"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 13 de julho de 2016

"O viver em colônias" [Parte 9 - A lenta urbanização]

O ouro de Minas Gerais escoava pelas trilhas do sertão, chegava à Colônia do Sacramento, nas margens do rio da Prata, e daí seguia para os portos dos dois lados do litoral do Atlântico Sul. Por vezes, ao longo dessas trilhas nasceram povoados ou vilas, articulando regiões distantes.


Vista da Lagoa do Boqueirão e do Aqueduto de Santa Teresa, ca. 1790,  Leandro Joaquim

Em seu livro clássico Evolução urbana do Brasil (1500-1720), o historiador da urbanização e arquiteto Nestor Goulart Reis Filho assim definiu os traços gerais desse início de urbanização, em que as praças das aldeias, vilas e cidades centralizavam a vida social, econômica e religiosa da colônia:

"As praças acolhiam, desde o início, muitas das principais atividades dos núcleos urbanos; realizavam-se nelas reuniões religiosas, cívicas e recreativas e atividades de comércio, como feiras e mercados. As povoações mais humildes, como as aldeias de índios ou paróquias reunidas em torno de modestas igrejas isoladas, desenvolviam grande parte de suas funções nas praças, as quais, por isso mesmo, eram sempre seus locais de maior importância e muitas vezes a origem das próprias povoações. Em princípio, em frente às igrejas, onde a população se reunia após os ofícios religiosos, abriam-se largos, capazes de acomodá-la, e frequentemente se desenvolvia o comércio, que aproveitava dessas reuniões."

MOTA, Carlos Guilherme; LOPEZ, Adriana. História do Brasil: uma interpretação. São Paulo: Editora 34, 2015. p. 241-2.

sábado, 23 de abril de 2016

Os apartamentos e a massificação da moradia em São Paulo na década de 1930

São Paulo (Gazo), 1924, Tarsila do Amaral

A resistência à moradia coletiva, discriminada pelos discursos oficiais como sinônimo de todas as desgraças sanitárias presentes nas capitais brasileiras desde o Império, foi aos poucos arrefecendo diante da novidade constituída pelos apartamentos, inicialmente dirigidos aos segmentos mais abastados das grandes cidades. O receio de decair socialmente, advindo do desprezo para com as coabitações, foi vencido com a adoção de acabamentos custosos utilizados nos revestimentos externos e nas áreas internas de circulação dos edifícios. Justificava-se, assim, o apelo da denominação dos primeiros edifícios "palacetes", palavra consagrada, capaz de atenuar hesitações ou preconceitos.

Em São Paulo, os edifícios de apartamentos foram ocupando muitos dos bairros que eram abandonados pelas elites, aproveitando os grandes lotes, a arborização das ruas ou o prestígio, empanado, dos antigos bairros elegantes. Os "palacetes" foram erguidos diretamente nas calçadas, como nas capitais europeias oitocentistas, padrão que entraria pela década de 30. Os bairros de Santa Ifigênia, mas sobretudo Vila Buarque e Santa Cecília, são regiões que testemunham o primeiro modelo de verticalização, o qual guarda na ausência de recuos, nas portarias com acabamentos luxuosos e no próprio gabarito de sete ou oito andares a referência direta às experiências de edificação das cidades europeias.

Mas as características de privacidade e isolamento experimentadas nos bairros de palacetes e nos "jardins" acabariam se repetindo na verticalização da moradia. Dispositivos da legislação paulistana exigiram, já em 1937, que os edifícios erguidos nos bairros residenciais privilegiados guardassem recuos laterais e frontais. Isso assegurou a insolação e ventilação aos apartamentos e ao interior dos quarteirões, ao mesmo tempo que se repetia o afastamento entre os espaços público e privado, inseridos naqueles bairros quando abrigavam os palacetes. Higienópolis é o exemplo mais consistente de substituição das casas por edifícios de apartamentos dentro das exigências de 1937, num paradigma do modelo que se reproduziria em quase todos os bairros que não encontravam limites ao adensamento, como aqueles da Companhia City. As pressões por moradia, que permaneciam nas bordas da mancha dos bairros de elite, deveriam se afastadas o quanto possível das áreas centrais, a fim de evitar o encortiçamento dos antigos sobrados e palacetes - e a desvalorização definitiva dos bairros já "decadentes". O Plano de Avenidas, sugerido para São Paulo pelo engenheiro e depois prefeito Prestes Maia, e que foi implementado ao longo das décadas seguintes, coincidiu com a necessidade de preservar as vizinhanças dos bairros privilegiados, mediante o redirecionamento do crescimento daqueles populares.

Prestes Maia preconizou a abertura de grandes artérias radiais que partiam para os bairros, enfeixadas em torno de uma avenida perimetral à área central. A execução de seu projeto, iniciada a partir de 1938, quando ele já era prefeito de São Paulo. garantiu acesso rápido aos arrabaldes, viabilizando o crescimento atabalhoado e especulativo gerado pela venda de lotes populares, destinados a aluguel ou autoconstrução. A verticalização foi também facilitada, seja por meio da ampliação da altura total dos edifícios, seja por meio de novas vias públicas implantadas pelo projeto de Prestes Maia, que deveriam receber o incremento do fluxo gerado nos bairros adensados horizontal ou verticalmente.

MARINS, Paulo César Garcez. "Habitação e vizinhança: limites da privacidade no surgimento das grandes metrópoles brasileiras." In: SEVCENKO, Nicolau (org.) História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. v. 3.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

A vida cotidiana dos astecas: Vida rural e vida urbana

Homens astecas compartilhando uma refeição. Artistas desconhecidos, Codex Florentine

Tudo leva a crer que quando os “bárbaros astecas” (Azteca Chichimeca) do século XII iniciaram sua migração ainda não praticavam a agricultura. A caça, a pesca (dizia-se que Aztlán era uma ilha no meio de um lago) e a coleta constituíam a base da sua subsistência. Foi em contato com as populações sedentárias do planalto Central que os mexicanos, à semelhança de outros “bárbaros”, adotaram o modo de vida tradicional, com suas técnicas praticamente inalteradas desde o IV milênio a.C., isto é, a cultura de milho, vagens, plantas oleaginosas (amaranto e sálvia), abóbora, tomate e pimenta; a tecelagem (fibras de agave: ixtle) e a cerâmica. Essas técnicas subsistiram até hoje no essencial como base da vida rural de todos os povos indígenas, quaisquer que fossem as suas etnias. Fixando-se nas ilhas do lado, os astecas aí encontraram terras escassas demais para o cultivo. Seu modo de vida inicial também era semelhante ao das tribos ribeirinhas, que se denominavam atlaca chichimeca, “povos bárbaros da água” ou “selvagens lacustres”: os peixes, crustáceos e moluscos do lago, assim como os pássaros de água, em muito contribuíram para sua alimentação. É significativo que eles tenham adotado divindades próprias dos “selvagens lacustres” de Tláhuac e de Churubusco, e que tenham até mesmo cantado nos templos do México, hinos como o de Aminitl, o deus da caça aos pássaros aquáticos, expressos em “chichimeca”, ou seja, um dialeto bárbaro incompreensível para os astecas.

No apogeu do Império, essa situação já estava profundamente alterada. Graças às suas conquistas, a tribo dispunha de extensas áreas no vale e nas províncias. O culto de Tlaloc e dos deuses do milho desempenhavam um papel preponderante no ritual. Todavia, uma parcela importante dos recursos alimentares ainda procedia da pesca e da caça. Por outro lado, uma considerável proporção da população asteca consagrava-se inteira ou parcialmente a atividades não agrícolas: serviço militar, sacerdócio. Administração e artesanato. Os gêneros alimentícios provinham tanto de trocas, como dos impostos em espécie arrecadados nas províncias. Com os campos, hortas e jardins, as criações de perus e os bosques, os domínios atribuídos aos dignitários formavam unidades econômicas semelhantes às “vilas” romanas do Baixo Império. Ali se produzia toda a espécie de gêneros agrícolas; e as mulheres ou os escravos fiavam e teciam.

A cerâmica asteca, mais utilitária do que artística, parece ter sido produzida em massa nas oficinas. A cerâmica de luxo, maravilhosamente decorada com motivos policromados, era importada de Cholulá e do território mixteca. Foi por essa época que os astecas, à frente de um vasto império, adotaram a vida urbana. Sua capital, Tenochtitlán, ampliada em 1476 pela anexação de Tlatelolco, estendia-se então por um milhar de hectares de ilhas e terras pantanosas, que dois séculos de labuta gigantesca haviam transformado em uma rede geométrica de canais, ruas e praças, verdadeira Veneza ligada às margens por três passagens elevadas: Tepeyacac, ao norte, Tlacopan, a oeste, e Iztapalapan, ao sul. A cidade abrigava de 80 mil a 100 mil domicílios, ou seja, um total de mais de 500 mil habitantes. Essa população estava em via de se ampliar, como a dos subúrbios costeiros, que também tendiam a avançar sobre a lagoa com casas construídas sobre pilotis. Toda a população, incluindo a de cidades como Azcapotzalco, Chapultepec, Coyoacán etc., devia ultrapassar 1 milhão de habitantes.

[...]

O principal centro comercial da cidade situava-se em Tlatelolco. Sobre uma imensa praça rodeada de arcadas e próximo a uma pirâmide, existia um mercado, ao qual compareciam diariamente de 20 mil a 25 mil pessoas, e de 40 mil a 60 mil pessoas a cada cinco dias. Enormes quantidades de mercadorias, cada qual com uma localização determinada, eram aí trocadas: tecidos e vestimentas, plumas e jóias, peles e plumagens, milho, vagens, pimentas, legumes, frutas e ervas, pássaros e caça, peixes, rãs, vasos, utensílios de sílex, obsidiana e cobre, madeira, tabaco e cachimbos, móveis e esteiras. Havia lojas de boticários, cabeleireiros, vendedores de bolos de milho e guisados assados. Uma polícia especial zelava pela boa ordem do tianquiztli (mercado), e um tribunal composto de três magistrados estava permanentemente a postos para resolver os litígios.

A suntuosidade dos palácios dos poderosos maravilhou os conquistadores espanhóis. [...] Em Texcoco, o rei Nezaaulcoyotl ordenara a construção de um palácio com mais de 300 peças, com jardins ornados de fontes e chafarizes. Pássaros, peixes e outros animais eram aí conservados vivos ou representados em ouro ou pedra. Em Tetzcotzinco, o mesmo soberano criara um parque de extraordinária magnificência, irrigado por um engenhoso sistema de canais. Motecuhzoma dispunha de residências campestres, onde pássaros de toda espécie eram alimentados e tratados por uma multidão de serviçais.

Não é preciso dizer que as casas dos maceualtin eram muito simples. Cada casa, entretanto, possuía, em seu próprio terreno, um jardim e um banho a vapor (temazcalli).

Mesmo nas casas dos dignitários, o mobiliário reduzia-se a pouca coisa: esteiras (petlatl), cadeiras de espaldar em vime, mesas baixas, biombos ou para-ventos de madeira, cestos, pinturas em tecidos ou em peles. Nas casas populares, a lareira, cercada de três pedras, ocupava o centro da habitação. Cozinhava-se a lenha ou carvão vegetal. A iluminação se fazia por meio de tochas resinosas.

O México precisava de água potável, visto ser salobra a das lagunas. No início, os astecas puderam contentar-se com as fontes que brotavam entre os rochedos da ilha, onde se erigia o templo de Uitzilopochtli. Com o aumento da população, porém, tornou-se necessário construir, sob o reinado de Motecuhzoma o Antigo, o primeiro aqueduto para transportar até o centro da cidade a água das fontes de Chapultepec. Esse aqueduto, com cinco quilômetros de extensão, era formado por dois condutores, apenas um dos quais era utilizado de cada vez, enquanto se limpava o outro. No tempo de Auitzotl foi construído um segundo aqueduto entre Coyoacán e o centro. A água era distribuída por carregadores que circulavam de barco pela cidade. Vendiam-na também em jarros nos mercados.

Terríveis inundações devastavam periodicamente a cidade. Sob Motecuhzoma I, construiu-se, em 1449, um dique de 16 quilômetros de comprimento, destinado a proteger a cidade contra as inundações do grande lago. Auitzotl precisou fazer mergulhadores obstruírem a fonte da Acuecuexatl, cujas águas, jorrando com violência, haviam elevado o nível das lagoas, destruindo inúmeras casas. Nessa ocasião. Ele distribuiu à população esfaimada 200 mil carregamentos de milho, vestimentas e 32 mil barcos.

Equipes de trabalhadores, sob a direção das autoridades locais dos bairros, asseguravam a manutenção dos canais e aquedutos e a limpeza das ruas. Testemunhos da época são unânimes em reconhecer a higiene das vias públicas. De modo geral, Tenochtitlán era uma cidade organizada e salubre. Cortez, escrevendo a Carlos V, louvou intensamente a beleza das construções, a organização da vida coletiva e a “razão que os índios emprestam a todas as coisas”.


SOUSTELLE, Jacques. A civilização asteca. Rio de Janeiro: Zahar, 2002. p. 42-3, 45-7. (As civilizações pré-colombianas).

domingo, 29 de dezembro de 2013

A cidade de Chichén Itzá

El Castillo
Foto: Bernard Gagnon

A primeira impressão e a última lembrança de quem conhece Chichén Itzá costumam coincidir e se resumem numa palavra: monumentalidade. De fato, mesmo imponentes cidades do período maia clássico (300 a 900 d.C.), como Tikal, Copan, Palenque e Uxmal, perdem o viço em uma eventual comparação.

O mais notável não é o tamanho dos edifícios, mas o dos espaços que os separam. Turistas chegam a ficar perdidos na grande praça, no imenso campo de jogo de bola ou na ampla via que leva ao cenote sagrado, o poço natural no qual era atirado o corpo das vítimas de sacrifícios humanos e que atraía peregrinos maias de toda parte.

Espaços livres e edificados são testemunhos da preocupação dos homens que construíram Chichén Itzá, 1.100 anos atrás, de propiciar a reunião e a circulação de multidões, incluindo os visitantes.

Também a escultura se diferencia. Em vez da exaltação de reis e dinastias, as obras de Chichén Itzá focalizam cenas de grupos, de desfiles e de procissões. Distinguem-se nelas personagens que ocupam posições diferentes na hierarquia social. Há reis, sacerdotes, guerreiros de elite e de linhagem inferior, assim como vítimas de sacrifícios.

A construção do templo dos Guerreiros tem duas partes: uma vasta sala, precedida de três fileiras de colunas, e uma pirâmide. À direita da escadaria de acesso, encontram-se uma banqueta e uma pedra de sacrifício de 40 cm de altura. Todos os pilares de sustentação do teto mostram, nas quatro faces, esculturas de um personagem em pé. Na sua imensa maioria, são guerreiros, mas há também cativos de mãos amarradas, membros da alta hierarquia, sacerdotes e personagens mascarados, imitando animais.

Templo dos Guerreiros (detalhe), mostrando Chac Mool. 
Foto: Bjørn Christian Torrissen

Esse conjunto arquitetônico reúne os dois momentos do sacrifício: a execução, na sala principal, e a oferenda, no templo. A prevalência de guerreiros denota a importância deles no ritual. Os homens armados são os que capturam e oferecem o sacrifício. Eles são assistentes qualificados dos sacerdotes. O ritual é ostensivo. As cenas de sacrifício humano encontram-se representadas em toda a parte na cidade.

Chichén Itzá se destaca das demais cidades maias da época pelo abandono de práticas vigentes durante séculos, como a de erguer monólitos periodicamente, e também pela adoção de traços culturais exógenos, manifestados, sobretudo, na arquitetura.

As ruínas de Chichén Itzá revelam mais. Uma organização política e social totalmente inovadora aparece, com o enfraquecimento do poder real, em proveito de uma elite de guerreiros e sacerdotes. Essa mudança profunda ainda não está bem explicada. Depende de mais estudos da história dos maias entre os séculos IX e X.

Ao fim do século IX, Chichén Itzá foi uma cidade de perfil cosmopolita. Por mais de dois séculos, a única importante do Yucatán. Essa hegemonia não dependeu de autoridade e força do governo. Ao contrário, abertura e partilha com habitantes de cidades vizinhas foram marcas da cidade.

Nas províncias, os chefes locais eram convidados por Chichén a participar de festas, cerimônias diversas e atividades religiosas da cidade. Essa comunhão no ritual parece ter assegurado a estabilidade política local, ainda que houvesse guerras, até mesmo para capturar futuras vítimas de sacrifícios. O papel federativo da cidade foi ainda favorecido pelo cenote sagrado, visitado por milhares de peregrinos que lançavam aí suas oferendas.

A famosa descida da serpente - Kukulkan - do templo em todo seu esplendor durante o equinócio de março. 

O povo maia tem um histórico de abandono de suas cidades-Estado. Ao longo do século IX, as das Baixas Terras centrais foram esvaziadas, depois de viverem o apogeu do período clássico, iniciado em 300 d.C. nelas, o rei maia governava de maneira absoluta. Ele era assunto quase exclusivo dos textos dos hieróglifos e da arte monumental.

No século seguinte, foi a vez das cidades do Yucatán, com exceção de Chichén Itzá, que, na virada do milênio, permaneceu influente na região. Acabou também abandonada em meados do século XIII.

Até a conquista espanhola, contudo, Chichén Itzá, mesmo sem a agitação e o poder de outrora, continuou a ser visitada por peregrinos, graças a seu cenote sagrado.

BAUDEZ, Claude-François. Chichén Itzá, a Meca do povo maia. In: Revista História Viva, nº 63, jan. 2009.

NOTA: O texto "A cidade de Chichén Itzá" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Amsterdã, 1600

O frenético ritmo de desenvolvimento do Século de Ouro dos Países Baixos dominava a Amsterdã dos anos 1600. Comerciantes abastados, artistas e trabalhadores braçais chegavam diariamente, depois que as províncias do norte se uniram, no fim do século XVI, em busca de independência. O comércio estava mais próspero que nunca, impulsionado pela criação da Companhia das Índias Orientais em 1602. Ciência, tecnologia e arte floresciam. O clima era de liberdade religiosa e de pensamento. Nesse cenário humanista e liberal, nasceu um projeto de desenvolvimento urbano que se tornaria a marca registrada da cidade holandesa: a construção do cinturão de canais.

A população de Amsterdã aumentava em escala extraordinária e a cidade crescia desgovernada para acompanhar o boom demográfico. Em 1585, havia ali 30 mil habitantes. Um século depois, o número chegaria aos 200 mil. Subúrbios ilegais brotavam nos entornos da muralha que cercava a cidade, um perigo para a segurança local, Planejar o espaço urbano não era luxo de cidade rica: era questão de sobrevivência. O modelo de canais dispostos em semicírculo foi, na verdade, uma solução óbvia para uma cidade que se formou à beira d’água e sempre se viu às voltas com soluções para conviver e prosperar nessa condição. Como descreve [...] Fred Feddes [...]: “A água não foi nem uma escolha nem uma virtude para os moradores. Ela estava lá desde o começo”.

Um ditado popular dizia que “Deus criou o mundo, mas os holandeses criaram a Holanda”. Amsterdã começou a ser erguida por volta do ano 1000 por colonizadores que chegaram à região então conhecida como Amstelland, uma área pantanosa, com um grande lago e alguns rios. Na época, valas de 1 m de largura eram cavadas no solo ensopado para drená-lo, padrão que ainda hoje pode ser visto em pontos da cidade, como os canais do bairro de Jordaan. Por volta de 1265, diques foram reforçadas para a construção de uma barragem – a “Dam” do nome da cidade – no Amstel, rio que a corta e foi tão moldado pelo homem ao longo da história, que é considerado por alguns como seu primeiro canal. Entre 1428 e 1450, escavou-se o antigo Stedegracht, que passou a delimitar a área da cidade e funcionava como fosso de proteção.

Vias aquáticas também eram cavadas para escoar as mercadorias do porto para a cidade – a vocação de Amsterdã para o comércio se manifestou desde cedo e o motivo para isso foi bastante prático. “Os Países Baixos como um todo não têm recursos naturais importantes. A terra é muito pantanosa para se cultivarem grãos e o clima não é excepcional”, afirma Kees Zandvliet, professor de História da Universidade de Amsterdã e chefe de pesquisas, exposições e educação do Museu de Amsterdã. Some a isso o fato de a cidade estar localizada em uma estrutura de delta, que facilita a circulação de navios, num ponto privilegiado da Europa, no Mar Báltico e próximo a países como França, Inglaterra e Alemanha. Quando a cidade crescia, uma nova faixa de terra era adicionada à sua área e acrescentava-se também uma de água, em forma de canal. A tecnologia para essas obras? “Sempre a boa e velha força humana”, diz Zandvliet. “Eram pessoas com pás, jogando a lama para o lado ou recolhendo-a em um barco.”

Foi dessa forma que Amsterdã cresceu até as últimas décadas do século XVI, quando o fluxo populacional se intensificou, abarrotando a cidade e também áreas fora da muralha. A Trégua dos Doze Anos, entre 1609-1621, que interrompeu a Guerra dos Oitenta Anos contra os espanhóis, foi a oportunidade para ampliar as fortificações, expandir o centro, regularizar áreas ilegais e aumentar o porto da cidade. “A história mostra que os canais não eram populares na época”, afirma Feddes. “Eles eram uma necessidade, precisavam estar ali.”

Para a cidade, dinheiro e mão de obra não eram problemas. Em 1610, um projeto inicial foi encomendado pelo Conselho da cidade a Hendrick Jacobsz Staets. Como seus desenhos originais desapareceram, não se sabe se a ideia da estrutura em semicírculo foi dele. O que se sabe é que Maurício de Nassau (o mesmo personagem da invasão holandesa em Pernambuco) foi consultado. Hoje, os historiadores acreditam que a expansão deu-se em etapas, e os canais paralelos e concêntricos Herengracht (em português, “Canal dos Senhores”), Keizergracht (“Canal do Imperador”) e Prinsengracht (“Canal do Príncipe”), de 1613, foram seu ponto alto. Em 1620, eles foram prolongados até o Rio Amstel e deram o formato atual da cidade, metade de um círculo no qual o diâmetro maior marca o encontro com as águas do mar.


The bend in the Herengracht, Amsterdam. Gerrit Adriaensz

“Amsterdã não era uma cidade nova, e durante a expansão foi preciso trabalhar com o que já havia ali. A água foi usada no projeto”, diz Emma van Oudheusden, do museu Het Grachtenhuis, em Amsterdã, que trata da história dos canais. “Seria muito mais caro, por exemplo, construir ruas ou bulevares.”

Maior do que qualquer outro projeto urbanístico holandês da época, a construção não foi um mar de rosas. Quem morava no local foi pressionado a se mudar, levando junto sua casa de madeira. “A expansão em larga escala significou segregação social: os ricos passaram a viver ao longo dos canais e os trabalhadores, nas pequenas ruas abertas para servir de conexão e pontos de comércio”, diz Feddes. Há histórias de membros do Conselho da cidade que adquiriam os terrenos por preços baixíssimos para revender à prefeitura – e isso na era crime. “A cidade era governada pelos calvinistas”, diz Zandvliet. “De manhã, eles faziam negócios e, à tarde, se reuniam na prefeitura para decidir o que era melhor para Amsterdã.”

Curiosamente, pouco se sabe sobre a obra em si. Os canais foram cavados ao mesmo tempo, a partir do Lago IJ, em direção ao sul da cidade. A areia retirada era usada para tornar a área ao seu redor mais alta e protegida da água. Não há registros de quantos trabalhadores colocaram a mão na massa. “Analisei uma série de arquivos em busca de imagens da construção e nada encontrei, mas deveria haver milhares de pessoas trabalhando”, diz Feddes.

Próximo do centro, o Herengracht era o canal mais luxuoso. Junto com o Keizersgracht, o canal central que só não virou um bulevar nos moldes do que havia em Haia por causa do alto custo, foi concebido como área residencial. Nenhum dos dois recebia o tráfego de barcos com mercadorias do porto – só eram usados para transporte de pessoas. O Prinsengracht, o mais externo dos três, concentrava residências, mercados, comércio e armazéns e era o único com conexão direta para o IJ.

Os terrenos de frente para a água foram divididos em longas faixas e vendidos para a construção de casas – que seguiam regras específicas. “A altura e a área máxima eram predeterminadas”, diz Emma. “Nos fundos, não era permitido construir e os espaços eram ocupados por jardins.”

O Ano do Desastre (1672), quando a Holanda sofreu ataques da Inglaterra, de estados germânicos e da França, mudou os rumos do projeto. Os terrenos que faltavam para completar o semicírculo foram vendidos quase de graça ou viraram parques.

Os séculos seguintes foram de vacas magras, em especial depois da invasão francesa, que durou até 1813. Por isso, no fim dos anos 1800 teve início um movimento para se fecharem muitos canais. Tratava-se de uma questão de saúde pública. Sem sistema de esgoto, que só viria em 1900, tudo acabava na água.

A situação, que nunca foi boa (o terreno plano e a divisão dos canais tornavam a circulação da água lenta), chegou a um ponto desastroso com uma epidemia de cólera no começo do século XX. Cobrir os canais era visto como sinal de progresso. Mais ruas significava espaço para os carros, que ganhavam importância no transporte. “No século XIX, o governo fez de tudo para a cidade voltar a ser um importante centro econômico”, diz Emma. “As pessoas não viam mais beleza nos canais”. Quando pareciam destinados aos livros de história, uma mudança de mentalidade tomou conta de Amsterdã no início do século XX. Turistas eram atraídos para a cidade construída sobre a água. A Europa vivia um momento de resgate de suas heranças e a cidade dos canais era um de seus cartões-postais mais preciosos, exóticos e raros.


Julia Moióli. Caminhos da água. In: Revista Aventuras na História. Edição 121, agosto 2013. p. 50-55.

NOTA: O texto "Amsterdã, 1600" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 27 de abril de 2013

A cidade romana

O mundo romano era um mundo de cidades que falavam latim, grego, mas muitas outras línguas, como o púnico, o céltico ou o aramaico, para mencionar apenas algumas delas. A cultura urbana podia encontrar-se bem longe, fisicamente, das ruas da cidade, em pleno campo, nas fazendas ou villae rusticae, pois nelas havia uma pars urbana, e suas paredes exibiam pinturas e seus pisos mosaicos com temas tipicamente citadinos, como as lutas de gladiadores. Mesmo quem vivia no campo tinha como referencial a cidade.

Para os romanos, assim como para os gregos, a cidade envolvia o campo e a parte urbana era seu centro. Compunha-se de urbs, cercada pelas muralhas, e rus ou ager, o campo. Esse recinto amuralhado, considerado sagrado, era o pomerium, onde estavam os vivos e desarmados. Os mortos [...] deviam ser enterrados fora do pomerium, em geral em tumbas que ladeavam as estradas que davam acesso à urbs. Os soldados armados também deviam reunir-se fora, no campus, campo.Assim como na cidade grega, havia na romana a distinção entre a parte alta, destinada aos templos e, o plano, onde ficava o fórum, ou mercado. No centro, deveria estar um templo, o fórum e outros edifícios públicos, como aquele que albergava as reuniões do conselho municipal, chamado de ordo decurionum, ou ordem de decuriões.

Fórum romano à noite


Havia, ainda, outros equipamentos urbanos, como os teatros, descobertos e cobertos, para diferentes tipos de espetáculos, palestras ou treinamento e exercícios. Os anfiteatros foram uma criação romana. Os jogos de gladiadores, disputados, na sua origem, no fórum e depois em construções provisórias de madeira, levaram posteriormente à criação de um edifício ovalado, destinado a abrigar milhares de espectadores das disputas entre lutadores. Sua forma deriva da necessidade de permitir que o público possa assistir à luta de qualquer lugar, daí o nome que teve de início: spectacula, "local de onde se pode ver". Os eruditos latinos transpuseram esse nome latino popular para o grego e o chamaram "anfiteatro", "local de onde se pode ver dos dois lados".

Alguns estudos recentes indicam que os jogos de gladiadores e os anfiteatros eram essenciais para definir a própria identidade romana: os jogos de gladiadores representariam o lugar onde a civilização e o barbarismo se encontravam, e civilização, como o próprio nome já diz, significava para os romanos cidade. Segundo o historiador contemporâneo Thomas Wiedemann:

A arena era o lugar onde a civilização confrontava a natureza, na forma de feras que representavam um perigo para a humanidade, e onde a justiça social confrontava a má ação, na forma de criminosos, ali executados; e onde o império romano confrontava seus inimigos, na pessoa dos cativos prisioneiros de guerra, mortos ou forçados a combaterem entre si, até a morte.

Seguindo com Wiedemann, percebemos que daí, do espírito por detrás das lutas de gladiadores, decorre a multiplicação de arenas nas cidades fronteiriças do Império Romano, sua localização próxima ao limite físico que separa o recinto urbano amuralhado do ager, e também sua presença no mundo de fala grega, como sinal de identidade romana. Uma das características marcantes dos jogos de gladiadores era a onipresença da morte e a cidade romana, como vimos, era a morada dos vivos, por oposição a morada dos mortos, o que aconselhava a construção do anfiteatro no limite do perímetro urbano, de modo que os mortos fossem logo evacuados para fora dos muros. Nem todos concordariam com essas interpretações do significado da cidade romana pois, afinal, havia uma grande variedade de cidades romanas, muitas delas sem anfiteatros ou lutas de gladiadores, por exemplo.

FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma. São Paulo: Contexto, 2011. p. 115-118.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Cidades, mercadores, escolas

Desembarque de mercadorias num porto medieval

Até o século XX, os europeus eram, em sua grande maioria, homens do campo. Não se deve esquecer que os atuais camponeses são os herdeiros de 90% da população europeia anterior ao desenvolvimento da indústria nos séculos XVIII e XIX. Mas, na Idade Média, nasceram ou se desenvolveram inúmeras cidades: as mais importantes eram as sedes do poder dos reis e dos príncipes, e também de sua burocracia. Elas tinham principalmente uma importante atividade econômica, com artesãos, mercados e feiras: as da Champagne foram bastante frequentadas nos séculos XII e XIII. Um novo tipo de homem apareceu, o mercador. Os mais ricos mercadores comerciavam em toda a Europa, e até mesmo na Ásia e na África, e eram também banqueiros. Os mais poderosos foram os italianos (florentinos, genoveses e venezianos), os flamengos e os alemães que se agruparam numa grande associação comercial: a Hansa de Londres e Bruges, em Anvers, Hamburgo, Lübeck, Dantzig (atual Gdansk, na Polônia) e Riga. A circulação da moeda de ouro e de prata tornou-se muito importante, mas havia muitas moedas (o florim de Florença e o ducado de Veneza eram as mais renomadas). A troca de moedas era complicada e a ausência de uma moeda única entravou o desenvolvimento de um sistema econômico baseado no dinheiro: o capitalismo.

As cidades foram também centros culturais. Elas criaram as escolas onde se ensinava os filhos dos leigos, sobretudo dos burgueses, a ler, a escrever e a contar. Em algumas cidades, as corporações de mestres e de estudantes fundaram escolas de nível superior: as universidades. Elas existiram na Grã-Bretanha (Oxford, Cambridge), na Espanha (Salamanca), em Portugal (Coimbra), na Boêmia (Praga) e na Polônia (Cracóvia). As duas mais célebres foram Bolonha, para o direito, e Paris, para a teologia. Estudava-se também medicina em Salerno e em Montpellier. Os estudantes e os mestres, que viajavam por toda a Europa de uma universidade a outra, suscitaram uma grande produção de livros manuscritos e inauguraram um novo sistema de promoção quando eram bem-sucedidos nos exames. [...] 

As cidades foram também centros artísticos. A partir do ano 1000, surgiu um novo estilo de arquitetura e de escultura: a arte românica. No século XII, foi nas cidades que a arte gótica sucedeu à arte românica e deixou a luz entrar nas igrejas por grandes janelas, e, sobretudo, a luz colorida, graças aos vitrais. O teatro, que desaparecera desde a Antiguidade, ali renasceu, as festas se multiplicaram, e a mais animada era o carnaval. Na cidade, enriquecia-se, aprendia-se e divertia-se o europeu. Mas houve também muitos pobres e malfeitores. A miséria e a delinquência urbana se desenvolveram.

LE GOFF, Jacques. Uma breve história da Europa. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 77-79.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O Rio de Janeiro no século XIX

Vista panorâmica do Rio de Janeiro em 1889. Fotografia de Marc Ferrez

Sede da administração colonial desde 1763 e do império a partir de 1822, o Rio de Janeiro concentrava a maior parte do aparato político-administrativo do Brasil. Ao mesmo tempo, devido a sua situação geográfica, era o principal porto de exportação de café - posição que, no final do século, perderia para a cidade paulista de Santos.

Essas duas condições fizeram do Rio de Janeiro a primeira cidade brasileira que se modernizou durante o século XIX. [...]

O crescimento urbano e o progresso econômico mudavam, também, a estrutura social da cidade. A atividade comercial criava uma camada burguesa e pequeno-burguesa independente da velha oligarquia rural e impulsionava a burocracia administrativa. Dessa forma, à sombra do desenvolvimento econômico, vicejava uma nova classe média, cujos hábitos e preferências seguiam os figurinos de Paris.

Para atender a toda essa clientela, surgiram confeitarias, teatros, livrarias e sofisticadas lojas de artigos estrangeiros. Carl von Koseritz, viajante alemão que esteve no Rio de Janeiro em 1883, admirava-se com o luxo e a variedade das mercadorias importadas que se podiam comprar no magazine Notre Dame de Paris, na rua do Ouvidor, "a maior casa de negócios do Brasil e talvez da América do Sul", conforme escreveu. Suas vitrinas, seu sistema de atendimento, assemelhavam-se às grandes lojas francesas [...] descritas por Emile Zola [...]. O francês, aliás, era a língua oficial dos caixeiros e, ao terminar cada compra, o cliente ouvia sempre um sorridente "Passez à la caisse, s'il vous plait" ("passe no caixa, por favor").

Os hábitos igualmente se modificavam. As damas da sociedade, vestidas no rigor da moda parisiense, já podiam passear livremente (embora não desacompanhadas) e frequentar casas de chá. Os homens, de cartola e casaca, discutiam política e arte pelas ruas. Tipos sociais descritos por dramaturgos e romancistas da época - o burocrata, o militar, o comerciante, o poeta, a governanta francesa, o senador, o estudante e tantos outros - eram a expressão dessa sociedade refinada.

Poucos literatos, no entanto, deram-se ao trabalho de sair desse círculo elegante para descrever o modo de vida do carioca comum. Em cinquenta anos, a cidade quase triplicara sua população, passando de menos de 200.000 habitantes, no início do reinado de D. Pedro II, para 522.000 em 1890. Essa explosão demográfica trazia uma enorme carga de desemprego, criminalidade e rebaixamento nas condições de vida, higiene e saúde.

Vendedora de miudezas, cerca de 1899. Fotografia de Marc Ferrez

Moradia era o grande tormento das camadas pobres, ainda mais que a área disponível sempre foi relativamente pequena, pois a cidade ocupa uma estreita faixa de terra plana. O crescimento ocorria no eixo norte-sul, ficando a zona norte para os pobres e a zona sul para os ricos. São Sebastião, Tijuca, Laranjeiras e Rio Comprido transformavam-se em bairros elegantes, onde a nascente burguesia e os novos proprietários rurais, ligados à cafeicultura, construíam palacetes de estilo neoclássico. As camadas pobres concentravam-se na chamada Cidade Nova, que se estendia do campo de Santana a São Cristóvão.

Com o crescimento da população e a especulação imobiliária, os terrenos tornaram-se cada vez mais caros. Só a 'classe média' tinha condições de pagar o aluguel de uma casa; os pobres eram obrigados a viver amontoados e habitações coletivas de madeira ou alvenaria: os cortiços, cujas condições de higiene eram tão precárias que já no começo do século XX o cronista Luís Edmundo os classificou de 'pestilenciais'. Descritas por Aluísio de Azevedo no romance O Cortiço, tais habitações eram alugadas, rendendo enormes lucros a seus proprietários. Estes últimos, aliás, nem sempre eram comerciantes portugueses, como o personagem João Romão, criado por Azevedo; entre eles havia, também aristocratas e homens da corte: o conde D'Eu (genro de D. Pedro II), por exemplo, era dono de um imenso cortiço, conhecido como Cabeça-de-Porco, onde moravam mais de 4.000 pessoas.

Para os que não podiam pagar nem mesmo o aluguel de uma habitação coletiva, só restava subir os morros e construir barracos de madeira, dando origem às favelas. As primeiras apareceram logo após a Guerra do Paraguai, quando muitos escravos alforriados começaram a retornar dos campos de batalha. Marginalizados e sem recursos, alguns até mutilados, esses 'ex-voluntários da Pátria' não encontravam emprego e iam morar como podiam.

Vendedor de rua no Rio de Janeiro, sem data. Fotografia de Marc Ferrez

O Rio de Janeiro era, assim, uma cidade heterogênea, com mansões e palacetes ao lado de bairros miseráveis. Na rua do Ouvidor podiam-se encontrar as últimas novidades de Paris, mas a febre amarela e a varíola periodicamente dizimavam a população pobre. Uma aristocracia culta e exigente povoava os salões e os espetáculos de ópera, enquanto o desemprego empurrava milhares de pessoas para uma vida incerta de pequenos trabalhos avulsos, quando não para o baixo meretrício e a malandragem. Nos palacetes de Laranjeiras falava-se francês, nas grandes noites de gala, quando personagens como o conde D'Eu contavam suas façanhas na Guerra do Paraguai. Não longe dali, no entanto, em cortiços como o Cabeça-de-Porco, a fome e a miséria faziam estragos na população.

SAGA - A Grande História do Brasil. São Paulo: Abril, 1981. V. 4. p. 128-129.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A "pax romana"

Coreógrafos e atores. Mosaico romano. Casa do poeta trágico, Pompéia. 

A brilhante habilidade política de Augusto deu início à maior era romana. Nos duzentos anos seguintes o mundo mediterrâneo desfrutou as bênçãos da pax romana. O mundo antigo nunca vivera um período tão prolongado de paz, ordem, administração eficiente e prosperidade. Embora a Augusto se tivessem seguido governantes tanto eficientes quanto ineptos, as características essenciais da pax romana persistiram.

[...]

Os romanos chamaram a pax romana de "era da felicidade". Esse foi o período em que Roma cumpriu sua missão - a criação de um Estado mundial que proporcionou paz, segurança, civilização ordenada e o governo da lei. As legiões romanas defenderam as fronteiras dos rios Reno e Danúbio das incursões das tribos germânicas, contiveram os partos do Oriente e sufocaram os raros levantes que ocorreram. O sistema de adoção para a escolha de imperadores propiciou a Roma estabilidade interna e uma série de imperadores de excepcional capacidade. Esses imperadores não usaram a força militar desnecessariamente e lutaram por objetivos políticos sensatos. Os generais não combatiam de maneira imprudente, preferindo conter as baixas, evitar riscos e desencorajar os conflitos mediante a exibição de força.

O domínio construtivo. Foi construtivo o domínio de Roma. Eles construíram estradas, melhoraram portos, desbravaram florestas, drenaram pântanos, irrigaram desertos e cultivaram terras ociosas. Os aquedutos que fizeram levavam água fresca para grandes parcelas da população, e o sistema de esgoto eficaz melhorou a qualidade de vida. As mercadorias eram transportadas por estradas que os soldados romanos tornavam seguras e pelo mar Mediterrâneo, então livre de piratas. Circulava pelo Império uma grande variedade de mercadorias. Contribuía para o bem-estar do mundo mediterrâneo a moeda estável, não sujeita a depreciação.

Fundaram-se muitas cidades novas e as antigas tornaram-se maiores e mais ricas. Embora essas municipalidades houvessem perdido o poder de mover guerras e tivessem de se curvar à vontade dos imperadores, conservaram considerável liberdade de ação nos negócios locais. As tropas imperiais impediam as guerras civis tanto dentro das cidades como entre elas - dois pontos tradicionais dentro da vida urbana no mundo antigo. As municipalidades eram centros da civilização greco-romana, que se estendeu até os mais longínquos recantos do Mediterrâneo, dando continuidade a um processo iniciado na idade helenística. A cidadania, generosamente conferida, foi finalmente estendida a quase todos os homens livres, através de um decreto em 212 d.C.

Melhorias das condições dos escravos e das mulheres. Melhoraram também as condições daqueles que se encontravam na base da sociedade, os escravos. Na época de Augusto, podia-se estimar a quantidade de escravos em um quarto da população italiana. No entanto, esse número declinava à medida que Roma movia menos guerras de conquista. Além disso, durante o Império tornou-se comum a libertação de escravos. Os libertos tornavam-se cidadãos, com quase todos os direitos e privilégios dos demais: seus filhos não sofriam quaisquer discriminações jurídicas. Durante a República, os escravos haviam sido terrivelmente mal-tratados, muitas vezes eram mutilados, atirados às feras, crucificados ou queimados vivos. Vários imperadores promulgaram decretos protegendo-os contra senhores cruéis.

A posição da mulher melhorou pouco a pouco durante a República. A princípio, viviam sob a autoridade absoluta do marido. No tempo do Império, elas podiam ter bens e, se divorciadas, conservar o dote. Os pais já não podiam forçar as filhas a casarem contra a vontade. As mulheres podiam realizar negócios e dispor em testamento sem o consentimento dos maridos. Ao contrário das gregas, as romanas não ficavam reclusas em casa, mas podiam ir e vir à vontade. As mais ricas tinham mais oportunidade de educação que as mulheres da elite grega. A história do Império, na verdade toda a história romana, está cheia de mulheres talentosas e influentes: Cornélia, mãe de Tibério e Caio Graco, influenciou a política romana através de seus filhos. Lívia, a dinâmica mulher de Augusto, muitas vezes era consultada sobre importantes assuntos do governo; e, no século III, houve ocasiões em que mulheres controlaram o trono.

A comunidade mundial. Desde a Britânia até o deserto da Arábia, desde o Danúbio até as areias do Saara, quase 70 milhões de pessoas com diferentes línguas, costumes e histórias estavam ligadas pelo governo de Roma numa comunidade mundial. Ao contrário da República, quando eram notórias a corrupção e a exploração das províncias, os representantes do Império tinham um alto senso de respeitabilidade na preservação da paz, na instituição da justiça e na difusão da civilização romana.

Ao criar uma comunidade política estável e bem-organizada, com uma concepção ampla de cidadania, Roma resolveu os problemas causados pelas limitações da cidade-estado grega: guerras civis, guerras entre cidades e uma atitude provinciana que dividia os homens em gregos e não-gregos. Roma também fez frutificar um ideal da cidade-estado grega: a promoção e a proteção da vida civilizada. Ao construir uma comunidade mundial que rompeu as barreiras entre as nações, ao preservar e difundir a civilização greco-romana e desenvolver um sistema racional de direito que se ampliava a toda a humanidade, Roma concretizou a tendência ao universalismo e cosmopolitismo que surgira na idade helenística.

PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 104, 107-108.

domingo, 1 de julho de 2012

As mulheres e a vida urbana no Brasil no início do século XIX


As mulheres da classe mais abastada não tinham muitas atividades fora do lar. Eram treinadas para desempenhar o papel de mães e exercer as prendas domésticas. As menos afortunadas, viúvas ou membros da elite empobrecida, faziam doces por encomenda, arranjos de flores, bordados a crivo, davam aulas de piano e solfejo, ajudando, assim, na educação da numerosa prole que costumava cercá-las.


Encontro de matronas, Debret

Tais atividades, além de não serem valorizadas, não eram tampouco bem vistas socialmente. As mulheres que as exerciam tornavam-se alvo fácil da maledicência masculina. Na época, era voz comum que a mulher não precisava, nem devia, ganhar dinheiro. As pobres, contudo, não tinham escolha senão garantir o próprio sustento. Eram, pois, costureiras e rendeiras, lavadeiras, fiandeiras ou roceiras.

Estas últimas, na enxada, ao lado de irmãos, pais ou companheiros, faziam todo o trabalho considerado masculino: torar paus, carregar feixes de lenha, cavoucar, semear, limpar a roça do mato e colher. As escravas trabalharam principalmente na roça, mas também foram usadas por seus senhores como tecelãs, rendeiras, carpinteiras, amas-de-leite, pajens, cozinheiras, costureiras, engomadeiras e mão de obra para todo e qualquer serviço doméstico.

Lavadeiras, Rugendas

Até o período em que se deu a independência, as mulheres viviam num cenário com algumas características constantes: a família patriarcal era o padrão dominante entre as elites agrárias, enquanto nas camadas populares rurais e urbanas, os concubinatos, uniões informais e não-legalizadas e os filhos ilegítimos eram a marca registrada. A importância das cidades variava de acordo com a função econômica, política, administrativa e cultural. O Rio de Janeiro, graças aos portugueses que seguiram D. João VI em seu exílio tropical, era a única cidade a contar com mais de 100 mil residências. A população urbana, contudo, crescia desde o século XVIII, alimentando forte migração interna (campo-cidade) e externa (tráfico negreiro e, depois desde 1850, imigração europeia).

É bom não perder de vista, no entanto, que, de acordo com vários viajantes estrangeiros que aqui estiveram na primeira metade do século XIX (Saint-Hilaire, Debret, Rugendas, Maria Graham), a paisagem urbana brasileira ainda era bem modesta. Com exceção da capital, Rio de Janeiro, e de alguns centros em que a agricultura exportadora e o ouro tinham deixado marcas - caso de Salvador, São Luís ou Ouro Preto -, a maior parte das vilas e cidades não passava de pequenos burgos isolados, com casario baixo e discreto, como São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.

Mesmo na chamada Corte, o Rio de Janeiro, as mudanças eram mais de forma que de fundo. A requintada presença da Missão Francesa pode ter deixado marcas na pintura, na ornamentação e na arquitetura, mas as notícias do jornal Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822) e Idade de ouro no Brasil (1811-1823), órgãos da imprensa oficial, ou mesmo a inauguração do Real Teatro de São João, onde artistas estrangeiros soltavam seus trinados, não eram suficientes para quebrar a monotonia intelectual. Além do popular entrudo, antecessor do nosso carnaval, e dos saraus familiares, o evento social mais importante continuava a ser a missa dominical.

Contra esse pano de fundo encontraremos mulheres da elite urbana, casadas com ricos homens de negócio, como, por exemplo, dona Ana Francisca Maciel da Costa [...], exemplo de matriarca vivendo na Corte às vésperas da independência. Seus salões foram descritos [...] como decorados com gosto francês, o que incluía papéis de parede e molduras douradas, além de móveis de origem inglesa e francesa. A neta da anfitriã, como boa filha da elite local, falava francês e fazia progressos na língua inglesa.

O exemplo era raro, queixava-se em 1813 John Luccock, afirmando que, pelo contrário, o pouco contato com a maioria das mulheres costumava desnudar sua falta de educação e instrução. Sabiam ler - comentava, amargo, só o livro de reza.

Debret confirmava o despreparo intelectual das mulheres de elite. Até 1815, e não obstante a passagem da família real, a educação se restringia a recitar preces de cor e calcular de memória, não incluindo a escrita.

A ignorância, segundo ele, era incentivada por pais e maridos, receosos da temida correspondência amorosa. Isso levou as brasileiras a inventar um código de comunicação baseado em desenhos de flores. Cada flor correspondia a uma ordem ou expressava um pensamento: o cravo significava ciúme, a rosa, paixão, o lírio, castidade etc. A observadora Maria Graham confirmou o mesmo uso entre senhoras de Pernambuco. Os namoros, na época, evoluíam segundo esse código.

Apesar dos cuidados com esposas e namoradas, não era exatamente seu pudor que impressionava os estrangeiros. Um visitante inglês tinha sobre a moral das brasileiras um juízo bem diferente daquele que se podia esperar de mulheres que teoricamente viviam escondidas dos homens: "Tanto as casadas quanto as solteiras era a mesma coisa, ou seja, imorais e ligeiras".

Em 1816, encontramos no Rio de Janeiro apenas dois colégios particulares para moças. Entre as jovens de elite, o costume era aprender, graças à visita de professores particulares, piano, inglês e francês, canto e tudo o mais que as permitisse brilhar nas reuniões sociais. É no Rio de Janeiro que vamos encontrar os "primeiros salões frequentados por damas". Elas aí se entretinham em serões e partidas noturnas de uíste (jogo de cartas), entretenimentos simples ou bailes e recepções. As danças se aperfeiçoavam com mestres entendidos, responsáveis pela capacidade das alunas em exibir passos e coreografias estudadas.

Além do professor de dança, outro modismo da época eram os cabeleireiros, franceses, de preferência, responsáveis por penteados ousados e cabeleiras ou perucas. É interessante observar que, nesse ambiente, as crianças eram comumente levadas aos bailes com seus pais [...].

Outra forma de lazer já praticado pelas mulheres eram os banhos de mar: escravas acompanhavam-nas com barracas, enquanto as sinhazinhas, em roupas de banho escuras e compridas, soltavam suas tranças para nadar. Senhoras e mucamas entravam juntas na água, onde passavam horas a espadanar. [...]

As mulheres de elite eram aparentemente muito bem vigiadas. Namoros se faziam na igreja, entre beliscões e pisadelas, ou às janelas, sob as quais os aspirantes a namorado colocavam-se rentes - era o chamado "namoro de espeque" -, murmurando palavras de amor. Observador, o viajante Carl Seidler relata: "A igreja é o teatro habitual de todas as aventuras amorosas na fase inicial... só aí é possível ver as damas, sem embaraços, aproximar-se discretamente e até cochichar algumas palavras. A religião encobre tudo, enquanto se faz devotamente o sinal da cruz pronuncia-se com igual fervor uma declaração de amor. Escravos encarregavam-se de levar e trazer recados dos amantes depois da missa".

DEL PRIORE, Mary et alli. 500 anos de Brasil: histórias e reflexões. São Paulo: Scipione, 1999. p. 10-13.

domingo, 17 de junho de 2012

A cidade e as multidões no século XIX

"A instabilidade do mercado de trabalho acentua a extrema exploração do trabalhador e força-o a residir no centro da cidade, próximo aos lugares onde sua busca de emprego ocasional acelera e piora as condições sanitárias das moradias. [...] É na região central da cidade que o problema se manifesta de forma mais aguda; seu excesso populacional transborda, entretanto, para os bairros próximos, até atingir o perímetro industrial ainda interno à área urbana." (BRESCIANI, Maria Stella Martins. Londres e Paris no século XIX: o espetáculo da pobreza. São Paulo: Brasiliense, 2004. p. 37.)

Ilustração de Gustave Doré

A contraposição à pujança e ao otimismo burguês era dada pelos mais impressionantes símbolos exteriores do novo mundo industrial: as cidades e multidões. A intensa migração e a explosão demográfica fizeram das grandes cidades - especialmente Londres e Paris, mas também Berlim, Viena e São Petersburgo, no continente europeu, e Chicago e Melbourne, no além-mar - espaços onde se concretizava o ritmo da transformação industrial. Esses locais tornaram-se a expressão maior da contradição que se desenvolvia, fazendo com que alguns observadores colocassem, de um lado, os "ricos-civilizados" e, de outro, os "pobres-selvagens".

No centro das cidades, milhares de pessoas se deslocavam por um emaranhado de edifícios, percorrendo longos trajetos a pé ou nos recém-criados transportes coletivos. À multidão misturavam-se a nova pequena burguesia dos escritórios e lojas de departamento, funcionários públicos, trabalhadores urbanos e inválidos, pedintes, mendigos profissionais, prostitutas, vendedores de empadas, tocadores de realejo, batedores de carteira, etc. A impressão caótica fazia com que observadores descrevessem essa situação como um espetáculo que causava, ao mesmo tempo, fascínio e terror.


No século XIX, a cidade foi sinônimo também de superpovoamento, insalubridade e proliferação de cortiços. Junto ao centro da cidade, bairros miseráveis tinham péssimas condições de moradia e uma superpopulação marcada pelo desenraizamento - perda de costumes seculares causada pela migração. Nesse amontoado de moradias precárias, com uma só peça e poucos móveis e objetos, a ausência de serviços públicos básicos, como saneamento e abastecimento de água, aumentava ainda mais os riscos decorrentes da poluição do ar e das águas, provocando, por exemplo, o aparecimento de doenças respiratórias e intestinais.

Grande parte dos operários europeus do século XIX viviam em bairros pobres, não muito distantes das fábricas. Moravam em habitações coletivas onde não havia água encanada, utilizando água dos chafarizes públicos, que carregavam em potes. Nessas moradias havia apenas uma latrina coletiva, que ficava na parte externa dos prédios.

Temendo os riscos de revolta em razão da miséria e da grande concentração de pessoas nos bairros operários, os burgueses procuravam solucionar o problema da moradia. Assim, por meio do financiamento de sociedades filantrópicas, patrocinavam a construção de vilas operárias. Essas vilas eram formadas por conjuntos de pequenas casas iguais e geminadas. Porém, muitos operários se recusavam a morar nessas vilas por considerar que elas eram uma forma de os patrões estenderem o controle e a disciplina exercidos na fábrica até o ambiente das casas de seus empregados.

Na maioria das casas operárias, um mesmo cômodo servia como local de refeições e dormitório para toda a família. Tal situação incomodava muito os operários - que procuravam separar seu quarto do das crianças tão logo conseguiam juntar algum dinheiro. (DREGUER, Ricardo; TOLEDO, Eliete. Novo História: conceitos e procedimentos. São Paulo: Atual, 2009. p. 125.)

Contudo, não era à condição das moradias que a maioria das reivindicações operárias se dirigia. Segundo a historiadora Michelle Perrot, os operários preferiam a liberdade de morar no centro e circular livremente pelo espaço público, mesmo tendo de viver em habitações precárias. Em tempos de instabilidade do mercado de trabalho, viver no centro poderia significar mais oportunidades de emprego que nas vilas operárias afastadas, ainda que estas oferecessem condições mais dignas. As principais reclamações nesses cortiços, expressas em manifestações geralmente lideradas pelas mulheres, diziam respeito aos valores dos aluguéis.

Além do trabalho doméstico na manutenção da família, do transporte da água, da alimentação e da criação dos filhos, para complementar a renda familiar, as mulheres das classes populares urbanas dedicavam-se a outros serviços. Lavagem de roupas, pequenos comércios em bancas na rua, vendas de porta em porta e trabalhos ligados à entrega, faxina, cozinha e costura tornavam-nas agentes de uma economia informal, fundamental na manutenção dos lares.

A tudo isso somava-se a administração do orçamento doméstico, que as deixava mais sensíveis ao problema do aumento do aluguel e do custo de vida em geral. Pontos de água coletivos tornavam-se locais de sociabilidade, onde se discutiam diversos assuntos, como o planejamento de manifestações públicas, expressão política decisiva dessas mulheres. Ao contrário do que o ideal burguês pregava, a princípio, o controle da circulação exterior, para elas, foi muito menos rígido.

Menos satisfeitos com a condição das moradias populares estavam os médicos sanitaristas. Escandalizados, esses reformadores sociais denunciavam as precárias condições de higiene e saneamento como prováveis focos de infecções. Algumas destas se alastraram e se tornaram epidemias, como as de febre tifóide e cólera.

Assim, em campanha aberta, defendiam uma intervenção mais drástica contra os cortiços e hábitos populares, que, ao seu ver, geravam outros grandes flagelos sociais, como a tuberculose, o alcoolismo e a sífilis. Grandes avenidas e bulevares foram projetados e executados, assim como outras medidas: o aumento do valor dos aluguéis, o deslocamento de bairros considerados infectos ou, até mesmo, a demolição deles, com o intuito de forçar os pobres a procurar habitação em outros lugares, longe do centro da cidade.

Com o crescente medo da revolução popular, das violentas manifestações de rua e dos ativistas urbanos, principalmente após a dura experiência da Comuna de Paris, as autoridades públicas passaram a ver a boa moradia como uma chave da paz social. Soluções filantrópicas, como a construção de vilas operárias mais bem projetadas, com creches, escolas, abastecimento de água e moradias amplas, foram tentadas nesse sentido.

[...] Nesse momento, houve uma diferenciação entre a classe operária, com emprego formal e alguns direitos garantidos, e uma massa sujeita a situações de pobreza extrema, com emprego casual e superexploração do trabalho.

Durante algum tempo, as multidões continuaram assustando. [...]

BRESCIANI, Maria Stella Martins. Londres e Paris no século XIX: o espetáculo da pobreza. São Paulo: Brasiliense, 2004. p. 37.
DREGUER, Ricardo; TOLEDO, Eliete. Novo História: conceitos e procedimentos. São Paulo: Atual, 2009. p. 125.
MORENO, Jean; VIEIRA, Sandro. História: cultura e sociedade. O contemporâneo: mundo das rupturas. Curitiba: Positivo, 2010. p. 40-41.

domingo, 6 de novembro de 2011

O dia-a-dia nas ruas do Rio de Janeiro e São Paulo no início do século XX

Vendedores de aves

- Olha o prú da roda vôôôa!
- Olha o avacaxi ôôô...
- Vae Bassôôôura, espanadoire!
- Pixe, camaró... Ulha a sardenha!
- Fófo, barato, fófo, fófo!
- Empedinhas spiciaes cum quêmerão e azaitonas! Stam queimando! Não tendo quêmerão nan pagan nada!
- Moça, tenho muita coisa pra bocê, tudo baratinha!

Portugueses, italianos, turcos... Cada um com o seu pregão, os vendedores ambulantes enchiam as ruas das cidades brasileiras nas primeiras décadas do nosso século. Principalmente as ruas do Rio de Janeiro e São Paulo, já então as duas maiores cidades do Brasil. Elas pareciam ter-se transformado numa grande feira internacional.

Neste mercado formado pelos ambulantes, não faltavam, é claro, vendedores bem brasileiros:

- Canjiquinha... Iaiá, bem quentinha!
Eu é de namorá
Eu sou rapaz sortero
Eu quero me casá...
Sor-ve-te!!!
É de quatro colidade

"Seu" Ariosto, filho de italianos, não se esquece desse tempo, quando ele, ainda menino, morava em São Paulo:

- A Avenida Paulista era bonita, calçamento de paralelepípedos, palacetes. As outras ruas eram semicalçadas, cobertas de árvores, de mata. De noite, os lampioneiros vinham acender os lampiões e de madrugada voltavam para apagar [...]. A nossa casa tinha quintal com pé de laranja, mixirica, ameixa e abacate. Minha mãe gostava muito de flores e plantava rosas, margaridas, violetas.

Ruas assim eram gostosas e seguras. Os meninos jogavam futebol, brincavam de pique, pião, bola de gude, soltavam balões, papagaios... As meninas brincavam de boneca, amarelinha, chicotinho queimado, de roda...

Se essa rua, se essa rua
Fosse minha
Eu mandava, eu mandava
Ladrilhar
Com pedrinhas, com pedrinhas
De brilhante
Para o meu, para o meu
Amor passar

Meninos e meninas brincavam ainda de bento-que-é-bento-é-o-frade, bandeira, passa-anel... Os moradores punham as cadeiras na calçada, de tardinha, para conversar. E os seresteiros ainda cantavam suas grandes paixões na janela da amada:

Acorda, desperta do leito
Deixa de tanto dormir
Vem ouvir um desgraçado
Que hoje quer morrer por ti [...]

Palhaços anunciavam "o maior espetáculo da terra":

Ô raia o sol
Suspende a lua
Olha o palhaço
No meio da rua

Hoje tem espetáculo?
Tem sim senhor
Às oito da noite?
É sim senhor

Hoje tem marmelada?
Tem sim senhor
É de noite, é de dia?
É sim senhor

Aproveita macacada
Dez tostões não é nada
Sentadinho na bancada
Pra ver a namorada

Os tocadores de realejo, quase sempre italianos, tocavam uma música triste. Um periquitinho tirava a sorte das pessoas e uma criança - ou um macaquinho careteiro - recolhia no chapéu as moedas para o tocador.

Um outro italiano, que perambulava pelas ruas do Rio de Janeiro, fazia sons mais alegres: era o "homem dos sete instrumentos". Com uma vara amarrada no braço ele batia num bumbo preso às costas, sacudia guizos pendurados na cabeça e soprava, ora uma gaita, ora uma clarineta, ora um pífano, que é uma flauta de madeira com sons agudos. Seus chutes no ar acionavam os pratos e ferrinhos armados sobre o bumbo e ligados ao tornozelo:

- Eco! Uma bela e dolce musicata pra voces: moderato, allegro e maestoso!!! 

ALENCAR, Chico et alli. Brasil vivo: uma nova história da nossa gente. 2 - A República. Petrópolis: Vozes, 1991. p. 50-52.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Cidades coloniais

Vista da Lagoa do Boqueirão com os Arcos da Lapa e o Convento de Santa Teresa no Rio de Janeiro, de Leandro Joaquim

"Cidade... multidão de casas, distribuídas em ruas..."
(BLUTEAU, R. Vocabulário português e latino. Coimbra: Colégio das Artes da Companhia de Jesus, 1712. vol. II, p. 309.)

[...] como eram as cidades do tempo de nossos arquiavós? Os documentos coloniais não deixam dúvidas. Para além de um "ajuntamento de homens no mesmo lugar com casas contíguas ou vizinhas", a cidade era também um "povoado no qual a boa fortuna é mãe da inveja, e a má fortuna, do desprezo. Lugar em que para ser grande é preciso tiranizar os pequenos e para ter com que passar é necessário andar, buscar, correr e lidar". [...] Muitas cidades portuguesas, assim como suas congêneres coloniais, eram o cenário de uma tremenda desordem, espaço de permanentes disputas e conflitos sociais. Além disso, as cidades reuniam os grupos mais pobres da sociedade. O que levava as autoridades metropolitanas, como fez o marquês de Lavradio, de maneira preconceituosa, a comparar os moradores da Bahia a "macacos" e "vermes", queixando-se de ter que governar um "povo grosseiro e ingrato" - comentário não muito diferente do registrado, três anos mais tarde, no Rio de Janeiro, cujo cenário urbano foi considerado "sumamente pobre" e marcado por "clima e gente infernal".

[...]

De fato, tanto o espaço urbano colonial quanto seus habitantes, com raras exceções, dispunham de recursos. Prolongando a tradição medieval, nossas cidades, na maioria, foram construídas não em áreas planas, como recomendava Vitrúvio, mas em lugares altos e de difícil acesso. Morro abaixo serpenteavam ruelas e becos sobre os quais se aglomeravam casas toscas. O casario apertado fazia sombra às vias estreitas e escuras, nas quais se jogava, dia e noite, todo o tipo de lixo. Inúmeros cronistas registraram seu mal-estar. Anchieta dizia que Salvador estava "mal situada num monte". Em 1610, o francês Pyrard de Laval queixava-se de seu difícil acesso, enquanto seu conterrâneo Froger dizia que lá não havia uma única rua direita. Com todos os defeitos, Salvador foi, até 1763, a capital da possessão portuguesa e nela se concentravam a alta fidalguaria lusitana, o alto clero e os magistrados que administravam a Colônia. Os lucros com o açúcar incentivaram a construção tanto de uns poucos edifícios oficiais e religiosos, como de luxuosas residências. Essas, na forma de sobrados geminados de três ou quatro pavimentos, começaram a ser erigidas no século XVII. [...]

Planta da cidade de Salvador no período colonial

[...] Nas cercanias da cidade encontrava-se o bairro de São Bento, planície aprazível cortada por ruas largas onde se tinham estabelecido belas residências e algumas igrejas; o da Praia, endereço de opulentos comerciantes; e o de Santo Antônio, menos importante. [...] A grande animação da vida urbana ficava por conta de inúmeras quitandas - em substituição a um grande mercado -, nas quais negras vendiam carnes, nacos de baleia e outros peixes, hortaliças ou toucinho. Nas lojas finas, ofereciam-se sedas de Gênova, linhos e algodões da Holanda e Inglaterra, tecidos de Paris e Lyon, mesclados de ouro e prata. O fausto e a falta de comodidade urbana andavam de mãos dadas.

Também no Recife, a riqueza do açúcar tratara de concentrar a população e promover a construção de altos sobrados, chamados "sobrados magros", que conviviam com milhares de mocambos de escravos e homens pobres. Nos sobrados, o comércio ocupava o térreo; no primeiro andar, o escritório com apartamentos para caixeiros e sucessivamente alcovas e salas; no último andar, em função do calor excessivo, se localiza a cozinha. [...] Diferentemente de outras cidades coloniais, o Recife estabeleceu uma relação especial com as águas, principalmente as do Capiberibe, que emolduravam o espaço urbano. [...] Recife propriamente dito - onde fica o porto - estava unido a Olinda por um istmo de areia de praia [...]. Santo Antônio, a Mauritztaad de Nassau, concentrava as lojas de comércio, sendo que expressiva atividade - portas adentro ou portas afora - era exercida por mulheres, entre as quais muitas negras quitandeiras e prostitutas. [...]

Vista da cidade Maurícia e Recife, de Frans Post

[...]

Ancorada entre os charcos formados pelo Tamanduateí, o Pinheiros, o Juqueri e o Cotia, São Paulo parecia aos olhos dos viajantes estrangeiros melhor aglomeração urbana do que suas congêneres. No alto de uma pequena elevação, sobressaíam as torres de suas oito igrejas, seus dois conventos e três mosteiros. Casas em taipa branqueada com tabatinga, uma espécie de cal da região, davam-lhe ares de incrível limpeza. As ruas, no entender de vários observadores, eram "largas, claras, calçadas, espaçosas e asseadas". Aqui e ali chafarizes reuniam a multidão de escravos e mulheres em busca de água. [...] Transposto o riacho do Tamanduateí, entrava-se na parte mais animada: o mercado ou a rua das "casinhas" - lojas de víveres -, que se esparramavam pela rua do Buracão ou ladeira do Carmo. As casas de moradia dos que tinham mais posses costumavam ter dois andares dotados de balcões, onde se instalavam homens e mulheres. Neles tomavam as frescas da manhã e da tarde, e assistiam ao desfilar das procissões em dias de festa de santos. [...] Até o início do século XVIII, índios eram carpinteiros, e seu estilo deixou registros na ornamentação das casas. Quanto ao seu interior, Saint-Hilaire, viajante francês, descreveu-as como limpas e mobiliadas com gosto. [...] Singelas construções religiosas dominavam a silhueta da capital: a catedral da Sé, o mosteiro de São Bento, os conventos de São Francisco, Carmo e Santa Teresa, e, mais afastado, o da Luz. O cedro garantia a fabricação de altares e retábulos. [...] Outras construções se sobressaíam ao casario uniforme e austero: eram elas o Palácio do Governo, a cadeia, o quartel e o hospital militar. [...] Mais longe, além dos rios que banhavam o sopé da colina, freguesias periféricas sediavam fazendas que abasteciam, com seus produtos, o mercado de alimentos.

Uma vista dos arredores de São Paulo, de Henry Chamberlain

Costumes de São Paulo, de Rugendas

Tropeiros pobres de São Paulo, de Debret

Palácio do governo em São Paulo, de Debret

A presença de terreiros e praças, tão comum em nossas cidades, notadamente as costeiras, não se fará sentir nos núcleos de mineração que se formaram de pequenos arraiais, como Ouro Preto e São João del Rey. Ocorrendo o ouro em regiões montanhosas, os arraiais nasciam ora junto aos regatos, ora nas encostas. Entre eles se formou uma rede de ruas irregulares e íngremes, nas quais se encravavam pequenos pátios. Em meio ao emaranhado de vielas, travessas e becos se equilibravam; a princípio, casas de pau-a-pique, cobertas de telhas de barro [...]. Ao longo do século XVIII, as austeras paredes em taipa começaram a abrir-se em janelas e vãos que davam às casas mineiras uma extraordinária harmonia. Os povoados rapidamente se transformaram em vilas, concentrando colonos e emigrantes que, com seus escravos, vinham em busca de ouro, e as autoridades que ali se instalavam para controlar a extração aurífera. Nessas mudanças, os casarões se assobradaram [...]. A partir da segunda metade do século XVIII, o uso da pedra lavrada de tradição minhota foi frequente em igrejas, casas solarengas, edifícios públicos e fazendas [...]. 

Mineração de diamantes, de Carlos Julião

A prosperidade da vida urbana mineira incentivou uma série de melhoramentos arquitetônicos e domésticos: as fachadas começaram a ganhar sacadas rendilhadas em pedra-sabão, gradis em ferro de inspiração italiana, ornamentos em cantaria nas soleiras. Jardins à francesa, recortados em canteiros de variadas flores, chamavam a atenção dos viajantes [...]. O mobiliário, inspirado em desenhos importados de Portugal, ganhava volutas, garras de leão ou burro, embelezando camas, cadeiras, cômodas, contadores e bufetes. Espelhos e ferragens sofisticam-se. [...] A prata convertia-se em baixelas, serviços de toucador e arreios, sob a batuta de prateiros baianos e mineiros. [...] Em Mariana, Prados e Congonhas do Campo, pequenas olarias forneciam louça grossa para o uso diário.

Casario em Ouro Preto

Até a descoberta do ouro em Minas Gerais, a cidade do Rio de Janeiro não tinha muitos encantos. Possuía, no século XVIII, uma fortaleza bem guarnecida de canhões e um centro comercial muito animado por embarcações vindas do rio da Prata e de Angola. Da América espanhola, especialmente do Peru, vinham muitas patacas de prata para pagar escravos clandestinos. A importância desse comércio ficou gravada na devoção a Nossa Senhora de Copacabana - de origem peruana -, mais tarde instalada na ermida da praia de mesmo nome. Para a África era enviada a farinha de mandioca, produzida no Recôncavo Fluminense e lá vendida, segundo o cronista Brandônio, por "alto preço". Saía, igualmente do Rio de Janeiro, parte do tabaco baiano destinado a comprar escravos em Angola. Até meados do século XVIII, a cidade possuía 15 igrejas e instituições religiosas [...]. Seu perfil, contudo, era ainda de um Rio de Janeiro rural. A cidade há pouco tinha descido dos morros [...] para invadir as várzeas e vales entre montes. [...] No atual Catete, se instalaram olarias que abasteciam a cidade com tijolos e telhas. [...] Medidas de higiene combatiam com timidez o péssimo estado sanitário: isolaram-se bexigosos em lazaretos e obrigou-se o destripamento das baleias, caçadas ao largo da costa, em alto-mar: "para que o mau cheiro que exalavam não infeccionasse a cidade". A Cadeia Pública e a Casa da Câmara desceram do Castelo e se instalaram na várzea [...]. Na Ilha Grande, erigiu-se um estaleiro, destinado a fabricar fragatas empregadas no policiamento do litoral brasileiro. Os primeiros quilombos, constituídos por negros fugidos dos engenhos, começavam a concentrar-se nas margens do Paraíba.

Criminosos carregando provisões para a prisão, de Henry Chamberlain

No início do século XVIII intensificou-se o tráfico negreiro para a extração do ouro e o aumento da produção do açúcar fluminense. Como ficou a cidade? Crescida, inchada, ela via aumentar dia a dia os problemas com a limpeza. Os viajantes estrangeiros consideravam o Rio de Janeiro, como disse dela um inglês, "a mais imunda associação humana vivendo sob a curva dos céus". Em contraste com a belíssima baía azul e montanhosa, as casas eram feias. As ruas, sujas, atraíam varas de porcos ou outros animais domésticos que vinham comer os restos de lixo jogados porta afora. O "desasseio" das praias, em cujas águas se derramavam os dejetos domésticos, preocupava as autoridades: "despejos cujos eflúvios voltam para a cidade e a fazem pestífera". Melhorada, a partir de 1763, a Cadeia transformara-se em residência dos vice-reis. [...]

Lagoa Rodrigo de Freitas, de Henry Chamberlain

As lojas dos mercadores abrigavam-se do sol forte sob toldos de pano riscado. Tabuletas indicavam os ofícios: barbearia, chapelaria, oficina de bate-folhas. Indicavam também: "Bom e Barato!". [...] As fachadas das residências quase desapareciam por trás das grades dos mucharabis, rótulas engradadas pelas quais as senhoras e suas escravas observavam, sem serem vistas, o movimento da rua. [...] O salão de receber, vazio de mobiliário, somava-se à pequena sala de jantar. [...] Sem numeração, as casas eram conhecidas pelos nomes dos que nela residiam ou pelo comércio que aí se praticava.

Uma história, de Henry Chamberlain

Num porto onde o tráfico de escravos era determinante, onde ficava tal mercado? O Valongo, nome que o sinistro local recebeu, localizava-se entre o outeiro da Saúde e o morro do Livramento. Erigido sob as ordens do marquês de Lavradio [...] consistia em armazéns alinhados, beirando a praia, cada um com sua porta aberta para receber a mercadoria humana vinda da África. Depois da travessia subumanas, os cativos encaveirados eram engordados com farinha, banana e água, podendo ganhar "até cinco libras por semana". Cartazes do lado de fora anunciavam a chegada de "negros bons, moços e fortes", e de preços com "abatimento".

O mercado de escravos, de Henry Chamberlain

No Rio de Janeiro ou em outras cidades coloniais, a massa de escravos dominava boa parcela dos ofícios urbanos. Atarefados, oferecendo seus serviços ou os produtos feitos na casa do senhor, cumprindo obrigações, levando recados, carregando água, os cativos estavam em toda a parte. Sua presença associada ao transporte privado é constante nas gravuras sobre o período. [...] Portavam nos ombros as cadeirinhas [...] feitas de couro de vaca e forradas de damasco carmesim, cujas cortinas fechavam-se a cada vez que nelas se transportava uma dama. [...] Mas cruzava-se pelas ruas com outros tipos de carregadores: os de pesados tonéis amarrados em tramas de corda e pau. E o dos "tigres": barris carregados de lixo doméstico normalmente enterrados em buracos nas praias das cidades litorâneas. Uma bandeira preta indicava a saturação dos mesmos.

Negros vendedores no Rio de Janeiro, de Carlos Julião

Negras vendedoras no Rio de Janeiro, de Carlos Julião

Negras vendedoras no Rio de Janeiro, de Carlos Julião

Cadeirinha, de Carlos Julião

Vista do lugar de desembarque na Glória, de Henry Chamberlain

Nos adros das capelas, nos becos sujos, encontravam-se pelo chão aqueles que tinham-se tornado os dejetos da escravidão. Doentes, aleijados, moribundos eram deixados a mendigar ou a morrer pelas ruas da cidade. Misturavam-se a outros pedintes, muitos deles imigrantes sem sorte e sem trabalho, camponeses pobres, crianças abandonadas, soldados expulsos das tropas. Todos personagens de nossas cidades. As camadas mais despossuídas da população encontravam-se, depois das ave-marias, nas tabernas, nas vendas, nas "casas de alcouce" - eram espaços de sociabilidade onde se bebia cachaça barata, cantava-se ao som da viola, em São Paulo, ou da marimba, no Rio de Janeiro, e jogavam-se dados e cartas. O chão de terra batida, sobre o qual se cuspinhava o fumo mascado, recebia não poucas vezes o corpo de um ferido de briga ou de uma prostituta cujos serviços eram prestados ali perto. Em muitos desses locais misturavam-se os dialetos africanos com a fala reinol. Soavam atabaques, rabecas, berimbaus.

Escravos doentes, de Henry Chamberlain

Durante o dia, as ruas das cidades se animavam com outros sons. O peditório dos irmãos das confrarias era um deles. Bandeja à mão, esmolavam de pés descalços para as suas festas: a do Divino, a do Rei Congo, a do Santíssimo. [...] Nas artérias mais importantes, cruzavam-se os funcionários do governo, os soldados da milícia da terra, frades e padres seguidos de beatas, mazombos enriquecidos graças ao açúcar, ao ouro ou ao tráfico de escravos, mulatos, mamelucos, cabras, peões, oficiais mecânicos, ciganos, degredados e milhares de escravos. Mulheres, as trabalhadoras: cativas, forras ou brancas pobres vendiam, elas também, os seus serviços de lavadeiras, doceiras, rendeiras, prostitutas, parteiras, cozinheiras etc. Pouco se viam senhoras e sinhás. Reclusas, não deixavam de realizar tarefas domésticas, expondo-se, apenas, em dias de festa religiosa.

Festa de Nossa Senhora do Rosário no Rio de Janeiro, de Carlos Julião

Uma barraca de feira, de Henry Chamberlain

Lavadeiras do Rio de Janeiro, de Rugendas

PRIORE, Mary Del; VENÂNCIO, Renato Pinto. O livro de ouro da história do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 104-116.