"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 11 de setembro de 2016

American way of life

A nova posição feminina expressava-se por meio de comportamentos considerados ousados e vistos pelos conservadores como mais uma "prova" de decadência nos padrões de convivência humana: encurtamento das saias até os joelhos, cabelo curto, hábito de frequentar bares e prática de danças como o foxtrote e o charleston. 
Foto: Inspeção de trajes de banho em 1919, Estados Unidos. Se o modelo fosse muito curto, a moça tinha que pagar multa

O milagre americano criou condições para que aflorasse, nas classes médias e na burguesia, um estilo de vida considerado modelo da moderna civilização ocidental: o american way of life (modo de vida americano). Tal como as mercadorias, ele foi exportado para o mundo todo¹.

* Prosperidade e liberdade. O modo de vida americano, tendo como base a riqueza, caracterizava-se pela construção de edifícios grandes e modernos, pela multiplicação de bairros residenciais cujas casas se ligavam por jardins e gramados, pelo aumento do número de carros e de aparelhos domésticos. Cada vez mais gerava-se a necessidade de consumir, alimentada pela propaganda e pelo crediário.

Na década da prosperidade presenciou-se também uma mudança na vida social e nos costumes, principalmente no que se refere à emancipação feminina. A mulher conquistou o direito de coto (1920), condição para a igualdade política. Nas décadas subsequentes, além de votar, as mulheres ocuparam cargos públicos e privados em vários escalões hierárquicos.

Contudo, a discriminação nos salários continuaria por muito tempo. Apesar disso, em 1940 as mulheres constituíam 25% da mão de obra do país, quando, em 1900, não passavam de 17,7%. A saída da mulher do lar e o trabalho ao lado do homem trouxeram mudanças significativas nos costumes e hábitos sociais. Cresceram sobretudo as reivindicações por igualdade de direitos.

A maior utilização do automóvel também provocou mudanças sensíveis no comportamento cotidiano, principalmente dos jovens, que puderam manter relações mais abertas e livres, longe do controle dos pais.

* Intolerância e fanatismo. A década de 1920 também foi marcada por manifestações de crescente intolerância, fanatismo e chauvinismo entre todas as classes e em todos os setores da sociedade norte-americana.

A política do cordão sanitário imposta à Rússia fez aflorar o medo do comunismo. O exacerbado chauvinismo intensificou o anti-semitismo, e a legislação praticamente pôs fim à imigração da Europa Meridional e Oriental. Organizaram-se ainda campanhas contra católicos.

Tomava corpo uma ideologia que reconhecia como 100% norte-americanos apenas os brancos e protestantes abastados, justificando perseguições aos negros, às outras minorias raciais e aos pobres em nome da preservação de um hipotético ideal de vida norte-americano.

Passou-se a investigar o conteúdo de livros didáticos e manuais escolares, para abolir as obras que não contivessem a apropriada glorificação do passado norte-americano. Grupos paramilitares, contando com o apoio de uns e o medo de outros, dominaram virtualmente o panorama de alguns estados, sobretudo os sulinos.

Nesse contexto, surgiu, em vários estados, a temida Ku Klux Klan², organização que fazia violenta pressão em prol do norte-americano 100%. Em 1925, a organização contava com aproximadamente 5 milhões de membros, levando fanatismo, violência e corrupção onde quer que penetrasse.

Outro componente do norte-americano 100% foi a ênfase na moralização dos costumes. Surgiram, então, várias ligas que se arrogavam o direito de defender qualquer aspecto da "civilização norte-americana" considerado em perigo. De 1919 a 1933, por exemplo, proibiu-se a fabricação, venda ou transporte de bebidas alcoólicas. A chamada Lei Seca contribuiu para o aparecimento de contrabandistas de álcool, os gângsteres e suas quadrinhas, cujo representante mais famoso foi Al Capone. (NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 434-435.)

 Agentes de proibição destruindo barris de álcool, Chicago, 1921

¹ Na década de 1920, os Estados Unidos estavam embriagados pelo elixir da prosperidade. O mundo não tinha visto nada parecido até então. [...] A família média americana vivia melhor, comia melhor, vestia-se melhor e usufruía mais da sociedade de consumo do que qualquer família média de outra parte do mundo. Eufóricos, os norte-americanos consumiam freneticamente relógios de pulso, geladeiras, latas de ervilhas, aparelhos de barbear, enceradeiras e tudo mais que o dinheiro e o crediário pudessem comprar. Enquanto na Europa a média era de um carro para 84 pessoas, nos Estados Unidos era de um para cada seis pessoas. (CAMPOS, Flávio de; MIRANDA, Renan Garcia. A escrita da história. São Paulo: Escala Educacional, 2005. p. 464.)

² A Klan foi organizada em 1915 pelo professor de história e pregador laico William J. Simmons. Adotou como modelo a organização de encapuzados que aterrorizava o sul do país depois da Guerra Civil. Os adeptos da Klan eram recrutados, principalmente, entre pessoas da classe média. Como só os protestantes brancos e nativos eram considerados capazes de compreender "racialmente" o norte-americanismo, a Klan deliberou a eliminação de católicos, judeus, negros e da maioria dos estrangeiros.

Referências:

CAMPOS, Flávio de; MIRANDA, Renan Garcia. A escrita da história. São Paulo: Escala Educacional, 2005. p. 464.
NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 434-435.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

1692, Salem Village

Bruxaria na Vila de Salem, Artista desconhecido

AS BRUXAS DE SALEM

- Cristo sabe quantos demônios há aqui? - ruge o reverendo Samuel Parris, pastor da vila de Salem, e fala de Judas, o demônio sentado à mesa do Senhor, que se vendeu por trinta dinheiros, 3,15 em libras inglesas, irrisório preço de uma escrava.

Na guerra dos cordeiros contra os dragões, clama o pastor, não há neutralidade possível nem refúgio seguro. Os demônios meteram-se em sua própria casa: uma filha e uma sobrinha do reverendo Parris foram as primeiras atormentadas pelo exército de diabos que tomou de assalto esta puritana vila. As meninas acariciaram uma bola de cristal, querendo ver a sorte, e viram a morte. Desde que isso aconteceu, são muitas as jovenzinhas de Salem que sentem o inferno no corpo: a maligna febre as queima por dentro e se revolvem e se retorcem, rodam pelo chão espumando e uivando blasfêmias e obscenidades que o Diabo lhes dita.

O médico, William Griggs, diagnostica o malefício. Oferecem a um cão um bolo de farinha de centeio misturada com urina das possuídas, mas o cão come, mexe o rabo, agradecido, e vai embora para dormir em paz. O Diabo prefere a moradia humana.

Entre convulsão e convulsão, as vítimas acusam.

Exame de uma bruxa, Thompkins H. Matteson

São mulheres, e mulheres pobres, as primeiras condenadas à forca. Duas brancas e uma negra: Sarah Osborne, uma velha prostrada que há anos chamou aos gritos seu servente irlandês, que dormia no estábulo, e abriu-lhe um lugarzinho na cama; Sarah Good, uma mendiga turbulenta, que fuma cachimbo e responde resmungando às esmolas; e Tituba, escrava negra das Antilhas, apaixonada por um demônio todo peludo e de nariz comprido. A filha de Sarah Good, jovem bruxa de quatro anos de idade, está presa no cárcere de Boston, com grilhões nos pés.

A bruxa nº 1, Joseph E. Baker

Mas não cessam os gemidos de agonia das jovenzinhas de Salem e se multiplicam as acusações e condenações. A caçada de bruxas sobe da suburbana Salem Village ao centro de Salem Town, da vila ao porto, dos malditos aos poderosos: nem a esposa do governador se salva do dedo que aponta culpados. Balançam na força prósperos granjeiros e mercadores, donos de barcos que comerciam com Londres, privilegiados membros da Igreja que desfrutavam direito à comunhão.

Anuncia-se uma chuva de enxofre sobre Salem Town, o segundo porto de Massachusetts, onde o Diabo, trabalhador como nunca, anda prometendo aos puritanos cidades de ouro e sapatos franceses.

GALEANO, Eduardo. Memória do fogo: Os nascimentos. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 262.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Em nome da liberdade

A prisão da Bastilha, Charles Thévenin

"Torna-se mister uma vontade una [...] Para que ela seja republicana, há necessidade de ministros republicanos, de um governo republicano. Os perigos internos vêm dos burgueses; para vencer os burgueses é preciso o apoio do povo [...] É necessário que o povo se una à Convenção e que a Convenção se utilize do povo.
As revoluções, três anos decorridos, tudo fizeram em benefício de outras classes, e quase nada ainda, talvez, para as mais necessitadas, para os cidadãos proletários cuja única propriedade é o trabalho. O feudalismo está destruído, mas não para eles; nada possuem nos campos libertados. As contribuições são, agora, repartidas de forma mais justa, mas, devido à sua pobreza, eles permanecem quase inacessíveis ao imposto [...] A igualdade civil foi estabelecida, mas a instrução e a educação não os alcançam... Aqui está a revolução dos pobres [...]". 
(Robespierre. Anotações no seu diário e discurso na seção da Convenção, em julho de 1793. Citado por SOBOUL. Albert. A Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Zahar, 1964. p. 283.)

[...] 


A marcha de protesto do povo de Paris e a tomada da Bastilha, em 14 de julho de 1789, derrubaram a monarquia absolutista, os direitos feudais e a sociedade estamental, levando ao fim do Antigo Regime na França. Sob o lema iluminista de Liberdade, Igualdade, Fraternidade foi proclamada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e instalado um governo constitucional. Essas realizações seriam suficientes para caracterizar uma revolução. Mas a Revolução Francesa foi ainda mais ampla e profunda.

A notícia de suas conquistas atravessou fronteiras, influenciando outros povos e nações a lutarem pelos mesmos ideais. Na Europa e na América ocorreram movimentos a favor da liberdade e da igualdade. Indivíduos de diferentes nações se ofereceram para ficar lado a lado com os franceses na construção de um novo Estado. Em 1790, por exemplo, cerca de 36 estrangeiros da própria Europa, da Ásia e da América participaram com entusiasmo das discussões que ocorriam na Assembleia Nacional Constituinte. Metade deles recebeu o título de cidadão francês.

Os norte-americanos presentes na Assembleia representavam oficialmente seu país. Os franceses admiravam a nação americana, pois a viam como exemplo do progresso e das liberdades democráticas. Thomas Jefferson influenciou a redação do projeto da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, e Thomas Paine foi um dos principais redatores da Constituição de 1793. Os demais estrangeiros envolveram-se na luta revolucionária por convicção pessoal. Combateram como voluntários no exército francês ou fizeram doações em dinheiro para armar soldados. Foram ardorosos defensores e propagadores dos ideais revolucionários em suas terras de origem.

[...]

No julgamento do rei Luís XVI, pouco antes do Terror, muitos estrangeiros se assustaram com o extremismo dos jacobinos. Thomas Paine, por exemplo, propôs que fosse dado direito de defesa ao rei e, dias antes da execução, defendeu a abolição da pena de morte. Foram suas palavras: "Minha compaixão pelo homem na infelicidade, seja ele amigo ou inimigo, é igualmente viva e sincera". Não conseguiu convencer os franceses, cujo ódio à monarquia absolutista os fez esquecer as ideias iluministas de tolerância e fraternidade. Luís XVI e sua família foram guilhotinados e, como eles, milhares de franceses de todas as camadas sociais.

Com o Terror, muitos revolucionários estrangeiros ficaram desiludidos. Os norte-americanos decidiram não apoiar mais a França, pois não podiam esquecer a ajuda enviada por Luís XVI à sua própria revolução. Os excessos e o radicalismo do Terror destruíram o clima de fraternidade universal e solidariedade humana existente nos primeiros anos da Revolução Francesa. Restaram o medo, o desespero e a arbitrariedade. O poeta inglês William Wordsworth (1770-1850) escreveu que o Terror lhe revelou "o que o homem pode fazer com o homem".


Caricatura: O zênite da glória francesa, James Gillray

["Esta ilustração é bastante negativa, tem um caráter de sátira. A figura central, com o barrete, símbolo dos revolucionários, tem um aspecto maligno e grosseiro. A personagem está satisfeita com as execuções à sua volta. Porta um violino, talvez para acompanhar com música o espetáculo sangrento que se desenrola ao seu redor".] PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 154


[...]

O perigo de todo radicalismo é a intolerância e o fanatismo. O intolerante não vê o outro e não aceita a convivência com os diferentes. O fanático prega sua verdade e não compreende qualquer outro tipo de explicação. Por isso, o extremista não consegue julgar com clareza e bom senso. A grande maioria dos guilhotinados no período do Terror era gente do povo, homens e mulheres comuns que foram acusados de favorecerem os nobres (por exemplo, serviram como seus criados) ou de não demonstrarem suficiente ardor revolucionário.

Diante de uma multidão enraivecida pelo radicalismo, ninguém tinha coragem de defender o acusado, com medo de acabar sendo apontado como suspeito. A História está repleta de exemplos de radicalismos que, em nome do povo, acabaram fazendo de vítima toda a nação.

RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 67-8.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Brazil com "z": o 15 de março intolerante

Monumento "Tortura nunca mais", do arquiteto  piauiense Demétrius Albuquerque Recife, Pernambuco.

A massa sustenta a marca
A marca sustenta a mídia.
A mídia controla a massa”.
(George Orwell)

[Este post é dedicado a todos os que tombaram, sofreram perseguições, foram presos, torturados e exilados e jamais desistiram de lutar pelo Estado Democrático de Direito]

March 15, 2015. Brazilia, capital do Brazil, com z. Verde e amarelo. Ou, se preferirem, “green and yellow”. Cartazes escritos em inglês com os dizeres “We want military intervention now!”, “Brazilian Army. Please help us! We need military intervention!” – e até cartaz em francês (“Libertè, Egualitè, Fraternitè e fora PT”) e outras insanidades: “Prefiro lavar privada em Miami a passar fome em Cuba!”, “A nossa bandeira jamais será vermelha”, “SOS aposentado: sem dinheiro, sem saúde, sem tesão. Fora corrupção”. Clube militar avisa: “onipresente vigilância”. Faixas com a suástica nazista. Carecas do ABC. Quem dera fossem apenas do ABC. Bandeiras dos USA que nos USAM. Selfies. Faixas pedindo a prisão de Karl Marx (falecido há mais de um século!). Faixas pedindo o exílio das ideias do pensador Paulo Freire. Cadeia para isso. Cadeia para aquilo. Senhoras reeeditando a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. Tradição, família e propriedade. Fundamentalistas religiosos guiando seus fiéis dizimistas. Retórica moralista. Globo, Veja, Folha... instigando e destilando todo seu veneno golpista. “Carnival” da Globeleza. Barbárie e selvageria. Um show de bizarrices. Mentes insanas. “Nem esquerda”, “nem direita”, “meu partido é o Brazil”!!! São Paulo, Avenida Paulista, idem idem idem. Rio de Janeiro, Orla de Copacabana idem idem idem. Praças e avenidas centrais das capitais brazileiras, idem idem idem. Cidades de porte médio. Cidades de porte pequeno. Idem idem idem. Ódio. Ódio ao pobre. Ódio ao nordestino.  Ódio ao gay. Ódio ao outro. Intoleráveis intolerâncias. Aos olhos dos estrangeiros não passamos de bárbaros. A pregação da ditadura militar precisa ser criminalizada. E o Brazil se diz cristão. Desse cristianismo não bebo. “Pai afasta de mim esse cálice”. Amém! 

Orides Maurer Junior é historiador e autor dos blogs "História e Sociedade" e "Private Life".

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A política de "tolerância zero": a dureza impiedosa

Texto 1
As coisas começaram assim: primeiro foram os deficientes mentais, depois os mendigos, comunistas, judeus, ciganos... e terminaram com o horror, com o extermínio de milhões de pessoas. O objetivo era de limpar a nação dos párias, dos improdutivos, dos oposicionistas e construir um povo superior, etnicamente puro, bonito, inteligente, trabalhador e que governaria o mundo por mil anos. [...]

O tempo passou, o monstro aparentemente foi morto, mas o seu espírito sobreviveu. Nos tempos modernos, a "dureza impiedosa" passou a chamar-se "tolerância zero" (tolerance zero), versão moderna da mesma política adaptada à cidade de Nova York pelo prefeito Rodolph Giuliani, que, ampliando o espectro do totalitarismo, incluiu os vendedores de cachorro-quente e pipoca, os artistas de parques e os pedestres infratores de trânsito. E, por ser tão importante, a cidade passou a ser referência para vários lugares do mundo, alguns discretos como a nossa pequena Florianópolis, a sua Praça 15 e suas ruas do centro. Da praça foram-se os artesãos, os punks, os hippies, os pobres, as prostitutas do caramanchão, os músicos populares, os religiosos, as ciganas que liam as mãos e os que protestavam contra essa política. Alguns sumiram, ninguém sabe dos seus paradeiros. Nada informam. Reina, agora, o medo.

Os que hoje sentem vergonha da "dureza impiedosa" lamentam não ter feito nada contra tudo aquilo quando ainda havia tempo. E hoje os que se calam e aceitam a "tolerância zero" com certeza amanhã farão o mesmo. (PAVESE, Júlio. A dureza impiedosa. Caros Amigos.)

Diálogo entre neonazistas e antifascistas, Bélgica. 
Foto: Dereckson

Texto 2
[...] Nos anos 90, a ocorrência de mudanças profundas na estrutura e composição do capital produtivo, a abertura da economia, as privatizações e a política de juros altos têm gerado a dispensa em massa de trabalhadores.

O desemprego, a precarização das condições de trabalho, a expansão do trabalho informal atingem a cifra de milhões de trabalhadores. Muitos encontram respostas simplistas para problemas complexos como estes, e enxergam em alguns grupos sociais a responsabilidade pela situação vigente. Identificar a culpa em negros, nordestinos, homossexuais, judeus, entre outros, é como achar que o Sol gira em torno da Terra, a partir de uma constatação superficial, além de carregada de preconceitos.

A gravidade é tão grande que, muita gente, das mais variadas condições sociais, defende ideias desse tipo, mesmo sem usar coturno, suspensório, calça camuflada. Não andam por aí de taco de beisebol na mão, nem tampouco de cabeça raspada. Mas se aproximam, no campo das ideias, dos princípios racistas e xenófobos que estes grupos professam e praticam. [...]

Vivemos um inconsciente coletivo, onde parcelas da sociedade não refletem sobre o que defendem, mas reproduzem com energia palavras e ideias desprovidas de conteúdo, validade científica e comprovadamente reprovadas pela história humana, como solução aos problemas contemporâneos.

[...]

No mundo, por vezes, vence a ilusão da hipocrisia. Tão importante quanto agir com rigor, no caso da condenação  pública destas pessoas, que se julgam os parâmetros do bom comportamento, é necessário estancar o crescimento, no seio da sociedade, de ideais desta natureza. A cumplicidade é tão ou mais violenta que a própria ação destes grupos. [...] (ALVES, Ricardo. Os carecas do ABC e do mundo. Correio da Cidadania.)

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Deus é voto

[...]

Até o final da década de 1970, os pentecostais, de modo geral, eram vistos como apolíticos, sendo inclusive acusados de alienados. Já no contexto da redemocratização, em meados dos anos 1980, muitos dirigentes pentecostais estavam dispostos a participar da redação da nova Constituição e adotaram o lema "irmão vota em irmão", lançando e apoiando candidaturas de religiosos. Alegavam que era preciso eleger seus próprios representantes parlamentares para defender sua liberdade religiosa, evangelizar a política, proteger a família, a moral cristã e os interesses de suas igrejas, assim como para combater propostas antibíblicas e moralmente condenáveis, como a união civil de homossexuais, a descriminalização do aborto e do consumo de drogas, entre outras.

A mobilização surtiu efeito: os pentecostais saltaram de dois deputados federais em 1982 para 18 em 1986, sendo 13 da Assembleia de Deus. Feito considerável, dado que só cinco deputados federais tinham sido eleitos por eles entre 1910 e 1982. Nesse período, a representação parlamentar dos evangélicos no Congresso Nacional - iniciada com a eleição do metodista Guaracy Silveira para a Assembleia Constituinte de 1934 - foi dominada por presbiterianos (36 deputados), batistas (25), luteranos (15), congregacionistas (9) e metodistas (9). A partir de 1986, os pentecostais assumiram o protagonismo político entre os evangélicos. As outras denominações protestantes, somadas, elegeram 14 deputados naquele ano.

Nas eleições posteriores, as diversas igrejas evangélicas alcançaram 23 deputados federais em 1990, 30 em 1994, 49 em 1988, 59 em 2002, 48 em 2006 e 73 em 2010. A redução do número de representantes nos pleitos de 1990 e 2006 decorreu de escândalos envolvendo corrupção e troca de favores que atingiram principalmente deputados da Assembleia de Deus e da Igreja Universal. Mas, entre 1986 e 2010, o número de evangélicos na Câmara Federal mais que dobrou, acompanhando a vertiginosa expansão demográfica dos evangélicos, liderada pelos pentecostais.

Em 2005, Edir Macedo, fundador da Universal do Reino de Deus, criou um partido político, o PRB, pelo qual reelegeu em 2010 o senador Marcelo Crivella, bispo licenciado da Universal e seu sobrinho, desde março deste ano [2012] titular do Ministério da Pesca.

Cerca de metade dos deputados pentecostais é composta de pastores, cantores gospel e parentes de líderes de igrejas, tele-evangelistas e donos de emissoras de rádio e TV. Ainda assim, para serem eleitos, esses candidatos dependem fortemente do apoio eleitoral de pastores e líderes denominacionais. Essa dependência reforça o caráter corporativista e moralista de seus mandatos e seu compromisso de atuarem como despachantes de igreja.

A maioria dos parlamentares evangélicos no Congresso Nacional - 30 dos quais eleitos pelo Partido Social Cristão (PSC), pelo PRB e pelo Partido da República (PR) - é filiada à Frente Parlamentar Evangélica (FPE), criada em 2003. A FPE apresenta grande heterogeneidade partidária e denominacional e não tem poder para uniformizar a atuação parlamentar de seus membros. Por isso, sua coesão ocorre apenas em casos que envolvem a defesa da moral cristã tradicional e de interesses materiais e institucionais de suas Igrejas. Em defesa da moral e dos bons costumes, a FPE une forças com deputados ligados a grupos católicos conservadores para lutar, por exemplo, contra o projeto de lei nº 122/2006, que criminaliza a homofobia, por considerá-lo um atentado contra a liberdade religiosa e de expressão. A Frente também se opõe radicalmente à descriminalização da eutanásia e de casas de prostituição e à interrupção da gravidez até a 12ª semana mediante atestado de médico ou psicólogo.

A Nação brasileira é fruto da diversidade de culturas e etnias. Esse cartaz é uma afronta ao Estado laico e a legislação vigente.

Hoje, o ativismo eleitoral e partidário dos pentecostais, a despeito de suas inclinações sectárias e fundamentalistas e de seu caráter moralista, é um dado da democracia e da cultura política brasileira. Viva e despudoradamente, essa prática tem sido estimulada por candidatos e partidos de todos os quadrantes ideológicos em busca de votos. Apesar disso, muitos crentes se opõem individualmente à manipulação eleitoral dos fiéis e à mistura entre religião e política; não se deixam transformar automaticamente em peças de currais eleitorais cegamente obedientes à orientação pastoral. A Congregação Cristã no Brasil e a Igreja Deus é Amor, por exemplo, abrigam 12% dos pentecostais e permanecem apolíticas. Denominações protestantes tradicionais, em geral, também não lançam nem apoiam candidatos oficialmente. Mas esta não é a postura da maioria dos pentecostais e neopentecostais, justamente as vertentes evangélicas que mais crescem no país.

Ricardo Mariano. Deus é voto. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 8 / Nº 87 / Dezembro 2012. p. 30-31.


NOTA: O texto "Deus é voto" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A intolerância religiosa dos Estados europeus na Época Moderna

No filme clássico de David W. Grifith, Intolerância (1916), um dos episódios narrados é A Noite de São Bartolomeu, ocorrido em 1572 – o grande massacre de huguenotes (calvinistas) pelos católicos na França. Foi o tempo das “guerras de religião” na França, como em outras partes da Europa ocidental. A rigor, tais guerras começaram no início do século XVI, em pleno território germânico – palco da Reforma Luterana – e só terminaram em 1648, com o fim da Guerra dos Trinta Anos. Isso significa que a intolerância religiosa foi motivo real de muitos conflitos entre reis e príncipes europeus nos primeiros séculos da Época Moderna, embora não estivessem ausentes outras motivações.

O sentimento religioso era mesmo central na definição das identidades individuais e coletivas nesse período. Mas, para entender o fenômeno da intolerância nessa época, é preciso destacar que, a partir do século XVI, os Estados europeus passaram a se definir, em grande medida, como Estados confessionais, isto é, dotados de uma religião oficial. A ruptura da cristandade provocada pelas reformas protestantes fez da identidade religiosa um elemento central para reis e príncipes e, por vezes, um divisor de águas no jogo de alianças e conflitos do período. Um marco desse processo foi estabelecido na Paz de Augsburgo (1555), que pôs fim às guerras entre os príncipes luteranos e o imperador Carlos V, ao estabelecer-se o princípio cujus regio, hujus religio: a religião do príncipe deveria ser a religião dos súditos.

Longe de apaziguar os ânimos, a consagração desse princípio estimulou a intolerância e hostilidade contra minorias religiosas em toda parte. Na Inglaterra anglicana, católicos e puritanos foram perseguidos; na França dilacerada, católicos e calvinistas viviam em guerra fratricida; na própria Holanda, tão afamada por sua tolerância religiosa, o conflito entre gomaristas e arminianos foi dilacerante, os primeiros defendendo o princípio da predestinação de forma literal; os segundos advogando alguma importância para as obras terrenas do devoto.

Contudo, em uma perspectiva comparativa acerca da geografia religiosa na época, pode-se dizer que os Países Baixos forneceram o exemplo de maior tolerância religiosa, ao menos oficialmente. Basta dizer que cerca de um terço da população das sete províncias da República das Províncias Unidas permaneceu católica, ainda que tenham sido cerceadas as missas e procissões. A província da Holanda, em particular, tornou-se o principal refúgio de cristãos-novos ibéricos, sobretudo portugueses, no século XVII. Ali os cristãos-novos apostasiaram do catolicismo, assumindo-se como “judeus públicos” e construindo uma importante comunidade, estimulados pelas autoridades holandesas: a Talmud Tora. Vários deles estiveram no Recife holandês, entre 1636 e 1654, fundando a primeira sinagoga das Américas: a Kahal Kadosh Zur Israel.

No pólo oposto à Holanda, os países ibéricos instituíram a temível Inquisição, tribunal de fé especializado em perseguir os hereges da religião católica, a única permitida nos dois reinos a partir de fins do século XV. No caso ibérico, porém, a intolerância religiosa teve pouco a ver com a Reforma Protestante, devendo-se antes à existência de numerosas comunidades judaicas e muçulmanas ali fixadas desde a Idade Média. Na Espanha, a Inquisição foi instalada em 1478, pois o número de conversos era já elevado desde o final do século XIV, e coincidiu com o início da unificação política dos reis católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela. A política de intolerância foi poderoso instrumento unificador, sendo a Espanha marcada por enormes diferenças culturais e lingüísticas. Em 1492, a intolerância avançou com a expulsão dos judeus remanescentes e a conquista de Granada, último bastão islâmico na península Ibérica. No início do século XVII, também os mouros foram obrigados à conversão.

Em Portugal, onde havia forte tradição de tolerância e convívio entre os três monoteísmos, d. Manuel decretou a conversão forçada de todos os judeus e muçulmanos do reino, em 1496, em grande parte por influência espanhola. A Inquisição só seria estabelecida, porém, a partir de 1536, já no reinado de seu sucessor, d. João III.

Nos dois reinos, as principais vítimas da Inquisição foram os cristãos-novos, descendentes dos judeus, embora somente uma pequena parcela deles tenha sido executada na fogueira. [...]


Queima de uma bruxa na fogueira.
Willisau, Suíça, em 1447

A intolerância dos Estados europeus não se restringiu às “grandes religiões”. Os séculos XVI e XVII testemunharam o apogeu da “caça às bruxas”, sobretudo na França: uma autêntica “cruzada” contra as religiosidades populares, meio cristãs, meio pagãs – demonizadas pelos teólogos e juízes. Testemunharam, ainda, perseguições contra os desviantes da moral cristã em matéria sexual, seja no mundo católico, seja no protestante: as maiores vítimas, nesse caso, foram os praticantes de relações homoeróticas. Os chamados sodomitas foram condenados à fogueira em vários países, sobretudo na Holanda, França e principados germânicos. Nos países ibéricos, em comparação, foram mais tolerados. Mas não saíram ilesos.

Ronaldo Vainfas. Intolerância. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 3: Idade Moderna. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 51-52.


NOTA: O texto "A intolerância religiosa dos Estados europeus na Época Moderna" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Homofobia: crimes de ódio

Toda homofobia tem em algum aspecto da heterossexualidade sua base fundamental. Contudo, a heteronormatividade não passa de uma crença. Uma crença convencionalizada e mal fundamentada construída no costume e em suas repetições acríticas. Nunca no conhecimento e na verdade. A simples existência dos homossexuais no mundo, por si só, comprova a contradição e o tendencionismo dessa crença. Inclusive, o preconceito faz parte do domínio da crença por ter base irracional.  Preconceitos não dizem respeito ao conhecimento – não usam de raciocínios, argumentos e evidências lógicas para se fundamentarem. Preconceitos não são justificáveis. Principalmente quando acompanhados de altas dosagens de violência, intolerância e discriminação. Discriminar alguém com base em sua orientação sexual é promover tratamento desigual – geralmente inferiorizando-o. E promover tratamento desigual é crime no Brasil.

Dois homens nus, François-Xavier Fabre

São indícios preocupantes em todo o mundo. Nosso país tem apontado graus de intolerância contra os homossexuais que estão além da imagem acolhedora que propagamos pelo globo. Em 2009, foram vítimas de homofobia no país em torno de 198 pessoas. Em 2010, nossa sociedade chocou o mundo com imagens de jovens homossexuais sendo agredidos gratuitamente e à luz do dia em plena Avenida Paulista – coração da maior e mais cosmopolita metrópole do país. Mas a homofobia não é peculiaridade brasileira. No país mais poderoso do planeta, os EUA, 17,6% dos crimes de ódio, em 2008, foram motivados por orientação sexual. Outras culturas também indicam intolerância e ignorância ao tratar do tema. Na China pós-Revolução Cultural, por exemplo, os homossexuais se tornaram alvo regular de perseguições policiais – acusados de vandalismo e perturbação da ordem pública. Na Coréia do Norte a homossexualidade é condenada enquanto vício promovido pela decadente cultura ocidental capitalista – supostamente deturpadora de caráter. Todavia, curiosamente, todos os dias noticiários estão abarrotados de casos de violência abusivos por parte de heterossexuais e nem por isso atribuímos tal violência e agressividade a essa orientação sexual. A verdade é que o suposto medo homofóbico desencadeia níveis de violência injustificáveis. Superiores a qualquer ameaça que os homossexuais possam vir a representar aos tradicionais costumes sociais.

Bacanal, Wilhelm von Gloeden

Em suma, a prática homofóbica se manifesta num conjunto de atitudes segregadoras, agressivas e discriminatórias de inferiorização dos homossexuais por parte dos heterossexuais. Trata-se de um preconceito fundamentado numa crença equivocada e irracional de que somente são possíveis no mundo aqueles que se atraem sexualmente pelo sexo oposto (heterossexualidade). Essa falsa crença deve ser sobreposta à conscientização de que homossexuais são seres vivos, seres humanos. Eles existem e estão ativamente dentro da sociedade. Pagam impostos como todo mundo, compram propriedades e se relacionam como todo mundo. Estudam, trabalham, amam, se frustram, possuem amigos e inimigos, são gordos e magros, bonitos e feios, gentis e sacanas, são tímidos e atrevidos como todo mundo. Se eles estão vivos é porque têm lugar para eles no mundo, caso contrário estariam mortos ou não existiriam. Mas existem. Eles existem. Existem. Nascem, têm vida própria, mães, pais e amigos. E, por existirem, seus direitos devem ser preservados e garantidos como os de qualquer outro ser humano, membro da sociedade civilizada e organizada legalmente.


A massagem, Édouard Debat-Ponson

Nossa constituição zela pelo bem-estar da população e prevê que o respeito pelo outro independe das suas escolhas afetivas pessoais. A Constituição Federal Brasileira define como objeto fundamental da República: “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de discriminação”. A expressão quaisquer outras formas refere-se a todas as formas de discriminação não mencionadas explicitamente no artigo, tais como a orientação sexual, entre outras. Além de a Constituição proibir qualquer forma de discriminação de maneira genérica, várias outras leis estão sendo discutidas no Congresso a fim de se proibir especificamente a discriminação aos homossexuais. Vale lembrar também que países como o Canadá, a Holanda, Portugal, Argentina e Uruguai já legalizaram o casamento homossexual com o objetivo de reconhecer os direitos civis básicos dessa população.


Amantes do sol, Henry Scott Tuke

No sentido de regulamentar os direitos civis dos homossexuais no Brasil, a partir de 2011 passamos a permitir a legalidade da união estável entre indivíduos do mesmo sexo. O que a legitimação desse tipo de união vem estimular é a defesa de que a união deve ser legal em função do afeto nela presente. Casamentos não são mais (desde o século XVIII) obrigações sociais, nem alianças sociais e políticas entre famílias, não são meios de salvação da alma nem garantias de renda e muito menos mecanismo para manutenção da espécie. Casamentos são celebrações do direito de união afetiva com parceiros de nossa livre escolha. Legitimar a união e, daqui para frente, o casamento entre os homossexuais é afirmar que seus direitos fundamentais estão preservados, bem como o de qualquer outro brasileiro. É uma questão de justiça. O texto das uniões estáveis padronizado nos cartórios brasileiros é enfático: uniões estáveis asseguram direitos civis e a constituição familiar (não a tradicional, mas todos os tipos de família). Afinal, quem é a favor da família – enquanto núcleos funcionais de afeto e compreensão – tem de ser a favor de todos os tipos de famílias possíveis no mundo.


Duas mulheres valsadoras, Henri de Toulose-Lautrec

Por fim, extinguir a homofobia e legalizar os homossexuais na sociedade são atos imperativos para a garantia da qualidade de vida de toda uma geração que está por vir. Seja por adoção, seja por inseminação artificial e uso de barrigas de aluguel ou ainda pela reprodução genética entre duas mulheres, o que importa é que novas famílias estão se constituindo a partir das relações afetivas homossexuais. Assim como no século XX, novas famílias também se constituíram a partir de relações afetivas oriundas de divórcios. E a nova geração de brasileiros que se forma agora não pode vir a sofrer com a homofobia lançada sobre seus pais e mães. Assim como filhos de mulheres e homens divorciados não mereciam sofrer preconceito nas décadas passadas, quando o divórcio ainda era tabu social. Temos de minar a homofobia agora, não só pelo movimento LGBT em si, mas para que as novas gerações não precisem viver marginalizadas e clandestinas dentro da sociedade. Os recentes debates – mesmo que 20 anos atrasados – sobre o assunto são frutíferos e necessários para o amadurecimento de toda a sociedade brasileira. Espera-se que seus resultados sejam racionais, tolerantes, imparciais e objetivos – como toda verdadeira Ética deve ser.

Ana Augusta Carneiro. Crimes de ódio. In: Filosofia. Ano VII, nº 83, junho de 2013. p. 49-50.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Globalizações: da "pax" romana à internet

Há uma linha mais ou menos contínua de perseverança da globalização como futuro da história. Essa tendência é estimulada pelo progresso das técnicas e dos instrumentos de comunicação. Na Antiguidade, foram as estradas romanas; da Idade Média ao século XIX, foi a navegação marítima. Nos séculos XIX e XX, foram os barcos a vapor, o telefone, o telégrafo, o avião. Hoje em dia, é a internet.

Fernand Braudel ressaltou que a globalização capitalista modela o espaço político-geográfico. Ao redor de um centro, de uma cidade, sede de um organismo de impulsão, da Bolsa, funcionam "satélites" mais ou menos afastados. A relação centro-periferia domina esse sistema espacialmente hierarquizado. Foram os casos sucessivamente de Antuérpia, Amsterdã, Londres e Nova York. [...] Na Antiguidade, foi a Roma mediterrânea, da Idade Média ao século XIX, a Europa, hoje em dia, os Estados Unidos. Quase sempre surge uma saudável e racional resistência a essas hegemonias centrais.

Essa resistência pode degenerar e assumir formas extremas e condenáveis, sobretudo no caso da globalização atual, em que certos extremistas podem colocar-se como vítimas e responder com a arma do terrorismo. [...]

[...] No fenômeno da globalização há uma ideia de resultado, de produzir qualquer coisa; mas, se há um progresso, há simultaneamente males que estão ligados às globalizações históricas e colocam em pauta os perigos da globalização atual. O que Roma ofereceu às regiões que ela dominou por séculos? Ela trouxe a paz. A pax romana é um elemento ligado à dominação romana. Por conseguinte, o espaço da globalização pode e deve ser considerado um espaço pacífico. Evidentemente, há que se perguntar o que significa essa pacificação, como ela foi obtida e o que representa a dominação mesmo pacífica que ela ofereceu. Por outro lado, a globalização romana promoveu um sentimento entre os habitantes ou, ao menos, entre a camada superior dos habitantes desse espaço mundial, de uma cidadania universal, ­ cidadãos do mundo. O exemplo mais conhecido é o de Paulo de Tarso, São Paulo, esse judeu em via de se tornar cristão que afirmava com toda a força, como proteção e orgulho, "civis romanus sum", "sou cidadão romano". Em 212, o imperador Caracala proclamou um edito atribuindo a cidadania romana a todos os sujeitos livres do império, não importando a origem étnica ou cultural. Ademais, a globalização romana resultou na formação de um espaço jurídico em que existiam, portanto, noções e práticas de direito que eram ligadas a essa pacificação e que a acompanhavam. Daí provém ainda hoje a noção de Estado de direito. [...]

Em compensação, o que se deve apontar como débito dessa globalização? Pode-se resumir afirmando que, ao termo de um longo período de vários séculos, a globalização romana se mostrou incapaz de integrar ou assimilar novos cidadãos, aqueles que ela denominou de "bárbaros" e que, não podendo ser integrados no espaço e no sistema romano, sublevaram-se contra esse espaço. A globalização provoca, em maior ou menor tempo, a revolta daqueles aos quais ela se tornou não um benefício, mas uma exploração e mesmo uma exclusão.

Quanto à colonização ligada à expansão da Europa e que acabará sob as formas do capitalismo, ela começa nos séculos XV e XVI e atinge sobretudo a África e a América. [...]

Um problema muito importante no que toca à globalização diz respeito à saúde, ao estado biológico das populações. Aqui também a balança não encontra um equilíbrio. Na América, o resultado foi globalmente catastrófico. Os colonizadores trouxeram involuntariamente, salvo talvez indiretamente pela difusão do álcool, suas doenças, micróbios, bacilos, que perturbaram profundamente o equilíbrio biológico dos povos globalizados. Mas também há que se observar que essa colonização promoveu um progresso na higiene e na medicina [...]. No entanto, não estou cedendo ao mito dos colonizadores franceses [...] ao dizer que a globalização deve proporcionar, e freqüentemente proporciona, a difusão da escola, do saber, do uso da escrita e da leitura. É certo que no outro prato da balança dois grandes males se apresentam: o primeiro é o que eu chamo de violação das culturas anteriores dos povos por meio de uma verdadeira destruição dessas culturas, e aqui entra em cena um componente da globalização que é a religião. O terreno não é apenas aquele da civilização, mas também aquele da religião. É um problema enorme em que a posição de cada um e sua sensibilidade podem levar a posições particulares, mas prefiro falar – não sou o primeiro a fazê-lo, mas não estou certo de que o faço de maneira aprofundada – do que se pode denominar, com risco de chocar certo número de meus leitores, de perigos do monoteísmo. A globalização adquiriu um caráter monoteísta. A história comprova que não raro o monoteísmo desliza para a intolerância e mesmo para a perseguição. O Deus único não se contenta apenas em caçar os deuses anteriores, ele também destrói toda a civilização que está relacionada a eles e impõe à sociedade globalizada um modelo de sociedade dominado por um poder absoluto. Em seu mais alto nível, a globalização acarreta o maior dos males que pode sofrer uma sociedade: a recusa da tolerância. Por outro lado, e aqui se trata de ordem social, para retomar um termo de Braudel, percebe-se que, depois que o aspecto econômico se torna primordial, a globalização desenvolve, cria ou até mesmo exacerba as oposições entre pobres e ricos ou dominadores. A pauperização é um mal até hoje praticamente inevitável das globalizações. Para voltar ao papel das culturas, quero sublinhar de uma vez que as globalizações não violaram apenas as culturas, mas a história. Tal questão está no cerne de minha reflexão. A expressão inventada, geralmente pelos colonizadores, "povos sem história", e retomada pelos etnólogos imersos nas próprias culturas, dizimou populações que de fato tinham uma história, geralmente uma história oral, uma história particular e que foi sem dúvida destruída. A destruição da memória, da história, do passado é algo terrível para uma sociedade. A globalização deve assumir as histórias particulares anteriores, não as eliminar.



Charge de Angeli

Minha conclusão é simples e talvez banal: deve-se supervisionar, controlar e combater os perigos da globalização e fazer frutificar as potenciais contribuições positivas. Os principais perigos são, a meu ver, a dominação do econômico, o desenvolvimento da desigualdade e da injustiça social e a uniformização, a qual nunca é aceitável. Que existam compromissos sociais e políticos que façam o conjunto funcionar é admissível, mas a uniformização não é um ideal a ser proposto para a humanidade. Deve-se, portanto, desenvolver as instituições, os movimentos, os ideais que possam fazer triunfar com a globalização a partilha, a paz no respeito das diversidades. Uma globalização assassina das diversidades é nociva e catastrófica.

LE GOFF, Jacques. Vamos construir a globalização que nos convém. In: Revista Veja, ano 34, n. 51, dez. 2001. p. 158-160.

domingo, 27 de maio de 2012

Passado Presente: 2ª Guerra Mundial, revisionismo e neonazismo

"Cada homem, cada criança é hoje um sujeito social que, para se posicionar no universo, tem necessidade de se entender como resultado insubstituível de sequências e de misturas, de continuidades, de recuos e de avanços, de dominâncias e de fraternidades, de vida e de morte."
(Suzanne Citron, historiadora)

Pichação neonazista no muro do hospital Emílio Ribas (São Paulo)

Texto 1.  


"Quando certa manhã Gregor Samsa 
acordou de sonhos intranquilos, 
encontrou-se em sua cama
metamorfoseado em
um inseto monstruoso." 
(Franz Kafka, A metamorfose)

O escritor judeu-tcheco Franz Kafka morreu em 1924. Bem antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial. Mas seu livro A metamorfose parece uma impressionante intuição do que estava por ocorrer. O mundo, como o personagem Gregor Samsa, despertou na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) transformado numa gigantesca e horrível barata, depois de duas décadas de sonhos intranquilos. Em seis anos, o fogo da guerra exterminou 45 milhões de pessoas e destruiu a falsa imagem de paz criada após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Os traumas não resolvidos da Primeira Guerra Mundial permitiram que o nazismo, um movimento que parecia ridículo em seu nascimento, chegasse ao poder com mão de ferro na Alemanha, o país mais desenvolvido da Europa. E daí, valendo-se da falta de audácia das potências democráticas, incendiasse o mundo. No final de doze anos de regime nazista e seis anos de guerra, povos e grupos inteiros - judeus, ciganos, homossexuais, deficientes físicos e mentais - haviam sido quase dizimados, pelo simples crime de terem nascido. Milhões de prisioneiros de guerra soviéticos morreram de fome em campos de concentração alemães. A Alemanha estava destroçada. O Japão via seus sonhos de tornar-se o senhor da Ásia sumirem na fumaça de duas bombas atômicas lançadas por aviões americanos. E o mundo redesenhado pelas duas superpotências vencedoras - a União Soviética e os Estados Unidos - duraria até a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o "suicídio" da União Soviética, dois anos depois.

[...]

Quando a geração de nossos pais e avós acabou de comemorar o fim do mais terrível conflito da História, restavam duas perguntas no ar: Quem pagaria pelos crimes de uma guerra em que morreram 45 milhões de pessoas - vinte milhões de soviéticos, seis milhões de judeus, seis milhões de poloneses e 4,5 milhões de alemães? E o que seria feito para impedir uma nova guerra, ainda mais mortífera?

Os nazi-fascistas, é claro, foram considerados os grandes responsáveis pela guerra. Em 1946, os Aliados organizaram um grande julgamento em Nuremberg. Hitler e Goebbels e o comandante das SS, Heinrich Himmler, haviam se suicidado. Mas o tribunal julgou líderes de importância, como Hermann Goering. Condenado à morte, ele se suicidou pouco antes de ser enforcado. Outras 25 personalidades do regime, igualmente condenados, foram executadas. Julgamentos realizados em Varsóvia e Praga também condenaram antigas autoridades de ocupação.


Julgamento de Nuremberg

Milhares de oficiais e burocratas do nazismo, que haviam sido presos pelos Aliados, foram inocentados. Os vencedores da guerra tinham pressa em reconstruir os países da Europa como democracias capitalistas, evitando o avanço do comunismo pró-soviético. Quem assumiria os novos postos de importância, senão os sobreviventes do regime destruído?

Empresas alemãs que utilizaram o trabalho escravo de mais de sete milhões de estrangeiros - na maioria vindos do Leste europeu - continuam ganhando dinheiro até hoje. Quanto ao Japão, nunca passaram pelos tribunais aqueles que ordenaram e executaram o extermínio de milhares de chineses, malaios e birmaneses durante a ocupação.

Se tantos crimes dos perdedores da guerra sumiram como fumaça no processo de reconstrução após a guerra, que dizer das barbaridades cometidas pelos Aliados? Não aconteceu como nos filmes que mostram bandidos alemães e japoneses lutando contra os mocinhos aliados. Em um conflito - ainda mais desse porte - a fronteira entre mocinhos e bandidos às vezes é difícil de definir. Os americanos utilizaram bombas incendiárias nos bombardeios às cidades japonesas, aproveitando o fato de que a maioria das casas eram construídas de madeira. Quantos civis morreram nesses ataques? E nos grandes bombardeios aliados às cidades de Dresden e Colônia (esta sem nenhum objetivo militar)? E como esquecer o lançamento das bombas atômicas contra Hiroshima e Nagasaki?


90% do centro da cidade de Dresden foi destruído

Há quem diga que guerra é guerra, vale tudo. Outros afirmarão que cometeram crimes horrorosos apenas porque seus chefes ordenaram. Afinal, homens normais, que adoravam seus filhos, cuidavam de animais e davam dinheiro a campanhas de caridade transformaram-se em verdadeiros monstros. Resta saber se as horríveis condições da guerra criaram esses monstros, ou apenas os libertaram de dentro da fachada "civilizada" do homem.

[...]

O fim dos regimes socialistas de partido único parecia consolidar de vez a democracia. Nazismo e fascismo soavam como sombra de um passado esquecido. Mas as aparências enganam. O fim do comunismo fez vir à tona grupos neonazistas, em especial nos antigos países socialistas, como a Rússia, a Romênia e a Alemanha Oriental. Esses grupos defendiam a volta à "era de ouro de Hitler", para populações desesperadas com a perda do emprego garantido e das expectativas de futuro, após o colapso do comunismo. O alvo dos porretes e coquetéis molotov dessa nova extrema direita não eram tanto os judeus e sim os imigrantes de países como o Marrocos e a Turquia. O argumento dos racistas era que esses "sub-homens" roubaram empregos dos europeus. Bobagem, porque em geral os estrangeiros aceitam submeter-se a trabalhos pesados, aos quais os "nacionais" não se sujeitam. Mas em tempo de crise, essa arenga racista convenceu muita gente.

Na Iugoslávia, onde o fim do comunismo deu origem a uma sangrenta guerra civil, generalizou-se a "limpeza étnica". Os sérvios, majoritários na Bósnia-Herzegovina, passaram a tentar eliminar os bósnios muçulmanos dessa república. Nada mais parecido com a "solução final" dos nazistas.

Na esteira da falência do comunismo e de outras propostas de esquerda, também ganharam força os escritores revisionistas, que negam os crimes de Hitler e seus comparsas. Aqui no Brasil, o gaúcho S. E. Castan, em seu livro Holocausto, judeu ou alemão?, nega o morticínio de judeus. Auschwitz e Treblinka, em suas palavras, transformaram-se quase em campos de veraneio.

Destruir a memória é o primeiro passo para a repetição de antigos crimes, e contra isso devemos estar sempre atentos. Este texto começou com uma citação de A metamorfose, de Franz Kafka. E vai terminar com outro trecho de Kafka, do livro A colônia penal. Nele, o autor fala sobre uma prisão tropical, cujo comandante acredita na tortura e no assassinato como formas de impor a disciplina, acima de tudo - até da própria inocência do condenado. O comandante morre e, em seu túmulo, é inscrita a seguinte frase:


Meu princípio é este:
a culpa é sempre
indubitável. Crede
e esperai. O antigo
comandante retornará...

BRENER, Jaime. A Segunda Guerra Mundial: o planeta em chamas. São Paulo: Ática, 2005. p. 4, 58-59, 62-63. (Col. Retrospectiva do Século XX.)

Texto 2. 

[...] A crise e a chegada dos estrangeiros despossuídos impulsionaram os perigosos sentimentos de racismo e intolerância, que se transformam em neofascismo e neonazismo. [...]

Os governos da Comunidade Europeia endureceram suas leis de imigração, assustados com o avanço eleitoral dos partidos de direita, que insistem na tecla de uma "invasão bárbara". Ciganos, turcos, africanos, asiáticos, latinos, todos "miseráveis" e "mal-educados", estariam pondo em perigo a alta civilização europeia. [...]

Os preceitos das "tribos" do mal chegam ao Brasil em segunda mão, numa versão absolutamente perversa, como só poderia ser. E inventa-se até uma "raça" onde ela não existe, ao inserir-se no cardápio de exclusões os nordestinos que migram para o Sul em busca de trabalho. Filhos da baixa classe média ou operários, os "carecas" brasileiros, como os alemães, "atacam os que têm menos ainda". [...]

Os neonazistas podem estar mais organizados e estruturados em todo o mundo do que há uma década, mas ainda assim não passam de pequenos grupos, se comparados às demais forças políticas nos respectivos países onde atuam. Mas nem por isso são menos perigosos. Sobretudo se levarmos em conta que constituem parte de uma realidade histórica e filosófica muito mais ampla. Uma realidade de intolerância, de rejeição às diferenças [...].

SALEM, Helena. As tribos do mal: o neonazismo no Brasil e no mundo. São Paulo: Atual, 1995. p. 81-3.

segunda-feira, 5 de março de 2012

EUA: o "american way of life"

"Não estou neste instante pensando na perda de bens, enorme e séria, como ela o é realmente, que tudo isso envolve, mas unicamente na destruição desenfreada das vidas dos não-combatentes, homens, mulheres e crianças, vítimas de perseguições [...] Os bens podem ser resgatados, as vidas de pessoas pacíficas e inocentes não podem. A presente guerra submarina na Alemanha contra o tráfico comercial é uma batalha contra o gênero humano [...] Estamos presentemente a ponto de aceitar o desafio para uma batalha com este inimigo natural da liberdade e devemos gastar todas as energias da Nação para testar e anular suas pretensões e seu poderio. Estamos satisfeitos, agora que vemos bem os fatos sem nenhum véu ou falsa pretensão a recobri-los, de lutar assim para ultimar a paz mundial e libertar as populações, incluindo os próprios alemães; para que sejam observados os direitos das Nações grandes e pequenas [...] O mundo tem de ser salvo pela democracia."

As palavras anteriores foram ditas pelo Presidente Thomas Woodrow Wilson (1913-1921), no dia 2 de abril de 1917, quando os Estados Unidos declararam guerra à Alemanha.

Ocorria, então, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que acarretaria importantes modificações, alterando profundamente as sociedades europeias, americanas, africanas e asiáticas.

[...] a guerra opôs os Aliados (grupo de Estados que se uniram sob a liderança da França, Inglaterra e Rússia) às Potências Centrais (denominação dada à união da Alemanha com a Áustria-Hungria, Bulgária e Turquia), tendo os EUA proclamado sua neutralidade. 

Entretanto, à medida que o conflito se desenvolveu, os interesses norte-americanos foram se identificando com a causa dos Aliados.

Veja, no quadro a seguir, o valor em milhões de dólares do comércio norte-americano com os Aliados, com as Potências Centrais e com os países neutros:


1914
1915
1916
Aliados
824
1991
3215
Potências Centrais
169
11
3214
Neutros
187
330
279



Pela leitura do quadro anterior, você verifica o crescimento do comércio norte-americano com as Potências Centrais; contudo, o valor total das mercadorias vendidas aos Aliados era muito maior.

Que mercadorias eram essas?

Tudo o que você possa imaginar em termos de negócios, desde produtos agrícolas até artigos industrializados, como armas, munições, navios, roupas, calçados, remédios, comida enlatada...

"As transações de produtos industriais e agrícolas se ampliaram com a abertura de créditos bancários aos Aliados (1914), seguida, em 1915, da concessão de empréstimos diretos à Inglaterra e à França."

Desse modo, banqueiros, industriais, proprietários de navios, comerciantes e muitos outros empresários eram, na sua maioria, favoráveis aos Aliados. Mesmo porque o pagamento das vendas a crédito e dos empréstimos aos Aliados dificilmente ocorreria caso a vitória fosse das Potências Centrais.

Acontece que muitos desses empresários também eram acionistas ou anunciantes dos órgãos da imprensa escrita e falada norte-americana.

[...]

Ainda hoje ocorre assim nos EUA, não sendo de espantar que, naquela ocasião, as cadeias de jornais empreendessem hábil campanha com o objetivo de levar a opinião pública a se mostrar favorável à vitória dos Aliados. E os jornais insistiam em alguns temas emocionais que tornaram os Aliados cada vez mais simpáticos aos norte-americanos.

Que temas eram estes?

Os dos laços existentes entre a Inglaterra e os EUA, cujas raízes encontravam-se na colonização inglesa, na permanência de uma língua comum, além dos costumes e das instituições semelhantes.

A obrigação de ajudar a França, cuja participação fora decisiva na conquista da independência dos EUA, começou a ser repetida nos editoriais e nas manchetes dos órgãos da imprensa. [...]

[...]

Para a imprensa norte-americana ficou mais fácil a construção de uma imagem antialemã quando navios norte-americanos começaram a ser afundados pelos submarinos germânicos.

Os jornais passaram a descrever a tragédia de homens, mulheres e até crianças, inclusive norte-americanas, afogando-se no meio do oceano, em consequência do afundamento do navio em que viajavam. Por que o naufrágio da embarcação? Porque fora alvejada por torpedos disparados de um submarino alemão. Os artigos editoriais apresentavam o governo alemão como bárbaro, hostil à democracia, inimigo dos Estados Unidos e violentamente militarista.

E a gota d'água foi a divulgação de um telegrama atribuído a Zimmermann, Ministro das Relações Exteriores da Alemanha, propondo ao governo mexicano uma aliança militar contra os Estados Unidos. Em troca, o México retomaria seus territórios conquistados pelos norte-americanos no século XIX: Novo México, Texas, Utah, Nevada, Arizona, Califórnia...

"Afirmando que interceptara o telegrama - cuja autenticidade foi posteriormente contestada pelos alemães - o serviço inglês de contra-espionagem entregou uma cópia do documento à Associated Press: sua publicação nos jornais provocou uma explosão do clamor público contra a Alemanha; é interessante lembrar que as relações EUA-México eram ruins."

Por que eram ruins? Devido ao avanço da Revolução Mexicana, cujo caráter nacionalista ameaçava os interesses norte-americanos na antiga terra dos astecas. Tanto assim que, por duas vezes, tropas dos EUA invadiram o México: em 1914 e 1916. Isto sem contar o envolvimento em golpes de Estado e pressões diversas sobre os governantes mexicanos.

Mas foi a ameaça de vitória das Potências Centrais - possível pelo enfraquecimento dos Aliados devido à Revolução Russa (1917) - que resultou na entrada dos EUA no conflito.

A intervenção dos Estados Unidos foi decisiva para a vitória final dos Aliados.

[...]

A guerra chegou ao fim quando a Alemanha - após a desintegração do Império Austro-Húngaro e a rendição da Bulgária e da Turquia - capitulou, aceitando uma anterior proposta de paz feita pelo Presidente dos Estados Unidos: os Quatorze Pontos de Wilson.

A Europa estava arrasada e economicamente esgotada. Em contraste, os EUA conheciam um ritmo de crescimento econômico sem precedentes!

O desemprego resultante da desmobilização de milhares de soldados devido ao término da guerra e a redução das vendas de produtos industriais - não só pelo corte das encomendas de material bélico, mas também porque as fábricas europeias voltaram à produção de bens de consumo necessários ao Velho Mundo - constituíram uma combinação perigosa.

Por quê?

Porque acarretaram uma crise econômica nos Estados Unidos [...] em que os estoques agrícolas e industriais se acumularam, os preços de venda das mercadorias caíram, os lucros tenderam a estacionar, empresas fecharam as portas.

Entretanto, a recuperação das indústrias foi rápida, tendo os EUA conhecido um período de extraordinária prosperidade econômica.

O exemplo mais característico desta época pode ser indicado pelo número de automóveis existente no país: havia 700.000 automóveis em 1911, 9 milhões em 1918 e 26 milhões em 1928.

A espantosa multiplicação do número de automóveis teve inúmeras consequências, destacando-se:

* a ampliação e melhoria das rodovias;
* a intensificação da extração do petróleo e da criação de refinarias e de postos de gasolina;
* o aumento da produção da borracha;
* a expansão de antigas e novas atividades como o garagista, o mecânico, o lanterneiro etc.

"O rádio, como o automóvel, começou como um brinquedo e se tornou não só uma necessidade como um promotor de transformações sociais e econômicas. A primeira estação transmissora foi inaugurada em 1920, em Pittsburgh; uma década depois havia quase 13 milhões de rádios nos lares norte-americanos."

Como meio de comunicação, chegou a ter maior influência do que os jornais, somente sendo superado em audiência pela televisão, após a Segunda Guerra Mundial.

Foi também de grande importância a indústria cinematográfica, que levou à abertura de milhares de salas de projeção e à valorização de Hollywood, na Califórnia, como capital do cinema.

Antes mesmo do primeiro filme falado - O Cantor de Jazz, estrelado por Al Jolson, em 1927 - astros e estrelas tornaram-se populares; contudo, o mais extraordinário e genial de todos foi Charles Chaplin, mais conhecido como Carlitos.

[...]

Foi o cinema, aliás, que permitiu a maior propaganda do american way of life.

O que vem a ser isso? O conjunto de costumes e padrões de vida do homem norte-americano.

American way of life

É evidente que a imagem projetada era fantasiosa, otimista, publicitária. Ao mundo, divulgaram-se os arranha-céus gigantescos, beldades de roupas decotadas saracoteando ao som do charleston, salões de clubes repletos de pares sonhadores em meio ao romantismo dos blues... Também se propagava a série de recordes dos atletas, melindrosas de cabelos curtos e geralmente com um falso sinal em uma das faces, pugilistas de várias categorias empenhados em conquistar o cinto de campeão, aparelhos eletrodomésticos diversos, saxofones e pistões solando envolventes músicas de jazz, competições de beisebol, basquete e rúgbi [...].

O american way of life propagado era de uma sociedade onde o amor, a aventura, a riqueza e a alegria de viver eram uma constante!

Mas a outra face da sociedade norte-americana era bem diferente, marcada pelo crime, pela intolerância e pela miséria.

Era o submundo do crime organizado, onde sobressaíam Al Capone, Dion O'Banion, Johnny Torrio, Bugs Moran, cujas quadrilhas não hesitavam em usar suas metralhadoras para eliminar algum concorrente mais ousado. Chicago tornou-se famosa como a capital do crime e da violência, que caminhavam junto à corrupção de políticos e de autoridades policiais e municipais.

Será que você ainda não assistiu, no cinema ou na televisão, a algum filme mostrando guerras entre quadrilhas disputando o controle de casas de jogos de azar e de speakeases (bares para o consumo ilegal de bebidas alcoólicas)?

Consumir bebidas alcoólicas era ilegal nos Estados Unidos? Sim, não só consumir, mas também fabricar, transportar e vender! Em 1919, o Congresso aprovou a Lei Volstead, que se tornou a 18ª Emenda Constitucional, proibindo bebidas alcoólicas em todo o país.

Entidades como a União das Mulheres pela Temperança e a Liga Antibares haviam se mobilizado pela moralização dos costumes e consideraram uma vitória a nova legislação. Mas o homem comum norte-americano não dispensava uma cervejinha, sua dose de uísque ou seu gim com tônica... O resultado foi a violação da lei e o enriquecimento dos gangsters e dos policiais e políticos corruptos!

Contudo, a Constituição também recebeu outra emenda que representou um avanço democrático: a 19ª Emenda assegurou às mulheres o direito de voto (1920).

A intolerância então existente explica a tragédia de Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, imigrantes italianos e anarquistas. Em 1920 foram presos e, no ano seguinte, um tribunal considerou-os culpados do assalto a uma fábrica e do assassinato de duas pessoas, condenando-os à pena de morte. Apesar da confissão do verdadeiro criminoso, a sentença foi aplicada e Sacco e Vanzetti morreram na cadeira elétrica.

A intolerância igualmente se manifestou contra os judeus, os católicos e os estrangeiros. E sabem quem os perseguia? A Ku-Klux-Klan, chefiada pelo Bruxo Imperial e cujos membros se ocultavam sob capuzes pontiagudos e agiam sempre com violência. Da sua intolerância religiosa e racial não excluíam os negros, a todos chicoteando e não hesitando em recorrer ao assassinato.

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Terra de contrastes, os Estados Unidos conheciam a pobreza em meio à abundância, o fanatismo religioso juntamente com a valorização dos prazeres materiais, a intolerância sob várias formas ao lado de conquistas democráticas, o reacionarismo e o conservadorismo coexistindo com o progresso, forças antagônicas que poderiam ser consideradas faces distintas de uma só moeda. Moeda que, no caso, era o dólar!

AQUINO, Rubim Santos Leão de; LISBOA, Ronaldo César. Fazendo a História: a Europa e as Américas do século XVIII ao início do século XX. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 320-325.