"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 1 de maio de 2016

A arte como arma de guerra

"O que vocês pensam que seja um artista? Um imbecil feito só de olhos, se é pintor, ou de ouvidos, se é músico, ou de coração em forma de lira, se é poeta, ou mesmo feito só de músculos, se se trata de um pugilista? Muito ao contrário, ele é ao mesmo tempo um ser político, sempre alerta aos acontecimentos tristes, alegres, violentos, aos quais reage de todas as maneiras. Não: a pintura não é feita para decorar apartamentos. É um instrumento de guerra para operações de defesa e ataque contra o inimigo".

Essas foram as palavras de Pablo Picasso (1881-1973), que pintou, em 1937, a obra de nome Guernica. Ela refere-se aos horrores da guerra e à brutalidade do bombardeio aéreo realizado por aviões alemães sobre a capital basca de mesmo nome.

A obra cumpre um duplo papel: o de representar um acontecimento histórico e o de ser um acontecimento histórico, pois é uma intervenção da cultura na luta política.

Guernica, em 26 de abril de 1937, tinha sido severamente bombardeada por aviões alemães, postos à disposição de Franco, ditador líder do governo espanhol, aliado de Hitler. Dos 7 mil habitantes da cidade, 1.654 morreram e 889 ficaram feridos. O massacre teve como objetivos a submissão do País Basco e a demonstração da nova técnica bélica alemã, o bombardeamento de saturação, que seria depois usado em larga escala na Segunda Guerra Mundial. Este consistia em usar técnicas modernas e científicas para maximizar os danos e o número de vítimas nos bombardeios e para facilitar o avanço das unidades de infantaria. Os motivos do bombardeio eram claros: serviriam de exemplo para os bascos e para todos aqueles que se opusessem aos alemães e a seus aliados.

Picasso assume uma posição ofensiva. Por meio da pintura de Guernica, não pretende apenas mostrar os horrores da guerra, mas, com uma nova estética, obrigar a humanidade a sentir-se co-responsável - se não por participação direta, por submissão - pela carnificina realizada contra o povo basco.

Pintada no estilo cubista, em uma tela de 3,50 m x 7,28 m, Guernica impressiona pelas figuras fragmentadas, em tons de cinza, branco e preto.

O que mais se destaca no quadro é a ausência de cores ou de relevo, duas das principais qualidades sensíveis com as quais percebemos a natureza. Não perceber a natureza é cortar as relações que se tem com ela e com a vida. Com isso só resta a morte.

Outra característica da obra é uma crise na forma, que é a representação máxima de uma civilização. A forma que reconhecemos e admiramos é produto da cultura de nossa civilização; quando esta entra em crise, representa uma crise na própria civilização.

Estas características mostram como o autor entende a sociedade em que vive e suas transformações em seus aspectos mais gerais. Já o conteúdo representa as especificidades do acontecimento, pelos símbolos presentes na obra. Símbolos como o touro, clara referência à Espanha, impassível diante do massacre ocorrido; o desespero do homem e da mulher em lados opostos do quadro, sendo que o primeiro vê sua casa destruída pelas chamas¹ e a segunda chora pelo filho morto².

¹ Guernica (detalhe), Pablo Picasso

² Guernica (detalhe), Pablo Picasso

PEDRO, Antônio; LIMA, Lizânias de Souza; CARVALHO, Yone de. História do mundo ocidental. São Paulo: FTD, 2005. p. 396-7.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Poder jovem


Jovem oferecendo uma flor para o policial, 1967

Na segunda metade do século XX, a ação da juventude foi marcada por uma palavra: protesto. Manifestando-se individualmente ou em grupo, os jovens contestaram os valores do mundo "adulto", ou seja, as normas, regras e instituições estabelecidas, bem como concepções e comportamentos determinados pela tradição cultural. O protesto jovem ocupava todos os espaços: a casa (família), a escola, as ruas e as praças.

Na década de 1960, o protesto jovem concretizou-se em dois movimentos que, mesmo articulados, tinham características e propósitos diferentes: o movimento estudantil e o movimento hippie. Ambos tiveram origem nos Estados Unidos e estenderam-se a quase todos os países.

A primeira grande manifestação estudantil ocorreu na Universidade de Berkeley (Califórnia), reivindicando a reforma dos cursos e estudos universitários. A movimentação logo se expandiu, e os estudantes passaram a organizar protestos contra a participação norte-americana na guerra do Vietnã.

Foi, porém, em Paris que o movimento estudantil se caracterizou como protesto político, contestando não só a universidade, mas a ordem social geral.

O movimento estudantil de caráter eminentemente político estruturou-se principalmente nos países que viviam sob regimes ditatoriais. A contestação transformou-se em movimentos que organizavam a luta armada. Em todos os lugares a repressão foi arrasadora, e os jovens foram suas principais vítimas.

O movimento hippie, em contrapartida, pregava paz e amor. Representou uma espécie de alternativa para a contestação estudantil, trocando o engajamento político dos estudantes por uma proposta genérica de liberdade. Os hippies não se propunham a mudar o mundo, mas pretendiam viver como bem entendessem.

Nesse sentido, o movimento hippie levava à alienação, ao desligamento das questões sociais que geravam o descontentamento da juventude. No entanto, em relação a valores, visão de mundo e comportamento, era profundamente contestador.

Os hippies criaram uma nova cultura, baseada na vida em comunidades (nas quais a antiga estrutura familiar estava ausente), na produção artesanal, na prática de uma religiosidade esotérica, no cultivo da música que se identificou com a juventude (o rock 'n' roll e todas as suas variantes) e na liberação do sexo, dos sentimentos, das emoções e (o que foi trágico para a juventude) do uso de drogas.

Depois de ter se imposto como uma nova força no mundo, a juventude, a partir de meados da década de 1980, parece ter sofrido um recuo conservador. Líderes estudantis radicais e hippies deram lugar a yuppies, jovens executivos preocupados apenas com o próprio sucesso.

O "poder jovem" tornou-se um componente da sociedade, na medida em que a juventude passou a ser idealizada, tornando-se símbolo e sinônimo de saúde, vitalidade e, principalmente, beleza - um dos mitos mais importantes do século XX. A juventude ficou na moda e tornou-se, ela própria, moda.

Os jovens continuaram formando grupos específicos que os distinguissem da grande massa, mas sem nenhuma proposta de renovação ou mudança. Mais do que formação de grupos, tornou-se comum o aparecimento de gangues, como os punks e os skinheads.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 516-517.