004. p. 101-106.