"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Pré-história. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pré-história. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Caçadores-coletadores: evidências mais remotas

Caçar e colher alimentos eram as únicas formas de sobrevivência dos humanos até cerca de 12 mil anos atrás. Era um estilo de vida bem-sucedido que, por sua flexibilidade, tinha grandes vantagens sobre o das sociedades agrícolas que o substituíram. Atualmente, apenas poucas sociedades de caçadores-coletadores sobrevivem na bacia Amazônica e na África, o que fornece uma evidência muito importante do estilo de vida de seus antepassados pré-históricos.

Caçadores-coletadores precisam vencer longas distâncias para obter alimentos, por isso carregam poucos objetos. Em consequência disso, caçadores-coletadores pré-históricos deixaram poucos sinais de seus pertences. Raros achados de bastões para cavar, como os de Gwisho, na África central, e machados de madeira revelam que aquele povo cavava para colher tubérculos e cortava capim nativo. Ossos partidos, espinhas de peixe e pólen revelam detalhes da dieta desses indivíduos, bem como os profundos depósitos de detritos cheios de cascas de moluscos. Sítios como o Starr Carr, no noroeste da Inglaterra, de cerca de 9000 a.C., revelam que caçadores-coletadores podiam voltar várias vezes aos mesmos lugares, estabelecendo permanências sazonais perto dos locais onde a caça era abundante. Pequenas figurinhas e entalhes representando ursos e mamutes descobertos em Dolní Věstonice, na República Tcheca, e notáveis esculturas de peixes de Lepenski Vir, na Sérvia, mostram o nível de sofisticação cultural que as sociedades primitivas chegaram a alcançar.

Imagem: Vênus de Dolní Věstonice

Com o tempo, porém, a caça e a coleta foram substituídas pela agricultura. Provavelmente, quando agricultores passaram a se fixar em seus territórios, alguns caçadores-coletadores adotaram esse novo estilo de vida, enquanto outros foram forçados para as margens dos territórios. Em ambientes marginais, a dependência da agricultura sempre constitui um risco de fome se a colheita fracassar. Ainda hoje há grupos isolados, como os San do deserto do Kalahari, na África, que mantêm as antigas tradições da caça e da coleta.

PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar: história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 68.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

A civilização neolítica

Imagem 1 - Estatueta feminina. Pré-cerâmica neolítica, com gesso, betume e incrustações de pedra. Ca. 9000-7000 a.C.

É que há nos invasores neolíticos um elemento de estabilidade: eles domesticaram animais e criam rebanhos.

Seus animais demoram-se nas terras boas, e voltam para a erva fresca de outra estação. O instinto do boi e do carneiro em busca de pasto e água leva atrás deles os homens; o movimento do rebanho alarga-lhes o domínio, mas torna lenta sua marcha: a captura da caça vai-se tornando menos indispensável. O clã se imobiliza e essa estabilidade relativa lhe permite melhorar seus utensílios. O homem se entrega a polir a pedra, a cinzelar os arpões, a cavar o solo para dele arrancar materiais.

Quando as pastagens se esgotam, é preciso partir: o gado dita a vida social. Esses nômades que vivem de seus animais só param quando a terra é bastante fértil para aliemntá-los sem sacrifício. Então o clã luta para nela se manter e pela posse das fontes indispensáveis aos rebanhos. O vencedor se tornará sedentário.

Depois de haver queimado a vegetação primitiva, ele semeia os grãos que viu germinar e espera a colheita. Coze tubérculos e planta árvores frutíferas. Cultiva os cereais, que ceifa, espiga por espiga, parte os grãos entre pedras chatas e os conserva em vasos de madeira, que produz em vime. Tece a lã e as fibras vegetais. Constrói cabanas de taipa e grupadas em acampamentos protegidos por paliçadas [...].

Imagem 2 - Estatueta masculina. Pré-cerâmica neolítica, com gesso, betume e incrustações de pedra. Ca. 9000-7000 a.C.

O clã se crê sob a proteção sagrada de um ser tutelar, senhor absoluto dos homens e dos bens e o poder divino desse animal faz dele a insígnia do clã, o totem, que dispõe de toda fonte de vida. Pela dança e pelo canto, o feiticeiro evoca suas energias sobrenaturais. O clã prossegue sua meditação do mistério. As planícies abertas liberam a imaginação humana e o céu ensina a noção da lei natural; as florestas concentram o espírito da observação. O culto dos mortos se desenvolve e também o da fertilidade. Para suas sepulturas, o clã levanta monumentos de pedra, dolmens, menires, ou cava abrigos artificiais; os costumes variam segundo os diversos focos de cultura neolítica.

Na mesma época coexistem já vários estágios de civilização e tais diferenças contribuem para acelerar as trocas entre os clãs, logo que o crescimento das forças produtivas lhes assegura um excedente de produção.

O objeto produzido torna-se objeto de troca: desde então, ele participa de relações sociais de uma natureza nova que sua função, por outro lado, vai modificar. É preciso primeiro produzir para depois trocar.

Imagem 3 - Cerâmica neolítica. Ca. 6200 a.C.

Os vencidos é que fornecerão o suplemento de trabalho que isso exige.

Outrora, abatiam-se os prisioneiros feitos nos combates pelo vencedor. Postos a serviço do clã vitorioso, seu trabalho contribuirá para enriquecê-lo. Não são as tarefas cada vez mais diversas? Com essa divisão constante do trabalho o encargo feminino passa a segundo plano.

A autoridade do dono dos rebanhos aumenta: ele submete a mulher e as noções de ligação de sangue cedem às de propriedade. Um duplo antagonismo dissolve a comunidade primitiva em proveito dos chefes de família e cinde a sociedade, ao mesmo tempo que a permuta regular de tribo para tribo cria diferenças de riqueza no interior do clã, onde desaparece o matriarcado.

Imagem 4 - Cerâmica do Neolítico. Ca. 6200 a.C.

À propriedade coletiva do clã tende a se sobrepor uma nova forma de propriedade: a desigualdade introduziu-se entre os homens. Depressa ela levará à propriedade individual que os chefes vigorosos reivindicarão, atribuindo-se mais prisioneiros e mais despojos.

[...] Com o crescimento numérico das populações humanas e de suas necessidades, a escravatura - essa domesticação de uma parte da humanidade pela outra - não deixará mais de se desenvolver.

[...]

Os detentores de escravos vão rapidamente beneficiar-se de uma situação privilegiada que procurarão estabilizar ajudando-se mutuamente para reforçar sua supremacia: uma classe dominante se constitui, saída diretamente das novas condições da produção.

[...]

No bem-estar em que melhoraram as condições de sua alimentação, os homens aperfeiçoaram suas técnicas. A tecelagem se torna hábil. Eles fabricam arcos e flechas, manobram suas pirogas a remo e - frágil símbolo dos sedentários - substituem os vasos de vime por uma louça de argila feita no tôrno, cozida e pintada com senso de simetria, em seus desenhos geométricos que reproduzem as fibras trançadas. [...]

Imagem 5 - A grande mãe do Neolítico. 

A reputação de seus trabalhos ganha o Mediterrâneo oriental, e encontra outras influências, que, do Golfo Pérsico, irradiam sobre o Oriente, o pé do planalto do Irã tardiamente liberto dos gelos. Também aí as inundações regulares dos rios asseguram abundantes colheitas aos nômades chegados da Ásia Central à Mesopotâmia. A cevada e o trigo aí nascem independentemente de cultivo. O solo argiloso permite construir casas de tijolos secos ao sol e de trançados de canas. [...]

Assim desabrocharam duas opulentas sociedades agrícolas, semelhantes pelos aperfeiçoamentos técnicos e pela qualidade humana: a tatuagem desapareceu no Egito e na Mesopotâmia, enquanto o resto da humanidade estava ainda na barbárie.

[...]

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. p. 10-3.

terça-feira, 18 de abril de 2017

A sociedade primitiva matriarcal

“[...] enquanto caçam, as mulheres cortam as peles dos animais selvagens que elas cozinham com nervos, furam conchas, dentes, seixos, fazem colares e adornos e se tingem de ocre vermelho – a cor mágica que afasta o perigo.

Vênus de Willendorf.
Foto Mathias Kabel

As tarefas que a mulher executa assim junto do fogo lhe dão uma função essencial: ela conserva os objetos da propriedade e assegura, com sua fecundidade, a prosperidade do clã, cuja força depende do número de braços. Esse duplo encargo dá à mulher uma tal autoridade que a sociedade primitiva repousa no matriarcado.

Para venerar a fecundidade da mulher, os homens reproduzem-lhe a imagem em estatuetas de marfim, e nas paredes das cavernas esses caçadores de mamutes traçam, junto a desenhos de animais, mãos humanas – poder secreto das mãos que se assenhoreiam das coisas. [...] Para os ritos dos cultos, que cavam seus templos em profundos subterrâneos, aperfeiçoa-se a pintura mural. Seu realismo vai até à procura do efeito: a magia suscitou o gênio artístico dos homens, ávidos de tornarem a caça frutuosa e suas mulheres fecundas. O gesto e o grito: dança e canto onde sempre se exprimirá, primeiro, a emoção humana, passando do realismo à abstração.”


RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Ediores, 1964. p. 9-10.

domingo, 7 de agosto de 2016

Rochas de livres prazeres: práticas sexuais nas pinturas rupestres da Serra da Capivara

Cena de beijo. Pintura localizada na Toca do Boqueirão 
da Pedra Furada. 
Foto:Augusto Pessoa

Mais de 1.300 sítios arqueológicos já foram encontrados no Parque Nacional Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, Piauí. Desses, 900 contêm cenas rupestres, com representações dos afazeres cotidianos dos grupos que ali viveram no mínimo 12 mil anos atrás. Gravadas nas rochas, há cenas de caçadas, lutas sociais, rituais e relações humanas diversas. Inclusive as sexuais.

Entre as representações rupestres aparecem figuras humanas exibindo-se individualmente, com destaque para seus falos. Os caçadores e coletores praticavam suas relações sexuais, parece-nos, de forma um tanto livre de certos padrões ditos morais, de acordo com as representações vistas nas cenas rupestres. As cenas mostram diversas posições de sexo, envolvendo duplas, trios ou grupos maiores numa mesma ação. Há também ocasiões mais "românticas", como a representação de um beijo. Tais sentimentos e desejos não são privilégios exclusivos dos corpos e mentes de hoje. Nossos ancestrais também os vivenciaram, como sugerem os vestígios que deixaram.

Infelizmente ainda existem manuais didáticos escolares que consideram a História do Brasil apenas a partir de 1500, com a chegada dos portugueses. Em alguns casos, para se remeter ao período anterior, fala-se de "pré-história brasileira", numa abordagem claramente eurocêntrica, que dá pouco ou nenhum relevo à longa experiência dos povos presentes no continente. Os homens e as mulheres da suposta "pré-história" viveriam em cavernas, vestidos com peles de animais, em alguns casos cobrindo aquelas que consideramos suas "partes íntimas". É como se estivessem fora da história, num período que seria o prelúdio do desenvolvimento humano, no qual não existiria nada a não ser uma luta instintiva pela sobrevivência.

Estudos desenvolvidos por arqueólogos brasileiros como Niède Guidon subvertem a concepção de "pré-história". Ao focalizar a presença humana no continente e trazer ao debate a produção material e cultural dos povos ancestrais - com base em análise de suas artes rupestres, cerâmicas, instrumentos musicais, ossadas e códigos de DNA, entre outros vestígios - eles apontam para a compreensão de outra História. Quem sabe a História Antiga do Brasil, ou a História Ancestral do Brasil.

Há 200 mil anos, os nossos ancestrais tinham as mesmas condições físicas e mentais que compartilhamos hoje, e empregavam os meios à sua disposição para realizar diferentes ações sociais, culturais, políticas e interpessoais, assim como fazemos atualmente. Sua vida social era mais elaborada do que se imaginava. Demonstram grande desenvolvimento para o fazer, o prazer e para práticas hoje consideradas saudáveis, como caminhar, dançar e brincar.

As muitas cenas com representações do sexo nas pinturas rupestres do Parque Nacional da Serra da Capivara revelam que a sexualidade não era algo reprimido ou escondido, pois todos os membros dos grupos de caçadores e coletores da época tinham acesso àquelas cenas, feitas por eles mesmos ou por seus ancestrais. É possível identificar representações dos órgãos genitais femininos (vulva) e masculinos (falos eretos). Quando há representações de mãos coltadas para trás, são sinalizações de cenas femininas ou com mulheres.

O sexo, para aqueles grupos, devia ser considerado uma prática natural e prazerosa. Dificilmente estava submetido a excessivas restrições ou tabus religiosos. O mesmo se observa entre outros grupos de caçadores e coletores, inclusive os atuais. A sexualidade é compreendida de modo diferente por essas sociedades. Pintores antigos, tanto brasileiros quanto africanos, mostravam as cópulas humanas em posições variadas e com certo realismo. Nas pinturas rupestres africanas, especialmente na região abaixo do deserto do Saara, há uma série de representações de homens mascarados com seus falos eretos prestes a penetrarem as mulheres já em posição ginecológica.

A sexualidade é uma temática bastante recorrente nas cenas rupestres da Tradição Nordeste, uma das tradições estilísticas de pinturas da região piauiense não somente na Serra da Capivara, mas também em outros locais do país, como no interior da Bahia e no Rio Grande do Norte. Na região de sua abrangência, inclusive em São Raimundo Nonato, além das representações do sexo entre humanos, há cenas de sexo com animais, o que chamamos atualmente de "zoofilia". Cenas que aparecem também nos vestígios de outros povos do mundo.

É válido considerar que nas cenas de "excitação" coletiva os falos representavam "espadas", ou seja, simbolizavam poderio e força. Já a cena do beijo sugere que a boca se desenvolveu como importante zona erótica ao longo de toda a vida humana.

Filósofos como Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau consideravam "selvagens" os homens das terras distantes da África, América e Ásia. Assim, segundo Hobbes, eles seriam incapazes de construir laços de amor, além de levarem uma vida sem ofício ou arte. Essa ideia se perpetuou através dos escritos de muitos ocidentais, mas já se comprovou que havia sim trabalho, amor e vida social entre esses grupos ancestrais, como evidenciam as pinturas e outros vestígios deixados pelos primeiros ocupantes das terras brasilis.

Nas pinturas rupestres da Serra da Capivara há cenas de danças feitas com tamanha desenvoltura plástica que demonstram certa sensualidade. Algumas cenas de sexo grupal, com animais ou ainda, supostamente, com humanos "menores", nos remetem a um período sem as restrições morais e éticas da tradição religiosa judaico-cristã. Um período em que os ritmos e as energias da vida humana se harmonizavam com os da natureza.

Michel Justamand. Rochas de livres prazeres. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 10 / Nº 109 / Outubro 2014. p. 62-3 e 66-7.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Casas e lares nas primeiras comunidades agrícolas

Vila aruaque.
 G.W.C. Voorduin

Desde os primeiros tempos, os seres humanos buscaram abrigo e proteção contra as intempéries. Os primeiros povos nômades aproveitavam o abrigo natural das cavernas, formações rochosas e florestas ou construíam choças de galhos cobertos com couro de animais.

Com a chegada da agricultura, os povos puderam se instalar em um só lugar e construir lares mais duráveis. Os celtas – antigo povo europeu – construíam casas redondas com paredes baixas de pedra ou de ramos e galhos entrecruzados e cobertos de lama. O telhado era uma estrutura de galhos coberta com feixes de palha amarrada.

Casas e lares nas primeiras comunidades agrícolas. 
Albert Bushnell Hart, William Scott Ferguson, Charles Howard McIlwain, Everett Kimball,  Matteson, David Maydole Matteson, Noah Webster


As comunidades neolíticas do Oriente Médio aprenderam a fazer tijolos pressionando a argila em moldes de madeira e deixando-a secar ao sol. Por serem fortes, duráveis e fáceis de produzir, os tijolos de argila se tornaram o material de construção mais importante da região.

Quando uma casa de arruinava, era logo derrubada e substituída por outra nova.


WOOLF, Alex. Uma Nova História do Mundo. São Paulo: M. Books do Brasil, 2014. p. 17.

domingo, 25 de maio de 2014

Os ousados precursores

Cena de cópula, vale Camonica, Itália. 
Foto: Luca Giarelli

Cena de cópula, vale Camonica, Itália. 
Foto: Luca Giarelli

A atração sexual entre seres humanos do mesmo gênero remonta provavelmente à pré-história ou ainda antes. [...] O homo sapiens, ou seja, o que já pensava e entendia, deixou alguns vestígios das suas opções sexuais. Nas pinturas rupestres do vale Camonica, nos Alpes italianos, podem ver-se as figuras de dois homens a copular. Essa estação arqueológica pré-histórica tem cerca de 8000 anos e nada nos permite concluir que os dois cavernícolas acabavam de inventar o assunto. A única coisa que sabemos é que, deste então até hoje, os homens e as mulheres com inclinação para fazer amor com parceiros do seu próprio sexo foram uma presença constante na História. 

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Editorial Estampa, 2006. p. 13.


NOTA: O texto "Os ousados precursores" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Art rock made in África

"Arte rupestre da África é a herança comum de todos os africanos, mas é mais do que isso. É patrimônio comum da humanidade. "

Nelson Mandela


A pintura rupestre do continente africano constitui um valioso testemunho da mentalidade mágica dos povos pré-históricos. Suas representações transcendiam objetivos artísticos, cumprindo, primordialmente, um conjunto de funções mágicas de finalidade pragmática: a perpetuação da existência de caça abundante, o alcance do êxito nas guerras e a preservação da capacidade de reprodução da espécie humana. Seu estudo permitiu a reconstituição histórica da vida de povos caçadores, pastores e de civilizações que já haviam adotado a utilização da roda.

As sociedades africanas tradicionais assentavam-se sobre categorias de sexo, idade, relações de parentesco. As divisões baseadas no sexo abrangiam as tarefas e funções de grupo social, manifestando-se já no ritual de iniciação dos jovens e na participação em sociedades distintas e exclusivas. Em geral, cabia às mulheres a tarefa de cultivar a terra, o que as tornava responsáveis pela sobrevivência do grupo, tanto ao nível de subsistência imediata - assegurando a alimentação - como a longo prazo, pela reprodução da espécie. Aos homens pertencia o monopólio das relações com o sagrado e, portanto, a exclusividade das decisões que diziam respeito à coletividade.

Outro elemento regulador da sociedade africana tradicional foi a idade. As gerações apresentavam relações de dominação/subordinação, com preeminência dos mais velhos. Os anciãos possuíam grande prestígio. Existiam também classes de idade: a dos meninos, formada a cada sete anos na época da iniciação sexual; outra reunia os guerreiros solteiros, que só poderiam se casar quando atingissem a terceira classe de idade, por volta dos trinta anos. Todos esses grupos rigidamente estruturados, asseguravam o cumprimento das funções sociais mais significativas segundo as categorias de idade. A passagem de uma classe para outra exigia uma formação complementar, coroada pela realização de um cerimonial específico.

Quando o exercício do poder político é regulado por cerimônias e ritos, o fato geralmente provoca uma ativa criação artística. Tal pressuposto encontra confirmação na África, onde os mais importantes centros de manifestação artística desenvolveram-se junto aos grandes grupos tribais e reinos mais importantes: África ocidental e África central. O domínio do sagrado constitui também ambiente propício às manifestações artísticas. As representações dos ancestrais, os objetos e as máscaras utilizadas pelos membros de associações o atestam. A vida religiosa, assim como as práticas mágicas, é particularmente rica em símbolos materiais e rituais que estabelecem a relação com o sagrado.

Entre os povos primitivos é praticamente inexistente a distância entre o mundo da objetividade e o da subjetividade. Inserido em um ambiente do qual depende de maneira absoluta, o homem primitivo atribui à natureza uma força muito maior do que a sua. As doenças, a morte, os insucessos na caça ou na agricultura, a fome, a seca são acontecimentos que, a um tempo, o desafiam e o submetem. Ser pensante, o homem busca explicar, em termos religiosos, essa força que o domina. Nesse processo de adaptação entre o homem e a natureza, a realidade e a fantasia são fundidas, resultando no aparecimento dos elementos mais conhecidos das religiões primitivas: o culto aos antepassados, as práticas mágicas, o mundo dos espíritos, o animismo e o totemismo.

HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 31-35. Volume III.

Galeria de imagens:

Homem com arco e flecha e cão. Argélia

Gatos em combate. Líbia

Girafa e homens. Namíbia

Figura com atributos masculinos e femininos. África do Sul

Homens e girafas. Zimbábue

Cavalo e homem armado. Mauritânia

Guerreiro e girafas. Argélia

Tchitundu Hulu. Angola

Detalhe de duas pessoas copulando. Argélia

Mulher e cão. Malawi

Inscrição geométrica. Uganda

Homem lançando lança. Argélia

Figuras brancas com as mãos nos quadris. Tanzânia

Antílope. Marrocos

Homens e animais. Zimbábue

Rinocerontes. Botswana

Homem com arco. Argélia

Quatro homens correndo com equipamentos sobre os ombros. África do Sul

Vaca e animal simbólico. Somália

Camelo. Sudão

Crocodilo. Líbia

Dois homens nus com o pênis ereto. África do Sul

Guerreiro montado em cavalo. Chade

Leão, dois guerreiros com lanças e montados em cavalos. Abaixo, cães, uma mulher e um guerreiro. Nigéria

Arte rupestre. Mali

Homem sentado com as pernas cruzadas. Argélia

Camelo branco montado por guerreiro. Chade

Homem e vaca. Egito

Inscrição rupestre. Gabão

Vacas e bezerros. Etiópia

Elefante, homens e girafas. Quênia

Guerreiro. Nigéria

NOTA: O texto "Art rock made in África" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico/antropológico.

domingo, 6 de abril de 2014

As inscrições e pinturas rupestres na África


Pintura rupestre em Tassili

Um importante testemunho sobre a pré-história africana é dado pelas inscrições e pinturas descobertas na região setentrional do Saara. Depois da primeira dessas descobertas, ocorrida em Tint, no ano de 1847, encontraram-se na África setentrional vários outros sítios ricos em amostras da arte pré-histórica. Os motivos mais freqüentes das pinturas rupestres localizadas na região do Grande Atlante, nos montes Tassili e na Líbia eram representados por elefantes, rinocerontes, hipopótamos, búfalos, girafas, crocodilos, felinos e outros espécimes da fauna tropical. Além de animais selvagens, nas pinturas rupestres mais antigas aparecem também exemplares da fauna doméstica, tais como bois e ovelhas, e nas pinturas de épocas posteriores existem representações de cavalos e camelos. As figuras humanas, constantemente reproduzidas pelos artistas pré-históricos da África, apresentam traços semelhantes aos dos desenhos rupestres da região mediterrânea.

Pintura rupestre em Tassili

As inscrições e pinturas rupestres descobertas nos territórios da África meridional possuem muitos pontos em comum com as da Europa pré-histórica. Os exemplares encontrados no centro-sul do continente africano foram gravadas na rocha, e representam animais, motivos geométricos e figuras humanas.

Essas pinturas espalham-se por uma vasta área localizando-se particularmente na Rodésia e nas províncias do Cabo e Orange. Em sua maioria, representam cenas de caça e danças rituais, demonstrando uma grande preocupação com o movimento e a cor. De uma forma geral, as figuras femininas distinguem-se pelas grandes proporções das nádegas, enquanto as masculinas se caracterizavam pelos membros filiformes, pela cintura estreita e pelas costas largas.


Pintura rupestre em Tassili

A superposição de figuras e cores torna difícil determinar com precisão a data desses desenhos rupestres. Contudo, os mais antigos revelam certa analogia com as pinturas e inscrições descobertas no norte da África. Em alguns casos, pequenos arqueiros de pele clara são representados lutando com homens negros de grande estatura, munidos de escudos ovalados. Tais cenas são provavelmente alusivas às lutas dos bosquímanos e hotentotes do sul da África contra os invasores bantu.

Os especialistas acreditam que o mais antigo desses desenhos tenha sido feito por volta de 3000 a.C., sendo portanto contemporâneo das pinturas rupestres do Saara e correspondendo ao período Neolítico europeu. Os bosquímanos continuaram a fazer inscrições e pinturas na rocha até o século XIX, quando interromperam essa tradição devido à invasão de seus territórios por outros grupos africanos e pelos próprios europeus. A partir de então, foram praticamente encurralados em pequenas áreas desérticas do sul do continente, onde se encontram em processo de extinção.


HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 35-6. Volume 3.

NOTA: O texto "As inscrições e pinturas rupestres na África" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Fogo: uma revolução alimentar

Passado Presente: Primitivos contemporâneos. África.

Há mais ou menos 500 mil anos, o uso regular do fogo no universo doméstico modificou profundamente a alimentação, assim como os comportamentos sociais a ela relacionados. O gosto pela carne cozida (consumida depois de incêndios naturais) é corrente entre muitos carnívoros. [...]

Diorama: Homens das cavernas. Museu Nacional de História da Mongólia.

Além da vantagem nutricional da cocção dos alimentos, logo ficou patente sua importância no plano social: ela favorece, com efeito, a comensalidade, ou seja, o hábito de fazer as refeições em comum, introduzindo no seio do grupo uma divisão de trabalho mais efetiva, um ritmo de atividades comum a todos e, de modo geral, um nível mais complexo de organização do grupo. [...]

A conservação se fazia pela secagem, defumação ou congelamento em covas feitas na terra. [...] Os alimentos estocados eram consumidos secos ou reidratados através da fervura: ebulição que se processava em recipientes de madeira, de cascas ou de pele, nas quais se jogavam, de quando em quando, pedras aquecidas. [...].

FLANDRIN, Jean-Louis; MONTANARI, Massimo (Dir.). História da alimentação. São Paulo: Estação Liberdade, 1998. p. 44-46.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A Idade do Bronze "final" na Europa

A partir do 3º milênio, os povos europeus começam a utilizar uma liga de cobre e estanho, o bronze, para fabricar objetos resistentes, armas ou utensílios. Essa “Idade do Bronze” dura até a introdução do ferro, no século IX a.C. Desenvolve-se no Mediterrâneo (Creta, Micenas, Troia) e na Europa ocidental, do Cáucaso às ilhas britânicas.

Espada de bronze.
Foto: Laténium

 A partir do século XIII difunde-se na Europa a Idade do Bronze “final”, denominada a “bela Idade do Bronze” por causa da qualidade da produção artesanal. O mundo camponês “do bronze antigo” deu lugar a sociedades em que, ao lado dos agricultores e dos criadores, trabalham os mineiros e os bronzeiros. Uma classe guerreira garante a segurança dos transportes de matérias-primas e de objetos manufaturados em toda a Europa. O hábitat se modifica: as aldeias de planície e as palafitas (cidades lacustres) são abandonadas em favor de locais fortificados construídos sobre elevações.

O sepultamento é substituído pela incineração. “Cemitérios de urnas” aparecem na Polônia, na Alemanha, na península ibérica. As urnas contendo as cinzas dos defuntos são cercadas de oferendas fúnebres, armas e joias. Os bronzeiros então atingiram um perfeito domínio das técnicas: trabalham o metal com um martelo, decoram a peça com entalhes e chegam a poli-la para lhe conferir o brilho do ouro. O culto ao Sol inspirou a realização de carros em miniatura, muitas vezes puxados por aves aquáticas. O mais belo exemplo desse trabalho é o carro de Trundholm (Dinamarca): um cavalo puxa um grande disco de bronze chapeado de ouro. Os ourives produzem obras igualmente notáveis, ornamentos e objetos de culto em ouro maciço, decorados com desenhos geométricos.


SALLES, Catherine [dir.]. Larousse das civilizações antigas 1: dos faraós à fundação de Roma. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 94.