"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 18 de fevereiro de 2017

Império Mongol: uma grande ponte entre a Europa e a Ásia

Batalha entre mongóis e chineses, Rashid al-Din

O incrível Império Mongol formou-se à custa de terríveis destruições. E, no entanto, reinava aí o que se chamava de "paz mongol". Os comerciantes, as caravanas e os viajantes como Marco Polo, circulavam, sem serem atacados, através da rota da seda. Missionários cristãos atravessaram a Ásia sem problemas, porque os mongóis respeitavam a religião dos outros.

Temudjin tinha mandado redigir um código de leis, baseado nos costumes dos nómadas, introduziu nele regras de justiça e recomendava a honestidade, a fidelidade, a hospitalidade e o respeito pelos pais. No império assim unificado, as populações misturaram-se, os saberes trocaram-se do mar da China ao mar Mediterrâneo.

O Império Mongol é um exemplo único na história do homem, de um imenso Estado conquistado e governado por nómadas.

CITRON, Suzanne. A história dos homens. Lisboa: Terramar, 1999. p. 101-2.

domingo, 15 de setembro de 2013

Império Português

As conquistas de Portugal pelo globo, em especial entre os séculos XV e XVI, ficaram conhecidas como Império Português. Entretanto, somente no fim desse período o termo foi utilizado pelos próprios conquistadores. Até pelo menos o século XVIII, não havia oficialmente (ou judicialmente) um império, já que o império cristão nomeado como tal (e autorizado) seria o Sacro Império Romano Germânico. Isso, contudo, não impediu que ideais de império fossem formulados, evocando, na maior parte das vezes, sentidos universalizantes e católicos aos quais estariam submetidos os interesses econômicos e políticos. Ligada a esses ideais, a palavra “império”, de origem latina (imperium), indicava o poder soberano – o império do monarca -, pelo qual o rei tinha a autoridade de mando sobre vassalos e súditos, a qual, se estendia ao senhorio sobre as terras das conquistas.

Durante a maior parte do período indicado, o que se entendia por império, portanto, era a mistura de uma visão católica de conversão do globo com uma noção de poder centrada na figura do soberano, que governava sobre vastos e diferentes territórios. Essa concepção geral teve obviamente inflexões, variando conforme os interesses, disputas e concorrentes que se apresentavam, sem, contudo, se transformar em uma instituição  jurídico-política denominada Império Português. Na historiografia, o termo Império Português tenta, assim, dar conta das conquistas lusas ao longo dos quatro séculos da Época Moderna, que se estenderam pelo Oriente e pelo Ocidente e implicaram formas diferentes de contato e administração, adaptadas ou condicionadas aos múltiplos povos, culturas e localidades com quais os portugueses depararam.

Mapa do século XVI mostrando as reivindicações portuguesas para a Guiné e São Jorge da Mina. Autor desconhecido.

Definido como um “império marítimo” pelo historiador inglês Charles Boxer (1904-2000), foi inicialmente fruto da expansão em direção à Ásia margeando as costas da África, buscando uma rota para as especiarias; um caminho para cercar (e derrotar) o Império Turco pelo flanco oriental; a fonte do ouro ou dos produtos vendidos pelas caravanas no Mediterrâneo; ou, ainda, o reino mítico de Preste João, monarca cristão poderosíssimo que no imaginário lusitano viveria no interior da África e ajudaria os reis portugueses a derrotar todos os inimigos da cristandade e recuperar Jerusalém. Se do século XV ao XVI, foi um império começado na África apontando para Ásia, pensando, entretanto, nas disputas (sobretudo religiosas, contra o inimigo turco) no Mediterrâneo, e sustentado pelo comércio costeiro de ouro e escravos, no século XVI e até início do XVII, cada vez mais voltou-se para o Extremo Oriente, onde os avanços lusitanos eram mediados (e limitados) pelas relações com os reinos e impérios existentes na Índia, na China e no Japão. As alianças possíveis com as populações e reinos nativos e a adaptação aos contextos existentes, já na costa africana, mas em especial nos oceanos Índico e Pacífico, conformaram a atuação do império luso. Segundo o historiador português Luís Filipe Thomaz, essa atuação se traduziu, inicialmente, em uma estrutura em rede: os diversos pontos das feitorias, fortes e portos (espalhados de modo descontínuo pelo Oriente), menos que criar um domínio concentrado, estabeleciam e mantinham as conquistas por meio das relações comerciais e políticas inseridas nas disputas já existentes na região.

No final do século XVI e na primeira metade do XVII, a inclusão do Império Português no espectro mais amplo dos domínios da dinastia dos Áustrias espanhóis, com a União das Coroas portuguesa e castelhana (1580-1640), somada ao surgimento de outros impérios coloniais, aumentou os flancos de disputa pela manutenção das conquistas. As batalhas dos reis espanhóis contra os holandeses (que buscavam se libertar do jugo castelhano) e ingleses (que desde a derrota da Invencível Armada, em 1588, ganhavam relevo entre as Coroas do Velho Mundo) implicaram a ampliação desses conflitos europeus nos mares e, em especial no caso dos holandeses, se traduziram na perda de praças e, ao fim, de grande parte dos domínios orientais. Com isso, desmantelaram-se redes comerciais e políticas da Ásia.

Ao mesmo tempo, essas guerras revestiam-se de argumentações teológicas que fundamentavam o domínio sobre os mares e também espelhavam a importância da conversão dos povos do Novo Mundo como fundamento do poder e senhorio dos reis católicos sobre as partes do império. A missão (jesuítica, sobretudo) era um dos pilares e fins da conquista. Como diria o padre Antônio Vieira (1608-1697), as armas – dos conquistadores – precediam as almas – convertidas pelos jesuítas. Nesse sentido, as Américas entravam em cena tanto pela multidão de gentios que os católicos identificavam como necessário converter, sem, supostamente, os entraves das religiões mais estabelecidas do Oriente, como também pelo número de braços (dos africanos) que poderiam sustentar o combate contra os hereges protestantes e suprir as perdas geradas pela cisão da cristandade na Europa.

Foi a partir desse momento que o comércio no Atlântico, existente desde o século XV, e o papel do Brasil – galgado a Estado em 1549, sobretudo com a produção de açúcar somada ao tráfico de escravos -, ganhou dimensões centrais na sustentação do império. A partir do século XVII, principalmente após a Restauração (1640), o Estado do Brasil (com exceção do estado do Grão-Pará e Maranhão) e as possessões na África definiram-se como eixo para a sustentação do reino e da nova dinastia, a de Bragança; e as expectativas imperiais foram se transferindo de leste para oeste.

O advento do ouro nas Minas Gerais intensificou a atenção para as Américas e o Atlântico Sul, ao longo do século XVIII. A importância crescente do Brasil como eixo principal do império se traduziu nas proposições de um império Luso-Brasileiro, e, sobretudo, entrando o século XIX, com a vinda da família real para o Brasil em 1808 e a elevação a Reino Unido em 1815 – fatos que, paradoxalmente, segundo alguns autores, denunciaram a crise da estrutura imperial. A perda do Brasil, em 1822, obrigou à redefinição do império e sua refundação, com a África como centro, além dos poucos enclaves restantes na Ásia, porém em chaves bastante diferentes daquelas que ordenaram o império colonial moderno.


Luís Filipe Silvério Lima. Império Português. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 3: Idade Moderna. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 49-50.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Impérios marítimos e terrestres no Sudeste da Ásia: Srivijava e Khmer

A importância de alianças pessoais - baseadas em laços de parentesco ou em relações contratuais - pode ser vista na forma que até impérios tomaram em algumas partes do mundo. Os Estados do sudeste da Ásia podem ser pensados como sistemas complexos de lealdades pessoais que formaram a base de relações de poder, mais do que como territórios com limites definidos administrados por representantes de um ou outro governante. Os limites precisos dos territórios controlados por um governante não eram uma preocupação principal; o que importava era a rede de lealdades das quais o governante poderia depender. Os impérios marítimos e terrestres do sudeste da Ásia são exemplos disso.

O grande império insular de Srivijayan (670-1025) foi construído sobre a riqueza produzida pelo comércio marítimo, juntamente com uma combinação de força militar e perspicácia política do datus (chefes ou governantes) da capital, Palembang, na ilha de Sumatra. Dadas as flutuações do comércio internacional e as variações nas habilidades humanas, o poder militar e a capacidade política, sozinhos, eram insuficientes para garantir a sobrevivência de Srivijava. Os líderes precisavam também de um sistema de crenças que pudesse unir as regiões conquistadas, com diferentes religiões e grupos étnicos, sob uma lealdade comum a Palembang, Os governantes de Srivijava encontraram tal ideologia unificadora na religião universal do budismo.

O budismo cresceu rapidamente no arquipélago sudeste-asiático durante o século XII. Inscrições rupestres antigas, em Palembang, revelaram que houve um governante que misturou o imaginário local da montanha sagrada e do mar com a veneração tradicional dos ancestrais com símbolos budistas e éticos. Os temas budistas impostos sobre as tradições nativas providenciaram um conjunto comum de ideias que transcendiam as comunidades locais. Para reforçar essa ideologia e construir o prestígio regional sobre ela, os governantes de Srivijava utilizaram alguns dos lucros de seu império para serem patrocinadores da escolástica budista em seus territórios e financiar grandes construções de templos, como o grande monumento budista de Borobudur, do século VIII, na ilha de Java. Nos séculos X e XI, o império dedicava-se a templos em locais tão distantes quando Bengala e a costa sudeste da Índia.

No sudeste do continente asiático, o Império Khmer (802-1432), em seu auge no século XII, controlava provavelmente um milhão de pessoas na área dos atuais Camboja, Laos, Tailândia e partes de Burma, Vietnã e da península malaia. Uma rede de canais, utilizados tanto para transporte como para irrigação, ligava fisicamente o Estado Khmer, e os reservatórios ajudavam a controlar a precipitação irregular de um clima de monções, estocando a água das chuvas de monções para uso posterior.

Tanto o hinduísmo quanto o budismo sancionaram a autoridade dos governantes e os laços culturais e religiosos comuns entre o povo Khmer. Seus governantes misturaram o hinduísmo com as crenças nativas para consolidar seu poder sobre o território em expansão, e a linguagem sânscrita foi adotada pela Corte Khmer. A adoração do deu hindu Shiva, que era identificado como o "Senhor da Montanha", estava ligada à crença nativa na santidade das montanhas, a casa dos espíritos ancestrais. A adoração a Shiva foi formalizada no culto ao devaraja (deus-rei), do governador Jayavarman II (770-834), que construiu o Estado Khmer, por meio de uma combinação de conquista e formação de uma rede de alianças pessoais. Seguindo Jayavarman, as estátuas dos deuses eram fundias com a pessoa do governante, simbolizada pela emergência do título pessoal do monarca com o nome de um deus. Após o século XII, na cidade capital de Angkor Thom, o domínio budista era refletido pelas fachadas do complexo de templos de Bayon, que retratavam a divindade budista de Lokeshvara. Essa divindade budista era identificada com o construtor de Angkor Thom, Jayavarman VII (1181-1218?), cuja autoridade foi reforçada por meio do novo culto ao Buddha-raja (rei-Buda).

Projetos de obras públicas massivas, realizados pela monarquia Khmer, como o complexo de templos hindus de Angkor Wat (wat significa "templo") construído no século XII, são testemunhos da habilidade do Estado Khmer em coletar e redistribuir recursos econômicos em grande escala. Isso foi realizado por meio de uma rede de templos, que serviam como centros de redistribuição, de vilas para templos locais, e subindo hierarquicamente até o templo central na capital do reino. Dessa forma, tanto a riqueza material quanto a capital simbólica, os símbolos culturais e religiosos utilizados para integrar a sociedade Khmer, foram distribuídos por uma complexa rede de templos espalhada pelo reino.



Angkor Wat

Embora o Khmer não tenha controlado o comércio marítimo que o teria permitido conectar os arredores agrícolas ao comércio marítimo, como fez Srivijava, ambos os impérios controlaram recursos massivos, incorporando diferentes povos e culturas dentro de seus reinos, e criando bases ideológicas com o uso da hinduísmo e do budismo, que unificaram a região sob seu controle. Tanto no Império de Srivijaya, quanto no Khmer, novas identidades coletivas foram construídas por meio da religião e suportadas por riquezas econômicas produzidas pelo trabalho de pessoas envolvidas na agricultura ou no comércio marítimo e fluvial. Templos e outros monumentos religiosos foram expressões vitais da identidade coletiva, conforme eles manifestam a riqueza material comandada por governantes e sancionada pela religião. As alianças pessoais estão no coração de ambos os impérios, e não há dúvida de que estavam presentes em um âmbito local, onde eles faziam parte de uma vida cotidiana que permanecia sem registros. As pessoas continuaram a se identificar intimamente com os parentes e com a vila, mesmo quando eles viviam à sombra de poderosos impérios.

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 204-206.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

O poder: sinopse da história faraônica

Relevo do portal da mastaba de Saqarah

5000-3000 a.C. - Período Pré-histórico (ou Pré-dinástico).  Nos tempos primitivos, o vale do Nilo era habitado por povos nômades, que se agrupavam em clãs, isto é, em grupos cujos membros se consideravam descendentes de um antepassado comum, o qual era venerado como um totem (deus protetor): o lobo, o falcão, o chacal, a seta, etc. A fertilidade do vale fez com que estes clãs nômades se tornassem sedentários. Os clãs uniram-se em grupos maiores, aldeias-estado, que por sua vez deram origem aos nomos¹ (províncias). Os nomos foram fundindo-se e acabaram formando, em meados do 4º milênio, dois grandes reinos: ao sul, o Alto Egito (o longo e estreito vale do Nilo), cujos habitantes veneravam o deus Hórus, representado por um falcão; ao norte, o Baixo Egito (o largo Delta), onde os nomos se agruparam sob o culto do deus Set, representado por um cão.

¹ "Os nomos eram autônomos e dirigidos por um nomarca, que era, simultaneamente, chefe militar, rei e juiz. Quando havia necessidade de superar algum obstáculo como - drenar pântanos, abrir canais de irrigação -, os nomos estabeleciam relações de cooperação. [...]" [NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 51]

Eram duas regiões de forte contraste: o país "das Duas Terras", como diziam os egípcios antigos. "Em todo o curso da história - escreve o erudito egiptólogo Wilson - essas duas regiões se diferenciaram e tiveram consciência da sua diferenciação". E acrescenta: "Quer nos tempos antigos, como nos modernos, as duas regiões falam dialetos diferentes e veem a vida com perspectivas também diferentes".

Os egípcios não eram uma etnia pura. Correspondiam, provavelmente, a um ramo mediterrânico da etnia caucásica; mas apresentaram cruzamentos com negróides, líbios, semitas e diversos povos ocidentais asiáticos.

Neste período pré-dinástico, o desenvolvimento da cultura egípcia foi, quase totalmente, autóctone e interno. Houve, apenas, alguns elementos de evidente influência mesopotâmica: o selo cilíndrico, a arquitetura monumental, certos motivos artísticos e, talvez, a própria ideia da escrita.

Há, nessa época, progressos básicos nas artes, ofícios e ciências. Trabalha-se a pedra, o cobre e o couro (instrumentos, armas, ornamentos, jóias). Há olarias, vidragem; sistemas de irrigação. Vai-se formando o Direito, baseado nos usos e costumes tradicionais - leis consuetudinárias.


Fragmento de relevo do muro do túmulo de Amenemhat e sua esposa Hemet. 12ª dinastia.


3000-2780 - Primeiras duas dinastias (Reino Tinita). A unificação do Egito: Os dois reinos, Alto e Baixo Egito, estiveram em luta durante longo tempo. Finalmente, um famoso (e lendário?) Menés, rei do Alto Egito, conquistou o Baixo Egito, unificou o país e estabeleceu a primeira dinastia. Este período chama-se tinita, por ter sido Tínis a capital do império.

Nesta época, provavelmente, é que surgem a escrita e o calendário de 365 dias.

2780-2400 - Antigo Império (Reino Menfítico). A partir da 3ª Dinastia, os faraós transferiram a capital para Mênfis, no começo do Delta, o que permitiu dominar melhor ambas as regiões do país.

O Antigo Império foi uma época de brilhante civilização. O regime político, porém, era absoluto e teocrático. O chefe era o rei-sacerdote, ou faraó², venerado pelos egípcios como um deus: "o deus vivo". Dedicava-se-lhe tão supersticioso respeito que não podia ser chamado pelo próprio nome; denominavam-no "par-ó" (casa grande, palácio real), de onde deriva o termo "faraó". No começo, o faraó considerava-se um deus Hórus. Mais tarde (desde a 5ª Dinastia), proclamou-se filho divino do deus-sol Rá.

² "'Ele é um deus a quem devemos a vida, pai e mãe de todos os homens, único e sem igual', escreveu um egípcio, funcionário civil do faraó, por volta de 1500 a.C." [Citado em: ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo: da Pré-história à Idade Contemporânea. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 100]

Não havia separação entre o Estado e a Igreja. O faraó era o rei e, ao mesmo tempo, o sumo sacerdote. O governo não tinha índole militarista: não existia um exército permanente. A política exterior era de paz e de não-agressão.

A coroação do faraó realizava-se em Mênfis, num templo chamado o "muro branco", em cujas duas faces era proclamado sucessivamente rei do Alto e do Baixo Egito, com a dupla coroa branca e vermelha.

A centralização do regime permitiu a realização de vastas obras de arquitetura e de canalização. Durante a 4ª Dinastia construíram-se as famosas pirâmides de Gizé.


Vista panorâmica das pirâmides de Gizé


2400- 2100 - Primeiro Período Intermediário (anarquia e feudalismo).  No fim do Antigo Império houve revoltas e desordens, provocadas pelos nomarcas (governadores dos nomos ou províncias), que aspiravam à independência. Aumenta o poder dos nobres e decai o prestígio dos faraós. O período caracteriza-se pela anarquia, feudalismo e a invasão das tribos negróides e asiáticas. Mas, do ponto de vista das massas, foi "a época democrática do Egito antigo", um período de igualdade e justiça sociais. O texto que mais claramente expressa a nova tendência à justiça social é o "Relato do camponês eloqüente".

2100-1785 - Médio Império (ou Primeiro Império Tebano).  A autoridade real é restabelecida pelos príncipes de Tebas (11ª Dinastia), que restauram a unidade do país. Este governo central parece mais democrático que o menfítico, pois que as massas vão sendo emancipadas mercê de profundas concessões sociais e religiosas.

A igualdade religiosa propicia a igualdade social e política. Os camponeses e os trabalhadores da cidade tornam-se livres, o que produz excelentes resultados. A 12ª Dinastia assinala o apogeu dessa época: consolida energicamente o reino e mantém bem alto o prestígio internacional do Egito. Senusert III dilata as fronteiras meridionais e contém os núbios. Amenemat III constrói canais e açudes e a vasta represa constituída pelo lago artificial Méris [...]. Época áurea de justiça social e de progresso material e intelectual, o governo da 12ª Dinastia é apontado, por alguns autores, como "o primeiro império democrático da história".

1785-1580 - Segundo Período Intermediário (a invasão dos hicsos). Esta é a época mais confusa, e discutida, da história do antigo Egito: um período de invasões e de caos interno. Bandos aguerridos de pastores asiáticos - os hicsos - conglomerados de povos semitas e arianos, invadiram o Egito (através do istmo que o ligava à península do Sinai), venceram os exércitos do faraó e dominaram grande parte do país. Possuíam cavalos e carros de guerra (com rodas); e armas de bronze (ou talvez, mesmo, de ferro), mas bem acabadas e mais fáceis de manejar. Tudo isso explica a sua superioridade bélica e os seus triunfos militares.

Os hicsos talvez estivessem a fugir da pressão dos invasores indo-europeus (hititas, cassitas e mitanianos), sobre o Crescente Fértil.

Com os hicsos, devem ter entrado no Egito, os hebreus. O José bíblico (filho de Jacó e de Raquel, vendido pelos seus irmãos e levado ao Egito) foi, provavelmente, ministro de algum rei hicso. Os hebreus entraram no Egito por volta de 1700 e aí permaneceram uns 4 séculos.

1580-1200 - Novo Império (ou Segundo Império Tebano). Amés I [também chamado Amósis I] iniciou a guerra pela independência e expulsou os hicsos. Começou, então, uma época de poderio e de expansão - o Império propriamente dito. Tendo aprendido com os invasores, os egípcios aperfeiçoaram a sua máquina de guerra: o exército possuía, agora, carros de combate puxados por cavalos.

O Novo Império era belicoso e imperialista. Tutmés III [também chamado Tutmósis III] conquistou a Síria. Fenícios, cananitas e assírios passaram a pagar tributos. O avanço egípcio provocou o choque com os poderosos hititas, da Ásia Menor. O célebre Ramsés II lutou contra eles na batalha de Kadesh (aprox. 1295 a.C.). Não tendo podido vencê-los, assinou com os hititas um acordo (tratado de paz e aliança defensiva), que durou muitos anos. Durante o longo reinado de Ramsés II (1298-1235) construíram monumentos, palácios, canais. Concluíram-se dois templos imponentes: os de Karnak e Lúxor.

Uns 5 anos após a batalha de Kadesh (aprox. 1290 a.C.), iniciou-se o êxodo dos hebreus.

O Novo Império foi considerado pelos egípcios "como uma das épocas mais luminosas da sua história". Seus faraós mais famosos foram Tutmés III e Ramsés II. Todavia, para a sensibilidade moderna, o faraó mais importante é Amenófis IV (reinado: 1372-1354), autor de uma profunda revolução religiosa: a instauração de um culto monoteísta [...].


Cortejo fúnebre. Livro dos Mortos de Ani. 19ª dinastia


1200-652 - Diversas dominações. Decadência. O reinado de Ramsés II foi uma época brilhante da história egípcia. Após Ramsés II começou a decadência: o Egito sofreu invasões, guerras civis e anarquia social. Os "povos do mar" (guerreiros loiros, de etnia indo-europeia) conquistaram o Delta e as costas da Palestina. Depois houve período de domínio líbio e etíope (núbio). Mais tardem sobrevieram os assírios, que dominaram de 671 a 652.

652-341 - Renascimento Saíta. Psamético I consegue expulsar os assírios, readquire a independência egípcia e funda nova dinastia (26ª), que assinala grande renascimento cultural. Estabelece-se nova capital, Saís, no Delta. A restauração continua com Necao (609-594), que intensifica as relações com a Ásia. Ao que parece, ele reabriu o canal que ligava um afluente oriental do Nilo ao Mar Vermelho - fazendo com que este, portanto, se comunicasse com o Mar Mediterrâneo [...]. Hanon, capitão fenício a serviço de Necao, realiza o périplo da África: parte do Mar Vermelho e volta pelo Mediterrâneo, após 3 anos de viagem.

No Delta interior estabelecem-se colônias de mercadores gregos; a mais importante é Naucrátis. Começa a helenização do Egito, embora a influência grega só se exerça nas classes elevadas.

Em 525, o rei persa Cambises (filho de Ciro) vence a batalha de Pelúsio e conquista o Egito. Em 404, os egípcios conseguem reconquistar a liberdade, mas são dominados novamente pelos persas, em 341. Encerra-se aqui a história do antigo Egito independente.

Epílogo: 341 a.C. - Da dominação persa aos romanos. Após a segunda dominação persa, sobrevieram a hegemonia grega (Alexandre: 333 a.C.) e a romana (após a morte de Cleopatra: 30 a.C.).³

³ "Durante sua longa história, os egípcios tentaram preservar as formas antigas de sua civilização, reveladas por seus ancestrais e representando, em todas as épocas, aqueles valores imutáveis que eles acreditavam ser o caminho para a felicidade". [PERRY, Marvin. Civilização Ocidental - Uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 19]

Quando Alexandre entrou no Egito, foi saudado como um libertador. Fundou Alexandria, que sucedeu Atenas, como centro intelectual do mundo; já no primeiro século de existência lecionavam lá os maiores matemáticos da antiguidade: Euclides, Apolônio, Eratóstenes, Diofanto. Arquimedes passou algum tempo em Alexandria; voltou a Siracusa, mas manteve sempre contato epistolar com a cidade egípcia de sábios.

O Egito pertenceu durante 4 séculos ao Império Romano do Ocidente [...].

BECKER, Idel. Pequena história da civilização ocidental. São Paulo: Nacional, 1974. p. 24-29.
MARVIN, Perry. Civilização Ocidental - Uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 19.
NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 51.
ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo: da Pré-história à Idade Contemporânea. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 100.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

A época de Napoleão

"O grande homem é grande não porque suas particularidades individuais imprimam uma fisionomia individual aos grandes acontecimentos históricos, mas porque é dotado de particularidades que o tornam mais capaz de servir às grandes necessidades sociais de sua época, surgidas sob a influência de causas gerais e particulares".
Georg Plekhanov

Bonaparte cruzando a passagem de Saint-Bernard Grand. Jacques-Louis David

É muito difícil prever com segurança quais serão os resultados finais de uma revolução. Quando o processo revolucionário é longo e abarca todos os setores de uma sociedade, mais difícil se torna a previsão. À medida que os acontecimentos vão se sucedendo, as reações das pessoas, dos grupos são incontroláveis. Adquirem, na maioria das vezes, rumos que nem os próprios líderes desejam.

Despedida de Napoleão para a Guarda Imperial no Cheval-Blanc, Antoine Alphonse Montfort 

Com a Revolução Francesa não foi diferente. Três anos após o início da luta armada, o país se viu mergulhado em uma profunda crise interna, sofrendo ameaças externas de todos os vizinhos conservadores. Os monarcas e os nobres temiam que os ventos revolucionários franceses os derrubassem do poder e que aquelas perigosas ideias liberais tomassem conta da cabeça dos trabalhadores e da burguesia.


O Imperador Napoleão em seu estúdio nas Tulherias, Jacques-Louis David

A República francesa, proclamada em 1702, era dirigida pelos revolucionários da ala mais moderada e com o apoio da alta burguesia que não desejava as medidas radicais da chamada ala dos jacobinos. Entretanto, de 1793 a 1794, foram os jacobinos que dominaram a Convenção e governaram o país. Mas, em 1794, novamente os moderados, chamados de girondinos, através de um golpe, tomaram o poder. Governaram até 1795 e esse período ficou chamado de República Conservadora. Não eram radicais, não defendiam os ideais dos trabalhadores e da pequena burguesia, estavam defendendo a alta burguesia: os donos de indústrias, os grandes comerciantes e os proprietários de terra.

Retrato de Napoleão Bonaparte como Primeiro Cônsul, Ingres

Os moderados criaram uma forma diferente de governar. O poder executivo ficou nas mãos de um grupo, o chamado Diretório. O poder legislativo foi exercido por dois Conselhos. Aos poucos foram acabando com os avanços revolucionários mais radicais, mas enfrentaram crises econômicas e frequentes conspirações. Os revolucionários viviam uma situação de temor e apoiaram a intervenção do exército na política.

Napoleão revista a Guarda Imperial antes da Batalha de Jena, Horace Vernet

O exército foi a força maior com a qual a alta burguesia contou. Conseguiu grandes vitórias no exterior, como a do Egito, onde derrotou os ingleses, e a Itália. À frente desse exército estava a figura que mais e mais se destacava. Era o general Napoleão Bonaparte¹.

¹ "A Revolução Francesa permitira a Napoleão Bonaparte, nascido na ilha de Córsega [...] e educado nas melhores escolas militares da França, ascender rapidamente ao posto de general". (HOLLANDA, Sérgio Buarque de et alli. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 210.)


Bonaparte na Ponte de Arcole. Antoine-Jean Gros

Foi assim que Napoleão deu o golpe militar, dissolvendo o Diretório em 18 de novembro de 1799. Para dirigir o país, Napoleão criou o Consulado formado por três chefes, dos quais ele era um.

Poucos meses depois Napoleão foi eleito cônsul e, em seguida, foi proclamado imperador com o apoio do exército e da alta burguesia. Como imperador, Napoleão governou de 1799 a 1815.

Napoleão Bonaparte no golpe de 18 Brumário em Saint-Cloud, François Bouchot

São os rumos inesperados da revolução: os liberais aclamaram Napoleão Bonaparte como imperador da França, um imperador com todos os poderes nas mãos; às vezes governava com o absolutismo dos reis tão condenados pelos liberais. Verdadeiramente esses rumos não foram traçados pelos revolucionários de 1789!


Napoleão diante da Esfinge, Jean-Léon Gérôme

Ao longo de seu governo, Napoleão Bonaparte tomou muitas medidas liberais, jamais abandonando os burgueses endinheirados, que tinham grandes interesses econômicos. Foi para eles que o imperador de fato fez as reformas, porque acreditava que seriam eles os homens que fariam da França um país capitalista industrializado.

Primeira esposa de Napoleão: Imperatriz Josefina em trajes de coroação, François Gerard

Napoleão nunca foi um democrata. Jamais acreditou que se poderia governar no regime democrático. Mas também foi muito mais liberal do que os reis absolutos. Muitas reformas feitas por ele foram tão importantes e necessárias que vigoram até hoje, em quase todo o mundo ocidental.

Segunda esposa de Napoleão: Imperatriz Marie-Louise, Jean-Baptiste Isabey

Entre suas várias reformas algumas provocaram impacto extraordinário. Napoleão subordinou a Igreja ao Estado, que passou a pagar os salários dos padres; criou os liceus e as universidades e determinou que a educação² fosse monopólio do Estado; tornou obrigatório o ensino primário, que ficou a cargo das prefeituras; promulgou o Código Civil, que praticamente influenciou todo o mundo ocidental, e incentivou a industrialização.

² "No setor educacional ordenou o funcionamento de numerosas escolas públicas, até então escassas, para o ensino em diferentes graus, às quais acorreram crianças, adolescentes e jovens, em número cada vez maior". (HOLLANDA, Sérgio Buarque de et all. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 212.)


Napoleão abdicando em Fontainebleau, Paul Delaroche

O período em que Napoleão ficou no poder não foi fácil. Houve crises financeiras, greves nas fábricas e ele usou sua força no sentido de reprimir e vigiar.

A Europa toda foi sacudida por Napoleão e a América, também.

Napoleão atravessando os Alpes, Paul Delaroche

Na Europa, a grande rival era a Inglaterra³, que, já bastante industrializada e com uma economia liberal, não desejava ter a burguesia francesa também ocupando os seus espaços. Mas os outros países, como a Prússia, a Rússia e a Áustria, sentiam o impacto das ideias francesas e tentavam abafá-las.

³ "A Inglaterra, primeira potência naval da época, era o único país que Napoleão não conseguia vencer pelas armas. Como a nação inglesa dependia em grande parte do seu comércio com as demais nações europeias, Napoleão decidiu mover-lhe uma guerra econômica. Para tanto decretou o Bloqueio Continental (1806), isto é, declarou todos os portos europeus fechados a navios e mercadorias inglesas, interditando também o comércio europeu com a Inglaterra. Apesar do bloqueio, a Inglaterra intensificou o comércio de produtos coloniais, procedentes do Extremo Oriente, dos Estados Unidos, e sobretudo de produtos coloniais da América Latina, através de portos do Mar do Norte, do Mediterrâneo e outros de Portugal, seu tradicional aliado". (HOLLANDA, Sérgio Buarque de et alli. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 213.)

[...] A Rússia quebrou o Bloqueio, porque precisava importar produtos industrializados da Inglaterra. Napoleão, furioso, marchou com seu exército contra ela, e enfrentou dificuldades insuperáveis, como o frio e a fome. Foi uma campanha sem sucessos. A derrota foi flagrante e marcou o início de seu declínio.


Retirada de Napoleão de  Moscou. Adolph Norther

Em 1814, a situação do país era tão difícil que Napoleão foi obrigado a abdicar, retirando-se para uma ilha. Voltou logo a seguir e governou mais cem dias. Finalmente, em 1815, numa batalha na Bélgica, em Waterloo, foi derrotado pelo exército inglês e enviado prisioneiro para a ilha de Santa Helena, onde ficou até morrer.

Napoleão em Santa Helena, Francois-Joseph Sandmann

"Na minha carreira encontrar-se-ão erros, sem dúvida; mas Arcole, Rivoli, as Pirâmides, Marengo, Austerlitz, Iena, Friedland são de granito; o dente da inveja nada pode contra elas [...] Eu aterrei o abismo anárquico e pus ordem no caos. Eu limpei a Revolução [...] E depois sobre que poderiam atacar-me de que um historiador não pudesse defender-me? [...] Enfim, seria a minha ambição? Ah! sem dúvida, ele encontra-la-á em mim - e muita; mas a maior e a mais alta que talvez jamais tenha existido: a de estabelecer, de consagrar o império da razão e o pleno exercício, o inteiro gozo de todas as faculdades humanas [...] Em poucas palavras, eis, pois, toda a minha história [...] Milhares de séculos decorrerão antes que as circunstâncias acumuladas sobre a minha cabeça possam encontrar um outro na multidão para reproduzir o mesmo espetáculo." BONAPARTE, Napoleão. O processo Napoleão. In: FREITAS, Gustavo de. 900 textos e documentos de história. Lisboa: Plátano, 1976. v. III, p. 124.

A Batalha de Austerlitz, François Gérard

O poder político voltou para as mãos da família dos Borboun - Luís XVIII - que governou até 1824. Surpresa nos rumos da grande revolução!

BONAPARTE, Napoleão. O processo Napoleão. In: FREITAS, Gustavo de. 900 textos e documentos de história. Lisboa: Plátano, 1976. v. III, p. 124.
GARCIA, Ledonias Franco. Estudos de história: sociedades contemporâneas. Goiânia: UFG, 1998. p. 79-83.
HOLLANDA, Sérgio Buarque de et alli. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 210, 212-213.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Os grandes impérios medievais da Ásia Oriental

Um grupo de eunucos. Artista desconhecido. Pintura mural do túmulo do Príncipe Zhanghuai, Qianling, Shaanxi. Era Tang. 706 d.C.

1. A China na Idade Média. Quando na Europa Ocidental começaram as invasões bárbaras a China politicamente já conhecia um regime verdadeiramente feudal, no qual 21 Estados independentes viviam constantemente em lutas entre si. Nos fins do século VI, contudo, o país foi unificado por um chefe militar chamado Gao Tsu, que denominou o país de Tang e se proclamou imperador.

O Império Tang viveu uma época de prestígio e refinamentos. Embaixadores da Pérsia e da Arábia visitaram os soberanos chineses. A escultura e a pintura atingiram grande perfeição. Os imperadores da dinastia Tang consideravam-se enviados dos deuses e usavam o título de "filho do céu". Uma aristocracia de funcionários instruídos e mercadores ricos dominava economicamente o país. Insurreições de camponeses e movimentos de independência chefiados pelos governadores das províncias acabaram provocando o desmembramento do Império Tang.

No século X uma nova unificação do país foi feita, iniciando-se a dinastia Sung. Embora os povos nômades do norte não reconhecessem o novo Império Sung e constantes guerras contra os mesmos exigissem a manutenção de grandes exércitos, impostos excessivos e muitas vezes até o abandono das atividades agrícolas, a arte chinesa nesse período floresceu excepcionalmente. As pinturas da época são feitas em telas de seda e desenvolve-se uma arquitetura suntuária com palácios e templos finamente ornamentados com mármores, ouro, porcelanas e esculturas de valor.


Cena de dança. Artista desconhecido. Século X. Dinastia Sung.

Em 1069, um ministro da dinastia Sung, Wang-An-Shih, apresentou um grande plano de salvação nacional, pois as secas dos anos anteriores, as guerras e a exploração haviam levado a China ao caos. Wang-An-Shih colocou sob a direção do Estado o comércio, a indústria e a agricultura, regulou e fixou salários e preços, concedeu pensões para os desempregados e velhos. A avançada experiência de Wang-An-Shih foi asperamente combatida pelos conservadores, que conseguiram revogar quase toda sua legislação.

2. Tártaros e mongóis. Os mongóis constituíam uma horda de cavaleiros nômades da Ásia Central, vivendo em tendas e ocupando-se do pastoreio e da guerra.

Aproximadamente no ano 1200 começou a formação do Império Mongólico. A China foi invadida por um prodigioso guerreiro mongol, Gêngis-Cã, que tomou Pequim e dilatou suas conquistas, ocupando também o Turquestão, a Pérsia, o norte da Índia e a região do Cáucaso. A invasão mongólica fora uma calamidade para os chineses, pois os mongóis devastaram suas terras; porém como estabeleceram na China a base de seu colossal império promoveram posteriormente o desenvolvimento do comércio e das atividades artesanais.


Batalha entre chineses e mongóis. 1430. Sayf al-Vâhidî.

Um de seus sucessores, Cublai-Cã, homem inteligente e de espírito tolerante, tentou um entendimento entre seu império e a cristandade oriental. O contato anterior dos mongóis com o Ocidente tinha sido iniciado com a fabulosa viagem de Marco Pólo e com as conquistas de terras da Europa Oriental. Chegaram os mongóis a dominar o sul da Prússia e ameaçaram as fronteiras do Sacro Império Germânico. Estas conquistas fizeram do Estado mongol o maior império até hoje conhecido e tiveram enorme repercussão sobre as Cruzadas, pois a presença de um novo inimigo a leste diminuiu a importância da luta contra os turcos. A luta entre a Cristandade e o Islã foi, consequentemente, atenuada pela perspectiva de uma grande invasão mongólica.

Após o apogeu do governo de Cublai-Cã (1259-1294), o Império Mongólico declinou rapidamente.

3. A dinastia Ming. Em 1348, no sul da China, começou a grande revolução nacional contra os mongóis, na qual se destacou o líder campon~es Tchu-Ieng-Tchan, que conseguiu ocupar a cidade de Nanquim e proclamar-se imperador. O novo soberano dominava no entanto apenas a China meridional, que denominou de Império Ming; posteriormente uma grande e bem sucedida campanha militar contra os remanescentes mongóis da China setentrional deu-lhe o domínio da antiga capital dos invasores, Pequim, e a posse de todo o país.

A dinastia Ming reina de 1368 a 1664, período de grande prestígio cultural e político para a China. Caracteriza-se por uma série de imperadores cultos e de acentuado gosto artístico que se consegue manter no poder até o dia em que os manchus ocupam o país. A ocupação manchu foi pedida e auxiliada pela própria nobreza feudal chinesa alarmada com uma grande revolução popular que conseguira o domínio da capital (Pequim) e a fuga do último imperador Ming. Os manchus, após debelarem a revolução contra os Ming, recusaram-se a abandonar o país, transformando Pequim em sua própria capital.


Detalhe de uma pintura da Dinastia Ming: Mulher jogando konghou. Qiu Ying. Início do século XVI.

A dinastia manchu identificou-se completamente com a nobreza feudal chinesa e manteve-se no poder até a Proclamação da República em 1912.

4. O Japão. Antes da assimilação da cultura chinesa os japoneses viviam apenas de caça, de pesca e de uma rudimentar agricultura. Durante séculos o Japão constitui-se de uma infinidade de domínios feudais, nos quais exerciam muita influência os samurais, casta militar semelhante à cavalaria medieval europeia. A grande capacidade de assimilação do povo japonês fez com que o budismo, introduzido pela imperatriz Suiko, possibilitasse não somente a unidade de crença mas favorecesse também a unidade política. Um sobrinho de Suiko, Shotoku Taishi (593-621), que governou como regente, compreendeu perfeitamente a superioridade cultural do budismo sobre o antigo culto japonês "xinto", que se baseava no culto dos antepassados. Antevendo as possibilidades políticas do budismo, Shotoku promulgou em 604 um edito em 17 artigos, fundamentado na moral búdica, e dele serviu-se como base para seu governo. Mais ou menos nessa época fixaram-se as tradições japonesas fortemente influenciadas pela cultura chinesa recebida, sobretudo, através da Coréia.


Samurais. Iwasa Katsushige.

A partir de 886 um alto funcionário do governo, o kwambaku, era quem tinha a responsabilidade propriamente de governar. O imperador, intitulado tenshi (filho do céu) ou teno (dominador do céu), entretinha-se com os luxos e os requintes de sua corte, compunha versos, colecionava obras de arte e estudava literatura chinesa. Surgiram assim lutas entre as grandes famílias feudais (Taira, Minamoto, Fujiwara), que disputavam o cargo de kwambaku ou tentavam mesmo absoluta independência.

Durante séculos as lutas entre os grandes senhores feudais assolaram o país. Finalmente um membro da família Minamoto restabeleceu em 1185 o poder central instituindo uma nova forma de governo, o xogunato, ao mesmo tempo que mudava a capital de Kioto para Kamakura. O xogunato mantém teoricamente a autoridade do imperador, mas, o submete à tutela de um "xógum", chefe militar todo-poderoso que através de governadores militares nas províncias domina de fato todo o país. Com o xogunato não desapareceu o regime feudal, porém melhoraram as condições de vida dos camponeses e desenvolveu-se relativamente o comércio.

Ao findar a Idade Média o xogunato ainda era o regime vigorante no Império do Sol Levante.

5. A expansão otomana. Os turcos otomanos eram originários do Turquestão. Deslocados pela primeira invasão de Gêngis-Cã, emigraram para o sudoeste, fixando-se nas planícies da Ásia Menor entre os turcos seljúcidas. Gradativamente foram dominando os seljúcidas e abraçando o islamismo. No século XIV já existia um Império Otomano, bem organizado e economicamente forte, cujo nome era uma homenagem a seu fundador, Otmã.


Exército otomano marchando sobre a cidade de Túnis. 1581. Sehname-i Selim Han

Atravessando os Dardanelos, os otomanos penetraram na Europa. Nos sérvios e búlgaros encontraram eles certa identidade racial e cultural. Os turcos, que falavam uma só língua, tinham maior senso de unidade e eram melhores soldados, unificaram então quase toda a região balcânica e impuseram o islamismo. Andrinopla tornou-se sua principal cidade. Constantinopla viu-se cercada lentamente e a Hungria cristã serviu de fronteira entre o islamismo otomano e o cristianismo europeu.

Os otomanos organizaram uma força militar permanente, na qual se destacavam os janízaros, tropas formadas por jovens imbuídos da mística militar de sua organização. Constituíam uma infantaria eficiente e bem paga.

Em 1453, um sultão otomano, Maomé II, alcançou o grande objetivo de seus antecessores. Constantinopla foi cercada e atacada pelo lado europeu por uma grande infantaria. O imperador Constantino XII foi morto, seguindo-se a pilhagem da cidade. A igreja de Santa Sofia foi transformada em mesquita.

SOUTO MAIOR, Armando. História geral. São Paulo: Nacional, 1979. p. 200-205.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Império Muçulmano

مسلم الإمبراطورية

Construção do Forte de Khamaq, Khamaleddin Behzad

[Expansão política] O mundo muçulmano foi, originariamente, árabe. Durante a Antiguidade, a Arábia não fez parte do contexto mediterrâneo, mas ligava-se aos grandes centros políticos e econômicos por meio do comércio e confrontava-se tanto com o Império Romano como com a Pérsia.

Após a conversão islâmica, o mundo árabe expandiu-se em direção ao Mediterrâneo, defrontando-se com o Império Bizantino e dominando a região sírio-palestina e o norte da África; ocupou quase toda a península Ibérica; e, em direção ao Oriente, absorveu o Império Persa-Sassânida, atingindo a Índia e o Extremo Oriente.

"À medida que o tempo passou e os ensinamentos do Corão foram coligidos, o "povo do livro" ganhou permissão de manter sua própria religião - e evitar o serviço militar -, contanto que pagassem um tributo, ou seja, um imposto anual. Povo do livro significava judeus, cristãos e quaisquer outros que tivessem um livro sagrado revelado por Deus antes do livro sagrado definitivo, o Corão. Quanto aos "pagãos", contudo, o negócio era diferente. Para alguns, a consequência da conquista era a escravidão. (A perspectiva de adquirir escravos era outro forte incentivo para os que embarcavam em uma jihad.) Mas para muitos a escolha era conversão imediata ou morte imediata". (AYDON, Cyril. A história do homem: uma introdução a 150 mil anos de história humana. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 135)

Na formação do Império Muçulmano podem ser reconhecidas duas grandes etapas a partir de sua origem no século VII: predomínio dos árabes, até o século XI, e grande diversificação étnica com domínio dos turcos, do século XI ao XV.


Minarete em espiral, Samarra, Iraque

[Império Muçulmano na fase final da Idade Média] O período abássida (séculos VIII a XI) representou, de um lado, a criação de um Império Islâmico em escala mundial, em confronto com o mundo cristão bizantino e europeu, e, de outro, a divisão desse império em três grandes blocos: o oriental, com sede em Bagdá, estendendo-se até o Egito e a Síria; o norte-africano (Itriguia e Magreb); e o europeu, representado pela Espanha.


Jogo de pólo, ilustração do poema Guy u ChawganShah Mahmud

- Avanço turco. Os turcos entraram no império quando os califas abássidas os recrutaram, como mercenários, para formar sua guarda pessoal.

No início do século XI formou-se uma poderosa confederação de tribos turcas chamadas seldjúcidas. Convertidas ao islamismo, elas encetaram nova guerra santa, estabelecendo seu poderio sobre as cidades asiáticas. Em 1055, impuseram seu protetorado ao califa de Bagdá e passaram a dirigir o império. O califa, guardando apenas a autoridade moral e religiosa, tornou-se dependente de um chefe turco, o sultão, que passou a controlar o Estado. Consagrou-se, assim, a separação entre o poder espiritual e o político.

O domínio seldjúcida alastrou-se por todo o Império Muçulmano. Em 1092, porém, os filhos do sultão repartiram o império, dando origem a três reinos, quase sempre hostis: a Pérsia (mais tarde Irã), a Anatólia (depois Turquia), que compreendia a Ásia Menor e a Armênia e a Síria.


Jovem conversando com pretendentes, pintura da obra "Um pai aconselha seu filho sobre o amor".

- Os otomanos e a consolidação muçulmana. O domínio mais importante, porém, foi o dos turcos que formavam um dos pequenos principados em que se dividiu a Anatólia, O primeiro chefe da região a se tornar conhecido foi Osman, ou Otman - daí o nome otomano, pelo qual esse grupo foi designado.

A conquista otomana estendeu-se por todo o Oriente Próximo, do final do século XIV à metade do século XV, quando foi tomada a capital bizantina, Constantinopla, em 1453.

A conquista de Constantinopla e a consequente destruição do Império Bizantino deixaram o Mediterrâneo livre para a ação dos otomanos, que dominaram a Síria e a Palestina, estabeleceram redutos no Magreb (por meio da pirataria) e ameaçaram a Europa cristã, chegando por diversas vezes às portas de Viena.

O domínio turco representou a consolidação do mundo muçulmano diante do mundo cristão. Encerrado no Mediterrâneo, o conflito entre muçulmanos e cristãos irrompeu, violentamente, na época Moderna, no oceano Índico, onde, mais do que pela fé, se lutava pelo domínio do rico comércio oriental.


Dois amantes, Riza i-Abbasi

[Vida socioeconômica] A maioria da população muçulmana vivia da agricultura e da pecuária. A situação dos camponeses, porém, piorou quando os mercadores ricos e influentes adquiriram terras, exploraram a mão-de-obra rural e substituíram-nos por escravos importados da África Negra, provocando resistências e revoltas.

A grande atividade econômica do império, no entanto, foi o comércio. O centro comercial muçulmano era o golfo Pérsico, polarizado por Bagdá. Passando pela Índia, os mercadores atingiram o Ceilão e a China. E, partindo do norte da península Arábica (atual Iraque), as caravanas seguiam tanto em direção à Ásia Central quanto em direção à região sírio-palestina, aos territórios bizantinos e ao Egito. Com a conquista de Creta e da Sicília, o Mediterrâneo (centro do comércio mundial) passou para o controle árabe.

"Artigos de luxo, transportados em embarcações ou caravanas de mercadores, passaram a circular mais intensamente, sobretudo através do Mediterrâneo. Tapetes, veludos, sedas, porcelanas, perfumes, jóias, armas cinzeladas, vasos de vidro e de metais (cobre, prata, ouro etc.), objetos de couro, móveis trabalhados, tecidos de algodão e musselina, objetos de marfim e inúmeras mercadorias, inclusive de origem vegetal - como as especiarias - eram cada vez mais procuradas pelos aristocratas da Europa, África e Ásia". (AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro:  Imperial Novo Milênio, 2008. p. 478)

O desenvolvimento mercantil acarretou o crescimento das manufaturas e do comércio realizado com dinheiro (finanças). As condições econômicas davam às cidades prevalência sobre o campo. A civilização muçulmana foi, durante o chamado período medieval, eminentemente urbana.


Caravana de peregrinos em Ramleh, Yahyâ ibn Mahmûd al-Wâsitî

[Vida intelectual e artística] A expansão da cultura muçulmana (do século VIII ao XI) deveu-se sobretudo à difusão da língua árabe, que substituiu o grego e o siríaco, tornando-se, assim, ao lado da religião, um elo em meio à diversidade muçulmana.

"[...] Ao contrário dos cristãos da Idade Média, que deixaram a leitura das escrituras para os padres e os monges, os muçulmanos enfatizavam que todos podiam e deviam ler o Corão. Desta forma, muitos muçulmanos precisaram aprender a ler. Como o livro sagrado era uma obrigação, o mundo islâmico se transformou em uma cultura de aprendizado e intelectualidade". (HAUGEN, Peter. História do mundo para leigos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2011. p. 92)


Mulheres tocando instrumentos musicais, miniatura otomana

O emprego do árabe permitiu a fixação e a preservação de obras antigas, principalmente gregas e persas. Mas houve também a produção de uma cultura árabe original. Na filosofia podem ser destacados al-Kandi, al-Faribi e Ibu Sina, conhecido no Ocidente pelo nome de Avicena e considerado um dos mais importantes pensadores medievais. A medicina, a astronomia, a matemática, a geografia, sobretudo a cartografia, e a história foram destacados campos de elaboração cultural muçulmana.

"[...] As línguas europeias também guardam a marca da civilização árabe. Palavras como "zero", "cifra" ou "álgebra" são de origem árabe; também na música ("cítara", "guitarra" e "alaúde") e muitos termos comerciais ("tarifa", e as palavras francesas douanne para alfândega e magazin para loja) são todos de origem árabe". (ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 273)


Ilustração de "As mil e uma noites", Sani ol-Molk

Na produção literária, destacam-se obras ainda hoje da maior relevância, como o Corão e As mil e uma noites. O poeta Omar Khayyam, autor do poema intitulado Rubayyat, pode ser incluído entre os grandes nomes da literatura mundial.

A arquitetura, nas principais cidades do império - como Bagdá, Damasco, Sevilha e Córdoba -, encontrou sua maior expressão nos palácios, nas mesquitas e nas residências dos grandes senhores.

Habilidade de Bahram Gur com o arco, Maulana Azhar

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008.
AYDON, Cyril. A história do homem: uma introdução a 150 mil anos de história humana. Rio de Janeiro: Record, 2011.
HAUGEN, Peter. História do mundo para leigos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2011.
NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 210-214.
ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

sábado, 3 de novembro de 2012

América Andina: a formação do Império Inca

O Império Inca se estendia ao longo da cordilheira dos Andes,     da Colômbia ao Chile. O Equador, o Peru, as terras altas da Bolívia,  o norte da Argentina e o Chile [...] formavam parte de seu território.

Em seu interior encontramos diferenças geográficas notáveis e povos de diferentes civilizações, centralizados num esquema unificador. O Estado inca, respeitando as antigas funções das comunidades aldeãs chamadas ayllus, incorporou militarmente outros Estados, impondo uma unidade política, econômico-social e religiosa, justificando a denominação de Império.


Machu Picchu

[...]

O Império Inca integrou povos de diferentes culturas [...]. Quatro grupos de povos sobressaem: os chimus, no litoral norte do Peru; os urus, que viviam nas proximidades do lago Titicaca (na Bolívia); os aimarás, na região sul e leste do mesmo lago; e os quíchuas, que formavam o maior contingente do Império.

[...]

A comunidade aldeã estava unida por laços sanguíneos em diferentes graus de parentesco e pela crença comum de ser descendente de um mesmo passado místico. Dentro dela não havia a propriedade privada da terra. [...]

[Origens] Os Incas impuseram a 15 milhões de pessoas a mesma língua, a mesma cultura, a mesma religião (ainda que respeitando os deuses locais, considerados secundários) e um Estado centralizado. A construção desse projeto unificador foi feita através da violência generalizada, da coerção e do convencimento ideológico. [...]

[...]

Os incas possuíam um excelente esquema de comunicação. Os chasquis, ou correios dos incas, atravessavam os caminhos ziguezagueantes do Império, através de desertos, montanhas e rios. Eram homens que se colocavam a distâncias consideráveis para receber e transmitir a outro ponto, mediante longas corridas, qualquer sinal de perturbação. Pontos de descanso, chamados tambos, continham alimento, água e um lugar de repouso para os fatigados servidores.

[...]

* Chavín de Huantar. Chavín de Huantar foi um centro cerimonial localizado nas serras setentrionais do Peru, sobre um afluente do rio Maranhão, para onde convergiam peregrinos de toda a região. Chavín é um conjunto arquitetônico feito de pedras colocadas alternadamente em camadas finas e grossas, sem revestimentos ou massas soldantes.

[...]

O centro cerimonial de Chavín de Huantar foi construído graças aos donativos e às oferendas em trabalho de milhares de peregrinos, dirigidos pelos sacerdotes do "jaguar" num culto similar ao de Quetzalcoatl-Kukulkán. [...]

[...]

Chavín possibilitou a unidade cultural das aldeias espalhadas pelo Peru, que possuíam uma agricultura diversificada, com mandioca, milho, abóbora, etc. [...]

* A costa norte: a cultura mochica. Numa superfície de 66 000 km², através de vales e serras, estendeu-se a cultura mochica, a partir de seus centros localizados nos vales de Moche, Vicus e Chicamba. [...]

Entre o rio Moche e o Serro Branco se localiza o conjunto arquitetônico mais representativo da cultura mochica. Trata-se de Huanca do Sol e Huanca da Lua. A primeira é uma plataforma de 228 metros de comprimento e 18 m de altura. Sobre ela se levanta a pirâmide propriamente dita, de 103 m de lado por 23 m de altura, igualmente escalonada como a base.

A Huanca da Lua consta de uma plataforma de 80 m de lado por 60 m de altura, e uma pirâmide de 21 m, construídas de barro e não de pedras. Esta é uma característica fundamental da arte mochica: a utilização do barro, tanto nas construções como no artesanato, que reproduzia fielmente o meio ambiente que os rodeava. [...]

[...]

* Costa sul: a cultura nazca. Nos vales de Pisco, Ica e Nazca se desenvolveu uma cultura denominada simplesmente nazca, que evoluiu de uma anterior, a paraca. Sua arquitetura é desconhecida, pois só sobreviveram pequenas bases de terraços construídos de barro. [...] O que o tempo nos legou, e a partir do que é possível inferir a existência de uma cultura, são os artísticos trabalhos em barro e as coloridas artes têxteis. [...]

* A serra: a cultura recuay. Na serra setentrional peruana, num local denominado Callejón de Huyalas, encontramos a civilização "subterrânea" de recuay. Ao contrário da mochica e da nazca que utilizavam o barro, a recuay trabalhou a pedra como matéria-prima para suas construções.

Os edifícios são unidos por longas galerias fechadas, entrando e saindo desses corredores por buracos abertos em sua parte superior. [...]

As vasilhames apresentam homens e mulheres sentados com os joelhos sobre a cintura. Nas pedras esculpidas encontramos o jaguar, com o corpo de perfil e o rosto de frente, resquícios da influência chavín. [...]

* Tiahuanaco. Atualmente um pequeno povoado [...] e um conjunto de ruínas situadas no altiplano boliviano [...] ao sul do lago Titicaca, levam o nome de Tihuanaco. [...]

A devastação começou seguramente com a chegada dos incas e continuou com os espanhóis. Tanto o moderno povoado de Tiahuanaco, as obras da estrada de ferro, como os grandes edifícios de La Paz foram construídos com material extraído de Tiahuanaco. [...]


Porta do Sol, Tihuanaco  

Mais que uma cidade ou centro de um império, Tihuanaco, da mesma forma que Chavín de Huantar ou Teotihuacán, foi um centro religioso. [...]
[...]

[A expansão inca] Conta a tradição que oito irmãos, "filhos do sol", saíram de um conjunto de cavernas, existente a 8 léguas da cidade de Cuzco, iniciando uma migração à procura de terras férteis. Depois de longos anos de peregrinação, nos quais os irmãos foram morrendo, chegaram ao vale de Cuzco, onde se instalaram. Nesse caminhar, os dois únicos sobreviventes, Ayac-Manco e sua irmã Mama Oclla, se casaram dando início à dinastia Inca, com o nome de Manco-Capac.

Os oito irmãos representavam as comunidades que foram se estabelecer no vale, e a peregrinação significa a migração dos incas desde o lago Titicaca até a futura capital do Império. Os incas procediam da região Colha, de língua aimará. Uma vez submetida a população local de língua quíchua, Manco-Capac concentrou seus esforços na dominação no vale. Sete Incas o sucederam no cargo.

[...]

Na sua expansão pelos vales vizinhos, os incas enfrentaram a Confederação Chanca, formada pela união de várias comunidades aldeãs, num Estado ainda não suficientemente forte para resistir às tropas [...].

A derrota dos chancas consolidou a tendência expansionista dos incas [...].

[...] No vale do Canhete os incas encontraram forte resistência. Os chichas do vale do Nazca e Ica mantiveram-se em luta durante anos, não hesitando em destruir os canais de irrigação na vã tentativa de barrar o avanço inca. [...]

Cajamarca, no vale do Maranhão, foi a próxima região a ser submetida. Em Cajamarquinha, tropas dos povos agricultores, caçadores e pescadores não foram obstáculos para os incas. [...]

[...]

A característica fundamental desses Estados era sua acentuada urbanização. A cidade de Chanchan era um conjunto de 18 km² de superfície, divididos em 10 bairros separados por altos muros. Os chimus tinham uma cerâmica monocromática e uma arte têxtil desenvolvida, mas era na metalurgia, no trabalho com o ouro, a prata, o cobre e o bronze, que estavam mais adiantados. [...]

Dessa civilização os incas adaptaram o sistema de comunicação feito a pé, de homem para homem situados em pontos preestabelecidos, possibilitando um contato rápido entre a capital e as localidades mais distantes. Também o sistema numérico através de cordas [...] teve sua origem entre os chimus.

[...]

A partir de Cuzco, capital do Império, o território inca estava dividido num sistema mais ideal que real: em duas partes subdivididas em quatro. A parte de cima correspondia a Chinchaysuyu e Antisuyu, e a parte inferior a Cuntisuyu e Collasuyu.

Ao mesmo tempo existia uma hierarquia nas duas metades. [...]

[...]

As comunidades aldeãs, por sua vez, eram governadas por um representante do Estado chamado curaca, que fracionava a população em grupos de 10 ou 50 pessoas, vigiadas por uma espécie de capataz. A missão de todos era a vigilância contínua. Periodicamente partiam de Cuzco delegados imperiais encarregados de fiscalizar os chefes provinciais e locais, numa espécie de "auditoria".

À frente do Estado encontramos o Inca, pessoa divinificada, adorada e reverenciada por todos. Herdeiro de Manco-Capac, ninguém podia olhar seu rosto e os nobres deviam apresentar-se diante dele descalços e com um peso nas costas que os obrigasse a se manterem curvados. O Inca era vestido pelas "virgens do Sol", escolhidas entre as crianças das aldeias que demonstrassem melhores aptidões nas artes têxteis.

Quando o Inca morria, suas propriedades passavam ao poder de seus familiares, encarregados de manter a múmia do soberano. [...]

Integravam a nobreza os familiares dos dirigentes dos onze ayllus reais [...]. Entre eles eram selecionados os membros da alta burocracia estatal e os membros do estado-maior do exército. Existia uma nobreza menor formada pelos funcionários das províncias e autoridades alocadas em funções locais.

Junto ao Inca encontramos o sumo sacerdote, o huillac umu, geralmente irmão do Inca. Os sacerdotes eram escolhidos entre a nobreza e sua função nos rituais sagrados consistia em manter o templo, fazer sacrifícios e se comunicar com os deuses. [...]

Os sacerdotes faziam cálculos, feitiçarias, adivinhações, realizavam sacrifícios, interpretavam sonhos e ensaiavam curas milagrosas. Todo esse aparato servia à transmissão de lendas, histórias, normas e regulamentos, que asseguravam o sistema de dominação aplicado pela burocracia estatal e garantido pelos guerreiros.

[...] Dado o caráter guerreiro do Império Inca, o treinamento da nobreza era rigoroso. Incluía o estudo da história dos povos submetidos, das campanhas dos incas, envolvia geografia, a arte de defesa e do ataque, cercos a cidades, fortificações, diplomacia, espionagem, etc. Exigia o que hoje denominaríamos das artes militares, que nada adiantaram contra os cavalos, as armas de fogo e os cães de guerra dos espanhóis.

A classe-Estado (sacerdotes, guerreiros, funcionários) se mantinha graças ao excedente extraído das comunidades aldeãs. [...]

Os trabalhadores das comunidades aldeãs eram chamados llacta-runa. Ao mesmo tempo que se dedicavam a extrair do solo o sustento necessário para sua auto-subsistência, tinham a obrigação de trabalhar as terras do Sol, do Inca e dos curacas.

O Estado requeria grandes contingentes de mão-de-obra para as construções de centros urbanos, fortalezas, caminhos, pontes, terraços e canais de irrigação bem como para sua manutenção. A mita era um serviço pessoal e periódico feito ao Inca durante um tempo prefixado (durava de dois a três meses) em que o Estado simplesmente os sustentava. [...]

Num degrau inferior da escala social existiam os yanaconas, cuja origem foi a sublevação da cidade de Yanacu, condenados pelo Inca à servidão perpétua, castigo estendido a seus descendentes. [...]

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Os yanas eram utilizados nos mais diversos serviços. Trabalhavam como carregadores, cumpriam funções domésticas, limpavam os templos, etc., mas sua principal tarefa era servir nas terras particulares. [...]

Os artesãos especializados eram outra mão-de-obra que estava sendo separada dos ayllu. Trabalhadores metalúrgicos, tapeceiros, ceramistas, ourives, escultores, etc. eram selecionados por delegados do Inca e remetidos a Cuzco, passando a depender diretamente do Estado. [...]

Uma sociedade que tributava as pessoas e não a produção devia possuir um sofisticado esquema de controle. O Estado inca conhecia a quantidade de homens, mulheres e crianças de cada ayllu, conhecia o número de indivíduos com que podia contar para montar um exército sem afetar a produção, sabia quanta mão-de-obra era necessária para construir uma ponte e onde requisitá-la. Sabia das necessidades em alimento, roupas e armas para sustentar os mitamáes.

O segredo dessa contabilidade sem computadores são os quipos, longos cordões aos quais eram amarrados uma multiplicidade de cordõezinhos, onde se faziam diferentes tipos de nós, como sinais. [...]

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Quem fazia a leitura dos quipos eram os funcionários chamados de quipucamayucs. Qualquer erro na confecção ou na leitura dos quipos era pago com a morte. Uma gigantesca burocracia mandava informações ao poder central, que transmitia suas ordens da mesma forma.

Quipos 

O sistema de dominação imposto pelos incas fazia com que a terra e a água fossem propriedades do Estado, que concedia às comunidades o direito de permanecer e usufruir sua produção. Qualquer revolta significava perder esse direito. [...]

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A região do Titicaca se especializou na criação de rebanhos de lhamas, guanacos, vicunhas e alpacas. [...]

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A batata-doce, o manco (cereal desaparecido), o quinua (legume cujas folhas se utilizam como espinafre), o tomate, a goiaba, a anona (fruto parecido com a maçã), o abacate, o amendoim, etc. eram produtos plantados pelas comunidades aldeãs.

Graças a um século de experiências, os americanos conseguiram produzir setecentas variedades de batata que se adaptaram aos mais diversos climas. [...] A produção da batata, anterior ao milho, desenvolveu-se principalmente nas regiões do altiplano, e o milho nas regiões temperadas.

A batata é um produto típico das comunidades aldeãs auto-suficientes, enquanto o milho é produto das grandes obras públicas levadas adiante pelo Estado.

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PEREGALLI, Enrique. A América que os europeus encontraram. São Paulo: Atual, 2003. p. 49-67.