"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 6 de abril de 2014

As inscrições e pinturas rupestres na África


Pintura rupestre em Tassili

Um importante testemunho sobre a pré-história africana é dado pelas inscrições e pinturas descobertas na região setentrional do Saara. Depois da primeira dessas descobertas, ocorrida em Tint, no ano de 1847, encontraram-se na África setentrional vários outros sítios ricos em amostras da arte pré-histórica. Os motivos mais freqüentes das pinturas rupestres localizadas na região do Grande Atlante, nos montes Tassili e na Líbia eram representados por elefantes, rinocerontes, hipopótamos, búfalos, girafas, crocodilos, felinos e outros espécimes da fauna tropical. Além de animais selvagens, nas pinturas rupestres mais antigas aparecem também exemplares da fauna doméstica, tais como bois e ovelhas, e nas pinturas de épocas posteriores existem representações de cavalos e camelos. As figuras humanas, constantemente reproduzidas pelos artistas pré-históricos da África, apresentam traços semelhantes aos dos desenhos rupestres da região mediterrânea.

Pintura rupestre em Tassili

As inscrições e pinturas rupestres descobertas nos territórios da África meridional possuem muitos pontos em comum com as da Europa pré-histórica. Os exemplares encontrados no centro-sul do continente africano foram gravadas na rocha, e representam animais, motivos geométricos e figuras humanas.

Essas pinturas espalham-se por uma vasta área localizando-se particularmente na Rodésia e nas províncias do Cabo e Orange. Em sua maioria, representam cenas de caça e danças rituais, demonstrando uma grande preocupação com o movimento e a cor. De uma forma geral, as figuras femininas distinguem-se pelas grandes proporções das nádegas, enquanto as masculinas se caracterizavam pelos membros filiformes, pela cintura estreita e pelas costas largas.


Pintura rupestre em Tassili

A superposição de figuras e cores torna difícil determinar com precisão a data desses desenhos rupestres. Contudo, os mais antigos revelam certa analogia com as pinturas e inscrições descobertas no norte da África. Em alguns casos, pequenos arqueiros de pele clara são representados lutando com homens negros de grande estatura, munidos de escudos ovalados. Tais cenas são provavelmente alusivas às lutas dos bosquímanos e hotentotes do sul da África contra os invasores bantu.

Os especialistas acreditam que o mais antigo desses desenhos tenha sido feito por volta de 3000 a.C., sendo portanto contemporâneo das pinturas rupestres do Saara e correspondendo ao período Neolítico europeu. Os bosquímanos continuaram a fazer inscrições e pinturas na rocha até o século XIX, quando interromperam essa tradição devido à invasão de seus territórios por outros grupos africanos e pelos próprios europeus. A partir de então, foram praticamente encurralados em pequenas áreas desérticas do sul do continente, onde se encontram em processo de extinção.


HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 35-6. Volume 3.

NOTA: O texto "As inscrições e pinturas rupestres na África" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Inscrições rupestres nas Ilhas de Santa Catarina

Inscrições rupestres ou petroglifos são expressões gráficas produzidas em superfícies rochosas. Nas ilhas de Santa Catarina, do Campeche, do Arvoredo, das Aranhas e do Coral, as inscrições estão situadas em paredões, penhascos e rochas isoladas ou agrupadas em campos abertos.


De acordo com estudos arqueológicos, duas técnicas foram utilizadas na confecção dos desenhos: percussão (picoteamento) e abrasão (polimento), em geral sobre diabásio, cujas pedras datam de mais ou menos 130 milhões de anos.

Há quem afirme que o uso dessas técnicas sugere que, em determinadas situações, as inscrições eram previamente esboçadas para depois passarem por um processo de acabamento final. [...] Existem, por exemplo, opiniões divergentes quanto aos possíveis significados das inscrições, a partir das formas e da própria localização das mesmas.

Em boa parte das inscrições as formas acabam se repetindo, com predominância de círculos concêntricos, conjunto de retas, conjuntos de linhas onduladas, linhas quebradas ou ziguezagues, além de triângulos, quadriláteros e figuras de homens e animais. O fato de as figuras possuírem traços em comum leva alguns estudiosos a levantar a hipótese de que uma única cultura, das três que habitaram a região - Pescadores, Caçadores e Coletores, Itararé e Guarani -, tenha sido responsável pelas inscrições.

[...]

[...] Muitos moradores de localidades tradicionais da Ilha de Santa Catarina relacionam as inscrições à pesca, principalmente pelo fato de algumas lembrarem o formato de uma rede.

É esse tipo de mistério que acaba por alimentar o imaginário popular em torno da existência ou não de significados nas inscrições rupestres. Fala-se muito que as inscrições conteriam significados de cunho místico, religioso. Segundo a arqueóloga Maria Madalena do Amaral, a dificuldade em apontar com exatidão os significados das inscrições é fruto da própria natureza do trabalho desenvolvido pelos arqueólogos. "Ao estudar os grupos pré-coloniais, a Arqueologia nem sempre pode trabalhar com o nível ideológico, pois é muito difícil deduzir o significado de determinados vestígios somente através da cultura material. Diferentemente do antropólogo, o arqueólogo não trabalha com o simbólico, como é o caso das inscrições rupestres", explica Maria Madalena. [...]

De qualquer forma, como afirma o arqueólogo André Prous [...] as inscrições rupestres são um dos temas mais populares entre os leigos interessados em Arqueologia. E a razão disso, segundo Prous, é "tanto pelo fato de que a civilização moderna ocidental desenvolveu nossa sensibilidade para as formas 'exóticas' de gosto esotérico, quanto pelo impacto que nossa sensibilidade sofre por receber, pelas figuras desenhadas nos paredões, uma mensagem direta de seus primitivos autores". [...]

[...]

Desenhadas em paredões verticais, as inscrições têm no máximo três milímetros de profundidade por 30 milímetros de largura [...]. No total, na Ilha de Santa Catarina e adjacentes, existem 32 sítios, totalizando 564 inscrições rupestres.

Inscrição rupestre na Praia do Santinho. Foto: Orides Maurer Jr., jan/2012


Na Ilha, a Praia do Santinho destaca-se pela quantidade de inscrições que existem nos seus costões. No costão norte, há dois sítios rupestres. [...]

[...]

Por causa do acesso nem sempre facilitado, conhecer de perto as inscrições rupestres pode se transformar numa verdadeira aventura arqueológica. Na Praia da Galheta, por exemplo, antes de chegar ao  costão norte, onde estão as inscrições, é preciso enfrentar uma trilha a pé de 30 minutos. [...]

Trilha Praia da Galheta. Foto: Orides Maurer Jr., jan/2013


No Pântano do Sul, a 300 metros da praia,  na ponta leste, estão duas sinalizações e uma inscrição isolada. [...] Ali perto, na Praia da Armação, o único petroglifo encontrado foi retirado da localidade e levado pelo padre Rohr para o Museu do Homem do Sambaqui, onde permanece até hoje. [...] També há registros de inscrições na Praia dos Ingleses, Barra da Lagoa, Praia Mole, Ponta das Canas, Joaquina e Solidão.

Além das inscrições na Ilha de Santa Catarina, outras se localizam em ilhas próximas, que também possuem sítios rupestres bastante representativos, a começar pela Ilha do Campeche, reconhecida como Patrimônio Arqueológico e Paisagístico Nacional. [...]

Situada a oito quilômetros do extremo sul da Ilha de Santa Catarina, a Ilha do Coral também conta com um importante sítio rupestre e que também foi objeto de estudo por parte do padre Rohr. No local, do total de 132 inscrições, 78 são variações de círculos. O sítio possui um painel com um letreiro com 43 símbolos (que lembram figuras humanas), triângulos, linhas onduladas e em zigue-zague.

Já a Ilha do Arvoredo [...] possui um sítio com um grande painel, que os pescadores chamam de "letreiros", em que as inscrições são facilmente avistadas do mar. [...]

GONÇALVES, Alexandre et alli. Aventura arqueológica na Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Lagoa Editora, 2003. p. 37-49.