"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Rituais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rituais. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O sexo das mulheres: a virgindade (Parte 2)

Fantasia, Antônio Parreiras 

O sexo das mulheres deve ser protegido, fechado e possuído. Daí a importância atribuída ao hímen e à virgindade. Principalmente pelo cristianismo, que faz da castidade e do celibato um estado superior. Para os Pais da Igreja, a carne é fraca. O pecado da carne é o mais terrível dos pecados. [...]

A virgindade é um valor supremo para as mulheres e principalmente para as moças. A Virgem Maria, em oposição a Maria Madalena, é seu modelo e protetora. Ela é, ao mesmo tempo, concebida sem pecado (dogma da Imaculada Conceição, Pio IX, em 1854) e concebe sem o homem, "pela intervenção do Espírito Santo". A Virgem, entretanto, é mãe em toda plenitude; ela carrega seu filho no ventre, o alimenta, o segue em suas predicações, o sustenta em sua paixão, o assiste em sua morte: a mãe perfeita, mas somente mãe. A Virgem é rainha e mãe da Igreja medieval, mediadora, protetora. "No século XIII, Deus mudou de sexo", escreve Michelet. As virgens das catedrais e das igrejas transmitem essa presença pacificadora, mas também obsedante, de Maria, rainha dos conventos, patrona das moças.

A fonte, Ingres

Filhas de Maria, elas são sujeitas à pureza. O pudor é o seu ornamento. A virgindade no casamento é seu capital mais precioso. Elas devem se defender da sedução e do estupro, que, entretanto, é praticado por bandos de jovens em busca de iniciação. Moças sozinhas à noite precisam ter cuidado. Não estão mais protegidas do que as mulheres na cidade noturna moderna. O corpo das mulheres está em perigo.

A virgindade das moças pertence aos homens que a cobiçam. Mais mito do que realidade, o direito do senhor feudal de deflorar a mulher do servo não deixa de ser rico de significações. O direito do esposo é mais real, pois se apodera de sua mulher na noite de núpcias, verdadeiro rito de tomada de posse. Ritual que, por muito tempo, era público (a verificação do lençol manchado que sobrevive na África do Norte), tornou-se cada vez mais íntimo. Principalmente a partir dos séculos XVIII e XIX, como o mostra a prática da viagem de núpcias.

PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2013. p. 64-5.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Sexo e casamento na Idade Média (Parte 2)

Casamento de D. João I e Filipa de Lencastre. Chronique de France et d' Angleterre, Jean Wavrin, século XV

Em terceiro lugar, trata-se de união indissolúvel. Ao contrário dos vários tipos de aliança conjugal na Roma antiga, onde a separação do casal podia ocorrer sem maiores formalidades, o casamento cristão em tese só se desfaz com a morte de uma das partes ("não separe o homem o que Deus uniu", Mateus 19, 6). A Igreja medieval aceitava, no entanto, a anulação do casamento quando ele não era fisicamente consumado por incapacidade de um dos cônjuges. Ou quando ele unira pessoas aparentadas (por sangue ou por afinidade, como padrinhos e madrinhas), o que feria o grande tabu do incesto, já presente no Antigo Testamento e que ganharia peso ainda maior na Idade Média. A literatura expressou esse forte sentimento contrário ao incesto, por exemplo, no relato de Filipe de Beaumanoir, por volta de 1230, La manekine, cuja heroína amputa a própria mão para afastar o desejo proibido de seu pai. Um casamento podia ainda ser desfeito por outros motivos (bigamia, traição feminina etc), dependendo da influência da parte interessada nisso.

Em quarto lugar, o casamento é exogâmico. Na tentativa de dificultar o incesto e de estimular a circulação das riquezas, impedindo sua excessiva concentração em poucas famílias, a Igreja determinou que os noivos não tivessem parentesco abaixo do sétimo grau. De fato, na aristocracia o casamento era um importante negócio, que afetava não apenas as pessoas diretamente envolvidas, mas todo o clã. Se a mulher era a herdeira dos bens patrimoniais de sua família, precisava de um marido para administrar o senhorio e ser responsável pelas relações feudo-vassálicas relativas àquela terra. Se ela não era a herdeira principal, ao se casar (geralmente aos 13 ou 14 anos) entrava para a família do marido e levava um dote que era uma antecipação de sua parte na herança. Na burguesia, muitos empreendimentos comerciais ou artesanais eram ampliados por meio de alianças matrimoniais entre duas famílias. No campesinato, um servo que se casava com mulher de outro senhorio devia determinada taxa por tirar mão de obra de seu senhor.

Qualquer que fosse a categoria social das pessoas, desde fins do século XI ou princípios do XII surgiu o ritual eclesiástico do casamento. Ele tornou-se obrigatório apenas no século XVI, com o Concílio de Trento, porém difundia-se cada vez mais desde a Idade Média Central. Seus componentes já então estavam bastante uniformizados. Sob o pórtico da igreja ocorriam os esponsais, uma troca de juramentos assistida pelo padre. Vinha a seguir o período dos banhos (geralmente de 40 dias), isto é, da publicação da intenção de casamento para que se verificassem eventuais impedimentos.

A cerimônia que selava o casamento dava-se no pórtico da igreja, com os noivos quase sempre vestidos de vermelho, coroados de flores, a moça com os cabelos soltos em sinal de virgindade ou com um véu ligeiro. Novamente se trocavam juramentos - prática presente em todos os aspectos da vida social medieval -, seguia-se a bênção do casal e a troca de anéis. Entrava-se depois na igreja para a bênção nupcial e a missa, a que os esposos assistiam cobertos por um mesmo véu. Iam depois até o altar da Virgem, ao qual ofereciam uma vela e onde, em algumas regiões, a noiva fiava por alguns instantes. Tudo era acompanhado por muitos padrinhos e madrinhas, testemunhos indispensáveis para uma época pouco ou nada acostumada ao registro escrito e oficial de atos importantes da vida social.

Saindo da igreja, os recém-casados e seus parentes iam até o cemitério rezar sobre os túmulos dos antepassados, que não podiam ficar excluídos de uma cerimônia central para a solidariedade familiar e o espírito do clã. Finalmente, os novos esposos iam para casa, onde os amigos jogavam sobre eles punhados de trigo, rito propiciatório que deveria estimular a fertilidade material e física do casal. Começava então a festa. No caso dos nobres, ela era suntuosa. mesmo porque o casamento da filha mais velha de um senhor feudal era um dos quatro momentos em que os vassalos deviam ajudá-la financeiramente. No caso dos burgueses, sempre desejosos de imitar o padrão de vida nobiliárquico, a festa também tendia a ser farta, dependendo, é claro, dos recursos das famílias. No caso dos camponeses, toda a aldeia, inclusive o senhor, participava das bodas.

O reconhecimento social de que aquelas duas pessoas formavam um casal e poderiam manter relações sexuais não lhes dava, porém, liberdade total para tanto. Determinados dias da semana (em especial o sagrado domingo) e certos períodos do ano (festas religiosas, sobretudo a Quaresma) estavam interditados ao sexo. Jean Louis Flandrin calculou que na Alta Idade Média cerca de 180 dias por ano eram liturgicamente proibidos para relações sexuais, sem contar os dias de menstruação, gravidez e amamentação, igualmente de abstinência. A transgressão era punida de forma variável conforme os locais e as épocas. mas a média girava em torno de 20 a 40 dias de penitência, jejum alimentar e/ou continência sexual. Ademais, o sexo deveria ser apenas vaginal, visando à procriação, a mulher colocada debaixo do homem e no escuro, para se evitar a visão da nudez. O sexo oral e sodomita, a magia para atrair o desejo de alguém, as práticas anticoncepcionais e abortivas, as relações incestuosas e adúlteras eram pecados duramente castigados: de seis a 15 anos de jejum e de excomunhão, geralmente acompanhados de interdição perpétua de qualquer relação sexual e de casamento.

FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade Média, nascimento do ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2011. p. 128-130.

domingo, 14 de agosto de 2016

O corpo sedento: as bebidas na América pré-colombiana

Festa de beber dos coroados, E. Meyer

Na Europa, as bebidas mais valorizadas foram as fermentadas, consideradas desde a Antiguidade até a época moderna como superiores à água pura, uma vez que esta poderia estar contaminada, e os vinhos ou as cervejas tinham a capacidade de purificá-las, combatendo alguns dos micróbios transmissores de doenças. Além disso, a fermentação sempre foi vista como um processo mágico, um cozimento sem fogo, que produz calor, gases, efervescência, borbulhas. Por isso, certas civilizações, especialmente entre os ameríndios, relacionam-na ao sêmen humano e à formação da própria humanidade, constituindo, assim, o alimento cultural por excelência. [...]

No caso dos indígenas do Brasil, havia diversas substâncias essenciais, entre as quais o tabaco, os rapés alucinógenos (paricá e yopo), as bebidas enteogênicas, como a ayahuasca, mas, antes de tudo, por sua difusão extremamente ampla, os diversos líquidos fermentados (pouquíssimos foram os grupos indígenas amazônicos ou litorâneos que desconheceram-nas, diferentemente dos norte-americanos ou do extremo sul patagônico).

Um grande cientista brasileiro das drogas e bebidas, o pernambucano Oswaldo Gonçalves de Lima, cujo reconhecimento de suas contribuições originais ainda é insuficiente, estudou profundamente todos esses processos de fermentação tanto no Brasil como em outros países, especialmente o México. Escreveu, assim, os trabalhos pioneiros da etnozimologia (estudo das fermentações tradicionais), dando conta das formas antigas e contemporâneas de produção dessas bebidas como resultado da ação de bactérias e leveduras.

No nível mais simples, encontramos os bebedores de seivas de palmeiras, muitas vezes por meio de um buraco diretamente no tronco, em que, em poucas horas, o líquido leitoso e doce fermenta, podendo ser absorvido da própria planta (tal como faziam os guatós, do Pantanal). O mel também servia para essa finalidade, misturado com a cera em água, produzindo um hidromel de fraco teor alcoólico, especialmente utilizado pelos tapuias do sertão, assim como por outros hábeis colhedores de colmeias, como os kaingang do sul.

A fermentação por “salivação e esputo”, ou seja, por mascagem da mandioca, feita em geral por mulheres, é um dos métodos mais conhecidos, mas também se produzem bebidas alcoólicas por meio da fermentação de beijus, como é o caso do pajauaru, especialmente na região do Rio Negro. Nessa técnica, a mandioca é mergulhada por alguns dias na água e lama de um riacho e se torna “puba”, um pouco apodrecida, tornando assim mais fácil a amilase, ou seja, a quebra dos amidos.

Entre os índios brasileiros, o principal fermentado era o cauim. Assim eram chamados nas regiões litorâneas habitadas pelos tupinambás todos os sucos da mandioca e das frutas doces e generosas, como o ananás e o caju, mas também o cacau, a mangaba, a jabuticaba, entre tantas outras. Outro método era de frutas liquefeitas e trituradas com água que fermentavam e precisavam ser rapidamente consumidas antes de se estragar. Fossem fabricadas com mandioca, milho ou frutas, alcançavam um teor alcoólico máximo de 7%, no caso do abacaxi (o mais rico em açúcares), variando de acordo com o teor de açúcares do produto usado, o que é a característica geral de todos os fermentados.

Índios preparando e consumindo o cauim, detalhe da "America" de Jodocus Hondius, ca. 1606


Outros métodos também desenvolvidos, além da insalivação, eram o da fabricação de beijus, que, deixados embolorar, ficavam sacarificados pela ação do mofo e depois, misturados à água, fermentavam, constituindo o caxiri (especialmente nas regiões do Rio Negro, influenciadas pela cultura aruaque), o mucururú, a caiçuma e o pajauaru, ou então a massa da farinha de mandioca ou milho era envolta em folhas de bananeira (a técnica da moqueca ou da pamonha brasileira ou, ainda, da huminta andina) e também deixada embolorar para depois ser transformada em uma bebida fermentada, tal como o masato amazônico.

Essa busca, em todos os produtos da natureza, de matérias-primas transformáveis em bebidas fermentadas, foi uma das características mais amplamente difundida entre os indígenas americanos que, com exceção daqueles dos extremos sul e norte, fabricaram em quase todas as regiões licores alcoólicos, cuja denominação mais geral, além de cauim, foi, a partir das regiões da colonização espanhola, chicha. O mais provável é que o termo seja caribenho, como registrou no século XVI o cronista Gonzalo Fernandez Oviedo. Passou a designar os diversos fermentados americanos, o mais comum sendo o de milho germinado (maltado), mas podendo ser feito também de mandioca, batatas, pinhões, cogumelos e todos os tipos de frutas. Essa propensão a também fazer de todos os produtos comestíveis fontes para a fabricação de bebidas não escapou aos olhos dos primeiros europeus. O próprio Colombo, ao chegar na Ilha de La Hispaniola (atual República Dominicana e Haiti), registrou que “do que fazem pão, fazem vinho”.

No processo de colonização ocorreu uma contaminação dos brancos, africanos e mestiços pelos rituais idolátricos indígenas, em que o consumo sagrado do cauim, do pulque ou da chicha muitas vezes é acompanhado de outras substâncias psicoativas ainda mais fortes, mais desconhecidas e mais inquietantes. Isso tornou-se um pesadelo para as autoridades eclesiásticas, que desencadearam, com seus aparelhos policiais inquisitoriais, inúmeras campanhas de “extirpação de idolatrias” em que o alvo era sempre a embriaguez, especialmente no Peru no século XVII, quando as festas (taquis) e bebidas (chicha) dos índios eram perseguidas como depositárias de antigas tradições sobreviventes que deveriam, para a boa cristianização, ser completamente extintas.

Sempre há embriaguez em seus pecados, diziam dos indígenas as autoridades eclesiásticas. Por isso, buscavam proibir suas festas, rituais e cerimônias em geral e, especialmente, as que eram alimentadas pelo calor dessas poções de ebriedade. A embriaguez indígena passou a ser vista por quase todos os cronistas europeus como a causa principal da idolatria. O padre jesuíta José de Acosta, por exemplo, afirmará, em relação ao Peru, que tal não só é um pecado, como também é a causa principal de todos os outros.

Essa embriaguez descontrolada que atingiu os indígenas americanos, livres dos antigos controles tradicionais, abrangeu ainda os colonizadores europeus, assim como os escravos trazidos da África, que já possuíam o domínio das técnicas da fermentação, produzindo o pombe, cerveja de sorgo, assim como os diversos vinhos da seiva de palmeira, chamados de malafo, mas só tomaram contato com o vinho de uvas e sobretudo com os destilados, a partir do contato com os europeus.

O colapso das grandes civilizações ameríndias se deveu, em grande parte, ao choque biológico com as novas doenças europeias, além da desarticulação dos sistemas sociais existentes. No entanto, contemporâneos dessa que talvez tenha sido a mais grave hecatombe demográfica conhecida (morte de cerca de 90% da população original), buscaram outras explicações para o enorme despovoamento. Generalizada em toda a América pelos colonizadores europeus, uma delas culpava os supostos maus hábitos indígenas por essa catástrofe. No Peru, o padre Lizárraga afirmava que o alcoolismo e a sodomia foram as causas da despovoação das Índias. O demônio teria estabelecido seu império sobre aquela gente e todas as suas crenças e devoções foram identificadas a ele pelos missionários. O próprio conhecimento das plantas inebriantes teria sido transmitido pelo demônio aos povos originários, enquanto as consideradas puramente medicinais teriam outra fonte de saber.

Os usos de bebidas fermentadas e outras drogas foram objeto de grandes discussões teológicas entre vários autores durante o século XVI, com o dominicano Bartolomé de Las Casas defendendo os indígenas e sendo tolerante com suas formas de embriaguez e até com suas “superstições”, enquanto outros teólogos, que predominariam, viam em suas festas, bebedeiras, adivinhações e cultos de lugares, plantas, animais e coisas manifestações demoníacas que deveriam ser extirpadas. [...]

O uso em si das bebidas não era condenado, pois os europeus também o faziam, mas sim a busca deliberada dos “transtornos que afetam a mente”, dos efeitos psicoativos das diversas manifestações e formas das ebriedades, consideradas todas, fossem de bebidas fermentadas, fossem de tabaco, de coca ou de ololiuqui como “borrachez”, sendo assim censuradas como embriaguez no sentido geral de alteração voluntária do estado mental, que era exatamente a marca mais característica das formas de beber indígenas, intensas e extremadas. A perseguição à embriaguez buscada de forma deliberada e sistemática, em rituais de convívio, com significados de devoção e hospitalidade, foi uma das grandes obsessões dos colonizadores das Américas.

No âmbito do mundo luso-brasileiro, João Azevedo Fernandes reuniu boa parte das evidências existentes nas fontes primárias a respeito da perseguição implacável dos colonizadores, especialmente os clérigos, para com os ritos da cauinagem, vistos como a verdadeira religião sem templo dos aborígenes. O antigo “regime etílico” indígena, regrado, ritualizado e servindo de elemento central das culturas nativas, foi praticamente destruído, interditado e substituído pelos derivados da cana-de-açúcar, sobretudo a cachaça.

Henrique Carneiro. O corpo sedento. In: PRIORE, Mary del; AMANTINO, Márcia (Orgs.). História do Corpo no Brasil. São Paulo: UNESP, 2011.

domingo, 10 de novembro de 2013

O escândalo das Bacanais 2: abordagens [um escândalo religioso revelado]

O retumbante escândalo das Bacanais, que foi relatado por Tito Lívio com todos os detalhes, é confirmado no século XVII com a descoberta, na Calábria, de uma placa de bronze com o texto gravado do senátus-consulto, condenando a seita das bacantes em outubro de 186 a.C. É possível dar crédito a esse relato cujos personagens e peripécias se assemelham às intrigas dos melodramas tão apreciados pelos contemporâneos de Tito Lívio? O autor apresenta apenas as peças da acusação, que não procura relativizar. É, portanto, a versão oficial do escândalo que ele nos conta. Apesar de algumas improbabilidades, contudo, o relato de Tito Lívio tem o mérito de ser o único documento literário relativo aos mistérios dionisíacos em Roma.


"Esses charlatães se haviam instalado em Roma, auferindo, do desvio dos espíritos, lucros fáceis [...]"

Triunfo de Baco. Mosaico romano, século II

O affaire das Bacanais revela claramente a propagação em Roma dos movimentos filosófico-místicos a partir do final do século III a.C. Durante os primeiros anos da segunda guerra púnica, os romanos sofreram uma série de derrotas espetaculares que permitem a Aníbal e aos exércitos púnicos ocupar a Campânia. Numerosos italianos do sul da península e da Sicília vão se refugiar em Roma e se misturam com a plebe da cidade. Trazem consigo novos deuses, novas superstições, novas técnicas para conjurar a sorte. Os romanos, desorientados por suas derrotas e temendo que Aníbal se apodere de sua cidade, encontram nessas crenças estrangeiras respostas a suas interrogações sobre o futuro que pode lhes conceder novamente esperança. "Não era mais somente em segredo, escreve Tito Lívio, e dentro das casas que os ritos romanos eram abolidos. Em público, no Fórum, no Capitólio, via-se uma multidão de mulheres não observar nem em seus sacrifícios nem em suas orações aos deuses os costumes de seus pais. Sacrificadores, adivinhos se haviam apoderado de seus espíritos. Seu número aumentou graças à afluência da plebe camponesa expulsa, pela pobreza e pelo medo, de seus campos, que se haviam tornado incultos e perigosos por causa de uma guerra prolongada. Esses charlatães se haviam instalado em Roma, auferindo, do desvio dos espíritos, lucros fáceis e enriqueciam com essas práticas como pelo exercício de um ofício permitido."

Um capricho arquitetônico com uma procissão bacariana, Giovanni Benedetto Castiglioni

As autoridades romanas se inquietam com esses desvios religiosos que ameaçam a ordem. Mandam recolher todos os livros de profecias e as fórmulas de orações para queimá-los em público. Ao mesmo tempo, para restabelecer a confiança nos cultos oficiais, são adotados às pressas novos cultos ou, então, retorna-se aos ritos arcaicos: voto de uma "primavera sagrada" (velha prática do culto a Marte), anseios por santuários dedicados a Mens (deusa da inteligência) e a Vênus Encina (divindade greco-púnica), sacrifícios humanos de um casal de gauleses e de um casal de gregos enterrados vivos, dedicação de jogos a Apolo etc. Essa sequência heteróclita de medidas traduz o embaraço e a impotência das autoridades em dominar a efervescência religiosa dessa época. Além disso, essas intervenções oficiais não podem refrear o sucesso das crenças e dos cultos vindos de outros lugares, importados para Roma mais ou menos clandestinamente. Deuses estrangeiros (o grego Dioniso, o trácio Sabázio) e correntes místicas como o pitagorismo seduzem os romanos que duvidam da eficácia da religião oficial. Todos esses novos movimentos têm como objetivo dirigir-se a cada indivíduo em especial, e não mais à coletividade.

Bacanal, Lovis Corinth

Essas preocupações religiosas se incluem também na luta interna que se origina no seio da nobreza romana perante a expansão do helenismo. Durante a segunda guerra púnica, Aníbal, instalado na região de Cápua, assina tratados com as cidades da Campânia, da Sicília e com o rei da Macedônia. Favoráveis até então aos costumes e aos modos gregos, os romanos veem doravante no helenismo um perigo. Duas correntes antagônicas existem no seio da nobreza. Uns tratam com rigor tudo o que vem da Grécia e pregam o respeito absoluto da tradição nacional. Outros, abertos aos aportes externos, pedem mudança e abertura às influências gregas e orientais. Fabius Maximus Verruscosus, dito Cunctator, durante a segunda guerra púnica, depois Catão, o Velho, no início do século II, reúnem em torno deles os nacionalistas intransigentes opostos a qualquer modificação do mos maiorum (costume dos antepassados) e hostis ao imperialismo romano. Em contrapartida, os filo-helênicos, dentre os quais os mais ativos são os Cipiões e os Emílios, desejam a expansão romana para além das fronteiras da Itália. Muito influentes, no início do século II, levam a guerra contra a Macedônia e, após a vitória de Cinoscéfalos, o filo-helênico Flamínio declara a liberdade da Grécia em 196 a.C. Os conservadores retomam a vantagem a partir de 190 a.C. e não é surpreendente constatar que Catão, o Velho, obtém a censura - a mais alta magistratura romana - no ano que se segue ao escândalo das Bacanais.


Bacantes, Lovis Corinth

O culto de Dioniso é antigo, visto que foi trazido pelos gregos por ocasião da conquista do sul da península no século VII a.C. Depois, tiasos (confrarias mais ou menos secretas consagradas a um deus) se multiplicaram e se difundiram por toda a Itália. O sucesso da seita dionisíaca é garantido pela promessa de imortalidade a seus adeptos. Esses tiasos não conservaram os rituais arcaicos do culto, como as corridas desenfreadas dos bacantes brandindo seus tirsos, dardos encimados por uma pinha, ou o desmembramento com as próprias mãos das vítimas das quais consomem a carne crua. Essas práticas bárbaras não são mais observadas pelos fiéis do deus que se reúnem em pequeno número em santuários onde celebram os ritos de iniciação.

A bacanal, Peter Paul Rubens

Para as bacantes, o menino Zagreus, filho de Zeus e de Semela, foi criado por Hera, que ordena aos Titãs despedaçá-lo e comê-lo. Zeus consegue recuperar pedaços de Zagreus e o regenera, de onde provém o novo nome do deus, Dioniso, "duas vezes nascido". Os fiéis, pela iniciação aos mistérios, podem sair de seu "eu" corporal para se comunicar com o deus numa exaltação mística, o extasis (êxtase), que é obtido pela absorção de vinho e drogas. O futuro iniciado é posto nessas condições pelas danças das mulheres, pelos urros misturados aos sons lancinantes dos tamborins e címbalos. Máquinas de teatro permitem simular as descidas aos Infernos que precedem a descoberta da revelação do deus Baco a seus fiéis e que lhes promete a imortalidade.

A decadência dos romanos, Thomas Couture

Tito Lívio mostra-se pouco preciso sobre as condições de instalação do tiaso de Baco em Roma. Segundo ele, um homem miserável e inculto, "um mesquinho sacerdote grego, um contador de aventuras", vem da Etrúria para fundar uma seita clandestina. Mais adiante, evoca a sacerdotisa campana Pacula Ânia que introduz modificações no ritual. Essas duas origens do tiaso não são incompatíveis. Em 186 a.C., muitos etruscos e habitantes da Campânia se misturaram com a plebe romana. É necessário acrescentar a eles os prisioneiros gregos trazidos para Roma depois da primeira guerra da Macedônia e da expedição na Síria (200-197 a.C.).

O triunfo de Baco, Nicolas Poussin

Tito Lívio faz também uma análise interessante dos "danos" causados pelas cerimônias da casa do Aventino. A vizinhança começa a se queixar do barulho noturno dos adeptos de Dioniso. Na esteira dos comentários, os bacantes são acusados de liberar seus instintos perversos em uniões proibidas. Uma vez que os rumores crescem a respeito, eles são vistos como trapaceiros, falsificadores de testemunhos e de testamentos e, por fim, criminosos que encobrem, pela algazarra de seus gritos e de seus instrumentos de música, os urros de suas vítimas. Não é muito original, pois nisso se vislumbra o arsenal habitual das calúnias que cercam as sociedades secretas.

Dioniso segurando um cântaro. Cerâmica grega.

A rapidez da reação de Postúmio prova que ele já conhece há mais tempo a seita dos bacantes e refletia a respeito dos meios a utilizar para erradicar o culto dionisíaco. É mais que provável que ele faça parte dos conservadores e que tenha se aproveitado da aventura de Ebúcio e de Híspala para pôr, de maneira espetacular, um freio à penetração das crenças estrangeiras em Roma. É provável que o tiaso do Aventino não tivesse mais que uma dezena de fiéis, sem dúvida inofensivos. Ao demonizar os bacantes em seus discursos perante o Senado e o povo, consegue fazer com que todos os romanos aceitem a campanha de depuração desse grupo religioso acusado de tramar contra a ordem da cidade.

Dioniso. Mosaico romano

A repressão é terrível, primeiramente em Roma, depois em toda a Itália. Para evitar serem acusados, muitos denunciam seus parentes e seus vizinhos. Homens e mulheres se suicidam para escapar do castigo, Outros tentam fugir de Roma, mas são detidos pelas patrulhas que vigiam as portas da cidade. Todos os negócios em curso são interrompidos para dar lugar a tribunais de exceção. Mais de 7 mil pessoas, homens e mulheres de todas as condições sociais, são detidas em Roma e seria caso de se questionar quantas delas realmente pertenciam à seita dionisíaca. Aqueles que se contentaram em repetir as fórmulas sagradas são encarcerados, os culpados de libertinagem, de crimes e de trapaças são condenados à pena capital. As mulheres são devolvidas a seus pais ou a seus maridos para que sejam mortas na casa deles em virtude do arcaico direito do páter famílias. Na Itália, a investigação dura mais de cinco anos e se traduz também por milhares de condenações. Um senátus-consulto regulamenta com toda a severidade o culto de Baco para impedir a reconstituição dos tiasos: interdição das reuniões secretas e dos juramentos, limitação da assembleia a cinco pessoas: três mulheres e dois homens.

Mosaico romano: Baco, Arianna, Sileno e Sátiro. Século II d.C.

O escândalo das Bacanais assinala provisoriamente um duro golpe à penetração do helenismo em Roma. Por meio dele, a parte mais conservadora do Senado impôs de maneira sangrenta o retorno aos valores nacionais.

SALLES, Catherine. (Dir.). Larousse das civilizações antigas 3: das Bacanais a Ravena. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 238-239.

sábado, 9 de novembro de 2013

O escândalo das Bacanais 1: o acontecimento

A repressão brutal de que são vítimas as bacantes de Roma traduz as tensões da política romana no início do século II a.C. O ocorrido revela também a importância dos movimentos religiosos estrangeiros que penetram em Roma de maneira clandestina.


Pintura mural da mansão dos Mistérios em Pompeia, século I a.C.

O cônsul Postúmio Albino está realmente embaraçado. Na véspera, um jovem romano de boa família, Ebúcio, veio, sem testemunhas, fazer-lhe revelações surpreendentes. Os propósitos do adolescente são um tanto confusos, mas ele, na verdade, acusa sua mãe e seu sogro de terem querido iniciá-lo nos mistérios de Baco. Ebúcio conta que, quando pôs a par disso sua mulher, a cortesã Híspala, esta logo explodiu em imprecações e denunciou uma maquinação secreta armada contra o jovem. Ela lhe conta que, muito jovem ainda, acompanhou sua ama até o santuário de Baco. No local ela assistiu a toda espécie de infâmias, em particular ao estupro de adolescentes, que são violentados pelos sacerdotes ao som de tamborins e de címbalos. Impressionado com o relato de sua mulher, Ebúcio disse a sua mãe que recusava a iniciação, e seu sogro, exasperado, expulsou-o de casa. O jovem se refugiou na casa de sua tia paterna Ebúcia, que o aconselhou a contar tudo ao cônsul.


Pintura mural da mansão dos Mistérios em Pompeia, século I a.C.

É impossível para Postúmio submeter Ebúcio a um interrogatório, por causa de sua qualidade de cidadão. O cônsul manda de volta o jovem para a casa de sua tia e começa uma investigação discreta junto de sua própria sogra, Sulpícia. Esta garante que Ebúcia é uma pessoa irrepreeensível e, a pedido de seu genro, convida a velha senhora à sua casa. Postúmio chega então de improviso na casa de Sulpícia, depois leva habilmente Ebúcio para a residência. Ebúcia, em lágrimas, logo revela que a mãe e o padrasto de seu sobrinho desviaram a herança deste e que, para evitar prestar contas de tutela, tramaram sua iniciação nos mistérios de Baco.


Pintura mural da mansão dos Mistérios em Pompeia, século I a.C.

A segunda fase da investigação pode começar. Sulpícia desempenha novamente a intermediária e convida Híspala a sua casa. A cortesã fica aterrorizada ao entrar na casa de Sulpícia: o cônsul, cercado de seus colaboradores e de sua guarda de litores, a espera e a intima a informá-lo sobre tudo o que ela sabe sobre as cerimônias dionisíacas. Sabendo dos castigos infligidos aos iniciados que revelarem os ritos secretos dos mistérios, Híspala começa negando tudo. Postúmio a ameaça, trata-a brutalmente, usa de chantagem. A jovem desmorona e revela finalmente tudo o que sabe das bacantes.


Pintura mural da mansão dos Mistérios em Pompeia, século I a.C.

Seu local de reunião é um pequeno santuário construído num bosque sagrado situado aos pés do Aventino, perto do rio Tibre. Durante vários anos, somente as mulheres participaram dos mistérios, três vezes por ano e durante o dia.


Pintura mural da mansão dos Mistérios em Pompeia, século I a.C.

Uma nova sacerdotisa, Pacula Ânia, vinda da Campânia, modificou profundamente os ritos. Iniciando seus dois filhos, ela abre o culto aos homens. Doravante as cerimônias ocorrem à noite, cinco vezes por mês. Ela decidiu também não admitir mais iniciados que tiverem ultrapassado os 20 anos. A partir do momento em que os homens e as mulheres se encontram misturados, os mistérios degeneram em cenas de libertinagem, acobertadas pela noite que permite qualquer tipo de licenciosidade. Muitos homens violentam com toda a impunidade os jovens iniciados. Alguns, agitando-se como possessos, proferem oráculos. As mulheres, vestidas de peles de animais e com os cabelos desgrenhados, correm para o Tibre para nele mergulhar tochas ardentes que saem da água acesas. Nas profundezas do santuário estão máquinas infernais, nas quais são jogados aqueles que não querem fazer juramento ou se entregar à libertinagem.


Pintura mural da mansão dos Mistérios em Pompeia, século I a.C.

Vários pontos da declaração da Híspala são particularmente inquietantes. Ela afirmou que "não considerar nenhum ato como sacrilégio é nesse meio o ápice da perfeição religiosa". Ora, essa atitude é oposta à religião tradicional de Roma que se baseia numa série de proibições. Híspala revelou também que as bacantes "formam um segundo povo de Roma", pelo número e pela composição social: há homens e mulheres, crianças e anciãos, nobres e escravos. Enfim, escolhendo iniciados extremamente jovens, os bacantes amolecem e pervertem os jovens, futuros soldados romanos.


Pintura mural da mansão dos Mistérios em Pompeia, século I a.C.

Postúmio possui os elementos que permitem tornar público o escândalo. Põe em segurança seus dois informantes, depois se dirige ao Senado para revelar o perigo que ameaça Roma. Os senadores decidem pela abertura de um inquérito extraordinário em Roma e na Itália. Os dois cônsules mandam a polícia esquadrinhar a cidade, arrombando todas as portas fechadas. Os sacerdotes dionisíacos são detidos, as reuniões são proibidas. O escândalo das Bacanais, que precisamente mal inicia, vai desencadear uma campanha de repressão com uma violência desconhecida até então.

Próximo post: O escândalo das Bacanais 2: abordagens

SALLES, Catherine. (Dir.) Larousse das civiizações antigas 3: das Bacanais a Ravena. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 234-235.

sábado, 30 de março de 2013

O passado amoroso decomposto 1: da Mesopotâmia ao Renascimento

O jardim do amor, Loyset Liedet

A herança vem de longa data. Amores gravados em pequenas tábuas de argila datadas de 1750 anos antes de Cristo, atestam, no distante passado, as manifestações de amantes apaixonados ou enciumados. Aí se canta a fidelidade ou se leem declarações escancaradas como "tenho sede do teu amor", "você é a única". Mais de um milênio depois, Cântico dos cânticos revela palavras que transpiram amor e erotismo: "Beija-me na boca, tuas carícias são melhor do que vinho...". Isso em plena Bíblia, em uma reunião de textos profanos em que Deus sequer é mencionado.

Mas é no coração da Idade Média que encontramos sinais das mudanças que nos interessam. No fim do século XI, trovadores introduzem novas relações entre homens e mulheres. Para melhor visualizar a cena, pense o leitor em uma daquelas iluminuras medievais: em vergéis floridos, casais de enamorados são retratados com delicadeza. Elas com grandes coifas e cintura marcada por vestidos elegantes que desnudam, levemente, colo e ombros. Eles, trajados com curtas capas acinturadas de largas pregas e calças colantes que sublinham a estrutura musculosa do corpo. A linguagem dos olhares e das mãos diz tudo: o jardim é o lugar de passeios galantes que avivam a espera e retardam os carinhos. O amor puro é aí cantado em versos. Versos que celebram a continência sexual conservando, contudo, uma coloração carnal que agrada à aristocracia. Nessa época, a aventura do amor cortês erigiu como tema a exaltação carnal e espiritual nas relações amorosas entre homens e mulheres. Exaltação mais idealizada do que prática, mais descrita do que vivenciada. Emprestada de sociedades vizinhas, notadamente a árabe, tal aventura fervilha de imagens sobre a submissão do amante à sua dama, valorizando, ao mesmo tempo, qualidades viris, como a coragem, a lealdade e a generosidade, encarnadas no cavaleiro. Associada aos ideais da cavalaria, a erótica trovadoresca prometia aos que servissem na corte a alegria de serem distinguidos com um amor nobre e desinteressado. Era o amor cortês e dele deriva a palavra cortesia.

Porta-vozes dessa cortesia, os trovadores escrevem poesias e as colocam em música. Cada um escolhe a esposa de um senhor a quem consagra seus versos. A dama era posta em um pedestal, enquanto o homem se esforçava por ganhar seus favores. Tratava-se de uma situação nova, pois, até então, um homem que dirigisse a uma mulher casada uma canção de amor era punido com a morte. Na canção, todavia, a dama não era mais o objeto de que podia dispor à vontade, seu senhor e mestre. Era preciso merecê-la. Invertem-se os papéis. O homem vê-se menos conquistador do que conquistado. E a mulher, menos presa do que recompensa. O amor, por sua vez, é tão mais ardente quanto impossível.

O sentimento amoroso, essência de todas as virtudes, reproduzia as condições sociais então existentes. Ele traduzia um "serviço" de tipo feudal, mas, também uma série de provas que consistiam em um método de purificação do desejo. Para manifestar o valor de seu amor e merecer a eleita, o cavaleiro, deitado no mesmo leito que sua dama, separado dela por uma espada ou uma ovelha, símbolo da pureza, observava a estrita castidade. Todos os esforços de conquista terminavam, quando muito, em um casto beijo. Na intimidade amorosa, assim como em sociedade, o perfeito amante não era mais do que o fiel servidor de sua dama. Seus deveres consistiam em lhe satisfazer as vontades, em lhe agradar, em não amar mais ninguém, em ser discreto. Longe de ser mórbida por impor aos amantes a graça de contemplar o corpo nu da dama ou o asag, em que tudo era permitido menos o ato sexual: a ética dos trovadores foi um fenômeno estritamente moralizador e incrivelmente regrado. Em matéria amorosa foi a grande invenção do século XII. [...]

[...]

O momento em que a poesia trovadoresca se expande é, também, aquele em que o Concílio de Latrão, reunido em 1215 pelo papa Inocêncio III, elabora a legislação do matrimônio, alçado a sacramento em 1439, em outro Concílio: o de Florença. Desde o século VIII a Igreja bate-se em favor da monogamia. Sim, pois os reis francos eram polígamos e a poligamia era um meio de exibir riqueza, poder e alianças políticas. [...] A reforma gregoriana no século XI define, portanto, que os casados devem respeitar a monogamia e os clérigos, se manter celibatários. Uns quanto os outros nunca foram totalmente fiéis às exigências da Igreja. Concubinas e amantes, como sabemos, existiram. Mas a poligamia desapareceu.

Tais decisões atingiram, de uma maneira ou de outra, as normas comunitárias que, de alto a baixo da escala social, regulavam as uniões conjugais no Ocidente cristão. Variando regionalmente, segundo tradições e culturas dos povos europeus, os ritos matrimoniais espelhavam sempre uma aliança que atendia, antes de tudo, a interesses ligados à transmissão do patrimônio, à distribuição de poder, à conservação de linhagens e ao reforço de solidariedades de grupos. [...]

Mais importante do que as uniões abençoadas, eram as "promessas de casamento", feitas pelo homem à família da noiva - os chamados esponsais ou desponsórios. Comemorados com grandes festas e troca de presentes, autorizavam, aos olhos da comunidade, a coabitação dos futuros cônjuges. A intervenção eclesiástica nesse processo tornou-se crescente a partir do século XIII, mas adaptou-se, em geral, aos costumes de cada lugar.

Assim, em meados do século XVI, já existiam, do lado católico, dois objetivos a propósito do casamento: reafirmá-lo como sacramento, pois protestantes como Lutero o julgavam apenas uma "necessidade física". E convertê-lo em instituição básica da vida dos fiéis, eliminando os ritos tradicionais e substituindo-os por uma cerimônia oficial e, aí, com padre e altar.

[...]

Ao longo da Idade Média, enquanto trovadores cantavam amores impossíveis, os teólogos repetiam o aforismo de São Jerônimo: "Adúltero é também o marido muito ardente por sua mulher". Mas por que maridos não podiam amar apaixonadamente suas esposas? Porque para a antiga moral cristã, inspirada no estoicismo, a sexualidade nos fora dada exclusivamente para procriar. Era perverter a obra divina, servir-se dela por outras razões. Santo Agostinho, no século V, resumia o casamento à procriação e ao cuidado com os filhos. O prazer puro e simples era "concupiscência da carne", esterilidade que submetia a razão aos sentidos. E pior: na sua opinião, a força do desejo não viria de Deus, mas de Satanás.

[...]

Durante a Idade Moderna, outra definitiva transformação acrescentou-se a essa tendência. Com o surgimento de um contrato que passou a exigir a presença de um padre e de testemunhas, a obrigatoriedade da promessa dos esposos, mais a presença do dote, das mãos sobrepostas, do anel e do princípio de indissolubilidade, as fronteiras entre as exigências do sacramento e as outras formas de convívio afetivo foram ficando cada vez maiores. Criou-se uma dicotomia. Por um lado, um sentimento regido por normas mais organizadas, além de critérios práticos de escolha do cônjuge: o chamado "bem-querer amistoso". De outro, o sentimento ditado por razões subjetivas, por vezes, inexplicáveis. Ou seja, lentamente construía-se um tipo de amor no casamento e, outro, fora. 

[...]

Nos textos do apóstolo Paulo, o amor fora do casamento, a fornicatio, a immunditia é implacavelmente condenada. A principal razão do matrimônio era a de responder ao desejo físico dos esposos por uma obrigação recíproca.  [...]

[...]

Se os padres da Igreja retomaram, por sua conta, as justificativas estoicas do casamento, São Paulo, por sua vez, mostrava ter reservas a esse respeito. O problema não parece lhe interessar. Ele o trata, de passagem, a propósito da mulher. Embora se salve pela maternidade, é ela que introduz o pecado no mundo - e não o homem. A fecundidade e a capacidade de procriar é tomada em conta como uma compensação para a inferioridade do sexo feminino. Malgrado sua preferência pela virgindade, São Paulo admite sem reserva o casamento e a união perfeita entre homem e mulher. [...]

[...]

Grande ausente dos registros cotidianos, o sentimento, todavia, multiplica-se nos registros literários. E desde a Idade Média, pois se situa, comumente, o nascimento da imagem do amor-paixão [...] na civilização cortesã do século XII. Suas características seriam feitas de valores hostis ao casamento. Valores esses que fragilizavam a fidelidade conjugal. Sim, porque o amor cortês proibia terminantemente que se fizesse amor sem amor. [...] A exaltação amorosa, exaltação alheia a leis e regras, feita de devoção ao amado ideal, conduziu a aristocracia do início do Renascimento a valorizar, teórica e literariamente, a dama. Ou seja, a mesma mulher que era subserviente na vida real, condenada por São Paulo a obedecer. Próximo, às vezes, de um erotismo ao mesmo tempo erudito e interiorizado, seu conteúdo se alimenta a partir do século XVI de certa filosofia então muito na moda: o neoplatonismo. [...]

Ao chegar a Idade Moderna, três mudanças fundamentais têm lugar na sociedade ocidental: o Estado centraliza-se e seus tentáculos começam a invadir áreas em que ele nunca, antes, penetrara. Até mesmo a vida privada. Entre alguns exemplos dessa interferência poderíamos destacar o estímulo à oficialização dos casamentos e a perseguição aos celibatários; o reforço à autoridade dos maridos, que passam a exercer uma espécie de monarquia doméstica; a incapacidade jurídica das esposas, a quem não era consentido realizar nenhum ato sem autorização de seus maridos; e quanto aos filhos, estes não podiam casar sem autorização dos pais.

Uma segunda mudança: as Reformas Protestante e Católica, além de incentivar novas formas de devoção e piedade, tornaram suas igrejas mais vigilantes sobre a moral de seus fiéis. Entre os católicos, a Inquisição perseguia, além de heresias, crimes "sexuais", como a sodomia, o homossexualismo e as posições de coito julgadas pecaminosas. E, por fim, a divulgação da leitura e do livro tornou os indivíduos mais aptos a desembaraçar-se de velhas amarras. Mas a literatura, também, os deixou mais sujeitos a alimentar representações comuns e compartilhadas sobre temas como o amor e seu antagonista, a paixão.

[...]

PRIORE, Mary Del. História do amor no Brasil. São Paulo: Contexto, 2012. p. 69-78.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Cultura afro-brasileira

Dança de negros, Zacharias Wagener

Texto 1: Calundu

No Brasil dos séculos XVII e XVIII, calundu representava a prática de curandeirismo e uso de ervas com a ajuda dos métodos de adivinhação e possessão. O termo calundu era associado à palavra "quibundo", de origem quimbundo (língua banto), que designa a possessão de uma pessoa por um espírito. As pessoas que praticavam o calundu eram conhecidas como curandeiras. Possuíam grande influência sobre a comunidade, pois eram consideradas importantes líderes religiosos. Por isso, eram sempre perseguidos pelas autoridades locais. Na cidade de São Paulo, por exemplo, algumas africanas curandeiras eram famosas, como Maria D'Aruanda e Mãe Conga, procuradas por serem "desinquietadoras de escravos".

Os curandeiros detinham o conhecimento de certas "técnicas medicinais". Na realidade, elas eram uma mistura de costumes africanos, portugueses e indígenas, que consistiam, basicamente, no uso de ervas, frutos e produtos naturais fáceis de encontrar. Com isso, os curandeiros atendiam a doentes de todas as camadas sociais, sobretudo os escravos, que possuíam poucos recursos. Além de produtos naturais, também sabiam manipular substâncias químicas, como venenos, sendo procuradas pelos escravos maltratados desejosos por matar os seus proprietários ou apenas por deixá-los mais tranquilos. Nesse caso, era-lhes dado algum calmante, que os tornavam inofensivos, parecendo estar sob efeito de encanto ou feitiço. Por isso, os curandeiros eram conhecidos como feiticeiros ou bruxos.

Esses indivíduos, na sua maioria africanos, eram considerados verdadeiros líderes, na medida em que conseguiam amenizar as agruras causadas pelo sistema escravista ao "amansar" ou até mesmo matar os senhores mais cruéis, curar as doenças dos cativos, prever-lhes um futuro melhor e, enfim, propiciar apoio e solidariedade aos seus companheiros. Dessa forma, eram perseguidos e controlados pelas autoridades locais.

Por conta de suas características, pode-se afirmar que a prática do calundu ou do curandeirismo recebeu influências das tradições da África Centro-Ocidental, nas quais, além dos ancestrais, outros indivíduos são dotados de caráter sagrado. É o caso dos reis, chefes, pais e os ligados à religião, como aqueles que praticam a adivinhação e o curandeirismo.

Nessas sociedades centro-ocidentais africanas, os valores positivos, como a saúde, a harmonia, a fecundidade e a riqueza eram considerados importantes. Tudo aquilo que era contrário, isto é, a doença, a inferioridade e a escravidão, resultava de feitiçarias provocadas por pessoas mal-intencionadas, por espíritos malévolos ou esquecidos pela comunidade. Para conseguir se livrar dos aspectos negativos e retomar a harmonia, era necessário, em primeiro lugar, descobrir a causa dos infortúnios. Por ser oculta, a causa só seria descoberta pelo curandeiro, que, dotado de um poder especial, se comunicava com os ancestrais, que a revelavam. Em segundo lugar, era preciso realizar cerimônias com danças, músicas e rituais de possessão, bem como utilizar símbolos, como os objetos sagrados e mágicos em homenagem aos ancestrais.

Para muitos africanos que estavam no Brasil, o calundu ou curandeirismo, além de ser uma oportunidade de expressar suas visões de mundo e crenças religiosas, era uma forma de luta e de resistência ao sistema escravista, uma tentativa de retomarem o que consideravam importante e que haviam perdido com a escravidão e a diáspora.

No conjunto de crenças africanas sobre o universo, em especial na região Centro-Ocidental, era (e ainda é até hoje) atribuída uma grande importância aos espíritos dos ancestrais, pois são considerados os seres intermediários entre o homem e o Ser Supremo, criador de todo o universo. Para tanto, os ancestrais são dotados de muita energia, chamada de energia vital, adquirida e acumulada durante a sua existência na Terra. Os ancestrais foram grandes homens, que tiveram uma existência repleta de ações dignas e realizações importantes. Deixaram, assim, uma lição, uma herança a ser seguida pelos seus descendentes.

Por isso, para se conseguir os valores positivos e levar uma vida com harmonia, não se poderia deixar de cultuar os seus ancestrais mortos, agradando-os com oferendas, sobretudo, aqueles que deram origem às comunidades. Ainda mais quando se acreditava que, com a morte, a energia vital poderia se dissipar. E, para que isso não ocorresse, era necessário realizar oferendas, preces e rituais fúnebres, objetivando a manutenção da energia vital mesmo depois da morte.

As oferendas e homenagens aos ancestrais eram oferecidas em lugares sagrados, em geral, no meio da natureza, debaixo de árvores, num bosque, em rios, ou mesmo em suas tumbas, nos cemitérios e altares construídos nas aldeias e nas encruzilhadas. Era muito comum oferecer alimentos e bebidas.

Além de serem cultuados e reverenciados, os mortos tinham que receber um enterro digno. Como verdadeiro rito de passagem, no qual acontece a separação física do mundo profano e a chegada do morto ao mundo sagrado dos ancestrais, os enterros deveriam ser realizados conforme as tradições, com velório, preparação do morto, sepultamento e luto.

MATTOS, Regiane Augusto de. História e cultura afro-brasileira. São Paulo: Contexto, 2008. p. 156-159.

Texto 2: Ilê Aiyê

Mulheres africanas, Surama Caggiano


Se me perguntares de que origem 
eu sou
Eu sou de origem africana
Com muito orgulho, eu sou [...]

Pisando firme no chão, cantando alto, valorizando suas raízes, o bloco Ilê Aiyê enche de alegria as ruas de Salvador, na Bahia. E mostra o quanto o Brasil é preto. Mesmo tendo sido abafada durante quatro séculos, a cultura negra espalha-se pelo país. E explode com força nos terreiros religiosos, nas rodas de samba, nos afoxés baianos, como o Filhos de Gandhi e o Badauê, no sonho de Buziga, compositor do Ilê Aiyê:

O que será do Ilê Aiyê
Será integração negras raízes
Pisando firme no chão
Até que um dia haverá de alguém
Compreensão, meu povo
Nós somos todos irmãos [...]

Em diversas cidades, inúmeros grupos negros buscam afirmar o valor de sua gente e denunciar as injustiças que vieram da escravidão. Eles continuam a luta de Zumbi, Isidoro, Chico Dragão do Mar, Tonho Paciência, Nico Mulungu, João Cândido e muitos outros. [...]

Dom José Maria Pires, negro, arcebispo da Igreja Católica de João Pessoa, na Paraíba, resume num sermão os novos tempos:

- Pretos, meus irmãos! Como nossos antepassados, viemos de vários lugares. Diferentes deles, trazemos na pele colorações variadas. Na alma, crenças diferentes. Mas neles e em nós estão presentes as marcas da negritude. Somos negros e não nos envergonhamos, não queremos mais nos envergonhar de sê-lo!

ALENCAR, Chico et alli. Brasil vivo 2: a República. Petrópolis: Vozes, 1991. p. 255.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Tempo histórico, tradição e mentalidade

"A persistência da memória", Salvador Dali

"O que é, então o tempo? Enquanto não me perguntam, eu sei; se me perguntam e quero explicar, não sei".
(Santo Agostinho, século V)

Os primeiros povos marcavam o tempo seguindo os ciclos naturais como a alternância entre o dia e a noite, as diferentes fases da lua, o movimento das águas (rios e mares), a posição dos astros e das estrelas no céu e a posição do sol. A observação contínua fez com que eles começassem a marcar as horas, os dias e as melhores épocas para a semeadura, a colheita e para as orações etc. Apesar das diferenças entre os diversos calendários do ocidente e do oriente, a maior parte dos povos considerou os ciclos dos astros para determinar e medir o tempo.

Ao longo da história, o ser humano encontrou diferentes maneiras de registrar e medir o tempo, dando origem aos calendários. Os calendários são convenções, ou seja, as sociedades em diferentes épocas utilizaram critérios próprios para marcar o tempo, o dia, o mês e o ano.

[...]

Os cristãos datam a história da humanidade de acordo com o nascimento de Cristo, ou seja, o ano de 2011 representa o número de anos que se passaram desde o nascimento de Jesus. No mundo ocidental, quando se estuda algum fato histórico, é comum utilizar as siglas a.C. e d.C., que significam respectivamente antes de Cristo e depois de Cristo.

Os árabes datam a história do seu povo a partir da Hégira, o marco da fuga do profeta Maomé, criador do islamismo, da cidade árabe de Meca para Medina [...], no ano de 622 d.C.

Já os judeus datam a história a partir da Criação descrita na Bíblia, que teria ocorrido numa data equivalente a 7 de outubro de 3760 a.C., ao pôr-do-sol. É por isso que, no calendário judaico, os dias começam ao anoitecer. [...]

[...]

A datação dos fatos da história humana permite ao historiador organizá-los em ordem cronológica. Muitos desses acontecimentos recebem uma atenção especial dos historiadores por entenderem que são marcos na história de um povo, ou seja, assinalam importantes mudanças na vida daquela sociedade. O tempo que transcorre entre um marco e outro, que sinalizam o fim ou o ciclo de um novo modo de vida, é chamado de período. Chamamos de era o tempo que é contado depois de algum marco considerado memorável. Por exemplo, no Ocidente vivemos na era cristã, que tem como marco fundamental o nascimento de Jesus Cristo.

[...]

[...] Porém, o tempo é muito mais do que as horas marcadas por um relógio, ou os dias de um calendário, ou os anos de um século; é também tradição, mentalidade e ritmo.

Na sociedade ocidental, por exemplo, há vários rituais como o Carnaval e a Páscoa (judaica e cristã), entre inúmeros outros, que são celebrados hoje em dia e têm centenas de anos de existência. A esses rituais damos o nome de tradição, ou seja, uma reminiscência do passado que chegou até nós pela transmissão cultural dos mais velhos, pelas crenças religiosas, pelos ideais de um grupo, entre outros. A tradição é a memória viva de um evento passado que, por sua importância na vida das pessoas, é perpetuado de geração em geração. É um costume, uma recordação que não pode ser esquecida.

Não só a tradição marca o tempo passado, as gerações também o marcam. Em qualquer sociedade, há uma gradação populacional que vai dos recém-nascidos aos mais velhos, formando as gerações. Cada geração possui a sua própria mentalidade, ou seja, o seu modo de ver e dar significado à vida. Por isso, numa sociedade, assim como em uma família, podemos ter um confronto entre mentalidades ou conflito de gerações. Da mesma forma, podemos ter sobrevivências, na nossa época, de hábitos e ritmos que pertencem a uma outra época e modo de vida, ou seja, em uma mesma época podem coexistir diferentes tempos históricos. Por exemplo, muitos dos pescadores jangadeiros do Nordeste do Brasil usam técnicas de pesca da época colonial e mantêm praticamente o mesmo ritmo e horários de trabalho daquele período, embora incorporados ao mercado capitalista.

MOTA, Myriam Becho; BRAICK, Patrícia Ramos. História: das cavernas ao terceiro milênio. São Paulo: Moderna, 2007. p.11-13.