"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 17 de setembro de 2016

O épico de Gilgamesh

Tábua em escrita cuneiforme contendo trechos do épico de Gilgamesh

Gilgamesh é um herói lendário da literatura mesopotâmica. No século VII a.C., as suas aventuras foram registradas por um rei assírio, mas a sua origem é muito mais antiga. É possível que o personagem Gilgamesh se baseasse em um rei que governou Uruk entre 3000 e 2500 a.C. O épico fala de um rei semideus e semi-humano de Uruk que, consumido pelo desejo de aventuras, parte em busca da vida eterna. O épico pode preservar algo da história mesopotâmica antiga no personagem do selvagem Enkidu domado pelos deuses, que depois ajuda um grupo de pastores. Mais tarde, ele é levado a uma cidade agrícola onde luta com Gilgamesh e depois se torna seu amigo. O progresso de Enkidu pode ser interpretado como representação da evolução gradual dos mesopotâmios de caçadores-coletores selvagens a moradores civilizados da cidade.


WOOLF, Alex. Uma Nova História do Mundo. São Paulo: M. Books do Brasil, 2014. p. 22.

sábado, 20 de junho de 2015

As epopeias homéricas como fonte histórica

O amor de Helena e Páris, Jacques-Louis David

A Ilíada e a Odisseia eram uma evocação de acontecimentos ocorridos na Idade do Bronze, no mundo micênico. A questão de saber a que época histórica se poderá ligar o testemunho de Homero e em que medida serve como fonte histórica continua sendo um debate. [...] De acordo com Vidal-Naquer e Michel Austin, para além das coincidências entre as fontes, há leis que regulam oposições e classificações que serão encontradas ao longo de toda a civilização grega, sobretudo as que definem o lugar dos homens com relação aos não humanos e aos deuses. Se há tais distinções, não podemos presumir, a partir de Homero, a existência de um rei divinizado como o ánax micênico. Agamenon, nas epopeias, estaria, assim, mais próximo de um basileus.

Assim, a Ítaca de Homero - com seus basileus, sua assembleia, seus nobres turbulentos e seu demos silencioso em segundo plano - prolonga e esclarece certos aspectos da realeza micênica. Neste confronto entre a narrativa histórica e as descobertas arqueológicas, os estudiosos puderam perceber um novo sentido para o conceito de basileus ou temenos. Certamente os reinos e os reis da Ilíada e da Odisseia não se referem a uma sociedade palaciana centralizada. Os heróis, que na Ilíada - um canto de guerra - vivem com autonomia, aparecem na Odisseia - um canto de paz - referidos ao oikós, e não a um palácio dirigido por um poder supremo centralizado. O oikós seria a unidade econômica e humana sobre a qual reinariam o basileus homérico, ou seja, chefes guerreiros e nobres.

Estabelecidas as diferenças entre o rei micênico e o homérico, podemos seguir com a questão da época das trevas ou "Idade do Ferro", que se inicia com a queda do poder micênico e a expansão dos dórios no Peloponeso, Creta e Rodes. Aqui, diferentemente do período micênico, que confundia o mundo humano com o divino na pessoa do rei, encontramos uma delimitação mais rigorosa dos diferentes planos do real, ou seja, os homens identificam um passado separado, diferente e distante do tempo presente; começam a incinerar os mortos ao invés de embalsamá-los, o que significa uma separação entre o mundo dos vivos e dos mortos. Sem a presença do rei divino micênico novas distâncias são colocadas entre o mundo dos homens e o dos deuses.

A percepção da diferença entre passado e presente, a separação entre o mundo dos vivos e o dos mortos e as distâncias entre homens e deuses são novidades que se inscrevem em realidades sociais também novas. Tais novidades só terão sentido se pudermos referi-las ao tipo de organização do mundo micênico redefinido após as descobertas arqueológicas.

EYLER, Flávia Maria Schlee. História antiga: Grécia e Roma. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2014. p. 35-36. (Série História Geral).

quinta-feira, 24 de abril de 2014

As epopeias do Ramayana e do Mahabharata रामायण और महाभारत के महाकाव्य

रामायण और महाभारत के महाकाव्य

Rama sentado com Sita , abanado por Lakshmana, enquanto Hanumam faz reverência. Artista desconhecido

Composta entre 400 a.C. e 400 d.C., as duas epopeias se tornaram rapidamente os relatos literários mais populares da Índia, e isso apesar de sua extensão monumental: o Ramayana (As Gestas de Rama), conta com 24 mil versículos, enquanto o Mahabharata (A Grande Gesta de Bharata), é, com quase 100 mil versículos, a maior epopeia de todas as literaturas. As condições de elaboração desses gigantescos poemas não gozam sempre de unanimidade entre os indianistas: para alguns, elas devem ser atribuídas a um único autor, para outros resultam de adições e remanejamentos sucessivos. Seja como for, sua transmissão, pela recitação, pela canção, pelo teatro ou pela dança, nunca foi interrompida até nossos dias.


Krishna e Arjun na carruagem. Artista desconhecido

Pela riqueza de seu conteúdo, de inspiração religiosa e filosófica, essa literatura se dirige a todos. As crianças se entusiasmam com as façanhas maravilhosas do "deus macaco", Hanumam, que ajuda o príncipe Rama a libertar a bela Sita. Os letrados encontram no Bhagavad Gita (Canto do Senhor), que constitui o episódio mais famoso do Mahabharata, do que alimentar sua reflexão sobre os deveres das diferentes castas e a conformidade necessária de sua ação com o Dharma, a ordem cósmica.

Se as duas epopeias são inesgotáveis em matéria de mitologia, é difícil extrair delas fatos de valor histórico. Ainda que certos especialistas tenham visto no Mahabharata  um reflexo dos enfrentamentos que ocorreram entre os árias (ou arianos) e as populações autóctones, no 2º milênio a.C., o significado histórico dessa obra reside sobretudo no fato de que é uma resposta - ou, melhor, uma réplica - dos brâmanes diante da expansão do budismo.

SALLES, Catherine (dir.). Larousse das civilizações antigas 3: das Bacanais a Ravena. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 251.

NOTA: O texto "As epopéias do Ramayana e do Mahabharata रामायण और महाभारत के महाकाव्य" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.