"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Marighella e a guerrilha urbana

"Coisas que a gente se esquece de dizer
Frases que o vento vem às vezes me lembrar
Coisas que ficaram muito tempo por dizer
Na canção do vento não se cansam de voar."
(Trem azul, música de Lô Borges e Ronaldo Bastos)


Carteira de filiação de Carlos Marighella ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), 1945

Apesar de o Partido Comunista Brasileiro ter sido contrário à luta armada como forma de combater a ditadura, o endurecimento do regime militar levou vários militantes a contrariar a posição do principal partido de esquerda brasileira e a pegar em armas para enfrentar o avanço da linha dura. Um dos primeiros a romper com a determinação do PCB foi Carlos Marighella, velho militante de esquerda que participara da Intentona Comunista de 1935. Em 1967, aos 56 anos, ele fundou a ALN (Ação Libertadora Nacional) e partiu para a luta armada. "Expropriou" vários bancos e, na ação mais espetacular, tomou uma estação da rádio Nacional, em agosto de 1968, lendo um "manifesto revolucionário".

Inspirados pelo exemplo de Carlos Marighella, pela Revolução Cubana e pelo slogan dos revolucionários de todo o mundo - "criar um, dois, três, mil Vietnãs" -, centenas de jovens militantes (muitos deles estudantes de classe média) aderiram à guerrilha urbana nos dois últimos anos da década de 1960. Houve inúmeras dissidências internas, divergências táticas e ideológicas e posições ensandecidas.

Em fins de 1969, a morte de Marighella se tornara questão de honra para os grupos encarregados da repressão. Após a tortura de dois frades dominicanos que mantinham ligação com o "terrorista", os homens do delegado Sérgio Paranhos Fleury, liderados por ele mesmo, surpreenderam Marighella numa rua de um bairro chique de São Paulo, na noite de 4 de novembro de 1969. Antes que pudesse reagir, Marighella - autor de vários livros sobre guerrilha publicados em todo o mundo - foi crivado de balas. Segundo a versão oficial, ele morreu ao tentar "resistir à prisão".

A morte de Marighella não foi suficiente para sufocar a guerrilha, que, com o sequestro de vários diplomatas, adquiriria repercussão nacional e internacional. É uma lei da física que se aplica à história: toda ação gera reação igual e em sentido contrário. Se o endurecimento do regime resultou na eclosão da guerrilha - com o surgimento de várias organizações, como ANL, VPR, MR-8, VAR-Palmares -, o início da "guerra suja" levaria o governo, especialmente depois da posse de Médici, a radicalizar ainda mais a repressão.

Nesse contexto, surgiram primeiro a Operação Bandeirantes (OBAN) e depois os DOI-CODIs. Criada em julho de 1969, a OBAN reuniu todos os órgãos que combatiam a luta armada e foi financiada por empresários [...]. Mais tarde, o Exército passou a agir por meio dos Destacamentos de Operações e Informações (DOIs) e Centro de Operações de Defesa Interna (CODIs), órgãos coordenados pelo Centro de Informações do Exército (CIE). Na prática, essas casas de tortura acabariam se tornando um poder paralelo que mais tarde desafiaria o próprio governo.

Embora não fosse militar, ninguém simbolizou melhor esse período negro da história do Brasil do que o delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury. Fleury entrou para o DOPS, com 17 anos e logo ingressou na Ronda Noturna Especial (Ronde), notabilizando-se como um ferrenho caçador de bandidos que andava acompanhado por um cão policial.

São dessa época as acusações de que Fleury fazia parte do Esquadrão da Morte, grupo de extermínio montado dentro da polícia. A partir de 1968, convocado para a luta contra a "subversão", ele prendeu, torturou e, em alguns casos, matou muitos "terroristas". Foi condecorado várias vezes. Levado a julgamento, nunca foi punido, embora houvesse provas de seus crimes. Contrário à anistia, que o beneficiou, Fleury morreu em circunstâncias bastante misteriosas em 1979.

BUENO, Eduardo. Brasil: uma história. São Paulo: Ática, 2005. p. 376-7.

segunda-feira, 31 de março de 2014

50 anos do golpe de 64: o que aprendemos?

A verdade ainda que tardia (detalhe). Painel instalado na Câmara. Elifas Andreato

Leia neste blog:

Os militares no poder (1964-1985)


O movimento negro durante a ditadura militar


Operação Condor / Mercosul do terror


O golpe de 64 e a ditadura militar 1: o jogo político


O golpe de 64 e a ditadura militar 2: a luta armada


O golpe de 64 e a ditadura militar 3: a repressão

http://oridesmjr.blogspot.com.br/2013/10/o-golpe-de-64-e-ditadura-militar-3.html

NOTA: Os textos acima citados não representam, necessariamente, o pensamento deste blog. Foram publicados com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

O golpe de 64 e a ditadura militar 3: a repressão

A verdade ainda que tardia (detalhe de painel instalado na Câmara), Elifas Andreato

O líder comunista Gregório Bezerra tinha 63 anos ao ser preso pela polícia particular do usineiro Zé Lopes. O fato ocorreu nos primeiros dias de abril de 1964, no interior de Pernambuco. Transferido para Recife, Gregório foi espancado pelo coronel Villocq Viana e pelos seus soldados, no quartel do Exército. Recebeu socos, pontapés e pancadas com barras de ferro. Obrigaram-no a caminhar descalço sobre ácido jogado no chão. Com os pés em carne viva, amarrado pelo pescoço com três cordas, puxado por soldados, teve de desfilar pelas ruas da capital pernambucana.

O coronel Villocq Viana comandava a exibição, mostrando ao povo o "comunista traidor da pátria". O ex-chefe de polícia Waldenkolk Wanderley, tomando a corda de um soldado, gritava: "Este é o comunista que queria destruir o lar de vocês. Agita agora, traidor". E desabavam socos e pontapés sobre o prisioneiro.

O povo assustou-se; mulheres desmaiaram. O coronel Villocq Viana levou o cortejo até a sua casa, para exibir o "traidor da pátria" à esposa. O homem ensanguentado, porém altivo, respondia às pancadas e insultou com uma pergunta: "É esta a civilização cristã e ocidental?" Seu comportamento impressionou a mulher, que caiu numa crise de choro. Irritado, o coronel aumentou o volume dos gritos e a força das pancadas.

A agressão a Gregório Bezerra foi o prenúncio do que aconteceria no Brasil: prepotência da polícia particular dos poderosos, tortura dentro dos quartéis e histerismo da "nova autoridade" exibido ostensivamente como patriotismo. Mas um prenúncio ainda tímido: tudo iria piorar.

Os primeiros meses pós-golpe ficaram marcados pela detenção de aproximadamente 50 mil pessoas. Os militares realizaram uma "operação pente-fino": de rua em rua, de casa em casa, procuravam suspeitos, livros, documentos, qualquer coisa que ligasse os acusados ao governo anterior ou à "subversão". Não se prendiam "culpados", mas todos os que não podiam provar inocência. Poucos líderes sindicais e estudantis escaparam da repressão.

O interrogatório era acompanhado de espancamento, que endurecia a "periculosidade" da vítima. Dessa forma, sofriam mais os inocentes e os completamente ignorantes da nova política - por não terem o que esconder, não mentiam, diziam que não sabiam de nada e, por isso, tornavam-se altamente suspeitos pela sua "resistência".

Nas primeiras semanas depois do golpe, a imprensa (ainda sem censura plena) noticiava timidamente as violências. Mas a revista Time informou ao mundo a existência da Operação Limpeza, assegurando que se prendiam em média 10 mil pessoas por semana. A imprensa internacional divulgou a situação do Brasil e já em setembro de 1964 - seis meses após o golpe - as entidades internacionais dos direitos humanos começavam a denunciar o regime militar brasileiro.

Prendeu-se tanto que as cadeias foram insuficientes. O Maracanã virou presídio; navios da Marinha receberam  centenas de "subversivos". Os quartéis em todo o Brasil lotaram de prisioneiros. A impunidade estimulou o uso da tortura. Cometeram-se tantos abusos que até a imprensa brasileira começou a denunciá-los. O governo Castelo Branco, geralmente apresentado como "democrático", prometia investigar, enquanto a violência ia se incorporando ao cotidiano nacional.

Em 1968, o AI-5 impôs à imprensa a mais brutal censura da história do Brasil. Absolutamente nada que "ofendesse" o governo podia ser noticiado. A partir daí, a violência tornou-se um método de dominação. Todos os jornais, inclusive os que apoiaram o golpe, foram censurados e alguns de seus diretores, presos.

O "Exército de Caxias" chegou a um rebaixamento moral que os militares talvez pensassem jamais ser possível. Em abril de 1968, explodiu uma bomba tão forte no saguão de O Estado de S. Paulo que arrebentou os vidros dos edifícios localizados em um raio de 500 metros. As autoridades atribuíram o atentado às "forças de esquerda", usando o fato para justificar o aumento da repressão e da censura. Dez anos depois, descobriu-se que a explosão havia sido preparada e executada pelo Estado-Maior do II Exército.

Seguiram-se outros atentados planejados pelo II Exército para culpar a esquerda, entre eles um idealizado pelo general Jaime Portela, chefe da Casa Militar da Presidência da República. Em 20 de agosto de 1968, um grupo de soldados da Força Pública de São Paulo explodiu uma bomba em um estacionamento em frente do Deops. A operação era tão secreta que o seu líder foi torturado por engano nas dependências do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic): pressionado, Aladino Félix [...] confessou ter agido sob as ordens do general Portela.

Os atentados de direita multiplicaram-se, alguns com o objetivo claro de intimidar políticos, artistas ou intelectuais, outros para incriminar as esquerdas. O Comando de Caça aos Comunistas (CCC) atacou livrarias, teatros, cinemas e escolas.

Um dos mais espetaculares atentados projetados pelo governo - ou por militares intimamente ligados ao poder - acabou frustrado pela recusa de um oficial em executá-lo. Em 1968, o brigadeiro João Paulo Penido Burnier, chefe de Gabinete do ministro da Aeronáutica, Márcio de Souza Mello, planejou explodir o gasômetro do Rio de Janeiro, com o auxílio do Para-SAR. Milhares de pessoas morreriam, mas, segundo o brigadeiro Burnier, o atentado seria necessário para "salvar o Brasil do comunismo", instigando o ódio da população contra os "subversivos", que levariam a culpa pelas mortes.

O capitão-aviador Sérgio Miranda de Carvalho, encarregado de executar o plano, negou-se a cumprir a missão e ameaçou denunciá-la, caso Burnier pretendesse levá-la adiante com outros oficiais. O plano frustrou-se, mas o capitão Sérgio foi afastado da Aeronáutica, em 1969, acusado de "louco".

Só em 1978 a verdade veio à tona, graças ao depoimento do brigadeiro Eduardo Gomes, em defesa do capitão Sérgio. O brigadeiro confirmou que se preparava "a explosão do gasômetro, a destruição de instalações de força e luz, [que seriam] posteriormente atribuídas aos comunistas". Em seguida ao pânico, viria a segunda etapa:

[aconteceria] sumariamente, a eliminação física de personalidades político-militares, o que, no seu entendimento [do brigadeiro Burnier], possibilitaria uma renovação nas lideranças nacionais. A execução de tal plano aproveitar-se-ia do momento psicológico em que as passeatas e agitações estudantis perturbavam a ordem pública.

O ano-chave da institucionalização da tortura foi 1969. Nesse ano, com a intensificação da guerrilha e dos assaltos a bancos por grupos de esquerda, deu-se início à organização metódica da repressão. Aperfeiçoou-se o uso psicológico da violência. Surgiram as "salas especiais", munidas de aparelhagem de tortura: cadeiras e camas eletrificadas, paus-de-arara etc. Paralelamente, aprimoram-se os meios legais e os tribunais que encobriam a tortura. Médicos e legistas apresentavam os violentados como indivíduos gozando de plena saúde e os assassinados na tortura como vítimas de "morte natural". Os cadáveres que não podiam ser escondidos apareciam em terrenos baldios ou eram sepultados anonimamente ou, ainda, informava-se que aquelas pessoas haviam morrido atropeladas.

Para fazer tudo isso, não bastou a imposição do autoritarismo - o regime precisou, também, "limpar" as Forças Armadas dos elementos mais democráticos ou que simplesmente sentiam pudor de compactuar com as violências. Onze dias depois do golpe, o Exército já computava 122 oficiais expulsos, sob a acusação de serem "contra-revolucionários" e centenas receberam advertência pela sua conduta revolucionária "fraca". Os militares punidos eram considerados oficialmente "mortos": perdiam os seus direitos, e as suas esposas ganhavam pensão de "viúva". Até 1967, as Forças Armadas expurgaram 1.228 oficiais, sendo 510 do Exército, 374 da Aeronáutica e 344 da Marinha.

Enquanto isso, o Inquérito Policial Militar (IPM) de cada estado recorria aos mais curiosos argumentos. Edson Germano de Brito, por exemplo, foi condenado porque o seu comunismo era um "mal de família". No IPM de Goiás, consta que ele era "notoriamente comunista [...] aliás, parece mal de família, pois isso ocorre com todos os Germano do estado de Goiás". [...]

Para assegurar a repressão, importavam-se vários técnicos norte-americanos. Um desses especialistas, Dan Mitrione, ficou bastante conhecido. Ele sequestrava mendigos nas ruas de Belo Horizonte e os levava aos quartéis, para servirem de cobaia: torturava-se para ensinar a policiais e militares brasileiros os princípios da tortura "científica". Dan Mitrione, que no tempo da ditadura foi nome de rua em Belo Horizonte, acabou morto no Uruguai pelos tupamaros (extremistas de esquerda).

Mas sem só mendigos se transformavam em cobaias. Vários estudantes também "colaboraram" com o aprendizado dos torturadores. Maurício Vieira de Paiva, 25 anos, foi torturado de acordo com sequências fotográficas, em aula para cem militares das Forças Armadas, "sendo instrutor um tenente Hayton", segundo o seu depoimento, em 1970. Isso aconteceu em todo o Brasil: jovens e velhos, homens e mulheres, ricos e pobres caíram vítimas do processo.

Há centenas de depoimentos sobre as torturas nos arquivos da Justiça Militar e de entidades de defesa dos direitos humanos. Eles descrevem os mais variados métodos: o pau-de-arara, a cadeira-do-dragão, a pimentinha, o afogamento, a geladeira, os choques elétricos e até o emprego de insetos e animais (no Rio de Janeiro, usava-se uma jibóia chamada Miriam). O livro Brasil: nunca mais - Um relato para a história traz uma extensa coleção de relatos e denúncias comprovadas sobre a prática da tortura.

[...] No Nordeste, os latifundiários aproveitaram-se da situação para satisfazer as vinganças mais cruéis. Em Tempo de Arraes, Antonio Callado fala de "um chifre de boi com a ponta cortada". Conforme um camponês relatou ao escritor, o tal chifre seria usado para a aplicação de um clíster (introdução de substância líquida por via anal) nos subversivos:

É o chifre de clíster do feitor Valentim. Gostava de matar gente pela traseira. Ele tinha uma receita para quando pegasse o deputado Julião: creolina, sebo e pimenta. Para Arraes, salitre derretido, sebo e óleo de mamona.

A bestialidade estava liberada.

[...] A tortura como método conseguiu matar o homem no homem: deixava marcas tão profundas que, depois, se tornava difícil querer viver. Para alguns dos torturados, a indignidade do outro - o torturador - atingia-os de tal modo que era impossível continuar pertencendo àquela humanidade.

Em uma brutal ironia, a ditadura apelou ao "suicídio" quando não tinha como explicar os seus crimes. A primeira vítima fatal da tortura (conhecida oficialmente) foi o tenente José Ferreira de Almeida, da Força Pública de São Paulo. A repressão registrou a sua morte como "suicídio". Em 1975, aconteceu em São Paulo a Operação Jacarta, liderada pelo secretário da Segurança coronel Erasmo Dias. Visava prender vários suspeitos de subversão. Entre eles, foi detido o jornalista Vladimir Herzog, que morreu em consequência das torturas. Os órgãos de segurança informaram que ele "suicidou-se". Outro que morreu nas torturas, o operário Manoel Fiel Filho, também apareceu nos documentos oficiais como "suicida". Nos três casos, provou-se posteriormente a farsa - nenhum cometeu suicídio, todos morreram sob tortura.

Alguns aspectos da repressão atingiram tal dramaticidade que escaparam ao controle da ditadura, estimulando o povo a solidarizar-se com as vítimas e dar forças à oposição.

Em 28 de março de 1968, a Polícia Militar invadiu o restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro. Alegou-se que os estudantes que tomavam refeições no local pretendiam manifestar-se contra os Estados Unidos, diante da sua embaixada. Os soldados atiraram, feriram alguns estudantes e mataram Edson Luís de Lima Souto, de 16 anos. A notícia espalhou-se rapidamente pelo Rio. Organizaram-se passeatas e protestos. O corpo do estudante foi velado na Assembléia Estadual. A repressão preparou-se para conter os manifestantes.

No dia seguinte, milhares de pessoas acompanharam o enterro do secundarista. À noite, os estudantes voltaram às ruas, carregando tochas e cantando o Hino Nacional em surdina. Tentaram fazer uma vigília diante da Assembléia, mas acabaram expulsos pela polícia.

O enterro do jovem marcou a "virada" do povo: a ditadura era francamente antipatizada. A emoção tomou conta do Rio. Cerca de 30 mil pessoas assistiram à missa de sétimo dia de Edson Luís, na Igreja da Candelária. Terminada a missa, o povo saiu e sofreu uma carga da cavalaria: golpes de "espada em prancha", "cutucadas" de baionetas e "atropelamentos" pelos cavalos. Segundo um relato do Jornal do Brasil:

Mulheres, velhos e crianças corriam em todas as direções, e os cavalarianos desembainhavam as espadas, enquanto os outros usavam cassetetes. Todo o dispositivo policial montado na Candelária foi acionado e começou a espancar os populares. Os cavalarianos atiravam seus animais sobre a multidão.

Tentava-se intimidar o povo. Sem resultado: à tarde, realizou-se nova missa e o bispo dom José de Castro Pinto, de mãos dadas com populares, formou um círculo em torno da igreja, para impedir o ataque da cavalaria. Ao fim da missa, o povo saiu em passeata, com o bispo e os padres à frente.

A morte de Edson Luís e os acontecimentos seguintes tiveram uma grande importância: "jogaram" a Igreja para o lado dos estudantes e da oposição. A partir daquele momento, o que já acontecia em setores isolados do catolicismo passou a ser uma política quase oficial: a Igreja, quando não se posicionava ostensivamente contra a ditadura, pelo menos condenava as violências e defendia os perseguidos, sem se importar com a sua cor política.

A Igreja forneceu um dos principais contingentes que enfrentou a ditadura: sacerdotes e leigos aliaram-se à Ação Popular (AP) e apoiaram outros grupos de luta armada, inclusive marxistas, como exemplifica a ligação dos dominicanos com Mariguela.

Centenas de católicos, inclusive de padres, acabaram torturados e mortos em todo o Brasil. Entre os casos mais trágicos, encontra-se o de frei Tito, torturado cruelmente pelo delegado Fleury e equipe. Depois de resistir à destruição do corpo, frei Tito sucumbiu à tortura psicológica. Uma pequena frase do seu depoimento, em Memórias do exílio, revela o seu desespero: "Só havia uma solução: matar-me".

Livre das perseguições, convalescendo na França, frei Tito não suportou a lembrança das torturas e suicidou-se, em 1974, aos 29 anos. O seu suicídio foi, na verdade, um assassinato a distância, uma consequência das torturas que o delegado Fleury infligiu-lhe na prisão.

O aparelho de repressão lançou mão de todos os meios - um deles, o da difamação, marca registrada dos regimes fascistas. Logo após a morte de Mariguela, o jornal O Globo encarregou-se da infâmia: "Eles [os dominicanos]  traíram sua fé passando para o comunismo, depois traíram o comunismo entregando Mariguela; são os novos Judas".

[...]

Frei Tito encarna uma tragédia revolucionária. Mas milhares de outros sofreram revolucionariamente a tragédia de libertar o Brasil de um tempo de fúria e de trevas.

A morte de Bacuri é outro emblema da brutalidade. O governo militar informou que Bacuri, nome de guerra de Eduardo Leite, morreu ao fugir da prisão e resistir à polícia. Mentira: ele tinha sido torturado da forma mais brutal. Furaram os seus olhos, quebraram as suas pernas, cortaram as suas orelhas. A equipe do delegado Fleury, torturava-o diariamente. Executaram-no com uma machadada, na véspera da sua libertação, que ocorreria no resgate de presos após um sequestro. Seu corpo foi entregue à família. Ao abrirem o caixão, amigos e parentes depararam com o horror: um rosto sem olhos e orelhas - ele não tinha rosto.

Se não existissem milhares de outros, Tito e Bacuri bastariam para demonstrar do que uma ditadura é capaz.

A ditadura não poupou nem as crianças. Prendeu o menino Eduardo, de 4 anos, junto com a sua mãe, a professora Maria Madalena Prata Soares. Torturou o carpinteiro Milton Gaia Leite, a sua esposa e os seus filhos, de 5 e 6 anos. Provocou abortos em dezenas de mulheres. E fez do estupro uma norma, conforme  relatou Inês Etienne Romeu:

A qualquer hora do dia ou da noite sofria agressões físicas e morais, "Márcio" invadia minha cela para "examinar" meu ânus e verificar se "Camarão" havia praticado sodomia comigo. Este mesmo "Márcio" obrigou-me a segurar seu pênis, enquanto se contorcia obscenamente. Durante este período foi estrupada duas vezes por "Camarão" e era obrigada a limpar a cozinha completamente nua, ouvindo gracejos e obscenidades, os mais grosseiros.

Enquanto cometia esses atos, a ditadura mostrava-se ao povo como guardiã da "civilização cristã" contra o "comunismo ateu". Forjava depoimentos e quebrava de tal modo a resistência psicológica de alguns presos que eles se apresentaram na televisão, durante o governo Médici, como "terroristas arrependidos", dizendo que eram bem tratados e que a esquerda cometia atrocidades.

Um balanço ainda precário registra a prisão de 50 mil pessoas. Pelo menos 20 mil sofreram torturas. Além dos 320 militantes da esquerda mortos, outros 144 continuam "desaparecidos". No fim do governo Geisel, existiam cerca de 10 mil exilados. As cassações atingiram 4.682 cidadãos. Foram expulsos das faculdades 243 estudantes.

[...] A ditadura militar morreu lentamente a partir do desmascaramento do "milagre econômico". Começou a agonizar no governo Figueiredo. Já era cadáver no período Sarney. Foi enterrada precariamente nas eleições de 1989.

Hoje, há democracia.

Isso basta?

CHIAVENATO, Júlio José. O golpe de 64 e a ditadura militar. São Paulo: Moderna, 2006. p. 176-188.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

1968: Make love, not war!

Make love, not war!, Fora americanos: paz no Vietnã!; Viva a universidade popular! Viva a universidade livre!. Abaixo a ditadura!. Fora soviéticos: queremos um socialismo democrático...

Escritas nos muros ou gritadas por muitas vozes, frases como essas eram comuns em Nova Iorque, Paris, Berlim, Rio de Janeiro, Cidade do México, Praga e em muitas outras grandes cidades do mundo. Um novo poder parecia surgir na década de 1960: o poder jovem, o poder estudantil. A revolta estudantil explodia. Por quê?

- A universidade está velha, decadente, só ensina o que não nos interessa. É preciso mudar tudo! diziam os estudantes em muitos países.

- Desconfiem dos chefes e dos heróis. Desconfiem de todas as pessoas de fora que tentam impor a vocês suas estruturas. Façam o que tenham vontade de fazer. Sejam o que vocês são. Se não sabem o que são, descubram, alertava um líder hippie.

A família, a escola, a sociedade industrial, o racismo, o sistema político, tudo os jovens contestavam!

O maior de todos estes movimentos aconteceu na França, em maio de 1968. Os estudantes universitários queriam mudar os programas de ensino e as relações entre professores e alunos. Lutavam também pelo ingresso na universidade de um maior número de jovens, principalmente os das classes mais pobres. Uma greve, com apoio de vários professores, paralisou as aulas em todo o país. E as ruas das maiores cidades francesas foram tomadas pelos estudantes.

O presidente Charles De Gaulle deu ordem à polícia para reprimir as "agitações". A reação dos jovens foi maior: passaram a criticar duramente o próprio governo. A luta tornava-se claramente política.

Solidários com os estudantes, os operários parisienses, que vinham reivindicando melhores salários e o direito de participar das decisões das empresas, também decretaram greve. Greve geral!

Houve quem visse no movimento o início de uma revolução socialista. Nas universidades os estudantes realizavam debates, declamavam poesias, montavam peças de teatro, namoravam... Nas ruas a multidão carregava bandeiras tricolores da França, bandeiras vermelhas dos comunistas, bandeiras negras dos anarquistas.

- Vocês estão ampliando o horizonte do possível, dizia aos jovens Jean Paul Sartre, um importante intelectual francês.

O sistema capitalista era condenado, mas os regimes socialistas da Europa Oriental também recebiam críticas:

- A humanidade só será feliz no dia em que o último burocrata for enforcado nas tripas do último capitalista, escreviam os jovens nos muros da Sorbonne, a tradicional universidade francesa.

Na França, como em outras partes do mundo, estudantes e operários estavam insatisfeitos com a "engrenagem" que comandava suas vidas.

No fim das contas, porém, a "engrenagem" venceu. A polícia foi ocupando as ruas de Paris, em número cada vez maior. A organização dos rebeldes não era muito grande e a maioria da população ficou assustada com as mudanças radicais exigidas pelos jovens. Mesmo os Partidos Socialistas e Comunistas, que apoiaram o movimento no início, ficaram descrentes das suas possibilidades.

- Os jovens são românticos, não têm os pés no chão. E os operários ainda não têm condições de chegar ao poder, diziam os políticos mais velhos da esquerda. 

Também no Brasil os estudantes saíram às ruas. Quem governava o país, desde 1967, era o marechal Costa e Silva, que havia sido ministro do Exército no governo Castello Branco. Escolhido pelo Alto Comando Militar, seu nome foi facilmente aprovado em eleições indiretas no Congresso Nacional, onde a Arena, o partido do governo, tinha a maioria.

Os grandes problemas educacionais do país continuavam, como o analfabetismo, a falta de escolas e os baixos salários dos professores. Os governos militares, além do mais, diminuíam as verbas destinadas à educação, o que piorava as coisas.

- Mais verbas para a educação e menos canhão! reclamava a União Nacional dos Estudantes.

- O governo quer acabar com o ensino público e tornar as universidades pagas! argumentavam muitos jovens.

- Chega do reitor discutir tudo sozinho! Queremos uma universidade democrática! discursavam os estudantes em reuniões agitadas.

Em março de 1968, no Rio de Janeiro, um secundarista, Edson Luís, foi morto a tiros pela polícia militar, quando protestava com seus colegas contra a má alimentação servida num restaurante estudantil. Sua morte foi como um estopim, agravando as lutas entre estudantes e o governo: cinquenta mil pessoas compareceram ao enterro, que se transformou numa grande passeata de protesto.

Aos poucos, a revolta estudantil espalhou-se por outras cidades. Não faltavam ocasiões. No dia 1º de maio, por exemplo, centenas de estudantes e operários foram a uma concentração na Praça da Sé, em São Paulo. O governador do Estado foi apedrejado e a comemoração do Dia do Trabalho terminou em pancadaria.

O ministro da Educação, Tarso Dutra, não aceitava dialogar com os líderes estudantis. Os estudantes então faziam passeatas, que eram reprimidas com rigor. Prisões, ferimentos, explosões e um cheiro ardente de gás lacrimogêneo passaram a fazer parte do cotidiano do centro da "cidade maravilhosa"...

No dia 27 e junho, diversos panfletos eram distribuídos nas ruas à população carioca. Um deles dizia:

- Povo da Guanabara. Não queremos matar.não queremos morrer infrutiferamente. Queremos, sim, viver o engrandecimento e o bem-estar de todo o povo. Mas ante os arreganhos do opressor não recuaremos, não nos acovardaremos nem pediremos a paz.

O panfleto convidava a população para mais uma passeata.

A resposta ao convite foi surpreendente: naquele mesmo dia cerca de cem mil pessoas saíram às ruas, na maior das manifestações contra o governo desde 1964. Padres e freiras, artistas e intelectuais, estudantes, professores, funcionários e comerciantes exigiam a libertação dos jovens que estavam presos.

- Que querem os nossos filhos? Querem apenas estudar e não depredar e queimar a cidade, discursava uma senhora, representando as mães dos estudantes.

O principal líder estudantil no Rio de Janeiro, Wladimir Palmeira, não tinha papas na língua:

- A ditadura adora leis, deixa ela fazer leis! Faça uma, duas, três constituições, instale e depois amordace um, dois, três congressos, a gente deixa, pessoal...

Os estudantes interrompiam o discurso:

- Abaixo a ditadura! Abaixo a ditadura!

Wladimir prosseguia:

- Mas a gente sabe que até o fim dessa luta a gente derruba uma, duas, três constituições e faz uma lei e nossa assembléia, porque esta assembléia não resolve os problemas de ninguém!

O discurso do líder estudantil carregava a certeza de que logo o povo - sobretudo os trabalhadores das indústrias - iria se rebelar. A classe média que enchia as ruas do Rio naquele momento já mostrava sua insatisfação.

Em abril, na cidade mineira de Contagem, 15 mil trabalhadores cruzaram os braços. A greve durou 10 dias e terminou com uma vitória: o governo autorizou um abono salarial de 10%. Os operários de Osasco, em São Paulo, também pararam contra o arrocho salarial. Algumas fábricas foram ocupadas pelos trabalhadores, que chegaram a aprisionar seus diretores. Durante três dias a cidade viveu uma tensão enorme. Ao final, a polícia conseguiu desalojar os grevistas, prendendo mais de 400 pessoas. O aumento de 35% exigido pelos operários não foi concedido.

Os estudantes achavam que estavam vivendo o início de uma grande transformação social, que mudaria radicalmente o país:

- Foi fascinante cavalgar a crista da onda - a nossa pequena marola estudantil que supúnhamos um maremoto... Sentir que exprimíamos a revolta de milhares de pessoas ao desfilarmos nas ruas, relembra o ex-líder Jean Marc, que seria eleito presidente da UNE naquele ano de 1968.

Quais os sonhos daqueles milhares de jovens que gostavam de vestir calça Lee, muitos deles usando barba, parecidos com o guerrilheiro Che Guevara, que tinha morrido um ano antes na selva boliviana? O que ia na cabeça daqueles moços e moças que liam com tanto interesse as obras de Mao Tsé-Tung, presidente da República da China, e Lênin, o líder da Revolução Russa de 1917?

O sonho deles era a revolução. Essa palavra tinha uma estranha magia para aqueles jovens, pois resumia os seus desejos de amor, justiça e felicidade. Ela traria para o Brasil o fim da miséria, da violência, da divisão de classes.

- O dever de todo revolucionário é fazer a revolução, eles diziam, repetindo a afirmação de Che.

Cuba era um exemplo a ser seguido. Naquela ilha do Caribe, menor que o estado de Alagoas, um grupo de guerrilheiros derrubou, em 1959, o ditador Fulgêncio Batista e implantou um governo popular e socialista.

Porém, tal como o movimento de maio na França, as lutas estudantis no Brasil não duraram muito. O governo Costa e Silva criou um grupo de trabalho para fazer a reforma universitária (nenhum de seus membros foi escolhido pelos estudantes). E a polícia foi tomando conta das ruas, terminando com as passeatas. O Congresso da UNE, realizado em outubro, nem terminou: cerca de mil representantes foram presos no próprio local do encontro.

As manifestações de rua acabavam, mas os protestos contra o governo não pararam. Os bispos da Igreja Católica estavam entre os que mais criticavam o regime. Eles citavam sempre a encíclica do papa Paulo VI, Populorum Progressio (O Desenvolvimento dos Povos).

Num de seus trechos, ela dizia: "Não é lícito aumentar a riqueza dos ricos e o poder dos fortes, confirmando a miséria dos pobres e tornando maior a escravidão dos oprimidos".

Estava acontecendo isso no Brasil?

Muitos deputados do MDB achavam que sim. E sempre que podiam faziam discursos criticando o governo. No final de 1968, o deputado Márcio Moreira Alves fez afirmações que os chefes militares consideraram uma ofensa às Forças Armadas. Ele pedia ao povo para não comparecer à parada militar do Dia da Independência, dizendo que "ainda não somos independentes" e que "os militares não merecem os nossos aplausos".

O governo exigiu que o Congresso Nacional processasse o deputado, mas isto não foi feito.

A reação do Governo Militar então foi violenta: decretou o Ato Institucional n. 5, que permitiu ainda mais cassações de mandatos, fechou o Congresso Nacional por tempo indeterminado e levou para a cadeia dezenas de pessoas.

Muitos deputados quiseram que o presidente da Câmara, José Bonifácio de Andrada, a convocasse para tomar uma posição. Ao ser procurado por um grupo do MDB, José Bonifácio, que era da ARENA, respondeu seco:

- Uma bravata inútil.

- A Câmara, que se reúne a propósito de tudo, não pode omitir-se diante do que está ocorrendo, respondeu-lhe o deputado Martins Rodrigues, do MDB.

- Já não existe Câmara, reagiu irritado José Bonifácio. Hoje, aqui, não passamos de um ajuntamento.

Revoltado com o conformismo de José Bonifácio - um descendente do "Patriarca da Independência" -, outro deputado da oposição, Celso Passos, replicou:

- Seja menos Zezinho e mais Andrada, senhor presidente!

Zezinho retrucou... com uma bravata!

A nova situação política do Brasil provocou reações em muitos setores da sociedade.

- O AI-5 é um golpe dentro do golpe, acusaram deputados da oposição, que viam o movimento de 1964 como um golpe e não uma revolução.

[...]

A reação política mais grave viria dos grupos de esquerda, nos quais havia muitos estudantes universitários. Liderados principalmente por ex-integrantes do Partido Comunista Brasileiro, como Carlos Mariguela e Apolônio de Carvalho, esses grupos decidiram iniciar uma luta armada contra o governo:

- Todas as formas de participação estão bloqueadas. Só de armas na mão a ditadura cai! Só organizando a guerrilha na cidade e no campo conseguiremos atrair os trabalhadores, que são os mais oprimidos!

As Forças Armadas, que já se preparavam para combater esses movimentos, iriam permitir?

A primeira etapa da luta armada contra o governo seria a da organização. Grupos clandestinos começaram a se preparar militarmente, e decidiram iniciar uma luta armada contra o governo: Ação Libertadora Nacional (ALN), a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e outros. Como sobreviver e preparar a guerrilha? Era necessário ter fundos, dinheiro. Por isso foram realizados muitos assaltos a bancos.

No início de 1969, um capitão do Exército, Carlos Lamarca, abandonava o seu quartel, em São Paulo, com alguns companheiros, carregando fuzis e metralhadoras. Muitos jovens, alguns deles estudantes secundários ainda, deixavam suas famílias para "fazer a revolução"!

[...]

Iniciava-se uma verdadeira guerra entre as forças militares e os grupos da esquerda armada. Como em toda guerra, muitas pessoas foram vitimadas, mesmo sem ter entrado nos combates. O sonho desses jovens de construir um governo popular e socialista logo daria lugar ao pesadelo das prisões, torturas e mortes.

[...]

Com o correr do tempo, os grupos guerrilheiros seriam derrotados. O sonho logo acabaria para uma geração [...].

ALENCAR, Chico et alli. Brasil vivo: uma nova história da nossa gente - 2. A República.  Petrópolis: Vozes, 1991. p. 210-220.