"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Masculinidade em Nossa Senhora do Desterro no século XIX

Uma rua da cidade do Desterro, Victor Meirelles

Foi em busca de uma vida de afetividade e sociabilidade que Duarte Paranhos Schutel, desterrense, estudante de medicina na cidade do Rio de Janeiro, em viagem pelas terras catarinenses, narrou o vivenciado no romance A Massambu (1861). Crônica sobre os costumes do povo catarinense, o romance acompanha as transformações urbanas que ocorriam nas cidades brasileiras no segundo império.

O dia mal tinha amanhecido, Duarte paranhos Schutel, juntamente com alguns amigos, verificava as bagagens e os apetrechos que os auxiliariam na viagem. O dia nublado, chuvoso e frio indicava que o caminho seria cansativo, o que tornava o percurso ainda mais difícil e perigoso. A festa do Divino Espírito Santo, em Santo Amaro da Imperatriz, cidade distante, a 80 quilômetros de Nossa Senhora do Desterro - atual cidade de Florianópolis - prometia fé e namoricos.

Os jovens amigos aventureiros iam com alguns dias de antecedência, com o propósito de participar da folia que antecedia a festa. De tradição açoriana, a folia do divino era uma pequena companhia de músicos e cantores que percorria, dias antes dos festejos, as ruas da cidade batendo de porta em porta a cantar, a comer, a dançar e a beber, recolhendo dinheiro para a igreja e donativos a serem leiloados no dia da festa do Divino Espírito Santo.

A travessia da serra do ubatão fora penosa com muita chuva e trovões que clareavam a mata e o longo paredão de rochas pontiagudas. O barulho da cachoeira com suas águas virgens a escorrer pelo penhasco obtuso num bailar nômade deixava à mostra suas reentrâncias repletas de languidez. Com habilidade e destreza, ao conduzirem suas montarias, os jovens aventureiros foram conquistando a serra. Agora, a descida, com a trilha iluminada pelos raios do sol, que atravessavam as copas da vegetação espessa, surgia como redentora de todos os temores. 

Na descida, já alcançando a pequena planície, repleta de pés de limões, laranjas e mamões cercados por uma roça de mandioca, os moços festeiros foram despertados pelo barulho de um carro de boi que transportava uma família que se dirigia a Santo Amaro da Imperatriz para participar dos festejos. Vinham famílias inteiras, uns a cavalo, outros em carro de boi, e existiam aqueles que se dirigiam ao lugar das festas caminhando pelas trilhas íngremes da região. Não demorou muito para que as pessoas estabelecessem uma conversa cordial, aos poucos dando referências de onde iam ficar na localidade. Nessas ocasiões, recorria-se ao abrigo de parentes próximos e distantes, às casas dos amigos e aos compadres, ou se amontoavam no interior da igreja em busca de proteção para as crianças e as mulheres. Enquanto isso, as moças, todas faceiras, trocavam olhares, sorrisos e gestos sorrateiros com os rapazes vistosos em busca de um enlace matrimonial. Era tempo também de novas alianças políticas e econômicas, de jogos de cartas com os amigos e de visitas a familiares.

E entre conversas despretensiosas, amenas e singelas, Schutel narra uma cena em que o erotismo invade seus pensamentos ao perceber que, distraidamente, uma das jovens sentada na beira da carroça de boi

[...] ia deixando um pezinho que, às vezes com o balanço, parecia fugir e adiante então um tornozelo bem malicioso.

Nesse descuido da inocência a menina ria conversando com os cavalheiros que pareciam não reparar nos desafios daquele pezinho [...].

Atento à cena que seu olhar observa, formula juízo de valor sobre a falta de atenção dos cavalheiros que cavalgavam logo atrás da carroça e que estabeleciam diálogo despretensioso e ingênuo com a moça. Na sua leitura, os cavalheiros não eram dignos de cobiçar os inocentes pezinhos, pois o primeiro "pequenino e magro trazia nas costas uma enorme bossa, que não era ao certo a da inteligência", enquanto o segundo, "gordo como um vigário", se espalhava sobre a montaria, fornido de barriga "para aguentar o peso desse monstro de cavalheiro".

Diante desse cenário bucólico que seu olhar identificava como território da languidez, percebeu ser a feiura a única coisa, em comum, a unir os dois cavalheiros que cavalgavam em conversação com a delicada e angelical menina-moça a balançar seus doces pezinhos de um lado para outro, criando essa despretensiosa inocência, "dando preferência ora à abundância ora à parcimônia".

Estes dois contrastes tinham, contudo uma cousa de comum, era a fealdade do rosto, nenhum se poderia gabar de mais favorecido do que outro, e por isso reinava a mais perfeita harmonia em sua amizade, onde não tinha entrado o ciúme.

O ciúme na província de Santa Catarina quase sempre foi o motivo dos desafetos das festas. Na vila de Tijuca Grande, distante 70 quilômetros ao norte de Florianópolis, o jornal O Campeão narra notícia dos filhos do senhor João Guerreiro, que primaram numa noite de sábado pela libertinagem e dissolução dos costumes. O motivo para o tumulto que se generalizou nas dependências da residência do senhor Ethur, ilustre comerciante da vila, foi a forma como o jovem Aristo dirigiu-se à namorada de um dos envolvidos.

[...] crê-se que levado por ciúmes, por galanteios do recém-chegado à sua namorada, levou de mão, e sem tir-te nem guar-te, descarregou -lhe uma brutal bofetada. Aristo assim ofendido ao baixar-se para juntar a si o agressor e vingar ao insulto, foi filado na goela por José Guerreiro. A este tempo, meteram-se de permeio outros moços ali presentes, tirando da mão ao primeiro a faca com que se preparava para de novo cair sobre sua vítima.

Engraçada e irônica foi a discussão estabelecida entre Manuel José Ferreira e sua esposa Ana Joaquina na Vila de São José da Terra Firme. Pelas páginas do jornal Correio Catharinense, Manuel e Ana Joaquina travaram discussão sobre traição cometida por ela. Enquanto o marido ultrajado acusava a esposa de adultério e de tê-lo abandonado com três crianças pequenas, sua esposa o denunciava por não querer dar-lhe seu quinhão de terras que possuíam no distrito de Picadas do Sul. O entrevero durou dias na imprensa desterrense e, por onde se andava, não se falava de outra coisa.

Vista do Desterro, Victor Meirelles

Logo que a desavença familiar começou a ser esquecida, a população da Ilha de Santa Catarina se viu envolvida em outro caso amoroso. Para delícia dos moradores da pacata e aprazível vila do Desterro, numa manhã de quarta-feira, um suposto amante preterido diante do seu assédio, vendo-se não mais correspondido em suas intenções amorosas, faz publicar na imprensa:

Recebi seu amável recado! Fiquei sabendo que minhas cartas não terão mais a honra de serem recebidas pela senhora, mas, peço, ao menos responda à que tive a honra de dirigir-lhe em 7 do corrente mês, pedindo uma solução favorável aos nossos negócios.

O viajante Auguste de Saint-Hilaire, que visitou a ilha de Santa Catarina, em 1820, e que aqui viveu algum tempo, registrou que, no Desterro, os homens se privavam de muitas coisas em favor das suas mulheres e amantes. Acrescentou ainda que não observou em outras regiões do Brasil patriarcal uma desproporção tão acentuada do vestuário feminino e masculino. Nos dias de festividades, elas se vestiam com elegância e bom gosto, "e a maneira como se acham trajados os seus maridos faz com que eles pareçam seus criados".

Açoriana, Victor Meirelles

Se os maridinhos arrumadinhos da Ilha de Santa Catarina se sacrificavam em nome de suas esposas e amantes, como constatou Saint-Hilaire, não saberíamos asseverar. Contudo, com o sugestivo título "Amor Perdido", o jornal Periódico da Semana narra as artimanhas que uma suposta amante encontrou por ter sido pega pelo amante nos braços de outro.

Tendo um amante encontrado a sua bela nos braços de seu rival, ela lhe negou atrevidamente o fato - Como! Disse ele furioso, atrevei-vos a negar a desmentir aquilo que eu vi com os meus próprios olhos?! Ah! pérfido! lhe disse ela, bem vejo que tu não me amas, visto que crês mas no que tu vês do que no que digo.

Diante da enfermidade do senhor Genuíno, alguém lhe sugere procurar o doutor Bovino, que possui um "meio fácil" para curá-lo.

O senhor Genuíno está atacado de uma moléstia conhecida pelo nome de corno Mania. Um sujeito a quem isto foi dito lembrou um meio fácil para obter-se cura infalível. E era ser consultado sem perda de tempo o doutor Bovino que cura pelo sistema de Rêlhopathia.

[...]

Ao difundir a economia dos gestos e das atitudes, a burguesia, em ascensão na província de Santa Catarina, tratava de patrocinar as clivagens das condutas. A representação do homem cortês, provedor e próspero tornara-se, no século XIX, a imagem a ser conquistada e construída.

Os rituais das ambiguidades e dos contraditórios buscavam a afirmação de si numa sociedade repleta de salões e palcos. A encenação das atitudes e gestos inventava uma corrente de signos e de simbologias. E seu itinerário evaporava-se nos impulsos de um mundo sem limites. Decifrar os códigos e dominar as etiquetas era a única oportunidade para o homem mensurar e distinguir as práticas de afetividade e de sociabilidade. [...]

[...]

Schutel, depois de devidamente instalado nas cercanias da vila, na residência de um parente distante, logo que chegou à festa do Divino Espírito Santo e diante da movimentação no adro da igreja, bem como no seu interior, perscrutou o burburinho de olhares, gestos e palavras sussurradas em segredos. Sinais identificados como espaço da libidinosidade e que, de acordo com seu juízo ético, "era justamente o prazer que os homens buscavam espalhar com essa festa".

Entre sua inocência e inocentes observações, descreve os homens presentes na festa - roceiros, matutos, mal-educados, magros, apatetados, mal trajados, viciados em jogos, feios, obesos - e, em várias oportunidades, não deixa de criticar, com certa ironia, o vestuário dos homens dessa paragem. [...]

[...]

Auguste de Saint-Hilaire, em sua expedição à província de Santa Catarina, ao visitar a ilha em 1820, viu alguma elegância no vestuário dos homens de maiores posses. Seus trajes eram constituídos de calça de algodão, chapéu de feltro preto e sapatos muito limpos.

Robert Avé-Lallemante, que andou por terras catarinenses em 1858, assevera ao seu indulgente leitor que falta à cidade de Nossa Senhora do Desterro "o verniz de certa elegância", porém encontrou na festa da romaria do menino Jesus "cavalheiros e senhoras muito elegantes a cavalo [...] e que tinham boa aparência".

[...]

John Mawe, que chegou a Nossa Senhora do Desterro no dia 29 de setembro, em plena primavera de 1807, participou de algumas reuniões sociais. Conta que "os habitantes, em geral, são muito urbanos e corteses para com os estrangeiros".

[...]

Ao desencadearem uma série de imagens da população masculina da capital da província de Santa Catarina, os viajantes estrangeiros quase sempre construíram as representações masculinas a partir de seu olhar europeu, que via, no novo mundo, o lugar da barbárie.

[...]

Antonio Emilio Morga. Masculinidade em Nossa Senhora do Desterro e Manaós: territórios e ardis. In: PRIORE, Mary del; AMANTINO, Márcia (Orgs.). História dos homens no Brasil. São Paulo: EDUSP, 2013. p. 213-218, 222-223, 230-232.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Família brasileira no Império: o modelo burguês de família

O último baile, Aurélio de Figueiredo

A concepção burguesa de família se implantou no Brasil no decorrer do século XIX. Foi durante esse período que a sociedade brasileira assimilou, de alguma maneira, as ideias liberais europeias e os progressos tecnológicos da Revolução Industrial. Esse modelo burguês de família obrigou, pela primeira vez no país, a uma clara delimitação no meio urbano entre o espaço privado e o espaço público. Essa família burguesa tinha como uma das suas características a intimidade.

Enquanto a família patriarcal é numerosa, estendida, a família burguesa se caracteriza por um triângulo básico: a esposa, o marido e os filhos.

Cena de família de Adolfo Augusto Pinto, Almeida Júnior

Aqui o modelo burguês de família encontrou uma realidade completamente diferente da europeia, na qual nasceu. No Brasil do período imperial, predominava o mundo rural, o escravismo e o latifúndio exportador. Não havia aqui uma aristocracia com hábitos mais modernos, nem uma classe burguesa, nem uma urbanização acentuada.

[...]

Com a vinda da família real portuguesa para o Brasil e a posterior emancipação política, houve um incremento da vida urbana e uma assimilação de hábitos europeus pelas nossas classes dominantes. O comportamento das elites portuguesas que acompanharam a família real influenciou uma mudança de hábitos dessas classes. As famílias importantes do meio rural passaram a ter sua casa na cidade, particularmente no Rio de Janeiro. Iam para o Rio para que os filhos pudessem estudar, para tratar de negócios, participar da vida social urbana e se aproximar do centro do poder.

Esse comportamento aristocrático trazido pela elite portuguesa pode ser resumido na noção de mundanismo. Vida mundana seria aquela voltada para os prazeres do mundo, frequentando teatros, espetáculos, bailes e saraus. Admirar obras de arte, ter uma vida social intensa, praticando o jogo do amor e da conquista, faziam parte do estilo de vida mundano.


Leitura, Almeida Júnior

O mundanismo rompeu com a moralidade rígida, com o ideal de vida criado pelo cristianismo, marcado pela recusa ao prazer.

Esse novo estilo de vida arrancou esposas e filhas da clausura do lar, permitindo que elas tivessem uma vida mais livre: sair às comprar, seguir a moda europeia, frequentar teatros e cafés, ler romances de folhetim.

Se o mundanismo trouxe a mulher da família patriarcal para fora de casa, a concepção burguesa de família, à medida que tomava força, a conduziu de volta ao lar.

A concepção burguesa de família, que começou a se firmar no Brasil durante o período imperial, teve como um dos seus principais veículos as recomendações e práticas dos médicos higienistas.

[...]

Entre os diferentes temas abordados pelos higienistas, muitos estavam relacionados à mulher e à família: puberdade feminina, menstruação, relações sexuais, prostituição e higiene da primeira infância. Os papéis e os comportamentos da mulher, dentro e fora do cenário familiar, passaram a ser preocupações médicas. A influência desses especialistas aumentava quando eles tinham funções públicas ou políticas importantes, como chefes de sanatórios, diretores de hospitais, deputados e senadores.

Na concepção de família proposta no trabalho desses especialistas, a mulher teria um importante papel. Ela seria um misto de ama, enfermeira, professora e administradora das despesas da casa. Nesse novo papel, ela seria a rainha do lar.

Retrato de Senhora, Henrique Bernardelli

A mãe dedicada e atenciosa era um ideal de mulher que só podia ser plenamente atingido na família burguesa, Os cuidados e a supervisão da mãe passaram a ser muito valorizados. Era louvável que as próprias mães se encarregassem da primeira educação dos filhos, não os deixando sob os cuidados de amas, principalmente de escravas negras.

Dessa forma os médicos, os educadores e a própria imprensa procuraram preparar a mulher para o papel de guardiã do lar e da família. Combatia-se duramente o ócio feminino, sugerindo que as mulheres se dedicassem de corpo e alma aos afazeres domésticos e se desdobrassem nos cuidados para com o marido e os filhos.

Fiel retrato do interior de uma casa brasileira, Joaquim Cândido Guillobel

[...]

Considerada como a base moral da sociedade, a mulher de "boa família", esposa e mãe burguesa, deveria ainda zelar pela sua castidade e pela das suas filhas.

A par dessas recomendações às mulheres das elites, o Estado desencadeou uma série de ações para controlar as camadas populares. Isso era feito em nome da saúde, da segurança e da moralidade. A ordem pública contribuiria para a preservação da honra das mulheres pertencentes às classes médias e altas da população.

Nesse modelo burguês de família, o casamento era usado como um meio de ascensão social. A mulher casada tinha também a função de contribuir para a mobilidade social da sua família. Isso podia ser feito através de um comportamento adequado quando ela aparecia em público ou quando recebia visitas. Nessas ocasiões tinha de desempenhar o papel de esposa e mãe exemplar. Suas filhas, como moças de boa família, poderiam encontrar bons casamentos, contribuindo para a ascensão social da família.

Essa mulher estava, portanto, destinada ao casamento. As que não se casavam melhor seria que fossem para um convento, preservando assim, o "bom nome" da família.

Nesse tipo de casamento, estava presente o interesse de conservar e ampliar o patrimônio econômico da família e mesmo a sua influência política. Tanto que a mulher tinha de ter um dote, o qual se confundia com a própria honra da pretendente ao casamento. Em outras palavras, a moça sem dote não podia ser honrada.

As moças candidatas ao casamento deviam aparecer sempre bem cuidadas e manter a castidade. Isso exigia rigoroso controle sobre o comportamento delas.

Família brasileira a passeio, Joaquim Cândido Guillobel

Conservar a honra da família era também zelar pelos seus interesses políticos e econômicos. A virgindade feminina era requisito fundamental para o casamento nas classes altas, independentemente de ser ou não valorizada por si mesma. Ela servia para manter a condição da noiva como objeto de valor econômico e político. A continuidade da família e a herança dos descendentes dependiam dela.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 248-251.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Noção de intimidade entre os séculos XVI e XVIII

Podemos olhar pelo buraco da fechadura para ver como nossos antepassados se relacionavam? De fechaduras, não! Elas custavam caro e o Brasil, na época da colonização, era pobre. Podemos, sim, enxergar através das frestas dos muros, das rachaduras das portas. Por ali se via que a noção de privacidade estava sendo “construída”, estava em gestação. E construída em meio a um ambiente de extrema precariedade e instabilidade. Em terras brasileiras, colonos tiveram que lutar, durante quase três séculos, contra o provisório: o material, o físico, o político e o econômico. “Viver em colônias” – como se dizia então – era o que faziam. Sobreviviam... E sobreviviam sob o signo do desconforto e da pobreza. Habitavam casas de meias paredes cobertas de telhas ou sapê, com divisão interna que pouco ensejava a intimidade. Nelas faltavam móveis que oferecessem algum conforto, ou boa iluminação, devido à falta de vidros. Instaladas em vilarejos sem arruamento, ali os animais domésticos pastavam à solta e havia lixo em toda parte. A água, esse bem mais precioso em nossos dias, só aquela de rios e poços ou a vendida em lombo de burro ou de escravos. Privacidade, portanto, zero.

A noção de intimidade no mundo dos homens entre os séculos XVI e XVIII se diferencia profundamente daquela que é a nossa do início do século XXI. A vida quotidiana naquela época era regulada por leis imperativas. Fazer sexo, andar nu ou ter relações eróticas eram práticas que correspondiam a ritos estabelecidos pelo grupo no qual se estava inserido. Regras, portanto, regulavam condutas. Leis eram interiorizadas. E o sentimento de coletividade, sobrepunha-se ao de individualidade.


Estudo de um homem nu, Auguste Jerndorff

Mas falar nesse assunto quando a América ainda era portuguesa implica compreender o que se entendia por privacidade há quase trezentos anos. Apenas em 1718 o conceito fará sua aparição. E foi o dicionarista jesuíta Raphael Bluteau quem, pioneiramente, esclareceu:

“Privado: uma pessoa que trata só de sua pessoa, de sua família e de seus interesses domésticos.” Mais tarde, em 1798, no seu Elucidário de palavras e termos, frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo definia que o verbete “privido” – palavra mais tarde substituída por “privado” – designava o que pertencia a uma particular pessoa. Quase cem anos foram necessários para que “privado” deixasse de significar o que fosse familiar e coletivo para se centrar no pessoal. Mas como fazer tal passagem e terras de escravidão e de pobreza material, onde, contrariamente à Europa ocidental, não havia muita separação entre privado e público? Como, num lugar onde todos sabiam de tudo e de todos?

Era diferente. Aqui, muitas pessoas andavam seminuas: sobretudo índios e escravos. As regras e os ritos da Europa não se tinham consolidado entre índios e africanos. Palavras como vergonha e pudor, recém-dicionarizadas no século XVI, continuavam ausentes dos “vocabulários” – nome que então se dava aos glossários -, até entre portugueses. Para os etimologistas, a palavra nasceu à época da chegada dos lusitanos às nossas costas. Antes, pudenda designava os órgãos sexuais, “vergonhosos”. Inicialmente associados à pudicícia, pudor e castidade eram sinônimos. Os primeiros dicionários deram o sentido atual ao termo, ligando-o à modéstia, decência e civilidade. Considerado natural nas mulheres, o pudor permitia afirmar que uma mulher nua podia ser mais pudica do que uma vestida. Isso, pois acreditava-se que, ao despir-se, ela se cobria com as vestes da vergonha.

O pudor que se definia nos dicionários não era um conceito espalhado na sociedade. Enquanto Isabel de Castela, em 1504, morria de uma ferida que não quis mostrar aos médicos, recebendo a extrema-unção sob os cobertores para não exibir nem os pés, muitos moradores da América portuguesa vestiam-se apenas com um minúsculo pedaço de tecido. Descobria-se, então, que existiam povos obedientes a diferentes noções de pudor.

Ora, tais noções foram pioneiras em esboçar a história do polimento das condutas, do crescimento do espaço privado e dos autoconstrangimentos que a modernidade foi trazendo. Daquilo que Michel Foucault chamou de cuidado de si; uma esfera cada vez mais definida entre o público e o privado. Esfera capaz de afastar, de forma progressiva e profunda, um do outro. E que conta a história do peso da cultura sobre o mundo das sensações imediatas. Cultura que nos levou da vida em grupo ou em família para o individualismo que é a marca de nosso tempo.


DEL PRIORE, Mary. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na História do Brasil. São Paulo: Planeta, 2011. p. 13-15.

NOTA: O texto "Noção de intimidade entre os séculos XVI e XVIII" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 17 de agosto de 2013

Heróis e pessoas comuns

Os estudos tradicionais de história referem-se, geralmente, à vida e às ações das elites sociais, focalizando apenas personagens que, por algum motivo, tiveram destaque: governantes, comandantes militares, grandes artistas ou cientistas, enfim, indivíduos que tiveram o reconhecimento dos seus contemporâneos. Trata-se da chamada história dos grandes homens.

Durante muito tempo, o próprio estudo da história confundiu-se com essa forma de abordagem. E ela não impregnou apenas a ciência. As obras de ficção, particularmente as da literatura e do cinema, têm como temas privilegiados a vida e as ações dos heróis.

Por essa razão, quando se estuda história tendo como referência a sociedade, no seu sentido mais amplo, isto é, como resultado da ação de todos os seres humanos, uma das grandes dificuldades é recuperar a vida e as ações dos homens comuns e, mais ainda, das mulheres comuns, dos jovens e das crianças.

No entanto, os chamados "grandes homens" são, por definição, aqueles indivíduos, homens ou mulheres, que, por ações praticadas ou por obras criadas, representam o conjunto da sociedade do seu tempo, sem o qual eles não existiriam.

Portanto, o conhecimento das sociedades humanas, mesmo daquelas que se apresentam como grande "civilização", só se torna completo quando se leva em conta a vida cotidiana, que é, por definição, o espaço da participação popular, da existência das pessoas comuns. É o espaço da rotina, da repetição, diferente do inusitado, da mudança, que, em geral, assinalam os chamados "grandes acontecimentos".

A colheita do feno, Pieter Bruegel

Mas a produção desse conhecimento requer um tipo de estudo complicado e complexo. Para realizá-lo, quase sempre, é preciso recuperar a participação popular por meio de registros documentais e vestígios materiais que foram produzidos por membros das elites, ou por sua ordem, e a elas se referem.

Atualmente, muitos historiadores e os demais interessados nos conhecimentos históricos têm voltado sua atenção para um aspecto por meio do qual se pode conhecer a vida das pessoas comuns: a história da vida privada.

O público e o privado compõem a história. Até muito recentemente, porém, apenas o primeiro elemento era considerado objeto dos estudos históricos. A chamada Nova História abriu espaço para a busca do segundo elemento e, assim, a construção de uma visão tão completa quanto possível da existência da humanidade.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 18-19.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Corpo a corpo com as mulheres

Jovens mulheres tomando banho, Henri-Pierre Picou 

Produto social, produto cultural e histórico, nossa sociedade fragmentou o corpo feminino e o recompôs, regulando seus usos, normas e funções. Nos últimos cem anos, a mulher brasileira viveu diversas transformações físicas. Viu ser introduzida a higiene corporal, que alimentada pela revolução microbiológica transformou-se numa radicalização compulsiva e ansiosa. Acompanhou a invenção do batom, em 1925, do desodorante, nos anos 1950. Nos anos 1920, cortou os cabelos "à la garçonne", gesto sacrílego contra vastas cabeleiras do século XIX. O aprofundamento dos decotes levou-a a aderir à depilação. O espartilho, graças ao trabalho feminino nas fábricas, diminuiu e se transformou em sutiã para possibilitar maior movimentação dos braços. "Manter a linha" tornou-se um culto. A magreza ativa foi a resposta do século XX à gordura passiva da belle époque. O jeans colado e a minissaia sucederam, nos anos 1960, o erotismo da mão na luva e das saias no meio dos tornozelos característicos dos anos 1920. Com o desaparecimento da luva, essa capa sensual que funcionava ao mesmo tempo como freio e estímulo do desejo, surgiu o esmalte de unhas. No decorrer do século XX a mulher se despiu. O nu, na mídia, nas televisões, nas revistas e nas praias, incentivou o corpo a desvendar-se em público, banalizando-se sexualmente. A solução foi cobri-lo de cremes, vitaminas, silicones e colágenos. A pele tonificada, alisada, limpa, apresenta-se idealmente como uma nova forma de vestimenta, que não enruga nem "amassa" jamais. Uma estética esportiva voltada ao culto do corpo, fonte inesgotável de ansiedade e frustração, levou a melhor sobre a sensualidade imaginária e simbólica. Diferentemente de nossas avós, não nos preocupamos mais em salvar nossas almas, mas em salvar nossos corpos da desgraça da rejeição social. Nosso tormento não é o fogo do inferno, mas a balança e o espelho. "Liberar-se" tornou-se sinônimo de lutar, centímetro por centímetro, contra a decrepitude fatal e, agora, culpada, pois o prestígio exagerado da juventude tornou a velhice vergonhosa.

O corpo feminino passou também por uma revolução silenciosa nas últimas três décadas. A pílula anticoncepcional permitiu-lhe fazer do sexo não mais uma questão moral, mas de bem-estar e prazer. A mulher tornou-se, assim, mais exigente em relação ao seu parceiro, vivendo uma sexualidade mais ativa e prolongada. Entre os sexos surgiram normas e práticas mais igualitárias. A corrente de igualdade não varreu, contudo, a dissemetria profunda entre homens e mulheres na atividade sexual. Quando da realização do ato físico, desejo e excitação física continuam percebidos como domínio e espaço da responsabilidade masculina. O casal raramente reconhece a existência e a autonomia do desejo feminino, obrigando-o a esconder-se atrás da capa da afetividade. A famosa "pílula azul", o Viagra, só veio a reforçar o primado do desejo masculino, explicitando uma visão física e mecanicista do ato sexual, reduzido ao bom funcionamento de um único órgão. Revanche masculina contra o "domínio de si" que a pílula anticoncepcional deu à mulher?

O espaço privado no qual tais mudanças se impuseram também mudou. A brasileira saiu do campo e veio para a cidade. Teve de mudar o corpo e alma. Em meio à solidão da grande cidade, ao trânsito, à corrida contra o relógio, aprendeu a sonhar com a emoção do sentimento sincero, com o fantasma da interação transparente e fusional. Leu preferencialmente romances e livros de auto-ajuda, sempre à espera de um príncipe encantado que a levasse de volta ao século XIX. Mas aprendeu também que, neste mundo de competição e trabalho, os sentimentos intensos demais provocam horrível embaraço, e que as lágrimas e a dor devem se submeter a implacável discrição afetiva; a um tal de "self control". Sob o choque da modernidade capitalista, ela viu igualmente a família se modificar. A crescente dissolução de casamentos que duram cada vez menos, o aumento de divórcios que não impedem ninguém de recomeçar constituíram-se em novo cenário para as relações afetivas. É o fim de um mundo constituído por vastas parentelas, famílias enormes, sobrinhos e afilhados reunidos nos domingos para o almoço; onde residem tensões mas também, e sobretudo, solidariedades. Ocupando cada vez mais os postos de trabalho, a mulher vê-se na obrigação de buscar um equilíbrio entre o público e o privado. Tarefa fácil? Não. O modelo que lhe foi oferecido como exemplo, até bem pouco tempo atrás, era o masculino. O modelo feminino de supermulher dos anos 1980, calcado sobre um modelo de forte investimento profissional e de competição, era o de "um homem como nós", como diriam alguns patrões. Mas a "executiva de saias" não deu certo. Isso porque são numerosas as dificuldades e os sacrifícios da mulher quando ela quer conciliar seus papéis familiares e profissionais. Ela é obrigada a utilizar estratégias complicadas para dar conta do que sociólogos chamam de "dobradinha infernal". A carga mental em que se constituem as imbricações e sucessões de atividades profissionais, o trabalho doméstico, a educação dos filhos é mais pesada para ela do que para o homem. Quando quer investir profissionalmente, ela acaba por hipotecar sua vida familiar ou usar todo tipo de astuciosa bricolagem, sacrificando o tempo livre que teria para seu prazer e seu lazer e que poderia ser vivido na esfera doméstica. Muitas mulheres, menos afortunadas, são assim empurradas para uma pesadíssima jornada de trabalho

O diagnóstico das revoluções femininas no século XX é, por assim dizer, ambíguo. Ele aponta para conquistas, mas também para armadilhas. No campo da aparência, da sexualidade, do trabalho e da família houve conquistas, mas também frustrações. A tirania da perfeição física empurrou a mulher não para a busca de uma identidade, mas de uma identificação. A revolução sexual eclipsou-se diante dos riscos da aids. A profissionalização, se trouxe independência, trouxe também estresse, fadiga e exaustão. A desestruturação familiar onerou sobretudo os dependentes mais indefesos: os filhos. Como lidar com essas tensões? Em países onde tais questões já foram discutidas há algum tempo, a resposta veio como proposta para o século XXI: uma nova ética para a mulher. Que ética seria essa?

Uma ética baseada em valores absolutamente femininos. Me explico. De Mary Wollstonecraft, no século XVIII, à Simone de Beauvoir nos anos 1950, o objetivo do feminismo foi provar que as mulheres são "homens como os outros" e devem, consequentemente, beneficiar-se de clientes iguais. Todavia, numerosas vozes levantaram-se, no final do último milênio, para denunciar os conteúdos abstrato e falso dessas ideias. Elas nunca levaram em conta as diferenças concretas entre os sexos, incentivando as mulheres a conformar-se a um modelo concebido por e para homens. Para lutar contra a subordinação das mulheres, essa nova ética considera que não se deve implicitamente adotar os valores masculinos para parecer-se mais aos homens. Mas que se deve, ao contrário, repensar não somente a indiferença em relação aos interesses femininos, mas, sobretudo, o desprezo pelas virtudes tradicionalmente femininas.

[...]

Entre a herança dos anos libertários de 1968 e o desenvolvimento de um pensamento pós-moderno, os valores ditos "femininos" fizeram sua intrusão e são cada vez mais apreciados socialmente. A negociação e a mediação como modos de resolução dos conflitos são preferíveis ao autoritarismo, até nas práticas de certos dirigentes políticos. A cooperação e a solidariedade, sobretudo a assistência ao outro, esvaziam o espírito de competição e egoísmo. A educação pedagógica toma o lugar, pouco a pouco, das antigas formas de disciplina repressivas. Nas sociedades ocidentais, esse processo de "feminização" começou a aparecer tanto na organização do trabalho quanto nos modos de vida, nas formas de consumo ou de comunicação. Eis porque começamos a ver na propaganda a publicidade de "homens voltados para a vida privada", desejosos de se apropriar do que era considerado um atributo das mulheres. Não há dúvida que aquelas que o filósofo Edgard Morin descreveu como "as agentes secretas da modernidade" tornaram-se as principais personagens das mudanças estruturais em nossas sociedades.

A passagem do século XX para o XXI parece marcar uma ruptura na história da invisibilidade das mulheres. Só lhes falta uma participação maior na representação política. [...]

PRIORE, Mary Del. Histórias do Cotidiano. São Paulo: Contexto, 2001. p. 99-102, 105.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

As mulheres na Grécia antiga

Lekythos, 550-530 a.C. Representação de duas mulheres tecendo. Artista desconhecido

Texto 1. Uma importante historiadora francesa, Michelle Perrot, estudiosa da história das mulheres, revela que, no mundo greco-romano, espaço público e cidadania eram uma exclusividade do universo masculino, no qual as mulheres sempre estiveram deslocadas, restando-lhes apenas a esfera privada. Nesta, suas funções eram bem delineadas: procriação, educação das crianças, trabalhos domésticos, manutenção do culto familiar e preservação do oikos, isto é, da casa paterna para os gregos antigos, na qual havia inclusive um espaço reservado a elas, o gineceu. Mesmo sendo esposa ou filha de um cidadão, no mundo grego essa condição não lhe garantia o direito de cidadania. Não raramente era considerada um bem de troca, como se fosse uma riqueza móvel, pertencente a um homem. Essa realidade era mais comum entre as famílias mais ricas, enquanto nas mais pobres o trabalho feminino (tecelagem, por exemplo), realizado geralmente no espaço do oikos, era essencial para garantir a sobrevivência. BERUTTI, Flávio. Caminhos do homem. Curitiba: Base Editorial, 2011. p. 72.

Texto 2. As mulheres livres [...] não tinham cidadania. Algumas evidências também sugerem que levavam uma vida bastante confinada e reclusa, mas havia diferença de costumes. A maioria dos gregos parecia pensar que as moças espartanas recebiam excessiva liberdade (e censuravam muito os calções de ginástica muito curtos com que elas se exercitavam junto com os rapazes), enquanto as mulheres das casas ricas de Atenas, por exemplo, viviam em locais separados, trancadas do resto da casa à noite. Isto pode sugerir a reclusão de um harém oriental, mas o objetivo provável era o de impedir que os homens assediassem as criadas que, grávidas ou com filhos pequenos, teriam menos utilidade como criadas, e haveria mais bocas para alimentar. Contudo, também se sabe que respeitáveis mulheres casadas provavelmente usavam véus para sair de casa, de onde não saíam sozinhas, e não deviam falar com ninguém que encontrassem. Os gregos gostavam de festas - a sua cerâmica o demonstra -, mas parece que não havia atmosfera livre de reuniões mistas de cavalheiros e damas das pinturas dos túmulos egípcios; os homens gregos nunca se encontravam com as mulheres de seus amigos. Se efetivamente encontrassem uma mulher numa festa, ela por certo seria uma cortesã profissional, intitulada de hetaira. Algumas ficaram famosas, pois seus nomes chegaram até nós e, mais do que prostitutas, eram hábeis no canto, na conversa e na dança - embora não fossem nada respeitáveis, já que os seus encantos estavam à venda.

Fora de casa, nenhuma atividade era oferecida a uma dama grega de boa família. As mulheres pobres podiam trabalhar para os outros, mas uma dama não. Nenhuma mulher podia se tornar enfermeira, atriz, escriba ou similares, porque estas profissões não existiam para as mulheres. Parece que, em geral, não se considerava que as moças merecessem ser educadas. Em casa, no entanto, tinham muito o que fazer. As mulheres gregas não apenas lavavam a roupa da família, mas as faziam, provavelmente depois de tecerem o material a partir da linha que elas mesmas fiavam. A administração da casa era complicada e consumia tempo.

Uma das razões pelas quais as mulheres de Atenas [...] tinham menos direitos legais do que os seus companheiros era que a sociedade grega [...] pensava em termos de família e não de indivíduos. A sociedade era patriarcal, as mulheres não podiam possuir propriedades, administrar negócios, e eram sempre tuteladas pelos maridos ou parentes masculinos mais próximos. Se uma filha fosse a única herdeira da propriedade do pai, o seu parente masculino mais próximo tinha direito e era encarregado de reclamá-la em casamento para assegurar que a propriedade permanecesse na família. [...] sabemos que as mulheres gregas iam ao teatro em Atenas; devem ter assistido a Antígona, Electra, Jocasta, Medéia, grandes personagens femininos da tragédia grega, e a muitos outros variados papéis femininos. Elas não os compreenderiam se fossem simples escravas de cabeça oca. Nos túmulos e vasos há figuras de esposas e mães falecidas se despedindo de suas famílias e sugerindo um afeto profundo; [...] Homero disse que "não há nada mais belo do que um homem e sua mulher vivendo juntos uma verdadeira união, compartilhando os mesmos pensamentos" e todos os gregos educados devem ter lido isto.

Quando pequenas, as crianças gregas eram educadas pelas mães, mas como os meninos deviam ir para a escola (as meninas não), eles saíam bem cedo dos cuidados maternos. A educação recebida por um menino grego de uma família de recursos dava grande ênfase à memorização [...] e à literatura, junto com a escrita, a música e a ginástica, constituíam a maior parte do currículo. O objetivo era formar um "homem completo", dar-lhe uma educação abrangente, que servisse a alguém que assumiria o seu lugar na pólis, compartilhando os seus valores e gostos, em vez de treiná-lo em habilidades específicas - algo que os gregos achavam melhor deixar para os escravos. [...] ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 195-197.

sábado, 16 de junho de 2012

Público e privado no mundo burguês da "belle époque"

"O século burguês foi uma era de melhoramentos, mais para os burgueses, talvez, do que para qualquer outro grupo de pessoas. Sua ideologia carregada de esperanças não era apenas uma máscara para encobrir o desespero, mas uma crença sincera no progresso." (GAY, Peter. A experiência burguesa da rainha Vitória a Freud: a educação dos sentidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p. 55.)

O Palácio de Crystal no Hyde Park foi uma imensa estrutura de ferro e vidro que abrigou a grande exposição de 1851. Ele simbolizava as glórias burguesas do progresso e da industrialização. Litografia de Louis Haghe.

A partir de 1848, uma nova era de expansão capitalista entrou em vigor. Mesmo com oscilações políticas, a sociedade europeia, desse período até a Primeira Guerra Mundial, assistiu ao triunfo dos valores burgueses. Uma minoria de países tornou-se potência industrial e lançou as bases de uma economia mundial sob sua influência. Internamente, essa expansão econômica garantiu uma alta taxa de emprego (amenizando, por certo tempo, o descontentamento popular e diminuindo os movimentos revolucionários) e uma situação mais próspera às classes médias.

Apesar de a maioria da população europeia da época se concentrar no campo, era no mundo urbano, em crescimento constante, que irradiavam novos valores sociais e formas de viver. A razão, a ciência, o progresso e a ética do trabalho tornaram-se bases sólidas dos discursos políticos e as máximas expressões de uma burguesia orgulhosa de seus sucessos. [...]

Esse foi um período de confiança no liberalismo econômico e político. À maior igualdade de direitos e oportunidades e ao governo representativo somavam-se a busca do lucro e a defesa da livre iniciativa competitiva e de sua metáfora da guerra: a luta pela existência e sobrevivência dos melhores. [...]

[...]

Como ponto mais visível, o desenvolvimento técnico e científico tornava-se a expressão simbólica e material de toda essa força econômica europeia. [...] A máquina e a produção em massa proporcionavam a vulgarização dos produtos industriais, tornando-se acessíveis a um conjunto maior da população. [...] Às locomotivas e navios a vapor juntavam-se a fotografia, o telefone, a bicicleta e, no final do século, os automóveis, o gramofone e a lâmpada elétrica. Inaugurando a era da propaganda industrial e, ao mesmo tempo, celebrando os progressos técnico e científico, a partir de 1851, grandes exposições universais de novidades industriais passaram a acontecer em diversas cidades, como Londres, Viena, Paris e Filadélfia.

Enfim, aos olhos de boa parte da sociedade, o progresso não era uma evidência apenas pela sua produção técnica. A maior produtividade no campo trouxe a melhoria da nutrição e as pesquisas científicas propiciaram avanços também no campo da saúde. Com elas, vieram o declínio da mortalidade infantil e o aumento da expectativa de vida para muitos europeus.

No final do século, os progressos técnicos e uma relativa paz e estabilidade social marcaram uma época que ficou conhecida como Belle Époque, em que o otimismo e o luxo refletiam uma burguesia confiante em si mesma e no seu futuro.

O novo mundo burguês veio acompanhado por uma separação mais profunda entre o público e o privado. O mundo privado e a subjetividade foram consolidados por uma avalanche de diários, biografias e confissões e pelo novo "sonho de consumo" do século XIX: a possibilidade de se ter um quarto próprio. Os avanços da higiene e da medicalização da família influenciaram na distinção entre o dentro e o fora de casa e na consolidação da ideia de mundo privado do "lar, doce lar".

A moradia passou a ter um peso importante tanto como confinamento residencial e apresentação pública do status quanto como fundamento material do ideal de família. Ter uma casa com jardins, rodeada de verde e afastada do centro da cidade, tornou-se um ideal para a burguesia europeia ascendente. Internamente, os objetos e a decoração demonstravam e possibilitavam a aspiração a um lar harmonioso, cercado por símbolos de status e sucesso. Enfeites, tecidos, cortinas, almofadas, papéis de parede e, para os mais abastados, um piano e uma pequena biblioteca compunham um ambiente acolhedor. Esses objetos, somados aos novos costumes de higiene (sabonete, latrina e banheira), propiciaram algum conforto aos burgueses, segundo Eric Hobsbawn, somente no final do século.

Essa sociabilidade mais íntima dos espaços domésticos veio acompanhada por um discurso que revalorizava a família como unidade social básica. Nos discursos do século XIX, a família nuclear, que  emergia de sistemas de parentesco mais amplos, era fortalecida em sua dignidade e seu poder. Era dela que dependiam a transmissão de todo um patrimônio material e simbólico de reputação e, ao mesmo tempo, o funcionamento de toda a sociedade, pois o lar era a representação do acolhedor lugar da felicidade e da paz, em oposição à competição constante do mundo externo.

Como chave da felicidade universal e do bem público, a família foi projetada sob uma autocracia patriarcal. [...] O ideal de mulher burguesa passou a preconizar, então, um estilo de vida essencialmente doméstico, em que a feminilidade estava assentada na dependência econômica do marido.

Entretanto, foi no seio dessa mesma sociedade burguesa que os ideais de emancipação das mulheres se desenvolveram. O crescimento do planejamento familiar, com a diminuição do índice de natalidade e o aumento do espaço feminino no mercado de trabalho - em lojas, escritórios e no magistério do ensino primário -, no final do século, criou novas oportunidades para as mulheres da pequena burguesia.

Embora a condição para a maioria das mulheres não tenha mudado intensamente no século XIX, nesse período, assistiu-se aos primeiros passos do desenvolvimento do feminismo sistemático, que lutava especialmente pelos direitos de participação política. [...]

A nova realidade da família proporcionava também um investimento maior - afetivo e, principalmente, econômico e educativo - nos filhos. Com um ensino primário, financiado ou promovido pelo Estado, cada vez mais universalizado, a continuidade da educação formal tornou-se um sinal de distinção para aqueles que tinham condição de adiar a tarefa de ganhar a vida.

De fato, a educação secundária e, depois, a universitária cresceram rapidamente entre a classe média e o grau de instrução somava-se à prática do esporte, às ligações sociais e às propriedades como mais um fator de diferenciação em tempos de direitos iguais perante a lei.

MORENO, Jean; VIEIRA, Sandro. História: cultura e sociedade. O contemporâneo: mundo das rupturas. Curitiba: Positivo, 2010. p. 37-39.