"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Antiguidade Clássica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Antiguidade Clássica. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 31 de março de 2017

A poesia lírica na Grécia Antiga

Safo e Alceu, Lawrence Alma-Tadema

A poesia épica definhou rapidamente, Mas outra nasceu, marcada ao mesmo tempo pela influência da música oriental e do individualismo dos gregos: a lírica. No que tange à música, tanto aos instrumentos quanto à melodia, o contato com a Lídia, por sua vez herdeira da Frígia, foi por certo determinante. O fato de os gregos atribuírem esta ou aquela inovação técnica a alguns de seus compatriotas não pode dissimular a realidade dos empréstimos que, sem dúvida, foram tomados aos legados da civilização cretense. Tudo isso lançou profundas raízes no patrimônio grego, penetrando o ritual das cerimônias religiosas. O lirismo coral, acompanhado das danças e evoluções ritmadas de grupos de homens, moças e crianças, em parte alguma recebeu maiores homenagens do que em Esparta. A música tornou-se elemento integrante da educação dos jovens gregos, por vezes até a idade de trinta anos.

Mas, além de terem inventado para sua poesia lírica metros de infinita variedade, os gregos ousaram utilizá-la a fim de exprimir sentimentos pessoais, defender-se de seus acusadores e passar à acusação, colocar-se em cena, por vezes despudoradamente, cantar seus ódios e seus amores, dores e alegrias. A partir do século VII a.C. foram inventados a elegia, o iambo e a ode, incessantemente aperfeiçoados e flexibilizados com uma riqueza inesgotável de ágeis combinações. Foram praticados por numerosos poetas, dos quais, infelizmente, nenhuma obra inteira nos resta. O legislador Sólon serviu-se da poesia para apoiar sua ação política e social. Teognis de Mégara derramou nela a sua cólera; Esparta encontrou nos estrangeiros os melhores de seus poetas cívicos. Mas a maioria dos líricos, nascidos ou tendo vivido nas cidades da Ásia Menor ou das ilhas, cantou, ora as alegrias, ora os ardores da vida sensual que a riqueza e a proximidade do Oriente aí faziam eclodir. Os dois maiores nomes são os de dois mitilênios do começo do século VI a.C., cujos fragmentos nos permitem conhecê-los de forma bastante precisa: Alceu e a poetisa Safo. Neles não se nota constrangimento algum; seu frenesi é indiferente às conveniências banais. Safo ostenta uma paixão que já parece escandalosa à Antiguidade, e Alceu celebra, por um apelo à embriaguez, a morte de um tirano detestado.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga: o homem no Oriente Próximo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p. 119-120. (História geral das civilizações, v. 2)

segunda-feira, 27 de março de 2017

Aspásia

Aspásia e Pérciles, José Santiago Garnelo y Alda

Nos tempos de Péricles, Aspásia foi a mulher mais famosa de Atenas.

O que também poderia ser dito de outra maneira: nos tempos de Aspásia, Péricles foi o homem mais famoso de Atenas.

Seus inimigos não perdoavam que fosse mulher e estrangeira, e para acrescentar-lhe alguns defeitos atribuíam a ela um passado inconfessável e diziam que a escola de retórica, que ela dirigia, era um criadouro de mocinhas fáceis.

Foi acusada de desprezar os deuses, ofensa que podia ser paga com a morte. Diante de um tribunal de mil a quinhentos homens, Péricles a defendeu. Aspásia foi absolvida, embora em seu discurso de três horas Péricles tenha esquecido de dizer que ela não desprezava os deuses, mas achava que os deuses nos desprezam e arruínam nossas efêmeras felicidades humanas.

Naquela época, Péricles já havia expulsado a esposa de seu leito e de sua casa e vivia com Aspásia. E por defender os direitos do filho que teve com ela, havia violado uma lei que ele mesmo havia escrito.

Para escutar Aspásia, Sócrates interrompia suas aulas. Anaxágoras citava suas opiniões:

- Que arte ou poder tinha essa mulher, para dominar os políticos mais eminentes e para inspirar os filósofos? - perguntou-se Plutarco.

GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 50.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Os libertinos. A Antiguidade em lugar do Cristianismo (Parte 4)

A lição de amor, Jean-Antoine Watteau

Mais grave talvez do que todos esses ataques é o fato de a Antiguidade fornecer o meio de dispensar o cristianismo. Deseja alguém dirigir uma casa, educar filhos? Eis Xenofonte. Governar? Há Aristóteles, Platão, Tácito. Conhecer as leis do Universo? Que leia Plínio, Lucrécio. Instruir-se acerca dos limites entre a natureza e o milagre? Cícero escreveu o De divinatione. Refletir sobre a imortalidade da alma? Aí estão o Fédon e o Sonho de Cipião. Sobretudo os Antigos proporcionavam doutrinas que permitiam ao homem bastar-se a si próprio para enfrentar as dificuldades, as penas, as angústias da vida, doutrinas onde a razão soberana dita os atos que uma vontade livre executa. Para Epicuro, a felicidade constitui-se de dois estados: "Corpo sem dor, alma sem inquietação". Estes dois estados são a voluptuosidade, objetivo essencial de nossa natureza, primeiro bem do homem. A razão sã dita os objetos e as opiniões que é preciso evitar ou procurar a fim de atingir tais estados. A razão levar-nos-á a rejeitar grandes prazeres, se maiores penas devem segui-los, ou a aceitar grandes e prolongadas penas, se prazeres hão de acompanhá-las. A razão mostrar-nos-á que a frugalidade, a honestidade, a justiça nos conduzem aos estados de onde surge a voluptuosidade, que a felicidade e a virtude formam duas irmãs inseparáveis. A moral do prazer convertia-se, assim, num prudente cálculo utilitário. [...]

Outros preferiam os estóicos, Epicteto, Sêneca, cujo estoicismo se matiza de epicurismo. Existem coisas que dependem de nós, a opinião, o querer, o desejo, a aversão e, em geral, os nossos julgamentos e as nossas representações. Somos os seus amos. Nossa imaginação nos dá o poder de representar as coisas no espírito, de vê-las como boas ou más, de desejá-las ou rejeitá-las, de suportá-las ou repeli-las. A faculdade de julgar e querer é absolutamente livre.

Existem coisas, entretanto, que não dependem de nós, o corpo, os bens, a reputação, a dignidade. Elas nos são estranhas. Dependem dos outros.

Se desejamos aquilo que só depende de nós, isto é, bem julgar e conformar nossa vontade ao nosso julgamento, seremos felizes, pois a felicidade consiste em obter o que desejamos.

Os estóicos não eram raros entre os magistrados e os fidalgos. Até um religioso pediu que o amortalhassem com um volume de Sêneca do qual jamais se separara. Mais numerosos, contudo, eram os epicuristas. O epicurismo transformou-se facilmente num utilitarismo que comprazia ao espírito burguês. [...]

MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 340-341. (História geral das civilizações, 9).

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O corpo na Grécia antiga

Tumba do mergulhador, Paestum, c. 470 a.C.  Artista desconhecido. 
Foto: Dave & Margie Hill / Kleerup

"A Grécia civilizada fez do seu corpo exposto um objeto de admiração. Para o antigo habitante de Atenas, o ato de exibir-se confirmava a sua dignidade de cidadão. A democracia ateniense dava à liberdade de pensamento a mesma ênfase atribuída à nudez. O desnudamento coletivo a que se impunham - algo que hoje poderíamos chamar de 'compromisso másculo' - reforçava os laços de cidadania." SENNET, Richard. Carne e pedra: o corpo e a cidade na civilização ocidental. Rio de Janeiro: Record, 1997. p. 30.

O corpo humano era um dos temas de predileção da arte grega. O corpo masculino era geralmente representado nu. Já o corpo feminino, que conheceu algumas figurações nuas de influência oriental (como os marfins do século VIII a.C.), só foi retratado nu no século IV a.C. e na época helenística. Antes disso, já tinha sido representado com sugestivas vestes molhadas (como Calímaco, monumento das Nereidas) ou semiencoberta.

O nu, geralmente um corpo jovem, apareceu na época arcaica e no começo da época clássica. Durante a época clássica, nota-se uma tendência ao rejuvenescimento de alguns deuses (Apolo, Dioniso, Hermes) e a tendência a uma sutileza nas formas, certa androginia nas estátuas de hermafroditas. Inversamente, os nus femininos representados nos vasos tinham, no século V a.C., uma morfologia principalmente masculina, talvez pelo desconhecimento do corpo feminino, que não se mostrava em público, ao contrário do masculino.

A pintura de vasos também era uma fonte importante para a representação do corpo. Alguns dos vasos usados nos banquetes eram decorados com cenas de relações sexuais diversas, que podiam ser divididas em dois grupos: cenas elegantes, com trocas de olhares, e cenas cruas, nas quais se expressava uma relação de dominação entre um homem pertencente ao mundo dos senhores e um ser de estatuto servil, apresentado como simples objeto funcional. (Anne Jacquemin, professora da Universidade Marc Bloch, Estrasburgo)

In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 1: antiguidade. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 17-19.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Vida privada em Roma

Os textos literários e os registros arqueológicos, notadamente os descobertos em Pompeia e Herculano*, revelam aspectos interessantes e peculiares da cultura popular e da vida cotidiana da Roma antiga.

Casal nu na cama. Afresco na Casa del ristorante, Pompeia, ca. 62-79 AD. Artistas desconhecidos.

A ideia, tradicionalmente aceita, de que a cultura romana clássica pode ser considerada fundamento da cultura ocidental atual não se sustentaria se considerados os aspectos mais expressivos da vida privada. Desse ponto de vista, a sociedade romana era tão diferente das atuais sociedades ocidentais quanto o foram as sociedades ameríndias ou as extremo orientais.

O conhecimento da vida privada romana conduz à percepção de contrastes, que levam mais à descoberta do outro do que ao encontro das nossas origens. Um exemplo bem significativo é a organização da família.

Hermafrodito. Afresco, Herculano, entre 1 e 50 AD. Artistas desconhecidos.

O chefe da família - o pai - tinha autoridade absoluta. A criança, para ser integrada à família, teria que, ao nascer, ser erguida pelo pai. Com esse gesto, ele a reconhecia como filho.

A contracepção, o aborto, o enjeitamento de crianças de nascimento livre e o infanticídio do filho de uma escrava eram práticas usuais e admitidas legalmente.

A adoção era prática comum como forma de legitimação e da formação da família. O nome da família, transmitido à pessoa adotada, era considerado mais importante do que a "voz do sangue".

Ao ser aceita pelo pai e, portanto, integrar a família, a criança era entregue aos cuidados de uma nutriz que, em geral, a acompanhava pela vida toda, sendo, também encarregada de sua educação. Os meninos, na puberdade, passavam a ser educados também por um "pedagogo". A nutriz e o pedagogo tinham muito mais contato com as crianças e os jovens do que os pais, com os quais raramente se encontravam.

Aos 12 anos as meninas eram consideradas aptas ao casamento, a partir da qual elas passavam a levar uma vida reclusa no interior das casas. Aos 14 anos eram consideradas adultas, chamadas de "senhoras" e deveriam se mostrar pudicas e reservadas para serem estimáveis.

Para os meninos não havia uma idade estabelecida para a maioridade. Eles passavam a integrar o mundo dos adultos a partir do momento em que o pai ou o tutor os considerasse preparados.

Após os 12 anos, os que pertenciam às "boas famílias" - as abastadas - continuavam os estudos e formavam grupos de jovens, aos quais, em nome do "calor da juventude", era permitido praticamente tudo: frequentar prostitutas, tomar amantes, escolher favoritos (a homossexualidade entre os jovens ou entre um adulto e um jovem - pederastia - era prática recorrente e considerada natural).

A juventude encerrava-se com o casamento, mas os filhos, mesmo casados e adultos, continuavam sob a autoridade paterna até a morte do pai.

* No ano 79, uma erupção do Vesúvio soterrou as duas cidades localizadas no sopé do vulcão. No século XVIII, as escavações arqueológicas trouxeram à luz o que as cinzas haviam encoberto ao longo dos séculos. Os vestígios encontrados revelam a vida urbana como se as pessoas e objetos tivessem sido petrificados em plena ação, tais como estavam no momento da catástrofe. Por isso eles são bastante reveladores do dia-a-dia e das especificidades da vida urbana nos domínios de Roma.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 147-48.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

A mulher e a sexualidade na Roma antiga: A posição da mulher na sociedade romana

Amo-te, ama-me, Sir. Lawrence Alma-Tadema

As informações que temos sobre a mulher na sociedade romana antiga se referem quase exclusivamente às famílias aristocráticas. [...]

A predominância masculina e a dominação da mulher pelo homem nas mais variadas sociedades têm sido muito destacados pelos estudiosos. Também a mulher romana estava submetida ao poder masculino.

No entanto, em nenhuma sociedade a dominação masculina é total e absoluta. Existem graus e modos variados de dominação. As decisões não são tomadas só pelos homens, e sua predominância não se efetiva em todos os assuntos.

Na política, no trabalho, nos negócios - quer dizer, no espaço público - o homem romano, aparentemente, decidia tudo. No entanto, em casa, no espaço doméstico, predominava a mulher, a administradora do lar.

Mesmo na política, a mulher romana tinha uma influência indireta, mas por vezes decisiva. Não faltam exemplos históricos de mulheres intuitivas e inteligentes, influenciando maridos e amantes que ocupavam posições de poder. Isso torna difícil para os historiadores saber com certeza a origem de muitas decisões.

Para entender uma sociedade, é importante ir além das leis e das regras sociais escritas. É preciso saber como essas leis e regras eram aplicadas e analisar episódios históricos concretos para entender a verdadeira posição da mulher na sociedade romana.

[...] os mitos são uma fonte importante para entendermos valores que orientam o comportamento das pessoas em uma sociedade. O mito [...] a seguir é um exemplo disso. Ele foi registrado pelo historiador Tito Lívio, que também viveu na época do imperador Otávio Augusto.

A história se passa na época do primeiro rei de Roma, o lendário Rômulo. Nesses primeiros tempos não havia mulheres em Roma - coisa só possível em uma lenda. Então, era preciso conseguir esposas.

Os povos vizinhos, entre eles os sabinos, não estavam dispostos a ceder suas filhas para os homens rudes e de origem incerta que habitavam Roma. Diante dessa dificuldade, Rômulo teve a ideia de raptar mulheres das aldeias vizinhas.

Os sabinos foram convidados para uma festa em homenagem aos deuses. Durante os festejos os romanos raptaram as moças que vieram para as comemorações. Após o rapto, os romanos tentaram, com a ajuda do próprio rei, consolar as jovens raptadas. Eles só tinham cometido o rapto por necessidade absoluta, movidos pela força da paixão e do amor. Elas seriam consideradas como verdadeiras esposas. O carinho e a atenção dos maridos fariam com elas esquecessem a dor, a violência e a separação das famílias.

Loucos de dor e ódio, os sabinos se prepararam para a guerra. Logo um poderoso exército se aproximou de Roma. Os romanos saíram ao encontro dos sabinos e travou-se um terrível combate, com muitas mortes de ambos os lados. Em um intervalo da batalha, irrompe no campo uma procissão das jovens esposas, que eram a causa da guerra, Com cabelos soltos e vestes em farrapos para demonstrar o seu desespero, elas imploram para que cesse a guerra.

Sensíveis aos apelos daquelas que mais amavam no mundo, os combatentes interromperam a luta. Por meio de um tratado, não só a paz foi restabelecida, como os dois povos decidiram se unir.

Bem de acordo com o espírito romano, o episódio teve consequências legais: os privilégios e as honras prometidas pelos maridos a suas esposas foram transformados em leis. Elas não fariam nenhum trabalho pesado e servil. Cuidariam dos filhos, fiariam a lã e administrariam o lar.

Que conclusões podemos tirar desse relato lendário? Em primeiro lugar ele mostra que os romanos atribuíam um papel muito importante à mulher na fundação da cidade. Roma teria nascido não apenas da coragem dos guerreiros, mas também do amor e da compreensão das sabinas, que consentiram no seu rapto, promovendo a união com os romanos. O mito mostra ainda que as leis romanas, no que se refere ao casamento e aos direitos da mulher, não foram resultado de um ato de imposição, mas sim da livre aceitação de maridos e esposas.

Outras lendas vão na mesma direção, colocando a mulher em uma posição honrosa e quase sagrada. Muitas dessas lendas ressaltam a vocação profética das mulheres, cuja intuição os homens não vacilavam em seguir. A mulher romana recebia uma veneração quase religiosa. O marido e os filhos devotavam a ela ternura, respeito e se comportavam diante dela com humildade receosa. Nas relações entre marido e mulher, mais do que a submissão, predominavam a cumplicidade e a colaboração.

Todavia, apesar dessa posição honrosa reservada à mulher romana, tanto a lei como os costumes procuravam limitar o seu espaço às fronteiras do lar. Fora de casa, sua influência se dava através da pessoa do marido, do pai ou do irmão. O documento ¹ abaixo mostra, entretanto, que a mulher não se conformou em ficar limitada ao ambiente do lar.

Juvenal ², o autor do documento, representando os valores da tradicional sociedade romana, satiriza as pretensões da mulher em participar de banquetes, de discussões intelectuais e da vida pública em geral.

Assim, as relações entre os sexos era marcada também por uma tensão: de um lado, havia o desejo da mulher de ir além do papel determinado a ela pela lei e pelos homens; de outro, a ação dos homens para impedir que ela ultrapassasse esses limites.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 215-219.

¹ Conselhos para as mulheres [...] Ainda mais exasperada é a mulher que, assim que se senta à mesa para um jantar, pede para falar em poesia e poetas, quer comparar Virgílio com Homero. Não dá chances a professores, críticos, advogados, leiloeiros ou mesmo a outra mulher. Ela faz tanto barulho que você pensaria em panelas e potes caindo no chão de uma cozinha ou que todos os sinos da cidade estivessem tocando ao mesmo tempo. [...] Ela deveria seguir o ensinamento do filósofo: "a moderação é necessária mesmo para os intelectuais". Ora, se ela realmente quer aparecer educada e eloquente, ela que se vista como um homem, faça sacrifícios para os deuses dos homens e se banhe nos banheiros públicos masculinos. Do meu ponto de vista, esposas não deveriam tentar ser oradores públicos, não deveriam usar a retórica, elas não deveriam ler os clássicos [...] Eu mesmo não entendo uma mulher que faz citações gramaticais sem cometer um erro e cita obscuros poetas. Os homens não se preocupam com tais atitudes. Se ela realmente quer corrigir alguém para aparecer, que o faça com suas amigas e deixe seu marido em paz.

² Décimo Júnio Juvenal nasceu no ano de 60 depois de Cristo e escreveu a maior parte de sua obra a partir do ano de 96. Era um autor satírico. A sátira é um gênero literário que tem como característica criticar, ridicularizando e ironizando, costumes, instituições e personalidades. Esse gênero literário era bastante popular na Roma Antiga. Nessas sátiras de Juvenal, a vítima é a mulher romana que quer fazer poesia, discutir filosofia e participar da vida pública.

sábado, 23 de julho de 2016

A mulher e a sexualidade na Roma antiga: Entre o amor e a pátria

Virgílio, famoso poeta da época do imperador Otávio Augusto (27 a.C. - 19 d.C.), escreveu Eneida, obra épica que narra a história de Roma. No relato de Virgílio, a origem de Roma e os tempos primitivos de sua história estão baseados em antigos mitos, contados e reelaborados ao longo dos séculos.

Os mitos e as lendas têm um valor inestimável para os historiadores. Podemos dizer que eles revelam os mais profundos valores, sentimentos e anseios de um povo. Dessa forma, estão mais relacionados ao momento em que são narrados do que à época a que se referem. Isso significa que a história escrita por Virgílio traz informações sobre os tempos remotos de Roma, mas principalmente informa sobre os valores romanos do século I do Império.

As duas lendas [...] a seguir permitem identificar as ideias romanas sobre a paixão e os deveres do cidadão para com a pátria e o destino traçado pelos deuses.

A primeira dessas lendas leva o leitor até a guerra de Tróia, ocorrida por volta do século XII a.C. Afrodite, deusa grega do amor, se apaixonou por Anquises, parente do rei de Tróia. Do namoro entre a deusa e o mortal, nasceu Enéias, que, tempos depois, se casou com Creusa. Desse casamento nasceu Ascânio.

A cidade de Tróia, cercada pelos gregos, estava condenada à derrota e à destruição. Enéias conseguiu fugir, salvando seu pai e o pequeno Ascânio, mas abandonou Creusa, a esposa amada. Apesar da crueldade do ato, ele se justifica pelo dever maior de Enéias: foi designado pelos deuses para fundar uma nova civilização na Itália. Para não pôr em risco a sua missão de dar continuidade à sua raça, ele sacrificou a mulher. Em outras palavras, Enéias não se deixou levar pela paixão. O que era a morte de uma mulher diante da tarefa de fundar Roma? Em outros momentos do mito, o dilema se repete, pois Enéias e seus descendentes são obrigados a sacrificar seus amores e sentimentos pessoais para cumprir a missão determinada pelos deuses. O desfecho da história é positivo.

Uma outra lenda narra o drama de Tarpéia, uma moça romana. Uma versão dessa lenda foi escrita por Propércio, que, assim como Virgílio, viveu no século I de nossa era.

Segundo essa lenda, durante uma guerra contra os seus vizinhos sabinos, os romanos ficaram cercados no Capitólio, a colina onde ficava o templo de Júpiter, no centro da cidade. Tarpeio, um dos líderes romanos, tinha uma filha muito bonita chamada Tarpéia, que se apaixonou pelo formoso Tácio, rei dos sabinos. Não conseguindo controlar os seus desejos, Tarpéia traiu o seu povo, indicando uma passagem secreta para o inimigo invadir a cidade. Em troca, o rei sabino aceitaria o amor de Tarpéia. Todavia, depois de obter a informação, o rei mandou matar a traidora.

Namoro - A proposta, Sir. Lawrence Alma-Tadema

Dessa vez o desfecho foi negativo. Segundo o impulso da paixão e esquecendo os deveres para com o seu povo, a jovem romana provocou a sua própria desgraça e colocou em risco a existência da cidade.

As duas lendas têm o mesmo sentido: os sentimentos e as paixões devem estar submetidos aos interesses da pátria. Enéias, o herói, obedeceu essa regra cívica, moral e religiosa. Tarpéia, a traidora, não seguiu esses princípios e foi castigada com a morte.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 213-214.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

A mulher e a sexualidade na Roma antiga: Sexualidade, religião e razão de Estado

De acordo com a concepção cristã tradicional, o lugar "normal" de manifestação da sexualidade é o casamento, e a sua função básica é a reprodução. Em nossa sociedade, até recentemente, sexo com o objetivo de prazer era visto de modo negativo, até como pecado.

A sociedade greco-romana da Antiguidade era completamente diferente. Tanto que os primitivos cultos aos deuses e deusas romanos da fertilidade e do amor incluíam o uso de símbolos fálicos e relações sexuais entre os cultuadores desses deuses. Se o Estado romano procurou sempre controlar as manifestações de sexualidade da população, não foi porque ela era considerada um mal em si, mas porque se achava que o amor e o sexo levavam a ações apaixonadas e irracionais.

Confidências, Sir. Lawrence Alma-Tadema

[...] O amor era sagrado, misterioso, impulsivo, além de ser fonte de vida e de prazer. Mas, exatamente por ser tão poderoso, precisava ser controlado em nome da ordem e do interesse público.

A sexualidade é natural e instintiva, mas como os seres humanos são portadores de cultura, ela se manifesta segundo determinadas regras. A essas regras se acrescenta o controle das leis do Estado. Algumas manifestações religiosas que expressavam a cultura do povo romano foram reprimidas pelo Estado. Foi o caso das orgias, como eram chamadas as festas religiosas ligadas ao culto do deus Baco, nas quais aconteciam grandes bebedeiras.

Atualmente, na maioria dos países do mundo há uma separação entre religião e Estado. As pessoas são livres para praticar a religião que quiserem, e o Estado não obriga ninguém a ter uma religião. Ela é, portanto, um assunto privado. O casamento, embora tenha caráter sagrado para várias religiões, para o Estado é um contrato civil: duas pessoas assumem uma série de deveres e direitos recíprocos.

Na Antiguidade greco-romana não havia essa separação, pois o próprio Estado tinha um caráter sagrado. Dessa forma, era normal que o Estado controlasse a religião. A autoridade religiosa máxima em Roma era exercida por um funcionário público, o Sumo-Pontífice.

Em todas as sociedades o casamento tem uma importância geral e coletiva. É o casamento que constitui as famílias e cria a responsabilidade de determinados adultos em relação às crianças. Esses adultos ficam responsáveis pela educação e socialização das crianças.

Todavia, apesar de ser de interesse público, o casamento é visto por nós como assunto pessoal, de interesse privado. Conscientemente ninguém casa para cumprir deveres cívicos, servir a pátria e colaborar com o bem público. Nós sempre associamos casamento ao amor. Duas pessoas se casam porque existe um sentimento de amor entre elas.

Nesse aspecto, a sociedade romana antiga também era muito diferente, pois em Roma se casava mais por dever cívico e interesse político do que por amor. O desejo, o amor e a afetividade se davam mais fora do casamento do que dentro dele.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 211-212.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Religião na Grécia Antiga

A carruagem de Zeus. Projeto Gutenberg

A religião grega foi politeísta. Através dos tempos, o povo grego criou estórias e lendas a respeito de vários deuses e de sua origem. A essas estórias e lendas, cheias de imaginação e de fantasia, chamamos mitos, e ao conjunto de mitos, mitologia.

Interpretando os mitos, poetas e artistas foram sucessivamente esboçando características peculiares a cada um dos deuses, fixando sua imagem em pinturas e esculturas.

Os deuses gregos, comparados aos deuses de outros povos da Antiguidade que os precederam, não eram distantes, misteriosos; assemelhavam-se aos homens e viviam entre eles. Como os homens, tinham virtudes e defeitos, franquezas e paixões; eram, porém, mais fortes, e imortais; embora invisíveis, podiam aparecer aos mortais sob forma humana. Por isso a mitologia grega não pode ser considerada religião no sentido que nós lhe emprestamos.

Os deuses estavam por toda parte: no céu, no mar, sobre a terra e nas profundezas do solo.

No céu os deuses se agrupavam em torno de Zeus, principal deus, soberano do mundo, que reinava no monte Olimpo, a mais alta montanha da Grécia. Senhor dos fenômenos atmosféricos, dos rios, da chuva, tudo via, tudo sabia, controlando as ações humanas e vigiando as dos demais deuses. Era protetor de toda a Grécia, embora cada cidade tivesse seu deus especial.

Zeus. Pintura romana em Pompeia, Casa dei Dioscuri. Artistas desconhecidos

Junto a Zeus encontrava-se Hera, sua esposa, deusa do casamento, da maternidade, das crianças e dos lares; seus filhos: Apolo - também chamado Febo - deus da luz solar, das profecias e das artes; Ártemis, inicialmente deusa da claridade lunar, mais tarde protetora das florestas e da caça; Hermes, mensageiro dos deuses, protetor dos pastores, dos viajantes, dos comerciantes, dos ladrões, oradores e atletas; e Héstia, que zelava pela chama sagrada que devia arder em todas as casas, em todas as cidades.

No mar reinava todo-poderoso um irmão de Zeus, Posseidon, a quem os navegantes temiam e pediam proteção.

Posseidon segurando um tridente. Placa coríntia. Artistas desconhecidos

Na terra a natureza obedecia à deusa Deméter, protetora dos agricultores, das colheitas de cereais e frutas; zelava pelos vinhedos outro filho de Zeus, o alegre e expansivo Dionísio.

Nas profundezas subterrâneas dominava, como senhor absoluto e sempre invisível, Hades (também chamado Plutão), que atendia ao misterioso reino dos mortos.

Outros deuses do Olimpo, filhos de Zeus, davam especial atenção a certas atividades humanas: Afrodite, deusa do amor; Palas Atena (nascida da própria cabeça de Zeus), deusa da inteligência, da razão, da sabedoria e da paz; Hefésto, deus do fogo, das forjas e dos ferreiros.

Palas Atena. Detalhe de cerâmica grega. Onésimos

Havia ainda divindades menores: as Musas, acompanhantes de Apolo, inspiravam as diferentes criações artísticas e a investigação científica: Clio, a história; Euterpe, a música; Talia, a comédia; Melpômene, a tragédia; Terpsícore, a dança; Érato, a poesia lírica; Polímnia, a mímica; Urânia, a astronomia; Calíope, a poesia épica e a eloquência. As Horas assistiam o desenrolar das quatro estações; as Graças (Cáritas em grego) - auxiliares de Afrodite - dispensavam cuidados especiais ao reino vegetal; as Parcas (Moiras em grego) fiavam, teciam e cortavam o destino dos homens.

Entre os deuses e os homens os gregos criaram ainda os semideuses, os heróis, tidos como seus antepassados, realizadores de proezas e feitos maravilhosos: Héracles (Hércules em latim), Perseu, Jasão, Teseu, Édipo, Orfeu, inspiraram desde a Antiguidade até os dias de hoje a obra de poetas, escritores, pintores, escultores, compositores.


Perseu transformando Fineu e seus seguidores em pedra, Luca Giordano

A religião era o elo da família, dos habitantes de uma cidade, de todos os gregos, pois o culto religioso desenvolvia-se nas casas, nos templos e nos santuários pan-helênicos, isto é, comuns a todos os helenos. Os gregos pediam favores aos deuses ofertando-lhes alimentos e bebidas (leite, mel, vinho) ou sacrifícios de animais. O sacrifício mais solene era a hecatombe (de hecatón = cem, e bous = boi).

Os gregos buscavam sempre conhecer a vontade dos deuses e, para isso, ora interpretavam sinais vários da natureza (presságios), ora consultavam nos santuários os próprios deuses, que por vezes davam sua resposta (oráculo) por meio de uma sacerdotisa. Um dos mais famosos centros de oráculos foi Delfos, onde uma sacerdotisa do deus Apolo, a Pítia (de Pythón = serpente), transmitia aos homens a resposta divina.

Havia grandes festas religiosas que abrangiam jogos e competições artísticas, procissões, espetáculos musicais e teatrais. Algumas eram anuais, características de certas regiões, como as Panatenéias (em honra de Atena) e as Dionisíacas (em honra de Dionísio), celebradas em Atenas. Outras festas, organizadas em certos santuários pan-helênicos, realizavam-se de dois em dois anos (Neméia, Jogos nemeus; Corinto, Jogos ístmicos), ou de quatro em quatro anos (Delfos, Jogos píticos; Olímpia (Jogos olímpicos). Desses jogos os mais famosos foram os olímpicos, em honra de Zeus, e marcavam o início do calendário grego.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 67-69.

sábado, 22 de agosto de 2015

Os não romanos entre os romanos

Vercingetórix joga suas armas aos pés de Julio César, Lionel Royer

Quem não conhece Asterix, Obelix e sua turma de gauleses que combatem os romanos nas famosas histórias em quadrinhos francesas traduzidas em inúmeros países? Quem não conhece Jesus e os apóstolos, também da época dos antigos romanos? Eram romanos ou não eram? [...]

Os romanos conquistaram primeiro a Itália e, depois, toda a bacia do Mediterrâneo e, pouco a pouco, povos e mais povos foram sendo incorporados ao mundo romano. Ainda que esses outros povos fossem sendo considerados parte de Roma e que, até mesmo, a cidadania fosse concedida a indivíduos ou grupos inteiros, sempre muitos foram os não romanos. Dentre estes, os mais numerosos eram os escravos, muitas vezes provenientes dos lugares mais distantes de Roma. Ao se tornarem escravos deviam aprender a língua, os usos e costumes dos romanos, mas não deixavam de continuar com muitas de suas crenças e valores originais. Talvez o mais famoso exemplo seja o de Espártaco, homem nascido na Trácia, na Europa Oriental. Serviu ao exército romano, desertou e tornou-se líder de uma quadrilha. Tendo sido preso, foi vendido como escravo para um treinador de gladiadores. E, em 73 a.C., em Cápua, convenceu outros gladiadores a fugirem. A revolta espalhou-se e noventa mil escravos juntaram-se a eles, sob comando de Espártaco, derrotando os dois cônsules, em 72 a.C. Mas no ano seguinte, foram, finalmente, vencidos. Houve muitas outras revoltas e fugas, mas nenhuma tão grande quanto esta. [...]

Quando os romanos conquistaram os gregos, no século II a.C., encontraram uma civilização que acharam grandiosa. Passaram a estudar a língua e a Literatura gregas, a conhecer a Filosofia, a importar obras de arte e professores gregos. Os romanos de posses passaram a conhecer o grego até melhor do que o latim [...]. Os gregos, mesmo conquistados pelos romanos, não se preocupavam em aprender o latim de seus dominadores e, ao contrário, os romanos passaram a usar o grego em tudo o que se publicava no mundo de fala grega. A oriente, da Macedônia, passando pelo Peloponeso, Ásia Menor, Síria, Palestina e Egito, os romanos conviviam com o grego como língua oficial romana. Os gregos passaram, com o tempo, a se considerar romanos, mas nunca deixaram de ser também gregos, com língua e costumes próprios.

A maioria dos povos conquistados, contudo, não era assim tão respeitada pelos romanos. Os povos podiam continuar a usar suas línguas e praticar seus costumes, mas apenas o latim era aceito como veículo de comunicação oficial. Durante muitos séculos, várias línguas como o etrusco e o osco, na Itália; o celta, na Gália; o púnico, na África; o egípcio, no Egito; ou o aramaico, na Palestina, foram utilizadas pelo povo dessas regiões. Jesus e seus discípulos, por exemplo, falavam aramaico e a religião que praticavam nada tinha a ver com a dos romanos. Os evangelhos que tratam da vida de Jesus foram escritos em grego, mas Jesus não pregava nem em grego, nem em latim. A única frase que conhecemos de Jesus em sua língua original é aquela que disse na cruz antes de morrer: eloi, eloi, lamma sabacthani? "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?" (Marcos, 15, 34). Um outro exemplo: Paulo, um rabino judeu de Tarso e que falava o grego, era cidadão romano, como se lê numa passagem do Novo Testamento, da Bíblia: Quando um tribuno foi prendê-lo, ele disse: "É-vos lícito açoitar um romano, sem ser condenado?" E, ouvindo isto, o centurião foi e anunciou ao tribuno, dizendo: "vê o que vais fazer, porque este homem é romano." E vindo o tribuno, disse-lhe: "dize-me, és tu romano?" E ele disse: "Sim". E respondeu o tribuno: "Eu, com grande soma de dinheiro, alcancei este direito de cidadania". Paulo disse: "Mas eu sou-o de nascimento". Esta passagem permite notar, ainda, pela fala do tribuno, que o destaque econômico permitia que se alcançasse a cidadania romana, pela política [...] de inclusão das elites locais ao mundo romano oficial.

Os gauleses conquistados tampouco falavam o latim. Com o passar do tempo, o mundo foi sendo transformado e os diferentes povos foram se misturando, os costumes se mesclando, em alguns lugares mais do que em outros. Eram muitos costumes, em constante interação.

FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma. São Paulo: Contexto, 2011. p. 124-6.

domingo, 9 de agosto de 2015

O paganismo no Baixo Império Romano

Io (à esquerda, com chifres) e Ìsis (sentada, segurando uma serpente). Afresco romano no templo de Ísis, Pompéia. Artistas desconhecidos

* Cultos orientais e sincretismo. No que concerne ao paganismo, a influência do Oriente manifestou-se de maneira intensíssima desde o Alto Império [...]. Coube-lhes afirmarem-se no século III e com força ainda maior.

Foi esta a época, efetivamente, em que os cultos de divindades orientais conheceram maior êxito. Para nos limitar aos principais, os de Ísis, de Cibele e, principalmente, de Mitra atingiram o apogeu de sua difusão, facilitada doravante, não mais apenas pela tolerância, mas pela adesão pessoal dos imperadores. Em 197, Sétimo Severo celebrou em Lião, por um grande taurobólio, sua vitória sobre Clódio Albino. Em Roma, seu filho Caracala construiu um Serapeum e mandou adaptar um santuário de Mitra nos subterrâneos de suas grandes termas. O epíteto de Mitra, invictus (invicto), passou à lista de títulos imperiais, e uma inscrição oficial do tempo de Diocleciano mostra-nos que este deus se transformou então no patrono do Império.

Foi esta também a época em que com maior força se afirmou, contanto com o apoio do poder, a tendência ao sincretismo. Heliogábalo deu-lhe uma forma exagerada e ridícula pela pomposa celebração das núpcias do Baal de Emesa, de que era o sumo-sacerdote e cujo nome trazia, com Celestis, isto é, Tanit, vinda de Cartago por sua iniciativa. Da mesma forma, foi para o santuário por ele edificado ao seu deus que mandou transportar o fogo de Vesta, os escudos sagrados de Marte, a pedra negra da Grande Mãe, isto é, Cibele, originária de Pessinunte e introduzida em Roma pelo Senado no fim da segunda guerra púnica, etc. Mas, pondo-se de parte as extravagâncias, havia maior sensibilidade em relação ao que aproximava as divindades do que ao que as separava. Talvez se experimentasse também o desejo instintivo de levantar, frente ao Deus dos cristãos, um deus único, concentrando em si todas as energias cósmicas. Na ideia que dele se fazia, este ou aquele deus particular predominava: o Sol, fosse como Apolo, fosse diretamente sob o nome grego de Hélio ou  nome latino de Sol, Júpiter, Serápis, Mitra. Em todo caso, os atributos da luz, da dominação sobre todo o universo (cosmocrator), da invencibilidade, passavam indistintamente de um a outro, ao mesmo tempo que se ligavam ao próprio Imperador, transformado, assim, na encarnação terrestre dessa divindade toda-poderosa.

* O neoplatonismo de Plotino. Desde muito tempo [...] o movimento filosófico ajustava-se também a este movimento religioso e produziu, no século III, o que constitui a última grande criação do gênio grego no domínio em que se mostrava tão fecundo: o neoplatonismo que, esboçado em Alexandria por Amônio Sacas no começo do século III, foi completamente elaborado e ensinado em Roma, entre 244 e 270 aproximadamente, por um grego do Egito, Plotino. Encontramos aí as mesmas tendências da época, tanto o fervor exaltado e o apelo à sensibilidade, como a associação com fundo platônico de elementos provindos de doutrinas bastante diversas, em especial o pitagorismo, o aristotelismo e o estoicismo.

Plotino convidava o pensamento a conceber, por um ousadíssimo esforço de abstração, uma Unidade absoluta da qual procede, como por uma série de reflexos cada vez mais degredados, tudo o que existe, razão, alma, corpo. A realidade aparente interessava-lhe apenas pela ordem nela introduzida pelo Ser primeiro, em que se fundem e harmonizam todas as coisas. Um impulso interior impelia-o, pois, para a unidade divina. Mas seu monismo era também um panteísmo e acomodava-se mesmo com o politeísmo, pois todos os deuses são emanações do Ser; ademais, entre o mundo divino, ao qual pertencem os astros, e o mundo terrestre, existe uma multidão de demônios que o homem não pode negligenciar.

Na realidade, o sistema levava a recomendar um esforço de renúncia ascética da alma frente às realidades sensíveis. Se este malograsse, a alma imortal encarnar-se-ia em animais e até em categorias mais inferiores, isto é, em plantas. Se tivesse êxito, viveria à luz dos astros, chegando, finalmente, a absorver-se na fusão em Deus. Mas o êxito dependia do êxtase místico que, proporcionando a iluminação sobrenatural, a visão e a certeza da felicidade suprema, constituía a única possibilidade de estabelecer contato com esta. Assim sendo, o neoplatonismo desviava o espírito do raciocínio; este era empregado apenas para provar sua própria ineficácia.

* A teurgia. Plotino recusava-se a admitir uma religião que não fosse completamente interior. Mas, com a demonologia e a abdicação do racional, o neoplatonismo podia conduzir, e conduzia, longe. [...] Época alguma, pelo menos no mundo greco-romano, acreditou com tanta intensidade na ação imediata e quotidiana de forças superiores sobre o homem, por conseguinte, na adivinhação, na astrologia, magia e feitiçaria.

[...]

[...] Adotou-se o hábito de falar em teurgia, dada a insuficiência revelada pelo vocábulo teologia, pois, em lugar de se cingir a conhecer os deuses, a ambição agora era de agir juntamente com eles, por eles e como eles. Então, começaram a prosperar os mistagogos donos de lojas onde artificiosas e fantasmagóricas montagens cênicas, com música e ruídos insólitos, perfumes, vapores, sombras movediças, estátuas animadas, jogos de luz, impressionavam a imaginação dos neófitos. [...] Em Éfeso, Máximo, em meados do século IV, encarregava-se da iniciação nos mistérios de Hécate; o futuro Imperador Juliano, quando apostatou, mostrou-se sensível a estes mistérios, assim como às interpretações que lhe foram dadas acerca dos ritos e símbolos respectivos. [...]

Juliano praticou também o culto de Mitra; sofreu a aspersão de sangue num taurabólio; inicio-se nos mistérios de Ísis. O paganismo, pelo qual abandonou o Cristianismo, portanto, quase nada tinha [...] em comum com o dos grandes séculos clássicos, cujo patrocínio ele reivindicava. O seu era construído de efusões sentimentais perante o grande mistério da natureza, de inquietações sobre a salvação da alma, de impulsos em direção às beatitudes da imortalidade celeste. [...] Ora, o paganismo de Juliano era o de seu tempo; os campeões das virtudes racionais, os epicuristas, por exemplo, tornavam-se cada vez mais raros e eram considerados ateus.

* Helenismo e paganismo. Entretanto, mesmo cedendo a estas aspirações e recorrendo ao ocultismo, Juliano e os pagãos cultos ambicionavam defender o helenismo. Já na língua dos Evangelhos, heleno opunha-se a judeu: tratava-se , então, menos de politeísmo e monoteísmo do que de ignorância ou observação da Lei de Moisés. [...]

[...] O que os pagãos pretendiam afirmar era sua fidelidade à totalidade de um legado no qual os cristãos eram obrigados a escolher, separando a forma, que podiam admirar, do fundo, que teriam de abandonar. Isso porque a mitologia politeísta empregava as obras-primas literárias artísticas, honra do helenismo que, nascido na Grécia, fora adotado em Roma. [...]

E foi assim, de fato, que o pensamento pagão sobreviveu à morte de Juliano e, depois ao malogro da última tentativa política em torno do usurpador Eugênio. Por meio de interdição e perseguição - houve execuções capitais na época de Valente, uma das quais, pelo menos, na fogueira -, o governo imperial encarregou-se de desembaraçá-lo de suas turvas excrescências. Enquanto no Ocidente os últimos pagãos cultos promoviam ainda a filologia, no Oriente invocavam em seu favor o glorioso passado científico e filosófico da Grécia, principalmente Platão e, acessoriamente, Aristóteles. O neoplatonismo prosseguiu, abertamente, seu ensinamento nas duas escolas ainda acreditadas, em Alexandria e em Atenas. A primeira, continuadora do Museu dos Ptolomeus, parece que se afastou muito rapidamente dos desvios de Jâmblico e manteve o gosto pelas ciências, ao menos a Matemática. No início do século V, a bela e virtuosa Hipácia, filha do matemático Teon e autora de tratados matemáticos, servia de ilustração a esta afirmativa. Sinésio, que, embora se tornasse bispo, não deixou de se considerar filósofo, fora de seu discípulo. Mas sua fama irritava o chefe do cristianismo egípcio, o imperioso bispo Cirilo. Em 415, após os tumultos em que os pagãos não tiveram qualquer papel, alguns energúmenos atacaram-na em plena rua com tijolos, retalharam e queimaram seu cadáver. A escola de Alexandria não sobreviveu a este atentado. Quanto à de Atenas, viveu praticamente durante muito tempo ainda, limitando-se a comentar sem originalidade o pensamento dos grandes mestres; em 529, Justiniano ordenou seu fechamento, indo os derradeiros mestres buscar refúgio junto aos sassânidas.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. Roma e seu Império. As civilizações da Unidade Romana. A Ásia Oriental do início da Era Cristã ao fim do século II. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994. p. 64-9. (História geral das civilizações, v. 5)

sábado, 11 de julho de 2015

O calendário ocidental

Calendário agrícola medieval, Pietro Crescenzi, c. 1306

"A palavra calendário origina-se do latim calenda, nome dado pelos romanos ao primeiro dia do mês, que era também o dia da cobrança de impostos". (CABRINI, Conceição [et alli]. História temática: tempos e culturas. São Paulo: Scipione, 2009. p. 52.)

Por volta de 50 a.C., a República Romana, conduzida por Júlio César, estava se transformando em Império. Dentre as várias inovações administrativas introduzidas por César, uma foi a criação de um novo calendário, em 45 a.C., que ficou conhecido como calendário juliano.

Até esse ano, Roma adotava o ano de 360 dias, com 12 meses de trinta dias. [...] essa contagem apresentava um erro de cinco dias por ano; para corrigir esse erro, os romanos introduziam, de acordo com a necessidade, um mês extra no fim do ano. [...]

Aconselhado por astrônomos, Júlio César abandonou o mês de trinta dias, que ainda era um resquício do ciclo da Lua, e criou um novo calendário, totalmente baseado no Sol [...], no qual os anos tinham 365 dias, exceto um ano em cada quatro, que 366 dias. [...]

Se o ano de 365 dias fosse dividido em 12 meses iguais, cada mês teria 30,4 dias. Para evitar esse problema, Júlio César estabeleceu que os meses teriam alternadamente 31 e 30 dias, começando com 31.

Dessa forma, somando-se os 11 primeiros meses, chegava-se a 336 dias, restando 29 dias para completar o ano de 365 dias. Ficou então estabelecido que o último mês do ano teria 29 dias e, nos anos bissextos, 30 dias.

O sistema criado por Júlio César era fácil de utilizar e de memorizar: começava com um mês de 31 dias, depois vinha um de 30, um de 31, e assim alternadamente, até que o último tinha duração variável. Infelizmente, alguns anos depois, essa solução foi estragada por interesses políticos. O problema surgiu com a prática de homenagear deuses e imperadores dando seus nomes aos meses do ano. O primeiro mês recebeu o nome do deus Marte (surgindo o mês de março), o quarto mês recebeu o nome da deusa Juno, e assim por diante. Ao próprio Júlio César coube o quinto mês, que até hoje se chama julho. Com a morte de Júlio César, assumiu o poder o imperador Augusto, que foi homenageado com o mês seguinte (agosto).

No entanto, algum bajulador notou que o mês de Júlio César tinha 31 dias, enquanto o mês de Augusto tinha somente 30. Fez-se, então, uma alteração no calendário: o mês de agosto ganhou um dia, roubado de fevereiro, que passou a ter 28 e 29 dias.

Isso trouxe um problema: uma sucessão de três meses de 31 dias - julho, agosto e setembro. Para evitar isso, alteraram-se todos os meses, de setembro a dezembro. [...]

Como os cônsules, eleitos com o mandato de um ano, tomavam posse em 1º de janeiro, essa data passou a marcar o início do ano, prática que se estende até hoje. 

CHIQUETTO, Marcos José. Breve história da medida do tempo. São Paulo: Scipione, 1996. p. 25-28. (Coleção Ponto de apoio)

terça-feira, 31 de março de 2015

Antigo comércio

Ânfora que retrata jovens colhendo azeitonas, ca. 520 a.C., Antimenes. Foi na Antiguidade Clássica que a escravidão se tornou um modo sistemático de produção.

"É essencial que cada escravo tenha uma finalidade claramente definida. É tanto justo e vantajoso oferecer liberdade como um prêmio [...]. Também deveríamos deixar que tenham filhos que sirvam como reféns; e, como é de costume nas cidades, não deveríamos comprar escravos das mesmas origens étnicas". O conselho poderia ser dado a qualquer jovem que desejasse administrar escravos na América durante a Época Moderna, mas a admoestação foi dada por um discípulo de Aristóteles em um tratado do final do século IV a.C.

Por muito tempo o continente africano tem sido reconhecidamente o lugar que mais exportou, por séculos, pessoas para servirem de mão de obra escrava para os quatro cantos do mundo. Pesquisas arqueológicas, registros de portos, cartas e tantos outros documentos atestam a violência e a extensão deste comércio. Nem por isso, entretanto, a África pode ser considerada o único berço da escravidão.

Impérios como o egípcio, o assírio e o babilônico tinham como prática recorrente o uso do trabalho compulsório. O código de Hammurabi (1792-1750 a.C.), um conjunto de leis do período babilônico antigo, por exemplo, dedica alguns de seus parágrafos à regulamentação da compra e venda de escravos. Na sociedade babilônica antiga os escravos eram minoria, convertidos a esta condição após se tornarem prisioneiros de guerra em campanhas militares. Havia ainda homens livres que, impossibilitados de pagar suas  dívidas, vendiam esposas, filhos ou a si mesmos como escravos.

Assim como a democracia, herdamos a ideia de escravo-mercadoria mais próxima do que entendemos hoje da Antiguidade Clássica. E foi no auge da civilização grega (entre os séculos V e IV a.C.) e romana (séculos II a.C. a II d.C.), juntamente com o amplo desenvolvimento da Filosofia, da Poesia, do Direito e da Administração, que a escravidão se tornou o modo de produção dominante. As cidades-estados gregas foram, portanto, as primeiras a transformar a escravidão em um sistema de produção sistemático, que serviu de base para as realizações das cidades na Antiguidade Clássica.

Apesar da grande opulência das cidades gregas e romanas, sua economia não estava calcada em uma economia urbana. A oligárquica Esparta, a democrática Atenas e a Roma senatorial baseavam a sua economia no campo, a partir da produção de trigo, azeite e vinho. As cidades gregas foram as primeiras a empregar a mão de obra escrava no comércio e no cultivo de pequenas áreas com escassa população. Os romanos ampliaram ainda mais este uso, utilizando os cativos para o trabalho em grandes áreas de agricultura, o latifundium.

O trabalho livre e o escravo, longe de constituírem uma contradição, eram complementares. De modo geral, poucas atividades eram exclusivamente exercidas por um ou outro. Aos escravos estavam vetadas atividades relacionadas à lei, à justiça, à política, enquanto aos homens livres os trabalhos nas minas e os serviços domésticos não eram permitidos. No final do período republicano romano (509 a 27 a.C.), 90% dos artesãos eram de origem escrava. Já na Grécia do século V a.C., cidades como Atenas, Corinto e Egina tinham uma população escrava maior do que a de cidadãos livres. Em Atenas, por exemplo, havia entre 80 e 100 mil escravos e cerca de 40 mil cidadãos.

Na Grécia os escravos eram capturados através da guerra contra os povos não gregos, chamados por eles de "bárbaros", e da pirataria. Dentro do território, estrangeiros e crianças bastardas também corriam o risco da escravização. Havia lucrativos mercados de escravos, como os de Tanais, Bizâncio e Corinto. As vendas efetuadas em cada cidade-estado deveriam ser tributadas e os comerciantes eram obrigados a informar a respeito dos possíveis "defeitos" de sua mercadoria, como doenças, propensões a fugas, entre outros.

À exceção de Esparta, em que os escravos não podiam ser comprados ou vendidos, de modo geral os cativos eram mercadorias móveis. E, apesar de considerados humanos, mantinham na teoria romana um status quase similar ao dos animais de carga, considerados instrumentum semi-vocale, enquanto os escravos eram um instrumentum vocale.

Em Roma, os escravos também eram capturados a partir das guerras, que fortaleciam o poder militar do Estado. A existência dessa mão de obra permitia o crescimento econômico e, indiretamente, o recrutamento de tropas urbanas livres para o exército - no século III, por exemplo, foram guerras como as Púnicas (264-146 a.C.) que forneceram a força de trabalho para as enormes terras conquistadas.

O escravismo, entretanto, não foi preponderante em todo o Império romano. Apesar de ser um grande império tributário, os romanos não formavam uma unidade econômica social. Este modelo produtivo foi forte principalmente em parte do mundo grego, absorvido pelos romanos, na Sicília e na península italiana.

A escravidão representava a mais radical degradação do homem, convertido em meio de produção e privado de seus direitos sociais. A separação radical entre trabalho material e liberdade permitia que a completa ausência de liberdade de alguns indivíduos desse lugar à livre participação política de outros. A distinção entre trabalho e liberdade se fazia presente até mesmo na língua. Em grego clássico não havia uma palavra que denotasse o conceito de trabalho manual e intelectual. O trabalho adquiriu um status de culto divino sob a fórmula laborale est orare dos monges letrados.

Se o trabalho passa a ser visto de forma diferente dentro da tradição religiosa, engana-se quem pensa que a Igreja do Baixo Império alterou a antiga tradição da escravidão. Nos escritos de seus patriarcas, desde o apóstolo Paulo, havia uma aceitação unânime da escravidão, por parte da instituição eclesiástica, aconselhando aos escravos a obediência aos seus senhores, e a estes, o tratamento justo para seus escravos - a Igreja era uma instituição proprietária de escravos em grande escala.

A queda do Império Romano no século V e o início da Idade Média não extinguiram o trabalho escravo. Durante vários séculos na Europa conviveram diversas formas de trabalho, coexistindo, além do servo feudal, o escravo e o camponês livre. Na Europa Carolíngia, durante o século VIII, 10 a 20% da população rural eram constituídos por escravos. Na Inglaterra do século XI, os escravos compunham cerca de 10% da mão de obra e eram economicamente relevantes nas regiões mais remotas do oeste. Na Península Ibérica do século XIII (onde estão hoje Portugal e Espanha), a servidão da gleba quase desapareceu devido à grande quantidade de escravos trazidos do sul pelos muçulmanos, que dominavam a região desde o século VIII, lá permanecendo até 1492, ano no qual os europeus chegaram oficialmente à América.

Foi o califado muçulmano na Espanha que incrementou o tráfico de escravos na Europa, fazendo deste continente um importante fornecedor de braços cativos. Estes prisioneiros, de maioria eslava, abasteciam o comércio entre Veneza e o seu império islâmico ao sul do Mediterrâneo. Assim como a África, os povos eslavos serviram de reservatório de escravos para o mundo muçulmano. A palavra "eslavo", aliás, determinou etimologicamente a categoria de pessoas privadas de sua liberdade, originando slave, em inglês, sklaven, em alemão, esclavo, em espanhol, escravo, em português, por exemplo. Capturados em guerras internas ou contra os germânicos, os eslavos eram vendidos para servir de mão de obra na Europa e também nos países muçulmanos. Eram empregados basicamente no exército e na administração. Em alguns casos, eram castrados e enviados para os haréns.

Com uma atuação muito distinta do mundo atlântico-europeu, os escravos do mundo muçulmano tiveram papel de destaque. No Egito, os eslavos, que chegaram como mercadoria dos Bálcãs, atuaram como soldados e administradores na consolidação do Império Fatímida. Um deles fundou o Cairo e a maior universidade do Egito até os dias atuais, a al-Azhar, no século X.

A escravidão, enfim, não foi uma exclusividade africana e, apesar de não se poder afirmar que ela existe desde sempre, pode-se suspeitar de sua existência desde tempos imemoriais. Na Antiguidade, antes de atravessar o Atlântico, ela já havia se consolidado na Europa e também na própria África.

Cristiane Nascimento. Antigo comércio. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 10 / Nº 108 / Setembro 2014. p. 17-19.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Nos submundos da Antiguidade: as ruas de Roma e Pompeia

Na época de Plauto ou de Cícero, é no Foro Romano que se concentram todas as atividades da cidade, das mais honrosas às mais equívocas. Na Roma imperial, o Foro parece bem pequeno, ao lado dos magníficos foros imperiais que foram sendo edificados no decurso dos sucessivos reinados. É toda a cidade que se torna um lugar de passeio, de encontros, de tráficos para essa massa ociosa: otários em busca de espetáculos, escroques à caça, parasitas em busca de um jantar, de um patrão acolhedor e generoso. Se acreditarmos nos quadros que os escritores da época imperial nos legaram, a vida cotidiana – para a maioria dos romanos – apresenta-se como uma perpétua busca.


O Fórum de Pompeia, Christen Købke

Roma é, antes de mais nada, o barulho: murmúrio, gritos, nada parece poder conter esse rumor confuso que, durante todo o dia, eleva-se das ruas:

“Em Roma, não é possível ao pobre pensar ou repousar. Impossível viver em paz pela manhã por causa  dos professores; à noite, por causa dos padeiros; durante o dia, por causa do martelo dos ferreiros” (Marcial, Epigramas XII, 57).

Assim, é uma barafunda que, da aurora ao pôr do sol, invade calçadas, ruas, pórticos. Uma passagem de uma célebre sátira de Juvenal evoca múltiplos perigos que esperam o pedestre que anda pelas ruas de Roma: as vastas liteiras dos ricos, as carruagens, operários que transportam odres, potes ou grandes vasos contendo vinho e azeite. É bem difícil abrir caminho por entre tais ruelas, que ficam ainda mais estreitas por causa da exposição das mercadorias. A calçada, com efeito, durante o dia, é coberta pelos cavaletes e barracas móveis onde os comerciantes expõem suas mercadorias. Nas estacas que sustentam essas barracas provisórias, são penduradas tanto as garrafas do botequineiro quanto os rolos de papiro dos livreiros. . Domiciano será obrigado a promulgar um édito impedindo os comerciantes de monopolizarem a calçada, instalando nela essas barracas que trazem perigo à segurança dos pedestres. E, por vezes, acima da massa compacta que transita pelas ruas, surge a navalha brandida às cegas pelo barbeiro que está escanhoando seu cliente em meio à algazarra. As ruas de Roma são tão obstruídas, tão invadidas pela população, que um passeio pode ser pago com a própria vida: uma inscrição recorda uma mulher e uma criança de treze anos, esmagadas pela massa que se comprimia perto do Capitólio [...].


Mercado de escravos, Gustave E. Boulanger

A rua não é mais do que um espetáculo: saltimbancos, exibidores de animais amestrados ou charlatães invadem as calçadas; [...]

Se acreditarmos nos escritores romanos que nos deixaram negras descrições dos engarrafamentos da capital, é bem perigoso passear pelas ruas de Roma durante o dia. Todavia, algazarra, tumultos, barulho e poeira nada são, ao lado do que espera o transeunte noturno. Poucos romanos, de resto, se aventuram a atravessar Roma depois do pôr do sol, a não ser acompanhados por uma guarda de escravos armados e munidos de chicotes. Com efeito, reina a escuridão nas ruas da cidade, pois não há iluminação pública.

Além do mais, as ruas estão longe de ser desertas: todos os que não têm o direito de circular durante o dia, as carroças de transporte, os comboios que obstaculizam o tráfego, atravessam ruidosamente a cidade e acordam os habitantes das insulae [...].

Se as ruas do centro da cidade são mais seguras, imagine-se o que ocorre nos terrenos baldios situados na periferia da cidade, ao longo das grandes estradas que saem de Roma para os quatro cantos da Itália. Desde o cair da tarde, sombras suspeitas e furtivas vagueiam, absorvidas em atividades misteriosas. É a zona dos túmulos, dos cemitérios, dos crematórios, zona temida pelos cidadãos romanos e, justamente por isso, transformada em asilo de numerosos marginais.

Quer se destinem ao descanso do passante, a alimentar ou a hospedar o viajante, ou os habitantes da cidade, são muitos os estabelecimentos hospitaleiros no mundo romano. Numerosos testemunhos nos permitem saber que eles se concentram essencialmente nos bairros populares. Em Roma, muitas tavernas se situavam perto do Grande Circo, dos teatros ou anfiteatros, bem como das casas de banho: em suma, em todos os lugares freqüentados pela multidão. Outros também servem como pontos de descanso situados nas portas das cidades: em Pompeia, a “estação” – freqüentada pelos que se encarregam dos transportes pelas estradas – situa-se fora da cidade, perto da porta de Estábias. Lá se reúnem também os arrieiros, os proprietários dos veículos de aluguel e dos mulos alugados aos viajantes.

São geralmente construções modestas: podemos bem conhecê-las por causa dos numerosos albergues que ainda animam as ruas de Pompeia. No interior, uma ou duas salas recebem os clientes; há alguns quartos no andar superior, assim como um jardim, onde os consumidores podem se sentar sob um caramanchão. Muitas dessas tavernas – as termopolia – prolongam-se na rua através de um balcão, no qual são postas as ânforas contendo o vinho fresco ou quente; o passante, que não tem tempo de entrar no estabelecimento para servir-se de uma bebida, pode tomar rapidamente uma taça de vinho e, de pé, comer uma salsicha ou um doce quente.


Cena erótica. Lupanar em Pompeia, Artista desconhecido. Século I d.C.

Tabuletas pintadas ou mosaicos indicam ao interessados os nomes dos estabelecimentos. Alguns proprietários não demonstram grande imaginação, contentando-se em batizar suas tavernas com uma indicação topográfica: “Nos rochedos vermelhos”, “Na pereira”, “No templo de Diana”. Outros, talvez mais esnobes, buscam a originalidade: o albergue “O Elefante”, em Pompeia, é ornado por um desenho que representa um elefante vermelho. O estabelecimento de Heleno, sempre em Pompeia, “A Fênix”, conserva ainda a magnífica tabuleta que lhe deu o nome: uma fênix passeia num cenário floral de grande finura. Abaixo dela, dois pavões enquadram uma frase de saudação: “Também tu deves ser feliz, como a fênix”.


Casal nu na cama. Artista desconhecido. Afresco na Casa della Farnesina, Roma, ca. 19 a,C.

E, como a maioria dos albergues ou tavernas funcionam [...] como locais de prostituição, algumas inscrições indicam que a casa pode oferecer outros prazeres além de beber e comer: um estabelecimento de Roma, certamente muito acolhedor, chama-se “As Quatro Irmãs”. Em “As Filhas de Aselina”, em Pompeia, Aglaé, Maria e Esmirina garantem o serviço, sob as ordens de “madame” Aselina.


SALLES, Catherine. Nos submundos da Antiguidade. São Paulo: Brasiliense, 1983. p. 222-4, 231-2 e 240-2.