"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 9 de junho de 2017

Civilização IX

A Última Ceia.
Leonardo da Vinci

É difícil apreciar retrospectivamente a fé incondicional que, no imediato pós-guerra, a maioria das pessoas depositava nos pilares da sociedade e palpável sentimento de choque pessoal e coletivo à medida que, uma após outra, as instituições eram desmascaradas como hipócritas, egoístas e corruptas. [...] 

[...]

Enquanto a geração do pós-guerra se nauseava com a visão da velha ordem tentando calar o mundo, a anterior com certeza se consternava com as traquinagens de seus filhos - o desdém pelas lutas dos mais velhos, a alegre profanação de seus ícones e a suposição fácil de que a riqueza caía do céu. Um dos objetos cênicos mais importantes da peça What the Butler Saw, de Joe Orton, que lotou os teatros londrinos em 1969, era um jarro contendo o pênis conservado de Winston Churchill. Tal iconoclasmo se estendia a tudo que fosse antigo e venerável em se tratando de arte, cultura, educação, edifícios públicos, políticos, generais etc. Era como se os pecados do passado fossem tão grandes que só a faxina em regra e a fumigação da sociedade pudessem redimi-los. Era preciso jogar tudo fora para fazer outra vez.

Essa revolução social coincidiu com o súbito aumento da riqueza, particularmente na Europa Ocidental (os Estados Unidos haviam experimentado esse efeito na década de 1950). O desdém pela autoridade e o desejo de gratificação instantânea foram acicatados pela imensa quantidade de coisas novas e baratas subitamente disponíveis a todos - discos, automóveis, roupas, rádios transistores, máquinas fotográficas, telefones, revistas coloridas, jornais e, acima de tudo, a televisão.

A tecnologia dos anos 1960 não apenas proporcionou um conjunto de experiências melhor, mais colorido e mais interessante, como foi também um meio de evasão de uma sociedade comunal, harmônica e colaborativa. A família já não precisava se reunir à noite, ao redor da lareira, para "criar a sua própria diversão" [...] Com o aquecimento central e as vitrolas e rádios portáteis, cada cômodo da casa podia agora ser usado como um centro de entretenimento privado. De gélidos dormitórios em que só se entrava quando já era noite, os quartos dos adolescentes foram transformados em cálidos refúgios repletos de dispositivos de música, fotografia e emoções provenientes do mundo inteiro. A comunhão familiar foi trocada pela busca da gratificação individual e das novidades da experiência coletiva a distância. Mais tecnologia gerava mais produção e maior poder de compra, tornando as coisas cada vez mais baratas e acessíveis.

Em meados da década, o ardente desejo de ganhar e gastar dinheiro começou a arrefecer na mente de uma parte da juventude recém-liberada. A contracultura gerada em oposição à Guerra do Vietnã começou a virar as costas ao consumismo e ao individualismo e a buscar um novo tipo de comunhão e espiritualidade. [...] a contracultura não tinha muita chance contra os batalhões do mundo comercial e as alegrias mais imediatas de comprar e possuir. O apelo do movimento hippie por uma nova espiritualidade em face do consumismo desenfreado caiu em ouvidos moucos. Nós escolhemos comprar e é o que temos feito desde então. [...]

Essa combinação de consumismo, prosperidade material e desconfiança na autoridade estabelecida nos trouxe uma relação problemática com o nosso passado. É como se tivéssemos ganhado de presente as chaves da caixa-forte junto com o conhecimento de onde proveio o butim. Queremos desfrutar a nossa riqueza, mas também saber como foi construído o nosso mundo - e nos perturbamos com as respostas. Relatos da exploração assassina do restante da humanidade, do esmagamento de outras culturas, do genocídio de nativos por cobiça de suas terras - tudo isso foi absorvido por uma geração cuja desconfiança da ordem estabelecida a preparou para o pior. E o processo continua, inalterável. O genocídio dos quebecois nativos, o financiamento da revolução industrial por meio do tráfico de escravos, a tortura dos prisioneiros argelinos pelo exército francês, os maus-tratos de iraquianos na prisão de Abu Gharib - a cada semana uma nova revelação se soma ao que já sabemos, confirmando as nossas piores suspeitas. [...] Nosso passado guarda histórias individuais de bondade e salvação que, no entanto, só servem para reforçar o vazio moral do mundo em que essas histórias se passam. Na verdade, todo ato heroico engendra a suspeita de motivações ocultas [...] 

Mas o que mais influenciou, talvez, a mudança da nossa ideia de civilização foi a crescente desilusão com a mais poderosa de todas as crenças ocidentais - a ideia de progresso. Nos últimos sessenta anos, os países do Ocidente estiveram em paz uns com os outros e seus cidadãos se tornaram cada vez mais prósperos. Os desenvolvimentos científicos e tecnológicos proporcionaram facilidades de comunicação, comodidades diversas e a expectativa de uma vida mias longa e livre de doenças debilitantes. A legislação incentivou e refletiu uma crescente tolerância para com a diversidade de raças, gêneros e modos de vida. Mas, ao mesmo tempo que essas conveniências tornaram a nossa vida tecnicamente mais confortável, começamos também a entender melhor a natureza ilusória dos nossos ganhos. A degradação do ambiente natural, a destruição da família e das redes comunitárias, o surgimento de novas doenças, como a Aids, a obesidade e as doenças mentais cada vez mais disseminadas entre os jovens, o aumento persistente da drogadicção, a crescente disparidade entre ricos e pobres no Ocidente e entre o Ocidente e o resto do mundo, as incertezas da economia globalizada, tudo isso são claros alertas de que o termo progresso deve ser bastante relativizado. Certos aspectos da prosperidade econômica afetam de maneira ainda mais insidiosa a nossa vida cotidiana. Nas últimas décadas, a economia e a gestão de negócios têm sido aplicadas a todas as áreas da vida. Os governos, as escolas, as universidades, a política habitacional e os hospitais não são os únicos a se sujeitar a uma espécie de tecnogestão [...]; nós mesmos somos continuamente exortados a pensar em nossas vidas como um investimento a longo prazo. Devemos empenhar dinheiro e esforços em nossa educação para ganhar cada vez mais no futuro (e contribuir para a economia nacional) e trabalhar sem nunca perder de vista a necessidade de poupar para a velhice. Foram necessárias décadas de prosperidade econômica para que percebêssemos os custos da sua eficiência. Hoje, o que vislumbramos para os nossos filhos é uma vida inteira de trabalho incessante sem as compensações da vida comunitária e da relação com o mundo natural que pudemos, em nosso tempo, desfrutar. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 23-7.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A cultura jovem dos anos 70: do progressive rock ao punk

O avanço do sistema sobre a contracultura, pela assimilação de seus principais elementos, entre eles a música, tornou possível, a partir de uma indústria cultural bem-articulada, uma incorporação dessa contracultura à cultura de consumo. Ou seja, ao mesmo tempo que os jovens ainda deploravam o materialismo da sociedade de consumo, eles adquiriam sofisticados equipamentos de som, motos e carros esporte, roupas coloridas, jeans desbotados, bijuterias etc.

Os abalos da década de 1960 - a Guerra do Vietnã, a violência racial, os movimentos estudantis e a contracultura - fizeram com que, por exemplo, a campanha presidencial nos Estados Unidos, em 1968, englobasse todas as tensões e toda a agitação dos movimentos jovens, suscitando uma profunda preocupação e reavaliação dos problemas sociopolíticos norte-americanos. [...]

O refluxo dos movimentos jovens nos Estados Unidos foi, em parte, produto da própria política conservadora de Nixon, que, habilmente, começou a dissipar a questão da Guerra do Vietnã, com o início das conversações de paz e a retirada gradual das tropas norte-americanas. Por sua vez, havia o declínio da economia capitalista, que atingia seu ponto culminante em 1973, com a Crise do Petróleo, reduzindo sistematicamente as oportunidades de emprego e desviando, então, a atenção e a energia da juventude para a luta contra o desemprego e para a especialização profissional.

[...]

Apesar dessa crise na economia capitalista, a indústria fonográfica expandiu seu mercado, e o rock ficou com a maior fatia do bolo. Toda essa injeção de dinheiro na indústria fonográfica se refletiu numa infinidade de tendências que se impuseram ao longo da década.

O rock, que nos anos 60 havia servido de pano de fundo para o apogeu dos movimentos de contracultura, fragmentou-se numa infinidade de estilos e linguagens [...]. 

[...] no âmbito mundial, dois estilos marcaram a primeira metade dos anos 70: o progressive rock (rock progressivo) e o heavy metal (metal pesado). O primeiro teve sua origem nas experimentações musicais dos anos 60 [...]. Musicalmente, o progressive rock acabou sendo um dos principais responsáveis pelas experimentações de vanguarda (fusões com a música erudita e o jazz) e pelo desenvolvimento da eletrônica, especialmente dos sintetizadores [...] no interior da música pop. O início do movimento progressivo foi marcado por Days of future passed, o LP que os Mody Blues gravaram em 1968 com a Orquestra Sinfônica de Londres. Mas foram grupos como Yes, Genesis, Emerson, Lake and Palmer, Pink Floyd, Jethro Tull [...], que deram uma configuração inicial ao movimento.


Pink Floyd
Foto: TimDuncan

Já o heavy metal não usava nenhum metal (instrumento de sopro); era feito na base da força das guitarras amplificadas e distorcidas por toneladas de equipamentos. Esse estilo também teve sua origem no acid rock dos Estados Unidos [...]; nos grandes guitarristas britânicos como Jimmy Page, Jeff Back e Eric Clapton; em grupos como [...] o Led Zeppelin [...], Black Sabbath [...] e Deep Purple [...].

Logo, o rock passaria do sonho ao pesadelo. A temática do satanismo, explorada pelo heavy metal, refletia, de certo modo, as incertezas de uma década que se iniciava e havia sido prenunciada pelos Rolling Stones em "Simpathy of the devil" ("Simpatia pelo demônio") enquanto um jovem negro morria na platéia, esfaqueado pelos Hell's Angels (Anjos do Inferno) - grupo de motoqueiros desocupados, muitos deles veteranos do Vietnã -, em pleno Festival de Altamont (1969). Na verdade, o rock sofria o impacto dos novos tempos. A Crise do Petróleo [...]; os atentados terroristas [...]; o acirramento do conflito no Oriente Médio [...]; a corrida armamentista entre os Estados Unidos e a URSS, aliada ao desequilíbrio ecológico do planeta, tudo isso caracterizava o clima escatológico ou de fim de mundo, vivido nos anos 70 e não acompanhado pela expansão e sofisticação da indústria fonográfica do rock, cujo ponto culminante seria a discothèque.

A discothèque ou disco music, produto da cultura "underground" (marginal) homossexual, negra e latina dos grandes centros urbanos dos Estados Unidos, incorporada por amplos setores da classe média branca, representava o ponto máximo da expansão e do crescimento da indústria fonográfica mundial [...]. Popularizada pelos meios de comunicação e pela violenta campanha publicitária que acompanhou John Travolta e o filme Os embalos de sábado à noite, a discothéque se apoiou no clima dançante e evasivo das músicas do Village People e de Donna Summer [...]. Apesar de todo esse modismo e escapismo tolo, a discothèque conseguiu abrir caminhos para a influência da música negra (funk e soul) no interior da música pop branca.


Village People

O fenômeno discothèque e a sofisticação do rock [...] não correspondiam à situação desesperadora e sem perspectiva da maioria da juventude nos principais centros urbanos do mundo. Por isso, o elemento seguinte de contestação deveria ser um retorno às origens da energia crítica do rock. Só a partir da postura radical do movimento punk (1976) é que o rock restabeleceu seu poder crítico em relação à sociedade [...] e incorporando outros ritmos do Terceiro Mundo (como o reggae, o afro e outros).

A primeira metade da década de 1970 já apresentava vários componentes que serviriam de base para o movimento punk e o que se seguiu a ele [...]; mas é nas bandas de garagem dos Estados Unidos que encontramos a gênese desse movimento. [...]

Um dado importante na revolução do punk inglês foi a chamada conexão jamaicana, com o reggae. Os jovens londrinos da classe operária começaram a se identificar com esse ritmo antilhano [...] e a situação de miséria da população do Terceiro Mundo. Assim como os jovens da década de 1950 projetaram-se na marginalidade negra do blues norte-americano para criar o rock' n' roll, o reggae iria se tornar uma das principais influências da música pop, liderado por músicos como Bob Marley, Peter Tosh, Bunny Wailer, Jimmy Cliff etc.

[...]

Com a explosão do movimento punk em 1976, a imprensa não queria escrever sobre outro assunto. O espírito da época era punk e correspondia ao desemprego e à onda terrorista na Europa. Retomando o estilo básico - guitarra, baixo, bateria, vocal e amplificadores baratos -, o punk reciclaria o rock em três acordes, tocados o mais primitivamente possível. [...]

Em 1976, o punk foi uma revolução mais pelo estilo de vida agressivo, por suas roupas e atitudes, do que propriamente por suas "ideias anarquistas". [...]

No final de 1977, quando o punk se tornou sinônimo de má reputação e vandalismo, a imprensa mundial começou a tratá-lo como new wave ( (nova onda). Ironicamente, a extravagância e a rebeldia dos punks começaram a ser absorvidas pela indústria cultural, abrindo caminho para outros valores: The Police, Elvis Costelo [...], The Pretenders [...], Talking Heads, [...] B-52' [...]. O próprio esvaziamento da discothèque, em fins  dos anos 70, trouxe essa "nova onda". Como movimento, a new wave é difícil de definir e delimitar. [...]

BRANDÃO, Antonio Carlos; DUARTE, Milton Fernandes. Movimentos culturais de juventude. São Paulo: Moderna, 2008. p. 88-93 e 96-97.

NOTA: O texto "A cultura jovem dos anos 70: do progressive rock ao punk" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A cultura jovem dos anos 60: da canção de protesto ao psicodelismo

Depois de seu apogeu - entre os anos de 1956 e 1958 -, o rock' n' roll começou a se esvaziar, nos Estados Unidos, como meio de expressão e revolta de uma geração. [...]

Esse esfriamento criativo do rock' n' roll começou a repercutir entre os próprios artistas negros, que, a partir de uma fusão de raízes dos gospels e dos spirituals [...] com elementos da canção romântica branca, criaram um tipo mais suave de música vocal, retomando a linha adotada por grupos vocais como The Platters, com seu sucesso "Only you" (1955). Tratava-se de uma música sob medida para ser aceita por um grande público branco. A partir de 1959, Berry Gordy capitaliza esse novo som, construindo em torno de si uma poderosa empresa, que iria dominar o setor da chamada black music (música negra) durante a década de 1960; [...]

Apesar do comercialismo inicial dos seus conjuntos vocais (The Supremes, The Temptation, [...] etc.), o som da Motown, de Detroit, abre o mercado para a consagração de futuros valores da música negra (funk e soul) durante a década de 1960 (Diana Ross, Smokey Robinson, James Brown, Aretha Franklyn, [...], Marvin Gaye, Stevie Wonder etc.), tornando-se uma das influências importantes para a segunda explosão da música jovem, a partir de 1964.

Podemos dizer que o surgimento e a expansão de uma música negra para um mercado nacional, de maioria branca, reflete a luta pela afirmação dos direitos civis dos negros durante a década de 1960.

[...]

Diante desse agitado quadro político-social do início da década de 1960, o rock' n' roll parecia um modismo adolescente e ultrapassado, mesmo porque outro tipo de música, baseada na canção folclórica (folk song) norte-americana, serviria como canal de expressão para a juventude universitária do país refletir sobre os problemas internos e externos dos Estados Unidos. Ao contrário dos despreocupados sons da dança, como o twist, que era a sensação do início da década, o folk song apelava para a consciência política de um público engajado nas lutas estudantis.

Esse renascimento da música folk deve-se a grupos como Kingston Trio (1958), Pete Seeger and the Weavers (1958) e Peter, Paul and Mary (1961). Mas as estrelas maiores do novo movimento foram Joan Baez e Bob Dylan.


Joan Baez e Bob Dylan

Joan Baez tinha 18 anos quando se tornou a sensação do Festival Folk de Newport, em 1959. No ano seguinte, gravou seu primeiro álbum, com temas folclóricos tradicionais. Em novembro de 1962, ela já tinha três álbuns nas paradas e era capa da revista Time. Uma de suas canções, retirada do repertório tradicional da música folk - "We shall overcome" -, tornou-se um dos hinos da juventude universitária que apoiava o movimento pelos direitos civis dos negros, no qual encontramos Joan Baez ao lado do líder negro Martin Luther King.

Nessa atmosfera surgiu a canção de protesto (protest song), como desdobramento da onda folk. Antes, mesmo politicamente engajados, os intérpretes se limitavam a recolher temas do repertório tradicional e aplicá-los à situação da sua época. Mas com o aparecimento de Bob Dylan, em 1962, que usava a canção folk como base para letras incrivelmente atuais, houve uma verdadeira revolução na música popular norte-americana. Suas letras continham denúncias contra o racismo, o militarismo e a corrida armamentista, coisas que ainda não haviam sido ouvidas na música popular da época; o gosto pelo ambíguo, pelo místico, pelo religioso também se fazia presente, mostrando toda a influência dos poetas beats sobre o compositor. [...]

Como muitos outros jovens norte-americanos do seu tempo, Bob Dylan mostrava-se desencantado com o mundo que os homens construíam [...]. Dylan tinha no cotidiano das manchetes e reportagens dos jornais e revistas a fonte de matéria-prima para as suas canções, nas quais o compositor denunciava "os senhores de escravos e os senhores da guerra" da América. Com isso, transformou-se numa espécie de porta-voz da juventude norte-americana, principalmente a partir do sucesso de "Blowin' in the wind" (1963), canção que se tornou mais um dos hinos dos movimentos pacifistas dos anos 60.

[...]

Enquanto se verificava o processo de politização da juventude universitária norte-americana e a ascensão da música de protesto, o rock' n' roll ressurgiu com um ímpeto inesperado na Inglaterra, que, a partir de então, tornou-se um dos principais pólos divulgadores da cultura jovem mundial.

[...]

Na década de 1950, por problemas de distribuição e pela censura da programação radiofônica (controlada pela estatal BBC), o rock' n' roll levou alguns anos para chegar ao Reino Unido. Sem uma infra-estrutura que o divulgasse (rádios, disc-jockeys, shows etc.), os jovens ingleses só tinham os discos importados. Esse vazio foi preenchido pela onda skiffe, imitação do blues norte-americano. Esse movimento deu ao rock britânico sua sólida base de blues, com pioneiros como Alex Korner e John Mayall.

Quando o rock' n' roll norte-americano atingiu com maior intensidade o mercado britânico, no início da década de 1960, estava misturado com o rhythm and blues, o country, o rockabilly, o calipso, a música negra da Motown, recebendo uma nova roupagem por parte dos músicos ingleses.

Entre as centenas de grupos musicais de Liverpool e Londres surgidos no início dessa década, dois alcançaram em pouco tempo um sucesso internacional sem precedentes, modificando de modo profundo não somente a música popular, mas todo o estilo de vida da juventude. Os Beatles [...] e os Rolling Stones [...] encarnaram as duas forças básicas que engendraram toda a convulsão cultural dos anos 60.

Ao longo da sua carreira, os Beatles foram um verdadeiro laboratório de influências e pesquisas que iam da música eletrônica à canção folclórica, da música oriental às mensagens existenciais de suas letras, as quais transmitiam uma visão filosófica do desconcertante cotidiano existencial. Na segunda metade da década - com LPs que se transformaram em marcos históricos como Rubber soul (1965), Revolver (1966) e, principalmente, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967) -, os Beatles inauguraram a era do experimentalismo eletrônico na música pop. Já os Rolling Stones, menos sutis e mais intensos, se caracterizaram pelo balanço de sua batida musical, bem próxima das tonalidades negras firmemente enraizadas no blues e na violência, quer nos temas de suas músicas, quer em suas apresentações ao vivo. [...]

[...]

Após as dificuldades de reconstrução do país, as novas gerações inglesas, graças à forte influência do american way of life, despertavam para o prazer individual e o consumo. Divertiam-se entre os conflitos de mods (origem do grupo The Who) e rockers, que opunham basicamente dois estilos de vida. Os mods (derivado de modern, "moderno") eram jovens de classe média que vestiam terninhos de lapela, camisas de colarinho redondo e primavam por um visual bem comportado, andavam em suas lambretas cheias de acessórios cromados e ouviam basicamente música negra dos anos 60 (funk, soul e ska); já os rockers viviam ligados à cultura do rock' n' roll dos anos 50, formando bandos de motoqueiros com seus blusões de couro. [...]

Apesar de sua aparente ingenuidade, a juventude inglesa, ao contrário da inconsequente rebeldia da juventude transviada norte-americana, começava a desenvolver uma consciência crítica de sua geração. É o que ocorre, por exemplo, na canção "My generation" (1965) do grupo The Who. Com ironia, humor negro e uma grande dose de "inocência", os roqueiros ingleses começaram a desmascarar a hipocrisia dos valores estabelecidos pela sociedade. Era uma geração que podia não saber ainda o que queria, mas já começava a ter uma noção muito clara do que não queria. [...]

Dessa forma, o antigo rock' n' roll passava a ser simplesmente rock, diversificando-se em várias tendências. Começava a se fundamentar um mundo alternativo, paralelo à sociedade, cheio de blues eletrificado, que acabou se tornando um dos fundamentos básicos dos movimentos jovens da segunda metade da década. [...]

Essa explosão do rock inglês acabou despertando e influenciando a música norte-americana, que [...] estava em refluxo criativo desde os fins dos anos 50 e início dos anos 60. Essa influência tornou-se acentuada a partir de 1964, quando os Beatles fizeram sua primeira excursão aos Estados Unidos, abrindo o mercado para outros grupos britânicos e influenciando a formação de novos músicos norte-americanos: The Jefferson Airplane, The Mamas and The Papas [...], The Doors, The Velvet Underground e outros. [...]

Em meados da década de 1960, enquanto a violência racial e o conflito do Vietnã agitavam os Estados Unidos, surgia uma concentração de fenômenos a que os analistas sociais deram o nome de contracultura. A juventude de classe média começava a postular ideias e a conduzir-se de modo totalmente oposto aos valores apregoados por uma sociedade moralista, racista, consumista e tecnocrata.

[...] não é estranho que a contracultura tenha surgido no seio da sociedade norte-americana, pois foi justamente nos Estados Unidos que a tecnocracia [...] atingiu o auge de seu desenvolvimento, obrigando o jovem a adaptar-se rapidamente a uma realidade mecânica, árida e desprovida de qualquer impulso criativo. Com isso, a contracultura se tornou a forma de expressão mais importante dessa parcela de jovens que procuravam "cair fora" (filosofia do drop out) dos padrões estabelecidos por essa sociedade [...].

[...]

[...] os movimentos de contracultura nasceram a partir de um ponto de vista hedonista, ou seja, do desejo simples e elementar da felicidade individual, porém fora dos padrões de regras e normas repressoras estabelecidas pelo sistema, composto de instituições político-sociais que objetivavam a sustentação da ordem vigente. É dentro desse contexto que se insere a grande utopia dos hippies - a construção de um "paraíso aqui e agora", de "paz e amor". Para tanto, era fundamental criar seu próprio estilo de vida e "cair fora" do mundo materialista e racional da sociedade moderna, o que significava ganhar outro espaço físico e mental. Daí a criação das comunidades hippies e a descoberta do misticismo e do psicodelismo das drogas, principalmente o LSD (ácido lisérgico).

Sediado na costa leste dos Estados Unidos, mais exatamente em São Francisco, a partir de 1966 o movimento hippie começou a constituir suas comunidades em meio a um clima astrológico que previa, com a chegada da Era de Aquário, da peça Hair (musical que melhor retratou os ideias e o estilo de vida dos hippies), o advento de um novo mundo, pacífico e harmonioso.

Esse profetismo acabou revelando todo o misticismo religioso que envolvia a contracultura hippie, misturando parapsicologia, zen-budismo, ufologia, astrologia, magia, iluminações psicodélicas e espiritualismo. Nesse contexto, destacavam-se figuras como Thimothy Lery, o papa do LSD ("ligue-se, sintonize-se e caia fora"), e Alan Watts, o grande "sacerdote" do zen-budismo nos Estados Unidos. Essas experiências místicas eram uma tentativa dos jovens de romper com os esquemas repressores da cultura ocidental, que agiam de forma alienante sobre as consciências individuais, limitando-as na sua sensibilidade por meio de uma racionalidade e uma tecnocracia exacerbadas.

A partir da contracultura, a segunda metade da década de 1960 trouxe em seu bojo um verdadeiro terremoto, difícil de ser enfrentado por quem tinha ideias e objetivos preestabelecidos. A cultura ocidental foi amplamente questionada em seus valores políticos e morais, já que a contracultura estabelecera uma espécie de guerrilha cultural dentro do próprio sistema; um movimento espontâneo e insinuante que, apossando-se dos meios de comunicação de massa ou criando uma imprensa alternativa, conquistou adeptos por toda a parte e ameaçou colocar a utopia no poder, estabelecendo o poder das flores (flower power).

[...] A crônica musical desses anos de contracultura começou em junho de 1967, no Monterrey Pop Festival, que abriu a época dos grandes festivais (Woodstock, Altamont e Ilha de Wight). Foi lá que se apresentou Jimi Hendrix, após ter sido consagrado na Inglaterra. Se as principais expressões do rock britânico eram famosas por procurarem desenvolver o blues a partir do rock, foi Hendrix que concretizou a fusão entre o blues e o rock' n' roll, entre o instinto vital da origem africana da música negra e a sofisticação eletrônica criada pela tecnologia branca, desbravando novos caminhos para o futuro do rock.

O nome Jimi Hendrix só pode ser comparado ao da grande cantora Janis Joplin, que também conseguiu trazer em sua voz essa fusão da música negra coma branca. Janis nasceu no Texas, mas esteve ligada ao rock de São Francisco, cidade que, como Liverpool na Inglaterra, assistiu a uma proliferação de grupos e tendências musicais - desde o conjunto com que Janis trabalhou, o Big Brother and the Holding Company, até o rock latino de Carlos Santana, com seus ritmos dançantes e sua variada percussão.

Mas a tendência mais típica do rock de São Francisco foi o chamado acid rock (rock ácido), que procurava, com a criação de espaços musicais amplos e abstratos, e com o emprego de estranhas sonoridades, reproduzir os sons e ruídos, os climas e sugestões emocionais da experiência psicodélica com as drogas. Os grupos mais famosos dessa audaciosa aventura são o Jefferson Airplane, The Doors, de Jim Morrison, e o Grateful Dead, de Jerry Garcia (guru psicodélico da cena musical norte-americana). [...]

[...]

Mas o acid rock inglês, ou head music (música de cabeça), tinha no grupo Pink Floyd, sob o comando de Syd Barret (1967-1968), o seu principal expoente. O primeiro LP do Floyd - The piper at the gates of dawn, de 1967 - era tão revolucionário quanto o próprio Sgt Pepper's ou Are you experienced (primeiro LP de Jimi Hendrix). Com grupos como o Pink Floyd e o Soft Machine, o rock psicodélico britânico se mostrou mais experimental e instigante que o norte-americano, influenciando toda uma geração de músicos que acabou por desembocar no rock progressivo (fusão entre o rock e música erudita) dos anos 70.

BRANDÃO, Antonio Carlos; DUARTE, Milton Fernandes. Movimentos culturais de juventude. São Paulo: Moderna, 2008. p. 45-46 e 52-63.

NOTA: O texto "A cultura jovem dos anos 60: da canção de protesto ao psicodelismo" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Guerra do Vietnã (1961-1975)

Laos, Camboja e Vietnã, países que resultaram da decomposição do domínio francês na Indochina, foram violentamente atingidos pelos conflitos decorrentes da divisão do mundo em dois blocos. O mais sangrento e dramático foi a Guerra do Vietnã (1961-1975), que, a rigor, foi continuação das lutas de independência.


"Diante das dificuldades para se lutar num território desconhecido e com florestas muito densas, os norte-americanos desenvolveram armas químicas, como o napalm, objetivando a queima de árvores, e o "agente laranja", um poderoso desfolhante, que poderiam facilitar a localização de redutos de soldados vietnamitas. O napalm era uma espécie uma espécie de gasolina gelatinosa que queimava ao contato. Calcula-se que os Estados Unidos lançaram sobre o Vietnã cerca de 340 mil toneladas de napalm. Na foto, crianças fogem de um ataque no qual foi utilizado esta substância. À direita, fotógrafos registram a cena. A divulgação de imagens como esta comprometeu a posição dos EUA tanto no plano externo como junto à opinião pública interna." (BERUTTI, Flávio. Caminhos do homem 3. Curitiba: Base Editorial, 2010. p. 134.)

A tensão política no Vietnã, dividido em norte e sul, persistiu depois da independência (1954), apesar dos acordos feitos em Genebra. No sul, o primeiro-ministro Ngo Dinh Dien, católico e anticomunista, com ajuda norte-americana, adiou as eleições previstas para 1956, afastou Bao-Daí do governo e proclamou a República do Vietnã do Sul, declarando-se presidente. Em contrapartida, os comunistas organizaram a resistência, criando, em 1960, a Frente de Libertação Nacional (FLN) e, em 1961, o Exército de Libertação Nacional, chamado pelos norte-americanos de Vietcong.

Em 1963, a tensão política agravou-se com o assassinato de Ngo Dinh Dien. O governo norte-americano, sob a presidência de Lyndon Johnson, resolveu intervir militarmente e, em agosto de 1964, ordenou ataques aéreos ao Vietnã do Norte. A partir daí a guerra se generalizou no país. O Vietnã do Sul e as forças norte-americanas passaram a lutar contra as tropas do Vietnã do Norte e o Vietcong, que usava táticas de guerrilha. Os efetivos norte-americanos na área chegaram a contar com 541 mil homens.


Big Guns, David Fairrington

Em 1968, com o avanço do Vietcong, foram suspensos os bombardeios norte-americanos e iniciaram-se, em Paris, as negociações entre Washington e Hanói (capital do Vietnã do Norte).

Os encontros, porém, arrastavam-se, sem solução. Nos Estados Unidos cresciam as manifestações contrárias à guerra¹, conforme eram divulgados pela imprensa (principalmente a TV) a violência e os ataques norte-americanos à população civil das cidades e aldeias camponesas indefesas², além da devastação das plantações e dos recursos naturais provocada pelo uso de agentes químicos proibidos por convenções internacionais.³

Em 1970, contrariando a opinião pública do país e a internacional, o presidente dos Estados Unidos Richard Nixon ampliou o conflito, bombardeando o Camboja sob o pretexto de eliminar “redutos” comunistas. Em 1972, tropas norte-americanas atacaram, com intensidade sem precedentes, a capital norte-vietnamita. As forças do Vietnã do Norte, a FLN e o Vietcong resistiram. Em 1973 foi assinado, em Paris, um acordo, segundo o qual as forças norte-americanas deveriam se retirar do Vietnã, seria formado um conselho para organizar eleições no Vietnã do Sul e os prisioneiros seriam libertados.

Contudo, a saída dos Estados Unidos não significou o fim das lutas. De 1973 a 1975 a guerra foi “vietnamizada”, ou seja, as forças comunistas do norte avançaram sobre as províncias do sul e acabaram dominando todo o país. Em 1975, os comunistas ocuparam Saigon, encerrando-se a guerra com a reunificação do país, que passou a constituir a República Socialista do Vietnã. 

Mas o fim da Guerra do Vietnã não trouxe a paz para a região. Além dos graves problemas internos – determinados pelas divergências político-ideológicas, não eliminadas pelo conflito, e pelos efeitos devastadores das lutas prolongadas -, o Vietnã enfrentou os países fronteiriços: Camboja, em 1977; China, que em 1979 chegou a invadi-lo por 15 dias; e Tailândia, em 1980.

Wietnamska Pieta, Edward Knapczyk.

¹ "Assim, a guerra foi se tornando extremamente impopular junto à opinião pública nacional e internacional, deixando o governo dos EUA praticamente isolado no plano político internacional. No final da década de 60 e início da década de 70, manifestações contrárias à guerra aconteceram em quase todas as grandes cidades da Europa Ocidental e da América Latina. A queima de bandeiras norte-americanas em frente às sedes diplomáticas dos EUA no exterior tornou-se uma cena comum relatada pelo noticiário internacional.

Na Europa, foi criado até mesmo um tribunal internacional, formado por figuras eminentes do mundo cultural, que julgou e condenou o governo dos EUA de ter praticado crimes de guerra no Vietnã. [...]


O termo Vietnã entrou para o vocabulário político com o significado de 'o atoleiro em que se mete um país quando intervém em outro'. [...] Aparentemente, a chamada maioria silenciosa apoiava os atos do governo, mas o "barulho" feito pelos ativistas - estudantes, intelectuais, liberais, pacifistas etc. - teve um efeito muito grande sobre a opinião pública. Os jovens, especialmente, questionavam não apenas a guerra em si, mas o próprio estilo de vida americano - american way of life -, cujos dogmas tinham permanecido praticamente intocáveis durante décadas (os movimentos hippies, undergrounds e de contracultura surgiram mais ou menos nessa época).


Contudo foram as cenas mostradas pela TV que abalaram sensivelmente a sociedade norte-americana - pois a imagem da guerra transmitida pelo governo era muito diferente da realidade. [...] As feridas deixadas pela Guerra do Vietnã ainda não cicatrizaram de todo. Os mais de 50 mil mortos, os mais de 300 mil feridos e o drama vivido por inúmeros veteranos do Vietnã, que não conseguiram superar psicologicamente os traumas causados pela guerra, ainda estão vivos nas lembranças do povo norte-americano." (OLIC, Nelson Bacic. A Guerra do Vietnã. São Paulo: Moderna, 1988. p. 45-46.)

² "A Guerra do Vietnã foi marcada, entre outros aspectos, pelo grande sofrimento da população civil. Durante os 15 anos de conflito, essa população sofreu agressões sem precedentes do maior aparelho militar do mundo, que inclusive utilizou armas químicas e bacteriológicas contra militares e mesmo contra a população civil. Muitas aldeias foram atacadas por soldados norte-americanos, como foi o caso de My Lai, em abril de 1968. Os 120 soldados da "Companhia Charlie" foram encarregados de "limpar" a aldeia, que, segundo os norte-americanos, estaria servindo de abrigo a soldados inimigos. Ao final da invasão, 508 aldeões foram mortos em suas choupanas, em sua maioria mulheres, crianças e idosos." (BERUTTI, Flávio. Caminhos do homem 3. Curitiba: Base Editorial, 2010. p. 134.)

³ "Entre 1961 e 1971, o exército norte-americano realizou pulverizações maciças de desfolhantes sobre o Vietnã. Pretendia arrasar a cobertura vegetal, para impedir que o adversário se camuflasse, e destruir as colheitas para matar de fome as populações e os combatentes. O segundo objetivo era explícito: como as operações de guerrilha dependiam estreitamente das colheitas locais para seu abastecimento, os agentes antiplantas possuíam um elevado potencial ofensivo para destruir ou limitar a produção de alimento.

Os desfolhantes compreendiam essencialmente o agente laranja - que contêm a dioxina, um produto químico particularmente tóxico. [...] Foi uma catástrofe sanitária e ambiental para o Vietnã. E ainda é, porque a dioxina, produto químico muito estável, degrada-se lentamente e se integra na cadeia alimentar. Seus efeitos persistem no ambiente e afetam os habitantes das zonas atingidas. [...] Trinta anos após o fim das pulverizações, o agente laranja continua a provocar mortes, patologias de extrema gravidade e malformações no nascimento. [...]

Em relação ao meio ambiente, ainda que as taxas de dioxina no solo sejam felizmente baixas, regiões inteiras tornaram-se impraticáveis para os agricultores. [...] Perante a amplitude do desastre, a questão fundamental permanece: responsabilidade." (GRENDEU, Francis. Quem faz as guerras químicas. Le monde diplomatique, 1º jan. 2006.)

BERUTTI, Flávio. Caminhos do homem 3. Curitiba: Base Editorial, 2010. p. 134.
NEVES, Joana. História Geral – A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 499-500.
OLIC, Nelson Bacic. A Guerra do Vietnã. São Paulo: Moderna, 1988. p. 45-46.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

O rock e a Guerra do Vietnã

Aqueles que ouviam os Beatles não imaginavam as mudanças que os rapazes de Liverpool anunciavam. Seu primeiro álbum, de 1964, não parecia revolucionário, embora fosse irreverente. A música do grupo fazia as pessoas se reunirem de maneira alegre e aparentemente inofensiva. Um pouco infantis, os quatro tinham apelo tanto entre mães quanto entre filhos, vendendo mais discos em um curto espaço de tempo do que qualquer outros músicos na história, o que ajudou a popularizar o rock na Inglaterra. Nos seis anos que se passaram desde sua primeira apresentação juntos até sua separação em 1970, os integrantes da banda fizeram os adolescentes se sentirem participantes de uma comunidade ampla e especial, à qual seus pais, e talvez até seus professores, não pertenciam verdadeiramente.

Chegada dos Beatles ao aeroporto JFK, Nova Iorque, 1964: um dos momentos fundamentais da história da banda e do rock mundial. Fotógrafo desconhecido.


 Aquela foi a primeira geração de adolescentes com dinheiro para gastar. Nas décadas anteriores, ao terminar os estudos, os jovens começavam imediatamente a trabalhar e os parcos salários semanais eram entregues aos pais, com quem continuavam a morar. Em 1900, na França e na Grã-Bretanha, o trabalho juvenil contribuía muito mais do que o das mães para a renda total da família; portanto, era vital que os filhos continuassem em casa. Mas agora os jovens colocavam a si mesmos e a suas preferências no alto da lista de prioridades. Deixavam a casa da família mais cedo. Tinham menos, ou nenhuma, consideração pela opinião dos pais. Foi uma espécie de meia declaração de independência. Em meados da década de 1960, somente uma minoria de jovens norte-americanos a proclamou, mas foi uma minoria considerável, suficiente para influenciar o ânimo da década, especialmente na Califórnia.

Beatles, Rolling Stones e a guitarra de Bob Dylan foram os pioneiros dos palcos. Os sinais de diferenças de opinião acentuaram-se. Os hippies apareceram. O álcool e outras drogas, inclusive a heroína, invadiram a atmosfera. A contracultura ficava cada vez mais contra. O envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã crescia e muitos jovens diziam não ao recrutamento.

A Guerra do Vietnã tinha certa semelhança com a Guerra da Coreia. Os dois países haviam sido divididos em um norte comunista e em um sul antidemocrático, e o norte disciplinado havia atacado, inicialmente com sucesso, o sul. Os norte-americanos e seus aliados ajudavam o Vietnã do Sul, enquanto os russos e os chineses enviavam armas e munição - mas não soldados - em auxílio ao Vietnã do Norte. Diferentemente da paisagem e do clima da Coreia, o Vietnã causou perplexidade nos norte-americanos: era um país mais tropical, com selvas e campos de plantação de arroz. A superioridade aérea norte-americana era incontestável, mas adequada principalmente para bombardear gigantescas rodovias ou ferrovias, e não trilhas no meio do mato. Assim, o país militarmente mais avançado do mundo não podia usar sua tecnologia. Mísseis nucleares estavam fora de cogitação Tais armas provocariam retaliações por parte dos chineses e russos, além de inflamar a opinião pública mundial. Cada vez mais, os norte-americanos precisavam de seus homens em terra - o total chegou, por fim, à casa de meio milhão.

Uma guerra que inicialmente parecia fácil de ser vencida tornava-se, aos poucos, perdida. No final da década de 1960, o barulho causado pelos protestos nos Estados Unidos ficou ensurdecedor. As alternativas radicais ganhavam a preferência - não tinham necessariamente o apoio da maioria do povo norte-americano, mas contavam com uma minoria numerosa o suficiente para abalar os círculos políticos.

Protesto contra a Guerra do Vietnã, Boston, 1970. Foto: Nicholas DeWolf

Com a divisão interna que causou nos Estados Unidos, a Guerra do Vietnã misturou vários ingredientes na mesma panela. Os jovens se opunham ao conflito e aos valores dominantes dos políticos e cidadãos que o apoiavam, começando a perceber as virtudes dos camponeses asiáticos e os defeitos dos moradores das cidades norte-americanas. A ideia de os Estados Unidos entrarem na guerra para defender as liberdades pessoais dos vietnamitas parecia realmente estranha quando tantos negros norte-americanos tinham muito menos liberdade do que os brancos do país. Argumentos como esse inspiraram centenas de milhares de comícios contra a guerra. No entanto, embora houvesse liberdade para protestar em Washington, o mesmo não acontecia em Hanói.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 246-248.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Rock, a trilha sonora da revolução

Pôster oficial do Festival de Woodstock

"Nosso país estava assassinando milhões de pessoas. Os números, na verdade, eram de 3 a 5 milhões. Isso era um fato muito grande para ser assimilado. Nós não sabíamos o que fazer a respeito." Foi assim que Mark Rudd, membro do grupo político radical Weather Underground descreveu a situação dos Estados Unidos no fim da década de 1960 em depoimento para um documentário sobre a organização em que militou.

O relato de Rudd é uma das mais aguçadas sínteses sobre o quadro de caos e desordem que se multiplicava pelas grandes cidades de seu país na época. Durante aqueles dias de intensa rebelião, a oposição à Guerra do Vietnã era o principal fator de mobilização que unificava as lutas contra o status quo em vários pontos do planeta. A palavra de ordem era destruir as velhas estruturas, e superar o sistema capitalista era a questão de fundo que tinha precedência sobre todas as outras. [...]

Foi em meio a esse cenário conturbado que o rock se tornou um poderoso instrumento de contestação cultural, social e política. Desde a metade da década de 1960, as bandas e artistas do gênero já vinham construindo uma trajetória paralela, porém repleta de imbricações, com os insurgentes nas ruas. Tudo começou quando nomes como Bob Dylan e os Beatles passaram a se envolver com a cultura psicodélica, baseada no consumo de drogas alucinógenas como o LSD e em experimentações artísticas radicais.

O ano que marca essa virada é 1966, quando Dylan lança o disco Blonde on blonde e os Beatles gravam Revolver. Esses dois álbuns, ao lado de Pet sounds, dos Beach Boys, definem os contornos do psicodelismo musical. Logo, artistas como Jimi Hendrix, The Byrds e Frank Zappa engrossariam as fileiras do experimentalismo, e o rock embalado por drogas alucinógenas tomou conta da Costa Oeste dos Estados Unidos, fazendo de São Francisco o centro da cultura hippie.

Esse movimento atingiu o ápice durante o chamado "verão do amor", em 1967, mas já no ano seguinte o psicodelismo começava a dar sinais de esgotamento. Diante do recrudescimento dos conflitos sociais e da mercantilização do estilo de vida hippie, em 1968 os principais protagonistas daquela cena estavam deixando para trás o experimentalismo e voltando às raízes do rock and roll no sul dos Estados Unidos, onde o estilo nascera uma década antes de gêneros musicais híbridos que circulavam entre as classes populares.

A realidade estava mandando recados insistentes para quem continuava vendo a vida com os olhos de caleidoscópio de Lucy in the sky with diamonds. Algumas das maiores cidades americanas incluindo a própria capital do país, arderam nas chamas dos conflitos raciais durante o "verão do amor". [...]

Em Detroit, após cinco dias de intensa revolta e intervenção federal, o saldo final contabilizava 43 pessoas mortas, quase todas negras, e um prejuízo estimado em US$ 500 milhões. Anos de brutalidade policial, miséria nos guetos, racismo e desespero estavam cobrando seu preço. Para fermentar ainda mais a indignação, o governo mandava tropas para o Vietnã na proporção de dez negros para cada branco. A resposta veio na forma de um som agressivo, direto e de confronto.

No fim de 1967 a Marcha sobre o Pentágono levou mais de 50 mil pessoas a Washington, no maior protesto realizado até então contra a Guerra do Vietnã. O evento, altamente midiático, foi imortalizado pelo livro Os degraus do Pentágono, do jornalista Norman Mailer; pelo curta-metragem A sexta face do Pentágono, do diretor Chris Marker; por um ritual de exorcismo conduzido pela anárquica banda nova-iorquina The Fugs; pelo cântico puxado pelo poeta beatnik Allen Ginsberg para fazer o Pentágono levitar e pela clássica foto de uma jovem pondo flores no fuzil de um soldado da Guarda Nacional.

Menos visível, mas igualmente significativa, foi a ascensão de um novo modelo de rebelde, personificado por Abbe Hoffman: saído dos campi universitários, com atitude e carisma de astro de rock. Alguém que aliava os prazeres da tríade: sexo, drogas e rock and roll a uma clara doutrina de ativismo social.

Essa renovação da militância política nos Estados Unidos era encabeçada pela chamada "Nova Esquerda", que, por meio do movimento Estudantes por uma Sociedade Democrática [...], organizava uma revolta que começara nas universidades, mas aos poucos rompia os muros dos campi e ganhava as ruas. A imprensa trazia diariamente imagens impactantes de execuções de inocentes e relatos detalhados sobre os custos da guerra no Vietnã. O recrutamento obrigatório indignava o cidadão comum que não queria ver seus filhos mandados para morrer num conflito injusto e sem sentido.

A guerra não demorou a entrar em pauta na música pop. Nem todos se referiam diretamente ao conflito no Sudeste Asiático, mas a experiência foi abordada em todas as suas etapas: desde o recrutamento, como em Draft morning, dos Byrds; passando pelo combate direto nas trincheiras, tema de Citadel, dos Rolling Stones; e Unknown soldier, dos Doors; até o inferno existencial posterior, retratado em canções como The war is over, de Phil Ochs, e I can't write left-handed, de Bil Whiters.

A guerra como reflexão filosófica ou política foi tema de artistas tão diferentes quando Tim Buckley, em No man can find the war, e Marvin Gaye, na obra-prima What's going on. [...]

Numa outra linha, dispensando as meias palavras em sua contundência, a música Fortunate son, do Creedence Clearwater Revival, desconstruía toda a lógica do discurso dos senhores da guerra, expondo os mecanismos de manipulação por trás da retórica da classe dirigente. [...]

[...]

As cobranças de posicionamento eram implacáveis. Especialmente em relação a músicos de rock que aos olhos do público em geral e das próprias autoridades faziam a trilha sonora da contracultura. [...]

[...]

Em 1968 o chamado das ruas reverberava alto demais para ser ignorado. Enquanto os Beatles começavam as gravações do "Álbum branco", Paris erguia as barricadas que quase derrubaram a Quinta República Francesa, e Praga vivia sua breve primavera de liberdade antes da chegada dos tanques russos. Rebeliões estudantis provocaram distúrbios em Berlim, Nova York, Rio de Janeiro, Varsóvia e Washington. E o assassinato de Martin Luther King deixava uma ferida aberta na comunidade negra.

Sempre o mais inquieto e antenado do grupo, John Lennon queria intervir. Ao batizar uma canção enérgica e pesada de Revolution, ele parecia elaborar um manual teórico para jovens combatentes da mesma forma que, em 1966, Tomorrow never knows havia aberto caminhos para iniciantes em LSD.

[...]

A chamada "Nova Esquerda" era, sem dúvida, muito mais arejada do que os socialistas tradicionais e estava disposta a empunhar bandeiras que horrorizariam os marxistas da Escola de Frankfurt, mas essa flexibilidade não incluía escutar sermões de astros de rock milionários. [...]

A música folk sempre fora a forma mais reconhecida de protesto nas universidades. Era um movimento que atuava como uma espécie de linha auxiliar do Partido Comunista, e vários de seus expoentes, assim como professores e acadêmicos, haviam sido perseguidos pelo macarthismo na década de 1950. [...]

A banda que parecia mais se ajustar ao novo figurino revolucionário vinha do proletariado de Detroit. Conforme os discursos ficavam mais virulentos, o MC5 também subia o tom, queimando a bandeira americana e xingando a polícia no mesmo palco de onde emanava uma música suja, vigorosa, sempre em altíssimo volume. Nos confrontos violentos da Convenção do Partido Democrata em Chicago, em 1968, eram eles que estavam tocando até a polícia começar a bater nos manifestantes. [...]

O MC5 não escapou das retaliações que o governo americano armou contra os protagonistas da contracultura. John Sinclair foi preso e condenado a dez anos de cadeia por causa de dois cigarros de maconha, num julgamento claramente político, e a gravadora Elektra dispensou a banda por causa de suas atitudes ultrajantes. O grupo se separou em 1972, enquanto Richard Nixon se preparava para ser reeleito com votação avassaladora, numa demonstração inequívoca do quanto a população estava cansada de radicalismos.

Vários líderes, como Abbe Hoffman e os membros do Weather Underground caíram na clandestinidade, outros foram presos. Fred Hampton e George Jackson, militantes do grupo radical Panteras Negras, foram mortos pela polícia. O cerco de fechava.

Enquanto isso o rock se agigantava, movido a cifras milionárias. O assassinato de um jovem negro durante o show dos Rolling Stones no Festival de Altamont, em dezembro de 1969, sepultou o projeto utópico nascido nas comunas hippies de São Francisco. Shows ao ar livre passariam a ser organizados profissionalmente como um negócio, não mais como atividade comunitária. A contracultura parecia aniquilada, curiosamente no momento em que se tornava um fenômeno em escala planetária, afetando a vida de milhões de pessoas. Inclusive no Brasil, onde a ditadura militar passava por sua fase mais sombria.

Rodrigo Mehreb. Rock, a trilha sonora da revolução. In: Revista História Viva. Ano IX, nº 105. p. 61-66.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Por que globalizar a cultura? [II- Uma revolução cultural rica e abortada]

Cena do filme Deus e o diabo na terra do Sol, dir. Glauber Rocha

Houve um momento em que se reagiu contra essa penetração ideológica estrangeira.

Foi nas décadas de 1950 e 1960 quando o Cinema Novo produziu algumas películas marcantes. Nelas, havia grande preocupação com o conteúdo social. Foram feitos filmes que alcançaram projeção internacional.

É o caso de Rio, 40 graus e Rio, Zona Norte. Ambos tratam da população mais pobre da cidade do Rio de Janeiro. Tiveram a direção de Nelson Pereira dos Santos. Como esquecer O pagador de promessas? Nele, Anselmo Duarte conta a história do caboclo Zé do Burro. É um tema nacional porque mostra o sincretismo religioso dos caboclos e a intransigência da Igreja Católica.

Na época, Glauber Rocha dizia: "Uma câmara na mão e uma ideia na cabeça." Quem sabe você já assistiu a uma das suas grandes realizações, chamada Deus e o diabo na terra do sol?

Clubes de cinema, congressos e entidades como o Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes, lutaram pela valorização de questões nacionais! [...]

O teatro igualmente deu sua contribuição. Multiplicaram-se os teatros de bolso, cobrando ingressos mais baratos. O Tablado, de Maria Clara Machado, o Teatro de Arena, de Gianfrancesco Guarnieri, e o Grupo Oficina valorizaram antigos e novos autores de peças nacionais. Apresentaram muitos textos políticos!

Dessa época são duas das maiores peças teatrais produzidas entre nós: Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri, e Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Viana Filho, o popular Vianinha.

Vianinha, com João das Neves, Augusto Boal e outros, fundou o CPC, em dezembro de 1961. Esse órgão da UNE foi um dos focos dessa revolução cultural. Peças teatrais foram levadas aos sindicatos. Fizeram-se documentários abordando questões econômicas e sociais da realidade brasileira. Distribuíram-se livros, discos e revistas tratando da dívida externa, da reforma agrária e do dia a dia do brasileiro. Editaram-se livros de poesia e de literatura de cordel. Músicas de protesto, como Subdesenvolvido e O povo canta, foram popularizadas.

Essa renovação da cultura brasileira sob uma visão nacional também se deu na revalorização do samba. Muito significativa é a crítica apresentada por Wilson Batista e Roberto Martins. Está presente no samba Pedreiro Waldemar. Veja a letra:

Você conhece o pedreiro Waldemar?
Não conhece
mas eu vou lhe apresentar.
De madrugada toma o trem da circular
faz tanta coisa e não tem casa pra morar.

Em 1960, uma autoridade da cidade do Rio de Janeiro propôs fossem as favelas pintadas. Considerando serem inevitáveis, os barracos nela existentes deveriam ser coloridos. De imediato, Jota Júnior e Oldemar Magalhães deram a resposta:

Favela amarela...
Ironia da vida.
Pintem a favela
Façam aquarela
Da miséria colorida!

Este samba, "Favela amarela", foi bastante cantado no Carnaval de 1960.

Aí veio a longa noite dos generais: a ditadura militar.

A UNE foi fechada. O CPC acabou. A censura e a repressão física chegaram. Muitos acabaram presos. Essa renovação foi sufocada.

Mesmo assim, Zé Kéti ainda conseguiu divulgar seu protesto no samba "Opinião":

Podem me prender.
Podem me bater.
Podem até deixar-me sem comer
que eu não mudo de opinião!

[...] Apesar da influência da Jovem Guarda, foi rica a produção de melodias ligadas às tradições brasileiras. Nos festivais de música popular, realizados nas emissoras de televisão, havia verdadeira guerra entre os sambas e as músicas mais ou menos politizadas. Como titular de programa da TV Record, de São Paulo, desde 1969 destacou-se a Jovem Guarda. Dela participavam Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléia e outros. Em suas músicas, as letras eram românticas ou reproduziam as angústias da classe média. Muitas delas foram feitas para ganhar festivais, pois o grupo também participou do Festival da Música Popular Brasileira, em 1967.

Essa corrente tinha letras despolitizadas. Era um verdadeiro contraste com as músicas de protesto.

De que vale o céu azul
E o sol sempre a brilhar
Se você não vem
E eu estou a lhe esperar
Só tenho você no meu pensamento
E a sua ausência é todo o meu tormento
Quero que você
me aqueça neste inverno
e que tudo mais vá pro inferno.
(Quero que vá tudo pro inferno, canção de Roberto Carlos e Erasmo Carlos)

Outra linha musical "tinha como características a marca regional, o acento nordestino e a ausência de conotação urbana". Essa análise é de Martha San Juan França. [...]

[...]

Foi nesse contexto que explodiu uma reação de grande impacto: o Tropicalismo. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e outros artistas, muitos deles baianos, provocaram verdadeiro escândalo. Por vezes, apresentavam-se acompanhados de conjuntos tocando guitarras elétricas.

Na História social da música popular brasileira, o crítico José Ramos Tinhorão afirma que os tropicalistas renunciaram a qualquer questionamento político-ideológico. Textualmente declara que os tropicalistas "acabaram chegando à tese que repetia no plano cultural a do governo militar no plano político-econômico. Ou seja, a tese da conquista da modernidade pelo simples alinhamento às características do modelo importador de pacotes tecnológicos prontos para serem montados no palco".

[...]

Mesmo assim, Alegria, alegria, de Caetano, e Domingo no parque, de Gil, foram bastante populares na época, principalmente entre os jovens. Para algumas pessoas, aquela música de Caetano era uma crítica à alienação.

Apesar da feroz censura, a resistência à ditadura militar e aos estrangeirismos produziu melodias de grande sensibilidade e beleza. As críticas não deixavam dúvidas da posição política dos autores.

Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto
De repente, olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo o troco...
(Pesadelo, de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós)

Mas as expressões máximas desse período foram certamente Geraldo Vandré, Chico Buarque de Holanda, Torquato Neto, Luiz Gonzaga do Nascimento Junior, o Gonzaguinha, Ivan Lins, Taiguara e Jards Macalé. Esses artistas chegaram a ser considerados malditos. Tiveram músicas censuradas. Alguns partiram para o exílio.

[...]

Vandré compôs uma melodia cheia de frases-denúncias e de estímulo à luta: Caminhando - Pra não dizer que não falei de flores. Foi uma loucura em um dos festivais da canção. Centenas de pessoas logo repetiam a letra, entoando a melodia.

Caminhando e cantando
E seguindo a canção.
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos,
De armas na mão.
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição.
De morrer pela pátria
E viver sem razão [...]

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber.
Quem sabe faz a hora,
Não espera acontecer.

Militares até pediram a prisão de Vandré.

Felizmente, a sensibilidade e a coragem de um punhado de artistas resgatavam os valores e a riqueza da cultura nacional. Eles e muitos outros continuaram a resistir. A denunciar a violência existente.

[...]

Quase ao findar a década de 1970, a censura deixou passar uma canção marcante. Melodia belíssima. Notável interpretação de Elis Regina. Letra de alegorias, mal disfarçando as denúncias e críticas à ditadura existente. Às atrocidades cometidas. Às mulheres viúvas de opositores assassinados. Uma mensagem plena de esperança no amanhã. Na volta da democracia. No retorno daqueles que partiram. Exilados ou banidos.

O bêbado e o equilibrista, canção de Aldir Blanc e João Bosco, em 1979, tornou-se verdadeiro hino do Movimento pela Anistia.

E nuvens
lá no mata-borrão do céu
chupavam manchas torturadas,
que sufoco!
[...] Chora
a nossa pátria-mãe gentil
[...] com a volta do irmão do Henfil
com tanta gente que partiu
num rabo de foguete.
[...] Azar,
a esperança é equilibrista,
sabe que o show de todo artista
tem que continuar.

É fundamental multiplicarmos o número de artistas cada vez mais conscientizados da necessidade de lutar. Lutar contra a globalização da cultura e da sociedade brasileira.

Globalização que, na realidade, é a nova face do imperialismo.

[...]

Não podemos contar com a grande maioria das autoridades. Ela está preocupada em subvencionar os Rock' in Rio, Hollywood Rock, Free Jazz. O domínio da opinião pública pelos meios de comunicação e gravadoras multinacionais busca impor sons musicais contaminados pelo popularesco.

As emissoras de rádio e televisão inundam o país com os sons de conjuntos impregnados por esses sons. [...]

[...] a política dos meios de comunicação não visa apenas a compor gostos, modas. Criar sucessos. Seu objetivo real é alienar. [...]

[...]

Apesar dessa massificação o rap tem invadido as cidades, descendo do morro ou da periferia, com músicas de duvidosa qualidade. Algumas delas, no entanto, constituem verdadeiros protestos políticos e sociais.

Felizmente um Zeca Pagodinho, um Bezerra da Silva, uma Beth Carvalho, um Renato Russo, um Paulinho da Viola, um Nelson Sargento ainda sustentam a bandeira da genuína MPB. Sem perder a beleza da melodia, nem a malemolência do ritmo, suas músicas contêm frases-denúncia da realidade brasileira.

A injustiça impera na face
da Terra
A miséria sempre gera guerra
Por isso existem os conflitos
sociais
E as nossas crianças nas ruas
estão desamparadas
(Juiz de toda humanidade, samba de Bicalho e Capri. Canta Bezerra da Silva)

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. Brasil: uma história popular. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 166-175.