"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 2 de setembro de 2012

Mito ou realidade? A Atlântida de Platão

Afresco da Idade do Bronze em Santorini (Grécia): rebanhos, pastores, guerreiros e um naufrágio

Os arqueólogos já encontraram muitas cidades perdidas. Isto significa que toda civilização perdida foi real? Significa, por exemplo, que os cientistas ou exploradores algum dia encontrarão a nação submersa de Atlântida? Opa. Eu disse Atlântida? Não há espaço [...] para entrar nem em uma pequena fração das teorias sobre onde ficava e o que foi Atlântida - se é que ela existiu [...].

Cabeça feminina,  c. 2800-2300 a.C.

Crianças boxeando, afresco (Akrotiri)



A história do continente perdido de Atlântida descreve uma terra de paz e fartura destruída por um cataclisma repentino. A história data dos escritos do filósofo grego Platão (por volta de 428 - 347 a.C.), que usou Atlântida para explicar a relação entre a ordem social e o bom governo. Mas a descrição de Platão abre espaço para interpretações e as pessoas vêm interpretando há mais de 2000 anos.

Harpista, c. 2800-2700 a.C.


Se Atlântida não ficava no Oceano Atlântico, logo após Gibraltar, saindo do Mediterrâneo (e a geologia parece apontar que ela não poderia ficar lá), então, onde ela ficava? Historiadores, arqueólogos, místicos e profetas autodeclarados discutem ferozmente sobre o local. Suposições contrárias colocam o continente perdido em toda parte, desde a Inglaterra até o Triângulo das Bermudas e a Bolívia, do Colorado até o Mar da China. Uma das teorias afirma que Atlântida ficava em outro planeta. E há histórias em quadrinhos que ilustram Atlântida dentro de uma enorme bolha de plástico no fundo do oceano. Praticamente todas as teorias devem levar em consideração o fato de Platão ter pego a história de Atlântida indiretamente de um estadista ateniense, Sólon, que, supostamente, a pegou com sábios em uma visita ao Egito, em aproximadamente 590 a.C. Como Platão escreveu sua versão quase dois séculos depois, por volta de 360 a.C., os detalhes podem ter mudado ao longo do percurso, ou pelo menos é o que creem muitos buscadores de Atlântida.

Garoto nu, afresco em Santorini (Grécia)


Uma das teorias menos absurdas é a de que a história da Atlântida é uma interpretação do desastre vulcânico que destruiu Santorini, uma ilha do Mediterrâneo. Arqueólogos e geólogos modernos estudaram o modo como o cataclisma de Santorini provocou um monstruoso tsunami, seguido pelo escurecimento do céu por causa das cinzas, e que devastou a civilização Minoana nas proximidades de Creta.

Figura masculina, c. 2800-2300 a.C.


Santorini (também conhecida como Thera) fica a aproximadamente 72 quilômetros ao norte de Creta, que era o centro da cultura Minoana. As ruínas minoanas são cheias do que restou de Santorini, mas isso é apenas uma pequena parte do que foi a ilha até aproximadamente 1500 a.C., quando o vulcão de 1500 metros que existia no centro da ilha explodiu e afundou no mar. Desde então, a ilha é um crescente ao redor de uma lagoa que fica dentro da cratera do vulcão. As erupções vulcânicas continuaram por 30 anos, chegando a um clímax devastador: uma enorme onda. Ela derrubou as casas das ilhas de toda a região.

Flotilha, afresco em Santorini (Grécia)

Dama de Akrotiri com papiro, afresco em Santorini



O tsunami dizimou a população e a chuva de cinzas vulcânicas que se seguiu acabou com a civilização Minoana. Ninguém sabe ao certo se o sumiço de Santorini tem algo a ver com o início da lenda de uma civilização perdida, mas as notícias de um evento catastrófico como este se espalharam pelo Mediterrâneo e, com o tempo, se transformaram em lenda.

HAUGEN, Peter. História do Mundo para Leigos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2011. p. 25-26.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Pompeia: uma cidade congelada no tempo

Vila dos Mistérios, Pompeia

[Texto 1] À uma hora da tarde de um dia de verão, segundo o testemunho de Plínio, o Jovem, o Monte Vesúvio entrou em erupção, vomitando lava e cinzas sobre as cidades de Pompeia e Herculano. Um cogumelo de nuvem negra se elevou a vinte quilômetros de altura. Ao fim do dia seguinte, uma camada de seis metros de cinza e pedra-pomes cobria os habitantes da cidade. Ficaram cobertos - esquecidos - por 1.700 anos, preservando uma incrível quantidade de artefatos, mosaicos e murais praticamente intactos.

Venda de pão, Pompeia

Pompeia era uma cidade luxuosa, com uma população de 25 mil habitantes. As escavações científicas, iniciadas em meados do século XIX, revelaram não só objetos triviais como fatias de pão, peixe, ovos e nozes (do almoço abandonado por um sacerdote), mas também residências inteiras com pinturas de naturezas-mortas e paisagens realistas em todas as paredes. Como as casas não tinham janelas, mas se abriam para um pátio central, os romanos antigos pintavam janelas de faz-de-conta "se abrindo" para cenas requintadas. Esse estilo de pintura em paredes abrangia desde simples imitações de mármore colorido até cenas trompe l'oeil de complexos panoramas urbanos, como se fossem vistos através das janelas imaginárias emolduradas por colunas imaginárias. Os artistas dominavam as técnicas da perspectiva e dos efeitos de luz e sombra, desconhecidos no mundo da arte. As paredes resplandeciam com vívidos painéis em vermelho, ocre e verde.

Templo de Ísis, Pompeia

Mosaicos montados com pedacinhos de pedras coloridas, vidro ou conchas (chamadas tésseras) revestiam paredes, tetos e chão. Muitos eram figuras bastante confusas. Num deles, um olho medindo quatro centímetros foi composto com cinquenta cubinhos minúsculos. Era comum ver-se o mosaico de um cachorro nas entradas das casas, com a inscrição Cave Canem (Cuidado com o Cão). STRICKLAND, Carol. Arte comentada: da pré-história ao pós-moderno. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. p. 19.

Cave Canem, mosaico, Pompeia

[Texto 2] Surpreendida pela erupção do Vesúvio, um vulcão considerado extinto, a cidade de Pompeia, próspero centro comercial no golfo de Nápoles, ao sul da península itálica, foi afogada por torrentes de lava, fragmentos sólidos e gases tóxicos no dia 24 de agosto de 79 d.C. Era de manhã, a população começava a trabalhar e os fornos das padarias assavam o pão. Em dois dias, mais de 2 mil pessoas, cerca de 10% dos habitantes locais, morreram naquele mar de fogo. Ruas e casas ficaram cobertas por um extrato de cinza e depósitos vulcânicos que mediam aproximadamente 6 metros de altura. A mesma tragédia fulminou as vizinhas cidades de Herculano e Stabia.


Cena de jardim, Pompeia

Por muito tempo os vestígios de Pompeia continuaram soterrados. No século XVI, os operários que abriam um túnel na montanha La Civita, para a construção de um aqueduto, encontraram as ruínas da cidade. Mas as escavações ainda demoraram 150 anos para começar. Iniciaram em Herculano, achando um grupo de estátuas de mármore e outras preciosidades históricas. A seguir, aconteceram em Pompeia, onde localizaram relíquias petrificadas: os cadáveres de uma mãe e do filho amamentado por ela; um cão preso na corrente; três jovens que fugiam desesperados da Vila dos Mistérios. As descobertas emocionaram o mundo e influíram a arte neoclássica do século XVIII.


Músico com harpa e cítara, Pompeia

Veio à tona uma cidade inanimada, dramaticamente parada no tempo. Emergiram ruas, praças, templos, termas públicas, tavernas, quitandas, residências de ricos e pobres, estátuas e afrescos, objetos variados ligados ao vinho e à cozinha. Os estudiosos passaram a dispor de subsídios não só para a reconstituição da vida numa comunidade antiga, mas na própria Roma imperial.


Cena erótica, Casa del Centenario, Pompeia

Conseguiram imaginar até o que seus 20 mil habitantes comiam. Um dos trabalhos mais interessantes foi feito pela italiana Eugenia Salza Prina Ricotti.


Jogadores de dados, Osteria della Via di Mercurio, Pompeia

Segundo ela, a população da cidade levantava muito cedo, pois orientava a vida pelo relógio solar. O café da manhã era à base de pão, carne e queijo. Ao meio-dia havia uma refeição leve. Às três ou quatro da tarde, após eventuais escalas nas termas públicas, aliás bastante frequentadas, os habitantes se entregavam à ceia, sempre com pratos substanciosos. Era a refeição principal do dia, como sucedia em todo o Império Romano. Comia-se de tudo, especialmente azeitonas, avelãs, nozes, tâmaras e frutas secas, lentilha, grão-de-bico, cevadinha e trigo - com o qual se preparava uma primitiva polenta. Faziam sucesso sopas, ensopados, cozidos, grelhados e assados, do mar ou da terra. Havia gelados com neve do jardim ou das montanhas. Bebia-se muito vinho, produto crucial no comércio de Pompeia, geralmente diluído em água fria ou quente, algo costumeiro na época. Adaptado de: "A cozinha que o Vesúvio destruiu". Estadão. 08/09/2002.


Natureza morta, Pompeia

[Texto 3] Em Pompeia e Herculano, os afrescos e os mosaicos decoram a maioria das casas particulares e das lojas. Refinadas ou populares, as pinturas têm inúmeras fontes de inspiração. Os temas ligados à cozinha - alimentos, artesãos (padeiros) e mercadores, preparação das refeições, como também tabernas e banquetes - são abundantemente representados.


Natureza morta, Casa de Julia Felix, Pompeia

Os romanos atribuem, com efeito, grande importância à escolha de alimentos de qualidade e à sua preparação. Do levantar ao meio-dia, eles se contentam com uma alimentação frugal, pão, queijo, azeitonas e uma fruta. Sua única verdadeira refeição é o jantar (a ceia), tomada no final da tarde. Para os habitantes de Pompeia, que vivem em alojamentos coletivos desprovidos de fogões, as tabernas abertas na rua oferecem alimentos quentes para levar, salsichas, caldo de ervilhas e variedades de salgados. Nas famílias mais abastadas, a cena é tomada no triclinium (sala de jantar): a mesa (ou as mesas) sobre o qual os criados põem os pratos é cercada por sofás-camas em que se recostam os convivas. Os cozinheiros, muitas vezes comprados a preço de ouro, têm a arte de temperar carnes e peixes com especiarias de origem italiana (funcho, cominho, hortelã) ou exótica (pimenta, gengibre), e com condimentos, dentre os quais o mais requisitado é o garum, à base de intestinos de peixes. Eles se esmeram também para encontrar mercadorias excepcionais como ostras, certos peixes, crustáceos ou carne de caça proveniente de regiões remotas. SALLES, Catherine (dir.). Larousse das Civilizações Antigas: das Bacanais a Ravena (o Império Romano do Ocidente. São Paulo: Larousse, 2008. p. 266.