"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Sexo e casamento na Idade Média (Parte 1)

Coito, Giovannino de' Grassi

Em uma sociedade tão fortemente penetrada pelos valores da Igreja, quer dizer, da comunidade cristã, muitas atividades anteriormente consideradas de foro pessoal passaram, pelo menos até o século XIII, a ser vistas como de interesse comunitário. Nesse processo de levar para a esfera pública as coisas privadas, o sexo foi talvez o mais atingido. Essa mudança de comportamento começara na verdade antes do cristianismo, com certas correntes filosóficas pagãs defendendo uma vida mais regrada, mais afastada dos prazeres materiais considerados animalizadores do ser humano. Como em vários outros aspectos, o surgimento do cristianismo respondia a essa demanda psicológica e comportamental da sociedade romana, daí seu sucesso. Tornado religião oficial em 392 e cada vez mais institucionalizado pela Igreja, já na primeira Idade Média o cristianismo pôde impor seus valores.

A vida sexual ideal passou a ser a inexistente. A virgindade tornou-se um grande valor, seguindo os modelos de Cristo e sua mãe. Vinha depois a castidade: quem já havia pecado podia em parte compensar essa falta abstendo-se de sexo pelo restante da vida. Os relatos hagiográficos de toda a Idade Média, sobretudo de suas duas primeiras fases, abundam em exemplos de santas que morreram para defender sua virgindade e de santos e santas que ao se converter ao cristianismo abandonaram a vida conjugal. No entanto, esse desprendimento não podia ser adotado pela maioria das pessoas. Era mesmo perigoso que gente sem o suficiente autocontrole tentasse levar uma vida de abstinência sexual. São Paulo já definira a questão no século I: "É melhor casar do que abrasar" (1 Coríntios 7,9). A vida sexual era possível para o cristão médio, desde que ocorresse nos quadros de uma relação definida e supervisionada pela Igreja, o matrimônio.

Contudo essa interferência eclesiástica na vida íntima dos fiéis não foi aceita com facilidade. Quanto mais recuados no tempo e mais afastados dos grandes centros clericais (sedes de bispado, mosteiros), mais os medievos puderam viver de forma "pagã", no dizer da Igreja. Os camponeses, em especial, superficialmente cristianizados até fins da Idade Média em várias regiões, quase sempre escapavam aquele controle. Os aristocratas, interessados em casamentos que garantissem bons dotes e grande prole para dar continuidade à linhagem e herdar o patrimônio fundiário da família, resistiram por muito tempo ao modelo de união sexual que a Igreja determinava. Mesmo os clérigos não aderiram de bom gosto ao celibato obrigatório imposto pela Reforma Gregoriana.

Assim, apenas ao longo do século XII, a Igreja pôde, com dificuldade, completar a definição da única modalidade aceitável de vida sexual cristã - o matrimônio, tornado um dos sacramentos. Ou seja, em primeiro lugar, uma relação heterossexual. Combatia-se. assim, a prática da bestialidade (sexo entre humano e animal), frequente no mundo antigo e no campesinato medieval. Uma tradição mítica interpretava o versículo bíblico no qual Adão, ao ver Eva, diz "desta vez é osso dos meus ossos e carne da minha carne" (Gênesis, 2, 23), como prova de que ele anteriormente fazia sexo com animais. as únicas companhias que tivera até então no Éden. O casamento cristão combatia especialmente a homossexualidade, o pior pecado sexual possível, por visar apenas ao prazer e não à procriação, como Deus determinara ao primeiro casal: "Sejam fecundos e multipliquem-se" (Gênesis, 1, 28). Outra passagem bíblica, muito citada pelo clero medieval, comprovava o horror ao homossexualismo, difundido em Sodoma e Gomorra, cidades por essa razão destruídas por Deus com enxofre e fogo (Gênesis, 18, 20-21; 19, 1-29).

Em segundo lugar, o matrimônio é uma relação monogâmica. Por um lado, isso atendia a um dado da mentalidade medieval, fascinada pela Unidade cosmológica, talvez como forma compensatória à grande diversidade da realidade concreta do Ocidente, dividido em vários reinos, milhares de feudos, dezenas de línguas e dialetos, diferentes liturgias (apenas com a Reforma Gregoriana tentou-se impor o rito galicano-romano a todas as regiões, o que demoraria a se concretizar). Assim, idealmente, ao Deus único deveria corresponder uma só Igreja, uma só fé, um Só governante secular. Por outro lado, a monogamia respondia a uma lenta, mas inegável transformação na sensibilidade coletiva - que a Igreja soube reconhecer e tornar lei - pela qual se passava a ver a essência do casamento no consentimento mútuo dos noivos. Isto é, a união deveria ser construída a partir do afeto recíproco, e não apenas de interesses políticos ou patrimoniais. Ora, com base no afeto conjugal, que é único (como o dirigido aos pais e a Deus), concluiu-se pela exigência de um único parceiro.

FRANCO JUNIOR, Hilário. A Idade Média, nascimento do ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2011. p. 126-128.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Descobrimentos e Renascimento

Francisco Pizarro na ilha de Gallo, convidando seus soldados para cruzar a linha traçada no chão, se eles desejassem continuar sua expedição para o Peru, Juan B. Lepiani


A suposição de que a Terra era redonda e a necessidade de comprovação dessa hipótese através de uma viagem são um projeto tipicamente renascentista. [...]

Ao descobrir outras culturas, o homem do Renascimento hierarquizou-as: da civilização à barbárie. Nesse sentido, o humanista constitui-se a partir de uma vontade de domínio e poder sobre todos os povos do mundo.

Desenhar um mapa, construir o império, destruir outras culturas, impor a fé cristã, assinar obras de arte eram atitudes renascentistas.

A América - destruída e construída a partir do padrão europeu - transformava-se em lugar de comprovação da superioridade da cultura europeia. Era necessário construir uma igreja em cima de uma pirâmide indígena. Não podia ser ao lado.

A invenção da perspectiva na pintura é contemporânea às Grandes Navegações. Ao mesmo tempo em que o pintor estudava as possibilidades de criar a perfeição (reprodução) em seus desenhos, os cartógrafos procuravam mapear, com observância rigorosa, todo o globo terrestre. [...]

Os descobridores, ao realizarem sua obra de colonização construindo igrejas e outras edificações necessárias à conquista, e os artistas, pintando ou esculpindo na Europa, consideravam a existência de um único padrão de beleza, uma única religião verdadeira, uma cultura superior a todas as outras. Descobridores e artistas olhavam o mundo de um único ponto e a partir dele destruíam e construíam. [...]

O resultado desse grande esforço renascentista, dessa "plenitude", foi suporem possuir domínio sobre a vida e a morte das populações que consideravam bárbaras. A América conheceu a expressão mais violenta desse sonho de dominação.

Aqui, nesse Novo Mundo, grande parte da população foi morta por aqueles que necessitavam esculpir a sua cultura sobre as populações pré-colombianas. Não foram anos fáceis para a América. [...]

O colonizador, como se fosse um escultor, talhou a América na forma em que havia imaginado. Destruía pirâmides para construir igrejas, derrubava habitações para obter o desenho da praça ou o traçado desejado para as ruas, jogava pedras nos canais para que os cavalos pudessem circular melhor na cidade. Reconstruía-se tudo o que era possível para que o núcleo urbano lembrasse a Europa. [...]

Os indígenas aprendiam a pintar e a construir para que a América, cada dia mais, se apresentasse com as formas, as cores e a vida europeia. Uma multidão de artífices indígenas se esforçavam para imitar o desenho que viam em precárias reproduções trazidas pelos europeus.

Por todos esses motivos analisados, a harmonia presente nos quadros renascentistas transformava-se em desarmonia no Novo Mundo.

SILVA, Janice Theodoro da. Descobrimentos e Renascimento. São Paulo: Contexto, 1991. p. 56-58, 63-64.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Estética no fim do medievo: Contradições da vida moral

Cavaleiros medievais, Codex Manesse, entre 1305-1315, Meister des Codex Manesse

Angústia da existência e aspiração de uma vida melhor, todas as hesitações e todos os contrastes que marcam o pensamento filosófico e a vida religiosa encontram-se nos séculos XIV e XV, tanto na expressão da vida social como nas manifestações da arte. Abriu-se debate entre o sensível e o racional, a espontaneidade e a rebusca, a brutalidade e a afetividade. Nenhuma tendência das que se afirmam faz antever a resposta a este debate.

Seria fácil compor, utilizando os arquivos judiciários e os textos moralistas mal-humorados – neste tempo em que florescia o gênero dos Sonhos e das Lamentações -, um quadro exageradamente negro dos costumes da sociedade cristã. Era a época da peste e da guerra, ambas endêmicas. Tratar-se-ia de uma sociedade “fora dos eixos”, que perdera todo o pudor, fazendo gala de seus vícios e brutalidades, próxima em geral da demência, passando sem transição do crime cínico à penitência piegas, glorificando-se por vezes das suas ações torpes e respirando deliciada o odor dos túmulos? Muitos traços desta pintura romântica, ora trágica, ora picaresca, provém de uma ilusão de óptica. Efetivamente, devemos observar, de um lado, que os progressos dos espírito laico assim como da classe burguesa haviam [...] desenvolvido o gosto pela sátira social, pela maior liberdade de expressão e por um realismo menos embaraçado com as convenções. De outro, como se acentuava o contraste entre os costumes, sempre brutais, e o luxo crescente das classes elevadas, as contradições morais ainda ressaltavam mais vivamente.

Na sua vida, em geral precária e curta, os homens do século XIV não se embaraçavam com as próprias indignidades nem respeitavam as alheias. A inauguração em Hamburgo, em 1375, do primeiro manicômio será uma prova de agravamento das doenças mentais? De qualquer forma, é inegável que nenhuma corte deixava de possuir os seus loucos e anões; não havia festas populares onde eles não aparecessem: eram incluídos entre os animais dos circos. Como todos os seus predecessores, há séculos, os reis e os senhores não sabiam moderar suas violências; os súbitos ataques da raiva do cavalheiresco João, o Bom ou do afável Eduardo III, os acessos de furor de Filipe, o Bom, que se acalmava andando a cavalo, até o esgotamento, na floresta de Soignes, das crises de “melancolia” do Temerário são comuns a todos aqueles cuja vida ora guerreira, ora cheia de refinamentos não incitava a controlar as paixões. Froissart, embora seja um admirador cego da classe dos cavaleiros, confessa que “altos príncipes e altos senhores... seriam como que animais se não existisse o clero”. A atração das ciências ocultas difundidas largamente pelos próprios homens da Igreja, inclinados demais a denunciar um mal que viam em toda parte, é um indício de que, nestes tempos perturbadores, se procuravam aliados em todas as forças sobrenaturais ou infernais. Henrique de Transtâmara nada empreendia sem consultar o seu necromante de Toledo; dizia-se que um espírito familiar de Gaston-Phoebus, Conde de Foix, o avisava dos acontecimentos no próprio instante em que estes se desenrolavam. Quando um homem tão equilibrado como Gérson achava oportuno escrever um tratado destinado a afastar suas irmãs das infelicidades do casamento, fazia-o tanto como eco da antiga maldição monástica, reprovando o ato da carne, como para protestar contra as licenciosidades e aberrações de que era testemunha. Destes excessos, os moralistas extraíam uma condenação absoluta da vida secular, desde o romance satírico que acusa todos os contemporâneos de passar o tempo “assoando Fauvel” – o asno vermelho símbolo de todos os vícios – até às poesias de Eustache Deschamps, maldizendo aquele.

Temps plain d’orreur qui tout fait faussement
Age menteur, plain d’orgueil et d’envie.¹

Seu pessimismo tornava-se ainda mais forte perante as paixões coletivas que assaltavam prontamente as multidões urbanas. Estas ora choravam nos sermões, recebendo os sacramentos com fervor e expulsando as mulheres de vida fácil por exortação de um pregador (tolerando-as no entanto logo no dia seguinte), ora se revoltavam em “comoções” sangrentas, às quais, aliás, se mesclavam curiosamente os seres celestes. Assim, por ocasião das chacinas da guerra civil, em 1413 e 1418, os rebeldes parisienses colocaram sobre as imagens dos seus santos um chapéu largo, dos usados na Borgonha. Entretanto, as distrações populares assumiam freqüentemente foros de revoltante brutalidade, como acontecia com os espetáculos, prolongados à vontade, das execuções capitais, ou como certo torneio de cegos, realizado em Paris, em que estes se chacinavam a pauladas. Em todas as cidades existiam malandrins que de noite dominavam as ruas escuras. Em Paris havia o “reino dos maltrapilhos”, entre os quais os “francos burgueses”, cujo nome procedia de sua recusa de participar nos encargos comuns. A guerra provocou a subida à superfície, vindos dos covis, destes bandos de ladrões, assaltantes e assassinos; os coquillards² do século XV chegam a injuriar o próprio emblema dos peregrinos de Santiago.

Se as paixões são vivas e as dificuldades de uma inquieta existência incitam os homens a fazer fortuna o mais depressa possível – os coletores de impostos, cambistas e comerciantes de todos os gêneros são os mais apressados e também os mais frequentemente acusados de fraudes e concussões -, devemos esquecer o “burguês honesto” e o “pobre trabalhador”, cuja existência só conhecemos quando, tendo-se afastado da boa conduta, solicitam em termos chorosos as respectivas cartas de remissão. Existem duas maneiras de julgar o tempo em que vivemos ou condená-lo sem apelo, como fazem os moralistas e os satiristas, ou acomodar-se à situação com bonomia, sem esconder as fraquezas, criando uma moral temperada que, rechaçando qualquer exagero, concede o devido lugar ao prazer e ao interesse. Dentro da primeira forma integram-se, na Inglaterra, a crítica social de um Langland, cuja Visão de Piers Plowman se inspira nas prédicas populares; à segunda pertence a ironia sorridente de um Chaucer, nos seus Contos de Cantuária, obra de um homem de gosto cosmopolita, respeitador das convenções sociais.

¹ Tempo cheio de horrores que faz tudo falsamente
Era mentirosa, cheia de orgulho e inveja.

² Bandos de mendigos cujo nome deriva de suas vestes cobertas de conchas.


PERROY, Édouard. A Idade Média: o período da Europa feudal, do Islã turco e da Ásia Mongólica (séculos XI-XIII). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994. p. 297-300. (História geral das civilizações, 7).

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A partilha do mundo entre deuses e homens

Encontro dos deuses nas nuvens, Cornelis van Poelenburch

De todo modo, a existência dos gregos não pode ser referida apenas a si mesma, pois estava entrelaçada aos antepassados, aos fundadores de dinastias, à memória dos heróis e também aos deuses. Para os gregos, as homenagens e os sacrifícios às divindades eram fundamentais, pois eles dependiam das divindades para o sucesso ou não de seus empreendimentos.

O que o divino representava para um grego e como é que o homem se posicionava em relação a ele é muito diferente da maneira como nós lidamos e organizamos o campo do religioso. Jean Pierre Vernant desenvolve a ideia de que para nós a palavra “deus” evoca um ser único, eterno, absoluto, perfeito, onisciente e onipotente. Esse conjunto se associa a outros conceitos como o sagrado, o sobrenatural, a fé, a igreja e o clero que, juntos, definem o campo do “religioso”. Neste sentido, o “religioso” possui um estatuto e uma função que se diferenciam de outros componentes da vida social. Na nossa compreensão do mundo estabelecemos separações entre o sagrado e o profano, entre o natural e o sobrenatural, entre fé e descrença, entre sacerdotes e leigos. Há a separação entre Deus e um universo que depende inteiramente dele porque foi Ele que os criou, e o criou do nada.

Para os gregos, diferentemente, as inúmeras divindades de seu politeísmo não possuíam as características que definem o divino. Não havia noção de eternidade, de perfeição, de onisciência ou onipotência. Os deuses gregos não criaram o mundo, nasceram nele e dele a partir dos poderes primordiais como o Caos (vazio) e Gaia (Terra). Assim, a transcendência dos deuses gregos só valia com relação à esfera humana. Tal como os homens, mas acima deles, os deuses gregos eram parte integrante do Cosmos. Nesse sentido não havia oposição entre natural e sobrenatural. A lua, o sol, uma montanha, um rio etc., podiam ser sentidos como potências divinas. Os deuses da epopéia eram exagerados e se diferenciavam dos homens apenas por sua imortalidade. Homero muitas vezes ridicularizava os deuses colocando-os em situações cômicas. Como personagens irracionais, eles amavam, odiavam e brigavam. Não eram poderes ou forças impessoais. Os gregos aceitavam e compreendiam os deuses de Homero.

Zeus não era o deus das religiões monoteístas; ele era caprichoso e sensual, era frívolo, indeciso e pouco confiável apesar de ser o rei dos outros deuses. Para os gregos, até os deuses estavam submetidos à moira (destino). Quando Zeus tentava dar a vitória aos troianos na Guerra de Troia, gerava confusão entre os deuses e não conseguia seu intento. O destino era mais forte e a vitória já estava destinada aos aqueus.

Os deuses e as potências divinas encarnavam os poderes, as virtudes e os favores de que os homens não podiam usufruir. Os homens, apesar de toda a dedicação ao desenvolvimento e manutenção da areté, não podiam jamais pretender ultrapassar os deuses. Por outro lado, pode-se pensar que o mundo dos deuses, apesar de estar sempre hierarquicamente superior, assemelha-se ao mundo dos homens. Segundo Jean Pierre Vernant, as perfeições de que os deuses são dotados são um prolongamento linear das perfeições que se manifestam na ordem e na beleza do mundo. [...] a harmonia de uma cidade governada segundo a justiça e a elegância de uma vida regida pela moderação e pelo autocontrole era uma conquista humana inspirada pela crença dos gregos em uma legalidade imanente ao cosmos.

A dependência da divindade, para os gregos, não significava servidão, pois o mundo dos deuses ficava a tal distância que não impedia a autonomia dos homens ou, por outro lado, não implicava seu aniquilamento perante a infinidade do divino. A religiosidade do homem grego não desembocava na via de renúncia ao mundo, e sim na sua estetização.

Ainda segundo Jean Vernant, no mundo grego não havia lugar para um setor religioso diferenciado em instituições, comportamentos codificados e convicções profundas que dessem forma a um conjunto organizado e nitidamente distinto de outras práticas sociais, como, por exemplo, a política ou a economia. Em todas as dimensões da vida grega havia sempre uma dimensão religiosa. Neste sentido o problema da fé e da descrença não podia ser pensado por eles. O “crer” nos deuses não se colocava em um plano propriamente intelectual, não pretendia desenvolver um conhecimento do divino ou um caráter doutrinal.

Na perspectiva de Werner Jaeger, em Paidéia, é preciso considerar que, de Homero até a crise das cidades, os gregos sempre intuíram a existência de um cosmos concebido como um todo ordenado em conexão viva no qual e pelo qual tudo – pensamento, linguagem, ação e todas as formas de arte – ganhava posição e sentido. Nesta ordenação os gregos colocaram a imagem do homem genérico, na sua validade universal e normativa, enraizado na vida comunitária. Ou seja, eles criaram uma imagem do humano capaz de se tornar uma obrigação e um dever. Esse ideal de homem integrado e integrante de sua comunidade era uma forma viva que se desenvolveu no solo grego e persistiu por meio das mudanças históricas.

Nada mais afastado da cultura grega do que o cogito (pensamento) cartesiano. O eu penso como condição e fundamento de todo o conhecimento do mundo, de si e de deus [...] Imaginar o mundo não consiste em torná-lo presente no nosso pensamento. É o nosso pensamento, de acordo com Vernant, que faz parte do mundo e é presença no mundo. [...] Todavia, para o homem grego, o mundo não é esse universo externo reificado, separado do homem pela barreira intransponível que divide a matéria do espírito, o físico do psíquico. A relação do homem com o universo dotado de alma, a que tudo o liga, é uma relação de comunhão íntima. Para os gregos, a visão só é possível se entre o que é visto e aquele que vê existir uma total reciprocidade, expressão se não de uma identidade, ao menos de uma estreita afinidade. O Sol que ilumina todas as coisas é também, no céu, um olho que vê tudo, e se nossos olhos vêem é porque irradiam uma espécie de luz comparável à luz do Sol. O objeto emissor e o sujeito receptor, os raios luminosos e os raios óticos pertencem a uma mesma categoria do real, acerca da qual se pode dizer que ignora a oposição físico-psíquico ou que é ao mesmo tempo de natureza física e psíquica. A luz é visão e a visão é luminosa. Quando alcança um objeto, o olhar transmite-lhe aquilo que o observador sente ao vê-lo.


EYLER, Flávia Maria Schlee. História antiga: Grécia e Roma: a formação do Ocidente. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2014. p. 45-49. (Série História Geral)


NOTA: O texto "A partilha do mundo entre deuses e homens" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Homero, o modelador do espírito grego

Safo canta para Homero, Charles Nicolas Rafael Lafond 

Durante o século VIII a.C., logo após a Idade das Trevas, viveu o poeta Homero. Suas grandes epopéias, a Ilíada e a Odisséia, ajudaram a moldar o espírito e a religião dos gregos. Homero foi quem primeiro modelou a mentalidade e o caráter dos gregos. Séculos a fio, a juventude grega cresceu recitando os poemas homéricos e admirando seus heróis, que lutavam pela honra e enfrentavam o sofrimento e a morte com coragem.

Homero foi um gênio poético, capaz de desvendar, em poucos e brilhantes versos, os mais profundos pensamentos, sentimentos e conflitos humanos. Os personagens criados por ele, complexos em seus motivos e manifestando emoções humanas poderosas – como ira, vingança, culpa, remorso, compaixão e amor -, iriam intrigar e inspirar os escritores ocidentais até o século XX.


Estatueta de Homero. Terracota. Necrópole de Contrada Diana, Lipari. Século III a.C. 
Foto: Jastrow

A Ilíada narra, de forma poética, um pequeno episódio do último ano da guerra de Tróia, ocorrida séculos antes da época de Homero, durante o período micênico. O tema de Homero é a ira de Aquiles. Ao despojar “o rápido e excelente” Aquiles do seu justo prêmio (a jovem prisioneira Briseida), o rei Agamenon ofendeu seriamente a honra de Aquiles e violou o preceito solene de que aos heróis de guerra deviriam tratar-se com respeito. Com o orgulho ferido, Aquiles recusa-se a lutar ao lado de Agamenon na batalha contra Tróia. Aquiles intenta preservar sua honra demonstrando que os gregos não podem prescindir do seu valor e da sua bravura militar. Somente depois que muitos bravos homens são assassinados, entre eles seu dileto amigo Pátroclo, Aquiles deixa de lado sua rixa com Agamenon e entra no combate.

Homero utiliza um acontecimento particular, a disputa entre um Agamenon arrogante e um Aquiles vingativo, para demonstrar uma lei universal – que a “perversa arrogância” e a “ruinosa cólera” serão causa de muito sofrimento e morte. Homero demonstra que há uma lógica interna na existência humana. Para Homero, afirma o classicista britânico H. D. F. Kitto, “a toda ação corresponde uma conseqüência; uma ação mal avaliada acarreta maus resultados”. As ações das pessoas, e mesmo dos deuses, obedecem a certo padrão fixo; seus feitos estão subordinados aos desígnios do destino ou da necessidade. Com a visão de um poeta, Homero compreendeu aquilo que se tornaria uma atitude fundamental da mente grega: a existência de uma ordem universal para as coisas. Os gregos mais tarde a formulariam em termos filosóficos e científicos.


Apoteose de Homero, Jean Auguste Dominique Ingres

Em Homero encontramos também a origem do ideal grego de areté, excelência. O guerreiro homérico expressa um desejo ardente de afirmar-se, de demonstrar seu valor, de alcançar a glória que os poetas imortalizariam em seus cantos. No mundo aristocrático e guerreiro de Homero, a excelência era interpretada principalmente como bravura e habilidade na batalha. Vemos também na descrição de Homero o germe de uma concepção mais ampla da excelência humana: a que une o pensamento à ação. Um homem de real valor, diz o sábio Fênix ao renitente Aquiles, é “hábil no falar e destro nas ações”. Nessa passagem encontramos a primeira afirmação do ideal grego de educação – a formação de um homem que, afirma o classicista Werner Jaeger, “uniu a nobreza da ação à nobreza da mente”, que compreendeu “todas as potencialidades humanas”. Desse modo, encontram-se em Homero as origens do humanismo grego – a preocupação com o homem e suas realizações.

As obras de Homero são essencialmente uma expressão da imaginação poética e do pensamento mítico. No entanto, na sua visão da ordem eterna da natureza e na sua concepção do indivíduo em luta pela existência, estão os fundamentos da maneira de ver grega.

Embora Homero não tenha atribuído qualquer significação teológica a sua poesia, o tratamento que conferiu aos deuses teve importantes implicações religiosas para os gregos. Com o correr do tempo, suas epopéias formaram a base da religião olímpica, aceita em toda a Grécia. Afirmava-se que os principais deuses moravam no monte Olimpo, em cujo cume se situava o palácio de Zeus, a divindade mais importante. A vida cotidiana dos gregos estava impregnada de religião. Com o correr do tempo, porém, a religião tradicional seria desafiada e enfraquecida por um crescente espírito secular e racional.


PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 45-47.


NOTA: O texto "Homero, o modelador do espírito grego" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 10 de agosto de 2014

Idade Média: O mundo do medo

A fome trazia consigo sérias consequências. A ingestão de alimentos deteriorados ou impróprios para o consumo provocava doenças que se agravavam pelo estado de subnutrição. Há relatos de populações que, esfaimadas, chegavam a comer terra. Existem também registros de atos de canibalismo, praticados em meio a pragas de ratos e gafanhotos que frequentemente assolavam os campos. Em tempos de crise, os rebanhos eram dizimados por doenças ou pela falta de alimentos. Desesperadas, as pessoas consumiam também as rações reservadas aos animais como, por exemplo, a aveia armazenada. E os poucos animais que restavam eram abatidos para suprir a carência de alimentos.

Além disso, as populações subalimentadas e sem a mínima resistência física ainda sofriam o flagelo das epidemias, muito comum em toda a Idade Média. Os surtos mais freqüentes eram de cólera, peste bubônica e ergotismo (doença provocada pela ingestão de centeio contaminado por fungos). A célebre Peste Negra – epidemia de peste bubônica iniciada em 1347 – dizimou cerca de um terço da população européia. Na Toscana, a mortalidade atingiu 80% da população e, certas regiões da Inglaterra, chegou a 60%.


Miniatura da Bíblia de Toggenburg, Suíça, 1411, sobre a "Peste Negra".

Ao relatar uma dessas crises, ocorrida entre os anos de 1032 e 1034, o cronista francês Raoul Glaber, monge de Cluny, escreveu: “A fome estendeu de tal forma sua destruição, que se podia acreditar no desaparecimento de quase todo o gênero humano. As condições climáticas se fizeram tão desfavoráveis, que não se encontrava tempo propício para nenhuma sementeira, e as inundações impediam a realização de colheitas. As chuvas incessantes embeberam a terra de tal modo que, durante três anos, não foi possível abrir sulcos capazes de receber sementes. E, no tempo da colheita, toda a superfície dos campos fora recoberta por ervas daninhas. Durante esse período, depois de consumirem pássaros e animais selvagens, os homens passaram a recolher, transtornados pela fome, toda espécie de carniça e de coisas terríveis de se dizer. Para escapar à morte, alguns recorreram às raízes da floresta e às ervas dos rios. Coisa raramente ouvida no curso das épocas, uma fome raivosa fez com que os homens devorassem carne humana. Viajantes incautos eram assaltados por homens mais robustos, que lhes utilizavam os membros, coziam-nos e os devoravam. Muitas pessoas que migravam a fim de fugir do flagelo, ao encontrar hospitalidade, eram assassinadas e serviam de alimentos aos que as haviam acolhido”.

Num mundo tão terrível, a expectativa de vida não ultrapassava os 30 anos de idade. Até mesmo as camadas mais altas sofriam as consequências dos precários recursos da medicina da época, pois as doenças fatais e a mortalidade infantil não poupavam as famílias aristocráticas. Mas, sem dúvida, era entre os camponeses que as deficiências de vida se faziam sentir mais fortemente.

São numerosos os relatos e as miniaturas da época que testemunham o deplorável estado de saúde dos homens da Idade Média. Tuberculoses e dermatoses, especialmente a lepra, eram flagelos constantes, aos quais se somavam deformações de todo tipo (cegueira, paralisia, defeitos físicos) dramaticamente representados na obra de pintores como Peter Bruegel, o Velho e Hieronimus Bosch.

Para todos esses males, receitava-se um só remédio: a expiação. Em épocas de epidemia, organizavam-se procissões, romarias e atos públicos de penitência. E para cada dor ou moléstia recorria-se a um padroeiro específico: Santo Agapito para dor de dente; São Brás para dor de garganta; São Firmino para o raquitismo; São Ciro para cólicas; São Cornélio para convulsões, e assim por diante.

O mundo medieval era o mundo do medo. Temiam-se as más colheitas, a fome, as doenças. E, segundo as crenças populares, só a religião poderia oferecer a segurança almejada, fazendo milagres inimagináveis, e até mesmo ressuscitando os mortos. Bastava invocar o santo do dia para que o pedreiro, por exemplo, se mantivesse miraculosamente sustentado no ar, quando lhe despencasse o andaime. E, embora houvesse a esperança de uma vida eterna destituída de surpresas e de morte, havia ainda o pavor da condenação ao inferno, que dava a essa outra vida o mesmo cunho de insegurança e tornava ainda mais penosa a vida terrena.


HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 180-182. Volume 2.

NOTA: O texto "Idade Média: O mundo do medo" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O homem do século XVI: o conhecimento

A quermesse de São Jorge com a dança ao redor do poste, Pieter Brueghel, o Jovem

A um nível diferente do psiquismo, o homem do século XVI não possui exatamente as mesmas faculdades naturais de conhecer o mundo exterior, nem mesmo a aparelhagem mental do homem do século XX. Entretanto, sua necessidade de certeza é, talvez, ainda maior do que a nossa. Porém, por um exemplo, o da França, esclarecido por trabalhos recentes, quantos outros permanecem de nós desconhecidos.

- Os sentidos. Eles são, provavelmente, mais aguçados do que os nossos num universo em que o homem se situa, mais amiúde, num estado de alerta. A hierarquia não é a mesma de hoje (L. Febvre).

A vista, que é o nosso sentido primordial, não vem, então, senão após o ouvido e o tato. Antes da propagação do livro impresso, a leitura constitui um meio de informação menos utilizado do que a audição. Os conselheiros dos soberanos são chamados auditores e as relações quase sempre são orais. A Palavra de Deus é comunicada muito mais pelo sermão ou pela prédica do que pela leitura. Entendimento significa compreensão. O tato é o órgão da certeza. Fornece ao homem a confirmação do que ele vê. As práticas religiosas ratificaram tal confiança (imposição das mãos, toque das relíquias). Todavia, no século XVI, desenvolve-se a função da vista, época em que o uso dos vidros brancos e dos óculos dão um prolongamento à atividade do homem.

- A influência do meio natural sobre o pensamento. Devido à falta de confiança na vista, o órgão do conhecimento científico, o homem permanece orientado para o qualitativo. Nem o espaço, nem o tempo são medidos com exatidão.

As medidas do espaço são tomadas de empréstimo ao corpo humano: polegada, pé, passo, cúbito, ou ao deslocamento do homem: dia de marcha. A jornada de carruagem é a unidade de superfície mais difundida. Todas estas medidas têm um valor variável. Não existe nenhuma possibilidade de avaliar as grandes distâncias.

Depara-se a mesma imprecisão para a expressão do tempo. A duração é o tempo vivido. Não se conta em horas, mas em preces: o tempo de uma ave, de dois padres-nossos. O tempo-instante é fixado pelos incidentes metereológicos contemporâneos. A data é expressa segundo um acontecimento e com relação às festas.

A divisão do tempo é baseada na alternância do dia e da noite. A relojoaria já produziu obras estimáveis a serviços das municipalidades, mas frágeis e pouco numerosas. O começo da jornada não estava fixado com uniformidade. Situa-se, na Itália, no começo da noite. Ocorre o mesmo com o início do ano. É somente no decorrer do século XVI que se introduz a ordem na questão da data.

Na realidade, só o ritmo das estações e a alternância do dia e da noite é que contam. Os meses são expressos pelos trabalhos do campo ou, entre as pessoas de saber, pelos símbolos do zodíaco. A divisão do dia em horas equivalentes durante todos as estações mal começa a impor-se. É verdade que, vivendo embora uma vida mais curta do que a nossa, o homem do século XVI é menos apressado que o do século XX. Dia de entrevista e tempo transcorrido num trabalho são noções muito elásticas.

Em contrapartida, o homem é muito mais sensível às concomitâncias percebidas na natureza. O animismo é alimentado por uma imaginação muito concreta: demônios, íncubos, súcubos, lêmures para as pessoas de saber, duendes, diabretes para todos, são companheiros da vida cotidiana.

- A fraqueza da expressão abstrata. As línguas vivas não permitem expressar perfeitamente os conceitos. Faltam ao francês da época muitos termos abstratos. O progresso da tipografia não permitiu ainda a codificação de Villers-Cotterêts que torna o seu emprego obrigatório nos atos jurídicos (1539). Mas ele não convém de todo à ciência. É, pois, verossímil que as outras línguas europeias não estejam melhor aparelhadas.

O latim, que apresentava a vantagem de ser compreendido pelo mundo erudito da Europa, podia enriquecer-se de neologismos, mas tendo sido "feito para exprimir as tentativas de uma civilização morta há uma dúzia de séculos... seria ele capaz de acolher ideias ainda por vir?" (L. Febvre).

A expressão do quantitativo está ainda mal dividida. O cálculo, contudo, dotou-se de usos simples, mas apenas para a contabilidade comercial. O cálculo científico está embaraçado por dificuldades de expressão. Os algarismos gobar (ditos árabes), hindus de origem, não penetraram a vida corrente onde imperam sempre os algarismos romanos cuja utilização nas contas feitas no papel é de tal modo complicado, que se empregam preferentemente o tabuleiro de xadrez, o ábaco e as fichas.

- Necessidade de certeza. Será talvez por causa de todas estas debilidades que se torna imperioso a necessidade de certeza? Prisioneiro do meio natural, o homem o conhece mal. Ele desdenha a observação metódica e não vê nela senão curiosidade, mas não faz disso um dever. O homem prefere raciocinar, sem se preocupar com o valor das bases desse raciocínio.

Consciente da fragilidade de sua ação sobre a natureza, ele considera como uma experiência miraculosa tudo quanto sabe fazer, sem ousar arriscá-lo por mudanças demasiado rápidas de método. Ele situa a idade de ouro nas origens da humanidade e apóia-se na tradição, não por preguiça de espírito ou por rotina, mas por razão. Por isso os trabalhos científicos estão atulhados de citações. Entrincheira-se atrás de autoridades e discute-se, sobretudo, os desacordos. É por aí, unicamente, que o pensamento avança.

Enfim, a necessidade de certeza sacia-se nas crenças animistas que se misturam às mais evoluídas religiões. Assim se explicam, sem se admitir a dúvida, as relações entre os seres, os seres e as coisas e entre as próprias coisas. Agir sobre a natureza é descobrir o caráter dos espíritos e forçá-los a agirem. Por isso a magia é apenas uma falsa ciência.

A magia é inocente. Não ocorre o mesmo com a feitiçaria. A feitiçaria, praticada entre os cristãos, é muito mais temível. Faz-se acompanhar de perversão ou mesmo de inversão de todos os preceitos das leis divinas e naturais. Sabemos hoje que ela revela do domínio da patologia. A feitiçaria só teria para o historiador um interesse limitado se as autoridades humanas não tivessem crido nas narrativas dos feiticeiros e na realidade do sabá. A feitiçaria constitui, portanto, um elemento negativo do conhecimento que não se deveria subestimar.

Fraco domínio sobre a natureza, força da tradição, magia e feitiçaria eram, igualmente, obstáculos aos progressos da humanidade. É na Europa Ocidental que o espírito de empreendimento suscita os maiores esforços no sentido de lhes escapar.

CORVISIER, André. História moderna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 21-23.

NOTA: O texto "O homem do século XVI: o conhecimento" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Mulher e exclusão no Brasil do século XIX

A imagem da mulher presente nas obras dos viajantes que visitaram o Brasil na primeira metade do século XIX era de uma mulher quase criança, vivendo seus primeiros anos sob a tutela de um pai despótico e, mais tarde, sob o controle estrito do marido, ao qual, de acordo com o costume, a lei e a religião, ela devia total obediência; uma criatura sexualmente inibida, mas que poderia de repente romper as barreiras que a cercavam e se entregar ao desvario de uma paixão, e por isso era estreitamente vigiada; uma mulher com pouca ou nenhuma educação e iniciativa, que aspirava apenas ao casamento e à maternidade [...].


Cena de família de Adolfo Augusto Pinto, José Ferraz de Almeida Junior

As referências ao isolamento em que viviam as mulheres da classe alta e média na primeira metade do século XIX, quando elas eram mantidas quase segregadas, longe dos olhos dos estranhos, sendo vistas apenas de esguelha quando iam à igreja, cederam lugar ao longo do século a imagens de maior sociabilidade. Mulheres passaram a ser vistas frequentando bailes, teatros e confeitarias, visitando amigos e até mesmo servindo-se do bonde para ir às compras ou à praia. Mas o retrato da mulher dependente [...] persistia [...].


Negro e negra numa fazenda, Rugendas

Durante muito tempo, esses dois retratos - o da mulher dependente e o do poder patriarcal com seu inegável viés classista - ocultaram dos historiadores não só a complexidade e variedade da experiência feminina como também as mudanças que estavam tendo lugar na vida das mulheres no decorrer do século XIX. Tais generalizações baseavam-se na experiência das classes média e alta. Ninguém parecia perguntar se essa forma de representação era válida para outros grupos sociais. Durante muito tempo, ninguém parecia prestar muita atenção às discrepâncias entre o comportamento real das mulheres e as prescrições das leis, da Igreja e dos moralistas. Sistematicamente ignorados ou minimizados foram os casos de separação e até mesmo divórcio autorizados pela Igreja em certas circunstâncias. [...] Esquecidas foram também as que simplesmente se negaram a casar, preferindo permanecer solteiras. Ignoradas também foram aquelas que se rebelaram contra os pais, insistindo em obter uma educação superior e até mesmo uma profissão. Até a segunda metade do século XX, a história pouco valorizou as mulheres que, um século antes, criaram sociedades abolicionistas e literárias, escreveram livros e artigos criticando o sistema patriarcal, publicaram revistas em favor da emancipação da mulher, apoiaram o movimento republicano, associaram-se aos primeiros grupos socialistas e anarquistas e exigiram o direito à educação e ao voto. Na penumbra também permaneceram as mulheres que, à testa de negócios e de fazendas, conseguiram sustentar suas famílias depois da morte dos maridos, assim como as mulheres das camadas subalternas, escravas ou livres.


Largo da Carioca (com o Chafariz da Carioca, na frente e o Convento de Santo Antônio, no fundo). 
Eduard Hildebrandt

Se bem que a imagem do patriarcalismo persistisse, ela estava se tornando cada vez menos adequada para representar a experiência das mulheres das classes média e alta, nas últimas décadas do século XIX, pelo menos em algumas regiões do país. Note-se que essa imagem nunca corresponderia à experiência de mulheres das classes subalternas. [...] Dificilmente se enquadrariam nesse retrato patriarcal as escravas, mulheres que trabalhavam como empregadas e amas de leite na casa dos ricos, as trabalhadoras da indústria, as prostitutas e vendeiras nas ruas das cidades, assim como as que, na zona rural, trabalhava, de sol a sol ao lado dos homens.

COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Unesp, 2007. p. 493-498.

NOTA: O texto "Mulher e exclusão no Brasil do século XIX" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Homofobia: crimes de ódio

Toda homofobia tem em algum aspecto da heterossexualidade sua base fundamental. Contudo, a heteronormatividade não passa de uma crença. Uma crença convencionalizada e mal fundamentada construída no costume e em suas repetições acríticas. Nunca no conhecimento e na verdade. A simples existência dos homossexuais no mundo, por si só, comprova a contradição e o tendencionismo dessa crença. Inclusive, o preconceito faz parte do domínio da crença por ter base irracional.  Preconceitos não dizem respeito ao conhecimento – não usam de raciocínios, argumentos e evidências lógicas para se fundamentarem. Preconceitos não são justificáveis. Principalmente quando acompanhados de altas dosagens de violência, intolerância e discriminação. Discriminar alguém com base em sua orientação sexual é promover tratamento desigual – geralmente inferiorizando-o. E promover tratamento desigual é crime no Brasil.

Dois homens nus, François-Xavier Fabre

São indícios preocupantes em todo o mundo. Nosso país tem apontado graus de intolerância contra os homossexuais que estão além da imagem acolhedora que propagamos pelo globo. Em 2009, foram vítimas de homofobia no país em torno de 198 pessoas. Em 2010, nossa sociedade chocou o mundo com imagens de jovens homossexuais sendo agredidos gratuitamente e à luz do dia em plena Avenida Paulista – coração da maior e mais cosmopolita metrópole do país. Mas a homofobia não é peculiaridade brasileira. No país mais poderoso do planeta, os EUA, 17,6% dos crimes de ódio, em 2008, foram motivados por orientação sexual. Outras culturas também indicam intolerância e ignorância ao tratar do tema. Na China pós-Revolução Cultural, por exemplo, os homossexuais se tornaram alvo regular de perseguições policiais – acusados de vandalismo e perturbação da ordem pública. Na Coréia do Norte a homossexualidade é condenada enquanto vício promovido pela decadente cultura ocidental capitalista – supostamente deturpadora de caráter. Todavia, curiosamente, todos os dias noticiários estão abarrotados de casos de violência abusivos por parte de heterossexuais e nem por isso atribuímos tal violência e agressividade a essa orientação sexual. A verdade é que o suposto medo homofóbico desencadeia níveis de violência injustificáveis. Superiores a qualquer ameaça que os homossexuais possam vir a representar aos tradicionais costumes sociais.

Bacanal, Wilhelm von Gloeden

Em suma, a prática homofóbica se manifesta num conjunto de atitudes segregadoras, agressivas e discriminatórias de inferiorização dos homossexuais por parte dos heterossexuais. Trata-se de um preconceito fundamentado numa crença equivocada e irracional de que somente são possíveis no mundo aqueles que se atraem sexualmente pelo sexo oposto (heterossexualidade). Essa falsa crença deve ser sobreposta à conscientização de que homossexuais são seres vivos, seres humanos. Eles existem e estão ativamente dentro da sociedade. Pagam impostos como todo mundo, compram propriedades e se relacionam como todo mundo. Estudam, trabalham, amam, se frustram, possuem amigos e inimigos, são gordos e magros, bonitos e feios, gentis e sacanas, são tímidos e atrevidos como todo mundo. Se eles estão vivos é porque têm lugar para eles no mundo, caso contrário estariam mortos ou não existiriam. Mas existem. Eles existem. Existem. Nascem, têm vida própria, mães, pais e amigos. E, por existirem, seus direitos devem ser preservados e garantidos como os de qualquer outro ser humano, membro da sociedade civilizada e organizada legalmente.


A massagem, Édouard Debat-Ponson

Nossa constituição zela pelo bem-estar da população e prevê que o respeito pelo outro independe das suas escolhas afetivas pessoais. A Constituição Federal Brasileira define como objeto fundamental da República: “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de discriminação”. A expressão quaisquer outras formas refere-se a todas as formas de discriminação não mencionadas explicitamente no artigo, tais como a orientação sexual, entre outras. Além de a Constituição proibir qualquer forma de discriminação de maneira genérica, várias outras leis estão sendo discutidas no Congresso a fim de se proibir especificamente a discriminação aos homossexuais. Vale lembrar também que países como o Canadá, a Holanda, Portugal, Argentina e Uruguai já legalizaram o casamento homossexual com o objetivo de reconhecer os direitos civis básicos dessa população.


Amantes do sol, Henry Scott Tuke

No sentido de regulamentar os direitos civis dos homossexuais no Brasil, a partir de 2011 passamos a permitir a legalidade da união estável entre indivíduos do mesmo sexo. O que a legitimação desse tipo de união vem estimular é a defesa de que a união deve ser legal em função do afeto nela presente. Casamentos não são mais (desde o século XVIII) obrigações sociais, nem alianças sociais e políticas entre famílias, não são meios de salvação da alma nem garantias de renda e muito menos mecanismo para manutenção da espécie. Casamentos são celebrações do direito de união afetiva com parceiros de nossa livre escolha. Legitimar a união e, daqui para frente, o casamento entre os homossexuais é afirmar que seus direitos fundamentais estão preservados, bem como o de qualquer outro brasileiro. É uma questão de justiça. O texto das uniões estáveis padronizado nos cartórios brasileiros é enfático: uniões estáveis asseguram direitos civis e a constituição familiar (não a tradicional, mas todos os tipos de família). Afinal, quem é a favor da família – enquanto núcleos funcionais de afeto e compreensão – tem de ser a favor de todos os tipos de famílias possíveis no mundo.


Duas mulheres valsadoras, Henri de Toulose-Lautrec

Por fim, extinguir a homofobia e legalizar os homossexuais na sociedade são atos imperativos para a garantia da qualidade de vida de toda uma geração que está por vir. Seja por adoção, seja por inseminação artificial e uso de barrigas de aluguel ou ainda pela reprodução genética entre duas mulheres, o que importa é que novas famílias estão se constituindo a partir das relações afetivas homossexuais. Assim como no século XX, novas famílias também se constituíram a partir de relações afetivas oriundas de divórcios. E a nova geração de brasileiros que se forma agora não pode vir a sofrer com a homofobia lançada sobre seus pais e mães. Assim como filhos de mulheres e homens divorciados não mereciam sofrer preconceito nas décadas passadas, quando o divórcio ainda era tabu social. Temos de minar a homofobia agora, não só pelo movimento LGBT em si, mas para que as novas gerações não precisem viver marginalizadas e clandestinas dentro da sociedade. Os recentes debates – mesmo que 20 anos atrasados – sobre o assunto são frutíferos e necessários para o amadurecimento de toda a sociedade brasileira. Espera-se que seus resultados sejam racionais, tolerantes, imparciais e objetivos – como toda verdadeira Ética deve ser.

Ana Augusta Carneiro. Crimes de ódio. In: Filosofia. Ano VII, nº 83, junho de 2013. p. 49-50.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Legenda Áurea: Anatomia do Diabo

Se a Idade Média se caracteriza pela influência da Igreja sobre toda a sociedade, não parece estranho afirmar que a grande batalha que o mundo medieval presenciou foi a luta de Deus e seu exército celeste contra o Diabo e suas tropas demoníacas. Satã era o grande tentador, aquele que, por meio de suas artimanhas, colocava toda a humanidade perto da perdição. A luta contra o Maligno era ativa e sem descanso: o homem medieval se via obrigado a evitar a tentação do demônio e o pecado continuamente, em todas as horas. O demônio não cessava de atacar o gênero humano, e quando não o fazia de modo astuto (por meio da tentação), utilizava a força (por meio da possessão) para enganar o homem, ou, simplesmente, tratava de aterrorizá-lo para que cedesse ao seu poder.

Não à toa, os demônios são personagens muito presentes na Legenda Áurea (c. 1260), a coletânea de hagiografias - vidas de santos - de maior sucesso na Idade Média. Escrita pelo frade dominicano Jacopo de Varazze (1228-1298), a obra dá exemplos de conduta moral utilizando como parâmetros as vidas dos santos. Pertence ao gênero das legendae novae, compilações preparadas entre os séculos XIII e XIV, a maior parte feita pelos representantes da Ordem Dominicana. A Legenda Áurea, com narrativas de inúmeras batalhas entre santos e demônios, atenderia também ao empenho da Igreja em reordenar e unificar a memória cristã.


Martírio de São Saturnino, Jacopo de Varazze. Legenda Áurea


A sociedade cristã latina havia aumentado seus contatos comerciais e culturais com outros povos e crenças, por isso a Igreja sentiu a necessidade de levantar todos os detalhes teológicos sobre a questão do mal e suas criaturas, defendendo os ensinamentos ortodoxos contra uma variedade de oponentes, dentro e fora da cristandade.

Se externamente o inimigo era associado aos pagãos, judeus e muçulmanos, internamente o perigo eram os heréticos, ou seja, aqueles que interpretavam o cristianismo de forma diferente dos preceitos de Roma. O grande problema estava na expansão da heresia cátara, cuja preocupação teológica principal girava em torno da questão do mal. O catarismo foi um movimento religioso cristão que ocorreu na França e na Itália entre os séculos XI e XIV. Os cátaros acreditavam que existiam dois princípios criadores opostos, o do Bem e o do Mal, sendo Satanás o príncipe do mundo material, seu criador e regulador. A resposta católica para o dualismo cátaro foi resumida no Quarto Concílio de Latrão, de 1215. Os bispos se preocuparam em afirmar que existia um só Deus, criador de todas as coisas a partir do nada. Entre as criaturas divinas estavam também o Diabo e os outros demônios - bons em sua natureza, mas que fizeram mau uso de seu livre-arbítrio. Para a doutrina cristã, Satã é apenas um agente de Deus, este sim a única fonte e o único senhor de todas as coisas. O Diabo, um anjo decaído, submete-se a Deus e não pode agir sem sua permissão. Cabe a ele aplicar as penas do inferno.

Nos primeiros séculos da Idade Média, do V ao XI, Satã ainda era definido de forma pouco concreta. Foi a partir do século XII que ideias esparsas, e muitas vezes contraditórias, sobre sua figura começam a ser reunidas em uma sistematização dogmática. As manifestações heréticas em voga no período conduziram a Igreja a um processo de reestruturação e renovação da espiritualidade que influenciou a forma como o Diabo aparece na doutrina e consequentemente, nas representações em imagens.

Na Legenda Áurea, a luta dos santos contra os demônios aparece o tempo todo, mostrando que os inimigos da cristandade se encontravam em todos os lugares e que os fiéis deveriam estar preparados para enfrentar o mal, concretizado na figura dos demônios. Dividida em cerca de 180 capítulos, a Legenda foi inicialmente concebida como um instrumento doutrinário para ser utilizado na pregação dos membros da Ordem Dominicana, que participou ativamente da renovação da Igreja no século XIII, junto com a Ordem Franciscana. Com o passar do tempo, a Legenda obteve popularidade, sendo traduzida do latim para as línguas locais. Uma das versões de maior destaque foi a francesa, feita por Jean de Vignay (1282/1285-?), membro da congregação dos frades hospitaleiros da Ordem de Saint Jacques du Haut-Pas e tradutor de várias obras para a família real francesa. Sua tradução da Legenda Áurea teria sido realizada entre 1333 e 1348, por encomenda da rainha da França, Joana de Borgonha (1293-1349), esposa do rei Filipe VI de Valois (1293-1350).

O manuscrito mais antigo dessa tradução que chegou até nós pode ser encontrado na Biblioteca Nacional da França. Datado de 1348, contém 345 fólios, com 132 miniaturas no total. Suas iluminuras foram produzidas na oficina de Richard de Montbaston, e algumas dão destaque às cenas de enfrentamento entre os santos e os diabos descritas no texto. Cabe destacar que, na maioria das vezes, as imagens nos manuscritos da Legenda Áurea têm a função de identificar o santo e nem sempre a de ilustrar a sua história narrada no texto. Assim, é importante constatar que o(s) iluminador(es) tivesse (m) se preocupado em retratar estas cenas de embate em algumas imagens, reconhecendo sua importância no texto.

Os corpos dos demônios retratados realçam sua origem: o reino dos mortos. São quase sempre magros e estão nus, cobertos de pelos, sempre repugnantes. Tem um rabo e duas asas (de morcego) que lembram sua condição de anjos caídos. Seus pés bifurcados parecem os de um bode. Suas cabeças são enormes e escuras, dotadas de chifres pontudos e cabelos eriçados, que evocam as chamas do inferno.

A imagem de Santo Antão apresenta dois demônios cruéis atormentando-o, com suas asas de morcego vermelhas, seus corpos peludos negros e rostos com expressões de maldade. A cena mostra o santo em visita a um túmulo, sendo agredido pelos demônios, que tentam retirar sua auréola, marca de santidade. Na imagem aparecem também três javalis, animais frequentemente associados ao diabólico.

Os demônios têm aparência sempre cruel. Fazem caretas de escárnio, com a boca fendida até as orelhas. Na imagem referente a São Macário, os diabos também tentam retirar sua auréola. Na cena, o santo dorme em um lugar onde estão sepultados pagãos e usa um corpo como travesseiro. Os demônios surgem para atormentá-lo, mas o santo mantém o semblante calmo.

A cor preta aparece constantemente nos textos e nas imagens para descrever ou representar os demônios. No Ocidente, a partir do século XI, essa é a cor diabólica por excelência. As trevas do inferno se opõem à luz celeste, assim como Satanás se opõe a Deus. São frequentes também os diabos pretos e vermelhos, duas cores que vêm diretamente do inferno, caracterizando as trevas e as chamas. O Diabo as carrega sobre si, contribuindo para torná-las ainda mais maléficas.

Os demônios podem apresentar sobre uma parte do corpo - em geral, a mais obscena, o baixo-ventre ou o traseiro - um segundo ou até mesmo um terceiro rosto, em forma de máscara, igualmente com caretas de escárnio. É o caso da imagem de Santa Teodora, em que um demônio a agride verbalmente. Ele apresenta asas vermelhas, chifres, pelos, o dedo em riste, uma expressão raivosa e um rosto no traseiro. A mesma cena ilustra a vida de São Francisco, só que, neste caso, os chifres e as asas do demônio não aparecem.

O paganismo, assim como todas as manifestações religiosas que fogem ao cristianismo, é considerado demoníaco. Os demônios, de acordo com a Legenda Áurea, habitam dentro dos ídolos, portanto, o templo pagão é seu território. Os santos procuravam convencer as pessoas disso. Assim o faz São Filipe, que se recusa a sacrificar diante de uma estátua de Marte. É nesse momento que um dragão imenso, figura relacionada ao Diabo, sai da base do ídolo e mata o filho do sacerdote que comandava o sacrifício.

As formas e as ações do Diabo e dos demônios na Legenda Áurea têm como objetivo introduzir na mente dos fiéis a convicção de que a presença do mal é real. Informado sobre a aparência, os meios e os lugares pelos quais os demônios se manifestam, o cristão poderia aprender a evitar o pecado. Para isso, suas armas seriam os exemplos de vida dos santos. Por meio dessa pedagogia sobre o mal, a Igreja reforçava suas normas de conduta moral.

Tereza Renata Silva Rocha. Anatomia do Diabo. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 8, nº 88, janeiro 2013. p. 66-71.

domingo, 31 de março de 2013

O passado amoroso decomposto 2: do Renascimento à Revolução Francesa

Cena do filme "Ligações perigosas", dir. Sthefen Frears


O neoplatonismo do Renascimento teria sido para as elites cultas um meio de esquecer e empurrar para baixo do tapete a repressão sexual à qual deviam se habituar. Não se casar jamais por prazer e não casar jamais sem o consentimento daqueles a quem se devia obediência eram leis nas casas aristocráticas. O casamento era um negócio de longa duração que não podia começar sem a opinião de parentes e amigos. A bem dizer, atrás da concepção cristã do casamento, há a hebraica. Ambas preocupadas em eliminar o amor-paixão do casamento e a impor à mulher sua obediência ao marido. O lugar do amor ficava sendo, portanto, a literatura. Literatura em que, ao contrário, a mulher reinava e era adorada, distribuía ou recusava favores livremente. Mas sempre em um cenário em que se bifurcavam dois amores: o de fora e o de dentro do matrimônio. E o de fora, levando, invariavelmente, a dolorosas dificuldades.

No teatro elisabetano, por exemplo, quando se apresenta a ideia de um poderoso amor, ao mesmo tempo carnal e espiritual, ele se liga diretamente ao tema da paixão e da morte. Lembram-se de Romeu e Julieta? A maior parte dos autores dos Tempos Modernos, dos poetas de corte aos moralistas populares, todos bordaram, com preciosismo ou realismo, variações sobre esses pontos. Até fundindo-as. Mas há uma tônica quase permanente: o poder do amor, a atração mútua dos corpos ou o perigo representado pelos charmes femininos [...].

Existem, sem dúvida, exceções. Lope de Vega, que domina o teatro do Século de Ouro espanhol, dá um lugar ao amor em suas múltiplas comédias. Ele figura ao lado da busca pelo prazer, característica de seu tempo. É o prazer o elemento que permite o triunfo do casal sobre todos os obstáculos jurídicos ou humanos que se oponham ao seu desabrochar. Mas a maioria dos escritores fica com Cervantes que, em suas Novelas exemplares, de 1613, prefere celebrar os amores honestos e pudicos, mesmo os de uma pequena cigana ou de uma servente de albergue, às paixões sem freios.

Os progressos da repressão sexual tiveram algumas consequências interessantes. Uma delas foi a de levar a sociedade ocidental, em princípio condenada a respeitar a decência e o pudor, a uma obsessão erótica ligada, muitas vezes, ao culto clandestino da pornografia. O início do Renascimento expõe, sem disfarces, as virtudes do sexo assim como o charme de seus preparativos. E o faz sem cerimônias. Os aspectos carnais do amor se exprimem com franqueza radical; os poetas que buscam sem falso pudor as alegrias do leito ou do beijo e confessam preferi-los às carantonhas de devoção parecem, em sua sinceridade, escandalosos. Aproveitando-se da revalorização da Antiguidade, artistas variados tentaram unir a inconstância do apetite erótico com a filosofia de que era preciso viver o momento presente.

As diversas etapas do amor sensual ou do desespero amoroso nunca foram tão bem cantadas como o fizeram, por exemplo, Ronsard e Shakespeare. São autores que celebram o êxtase nascido da satisfação do desejo. O Renascimento italiano, por sua vez, inaugurou o culto alegre e realista da licença amorosa. Em suas rimas voluptuosas, a beleza que se venera com toda a liberdade é a do Paraíso antes do pecado [...]. Mas a ordem moral burguesa, que então se instalava, empurrava para baixo do tapete o domínio dos escritos proibidos, o quadro da nudez e de corpos enlaçados. Enquanto a Vênus de Botticelli despia-se na tela, nos quartos, os corpos se cobriam.

O paradoxo da Reforma Católica foi o de coincidir, na Europa aristocrática, com os desenvolvimentos da civilização renascentista. Misticismo e pecado, normas e desregramento coabitavam na prática e nas representações. Sermões tenebrosos sobre o Juízo Final conviviam com uma literatura erótica cuja especificidade era o gênero pastoral, caro às cortes que se deliciavam em ouvir ou ler sobre amores de pastores e pastoras. Eles convidavam os espectadores e leitores a gozar o melhor de sua juventude, a viver plenamente, a beber, a comer, a folgar. Entre céu e inferno, a aproveitar cada dia, antes que a morte os levasse. Sua mensagem era direta: terapia de alegria e de contentamento pessoal, o bom uso do sexo não dependia, senão, da disposição física dos parceiros.

Mas os séculos ditos "modernos" do Renascimento não foram tão modernos, assim. Um fosso era então cavado: de um lado os sentimentos, do outro, a sexualidade. Mulheres jovens de elite eram vendidas, como qualquer animal, nos mercados matrimoniais. Excluía-se o amor dessas transações. Proibiam-se as relações sexuais antes do casamento. Instituíram-se camisolas de dormir para ambos os sexos. [...] Para as igrejas cristãs, toda a relação sexual que não tivesse por fim imediato à procriação se confundia com prostituição. Em toda a Europa, as autoridades religiosas têm sucesso em transformar o ato sexual e qualquer atrativo feminino em tentação diabólica. Na Itália [...] condenava-se a morte os homens que beijassem uma mulher casada e, na Inglaterra, decapitavam-se as adúlteras; em Portugal, queimavam-se, em praça pública, os sodomitas. 

Durante o século XVII, autores como Descartes, filósofo francês, tentam explicar a natureza exata do amor como fruto de uma emoção da alma, emoção diversa da agitação do desejo. O amor: oblação, dedicação e abandono de si. O desejo: posse, narcisismo, egoísmo. [...] O erotismo é visto como ruinoso e não foram poucos os que tentaram sublinhar a que ponto uma paixão podia ser fatal. O amor no casamento, por sua vez, consolidava-se na representação da "perfeita amizade" ou de união, no coração, de duas almas por meio do amor divino. O sexo era, por vezes, mencionado, mas, na amizade, a razão tinha de dominar o ardor da carne. E a razão era, nesse caso, vista como uma força ou benção divina.

Estudando a vida privada na Europa moderna, o historiador Orest Ranum percebeu que se o casamento envolvia a mistura de corpos, isso ocorria menos por amor apaixonado do que por dever; para garantir a procriação e a continuidade das famílias. As relações sexuais não eram necessariamente íntimas ou amigáveis. O ato requeria apenas privacidade. [...]

[...]

[...] Na época das Luzes o casamento foi objeto de um movimento literário ambíguo. Inspirada pela mitologia medieval e cortesã, a paixão pré-romântica, ilustrada por Werther de Goethe, publicado em 1774, insistia em punir a sexualidade. Quando o filósofo Rousseau, por sua vez, introduz o que pensava sobre o amor para uma sociedade aristocrática em busca de prazeres, suas preocupações de valorizar a inocência e a virtude apenas reiteram uma longa tradição de idealização, correspondente, sobretudo, à vontade de esconder, se não de esquecer, o ato carnal.

Outra corrente de letras europeias, contudo, celebrou a sexualidade com bem menos recato. No mesmo século XVIII, textos poéticos e literários exprimem os desejos de uma elite obcecada pela busca de volúpia sensual e do uso das técnicas eróticas mais perfeitas. Fruto da repressão sexual que suprimia até o nu da pintura - tão exposto no Renascimento -, essa sensualidade cerebral exacerbava o mito intelectual da virilidade, do qual Don Juan é um símbolo. Falante e galante, esse século só tratava de amor nos salões aristocráticos e, mesmo assim, sob as mais estritas regras de etiqueta cortesã. [...] O laço entre a hipocrisia das convenções, próprias às camadas ricas, e a tensão erótica que elas contribuem a reforçar, fornecerá o tema essencial para a libertinagem. Inspirada pela máscara da boa educação, essa retórica exprimia os constrangimentos de uma sociedade galante que matava o amor ao transformá-lo em vício. Falar de sexo tornou-se uma compensação agradável para o vazio espiritual de uma elite. O retrato mais nítido desta situação foi feito por Choderlos de Laclos, em seu As ligações perigosas.

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Por volta de 1700, as cortes galantes, os chamados "salões preciosos" e mesmo os contos de fadas - muito na moda, então - realimentam o ideal do amor impossível. [...]

Os escritores franceses do século XVIII vão impor um novo modo de representar a paixão. Malgrado a presença de textos libertinos, a época da Revolução Francesa daria visibilidade ao culto romântico da paixão, ligando-o mais estreitamente à dor do que à felicidade. [...]

PRIORE, Mary Del. História do amor no Brasil. São Paulo: Contexto, 2012. p. 78-85.