"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 29 de janeiro de 2017

Persépolis, a capital do Império Aquemênida

A capital real do Império Aquemênida era Persépolis, fundada por Dario I em cerca de 518 a.C. e ligada a uma eficiente rede de estradas reais. Embora o imperador geralmente governasse do palácio de Susa, a oeste, Persépolis era o centro político dos aquemênidas.

Reconstrução do telhado do Apadana, Charles Chipiez

Dario fundou sua nova capital em um planalto cerca de 80 km a sudoeste do antigo centro persa de Pasárgada. Os construtores fizeram um terraço artificial de 135 mil metros quadrados para nele erigirem uma série de palácios e salas de audiência. O maior de todos os prédios era o apadana, um salão de recepções que devia comportar 10 mil pessoas. Na escadaria do apadana, uma série de relevos representava pagadores de impostos das 20 províncias do império levando oferendas para o governante persa, pois Persépolis pode também ter sido a sede do Tesouro.

Vista panorâmica dos jardins do Palácio de Dario I, Charles Chipiez

Dario I ordenou a construção de uma enorme Sala do Trono, e acréscimos ao complexo estavam sendo feitos ainda no reinado de Artaxerxes III (gov. 358-338 a.C.). Em 331 a.C., Alexandre, o Grande, dominou Persépolis, e no ano seguinte um incêndio a arrasou.

PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar: história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

domingo, 20 de novembro de 2016

"Mais doce que o amor das mulheres"

Talvez a narração mais popular do Antigo Testamento seja a história de David e Golias, o triunfo do pequeno pastor sobre o aguerrido gigante filisteu que definiu a vitória de Israel na batalha de Terebinto. Segundo conta o Livro de Samuel, depois desta façanha, o rei Saul cumulou David de honras e convidou-o a residir no palácio. Ali, o heróico pastor e o filho primogénito do monarca estabeleceram uma íntima relação de adolescentes, que o autor bíblico anuncia sem pudor no título do capítulo 18 como "Amizade mais do que fraternal" entre David e Jónatas. E diz assim na Bíblia...

"Jónatas fez um pacto com David, porque o amava com toda a sua alma e tirou o manto que levava, e deu-o a David, assim como os seus arreios militares, o seu arco, a sua espada e o seu cinturão. David ia combater onde Saul o enviava e saía-se sempre bem." 
(1 Samuel 18: 4-5)

Os êxitos do novo capitão começaram a provocar os receios de Saul, que invejava os aplausos com que o povo aclamava David, o qual, além disso, se tinha relacionado sexualmente com o filho e brilhava em todas as batalhas como um autêntico protegido de Javé. Claro que nada era mais doloroso do que sentir-se postergado no favor do Deus de Israel. Claro que Jónatas não partilhava a opinião do pai e, sempre que podia, atirava-lhe à cara o seu ressentimento para com o belo e glorioso oficial. Porém, Saul devia ser um homem difícil e várias vezes chegou a ameaçar de morte David com a sua lança. Nessas ocasiões, o jovem tangia a harpa, imperturbável, e tocava doces melodias que acalmavam a fúria do monarca.

Saul chegou a convencer-se que David estava protegido por Javé e não se atrevia a intervir pessoalmente. Urdiu então o truque de oferecer-lhe em casamento a sua filha mais velha, Merob, para quem sendo genro do rei, pudesse comandar o exército de Israel. "Não lhe quero pôr as mãos", dizia segundo a Bíblia, "que o matem as dos Filisteus." Mas David, que pressentiu, respondeu-lhe humildemente: "Quem sou eu e o que é a minha vida ou a casa de meu pai, para que eu me torne genro do rei?" Se essa resposta provocou um suspiro de alívio no coração de Jónatas, foi porque não contava com a teimosia de seu pai. Merob acabou por se casar com outro, enquanto Saul voltava à carga oferecendo a David a mão da sua segunda filha, a princesa Micol, que, segundo parece, estava profundamente apaixonada pelo nosso herói. Então, este respondeu aos mensageiros do rei: "Parece-vos coisa fácil ser genro de rei? Eu não preciso de nada e tenho poucos bens", desculpava-se por não ter dote para oferecer à princesa. Mas também não teve em conta a persistência de Saul.

David com a cabeça de Golias e dois soldados, Valentin de Boulogne. Depois de derrotar o gigantesco Golias, o jovem David viveu um intenso romance com Jónatas, filho do rei Saul.

Sempre através de emissários, o rei fez saber a David que um herói como ele não precisava de outro dote além da prova do seu valor; por exemplo, os prepúcios de cem filisteus abatidos em combate. O texto bíblico conta assim a reacção de David: "Quando os servos disseram a David as palavras que Saul tinha dito, agradou-lhe aquela condição para ser genro do rei. E David saiu com os que estavam sob o seu comando e matou cem filisteus, tirou-lhes os prepúcios e entregou-os ao rei (1 Samuel, 18: 26-27). Não é explicado qual foi o destino do tão extravagante dote de Micol, mas o casamento desta com David não acalmou a paixão de Jónatas nem o ódio de seu pai pelo novo príncipe de Israel: "Temia-o Saul cada vez mais e toda a sua vida foi inimigo de David". Pouco depois, o monarca decidiu cortar o mal pela raiz e encarregar-se de uma vez por todas do seu genro, mas Jónatas convenceu-o a não o fazer, enquanto prevenia David, que se foi refugiar em casa de Samuel.

O resto do primeiro livro de Samuel é um enorme e animado relato das peripécias do jovem David, constantemente ameaçado e perseguido pelo seu temível sogro. Contando também sempre com a amizade "mais que fraterna" de Jónatas. Quando Saul o foi buscar a casa de Samuel em Naiote de Ramá, David foge e vai encontrar-se com o seu amigo:

"Que crime cometi eu contra o teu pai, para que me persiga até à morte?
- Não, não será assim, não morrerás. O meu pai esconder-me-ia isso? Se não me esconde nada, nem grande nem pequeno, tudo me dá sempre a saber. Por que haveria de me ocultar isto? Isso não é verdade.
- O teu pai sabe muito bem que me amas e deve ter dito: que Jónatas não fique a saber para não sofrer, mas, por Deus e pela tua vida, estou a um passo da morte." 
(Samuel, 20: 1-3)

Jónatas mostrou-se convencido com o argumento de David e, com medo de perder o seu amado, estabeleceu com ele o pacto de o manter sempre informado das intenções de seu pai. No dia seguinte, cumpriu pela primeira vez esse compromisso, salvando David de uma armadilha organizada por Saul e despediu-se do amigo com estas palavras: "Vai em paz, já que jurámos um ao outro, em nome de Javém que ele estará entre ti e mim e entre a minha e a tua descendência para sempre."

Pouco depois, David visitou o sumo sacerdote Ajimelec, no templo de Nob, a quem pediu comida e armas para se defender. Ajimelec ofereceu-lhe alojamento e entregou-lhe a espada que Golias tinha utilizado no célebre combate do vale de Terebinto. Avisaram-nos então que o rei se aproximava com as suas hostes, mas David conseguiu escapar a tempo. Saul consolou-se da sua frustração degolando o sumo sacerdote e todos os servidores do templo.

Além de excluir David da corte, Saul obrigou Micol a casar-se com outro homem, um tal Palti de Galim, de quem não existem quaisquer outros registros. É provável que Jónatas tivesse ficado feliz com aquela separação forçada, porque dadas as circunstâncias, já há muito tempo que não o via. Porém, David rapidamente esqueceu aquela perda e casou com duas mulheres em vez de uma: a bela Abigail de Nabal e Ajinoim de Jezrael. O fugitivo e os seus homens vagueavam por todo o território de Israel e de Judá, escapando ao seu infatigável perseguidor. Por duas vezes, David teve a vida de Saul nas suas mãos e de ambas as vezes impediu que os seus homens matassem o rei, por este ser "o ungido de Deus" (talvez tenha tido em conta que se tratava do pai do seu amigo). Mas os Filisteus não se preocupavam com essas coisas e, depois de derrotarem os Hebreus na batalha do monte Gelboé, executaram Jónatas e os seus dois irmãos. Quando se dispunham a fazer o mesmo com Saul, este matou-se, lançando-se sobre a lâmina da sua espada.

Quando soube da morte de Saul e de Jónatas, David cantou uma bela elegia em homenagem aos ilustres defuntos, cujos últimos versos dizem assim:

"Como sofro por ti, Jónatas, meu irmão!
Como eu te queria bem!
Para mim, o teu amor era muito doce,
Mais do que o amor das mulheres!" 
(2 Samuel: 26)

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Editorial Estampa, 2006. p. 80-84.

sábado, 1 de agosto de 2015

A religião no Egito Antigo

Sacerdotes vestidos com pele de leopardo realizam rituais de purificação. Túmulo de Userhat, XIXª  Dinastia. Artista desconhecido.

Os egípcios eram politeístas, isto é, acreditavam em vários deuses, alguns representados por cabeças de animais. Cada cidade tinha seus deuses particulares e, quando se tornava capital do império, esses deuses passavam a ser adorados em todo o Egito.

No Antigo Império adorava-se , deus-sol, e seus descendentes Osíris, deus da morte, com a esposa Ísis e seu filho Hórus. Os faraós intitulavam-se filhos de Rá. Durante o Médio e o Novo Império adorou-se Amon, protetor da cidade de Tebas, que passou a chamar-se Amon-Rá.

Em honra aos deuses foram construídos templos gigantescos, magnificamente decorados com esculturas, baixos-relevos e inscrições hieroglíficas, destacando-se, na região de Tebas, os templos de Lúxor e de Carnac.

Os egípcios acreditavam na imortalidade e, por isso, era necessário conservar o corpo depois da morte. Aqueles que podiam sustentar as elevadas despesas dos ritos funerários dispensavam cuidados especiais aos mortos, embalsamando-os, transformando-os em múmias, protegidas por máscaras mortuárias, guardadas em sarcófagos. A múmia teria na vida do além-túmulo as mesmas necessidades terrenas e, assim, junto a ela eram colocados alimentos, roupas, móveis, perfumes, seus pertences de valor, tudo enfim de que ela poderia precisar.

Os túmulos dos faraós, dos nobres e dos ricos eram construídos e decorados como casas. Durante as duas primeiras dinastias os túmulos eram retos em cima, com paredes inclinadas, com várias câmaras, às vezes subterrâneas, chamadas mastabas. Essa forma evoluiu para a de pirâmide, sendo usada durante todo o resto do Antigo Império e no Médio Império. Durante o Novo Império, para evitar a pilhagem, construíram-se túmulos subterrâneos, chamados hipogeus.

HOLANDA, Sérgio Buarque de [et alli]. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 18-19.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

O trabalho dos camponeses no Egito Antigo

Pintura mural retratando camponeses arando os campos, a colheita das culturas e a debulha de cereais sob a direção de um supervisor. Tumba de Nakht, XVIIIª dinastia, Tebas. Artista desconhecido.

Desde a Antiguidade, a sociedade egípcia maravilhou os estrangeiros que visitavam o país. Heródoto, surpreso pela fertilidade do solo, nos diz:

"Os habitantes recolhem os frutos da terra sem nenhuma fadiga; eles não se cansam quando abrem canais de irrigação, nem quando executam outros trabalhos, nos quais outros homens despendem muito esforço; quando o rio, por si mesmo, irriga os campos e, após irrigá-los, volta ao seu leito, eles semeiam os campos [...] obtendo grandes colheitas."

Na verdade [...] as colheitas dependiam de um grande esforço coletivo. Considerando que as técnicas ainda eram muito primitivas - os instrumentos de trabalho eram feitos de pedra e madeira -, a construção de canais de irrigação, de diques e de represas, necessários para o aprimoramento das cheias do Nilo, que fornece a umidade e a fertilização, só era possível através do trabalho comunitário dirigido por um governo fortemente centralizado.

"Os movimentos do Nilo regulavam o trabalho dos camponeses. Nos meses de junho e julho, começavam as cheias que, durante três meses inundavam as terras do Vale. Neste período, o trabalho agrícola era paralisado, mas os camponeses eram recrutados pelo Faraó para a execução das grandes obras públicas. Nos meses de outubro e novembro, quando o rio voltava ao seu leito, começava a semeadura, aproveitando o solo amolecido, mas era necessário conservar a água, através da construção de canais, de diques e de represas, que permitiam manter a terra irrigada nos meses seguintes."

Podemos, então, concluir que a sociedade egípcia era fundamentalmente agrária, baseada em um complexo sistema de irrigação, em que predominava a servidão coletiva. O Estado, representado pelo Faraó, era o proprietário das terras, mas, na prática, os altos funcionários, os militares e os sacerdotes eram donos de grandes extensões.

As comunidades de aldeia, cujos membros eram unidos por laços de família e de trabalho, tinham a posse das terras, isto é, o direito de cultivá-las e de ficar com parte da produção. Os excedentes, sob a forma de impostos, eram transferidos para o Faraó e para os grandes proprietários, que os acumulavam, utilizando-os para sustentar a administração, o artesanato e o comércio com outros países. As comunidades de aldeia prestavam ainda serviços forçados nas grandes obras de irrigação, assim como na construção de palácios, de templos e de túmulos.

[...]

"Deixa-me também expor-te a situação do camponês [...] Chega a inundação e o molha [...] ele cuida de seu equipamento. De dia, ele talha seus instrumentos agrícolas; de noite, fabrica cordas. Mesmo a sua hora de sesta ele gasta no trabalho agrícola [...] O campo ressecado está diante dele; ele vai buscar sua junta de bois [...] Ao chegar a aurora, ele quer começar e não encontra naquele lugar a junta. Passa três dias procurando-a; acha-a no pântano. Não há mais peles nos animais: os chacais os haviam devorado [...] Leva tempo cultivando [...] Não vê nem sequer uma folha verde [...] Agora o escriba desembarca na margem. Mede a colheita. Auxiliares estão atrás dele com varas e núbios, com porretes. Um deles lhe diz: "Entrega o cereal!" 'Não há!' Ele é surrado sem piedade [...] amarrado, jogado no poço, com a cabeça debaixo d'água. Sua mulher é atada em sua presença. Seus filhos estão presos em grilhões [...] Ao terminar tudo, não há cereal." (Provavelmente escrito por volta de 1100 a.C.)

[...] 

O artesanato especializado, voltado para a produção de artigos de luxo, desenvolveu-se nas cidades, produzindo para o Faraó e para a classe dominante. O comércio interno era muito limitado - em geral, troca de produto por produto ou por pesos de metal. O comércio externo, controlado pelo Faraó, mantinha relações principalmente com a Fenícia e com o Sul da Arábia, onde obtinha especiarias e produtos para consumo da aristocracia.

A sociedade egípcia era sustentada pelo trabalho dos camponeses. Embora fossem usados escravos, sobretudo em trabalhos domésticos e na mineração, eles não constituíam a base da produção.

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]. Fazendo a História: da Pré-história ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 35-6.

sábado, 13 de junho de 2015

O legado dos lídios

Creso na fogueira, Myson. [Lado A de uma ânfora Ática de figura vermelha, ca. 500-490 a,C.]

[...] Os lídios beneficiaram-se de um patrimônio cultural acumulado durante milênios pelas civilizações mais antigas do Oriente Próximo e que fora, por assim dizer, depositado aos poucos através da tradicional rota milenar que ligava Babilônia, Ptéria e Sardes.

A penetração dos gregos no reino lídio, atraídos certamente pela magia do ouro abundante, fez com que os mesmos aproveitasse, também o legado cultural. “Tomaram eles mais do que os tesouros: a Lídia, bem próxima de suas cidades da Ásia, foi certamente, um dos caminhos, e indubitavelmente o principal, pelo qual entraram em contato com o Oriente. Técnicas artesanais e artísticas, ideias e práticas religiosas, temas míticos, observações científicas: bem pesada foi a soma de seus empréstimos. Isto porque o acaso não é suficiente para explicar o avanço que a Jônia, associada e praticamente submetida a Sardes, tomou, então, sobre as outras províncias do mundo grego: nenhuma encontrava tão grandes facilidades para tirar proveito das experiências do próximo”.

“Os gregos extraíram de um terreno inesgotável toda espécie de noções que renovaram mais ou menos sua religião, seu comércio, sua indústria, sua arte e que lhes permitiram transformar a tradição em ciência [...]”.

“Sem este intermediário não se vê como os cálculos dos astrólogos e as cartas dos geógrafos babilônicos teriam sido transmitidos à Escola de Mileto. Foi na Lídia, enfim, que os gregos observaram, pela primeira vez, o despotismo das monarquias bárbaras: espetáculo instrutivo, que ofereceu modelos aos tiranos, mas que fez também sentir aos cidadãos sua superioridade de homens livres”.

Uma contribuição dos lídios à civilização foi a cunhagem de moedas. Tal cunhagem foi uma necessidade imposta pela intensidade do intercâmbio comercial. O numismata francês Lenormant, estudando a origem da moeda, chegou à conclusão de que a cunhagem de moeda foi feita isoladamente na Lídia e em Argos.

Creso teria sido o primeiro soberano do mundo mediterrâneo a cunhar ouro. Suas moedas possuíam a forma ovóide e apresentavam numa das faces, em meio corpo, um leão e um touro olhando-se de frente. Chamavam-se creseidas da Lídia.


GIORDANI, Mário Curtis. História da antiguidade oriental. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 319-320.

domingo, 12 de abril de 2015

A sociedade fenícia

Cavaleiro. Terracota do século VIII a.C.

"A antiga Fenícia correspondia mais ou menos ao território do Líbano atual. A comunicação por via terrestre era difícil devido ao terreno montanhoso, mas as cidades fenícias tinham fácil comunicação marítima. O litoral tinha bons portos naturais e nas montanhas podia-se encontrar madeira apropriada para a construção de navios. Além do mais, as cidades fenícias estavam localizadas entre a Mesopotâmia e o Egito [...]." (PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 20)

* O comércio era seu principal meio de vida. Como agricultores, os fenícios plantavam nos vales existentes no litoral, cereais, a videira e a oliveira, com os quais produziam farinhas, vinho e azeite.

Essa produção agrícola era lucrativa, porém frequentemente se perdia, porque a região onde se localizavam as cidades fenícias sofria constantes invasões de povos vindos dos desertos ou de exércitos de Estados fortes (como o Egito). O que deveriam fazer os dirigentes fenícios, diante da periódica destruição da sua produção agrícola? É evidente que teriam de buscar outra atividade econômica mais estável. Escolheram o comércio, que também poderia oferecer lucrativos rendimentos.

Aproveitando-se das madeiras existentes nas regiões montanhosas do interior, construíram numerosas embarcações e se expandiram pelo Mediterrâneo, fundando inúmeras colônias [...].

Em seus navios, movidos a remo e a vela, os comerciantes fenícios transportavam mercadorias produzidas em suas cidades ou compradas nos países com os quais mantinham relações comerciais.

Conhecidos como navegadores audazes e por venderem variados produtos de luxo, os comerciantes fenícios também eram vistos como negociantes desonestos. Essa opinião era comum entre os autores do Mundo Antigo, como se verifica em certa passagem da Odisseia, de Homero, poeta grego do século X a.C. [...]:

"Um dia, os fenícios, povo famoso na marinha, mas sutil e trapaceiro, abordaram as praias da nossa ilha com um barco carregado de tecidos e de bijuterias raras e brilhantes. Havia no palácio de meu pai uma escrava, notável pela beleza e pelos trabalhos que saíam de suas mãos. Aqueles estrangeiros astuciosos trataram de seduzi-la [...] e enviaram [...] um homem manhoso, que apareceu no palácio a pretexto de oferecer à venda um colar de ouro, [...] Enquanto minha mãe e as suas criadas tinham os olhos postos no colar [...] o velhaco levou a escrava para o seu barco [...]"

Segundo informações chegadas até nós, as pequenas embarcações fenícias navegavam inclusive fora do Mediterrâneo, atingindo a Inglaterra ou contornando o continente africano, como nos relata Heródoto:

"Saindo, pois, os fenícios do Mar Eritreo [Mar Vermelho], navegaram  pelo Mar do Noto [Oceano Índico], durante sua viagem. cada vez que chegava o outono, colocavam seus barcos na praia de qualquer litoral da Líbia [África], semeavam a região e esperavam a colheita. Recolhida a colheita, continuavam a viagem. Agindo assim durante dois anos, dobraram as Colunas de Hércules [Estreito de Gibraltar] e, no terceiro ano, chegaram ao Egito."

* O alfabeto foi sua principal realização cultural. A realização desses empreendimentos comerciais e marítimos obrigava os comerciantes e empresários fenícios a registrar suas transações, o que apresentava dificuldades, porque os sistemas de escritas conhecidos eram complicados. As escritas egípcias e mesopotâmicas, amplamente utilizadas pelas sociedades do Oriente Próximo, com seus numerosos e complexos sinais, revelavam-se inadequadas à feitura de recibos de compra e venda, listas de preços de mercadorias, relações de gastos com o transporte e o armazenamento dos produtos.

Foi, então, por motivos utilitaristas, que se criou um sistema de escrita simplificado, capaz de ser empregado por qualquer indivíduo. O novo sistema compreendia 22 letras, todas consoantes, e a denominação de alfabeto origina-se dos nomes das duas primeiras letras fenícias, chamadas aleph (touro) e beth (casa).

Inventado por volta de 2000 a.C., o alfabeto fenício veio depois a ser modificado pelos gregos e romanos, dando origem aos alfabetos atualmente utilizados no Mundo Ocidental.

Pouco sabemos das contribuições da sociedade fenícia nas Artes, na Literatura e nas Ciências porque a maior parte de suas realizações foi destruída pela ação do tempo. Escavações arqueológicas revelaram, contudo, que a produção artística e literária fenícia refletia profunda influência de modelos egípcios e mesopotâmicos.

A religião fenícia era politeísta e cada cidade-Estado possuía suas próprias divindades. Estas divindades sempre formavam um casal identificado com a chuva e com a terra, o que reflete o primitivo caráter agrícola da sociedade fenícia. O casal divino também era venerado como protetor da navegação e respeitosamente tratado de Baal (Senhor) e Baalat (Senhora). Assim, Adônis era o Baal e Astarté, a Baalat de Tiro. O culto incluía, no seu ritual, sacrifícios humanos de crianças, talvez uma prática religiosa para limitar o crescimento das populações urbanas.


Fenício representado em mural do Antigo Egito. 
Ca. 1500-1450 a.C.

* O governo era dos ricos comerciantes. A sociedade fenícia, ao contrário do que ocorreu em outras sociedades do Oriente Próximo, foi incapaz de organizar-se em Estado único, politicamente centralizado, como o Egito dos Faraós. Na realidade, não houve uma História Fenícia, mas, sim, das cidades-Estados fenícias que se desenvolveram independentes entre si. As mais importantes foram Sídon, Ugarit e Biblos. Cada uma delas possuía seus próprios dirigentes.

"A primeira cidade a exercer sua hegemonia foi Biblos (ca. 2500 a.C.), que comerciou intensamente com Chipre, Creta e Egito. No Egito trocava a madeira pelo papiro, material utilizado na escrita. Daí a denominação de biblos dada pelos gregos ao rolo de papiro e, por extensão, ao próprio livro.

Em seguida predominou Sídon (ca. 1500-1300 a.C.), que estendeu o comércio por todo o Mar Egeu e pelo Mar Negro, fundando colônias e comerciando com os gregos ainda semi-bárbaros.

Depois a supremacia passou a Tiro (séculos IX-VI a.C.); os fenícios estenderam-se até o norte da África - onde fundaram colônias, entre as quais Cartago (século IX a.C.) - o sul da Itália, as ilhas do Mar Tirreno, a Espanha, chegando até as atuais França e Grã-Bretanha. A partir do século VI a.C. Tiro entrou em declínio, passando a sofrer a concorrência dos etruscos, dos gregos e de sua própria colônia Cartago, a qual acabou dominando as colônias fenícias da África, da Sicília e da Espanha." (HOLANDA, Sérgio Buarque de [et alli]. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 43.)

A forma habitual de governo foi a Monarquia, geralmente com poderes limitados pelo Conselho dos Anciãos, cujos integrantes pertenciam às famílias ricas. A hereditariedade da Monarquia, contudo, não satisfazia aos interesses da poderosa classe de comerciantes, de proprietários de navios e de oficinas artesanais. O resultado foi a substituição das Monarquias hereditárias pelos Sufetas, em número de dois e escolhidos pelo Conselho dos Anciãos para exercer o poder temporariamente. 

Essas modificações políticas também foram apoiadas pela classe sacerdotal, proprietária de templos, de terras e de outras riquezas. Os sacerdotes fenícios integravam a aristocracia dirigente e eram recrutados entre algumas das famílias mais ricas da sociedade.

Nas cidades fenícias, a escravidão praticamente não existia, pois os escravos eram mais utilizados como mercadoria de comércio do que como mão-de-obra produtora.

A maioria da sociedade compreendia artesãos. portuários. trabalhadores domésticos e marinheiros, além de pequeno número de camponeses que, em servidão coletiva, cultivavam as terras vizinhas às cidades-Estados.

Por vezes, as cidades fenícias foram atacadas e pilhadas por exércitos de outras sociedades do Oriente Próximo. Algumas vezes, chegavam a ser conquistadas, mas acabavam recuperando a independência. Finalmente, foram integradas ao Império Persa e, posteriormente, a outros Impérios, como o de Alexandre, o Grande, e o Romano.

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]. Fazendo a História: da Pré-História ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 42-5.
HOLANDA, Sérgio Buarque de [et alli]. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 43
PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 20

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O problema do carro de guerra no Oriente Próximo Asiático

Admite-se com frequência que o feudo aparece "nas sociedades onde se conjugam uma economia insuficientemente monetária e um armamento militar oneroso". O soberano retribui o serviço militar mediante a concessão do único capital valioso, a terra. Eis o que teria ocorrido no Oriente, no momento em que o uso do carro de combate se generalizava.


Carro de guerra sumério de quatro rodas. Estandarte de Ur (Lado da Guerra, detalhe).

Antes do século XVII, o carro desempenhava, nas batalhas, um papel apenas secundário. Protegido por grande anteparo frontal e montado sobre quatro rodas maciças, o carro era pesado demais para prestar-se a evoluções táticas. Seu manejo complicava-se tanto mais quanto os animais de tiro parecem ter sido onagros, animais espantadiços, dificilmente domesticáveis, aos quais o processo de atrelagem - um jugo apoiado no garrote - suprimia grande parte da força de tração. Daí que o carro quase só fosse empregado na perseguição do inimigo, não para a ruptura da frente adversária.

A situação modificou-se radicalmente quando se introduziu certo número de melhorias técnicas: a caixa, mais leve e montada sobre um eixo ao qual se fixaram duas rodas de raios, foi atrelada a dois cavalos por peitorais mais simples. O carro tornava-se, assim, um instrumento de manejo flexível, cujas vantagens táticas foram imediatamente percebidas. Os progressos fundamentais, efetuados na Ásia Menor e em território mitanita, difundiram-se por todo o Oriente Próximo, sem que se possam precisar as contribuições respectivas dos diferentes povos.

Se a generalização desse material dispendioso constituísse explicação para a formação dos feudos, ter-se-ia de adtmitir que ficava por conta dos combatentes que o utilizavam: precisamente para atender às despesas de equipamento é que se lhes outorgariam terras. Ora, tal não sucedia, já que os carros se encontravam sob a custódia da administração central.


Carro de guerra assírio de duas rodas. A captura da cidade de Astartu, pelo rei assírio Tiglath-Pileser III, ca. 730-727 a.C., retratados em um relevo de palácio.

O fato está claramente atestado em Nuzi, na época da ocupação mitanita. Os carros eram entregues a título de foro (ishkaru) pelas populações das localidades vizinhas, aos funcionários do poder central, que os depositavam no arsenal. Esse edifício, encostado ao palácio, era dirigido pelo shãkin biti, intendente da casa real. Tais disposições perpetuaram-se na Assíria, depois que alcançou a independência. Um texto de Tell Billa (Bi, 25) revela que as entregas de carros, ou de peças desses carros, no caso um timão de madeira de shakkulu, sempre constavam dos ishkaru exigidos pelo palácio, sendo o hassuklu, governador de Shibaniba (Tell Billa), responsável pela sua guarda. O mesmo se verifica em território hitita: Hattusili III concedera uma carta de imunidade ao templo de Ishtar de Samuha, dispensando-o do serviço (sahann) e das corvéias (luzzi), normalmente devidos ao Estado; ora, entre os encargos citados figuram entregas de carneiros, palha, cevada, forragem, cavalos de guerra, acessórios, além de peças de carros, os shakkulu, certamente timões, e bubutu, que seriam os taipais laterais da caixa. Todos esses fornecimentos visivelmente destinados ao equipamento e à intendência dos exércitos estavam confiados à guarda do comandante da marca (auriyas = bél madgalti). Arquivos oficiais nos informam sobre os maryannu de Ugarit, guerreiros que, via de regra, se encontravam subordinados a um funcionário do palácio, o "mestre dos carros" (akil narkabti), e talvez, em certos casos, diretamente ao rei. Ainda que este lhes concedesse terras, o setor dos carros estava, com toda evidência, sob responsabilidade da administração central. 


Carro de guerra hitita de duas rodas.

Por outro lado, a carta de Hattusili III, tanto quanto as tábulas administrativas de Nuzi, demonstram que nem só os combatentes participavam das despesas com o equipamento militar. Os templos e as populações rurais também estavam sujeitos a elas, detalhe confirmado pelos arquivos assírios de Tell Billa, que contêm listas de localidades (álu) e domínio (ái dunnu) obrigados a fornecer ao governador da região contingentes de homens, carneiros, lã e cereal. Era o conjunto da circunscrição do hassuhlu que participava da preparação dos exércitos assírios. Todos esses fatos traduzem a mesma realidade: os cuidados do equipamento militar não eram deixados à iniciativa individual; eram encargo do governo. Portanto, não teria cabimento estabelecer uma relação de causa e efeito entre as despesas de armamento e as concessões de terras efetuadas pelos soberanos. Estas visavam a um objetivo mais geral.

GARELLI, Paul. O Oriente Próximo asiático: das origens às invasões dos povos do mar. São Paulo: Pioneira/EDUSP, 1982. p. 319-321.

NOTA: O texto "O problema do carro de guerra no Oriente Próximo Asiático" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

A invasão dos "Povos do Mar" e as tribos de Israel

Filisteus. Templo de Horemheb, Egito

A tormenta que varreu o império hitita parece ter sido repentina. O único indício precursor é, aos nossos olhos, a persistência, sob o reinado de Arnuwanda III, da coligação entre Madduwata, os aqueus e o Arzawa. Todo o Oeste anatólico achava-se unido contra Hattusa, e alguns dos povos coligados, particularmente aqueus e lícios, voltariam a ser encontrados entre os invasores, que então intentavam penetrar no Egito. Meneptah logrou detê-los e enviou socorros em trigo aos hititas, com o objetivo talvez de os sustentar em seu esforço contra o inimigo comum. De qualquer modo, na inscrição do ano 5 (c. 1230), que celebra suas vitórias na Palestina, o faraó assinala que "Hatti está pacificado".

Morto Arnuwanda, sem filhos, foi sem jovem irmão Suppiluliuma (II) quem subiu ao trono. Teria escolhido o nome como um símbolo de união, para galvanizar as energias? Impossível não pensar no último rei da Assíria, acossado pelos medas em 611, que ostentará também um nome simbólico, Assur-whallit. Mas aqui cessa a comparação. Entre os hititas, nada permite entrever um enfraquecimento. O tratado com o rei de Karkemish, Talmi-Teshub, foi renovado normalmente; Ammurapi de Ugarit permanecia um aliado fiel: uma vitória naval garantiu aos hititas a posse de Chipre; e Suppiluliuma II teve, inclusive, a oportunidade de intervir militarmente no alto Eufrates, contra a Assíria. A seguir, silêncio definitivo. A quem imputá-lo?


Povos do mar. Templo mortuário de Ramsés III, Egito

As fontes egípcias mencionam certos "povos do mar", que assaltaram o Delta e que foram contidos com muita dificuldade por Ramsés III, cerca de 1190. Entre esses povos, alguns nomes são idênticos aos enumerados pelas inscrições de Merneptah, em particular os shardanas, aqueus (aqayawas) e turush (que alguns pretendem identificar com os tirsênios). Desconheciam-se até então os danuna, provavelmente oriundos da Cilícia, e os filisteus, que, segundo a tradição hebraica (Amós, 9, 7), vinham de Creta. Visivelmente, toda a bacia do Mediterrâneo oriental estava em efervescência, e nesse fato se vê o efeito das invasões dóricas, empurrando na sua frente as antigas populações do Egeu.

Deve-se atribuir a estas últimas a destruição do império hitita? Nada prova que os habitantes do Arzawa ou os ahhiyawa houvessem tomado a rota de Hattusa; parecem ter-se dirigido para a Síria e o Egito. Os principais responsáveis pela catástrofe foram antes invasores da Europa: o planalto anatólico seria ocupado por frígios vindos da Trácia, e por uma população a eles aparentada, que os assírios chamariam de mushki, os moskhoi de Heródoto. E como duvidar de que os gasga houvessem tirado proveito da situação para repetir essas proezas anteriores? Com efeito, tornariam a ser encontrados no alto Eufrates; os mushki instalar-se-ão em Comagena, enquanto pequenos reinos hititas, bem ou mal, irão subsistir no Tauro e na Síria do Norte. A maior parte das regiões sírias foi devastada. Cilícia, Ugarit, Karkemish, Amurru arderam uma após outra. Chipre não foi poupada. Finalmente, foi atingida a Palestina. Sobre ela possuímos mais pormenores, porque os recém-chegados, os filisteus, cujo nome seria dado à região, chocavam-se com as tribos israelitas há pouco instaladas no interior do território, e com as quais entrariam numa luta sem quartel.

O estabelecimento dos israelitas na terra de Canaã é anterior à campanha de Meneptah no Hurri (c. 1230), visto que o faraó se vangloria, na inscrição acima citada, de haver destruído este povo: "Israel está desolado e sua raça já não existe", primeira em data de uma longa série de vãs afirmativas. A tradição israelita conservou a lembrança de um período de opressão no Egito, seguido de um êxodo e de uma permanência de quarenta anos nos desertos do Sinai. O número talvez só possua um valor simbólico, mas procurou-se identificar os faraós opressores que utilizaram os israelitas na construção das cidades de Píton e Ramsés. Poderia tratar-se de Sethi I e Ramsés II, que empreenderam grandes obras em Avaris. É possível que o êxodo tivesse ocorrido sob o reinado de Ramsés II, em meados do século XIII.

Ainda que não se possa aceitar todos os pormenores dos relatos bíblicos, redigidos somente a partir dos séculos X-IX, a história de Israel seria incompreensível sem levar em conta o papel de Moisés. Sobre este ponto, a tradição é unânime: uma personalidade forte imprimiu decisiva orientação às crenças e ao destino desse povo; igualmente unânime em conservar o nome que lhe dá. Os efeitos da ação de Moisés, entretanto, só podem ser apreciados à luz dos primeiros textos bíblicos, posteriores à fixação em Canaã, vale dizer, fora dos limites cronológicos aqui considerados. Por conseguinte, as instituições políticas e religiosas das tribos israelitas serão examinadas simultaneamente com a história dos "juízes". Transpô-las, pura e simplesmente, para a época da penetração em Canaã, seria arriscar-se ao anacronismo, razão pela qual nos restringiremos ao fato em si da conquista.

Acerca desta, divergem as tradições: enquanto o livro de Josué fala de uma súbita e sangrenta irrupção de todo Israel, a partir da região de Jericó, o livro dos Juízes menciona infiltrações de tribos isoladas. Não há motivo para rejeitar uma tradição em proveito de outra. Arqueologicamente se comprova que certo número de cidades palestinas, ocupadas pelos israelitas nessa época, sofreram destruição violenta, e que o movimento deve ter sido de certa amplitude. É evidente, por outro lado, que o movimento não se operou de uma só vez, e que a penetração assumiu formas diversas.

Não é certo que o conjunto das populações que iriam constituir Israel houvesse participado do êxodo. Vários indícios levam a crer que grupos afins se encontravam já na Palestina central, mais precisamente, na região de Siquém, poupada da destruição, e que foram assimilados pelos recém-vindos. Estes, de resto, não formavam um grupo homogêneo. O Levítico (24, 10) cita, entre os fugitivos, o filho de um egípcio com uma israelita; madianitas uniram-se a eles durante a caminhada (Núm. 10, 29-32): e quenizitas, como Caleb, constituíam um clã edomita. O grupo principal, ao ver a rota do Sul palestino barrada pelos amalecitas, contornou os reinos de Edom e Moab, defendidos por portos fortificados, e se estabeleceu a leste do Jordão, entre Arnon e Jabok. Entraram na Palestina pela região de Jericó. Outros grupos, como os quenitas, quenezitas e jeramelitas, infiltraram-se diretamente pelo Neguev.

O meio no qual penetraram também era heterogêneo. A terra de Canaã constituía-se num mosaico de pequenas cidades-Estados, cujas divisão e fragilidade tinham sido cuidadosamente mantidas pelos senhores egípcios. O desaparecimento do domínio egípcio, no final do novo Império, só reforçou a fragmentação política. A leste do Jordão encontravam-se os dois reinos de Edom e Moab, amonitas em vias de sedentarização e, mais ao norte, dois Estados amoritas, sobre os quais não possuímos informações seguras. Todas essas populações falavam idiomas semíticos. Mas, além delas, a Bíblia menciona horitas e hivitas, habitualmente identificados aos hurritas e hititas, bem como jebusitas, perizitas e girgashitas, dos quais nada sabemos. É possível, como julga R. de Vaux, que termos como horitas, hititas e amoritas não indiquem, na verdade, qualquer estabelecimento de povos com esses nomes; seriam simples empréstimos tardios à nomenclatura geográfica, aliás inexata, dos países vizinhos. Seja como for, do ponto de vista cultural, todas estas populações deviam estar fortemente "canaanizadas".

Um fator preservou as tribos de Israel da desintegração, ou da dissolução no meio ambiente que as cercava: sua distribuição geográfica. Os israelitas eram nômades, capazes de realizar incursões e tomar cidades de surpresa, mas careciam de uma organização militar eficiente. Não tinham carros de combate, nem máquinas de cerco. Não podiam aventurar-se nas planícies, onde seriam completamente destroçados pelos carros dos adversários, sendo-lhes difícil apossar-se das cidades cananéias defendidas por sólidas muralhas. Daí que, afora alguns casos isolados, como Jericó, as conquistas de cidades fossem raras. Os israelitas infiltraram-se nas regiões montanhosas do interior, relativamente pouco povoadas, e disseminaram-se por territórios afastados, separados por núcleos populacionais não-israelitas. Graças a isso, evitaram sua assimilação pelos cananeus.

Só em fins do século XI os israelitas chocaram-se com os filisteus, quando estes, visando garantir a retaguarda e perceber contribuições, pretenderam estender seu domínio ao interior. Ao tempo em que se instalaram na costa, os filisteus haviam-se contentado com dividir as terras em pequenos principados, com apoio em pontos fortificados: Gaza, Áscalon, Asdod, Ekron e Gath. Herdeiros dos cananeus, que haviam repelido, distinguiram-se deles pelo hábito de ações coordenadas, por meio das quais atingiram um poderio bem mais considerável. Tal fator pesaria duramente sobre o futuro destino dos israelitas, acelerando sua transformação política e religiosa.

A Palestina é a única das regiões atingidas pela invasão do século XIII acerca da qual existem algumas informações precisas. Ignora-se a situação da Síria na mesma época, mas pode-se avaliar seu estado de desordem pela agitação intensa que então reinava entre as tribos aramaicas. O fim das estruturas políticas da época amarniana, ou talvez um afluxo demográfico contido por tempo excessivo, provocaram um êxodo maciço em direção à Mesopotâmia. As duas pressões, distintas na origem, conjugaram-se nos efeitos, provocando um movimento de inigualável amplitude, que atingiu as margens do Golfo Pérsico. Em todo lado surgiram reinos arameus. A formação do Estado de Israel é apenas um caso particular inserido nesse processo global, graças à derrocada das grandes potências. Os velhos Estados mesopotâmicos dele sairiam transformados, para se lançar em empreendimentos de dominação universal.

GARELLI, Paul. O Oriente Próximo asiático: das origens às invasões dos povos do mar. São Paulo: Pioneira/EDUSP, 1982. p. 211-215.


NOTA: O texto "A invasão dos "Povos do Mar" e as tribos de Israel" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 8 de junho de 2014

A herança mística e extraterrena da Pérsia

Emblema solar de Ahura Mazda. 
Ca. VI século a.C. Susa, Pérsia

A religião dos persas, tal como foi ensinada por Zoroastro, não permaneceu por muito tempo em seu estado original. Foi corrompida principalmente pela persistência de superstições primitivas, pela magia e pela ambição do clero. Quanto mais a religião se estendia, tanto mais nela se enxertavam essas relíquias do barbarismo. Com o passar dos anos, a influência de crenças de outras terras, particularmente as dos caldeus, determinou novas modificações. O resultado final foi o desenvolvimento de uma poderosa síntese na qual o primitivo sacerdotalismo, o messianismo e o dualismo dos persas se combinavam com o pessimismo e o fatalismo dos neobabilônios.

Dessa síntese emergiu, aos poucos, uma profusão de cultos, semelhantes em seus dogmas básicos, mas concedendo a eles valores diferentes. O mais antigo dos cultos era o mitraísmo, nome que se deriva de Mitra, o principal lugar-tenente de Mazda na luta contra as forças do mal. Mitra, a princípio apenas uma divindade menor da religião zoroástrica, encontrou finalmente agasalhado no coração de muitos persas como deus mais merecedor de adoração. A razão dessa mudança foi, provavelmente, a auréola emocional que cercava os acidentes de sua vida. Acreditava-se que nascera num rochedo, em presença de um pequeno grupo de pastores, que lhe trouxeram presentes em sinal de reverência pela sua grande missão na terra. Passou então a sujeitar todos os seres vivos que encontrava, conquistando e tornando úteis ao homem muitos deles. Para melhor desempenhar essa missão, fez um pacto com o sol, obtendo calor e luz para que as plantações pudessem florescer. O mais importante de seus feitos foi, contudo, a captura do touro divino. Agarrando o animal pelos chifres, lutou desesperadamente até forçá-lo a entrar numa caverna, onde, em obediência a uma ordem do sol, o matou. Da carne e do sangue do touro provieram todas as espécies de ervas, grãos e outras plantas valiosas para o homem. Mal esses feitos foram realizados, Ahriman provocou uma seca na terra, mas Mitra enfiou a sua lança numa rocha e as águas dela borbulharam. Em seguida o deus do mal mandou um dilúvio, mas Mitra mandou construir uma arca para permitir a salvação de um homem com os seus rebanhos. Depois de terminados os seus trabalhos, Mitra participou de um festim sagrado com o sol e subiu aos céus. No devido tempo voltará e dará a todos os crentes a imortalidade.


Mitra e o touro. Afresco do Templo de Mitra, Marino, Itália, século II d.C. Artista desconhecido

O ritual do mitraísmo era complicado e significativo. Incluía uma complexa cerimônia de iniciação em sete estágios ou graus, o último dos quais firmava uma amizade mística com o deus. Longas provas de abnegação e mortificação da carne constituíam complementos necessários ao processo de iniciação. A admissão à completa participação no culto habilitava uma pessoa a participar dos sacramentos, sendo o mais importante o batismo e uma refeição sagrado de pão, água e, possivelmente, vinho. Outras observâncias incluíam a purificação lustral (ablução cerimonial com água santificada), a queima de incenso, os cânticos sagrados e a guarda dos dias santos. Destes últimos, eram exemplos típicos o domingo e o dia vinte e cinco de dezembro. Imitando a religião astral dos caldeus, cada dia da semana era dedicado a um corpo celeste. Uma vez que o sol, como fonte de luz e fiel aliado de Mitra, era o mais importante desses corpos, seu dia era, naturalmente, o mais sagrado. O dia vinte e cinco de dezembro possuía, também, significação solar: sendo a data aproximada do solstício do inverno, marcava a volta do sol de sua longa viagem ao sul do Equador. Era, em certo sentido, o "dia do nascimento do sol", uma vez que assinalava a renovação de suas forças vivificadoras para benefício do homem.

Não se sabe exatamente quando a adoração de Mitra se transformou num culto definido, mas sem dúvida não foi depois do século IV a.C. Seus característicos se estabeleceram firmemente durante o período de fermentação social que se seguiu ao colapso do império de Alexandre, e sua expansão nessa época foi muitíssimo rápida. No último século a.C. foi introduzido em Roma, embora tivesse pequena importância na própria Itália até o ano 100 d.C. Fazia conversos principalmente nas classes mais baixas - soldados, estrangeiros e escravos. Finalmente, atingiu a situação de uma das mais populares religiões do Império, tornando-se o principal concorrente do cristianismo e do próprio velho paganismo romano. Depois de 275, no entanto, sua força decaiu rapidamente. É impossível avaliar a influência que esse extraordinário culto exerceu. Não é difícil perceber sua semelhança superficial com o cristianismo, mas certamente isso não quer dizer que os dois fossem idênticos, ou que um fosse derivação do outro. Não obstante, é provável que o cristianismo, o mais jovem dos dois rivais, tenha tomado de empréstimo um bom número dos aspectos externos do mitraísmo, conservando, ao mesmo tempo, virtualmente intata a sua filosofia essencial.


Folha de um maniqueísta. Khocho, ca. VIII-IX século d.C. Artista desconhecido

Um dos principais sucessores do mitraísmo na transmissão da herança persa foi o maniqueísmo, fundado por Mani, um sacerdote de origem ilustre de Ecbátana, aproximadamente em 250 d.C. Como Zoroastro, achava que sua missão na terra era reformar a religião dominante, mas obteve pequena simpatia em seu próprio país e teve que se contentar com aventuras missionárias na Índia e na China Ocidental. Mais ou menos em 276, foi condenado e crucificado pelos seus próprios rivais persas. Depois da morte de Mani, os ensinamentos deste foram levados por seus discípulos praticamente a todos os países da Ásia Ocidental e, por fim, à Itália, mais ou menos em 330. Grande número de maniqueus ocidentais, inclusive o grande Agostinho, acabaram por se tornar cristãos.

De todos os ensinamentos do zoroastrismo, o que causara a mais profunda impressão na mente de Mani fora o dualismo. Era, por conseguinte, natural que se tornasse a doutrina central da nova fé. Mas Mani deu a essa doutrina interpretação mais larga do que tivera nas religiões precedentes. Concebeu não simplesmente duas divindades empenhadas numa luta inexorável pela supremacia, mas todo um universo dividido em dois reinos, sendo um a antítese do outro: um, o reino do espírito dominado por um Deus eternamente bom; outro, o reino da matéria sob o domínio de Satã. Somente substâncias "espirituais" como o fogo, a luz e as almas dos homens eram criadas por Deus. Tinham sua origem em Satã a escuridão, o pecado, o desejo e todas as coisas corporais e materiais. A própria natureza humana era má, pois os primeiros pais da raça receberam seus corpos físicos do rei das trevas.

As inferências morais desse dualismo rigoroso eram demasiado evidentes. Uma vez que tudo quanto se relacionasse com a sensualidade e o desejo era trabalho de Satã, o homem devia esforçar-se por se libertar o mais completamente possível da escravidão de sua natureza física. Devia refrear todos os prazeres dos sentidos, abster-se de comer carne, de beber vinho e de satisfazer o desejo sexual. Até o casamento era proibido, pois levaria à geração de novos corpos físicos para povoar o reino de Satã. Além disso, o homem dominaria a carne por meio de jejuns prolongados e penitências corporais. Reconhecendo que essa norma de austeridade seria muito dura para mortais comuns, Mani dividiu a raça humana em "perfeitos" e "seculares". Somente os primeiros eram obrigados a submeter-se à norma completa como um ideal que todos deviam almejar. À segunda categoria cumpria somente evitar a idolatria, a avareza, a fornicação, a falsidade e a ingestão de carne. A fim de ajudar os filhos dos homens na luta contra o poder das trevas, Deus enviava, de tempos em tempos, profetas e redentores a fim de confortá-los e inspirá-los. Noé, Abraão, Zoroastro e Paulo eram enumerados entre esses emissários divinos, mas o último e maior de todos era Mani.

É muito difícil estimar a influência do maniqueísmo, mas sem dúvida ela foi considerável. Pessoas de todas as classes do império romano, incluindo alguns membros do clero católico, adotaram suas doutrinas. Na sua forma cristianizada, tornou-se uma das seitas principais da igreja primitiva e forneceu a base essencial da heresia albigense, ainda nos séculos XII e XIII. Inspirou extravagantes especulações cristãs em torno do dualismo entre Deus e o diabo e entre o espírito e a matéria. Não somente contribuiu para o ascetismo cristão mas também fortaleceu as doutrinas do pecado original e da depravação do homem, tais como as ensinaram alguns teólogos. Foi, finalmente, a grande fonte da famosa dicotomia dos padrões éticos estabelecida por Santo Agostinho e outros Padres da Igreja: 1) um padrão de perfeição para poucos (os monges e as freiras), que se retirariam do mundo e levariam vida santa para exemplo dos demais; e 2) um padrão socialmente viável para os cristãos comuns.

O terceiro culto mais importante, que se desenvolveu como legado da religião persa, foi o gnosticismo (do grego gnosis, que significa conhecimento). O nome do seu fundador é desconhecido, bem assim como a data da sua origem, mas certamente existia já no primeiro século da nossa era. Atingiu o auge da popularidade na última metade do segundo século. Ainda que granjeasse alguns seguidores na Itália, sua influência se limitou sobretudo ao Oriente Próximo.

O misticismo era o característico que mais distinguia dos outros este culto. Os gnósticos negavam que as verdades da religião pudessem ser descobertas pela razão ou que se pudessem tornar inteligíveis. Consideravam-se como os detentores exclusivos de uma secreta sabedoria espiritual revelada por Deus, sabedoria essa de absoluta importância como guia da fé e da conduta. Suas observâncias religiosas eram também altamente esotéricas, isto é, tinham um significado oculto conhecido unicamente pelos iniciados. Os sacramentos em grande profusão, batismos inumeráveis, ritos místicos e o uso de fórmulas e números sagrados são os melhores exemplos desses ritos.

Foi enorme a influência conjunta desses vários tipos de religião persa. Muitos deles foram lançados numa época de condições sociais e políticas particularmente favoráveis à sua expansão. O fim do império de Alexandre, mais ou menos em 300 a.C., inaugurou na história do mundo antigo um período singular. Foram derrubadas as barreiras internacionais, houve uma extensa migração e caldeamento de povos, e o colapso da antiga ordem social despertou profunda desilusão e um vago anseio de salvação individual. A atenção dos homens se centralizou, como nunca mais acontecera desde a queda do Egito, nas compensações da vida futura. Em tal terreno as religiões do tipo descrito estavam destinadas a medrar como erva nova. Sendo sobrenaturais, místicas e messiânicas, ofereciam na irrealidade que buscavam os homens o verdadeiro refúgio de um mundo de ansiedade e confusão.

A herança deixada pelos persas, ainda que não tenha sido exclusivamente religiosa, continha poucos elementos de natureza secular. A forma de governo característica desse povo foi adotada pelos monarcas romanos de época avançada, não no seu aspecto puramente político, mas no seu caráter de despotismo de direito divino. Quando imperadores como Diocleciano e Constantino I invocaram a autoridade divina como base do seu absolutismo e exigiam que os súditos se prostrassem na sua presença, estavam, em realidade, identificando o estado com a religião como os persas tinham feito na época de Dario. São também discerníveis traços da influência persa em certos filósofos helenistas, mas ainda aqui essa influência foi essencialmente religiosa, pois se limitou quase inteiramente às teorias místicas dos neoplatônicos e dos seus aliados filosóficos.

BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental: Do homem das cavernas até a bomba atômica. V. 1. Porto Alegre: Globo, 1964. p. 106-110.

NOTA: O texto "A herança mística e extraterrena da Pérsia" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Os arameus

Atrás da faixa litorânea do território fenício, a Síria, encruzilhada de rotas, é também uma encruzilhada de povos. Muitos aí se instalaram e dominaram alternadamente, deixando no local elementos étnicos que se fundiram pouco a pouco num todo mesclado, deixando também vestígios arqueológicos, que os eruditos modernos se esforçam por classificar. [...]


Estela de funeral de Si' Gabbor, sacerdote do Deus da lua. Basalto, início do século VII a.C., encontrado em Neirab (Síria). Tem uma inscrição em aramaico.

A vida política. Também eram semitas, saídos não se sabe de que região do deserto sírio-árabe. Nômades organizados em tribos, tinham vagueado até a Alta Mesopotâmia, em Harrã, onde os encontramos, de início, muito densos e estáveis [...]. Em seguida, a partir do século XIV a.C., espalharam-se pela Síria, onde formaram grupos sedentários. Não expulsaram e jamais fizeram desaparecer inteiramente as antigas populações. Jamais criaram um Estado único mas, ao contrário, uma pluralidade de reinos, por vezes em guerra uns contra os outros. O mais importante foi, segundo parece, o do grande oásis situado ao pé do Antilíbano, Damasco, o reino dos Benhadads, equivalente hebraico do aramaico Bar-hadad, isto é, “filho de Haddad”, e de Hazael, isto é, “El observa”. [...] O apogeu dos arameus verifica-se entre os séculos XI e X a.C.: barravam então, aos assírios, as rotas do Noroeste e do Ocidente. Mas, a partir do século X, os reis assírios empenharam-se em lutas contra os arameus, que tiveram de enfrentar ao mesmo tempo os hebreus. No fim do século VIII findara a sua independência para sempre, depois dessa data, os arameus se tornaram súditos de Estados estrangeiros.

Cada um de seus reinos possuía sua cidade-capital, seu rei, sua dinastia e também seus usurpadores. A um ou a outro, os assírios impuseram um tributo, uma homenagem, tentando transformar em semivassalo e em semifuncionário um pequeno rei que aproveitava a primeira oportunidade para declarar-se independente. [...]


Estela funerária de basalto com uma inscrição aramaica, ca. século VII a.C., Neirab (Síria)

O papel comercial. [...] A posição geográfica da Alta Mesopotâmia e da Síria, destinadas ao tráfico entre a costa fenícia e a Ásia Menor, de um lado, e as regiões do Eufrates inferior e do Tigre, de outro, permitiu-lhes desenvolver intensa atividade como intermediários. Foram eles, em terra, numa parte do Oriente Próximo, o que os fenícios foram no mar. Pouco a pouco, a agricultura e a indústria síria, aperfeiçoando suas técnicas, adquiriram grande renome e contribuíram para a fortuna de Damasco. [...] o deslocamento dos arameus antes de sua fixação como sedentários, as deportações dos reis assírios, a emigração voluntária de seus comerciantes nos vastos impérios que lhes haviam imposto o seu domínio, todas essas causas conduziram a disseminação em numerosas cidades, por vezes bem distantes, de grupos entregues aos negócios, grandes ou pequenos. Aumentando incessantemente, essa ubiqüidade lhes foi proveitosa, mesmo sob o domínio grego e, no tempo do Império Romano, quase por toda parte no mundo antigo, os comerciantes por excelência.

O aramaico, língua do Oriente. O resultado mais imediato disso foi a expansão de sua língua, cujos múltiplos dialetos se difundiram num aramaico comum. Em vez de escrever em caracteres cuneiformes, adaptaram ao seu idioma um alfabeto derivado do fenício. A comodidade conseqüente desse arranjo e sua dispersão levaram os reis assírios a contratar, para seus scriptoria, escribas arameus que escreviam em papiros. Avançando ainda mais, os Aquemênidas adotaram o aramaico como idioma administrativo de seu império. A atividade comercial dos arameus realizou o resto, e sua língua ganhou à custa de muitas outras. Seus progressos explicam a morte dos velhos idiomas mesopotâmicos. O uso do hebraico perdeu-se, mesmo na Palestina: a Bíblia ainda conserva passagens em aramaico [...]; Jesus e seus discípulos não pregaram em hebraico, mas em aramaico. O siríaco, que foi durante muito tempo o idioma dos cristãos da Síria e da Mesopotâmia, derivava do aramaico. Apenas a conquista árabe, no século VII d.C., deteve sua difusão, provocando o seu posterior desaparecimento. Mas, então, o aramaico já desempenhava enorme papel em todo o Oriente Próximo, exceto na Ásia Menor e no Egito: papel comercial, intelectual e mais ainda – como instrumento de unificação -, papel moral e político. 


Baal. Acrópole de Ugarit. 

A religião. No tocante a essa época antiga, a arte dos arameus é negligenciável. E não fosse o futuro que alguns de seus cultos desfrutarão no Império Romano, a religião também não ofereceria maior interesse.

Tratava-se, de fato, de uma religião sem originalidade, muito misturada, com um fundo sobretudo cananeu, mesclado de influências mitânicas, hititas e fenícias: tais influências estrangeiras eram tanto mais facilmente assimiláveis, quanto os cultos por eles refletidos tiveram, por sua vez, origem em cultos cananeus. Assim, El é mencionado em diversos pontos, principalmente, o deus da tempestade, Hadad – em Damasco, Rammon, isto é, “o tonante” – era reconhecido quase sempre sob o nome de Baal; da mesma forma, é em Astarte que encontramos o protótipo da maioria das divindades femininas. Os deuses mesopotâmicos, que haviam penetrado em grande número, confundiam-se frequentemente com deuses cananeus; entretanto, o Baal de Harrã permaneceu firmemente o deus-lua Sin que, provindo de Ur, na Caldéia, se instalara nessa cidade desde a mais alta Antiguidade.

A Síria, em matéria religiosa, também foi uma terra de confluência. Mais tarde, por volta do início da era cristã, havendo já recebido bastante de outras religiões, transformou ou, melhor, fundiu muito do que recebera, sobretudo por sincretismo com a teologia solar. Além disso, exportou muitos elementos religiosos por intermédio de seus comerciantes, presentes em toda parte, dos soldados que forneceu a Roma e daqueles que, nascidos em outras regiões, passaram tempos em seu território. A Dea syria Atargátis, os Baals de Doliché, Heliópolis e Emesa, partiram de solo sírio para ganhar a Europa: Atargátis já se firmara amplamente em Delos no início do século I a.C.

Nesse tempo em que Roma dominava o mundo, ninguém mais se preocupava, e desde há muito, com os reis ou com a civilização da Assíria. Jamais, no entanto, a ação efetiva dos arameus se exerceu sobre tão amplo domínio. E, sem dúvida alguma, essa influência se originara da perda de sua independência política, quando Sargão II reprimira as últimas rebeliões de Hamat e Damasco; a História oferece mais de um exemplo desse aparente paradoxo.


AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga: o homem no Oriente Próximo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p. 66-70. (História Geral das Civilizações, v. 2)


NOTA: O texto "Os arameus" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 12 de abril de 2014

Cativos, sim; escravos, não: o trabalho no Egito antigo

Israel no Egito (detalhe), Edward Poynter 

Diante dos grandes monumentos, como as pirâmides, só nos resta imaginar as massas de indivíduos curvados sob fardos muito pesados e sob as ordens de contramestres sádicos. E se trabalhar para o faraó constituísse de fato uma forma de recompensa?

É um dos temas que despertam mais paixão nos egiptólogos, mas também o fundamentalismo – a palavra não é forte demais – tanto daqueles que negam ferozmente o fato quanto daqueles que afirmam o contrário com veemência, como se a vida de uns e de outros dependesse da resposta. Como se também fosse possível resolver de forma simples um problema envolvendo noções tão complexas quanto as que dizem respeito à liberdade humana.

O Egito não conheceu a escravidão no sentido greco-romano, designando um indivíduo privado de sua liberdade, vivendo sob a autoridade absoluta de um mestre, seja devido ao nascimento – sendo ele mesmo filho de escravo –, seja após ter sido capturado (no decorrer de uma guerra), vendido ou condenado. Considerado como um bem material, ele se torna – para sempre – a propriedade explorável e negociável de outra pessoa. Ao longo do Vale do Nilo, essa forma de escravidão não ocorreu antes da época ptolomaica (século IV antes da nossa era), data em que os gregos se tornaram soberanos do país, levando com eles algumas de suas tradições, em particular a escravidão. Na sociedade egípcia, existiam múltiplos níveis de dependência que ligavam os homens entre si. Alguns podiam ser identificados como uma forma de escravidão, mesmo que estivessem longe de responder aos critérios impostos pela definição jurídica.

O funcionamento da realeza egípcia baseava-se em um elemento essencial – que aproxima muito o estado de espírito dos trabalhadores egípcios ao dos construtores de catedrais na Idade Média: filho dos deuses e seu representante na Terra, o faraó, no ápice da pirâmide social, garantia a vida e assegurava a cada um sua subsistência. Em troca desses benefícios, ele estava no direito de exigir dos súditos seu trabalho, de modo que cada um participava da grande obra coletiva.

Ainda por cima, por mais árduo que fosse o trabalho, contribuir para a edificação dos monumentos destinados ao futuro solar do rei ou à manutenção do equilíbrio cósmico permitia se apropriar de uma parcela das prerrogativas habitualmente reservadas ao personagem real. Enfim, fato sem dúvida revelador do sucesso do sistema faraônico, a coesão social passava pelo pertencimento a um Estado cuja organização quase militar era centrada na acumulação de riquezas, produzidas por uma mão de obra particularmente móvel com status sociais extremamente diversos.

Em um estudo especialmente instrutivo intitulado “Les noms de l’esclave en egyptien” (Os nomes de escravos em egípcio), o egiptólogo Jules Baillet elaborou uma lista dos vocábulos utilizados nos textos faraônicos para expressar a ideia de escravidão. Eis o que ele constatou: na língua egípcia, não existem palavras para designar o escravo no sentido estrito e, embora muitos termos expressem a sujeição, “nenhum corresponde exatamente à ideia de servidão”, tal como definida na Grécia ou em Roma. Daí sua pergunta: “O que é um estado social se nenhuma palavra o designa?”

Evidentemente, se a palavra não existe, o mesmo ocorre com o status. Entre os muitos termos enumerados por Baillet, dois são mais comumente traduzidos por “escravo” entre os autores favoráveis à tese da existência da escravidão no Egito: hem ebak, duas palavras que parecem totalmente sinônimas na língua egípcia e que se pode, de maneira menos categórica, interpretar por “servo”, e mesmo “dependente”. Em egípcio, o sacerdote é um hem netjer, um “servo de deus”, e, como observa Bernadette Menu, grande especialista nas questões de direito no Egito antigo, um vizir se consideraria o bak do faraó, seu “devoto” de alguma maneira. Segundo Bernadette, a noção de escravidão não responde a uma necessidade egípcia. À luz dos textos jurídicos, parece claramente que o indivíduo hem ou bak era um homem livre, perfeitamente integrado à sociedade, dispondo de um estado civil, titular de direitos e devedor de obrigações idênticas às do resto da população: embora pudesse se casar, ter posses, vender, contratar ou entrar na Justiça, ele não podia escapar do pagamento de impostos e ao regime de corveia (trabalho gratuito).

Paralelamente, estão conservados vestígios nos arquivos, sobretudo da Época Baixa (por volta do século VI antes da nossa era), de contratos relativos à venda ou à locação de indivíduos dependentes, tema muito controverso entre os egiptólogos: trata-se do que chamamos comumente “escravidão por dívida”, cuja negociação se referia a serviços temporários, avaliados e quantificados previamente pelos interessados.

Um homem endividado se colocava a serviço de um mestre para saldar sua dívida, até que a soma fosse integralmente reembolsada. Depois, os dois homens podiam se entender, por meio de um contrato escrito, validado juridicamente e aceito pelas duas partes. Foi o caso de um indivíduo chamado Peftouâoukhonsou, cultivador por conta própria, que entrou para o serviço de Nessemteu para pagar despesas médicas. Uma vez paga a dívida, ele decidiu continuar trabalhando, mas dessa vez remunerado, o que foi objeto de um novo contrato, renovado na sequência.

Trabalhos agrícolas e canteiros de construção monopolizavam cotidianamente uma parte da mão de obra egípcia, fosse ela estrangeira ou recrutada entre a população local, no seio das classes trabalhadoras – em primeiro lugar, os camponeses. Em troca de rações diárias e de um salário mensal – as fontes dissociam bem essas duas remunerações complementares –, os contratados deveriam fornecer determinada quantidade de trabalho. Salário e tarefa eram negociados antecipadamente e por tempo determinado. Era o regime do trabalho obrigatório, o da corveia: o indivíduo não escolhia sua tarefa, mas era pago regularmente pelo trabalho efetuado. É o que revela um documento muito interessante, o papiro Reisner I, datado do reino de Sesóstris I (em torno de 1970-1928 antes da nossa era), no início da XIIª dinastia, durante o Médio Império.

Referindo-se aos trabalhos de construção do reino, o papiro apresenta dados cifrados sobre as rações, os recrutados, as equipes e os trabalhos realizados. Para a maioria, os homens – oriundos da mão de obra das terras agrícolas pertencentes ao Estado – eram trabalhadores destinados às tarefas mais árduas: transporte dos blocos e fabricação de tijolos crus. Reagrupados em equipes de dez trabalhadores dirigidos por um capitão, eles recebiam diariamente um quilo de pão – que constituía a moeda de troca – e alguns extras por ordem real. As listas apresentam alguns artesãos especializados, mais bem remunerados, e contramestres que executavam as ordens dadas pelo vizir, responsável pelos trabalhos de construção perante o faraó. O documento revela o caráter muito regulamentado dessa organização e a extrema mobilidade da mão de Obra sujeita à corveia, que não cessava de se deslocar de um canteiro para outro, dependendo da necessidade.

A partir do Novo Império, além do Estado, qualquer pessoa podia, pagando uma remuneração, alugar os serviços de um terceiro por dia, ou em frações: meio dia, um quarto de dia, uma hora se necessário. Foi o caso do vaqueiro Messouia, que, sob os reinos de Amenófis III e de Akhenaton (XVIIIª dinastia, de 1550 a 1292 antes da nossa era), alugava mulheres para fabricar tecidos. Os contratos – cujo termo hieroglífico pode ser traduzido por “troca a título oneroso” – engajavam essas trabalhadoras por períodos que variavam entre dois até muitos dias, com tarifa diária de dois shâtis.

No papiro Harris I, Ramsés III (que reinou por volta de 1198 a 1168 antes da era cristã) explica como ele “reduziu a pó” os beduínos da Ásia, pilhando seu acampamento, levando seu gado, bens e prisioneiros, e os oferecendo aos deuses “para serem utilizados como servos de seu domínio”. Bem mais cedo, sob o Antigo Império, a Pedra de Palermo (sobre a qual foram gravados os anais reais) revela listas impressionantes de butins de guerra: sob a IVª dinastia, Snefru (em torno de 2700 a.C.) trouxe da Núbia 200 mil cabeças de gado e 7 mil cativos, imediatamente empregados nas explorações agrícolas. Exemplos desse tipo são muito numerosos nas fontes egípcias, em particular no Novo Império, onde o Egito conquistador submete seus vizinhos à força, no espírito de trazer butim e prisioneiros. Estes últimos eram destinados a engrossar os efetivos do exército e os domínios divinos ou reais para executar trabalhos agrícolas, artesanais e domésticos.

Desde essa época, a política egípcia visava integrar esses cativos à sociedade, oferecendo-lhes uma educação que recebiam no seio das fortalezas reais. Rompidos com seu meio de origem, os prisioneiros adotavam um nome egípcio e se lançavam no aprendizado do “falar como aqueles que seguem o rei, de modo que abandonem sua língua e andem no bom caminho sem olhar para trás”, antes de serem destinados a um templo ou a um domínio real onde fariam um trabalho remunerado. Tratava-se de uma acumulação de homens condenados a servir nas engrenagens das estruturas econômicas egípcias. Os cativos de origem principesca se uniam geralmente ao círculo real, onde às vezes exerciam altas funções.

Esses homens, chamados, no momento de sua captura, de hâqou ou seqerou-anhkou – palavras que se aplicavam aos cativos, aos prisioneiros –, se tornavam, após uma egipcianização bem-sucedida, hemou ou bakou, o que nos leva a pensar que não recebiam um status de escravo. Embora a onipresença da iconografia real mostrasse o faraó em toda a sua majestade esmagando os inimigos, em uma visão de mundo em que os países estrangeiros eram seus vassalos e os adversários rebeldes, destinados a morrer, o estrangeiro, a partir do momento que estivesse integrado à sociedade egípcia, era tratado exatamente como um egípcio. Isso era particularmente verdadeiro para os cativos que entravam como servos na casa de um particular graças a um presente do rei a um homem merecedor. Muitas vezes acolhidos com família e filhos, esses dependentes rapidamente faziam parte da casa, na qual permaneciam em geral por toda a vida. Encontra-se também essa integração no domínio militar.

Além dos soldados de carreira, os contingentes eram compostos por corpos de mercenários constituídos “pelos melhores entre os cativos que Sua Majestade fez nos campos de batalha”. Um documento que remonta aos primeiros anos do reino de Ramsés II (de 1300 a 1235 antes da nossa era), atribuído a um escriba encarregado de efetuar a repartição dos víveres entre os soldados de uma mesma unidade quando de uma campanha militar na Síria, mostra que os efetivos contavam com 62%de estrangeiros contra apenas 38% de egípcios.

A partir do reino de Tutmés III (de 1504 a 1450 antes da nossa era), as legiões estrangeiras reuniam essencialmente núbios, asiáticos, líbios, hititas e os habitantes dos países banhados pelo mar Egeu. Esses soldados eram reunidos em unidades e dirigidos pelos responsáveis pelas tropas estrangeiras ou mesmo por nativos. Os textos confirmam que, tendo provado sua lealdade ao faraó após sua chegada ao Egito, eles gozavam do status de homens livres.

O papiro Wilbor, datado do ano 4 do reinado de Ramsés V (1145 antes da nossa era), é um documento fiscal que contém um levantamento das terras com cultivo de trigo entre Minieh e o Fayum e traz também preciosas informações sobre os mercenários estrangeiros. Ele explica que, sob as XIXª e XXª dinastias, por ordem do rei, os prisioneiros de guerra se instalaram com suas famílias nas colônias militares. Reagrupados por etnias, eles gozavam das mesmas vantagens que os soldados egípcios e, como estes, pagavam impostos e possuíam terras que exploravam por conta própria. Nesses campos moravam os téhérou – piratas do mar Egeu –, núbios e sardanas da Ásia Menor, estes últimos constituindo uma tropa de elite destinada à guarda do soberano a partir de Ramsés II. Esses exemplos demonstram como a questão da escravidão no Egito faraônico é complexa. Somente um estudo sistemático das fontes jurídicas à nossa disposição permitirá esclarecer melhor os diferentes níveis de dependência que estruturavam a sociedade egípcia – que eram particularmente numerosos, embora nenhum deles possa ser comparado à escravidão segundo a acepção greco-romana do termo.


Aude Gros de Beler. Cativos, sim; escravos, não. In: Revista História Viva. Grandes Temas. Nº 46. p. 46-51.

NOTA: O texto "Cativos, sim, escravos, não: o trabalho no Egito antigo" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.