"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Aborígenes

Figuras sobrepostas sobre um canguru e uma cobra. Área do príncipe regente de Kimberley. Desenho de Joseph Bradshaw

O povo que povoou a Austrália, 40 mil anos atrás permaneceu isolado do resto do mundo até a chegada dis europeus no século XVIII. Praticavam um estilo de vida caçador e coletor praticamente inalterado, adaptado aos diversos climas e condições ambientais de cada região da Austrália. Cada tribo aborígene recebeu o seu território dos "ancestrais", criadores míticos do povo, e a terra não podia ser vendida, trocada nem doada. As tribos aborígenes eram formadas por clãs encabeçadas por anciãos. O Tempo dos Sonhos, a sua mitologia sobre os ancestrais, era transmitida boca a boca. Cada tribo tinha histórias próprias do Tempo dos Sonhos.

WOOLF, Alex. Uma Nova História do Mundo. São Paulo: M.Books do Brasil, 2014. p. 91.

sábado, 3 de dezembro de 2016

A destruição das antigas sociedades e o despovoamento na Oceania até a partilha colonial

Dançarino havaiano, Giulio Ferrario

A distribuição dos lotes insulares esperou menos pelo desenvolvimento dos meios de comunicação, o estabelecimento de linhas comerciais regulares e a revelação de certas riquezas, do que pela depressão dos negócios que, entre 1880 e 1895, superexcitou a concorrência e os apetites. Em 1850, Taiti era a única a estar submetida a protetorado. Quando Paris decidiu anexar a Nova Caledônia, a Austrália lançou um protesto. Foi sem entusiasmo que os britânicos incorporaram as Fidji. Bismarck recusa ainda seu apoio à firma Hansemann, que lhe propõe um estabecimento na Nova Guiné. Entretanto, é a entrada em cena da Alemanha que, imediatamente após a falência dos Godeffroy nas Samoa, precipita a partilha dos territórios insulares entre a Grã-Bretanha, a França, a Alemanha e os Estados Unidos. A pena de ganso dos diplomatas é suficiente para levar a termo esta tarefa.

Da mesma forma que a África intertropical. a Oceania sofrera terrivelmente, sendo dizimados seus efetivos humanos. É certo que são suspeitas as avaliações dos primeiros viajantes: não atribuía Cook 200.000 habitantes a Taiti, 300.000 a 400.000 às Havaí? Em 1900 este último arquipélago conta apenas 125.000 habitantes, dos quais somente 20.000 naturais. Sem dúvida alguma, diversas terras perderam três quartos, se não a totalidade, de sua população. Quando o recuo se detém é porque a emigração fecha os claros. Assim como, dado o desaparecimento ou tendência à extinção de tasmanianos, australianos e maoris, a Australásia tornou-se anglo-saxônica; da mesma forma mestiços e asiáticos vieram repovoar a maior parte dos pequenos paraísos em situação desesperadora.

Na verdade a fraca natalidade não é um fato novo, pois as guerras, o canibalismo e as doenças contribuíam para quebrar, em grande parte, o impulso demográfico. Mas os recém-chegados agravaram o mal. Chacinaram, extenuaram pelos trabalhos forçados, deportaram em massa (para o guano, os peruanos e chilenos levam a metade dos indígenas da ilha de Páscoa e os três quartos dos de Nuculailai, nas Elice; a Melanésia despovoa-se em proveito da Austrália tropical). Venderam armas mais mortíferas e álcool. Se não introduzissem a sífilis, a tísica e a tuberculose, que seriam já antigas, difundiram, por outro lado, a varíola e o sarampo. Loti nos escreve a impressão de uma humanidade em agonia, pois o próprio contacto dos brancos, com suas "convenções", seus "hábitos" e seus "vícios", exerce uma influência dissolvente. Gauguin, por sua vez, na sua qualidade de "primitivo", vindo a Taiti para viver "de êxtase, de calma e de arte", deveria sofrer com as mesquinharias infligidas aos indígenas. Que acontecera ao mito taitiano a que Bougainville dera origem? Conviria mesmo ater-se à recomendação de Diderot: "Comerciai com eles, tomai seus produtos, levai-lhes os nossos, mas não os escravizeis?"

SCHNERB, Robert. O século XIX: as civilizações não-europeias; o limiar do século XX. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996. p. 167-8. (História geral das civilizações, v. 14)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Os tempos da plantação e da mina na Oceania

Vista do interior do Forte de Honolulu, 1853, Paul Emmert

Após 1850 prolongam-se as atividades de pilhagem. Por sua vez, o Estreito de Torres é cenário de um avanço sobre suas ostras perolíferas e adquire o sinistro cognome de "esgoto do Pacífico". Mas desenvolvem-se novas formas de exploração que, aliás, tem como corolário o recurso generalizado ao trabalho forçado.

A partir de 1835 as Havaí chamam a atenção pelas facilidades oferecidas à cultura da cana. Sociedades americanas compram terras, mandam vir chineses, japoneses, filipinos e, depois, portugueses. As Fidji voltam-se para a produção açucareira, após o malogro do algodoeiro, no qual se haviam fundamentado as esperanças, durante a Guerra de Secessão.

Mas a Oceania é tida, sobretudo, como fornecedora de noz de copra. Fala-se de uma civilização do coqueiro, pois esta árvore garante a subsistência dos insulares, dando-lhes não só alimentação e um licor, mas também o material para a construção da choupana e a matéria-prima para fabrico de toda espécie de objetos. Em muitos arquipélagos os indígenas ganham a vida entregando coco aos seus chefes, que tratam com os mercadores. Dada a falta de mão-de-obra nas Samoa, a firma Godeffroy, de Hamburgo, recorre sem grande êxito a melanésios e a cules chineses; nas Salomão faz-se o recrutamento para as Fidji.

Maior ainda é a falta de braços para a exploração do subsolo. Os baleeiros reconheceram a presença de guano em milhares de recifes, por vezes nus e desabitados, e companhias empreenderam a exploração do precioso excremento: é preciso acostar através dos cachopos, subsistir com víveres levados cada três ou quatro meses de Honolulu e de Ápia, arrastar até os pontos de embarque os sacos cheios de adubo; numerosíssimas são as vítimas entre os polinésios, especialmente nas Fênix. Por volta de 1900 começa-se a falar dos fosfatos de Nauru e de Ocean, onde são introduzidos japoneses. Na Nova Caledônia começa a extração do níquel, do cromo e do cobalto, prejudicada pelas más disposições dos canacas, que não admitem também as expropriações de terras feitas em favor dos colonos franceses para a cultura do cafeeiro ou para a criação; em seguida a uma grave revolta, em 1878, as casas de jogo e de ópio de Hong-Kong e Cantão recebem encomenda de cules.

SCHNERB, Robert. O século XIX: as civilizações não-europeias; o limiar do século XX. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996. p. 164 e 167. (História geral das civilizações, v. 14)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A era dos missionários, dos traficantes e dos baleeiros no Pacífico

Os chefes Waikato e Hongi Hika com o missionário Thomas Kendall, James Barry, 1820

As ilhas esparsas no Grande Oceano, durante o século XIX, continuam a surgir aos olhos dos europeus como um mundo à parte, digno de nota pelo seu isolamento e pela singularidade de seus tipos étnicos. Multiplicam-se as conjeturas relativas às origens e às afinidades, tanto dos "negros orientais" - melanésios e micronésios - quanto dos "selvagens brancos", os polinésios. Cook referira-se aos aos "fenícios do mundo oriental": alguns seguiam as migrações polinésias desde o Egito e uma das hipóteses era de que tratava de algumas "tribos perdidas de Israel". Estas civilizações, em todo o caso, por mais adaptadas que fossem ao seu meio, não haviam ultrapassado o estágio da pedra polida.

Nas pegadas dos exploradores que descreveram um verdadeiro Éden, chegam, simultaneamente, homens persuadidos da existência de uma humanidade pronta a acolher a os recursos das ilhas. Os governos europeus observam uma prudente reserva; Guizot acaba renunciando à política de protetorados, praticada pelo Almirante Dupetit-Thouars, e os franceses conservam apenas Taiti. Aliás, os missionários protestantes pretendem agir como se fossem os próprios regentes das circunscrições indígenas.

A expansão cristã iniciara-se em 1797, em Taiti, com a chegada de Dulf, enviado pela Sociedade Missionária de Londres. Em breve, um pouco por toda partem os reverendos esforçam-se por conquistar os chefes em por seu intermédio, agir sobre as populações. Recomendam a destruição dos ídolos, a renúncia dos tabus, ao canibalismo e às guerras, denunciam a nudez, a tatuagem e as danças rituais, preconizam a monogamia e louvam as vantagens da família, abrem escolas; por vezes, nas Polinésias, investem contra os privilégios dos nobres. Nas ilhas Cook, a Sociedade das Missões estabelece um verdadeiro controle teocrático, transformando em crime a "coabitação fora dos laços do casamento", interditando a saída das choupanas durante a noite. Nas Gambier, o Padre Laval é denunciado pelas autoridades militares franceses como um déspota "ridículo". Há chefes que cedem por medo, mas outros o fazem por cálculo. Frequentemente, o indígena adota ritos mal assimilados. O tabu, por vezes, tivera por fim refrear instintos perversos, agora liberados. Debilitando-se a coesão do grupo, desorganiza-se, por vezes, a atividade social. Além disso, as missões não esquecem que devem subvencionar às suas próprias necessidades; entregam-se ao comércio, cobram direitos sobre a venda de roupas e objetos destinados a seus catecúmenos, não hesitam em fazer fortuna com o tráfico dos nácares perolíferos.

Toda uma fauna de aventureiros abate-se sobre as ilhas. Um dos comerciantes americanos que trocam, na China, peles por seda, fazendo escala no Havaí, tem a ideia de embarcar madeira de sândalo e oferecê-la a seus clientes asiáticos. Outro mercador interessado pelo tripango, uma holotúria apreciada pelos gastrônomos de Cantão, graças ao sabor e às qualidades afrodisíacas. Depois a atenção dos brancos volta-se para a casca de tartaruga e o nácar perolífero. Oferecem tecidos de algodão, facas, fuzis ou rum; mas chegam ao ponto de prender reféns para garantir a entrega das quantidades reclamadas. Todas as ilhas de recifes padecem mais ou menos com a presença das ostras perolíferas. Não é raro que, para cobrir os claros causados pelo escorbuto nas fileiras das tripulações, alguns indígenas sejam embarcados à força. Muitos potentados tiram proveito da cupidez dos brancos: tal é o caso do rei do Havaí que, forçando seus súditos a desleixar as culturas de gêneros alimentícios e a cortar madeira de sândalo, provoca a fome nas suas ilhas.

As visitas dos baleeiros que ali fazem escala não são menos desastrosas. Praticam a troca para conseguir víveres frescos, mas não deixam de abusar das populações, violando as mulheres, raptando ou matando os homens. Regiões como as ilhas da Sociedade, as Fidji, as Marshall e as Carolinas jamais se recompensaram destes estragos.

SCHNERB, Robert. O século XIX: as civilizações não-europeias; o limiar do século XX. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996. p. 162-4. (História geral das civilizações, v. 14)

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Nan Madol

Ruínas de Nan Madol.
Foto NOAA

A oeste do Havaí, fica a ilha Pohnpei, na Micronésia. Ao longo do litoral leste estão as ruínas da cidade de Nan Madol, construída em alguma época entre 500 e 1500 d.C. A cidade é formada por 92 pequenas ilhas artificiais ligadas por uma rede de canais que dão à cidade o apelido de Veneza do Pacífico. Nan Madol ocupa uma área de 28 km² e, provavelmente, sustentava uma população entre 500 e 1.000 habitantes. Não se conhecem os seus construtores, mas só um Estado poderoso e centralizado teria recursos para construir uma cidade dessas. De acordo com a lenda, ela era a capital da dinastia Saudeleur, que governou Pohnpei no início do segundo milênio d.C. A porção nordeste do local, conhecida como Madol Powe, contém túmulos reais e a moradia dos sacerdotes; já Madol Pah, no sudoeste, contém residências reais e um centro cerimonial.

WOOLF, Alex. Uma Nova História do Mundo. São Paulo: M. Books do Brasil, 2014. p.145.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Povos do mundo: Oceania

[Dança de guerra maori, Thomas John Grant]

[Vila Maori, George French Angas]

[Caça ao canguru, Peter Purves Smith]

[A refeição, Paul Gauguin]

[A invocação, Paul Gauguin]

[Nativos da Tasmânia, Robert Hawker Dowling]

[Aborígenes tasmanianos, Robert Hawker Dowling]

[Mulheres das Ilhas Sandwich preparando alimentos, James Gay Sawkins]

[Dança dos homens das Ilhas Sandwich, Louis Choris]

[Dança das mulheres das Ilhas Sandwich, Lois Choris]

[Havaianos, Arman Manookian]

[Uma canoa das Ilhas Sandwich, John Webber]

[Boki e Hekeli num barco, Mikhail Tikhanov]


[Cena cotidiana nas Ilhas Sandwich, Romuald Georges Ménard]

[Habitação dos aborígenes, Franz Hernsheim]

[Canoa havaiana, Joseph Dwight Strong]

[Interior de uma cabana de um chefe das Ilhas Sandwich, Louis Choris]

[Samoa, Louis Eilshemius]

[Chefes em dança de guerra, Fiji, John LaFarge]

[Um aborígene tasmaniano atirando uma lança, Benjamin Duterrau]

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Colonialismo na Austrália e na Nova Zelândia

Os primeiros contatos europeus com a Austrália aconteceram no século XVII quando exploradores holandeses mapearam o litoral ocidental e setentrional do continente. Em 1642, Abel Tasman avistou a Tasmânia e seguiu parte da costa da Nova Zelândia. M 1769 e 1770, o navegador britânico James Cook mapeou o litoral da Nova Zelândia e desembarcou no leste da Austrália, reivindicando-a para a Grã-Bretanha. O povoamento europeu começou em 1788 quando o governo britânico fundou ali uma colônia penal. Cerca de 750 condenados e 200 soldados desembarcaram na baía Botany antes de serem transferidos para Port Jackson (a moderna Sydney). Nos 80 anos seguintes, mais 160 mil condenados foram enviados para colônias penais criadas no litoral leste, sul e oeste da Austrália.

Uma vista da Baía dos Assassinos. Desenho feito pelo artista Abel Tasman por ocasião de uma escaramuça entre os exploradores holandeses e o povo maori. Esta é a primeira impressão dos europeus do povo maori. Isaack Gilsemans

- Primeiros colonos. A princípio, os colonos viveram da pesca e da caça de baleias e focas, além de suprimentos enviados pela Inglaterra. Aos poucos, soldados desmobilizados e presos libertados começaram a cultivar pequenas roças. A terra em torno de Sydney não era boa para a agricultura, mas na década de 1820 desenvolveu-se uma rota para o interior que revelou vastas planícies adequadas para a pecuária. Os colonos livres recorreram à criação de ovinos e logo a exportação de lã para a Grã-Bretanha se tornou uma parte fundamental da economia da Austrália.

A necessidade de mais pastos provocou conflitos com os habitantes aborígenes locais. Quando estes tentaram resistir à ocupação das suas terras e recursos hídricos, os colonos realizaram ataques de vingança e houve massacres ocasionais, por causa disso e da exposição a doenças europeias como a varíola, a população aborígene declinou drasticamente. Em 1900, a população era cerca da metade do total de 1788.

Massacre de Boyd, 1809. Louis Auguste Sainson


- A febre do ouro. A partir da década de 1830, o governo britânico começou a estimular a imigração de colonos livres para Austrália. A população livre cresceu rapidamente depois de 1851 com a descoberta de ouro em vários locais. A população aumentou de 405 mil habitantes em 1850 para quatro milhões em 1900. A febre do ouro contaminou as colônias e acorreram garimpeiros às minas de Bathurst, Ballarat, Bendigo e Kalgoorlie na tentativa de fazer fortuna. Milhares de mineiros chineses e asiáticos foram enviados sob contrato de servidão. Os chineses foram alvo de um racismo feroz que provocou leis de imigração mais estritas.

A extração de ouro transformou a economia e a sociedade da Austrália. Também teve impacto sobre o seu desenvolvimento político. Cada garimpeiro precisava comprar uma licença antes de sair em busca de ouro. Os mineiros de Ballarat opuseram-se ferozmente à taxa de licenciamento e criaram um movimento de reformas que também exigia o direito de voto. Os protestos levaram a um massacre em 1854. No ano seguinte, a taxa de licenciamento foi abolida e os mineiros receberam o direito de votar.

A explosão da estela de Boyd. Louis John Steel

- Autogoverno. Com o aumento da população, também cresceu a reivindicação de independência. Em 1850, o governo britânico concedeu em princípio esse direito, e, em 1856, Nova Gales do Sul, Vitória e Tasmânia passaram a se autogovernar, seguidas por Austrália Meridional (1857), Queensland (fundada em 1859) e Austrália Ocidental (1870). Todos os Estados optaram por governos representativos com sufrágio masculino universal. Então, em 1894, as mulheres da Austrália Meridional estiveram entre as primeiras da história a conquistar o direito de voto. Em 1901, criou-se a Comunidade da Austrália para promover o comércio entre os estados e facilitar uma política de defesa comum.

Reunião de colonos e maoris na Baía de Hawke, Nova Zelândia. M. Jackson

- Exploração. O navegador e cartógrafo Mattew Flinders foi o primeiro a circunavegar a Austrália em 1802 e 1803, mas as condições inóspitas impediram durante várias décadas a exploração do interior do continente. Edward Eyre atravessou a Austrália Meridional de leste a oeste entre 1839 e 1841, e Ludwig Leichardt percorreu o noroeste da baía de Moreton até Port Essington em 1844 e 1845. Burke e Wills foram os primeiros a atravessar o continente inteiro, indo de sul a norte em 1860 e 1861. John Stuart encontrou o centro geográfico do continente em 1860, durante a sua travessia. Na década de 1870, novas expedições se concentraram na Austrália Ocidental e abriram para o pastoreio as regiões de Pilbara e Kimberley. As comunicações transcontinentais foram auxiliadas pela criação de uma rede de telégrafo em 1871 e o término da construção da ferrovia Transaustraliana em 1917.

Um grupo de jovens maoris pendurados em cordas presas do topo de um poste. Um grupo de adultos e crianças sentadas assistem. George French, Angas, Giles, Joseph Jenner e Merret

- Nova Zelândia. Os primeiros povoadores europeus foram caçadores de focas de Nova Gales do Sul que, em 1792, desembarcaram na Baía das Ilhas. Em troca de terra, eles deram aos indígenas maoris mosquetes que, a partir de 1818, levaram às “Guerras dos Mosquetes” entre grupos maoris rivais. Baleeiros e caçadores de focas australianos também fundaram povoados na Ilha do Sul. A guerra entre colonos e tribos maoris se tornou comum. A desobediência às leis obrigou o governo britânico a intervir. Em 1840, representantes britânicos e líderes maoris assinaram o Tratado de Waitangi, segundo o qual aos maoris cediam o controle da terra em troca de direito de propriedade, cidadania e proteção. Mal-entendidos quanto aos termos do tratado levaram a novos choques e a uma guerra de 1859 a 1863. A resistência maori persistiu até 1872, e a paz formal foi assinada em 1881. A descoberta de ouro em Otago, em 1861, estimulou a imigração na Nova Zelândia e o ouro logo substituiu a lã como principal produto de exportação. Em 1907, a Nova Zelândia tornou-se um domínio com governo próprio dentro do Império Britânico. 

WOOLF, Alex. Uma Nova História do Mundo. São Paulo: M.Books do Brasil, 2014. p. 236-237.

NOTA: O texto "Colonialismo na Austrália e na Nova Zelândia" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 11 de outubro de 2014

Povos da Oceania: os polinésios

Um retrato de Heeni Hirini (também conhecido como Ana Rupene) e a criança, Gottfried Lindauer

[...] Ramo secundário dos europóides, com elementos mongolóides e negróides, eram de estatura elevada, com facies europeu, nariz fino, cabeleira lisa, tez morena, com a vista e o ouvido mais aguçados do que os europeus mas com olfato e gosto diferentes.

Navegadores incomparáveis, eram capazes de percorrer, sem escala, 2.500 quilômetros. Sabiam calcular a posição utilizando cabaças nas quais praticavam orifícios. Nas Samoas e no arquipélago Tonga, as pirogas duplas, com 30 metros de comprimento, chegavam a levar 140 remadores. Cada ilha possuía uma frota. Cook contou 220 unidades em Taiti, cuja população, segundo cálculos, atingia 200.000 habitantes.

Um retrato do Sr. Paramena, Gottfried Lindauer.

Os utensílios de que dispunham pertenciam à idade da pedra polida mas os seus objetos, principalmente os dos Maoris da Noza Zelândia, imitavam, segundo parece, os de metal. Seus antepassados haviam conhecido, ao que se julga, o metal e a cerâmica. Em todo o caso, estas artes haviam sido esquecidas, na Polinésia, quando os europeus chegaram, e é certo que os seus utensílios já haviam sido melhores, antes do século XVIII.

Seu vestuário era de Phormium tenax (linho) na Nova Zelândia. Entretanto, nas ilhas quentes haviam abandonado o tear de seus antepassados pelo trabalho com cascas de árvores, de que faziam saias enfeitadas com galões e triângulos. Usavam plumas brilhantes, folhas lanceoladas e finas tatuagens.

Um retrato da Sra. Paramena, Gottfried Landauer

Suas casas tinham como base plataformas de pedra, cobertas de esteiras. Nas Ilhas Marquesas atingiam um comprimento entre 20 a 100 metros, e tinham mosquiteiros e travesseiros de bambu. Os maoris possuíam fortes que podiam conter vários milhares de pessoas, com fossos, parapeito, paliçadas e plataformas mais elevadas para os defensores.

Estes povos encontravam-se no estágio da grande família de várias centenas de pessoas análogas à gens romana e aos genos gregos. A sociedade estava dividida em classes hierarquizadas, reis, nobres, homens livres e escravos. O rei, hereditário em linha masculina, por ordem de primogenitura, era uma encarnação da divindade e, por conseqüência, sagrada. Os nobres possuíam feudos e dominavam as assembléias deliberativas. Dispunham de toda a terra. Suas ossadas eram depositadas nos lugares sagrados e só eles tinham direito à sobrevivência. Escolhiam chefes locais que decidiam, com poder absoluto, sobre todas as empresas comuns e que eram substituídos se demonstravam indecisão ou má capacidade de julgamento. Os homens, teoricamente livres, eram, de fato, passíveis, segundo a vontade dos senhores, de talhas e corvéias.

Um retrato de Kewene Te Haho, Gottfried Landauer

A sua religião parecia conter elementos bramânicos, talvez persas ou babilônicos. Os maoris, por exemplo, acreditavam num Deus supremo, eterno, onipotente, justo, que habitava no duodécimo céu. Mas era tão sagrado que a maioria dos maoris morria sem saber que esta parte da sua religião existia. Tinham depois, todos, um panteão de grandes deuses do céu e de deuses locais, das florestas, das colheitas, da guerra, do mar, do mal, com toda uma mitologia explicativa do universo. Adoravam, além disso, uma multidão de espíritos espalhados por toda a natureza e os espíritos dos antepassados. A classe sacerdotal, recrutada entre os nobres, conservava as narrativas míticas e presidia às cerimônias, que compreendiam sacrifícios humanos. A Ilha Caiatia era a sede de sacrifícios comuns a toda a Polinésia. Empregava-se a magia. A religião provocara o aparecimento de uma poesia de grande beleza e de uma escultura de valor que muitas vezes visava apenas proporcionar prazer.

Um retrato de Taraia Ngakuti Te Tumuhia, Gottfried Lindauer

Havia continuamente guerras entre estes povos. As aldeias e as plantações eram incendiadas; comiam-se os vencidos, sendo o coração reservado aos chefes.

[...]

Nos séculos seguintes, em contato com os europeus, os oceaninos declinaram muito.

MOUSNIER, Roland; LABROUSSE, Ernest. O século XVIII: o último século do antigo regime. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 377-379. (História geral das civilizações, v. 11)

NOTA: O texto "Povos da Oceania: os polinésios" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Povos da Oceania: os melanésios e os micronésios

Tohunga sendo alimentado no tapu (sagrado/proibido), Gottfried Lindauer. 

Os melanésios encontravam-se num estágio de civilização que recordava o período neolítico adiantado. Fisicamente mais evoluídos, de barba rala, o nariz mais reto, as arcadas supraciliares raramente proeminentes, usavam enfeites mais rebuscados: tatuagens para as mulheres, pinturas no corpo para os homens, deformação da cabeça ou da cintura, descoloração dos cabelos, ou pintura com ocre, colares e braceletes feitos de dentes e de conchas, plumas ou flores nos cabelos.

Seus utensílios eram mais aperfeiçoados: achas de pedra polida, facas de conchas, limas em pele de raia, sovelas de ouro, armas variadas, compreendendo arcos e fundas. Eram principalmente excelentes marinheiros que sabiam construir e dirigir grandes pirogas e também hábeis agricultores que, com um simples pau para revolver a terra, cultivavam inhame e taro. Conheciam o sistema monetário, baseado em plumas ou em dentes, eram ávidos de lucro e alguns faziam belas fortunas, emprestando a um juro de 100%.

Sua sociedade era matriarcal. Eram os tios quem mandavam nos filhos da irmã. Os homens comiam e dormiam numa espécie de clube da aldeia e os dois sexos viviam quase sempre separados. O casamento fazia-se por compra e os ricos eram polígamos.

O Estado político era democrático, mas as sociedades secretas desempenhavam grande papel e nestas só os ricos, que podiam despender grandes somas e dar festas, ascendiam aos graus superiores. Estas sociedades aterrorizavam os não-iniciados por meio de agressões, multas e até a morte.

Suas crenças religiosas eram vivas, embora, ao mesmo tempo, de um nível inferior às dos outros povos precedentes, menos civilizados. Acreditavam no mana, virtude sobrenatural transmissível. Um bom pescador possuía o mana. Para triunfar em qualquer coisa era preciso mana, e este podia conseguir-se através da magia. Algumas formas de mana eram perigosas. Nessa altura o tabu (interdição) era lançado sobre as pessoas, os objetos ou os lugares que o possuíam. Todos eram animistas, isto é, acreditavam na existência de espíritos difundidos nas pedras, nas árvores, nas serpentes, em toda parte. Mas não se elevavam ao politeísmo; acreditavam na sobrevivência dos espíritos dos mortos. Entregavam-se a preces, sacrifícios, cantos ritmados e talhavam na madeira a figura do antepassado que participaria na vida de seus descendentes.

Os micronésios assemelhavam-se-lhes muito, embora num grau um pouco mais elevado. Navegadores notáveis, os seus comerciantes realizavam longas viagens em pirogas de balancim, servindo-se de mapas feitos de canos de bambu. Tinham uma nobreza e servos. Os navegadores mais peritos eram recompensados com a concessão de feudos. Certas ilhas haviam atingido o politeísmo e possuíam um rico panteão, dominado por um Deus.


MOUSNIER, Roland; LABROUSSE, Ernest. O século XVIII: o último século do antigo regime. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 376-377 (História geral das civilizações, v. 11)

NOTA: O texto "Povos da Oceania: os melanésios e os micronésios" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 4 de outubro de 2014

Povos da Oceania: os australianos

Pōtatau Te Wherowhero, chefe Waikato, Giles e Merrett

Os australianos, que pertenciam a um nível um pouco superior, raça formada por uma mistura de elementos europóides e negróides, encontravam-se no estádio paleolítico europeu do Moustier. De pele morena, ou cor de chocolate, com o corpo coberto de pêlos, as arcadas supraciliares enormes, a testa deprimida e fugidia, os maxilares salientes, a boca grossa, o nariz largo, tinham um cérebro nitidamente inferior em peso e desenvolvimento ao dos brancos.

Vestidos sumariamente, sabiam, entretanto, construir cabanas de ramos, fazer fogo por meio da rotação rápida de um furador numa tábua. Dispunham de armas de pedra, desde o coup-de-poing lascado do Moustier com a lança neolítica, a azagaia e o famoso boomerang, mas ignoravam o arco e a flecha, assim como a cerâmica, aliás. Viviam da coleta e principalmente da caça: caracóis, ameijoas de água doce, lagartas, aves, cangurus, lagartos, opossuns e uma espécie de avestruz, a ema. Aliás, sabiam obrigar um canguru a correr e descobrir a pista da caça, farejando a terra.

A sua organização social era mais elevada. A tribo tinha chefes permanentes, os anciãos; dividia-se em grupos, com a regra imperiosa do casamento fora do grupo; possuía territórios de percurso distinto das outras tribos; havia, portanto, um direito internacional.

As concepções religiosas eram desenvolvidas. A crença na sobrevivência da alma era geral. Os espíritos dos mortos podiam reencarnar-se: os primeiros europeus, seres que saíram do mar, de pele pálida, olhos brilhantes (por causa do desenvolvimento maior do sistema nervoso), encheram os australianos de um terror físico e foram tomados por fantasmas. Os australianos prestavam regularmente honras fúnebres aos mortos. Algumas tribos até comiam os cadáveres para assimilarem o seu princípio vital. Todas possuíam o seu totem, ou antepassado comum, cujos descendentes celebravam fraternalmente cerimônias mágicas. Alguns concebiam um deus imortal que subira ao céu depois de ter vivido na terra e ao qual os iniciados iam juntar-se, quando morriam. Todos conheciam a magia. Os jovens ficavam aptos a casar-se e a exercer funções sociais mediante uma iniciação complicada que compreendia a extração de um incisivo superior, a circuncisão, apresentação de desenhos e narrativas míticas mantidas em segredo para as mulheres.

Os outros povos encontravam-se em níveis nitidamente superiores. Se excetuarmos os papuas, de nariz adunco, de ponta grossa em forma de bico e que pareciam uma raça pura, julga-se, hoje, pelo estudo das línguas e de certos hábitos materiais, como a piroga da balancim, que todos estes povos, apesar das suas diferenças, participavam da mesma cultura oceânica e tinham todos a mesma origem. Seriam provindos da Malásia, donde se teriam espalhado para leste, por todo o Pacífico e talvez até a América, a oeste de Camboja para Ceilão, Madagáscar (Hovas), assim como pela costa leste da África. As migrações desses povos teriam começado entre os séculos II e V d.C., atingindo o apogeu entre 900 e 1350. Seguidamente, verificou-se o declínio dessas populações, assim como de suas aptidões para a navegação.

MOUSNIER, Roland; LABROUSSE, Ernest. O século XVIII: o último século do antigo regime. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 375-376. (História geral das civilizações, v. 11)

NOTA: O texto "Povos da Oceania: os australianos" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Povos da Oceania: os tasmanianos

Dança da guerra, Thomas John Grant 

Os europeus, convencidos há muito tempo da unidade espiritual do gênero humano e da superioridade do estado da natureza pura, interessaram-se vivamente pelos indígenas da Oceania. Bougainville e Cook observaram-nos com um interesse apaixonado. Os dois Forster, que acompanharam Cook na sua terceira viagem, criaram assim, com Buffon, a ciência da formação e da classificação das raças, a etnologia.

Os europeus julgaram encontrar-se em presença de raças primitivas, das próprias origens da humanidade. É certo que as tribos se achavam em toda parte na idade da pedra e que os seus utensílios lembravam os dos tempos pré-históricos. Tratava-se, na realidade, não de primitivos, mas de povos que haviam sofrido uma longa evolução, e que, na sua maioria, já haviam conhecido uma civilização superior, encontrando-se em plena regressão à chegada dos europeus.

Com efeito, parece que todos estes povos constituem raças originárias da Ásia Meridional, as quais, vencidas por outras, teriam fugido na direção indicada pelas migrações de certas aves. Ao chegarem aos territórios onde se iam estabelecer, de recursos limitados por se encontrarem isolados há muito tempo dos outros continentes, dispunham de poucas espécies vegetais, de poucos mamíferos. Além disso, por causa da exigüidade das ilhas, teriam rapidamente deparado com obstáculos provenientes da superpopulação, da dificuldade de alimentação, e, portanto, achavam-se expostos a guerras contínuas, à prática do aborto, do infanticídio e do canibalismo, assim como às preocupações imediatas e absorventes com a comida. Foi neste estado que os europeus os encontraram, com tal receio da superpopulação que, em toda parte, o número de habitantes diminuía devido à restrição voluntária dos nascimentos. Não é de espantar, portanto, que as civilizações não se tenham desenvolvido ou hajam mesmo regredido. Levando em conta este declínio, assim como os cruzamentos e as influências recíprocas, pode admitir-se que a Oceania tenha sido, de certa maneira, um “conservatório de raças”.

Os únicos povos a que poderia atribuir-se, segundo parece, o nome de primitivos eram os tasmanianos e os australianos, que se encontravam nos escalões mais inferiores da espécie humana.

Grupo de nativos da Tasmânia, Robert Dowling

Os tasmanianos estavam no ponto mais baixo. Fixados na ilha numa época em que o Estreito de Bass era transponível mesmo pelos navegadores mais medíocres, no pleistoceno médio, antes do degelo dos glaciares que elevou o nível dos mares e quintuplicou pelo menos a largura dos estreitos, haviam vivido num estado de isolamento que é, para as civilizações, a causa mais eficaz de estagnação e de regressão. A sua população, de cerca de 5.000 negróides de cabelos crespos, maxilares muito desenvolvidos, crânios deprimidos, fortes arcadas supraciliares, constituía o conjunto de seres humanos mais próximos dos símios; o seu crânio apresentava a elevação mediana em forma de quilha que é uma das principais características simiescas. Os seus utensílios colocavam-nos no estágio dos paleolíticos inferiores da Europa Ocidental, chelense e acheulense. Ignoravam o vestuário, as casas, abrigavam-se atrás de anteparos de ramagens, viviam da coleta e da caça sem cão. A sua organização social era rudimentar: tinham apenas chefes temporários, eleitos. Acreditavam na sobrevivência da alma e temiam os mortos. Possuíam mesmo certos traços de uma religião superior, um monoteísmo: adoravam um espírito supremo, em relações mal definidas com o céu e os fenômenos naturais. Desapareceram no século seguinte.


MOUSNIER, Roland; LABROUSSE, Ernest. O século XVIII: o último século do antigo regime. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 373-375. (História geral das civilizações, v. 11)

NOTA: O texto "Povos da Oceania: os tasmanianos" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 2 de março de 2014

A exploração da Oceania

Os navios Resolution e Adventure, ancorados diante da ilha de Taiti, em 1773. William Hodges

Povo aborígene pescando e acampando em Merri Creek. Charles Troedel

Os primeiros navegadores europeus que se empenharam na exploração do oceano Pacífico estavam, em sua maioria, a serviço da Companhia Holandesa das Índias Orientais. Nessas viagens, chegaram às costas australianas, à Nova Guiné, à Nova Zelândia e a vários arquipélagos, como os das ilhas Salomão, Tonga e Fidji. Entre os grandes exploradores desse período inicial destacou-se o holandês Abel Tasman (1603-1659), que descobriu a ilha batizada por ele de Tasmânia e explorou a costa meridional da Austrália, dela fazendo os primeiros mapas. Até a metade do século XVIII, porém, não houve maior interesse pela exploração do continente australiano, já que nele não se encontravam especiarias e jazidas de metais preciosos.


Uma oferenda antes do Capitão Cook nas ilhas Sandwich, John Webber

Timmy, um aborígene da Tasmânia, atirando uma lança. Benjamin Duterrau

Em 1768, uma expedição inglesa comandada pelo capitão James Cook (1728-1779), seguiu para os chamados “mares do Sul” a fim de explora-los. Cook fez um detalhado relatório dessa viagem, de grande importância para o conhecimento geográfico da época. Depois de atingir as ilhas do Taiti e da Nova Zelândia, o navegador inglês chegou à costa meridional da Austrália, que chamou de Nova Gales do Sul e da qual tomou posse em nome da Grã-Bretanha.


Representação de um sacrifício humano no Taiti, John Webber

Canoas aborígenes comunicando-se com o monarca e Tom Tough, 28 de agosto de 1855. John Thomas Baines

Em 1786, a Nova Gales do Sul tornou-se uma possessão da Coroa britânica, que ali instalou uma colônia penal. O primeiro grupo de deportados (cerca de setecentos) foi levado para a colônia pelo capitão Arthur Phillip, que se estabeleceu na região onde atualmente se encontra a cidade de Sidney. Nos primeiros anos, a vida da colônia foi marcada por uma série de dificuldades e incidentes, tendo o governador entrado em choque com alguns oficiais que haviam recebido concessões de terras e pretendiam explora-las utilizando a força de trabalho dos deportados. A situação agravou-se ainda mais com a nomeação de William Bligh (1754-1817) para governador da Nova Gales do Sul. Devido à sua extrema severidade, Bligh já havia provocado, em 1789, o motim da tripulação de um navio por ele comandado, o Bounty. A crise chegou a tal ponto que, em 1808, os colonos se rebelaram e aprisionaram o governador, o que levou o governo britânico a retirar suas tropas da região. Apesar de todos esses problemas, a Austrália logo passou a desempenhar um papel muito importante na economia colonial inglesa, principalmente depois que nela foi introduzido a criação de bovinos e ovinos.


Tambores do Taiti. Ídolos das iIlhas Sandwich. Pás. Altar. John Webber

Corrobore, sul da Austrália. WR Thomas

O primitivo estágio de desenvolvimento cultural em que se encontravam os aborígines australianos despertou grande interesse nos exploradores e estudiosos europeus. James Cook e Louis Antoine Bougainville (1729-1811), por exemplo, fizeram análises bastante minuciosas do modo de vida e dos costumes desses povos. Tendo participado da terceira expedição de James Cook ao Pacífico (1776-1779), os naturalistas George Louis Leclerc Buffon (1707-1788), Johann Reinhold Forster (1729-1798) e Johann Georg Adam Forster (1729-1794) realizaram profundos estudos etnológicos sobre os nativos da Austrália e das ilhas do Pacífico, que se estendiam desde o sudeste asiático até o oeste das Américas. Como essas populações ainda se achavam culturalmente na Idade da Pedra, esses cientistas europeus chegaram a acreditar, em um primeiro momento, que haviam desvendado o mistério da origem do homem.

HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 110 e 112. Volume IV.

NOTA: O texto "A exploração da Oceania" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 17 de novembro de 2012

Em direção à Polinésia / Ilha de Páscoa / Maoris

Moais, Ilha de Páscoa

O mundo ainda encontrava-se dividido em centenas de minúsculos mundos que eram quase independentes. Enquanto a Europa e a China formavam cada uma grandes mundos, com o tráfego fluindo entre si, a África, as Américas e a Australásia consistiam de vários mundos pequenos e isolados [...].

[...] Em toda a história humana, houve somente três grandes passos que cruzaram os mares para povoar grandes terras desabitadas: um foi a migração, há mais de 50.000 anos atrás, da Ásia para a Nova Guiné e Austrália, outro foi a migração da Ásia para o Alaska há mais de 20.000 anos, seguido pela lenta ocupação de todo o continente americano; o terceiro, em tempos bem recentes, foi a migração dos povos da Polinésia para uma extensa faixa de ilhas desabitadas dos oceanos Pacífico e Índico. Uma das marcas de que essa migração é recente é que ela aconteceu na era cristã [...].

[...]

A lenta migração em direção às ilhas começou no sul da China, de clima tropical e coberta de florestas. [...] Uma vez em terra, eles estabeleciam seus modos de vida [...]; faziam suas próprias ferramentas de pedra, sabiam fazer o tipo de cerâmica na época comumente usada na China e, provavelmente criavam porcos, galinhas e cães. Não há dúvidas que eram hábeis na navegação. [...]

Sua sucessão de viagens lentamente movia-se para o leste, intermitentemente, de ilha em ilha. Nos mil anos que se seguiram, esses povos do mar chegaram às ilhas das Filipinas, das quais pedaços de terra foram limpos para plantações. [...] Nesses lugares, os habitantes existentes foram derrotados em guerra, reduzidos por novas doenças, empurrados para as colinas menos favoráveis ou simplesmente absorvidos nas classes dos povos invasores.

[...]

As viagens desses povos, apinhados em suas canoas, seguiam um tipo de lógica. Aventurando-se rumo ao leste, eles tinham a probabilidade de descobrir ilhas, habitadas ou não, de clima tropical e vegetação como a que tinham acabado de deixar para trás. Na fase inicial da migração, os ventos também foram favoráveis. [...]

A lenta rota da migração equatorial chegou à ilha de Nova Guiné, já há muito povoada, ocupando algumas partes da costa por volta de 1600 a.C. Em seguida, entrou na região das ilhas tropicais, onde nenhum ser humano vivia. Em 1200 a.C., as velas marrons de seus barcos já se encontravam nas vilas costeiras de Nova Caledônia, Tonga, Fiji, Ilhas Salomão e Samoa. Em 500 d.C., seus barcos foram vistos em torno do Havaí e da Ilha de Páscoa. [...]

Ao longo de uma linha de ilhas que formavam um tipo de Via Láctea cruzando o Pacífico, esses marinheiros deixaram para trás evidências eloquentes de suas origens. Mesmo hoje, desde as partes isoladas das montanhas de Taiwan até a Ilha de Páscoa e a Ilha Pitcairn, a leste, a família de línguas austronésias sobrevive.

Para os polinésios, o fato de encontrarem a presença de vulcões na Ilha de Páscoa foi um triunfo especial. Era um mero ponto no oceano, a 1600 quilômetros da terra habitada mais próxima. Um dia densamente arborizada, tornou-se tão desmatada pelos novos colonizadores que, no final, seus imponentes monumentos não eram antigas árvores, mas estátuas de pedra, em torno de seiscentas delas no total. [...] Na língua e na sociedade, os habitantes da Ilha de Páscoa eram polinésios, mas suas estátuas e sua forma de escrita sugerem um antepassado ou influências diferentes.



Os polinésios iam desde tribos que viviam em conflito entre si a fortes monarquias que governavam muitas ilhas. O Havaí, com talvez 200.000 mil habitantes ou mais, era praticamente uma monarquia na época da chegada dos primeiros europeus. [...]

Durante essa longa temporada de migrações, outros exploradores alcançaram a imensa ilha desabitada de Madagáscar. A nordeste de Madagáscar, o mar contínuo se estendia até o arquipélago indonésio, a cerca de 5000 quilômetros de distância. [...]

A primeira viagem a Madagáscar, favorecida pela monção de nordeste, aconteceu quando a cidade de Roma estava em rápido declínio, por volta de 400 d.C. [...]

Madagáscar e Nova Zelândia foram as últimas áreas habitáveis de tamanho considerável a serem descobertas e colonizadas pela raça humana. [...] Triunfos na história das navegações humanas eram parte de uma saga de descobrimentos e migrações que praticamente se findaram por volta de 1000 d.C.


Dança de guerra maori, Nova Zelândia, Joseph Jenner Merrett

[Maoris] Do mar, os vilarejos fortificados dos primeiros maoris devem ter sido facilmente avistados. Alguns ocupavam promontórios estreitos e, portanto, eram rodeados nos três lados pelo mar, sua primeira linha de defesa. A subida íngreme e geralmente perpendicular da praia ou dos rochedos até o forte era a segunda linha de defesa. A terceira linha de defesa ainda mais alta era uma cerca de mourões resistentes bem construída, com uma fileira de piquetes de madeira entre si, fincados no chão em espaçamento regular. [...]



Discurso de guerra, Augustus Earle.
 Um chefe Maori em pé numa canoa encalhada, abordando uma multidão de guerreiros, principalmente sentados, com alguns em pé. Duas outras longas canoas estão na praia, e uma com vela está no mar. Um cão (kurī) fareja o chão em primeiro plano. A maioria dos homens estão armados. Uma cabaça e kit de linho são centralmente posicionados entre um grupo de homens.  Earle diz: "um grupo de guerreiros tinha coletado na Baía das ilhas com a finalidade de fazer uma visita hostil a uma tribo de Hauraki. Eles foram detidos por ventos contrários; e por vários dias estavam constantemente envolvidos em ouvir os discursos de seus chefes, que lhes de uma canoa transportada na praia... uma [canoa], que eu medi, tinha 70 metros de comprimento e carregava cem homens a lutar." Augustus Earle

Nos pontos mais altos do vilarejo havia residências de madeira, com depósitos espalhados em alguns lugares. Os depósitos ficavam sobre plataformas para que os ratos não pudessem roubar alimentos [...]. As casas em si, com seus telhados inclinados feitos de sapê, não tinham paredes e deixavam entrar a brisa do mar. [...]

Taupiri, George French Angas

[...]

Uma enorme extensão de terras no interior era necessária para abastecer cada tribo ou vilarejo com alimentos. Os pomares eram cavados com pedaços de pau compridos, de formato semelhante a um pé-de-cabra. A camada superficial do solo era, então, empilhada em fileiras perfeitas com uma pá de madeira e o solo removido plantado com tubérculos. A kumara era o mais valioso desses vegetais. Semelhante a um inhame ou batata doce bem comprido, com uma das pontas ligeiramente grossa e a casca externa rosa-avermelhada, plantava-se a kumara em dias ditados pela fase da lua.


Harriet, esposa de Heke, Hona Heke e Kawiti. Joseph Jenner Merrett

[...] Nas ilhas do Norte e do Sul, o enorme pássaro moa, capaz de correr com grande velocidade, mas incapaz de voar, era uma presa fácil dos caçadores maoris. [...]

Os maoris caçaram o moa com tanto vigor que, por volta de 1400 ou 1500, a espécie estava praticamente extinta. As águias de asas compridas que caçavam os filhotes de moa também estavam condenadas; já não se viam mais águias sobrevoando a região quando os primeiros colonizadores europeus ali chegaram.


Casa de Otawhao, construído por Puatia, para comemorar a tomada de Maketu.  Mostra uma casa esculpida, chamada de wharepuni ou wharenui. George French Angas e J. W. Giles

Não possuindo cerâmica, os maoris usavam a casca externa das cabaças que, no verão, cresciam das trepadeiras que se esparramavam nos telhados das casas ou pelos pomares plantados. Não tinham rebanhos [...]. A pedra tinha de ser usada em vez do metal, e era modelada ou manufaturada com habilidade de artesão [...]. 

Os europeus que viram os polinésios, quando seu modo de vida estava prestes a mudar, ficaram impressionados com sua coragem. Os observadores também notaram a violência dos polinésios: os sacrifícios humanos e o canibalismo. [...]

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do mundo. São Paulo: Fundamento Educacional, 2004. p. 101-106.