"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Judaísmo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Judaísmo. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Os primeiros tempos do Cristianismo

Ecce homo!, Antonio Ciseri. 
[Pôncio Pilatos apresentando Jesus ao público]

Na Judéia um simples procurador de Roma mantinha a ordem e controlava os impostos, enquanto a administração era exercida pelos próprios judeus através do Grande Conselho, chefiado pela autoridade máxima civil e religiosa do povo hebreu, o sumo sacerdote do Templo de Jerusalém.

Em todos os portos do Mediterrâneo os judeus dispersados pelos romanos continuavam a pregar a religião hebraica, a reunir seus adeptos em sinagogas, a esperar a vinda de um messias que, segundo os profetas, libertaria o povo judeu do jugo estrangeiro, vingaria as humilhações sofridas e imporia ao universo o verdadeiro deus. Muitos falsos messias, no entanto, já haviam surgido, levando assim o Grande Conselho a desconfiar de quantos aparecessem.

Por outro lado, os romanos consideravam estranho e mesmo perigoso esse povo que teimava em não reconhecer os deuses oficiais de Roma.

Jesus Cristo. De acordo com as narrativas dos Evangelhos, no Novo Testamento, nasceu em Belém durante o reino de Augusto, na Galiléia (região da Palestina), o homem que, por seus ensinamentos e por seu exemplo, exerceria uma das mais significativas influências sobre a história e a religião: Jesus.

Com a idade de 30 anos, acompanhado de doze apóstolos (= enviados), começou a percorrer as terras da Galiléia e da Judéia, aí difundindo sua mensagem pelo espaço de três anos. A pregação de Jesus prometia aos homens vida eterna, liberação moral e espiritual. Muitos viram nele o verdadeiro messias (em grego, Cristo); outros, porém, o combateram como inimigo, embora Cristo houvesse declarado que não viera para abolir a lei e sim para mantê-la, além de pregar a não-violência, a caridade, o amor ao próximo, o perdão, a justiça, a misericórdia divina.

O Grande Conselho o acusou de blasfêmia contra Jeová e exigiu do procurador romano Pôncio Pilatos que Jesus fosse condenado à morte. Pilatos não quis indispor-se com o Conselho e tolerou a crucificação de Jesus, pena infligida pelos romanos a bandidos, ladrões e traidores.

Nesse mesmo tempo, na época do procurador romano Pilatos, apareceu Jesus, que era um homem sábio, se todavia devemos considerá-lo simplesmente como um homem, tanto suas obras eram admiráveis. Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade e foi seguido não somente por muitos judeus, mas mesmo por muitos gentios. Era o Cristo. Os mais ilustres da nossa nação acusaram-no perante Pilatos e ele fê-lo crucificar. Os que o haviam amado durante a vida não o abandonaram depois da morte. Ele lhes apareceu ressuscitado e vivo no terceiro dia, como os santos profetas o tinham predito e que ele faria muitos outros milagres. É dele que os cristãos, que vemos ainda hoje, tiraram seu nome. (Flávio Josefo, História dos hebreus, v. 5)

Após a morte de Jesus, a despeito da oposição das autoridades judaicas, alguns dos apóstolos continuaram a difundir os ensinamentos de Cristo, congregaram seus seguidores, chamados cristãos, em núcleos organizados na Palestina, sobretudo em Jerusalém. Outros apóstolos, ajudados por novos adeptos, pregaram o cristianismo nas sinagogas das principais cidades do Mediterrâneo. Dois livros do Novo Testamento - Atos dos Apóstolos e Epístolas de São Paulo - nos revelam qual foi a atividade que se desenvolveu para difundir a nova religião.

Os esforços dos apóstolos alcançaram resultados surpreendentes, tanto assim que, no fim do século I, além dos núcleos ao longo do Mediterrâneo, já existiam também em Roma importantes comunidades cristãs, constituídas principalmente de gente das classes pobres, de artesãos e de escravos. E no século II o cristianismo já estava instalado na península ibérica, na Gália, na África, e penetrara em todas as classes sociais, inclusive nos círculos ligados ao imperador e sua família.

Surgiu a assembléia cristã (eclésia, daí Igreja). As várias assembléias reuniam-se ora em residências particulares, ora em seus cemitérios subterrâneos, chamados catacumbas, onde os fiéis, em lembrança da última ceia de Jesus em companhia dos apóstolos, participavam da cerimônia da comunhão. dividindo, entre todos, o pão e o vinho.

Como a religião cristã se contrapunha à religião do Estado romano, provocou um período de perseguições que se estendeu, ora mais, ora menos violento, do século I (desde Nero) até o século III. Essas perseguições, suportadas pelos cristãos com extraordinária coragem, ao invés de enfraquecer o cristianismo, só contribuíram para fortalecê-lo e difundi-lo ainda mais, provocando grande crise religiosa no Império Romano e contribuindo para abalar-lhe os alicerces.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 105-7.

domingo, 3 de novembro de 2013

As religiões de salvação

A religião de Zoroastro, que nasceu no Irã talvez antes de 1000 a.C. (da qual restam, hoje somente 130.000 praticantes, dentre os quais os mais conhecidos são os pársis da Índia) introduziu ideias novas no mundo das religiões: a da existência de um princípio do bem e um princípio do mal que se enfrentam (o que denomina-se, comumente, de dualismo que, através do maniqueísmo, chegará a muitas heresias cristãs) e a crença de que, no fim da vida, há um juízo em que são pesadas todas as ações humanas e que, como conseqüência deste juízo, todos os que merecem têm um céu e os que não, um inferno; ao final do mundo haverá, além do mais, um juízo geral e uma ressurreição. Essas ideias sobre a sobrevivência fantasmagórica dos mortos, passaram ao judaísmo e, através deste, ao cristianismo.



A história do judaísmo é difícil de ser seguida pois os textos em que nos baseamos, denominados pelos cristãos de Antigo Testamento, foram compilados e corrigidos muito mais tarde, entre 600 e 100 a.C. Sua religião tinha, inicialmente, um deus supremo, El, até que os seguidores de Moisés conquistaram a terra de Canaã em nome de um novo deus chamado Jeová, uma divindade da tempestade. O reino de Israel foi unificado por Davi, ao redor de 1000 a.C. e seu filho Salomão construiu, na capital Jerusalém, um templo em honra ao deus supremo Iahvé, o que impedia que também fossem venerados outros deuses até que, em 600 a.C., surgiu o movimento que faria de Iahvé o deus único. A religião dos judeus incorporou as ideias de salvação e de um apocalipse, que seria sucedido por um mundo em paz, somente depois do exílio da Babilônia: as ideias de raiz zoroástrica que se desenvolveram nos grupos de Qumran e entre os cristãos, passando a fazer parte de nosso caudal de crenças. Um aspecto importante da evolução religiosa dos judeus foi a confrontação entre o conservadorismo do clero do Templo e a atuação crítica e renovadora dos profetas.

A derrota da resistência judaica à dominação romana iniciou a longa etapa do judaísmo rabínico em que a religião centrada no estudo do Tora (Bíblia hebraica e, especialmente, seus cinco primeiros livros, o Pentateuco, atribuídos a Moisés) e na oração iria converter-se no signo de identidade e o traço de união das comunidades judias, que reforçaram, por este motivo, a observação dos ritos e das normas jurídicas compiladas no Talmud.

A diáspora, que dispersou os judeus e espalhou sua cultura, dividiu a cultura rabínica em dois grandes ramos, a dos askenazies, no centro e leste do continente e a dos sefarditas, na Península Ibérica, que contribuíram em grande medida para o florescimento místico da cabala que, após a expulsão dos sefarditas da Espanha em 1492, alimentou as correntes de esperança messiânica que culminaram, no século XVII, com o aparecimento, na Turquia, de um homem nascido em Esmirna em 1626, Sabatai Zeti, que se proclamava o Messias esperado, abalando as comunidades judaicas europeias.

Após o fracasso do “sabatismo” – o pretenso Messias foi obrigado, pelos turcos, a converter-se ao Islamismo – as esperanças apocalípticas que ele alimentara conservaram-se em um substrato cabalístico – sabatista que influiu nas duas correntes divergentes do haisidismo piedoso e puritano (nascido na Europa do leste e que tem hoje, seus grupos mais representativos em Nova York) e do “frankismo”, que combinava o gosto por aspectos esotéricos do cabalismo com uma preocupação ilustrada (com personagens como Moses Dobruska, um sabatista que militou com os jacobinos na Revolução Francesa e foi guilhotinado com Danton, em 1794).

No transcurso dos séculos XIX e XX, as correntes modernizadoras conduziram, em grande parte, o judaísmo europeu a uma direção secularizadora que culminara com o sionismo, em que a velha esperança messiânica transformou-se na vontade política da refundação de um Estado de Israel.


FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: Edusp, 2000. p. 300-301.

sábado, 4 de maio de 2013

Jerusalém nas perspectivas judaica, islâmica e cristã


Praça do Templo olhando para o Mar Morto em Jerusalém. Tivadar Kosztka Csontváry



Para as Ciências Sociais, a religião é um produto da criação humana. Ela preenche o espaço do desconhecido, daquilo para o que o pensamento racional ainda não encontrou explicação. A religião também é responsável pela formação do pensamento, razão pela qual integra os pilares que criam normas de condutas e valores. Torna-se, assim, um aspecto cultural que muitas vezes pode aproximar ou distinguir um agrupamento humano do outro.

[...]

“A ideia humana de Deus tem uma história, já que sempre significou uma coisa ligeiramente diferente para cada grupo de pessoas que a usou em vários pontos do tempo. A ideia de Deus formada numa geração por um conjunto de seres humanos pode não ter sentido em outra. [...] Por conseguinte, a palavra Deus não contém uma ideia imutável. [...] Sempre que um conceito de Deus deixou de ter sentido ou importância, foi discretamente abandonado e substituído por uma nova teologia. Um fundamentalista negaria isso, pois o fundamentalista é anti-histórico: acredita que Abraão, Moisés e os profetas posteriores experimentaram todos seu deus exatamente da mesma maneira como as pessoas de hoje.” (ARMSTRONG, K. Uma história de Deus: quatro milênios do judaísmo, cristianismo e islamismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 10.)

O Deus dos judeus, cristãos e islâmicos relaciona-se a essa questão pontuada por Karen Armstrong na citação acima. Essas três religiões monoteístas estão ligadas entre si pela crença dos primeiros profetas na fé monoteísta – Abraão e Moisés -, porém cada uma interpreta de forma diferente essa concepção de Deus.

O judaísmo. É a mais antiga das religiões monoteístas citadas. O judaísmo ultrapassa a esfera religiosa e também pode ser entendido como uma tradição cultural. Ser judeu significa ser descendente dos antigos profetas bíblicos Abraão e Moisés.

A crença judaica baseia-se nas escrituras da Bíblia hebraica, composta de cinco livros, entre eles, o Livro de Moisés e a Tora. Além de descrever a criação do mundo, esses escritos tratam da fundação de Israel e das leis divinas, ambas resultantes da aliança estabelecida entre Deus e Abraão e completada por Moisés através das Tábuas da Lei. Em troca da devoção e obediência às leis de Deus, os judeus contariam com a benção e a proteção divinas, sendo, por isso, considerados o povo escolhido. Essa aliança também promete um lar para os judeus na Terra Santa. Ao longo da história desse povo, esse lugar foi identificado como sendo Canaã, Israel e Palestina.

Na crença judaica acredita-se na existência de um messias, que significa “o ungido” e é interpretado como “Aquele que irá reunir o povo judeu, derrotar os seus inimigos e estabelecer o reino de Deus na Terra”.

O cristianismo. No século I nasceu Jesus, em Belém. Em torno desse nascimento, criou-se a esperança da chegada do salvador, do messias. Na Palestina, Jesus teria pregado que era o filho de Deus encarnado na forma humana: o Cristo enviado ao mundo terreno para expiar os pecados humanos e assegurar a salvação de todas as almas para o Reino de Deus, alcançando a vida eterna após o Juízo Final. Alcançariam o prometido os cristãos que seguissem os ensinamentos de Jesus Cristo contidos no livro sagrado dos cristãos, a Bíblia, e que obedecessem aos Dez Mandamentos de Deus, contidos nas Tábuas da Lei de Moisés.

O islamismo. Essa religião foi criada pelo profeta Maomé no século VII. Sabe-se que Maomé participou de inúmeras caravanas comerciais pelo Oriente Médio, o que lhe permitiu entrar em contato com as religiões judaica e cristã. Segundo a fé islâmica, por intermédio do anjo Gabriel, Alá (Deus) revelou-se a Maomé, a quem transmitiu os ensinamentos do Islã, que estão contidos no livro sagrado dos muçulmanos, o Corão. A Suna é um complemento do Corão, no qual se estabelecem os usos e costumes fundamentais nos preceitos de Maomé.

O Corão prega que a religião islâmica é a religião dos profetas hebreus: Abraão, Moisés e Jesus. Cada indivíduo deve adorar a Alá e viver conforme os seus mandamentos, ditados a Moisés. Obedecendo a esses princípios pode-se escapar do fogo do inferno e entrar no céu no dia do Juízo Final. O Islã seria a religião natural para todos os povos.

[...]

Jerusalém, capital de várias religiões e de guerras territoriais.

“Jerusalém [...] ainda é a cidade sagrada de três religiões: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Para cada uma delas, Jerusalém era o palco de importantes acontecimentos que estabeleciam o vínculo entre deus e o homem – o primeiro dos quais foram os preparativos de Abraão para o sacrifício de seu filho Isaac num afloramento de rocha, agora oculto por uma cúpula dourada (referência à Cúpula da Rocha, mesquita de grande beleza construída em Jerusalém durante o Período Omíada).” [READ, P. P. Os templários. Rio de Janeiro: Imago, 2001. p. 17.]

Terra Prometida dos Judeus – Jerusalém é o lugar para o qual Abraão se mudou ao ser chamado por Deus. Lá viveram as primeiras tribos dos hebreus, até sobrevir uma grande fome, que os obrigou a tentar atravessar o deserto, quando foram escravizados pelos egípcios.

Depois de anos de cativeiro, os judeus organizaram uma fuga, com o objetivo de retornar à Terra Prometida por Deus a Abraão. Liderados pelo profeta Moisés, eles vagaram durante quarenta anos pelo deserto antes de chegarem a Canaã, atual região da Palestina, onde formaram o Reino de Israel, que foi desmembrado em 993 a.C., ano em que foi criado o Reino de Judá.

Durante o reinado de Davi, a cidade de Jerusalém foi conquistada e, no local onde Abraão teria aceitado imolar seu filho, planejou-se construir um templo para guardar a Arca da Aliança, que foi erigido no reinado de Salomão.

Os reinos de Israel e Judá sofreram sucessivas conquistas e invasões. No ano 70 d.C., a população judaica de Jerusalém foi dizimada pelos soldados liderados pelo imperador romano Tito, para pôr fim à resistência desse povo ao domínio de Roma. Os judeus que sobreviveram foram escravizados e impedidos de retornar à Palestina. [...]

Terra Santa dos cristãos – Jerusalém tornou-se emblemática para os cristãos. A cidade foi visitada por Jesus, que lá pregou suas ideias, realizou milagres, foi feito prisioneiro, julgado, crucificado e enterrado.

No século IV, com a conversão do imperador Constantino, os templos pagãos dos romanos foram transformados em igrejas. Perto do local onde Jesus teria sido crucificado e enterrado construiu-se a igreja do Santo Sepulcro.

Durante todo o período medieval, a Igreja católica difundiu o cristianismo entre a população romana e entre as tribos bárbaras. Jerusalém passou a ser encarada como o centro do mundo para os cristãos, a Terra Santa [...].

Local de peregrinação islâmica – No século VII, enquanto o cristianismo se expandia na Europa Ocidental, no Oriente Médio, a religião islâmica se formava. [...]

A proclamação da guerra santa islâmica levou à expansão dessa religião, que ganhou adeptos na África setentrional, Europa Ibérica, Oriente Médio e Império Bizantino. A cidade de Jerusalém foi dominada no ano 638, porém o califa Omar permitiu a permanência dos cristãos e judeus que ali viviam. Mediante o pagamento do imposto de proteção, eles continuaram a ter permissão para peregrinar por Jerusalém e a ter seu templo preservado. [...]

No século X, os turcos seldjúcidas, tribo nômade da Ásia Central, dominaram Bagdá; converteram-se ao islamismo e iniciaram uma campanha de anexação territorial em direção ao Império Bizantino e Oriente Médio. [...] O Império Bizantino, baluarte do cristianismo no Oriente, estava ameaçado. As rotas de peregrinação a Jerusalém foram proibidas aos cristãos pelos novos senhores de Jerusalém.

Jerusalém: um palco de conflito entre cristãos e islâmicos. No século XI, o papa Urbano II orientou os cristãos europeus a iniciar um movimento de caráter belicoso e religioso, que tinha entre seus objetivos libertar a Terra Santa – Jerusalém – dos “infiéis”. Iniciavam-se assim as expedições que ficaram conhecidas como Cruzadas.

No século XI, a Europa passava por um período de instabilidade social. O crescimento demográfico provocava o aumento de cavaleiros errantes pelas estradas. Isso facilitava a formação de grupos de saqueadores, que assaltavam nas estradas, principalmente nas rotas de peregrinação incentivadas pela Igreja católica. [...]

Nos anos que antecederam o discurso de Urbano II, a Europa viveu períodos de calamidades, enchentes, secas e epidemias. Nesse contexto, a visão apocalíptica do mundo ganhava espaço. A Terra Santa estava nas mãos de pagãos, a figura do anticristo tomava forma e o combate final estaria próximo. Assim, o discurso do papa conclamando os cristãos para uma “guerra justa” parecia fazer sentido para os cristãos entre os séculos XI e XIII.

Os esforços cristãos para libertar Jerusalém do domínio turco não se concretizaram. Durante mais de duzentos anos, legiões de cristãos foram enviados a Jerusalém e Constantinopla. No final, as duas cidades tornaram-se territórios do Império Otomano, situação que não se alterou até 1918.

Ao findar a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), partes dos territórios pertencentes ao Império Otomano, que se aliaram aos alemães durante o conflito, foram concedidas à Inglaterra. A partir de 1923, a Palestina esteve sob mandado britânico.

Jerusalém: palco de conflito entre israelenses e palestinos. Desde o século XIX, crescia entre os judeus europeus uma corrente de pensamento propagada por Theodor Herzl, o sionismo, que tinha como objetivo a formação do Estado judeu na Palestina. Esse sonho foi alimentado por séculos de perseguições a que esse povo foi submetido no continente europeu.

Após a Segunda Guerra Mundial, os debates sobre o sionismo ganharam proporções mundiais, aumentando, inclusive, o número de países que apoiavam a criação de um Estado judeu na Palestina. Por outro lado, os conflitos territoriais entre árabes palestinos e judeus ganharam proporções cada vez mais belicistas, formando-se grupos paramilitares de ambos os lados.

Em 1947, após um ataque ao quartel-general dos ingleses na Palestina, a Inglaterra retirou-se da região e submeteu o caso à Organização das Nações Unidas (ONU). Em 1948, parte da antiga Palestina foi transformada no Estado de Israel pela ONU. Quanto ao Estado árabe da Palestina, a área que fica na margem ocidental do rio Jordão foi anexada pela Jordânia e a faixa de Gaza pelo Egito. Desde então, Israel vem ocupando áreas de influência árabe, o que tem obrigado muitos palestinos a abandonar seu território, tornando-se refugiados.

A população árabe palestina, que habitava a região há séculos, viu-se cada vez mais destituída da posse das terras. Em 1967, enquanto os judeus ocupavam 92% do território, os palestinos ocupavam apenas 8%. A maioria dos palestinos foi confinada em campos de refugiados ou migrou para países árabes fronteiriços. Nesses campos, a consciência árabe vem se desenvolvendo junto a um sentimento religioso fundamentalista, que contribui para tornar a situação na região mais radical e conflitante.

Em 1964, com o apoio da comunidade árabe, foi criada a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), financiada por um fundo nacional palestino que recebe contribuições dos governos árabes, e campos de treinamentos militares. Ao lado da luta política, de ambos os lados, desencadeava-se a luta armada, o terrorismo. Vários conflitos entre árabes e israelenses ocorreram nos anos que se seguiram: Guerra dos Seis Dias (1967), Guerra do Iom Kippur (1973) e Guerra do Líbano (1982).

Desde o Tratado de Camp David, celebrado em 1978, a intervenção norte-americana na questão palestino-israelense buscou estabelecer a paz na Palestina, através da assinatura de acordos políticos.

Até agora, esses acordos não conseguiram atender às pretensões territoriais dos povos envolvidos, principalmente no que se refere à faixa de Gaza e Jerusalém. [...]

No centro desses conflitos, acirrados por questões religiosas e culturais, encontra-se a cidade de Jerusalém, considerada patrimônio da humanidade por preservar a memória de diferentes povos que têm os seus passados unidos pela fé no Deus de Abraão. Os israelenses conservadores não aceitam a criação de uma Jerusalém árabe e muito menos a sua internacionalização. Por sua vez, facções extremistas palestinas, como o Hamas, se recusam a dividir o território palestino com os judeus.

Em 1993, o Acordo de Oslo, que pretendia estabelecer a paz entre israelenses e palestinos, definiu um plano para a retirada de tropas israelenses e a devolução de áreas ocupadas aos palestinos. No entanto, os conflitos e ataques terroristas voltaram a ocorrer. As posições extremadas acabaram sendo materializadas na situação em que se encontra hoje a Palestina, palco de uma guerra civil desde o levante da intifada, em 2000.

CATELLI JUNIOR, Roberto. Temas e linguagens da História: ferramentas para a sala de aula no ensino médio. São Paulo: Scipione, 2009. p. 190-192, 194-199.