"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 9 de junho de 2017

Civilização IX

A Última Ceia.
Leonardo da Vinci

É difícil apreciar retrospectivamente a fé incondicional que, no imediato pós-guerra, a maioria das pessoas depositava nos pilares da sociedade e palpável sentimento de choque pessoal e coletivo à medida que, uma após outra, as instituições eram desmascaradas como hipócritas, egoístas e corruptas. [...] 

[...]

Enquanto a geração do pós-guerra se nauseava com a visão da velha ordem tentando calar o mundo, a anterior com certeza se consternava com as traquinagens de seus filhos - o desdém pelas lutas dos mais velhos, a alegre profanação de seus ícones e a suposição fácil de que a riqueza caía do céu. Um dos objetos cênicos mais importantes da peça What the Butler Saw, de Joe Orton, que lotou os teatros londrinos em 1969, era um jarro contendo o pênis conservado de Winston Churchill. Tal iconoclasmo se estendia a tudo que fosse antigo e venerável em se tratando de arte, cultura, educação, edifícios públicos, políticos, generais etc. Era como se os pecados do passado fossem tão grandes que só a faxina em regra e a fumigação da sociedade pudessem redimi-los. Era preciso jogar tudo fora para fazer outra vez.

Essa revolução social coincidiu com o súbito aumento da riqueza, particularmente na Europa Ocidental (os Estados Unidos haviam experimentado esse efeito na década de 1950). O desdém pela autoridade e o desejo de gratificação instantânea foram acicatados pela imensa quantidade de coisas novas e baratas subitamente disponíveis a todos - discos, automóveis, roupas, rádios transistores, máquinas fotográficas, telefones, revistas coloridas, jornais e, acima de tudo, a televisão.

A tecnologia dos anos 1960 não apenas proporcionou um conjunto de experiências melhor, mais colorido e mais interessante, como foi também um meio de evasão de uma sociedade comunal, harmônica e colaborativa. A família já não precisava se reunir à noite, ao redor da lareira, para "criar a sua própria diversão" [...] Com o aquecimento central e as vitrolas e rádios portáteis, cada cômodo da casa podia agora ser usado como um centro de entretenimento privado. De gélidos dormitórios em que só se entrava quando já era noite, os quartos dos adolescentes foram transformados em cálidos refúgios repletos de dispositivos de música, fotografia e emoções provenientes do mundo inteiro. A comunhão familiar foi trocada pela busca da gratificação individual e das novidades da experiência coletiva a distância. Mais tecnologia gerava mais produção e maior poder de compra, tornando as coisas cada vez mais baratas e acessíveis.

Em meados da década, o ardente desejo de ganhar e gastar dinheiro começou a arrefecer na mente de uma parte da juventude recém-liberada. A contracultura gerada em oposição à Guerra do Vietnã começou a virar as costas ao consumismo e ao individualismo e a buscar um novo tipo de comunhão e espiritualidade. [...] a contracultura não tinha muita chance contra os batalhões do mundo comercial e as alegrias mais imediatas de comprar e possuir. O apelo do movimento hippie por uma nova espiritualidade em face do consumismo desenfreado caiu em ouvidos moucos. Nós escolhemos comprar e é o que temos feito desde então. [...]

Essa combinação de consumismo, prosperidade material e desconfiança na autoridade estabelecida nos trouxe uma relação problemática com o nosso passado. É como se tivéssemos ganhado de presente as chaves da caixa-forte junto com o conhecimento de onde proveio o butim. Queremos desfrutar a nossa riqueza, mas também saber como foi construído o nosso mundo - e nos perturbamos com as respostas. Relatos da exploração assassina do restante da humanidade, do esmagamento de outras culturas, do genocídio de nativos por cobiça de suas terras - tudo isso foi absorvido por uma geração cuja desconfiança da ordem estabelecida a preparou para o pior. E o processo continua, inalterável. O genocídio dos quebecois nativos, o financiamento da revolução industrial por meio do tráfico de escravos, a tortura dos prisioneiros argelinos pelo exército francês, os maus-tratos de iraquianos na prisão de Abu Gharib - a cada semana uma nova revelação se soma ao que já sabemos, confirmando as nossas piores suspeitas. [...] Nosso passado guarda histórias individuais de bondade e salvação que, no entanto, só servem para reforçar o vazio moral do mundo em que essas histórias se passam. Na verdade, todo ato heroico engendra a suspeita de motivações ocultas [...] 

Mas o que mais influenciou, talvez, a mudança da nossa ideia de civilização foi a crescente desilusão com a mais poderosa de todas as crenças ocidentais - a ideia de progresso. Nos últimos sessenta anos, os países do Ocidente estiveram em paz uns com os outros e seus cidadãos se tornaram cada vez mais prósperos. Os desenvolvimentos científicos e tecnológicos proporcionaram facilidades de comunicação, comodidades diversas e a expectativa de uma vida mias longa e livre de doenças debilitantes. A legislação incentivou e refletiu uma crescente tolerância para com a diversidade de raças, gêneros e modos de vida. Mas, ao mesmo tempo que essas conveniências tornaram a nossa vida tecnicamente mais confortável, começamos também a entender melhor a natureza ilusória dos nossos ganhos. A degradação do ambiente natural, a destruição da família e das redes comunitárias, o surgimento de novas doenças, como a Aids, a obesidade e as doenças mentais cada vez mais disseminadas entre os jovens, o aumento persistente da drogadicção, a crescente disparidade entre ricos e pobres no Ocidente e entre o Ocidente e o resto do mundo, as incertezas da economia globalizada, tudo isso são claros alertas de que o termo progresso deve ser bastante relativizado. Certos aspectos da prosperidade econômica afetam de maneira ainda mais insidiosa a nossa vida cotidiana. Nas últimas décadas, a economia e a gestão de negócios têm sido aplicadas a todas as áreas da vida. Os governos, as escolas, as universidades, a política habitacional e os hospitais não são os únicos a se sujeitar a uma espécie de tecnogestão [...]; nós mesmos somos continuamente exortados a pensar em nossas vidas como um investimento a longo prazo. Devemos empenhar dinheiro e esforços em nossa educação para ganhar cada vez mais no futuro (e contribuir para a economia nacional) e trabalhar sem nunca perder de vista a necessidade de poupar para a velhice. Foram necessárias décadas de prosperidade econômica para que percebêssemos os custos da sua eficiência. Hoje, o que vislumbramos para os nossos filhos é uma vida inteira de trabalho incessante sem as compensações da vida comunitária e da relação com o mundo natural que pudemos, em nosso tempo, desfrutar. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 23-7.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

As transformações da intimidade no Brasil

Messalina, Henrique Bernardellli

Entre os anos 60 e 70 eclodiu o fruto tão lentamente amadurecido: a chamada “revolução sexual”. A liberação significou a busca da realização no plano pessoal e a consciência de que “problemas sexuais” não teriam lugar num mundo “normal”. Ao defender a ideia do “direito ao prazer”, os pais da época fabricaram um tipo de sofrimento: o que nascia da ausência do prazer. Ao mesmo tempo, tinha início a democratização da beleza – graças à multiplicação de produtos, academias de body building, consultórios de cirurgia plástica, etc. -, fato que tanto levou à busca do bem-estar quanto às tensões e frustrações por não encontrar. Junto, mas, lentamente, forjava-se a intolerância à doença, à fragilização dos corpos e ao envelhecimento. Sexualidade em dia e saúde davam-se as mãos. O “direito ao prazer” tornou-se norma. E norma cada vez mais interiorizada. Apenas conformando-se a essa regra seria possível sentir-se feliz, alegre e saudável.

Nessa história, um novo ato abriu-se com o desembarque da pílula anticoncepcional no Brasil. Livres da sífilis e ainda longe da aids , os jovens podiam experimentar de tudo. O rock and roll, feito sobre e para adolescentes, introduzia a agenda dos tempos: férias, escola, carros, velocidade e, o mais importante, amor! A batida pesada, a sonoridade e as letras indicavam a rebeldia frente aos valores e à autoridade do mundo adulto. Um desejo sem limite de experimentar a vida hippie e os cabelos compridos se estabeleciam entre nós. As músicas dos Stones e Bob Dylan exportavam, mundo afora, a ideia de paz, sexo livre e drogas como libertação da mente. Os países protestantes – EUA, Inglaterra e Holanda – consolidavam uma desenvoltura erótica, antes desconhecida. Tudo isso junto não causou exatamente um milagres, mas, somado a outras transformações econômicas e políticas, ajudou a empurrar barreiras.

Nas capitais e nos meios estudantis, os jovens escapavam das malhas apertadas das redes familiares. Encontros multiplicavam-se em torno de festas, festivais de música, atividades esportivas, escolas e universidades, cinemas. Os palavrões, antes proibidos, invadiram a cena, inclusive dos teatros. E o alastramento de boates e clubes noturnos deixava moças e rapazes cada vez mais soltos. Saber dançar tornou-se o passaporte para o amor. “Pode vir quente que eu estou fervendo”, na voz do “Tremendão” Erasmo Carlos e “Gostosa”, na das Frenéticas (“sei que eu sou bonita e gostosa...”), representavam tentativas de adaptação a um mundo novo e esforçadamente rebelde. [...]

Por influência dos meios de comunicação e, sobretudo, da televisão, também o vocabulário passou a evitar eufemismos. Embora nos anos 60 ainda se utilizasse uma linguagem neutra e distante para falar de sexo – mencionavam-se, entre dentes, “relações” e “genitais” -, devagarinho se caminhou para “coito”, “orgasmo” e companhia. Os adolescentes ainda eram “poupados” pelos adultos de informações mais diretas.

As relações no cotidiano dos casais começaram a mudar. Carícias se generalizavam e o beijo mais profundo – o beijo de língua ou french Kiss -, antes escandaloso e mesmo considerado um atentado ao pudor, passava a ser sinônimo de paixão. Na cama, novidades. A sexualidade bucal, graças aos avanços da higiene íntima, se estendeu a outras partes do corpo. As preliminares ficaram mais longas. A limpeza do corpo e o hedonismo alimentavam carinhos antes inexistentes. Todo corpo a corpo amoroso tornava-se possível. No quarto, a maior parte das pessoas ficava nua. Mas no escuro. Amar ainda não era se abandonar. É bom não esquecer que os adultos dos anos 60 foram educados por pais extremamente conservadores.

Mas era o início do fim dos amores que tinham que parar no último estágio: “quero me casar virgem!”. Deixava-se para trás a “meia-virgem”, aquela na qual as carícias sexuais acabavam “na portinha”. Na moda, a minissaia despia as coxas. Lia-se Wilhelm Reich, segundo quem o nazismo e o stalinismo teriam nascido da falta de orgasmos. A ideia de que os casais, além de amar, deviam ser sexualmente equilibrados começava a ser discutida por alguns “pra frente”. Era o início do direito ao prazer para todos, sem que as mulheres fossem penalizadas ao manifestar seu interesse por alguém.

Elas começavam a poder escolher entre desobedecer às normas sociais, parentais e familiares. Ficava longe o tempo em que os maridos davam ordens às esposas, como se fossem seus donos. Um marido violento não era mais o dono de ninguém, mas apenas um homem bruto. Uma vez acabado o amor, muitos casais buscavam a separação. Outros faziam o mais fácil: tinham um “caso”. E, desse ponto de vista, o adultério feminino era uma saída possível para quem não ousasse romper a aliança.

No pano de fundo, o golpe militar de 1964 e um conjunto de fatos que aceleraram mudanças. Uma política de desenvolvimento foi implementada e pôs o país na rota do “milagre econômico”. Na esteira do progresso, expandiram-se as cidades. Atraídos pelo crescimento da construção civil, migrantes nordestinos provocaram a concentração e a formação de um cinturão de miséria nos grandes centros do Sudeste brasileiro. A classe média deparou-se com uma grande quantidade de novos bens de consumo e com a possibilidade de financiamento de dívidas. A utilização a televisão foi fundamental nesse processo. O Brasil emergira subitamente como um dos mais dinâmicos mercados de TV do terceiro mundo. As compras pelo crediário e as facilidades de aquisição de aparelhos, no período, expandiram o número de domicílios com receptores – em 1960, 9,5% das residências urbanas tinham TV; em 1970, essa proporção passou para 40%. Grandes investimentos foram feitos para implantar as bases de um sistema amplo.

Em meio a isso, os motéis multiplicaram-se. Pornoshops começaram a abrir, discretamente, suas portas. As capas de discos passaram a ser ilustradas com cantoras conhecidas em trajes sugestivos ou de biquíni. O videocassete logo introduziria o aluguel de fitas pornôs, agora assistidas em domicílio. A música popular introduziu versos ao mesmo tempo delicados e libertários, resumindo o espírito da época. Quem não lembra a voz de Ivan Lins cantando a amada “Vitoriosa por não ter / vergonha de aprender como se goza”. Ou o bolero “Latin lover”, de João Bosco, cheio de insinuações murmuradas com sensualidade: “Mas me lembro de uma noite, sua mãe tinha saído / Me falaste de um sinal adquirido / Numa queda de patins em Paquetá / - mostra! Doeu? Ainda dói? A voz mais rouca / E os beijos / Cometas invadindo o céu da boca”. Ou a queixa da mulher mal amada: “Na cama és mocho / Tira as mãos de mim”, em canção de Chico Buarque.

Mas também foram anos de massiva propaganda, de falta de liberdade, de censura e perseguições. Intelectuais, estudantes e artistas resistiram. Houve prisões, tortura e exílios. Foram os anos do slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o” e da música de Dom e Ravel, “Esse é um país que vai pra frente”. O futebol era o grande assunto, bem como “os 90 milhões em ação”.

Foi ao longo dos anos 70, com os movimentos pela valorização das minorias que a questão da mulher começou a mudar de forma. A sexualidade deixava de ser considerada algo mágico ou misterioso que escaparia aos progressos técnicos ou à medicina. A pílula foi aceita por homens e mulheres, não só porque era confiável, mas, sobretudo, por ser confortável. O orgasmo simultâneo passou a medir a qualidade das relações e significava o reconhecimento da capacidade feminina de gozar igual aos homens. Música, literatura e cinema exibiam a intimidade dos casais, democratizando informações: “nos lençóis da cama... travesseiros pelo chão”, cantava Roberto Carlos. Revistas de grande tiragem exploravam questões sexuais, valorizando corpos idealizados, com uma mensagem: “sejam livres”, enquanto nos artigos de fundo seguia-se valorizando o sentimento e a o amor. Já a publicidade erotizava comportamentos para vender qualquer produto. Tudo isso não seria possível sem o poder dos meios de comunicação modernos e uma cultura de massa, capaz de difundir modelos e representações sexuais.

Entre 1979 e 1985, aumentou a mobilização dos diferentes setores da sociedade exigindo a redemocratização do país, inaugurando novos conflitos e sacudindo o imobilismo das representações de classe.

E, aos trancos e barrancos, discutia-se um novo modelo de feminilidade, mas também, de masculinidade.


PRIORE, Mary del. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil. São Paulo: Planeta do Brasil, 2011. p. 175-179.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A cultura jovem dos anos 60: da canção de protesto ao psicodelismo

Depois de seu apogeu - entre os anos de 1956 e 1958 -, o rock' n' roll começou a se esvaziar, nos Estados Unidos, como meio de expressão e revolta de uma geração. [...]

Esse esfriamento criativo do rock' n' roll começou a repercutir entre os próprios artistas negros, que, a partir de uma fusão de raízes dos gospels e dos spirituals [...] com elementos da canção romântica branca, criaram um tipo mais suave de música vocal, retomando a linha adotada por grupos vocais como The Platters, com seu sucesso "Only you" (1955). Tratava-se de uma música sob medida para ser aceita por um grande público branco. A partir de 1959, Berry Gordy capitaliza esse novo som, construindo em torno de si uma poderosa empresa, que iria dominar o setor da chamada black music (música negra) durante a década de 1960; [...]

Apesar do comercialismo inicial dos seus conjuntos vocais (The Supremes, The Temptation, [...] etc.), o som da Motown, de Detroit, abre o mercado para a consagração de futuros valores da música negra (funk e soul) durante a década de 1960 (Diana Ross, Smokey Robinson, James Brown, Aretha Franklyn, [...], Marvin Gaye, Stevie Wonder etc.), tornando-se uma das influências importantes para a segunda explosão da música jovem, a partir de 1964.

Podemos dizer que o surgimento e a expansão de uma música negra para um mercado nacional, de maioria branca, reflete a luta pela afirmação dos direitos civis dos negros durante a década de 1960.

[...]

Diante desse agitado quadro político-social do início da década de 1960, o rock' n' roll parecia um modismo adolescente e ultrapassado, mesmo porque outro tipo de música, baseada na canção folclórica (folk song) norte-americana, serviria como canal de expressão para a juventude universitária do país refletir sobre os problemas internos e externos dos Estados Unidos. Ao contrário dos despreocupados sons da dança, como o twist, que era a sensação do início da década, o folk song apelava para a consciência política de um público engajado nas lutas estudantis.

Esse renascimento da música folk deve-se a grupos como Kingston Trio (1958), Pete Seeger and the Weavers (1958) e Peter, Paul and Mary (1961). Mas as estrelas maiores do novo movimento foram Joan Baez e Bob Dylan.


Joan Baez e Bob Dylan

Joan Baez tinha 18 anos quando se tornou a sensação do Festival Folk de Newport, em 1959. No ano seguinte, gravou seu primeiro álbum, com temas folclóricos tradicionais. Em novembro de 1962, ela já tinha três álbuns nas paradas e era capa da revista Time. Uma de suas canções, retirada do repertório tradicional da música folk - "We shall overcome" -, tornou-se um dos hinos da juventude universitária que apoiava o movimento pelos direitos civis dos negros, no qual encontramos Joan Baez ao lado do líder negro Martin Luther King.

Nessa atmosfera surgiu a canção de protesto (protest song), como desdobramento da onda folk. Antes, mesmo politicamente engajados, os intérpretes se limitavam a recolher temas do repertório tradicional e aplicá-los à situação da sua época. Mas com o aparecimento de Bob Dylan, em 1962, que usava a canção folk como base para letras incrivelmente atuais, houve uma verdadeira revolução na música popular norte-americana. Suas letras continham denúncias contra o racismo, o militarismo e a corrida armamentista, coisas que ainda não haviam sido ouvidas na música popular da época; o gosto pelo ambíguo, pelo místico, pelo religioso também se fazia presente, mostrando toda a influência dos poetas beats sobre o compositor. [...]

Como muitos outros jovens norte-americanos do seu tempo, Bob Dylan mostrava-se desencantado com o mundo que os homens construíam [...]. Dylan tinha no cotidiano das manchetes e reportagens dos jornais e revistas a fonte de matéria-prima para as suas canções, nas quais o compositor denunciava "os senhores de escravos e os senhores da guerra" da América. Com isso, transformou-se numa espécie de porta-voz da juventude norte-americana, principalmente a partir do sucesso de "Blowin' in the wind" (1963), canção que se tornou mais um dos hinos dos movimentos pacifistas dos anos 60.

[...]

Enquanto se verificava o processo de politização da juventude universitária norte-americana e a ascensão da música de protesto, o rock' n' roll ressurgiu com um ímpeto inesperado na Inglaterra, que, a partir de então, tornou-se um dos principais pólos divulgadores da cultura jovem mundial.

[...]

Na década de 1950, por problemas de distribuição e pela censura da programação radiofônica (controlada pela estatal BBC), o rock' n' roll levou alguns anos para chegar ao Reino Unido. Sem uma infra-estrutura que o divulgasse (rádios, disc-jockeysshows etc.), os jovens ingleses só tinham os discos importados. Esse vazio foi preenchido pela onda skiffe, imitação do blues norte-americano. Esse movimento deu ao rock britânico sua sólida base de blues, com pioneiros como Alex Korner e John Mayall.

Quando o rock' n' roll norte-americano atingiu com maior intensidade o mercado britânico, no início da década de 1960, estava misturado com o rhythm and blues, o country, o rockabilly, o calipso, a música negra da Motown, recebendo uma nova roupagem por parte dos músicos ingleses.

Entre as centenas de grupos musicais de Liverpool e Londres surgidos no início dessa década, dois alcançaram em pouco tempo um sucesso internacional sem precedentes, modificando de modo profundo não somente a música popular, mas todo o estilo de vida da juventude. Os Beatles [...] e os Rolling Stones [...] encarnaram as duas forças básicas que engendraram toda a convulsão cultural dos anos 60.

Ao longo da sua carreira, os Beatles foram um verdadeiro laboratório de influências e pesquisas que iam da música eletrônica à canção folclórica, da música oriental às mensagens existenciais de suas letras, as quais transmitiam uma visão filosófica do desconcertante cotidiano existencial. Na segunda metade da década - com LPs que se transformaram em marcos históricos como Rubber soul (1965), Revolver (1966) e, principalmente, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967) -, os Beatles inauguraram a era do experimentalismo eletrônico na música pop. Já os Rolling Stones, menos sutis e mais intensos, se caracterizaram pelo balanço de sua batida musical, bem próxima das tonalidades negras firmemente enraizadas no blues e na violência, quer nos temas de suas músicas, quer em suas apresentações ao vivo. [...]

[...]

Após as dificuldades de reconstrução do país, as novas gerações inglesas, graças à forte influência do american way of life, despertavam para o prazer individual e o consumo. Divertiam-se entre os conflitos de mods (origem do grupo The Who) e rockers, que opunham basicamente dois estilos de vida. Os mods (derivado de modern, "moderno") eram jovens de classe média que vestiam terninhos de lapela, camisas de colarinho redondo e primavam por um visual bem comportado, andavam em suas lambretas cheias de acessórios cromados e ouviam basicamente música negra dos anos 60 (funk, soul ska); já os rockers viviam ligados à cultura do rock' n' roll dos anos 50, formando bandos de motoqueiros com seus blusões de couro. [...]

Apesar de sua aparente ingenuidade, a juventude inglesa, ao contrário da inconsequente rebeldia da juventude transviada norte-americana, começava a desenvolver uma consciência crítica de sua geração. É o que ocorre, por exemplo, na canção "My generation" (1965) do grupo The Who. Com ironia, humor negro e uma grande dose de "inocência", os roqueiros ingleses começaram a desmascarar a hipocrisia dos valores estabelecidos pela sociedade. Era uma geração que podia não saber ainda o que queria, mas já começava a ter uma noção muito clara do que não queria. [...]

Dessa forma, o antigo rock' n' roll passava a ser simplesmente rock, diversificando-se em várias tendências. Começava a se fundamentar um mundo alternativo, paralelo à sociedade, cheio de blues eletrificado, que acabou se tornando um dos fundamentos básicos dos movimentos jovens da segunda metade da década. [...]

Essa explosão do rock inglês acabou despertando e influenciando a música norte-americana, que [...] estava em refluxo criativo desde os fins dos anos 50 e início dos anos 60. Essa influência tornou-se acentuada a partir de 1964, quando os Beatles fizeram sua primeira excursão aos Estados Unidos, abrindo o mercado para outros grupos britânicos e influenciando a formação de novos músicos norte-americanos: The Jefferson Airplane, The Mamas and The Papas [...], The Doors, The Velvet Underground e outros. [...]

Em meados da década de 1960, enquanto a violência racial e o conflito do Vietnã agitavam os Estados Unidos, surgia uma concentração de fenômenos a que os analistas sociais deram o nome de contracultura. A juventude de classe média começava a postular ideias e a conduzir-se de modo totalmente oposto aos valores apregoados por uma sociedade moralista, racista, consumista e tecnocrata.

[...] não é estranho que a contracultura tenha surgido no seio da sociedade norte-americana, pois foi justamente nos Estados Unidos que a tecnocracia [...] atingiu o auge de seu desenvolvimento, obrigando o jovem a adaptar-se rapidamente a uma realidade mecânica, árida e desprovida de qualquer impulso criativo. Com isso, a contracultura se tornou a forma de expressão mais importante dessa parcela de jovens que procuravam "cair fora" (filosofia do drop out) dos padrões estabelecidos por essa sociedade [...].

[...]

[...] os movimentos de contracultura nasceram a partir de um ponto de vista hedonista, ou seja, do desejo simples e elementar da felicidade individual, porém fora dos padrões de regras e normas repressoras estabelecidas pelo sistema, composto de instituições político-sociais que objetivavam a sustentação da ordem vigente. É dentro desse contexto que se insere a grande utopia dos hippies - a construção de um "paraíso aqui e agora", de "paz e amor". Para tanto, era fundamental criar seu próprio estilo de vida e "cair fora" do mundo materialista e racional da sociedade moderna, o que significava ganhar outro espaço físico e mental. Daí a criação das comunidades hippies e a descoberta do misticismo e do psicodelismo das drogas, principalmente o LSD (ácido lisérgico).

Sediado na costa leste dos Estados Unidos, mais exatamente em São Francisco, a partir de 1966 o movimento hippie começou a constituir suas comunidades em meio a um clima astrológico que previa, com a chegada da Era de Aquário, da peça Hair (musical que melhor retratou os ideias e o estilo de vida dos hippies), o advento de um novo mundo, pacífico e harmonioso.

Esse profetismo acabou revelando todo o misticismo religioso que envolvia a contracultura hippie, misturando parapsicologia, zen-budismo, ufologia, astrologia, magia, iluminações psicodélicas e espiritualismo. Nesse contexto, destacavam-se figuras como Thimothy Lery, o papa do LSD ("ligue-se, sintonize-se e caia fora"), e Alan Watts, o grande "sacerdote" do zen-budismo nos Estados Unidos. Essas experiências místicas eram uma tentativa dos jovens de romper com os esquemas repressores da cultura ocidental, que agiam de forma alienante sobre as consciências individuais, limitando-as na sua sensibilidade por meio de uma racionalidade e uma tecnocracia exacerbadas.

A partir da contracultura, a segunda metade da década de 1960 trouxe em seu bojo um verdadeiro terremoto, difícil de ser enfrentado por quem tinha ideias e objetivos preestabelecidos. A cultura ocidental foi amplamente questionada em seus valores políticos e morais, já que a contracultura estabelecera uma espécie de guerrilha cultural dentro do próprio sistema; um movimento espontâneo e insinuante que, apossando-se dos meios de comunicação de massa ou criando uma imprensa alternativa, conquistou adeptos por toda a parte e ameaçou colocar a utopia no poder, estabelecendo o poder das flores (flower power).

[...] A crônica musical desses anos de contracultura começou em junho de 1967, no Monterrey Pop Festival, que abriu a época dos grandes festivais (Woodstock, Altamont e Ilha de Wight). Foi lá que se apresentou Jimi Hendrix, após ter sido consagrado na Inglaterra. Se as principais expressões do rock britânico eram famosas por procurarem desenvolver o blues a partir do rock, foi Hendrix que concretizou a fusão entre o blues e o rock' n' roll, entre o instinto vital da origem africana da música negra e a sofisticação eletrônica criada pela tecnologia branca, desbravando novos caminhos para o futuro do rock.

O nome Jimi Hendrix só pode ser comparado ao da grande cantora Janis Joplin, que também conseguiu trazer em sua voz essa fusão da música negra coma branca. Janis nasceu no Texas, mas esteve ligada ao rock de São Francisco, cidade que, como Liverpool na Inglaterra, assistiu a uma proliferação de grupos e tendências musicais - desde o conjunto com que Janis trabalhou, o Big Brother and the Holding Company, até o rock latino de Carlos Santana, com seus ritmos dançantes e sua variada percussão.

Mas a tendência mais típica do rock de São Francisco foi o chamado acid rock (rock ácido), que procurava, com a criação de espaços musicais amplos e abstratos, e com o emprego de estranhas sonoridades, reproduzir os sons e ruídos, os climas e sugestões emocionais da experiência psicodélica com as drogas. Os grupos mais famosos dessa audaciosa aventura são o Jefferson Airplane, The Doors, de Jim Morrison, e o Grateful Dead, de Jerry Garcia (guru psicodélico da cena musical norte-americana). [...]

[...]

Mas o acid rock inglês, ou head music (música de cabeça), tinha no grupo Pink Floyd, sob o comando de Syd Barret (1967-1968), o seu principal expoente. O primeiro LP do Floyd - The piper at the gates of dawn, de 1967 - era tão revolucionário quanto o próprio Sgt Pepper's ou Are you experienced (primeiro LP de Jimi Hendrix). Com grupos como o Pink Floyd e o Soft Machine, o rock psicodélico britânico se mostrou mais experimental e instigante que o norte-americano, influenciando toda uma geração de músicos que acabou por desembocar no rock progressivo (fusão entre o rock e música erudita) dos anos 70.

BRANDÃO, Antonio Carlos; DUARTE, Milton Fernandes. Movimentos culturais de juventude. São Paulo: Moderna, 2008. p. 45-46 e 52-63.

NOTA: O texto "A cultura jovem dos anos 60: da canção de protesto ao psicodelismo" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Guerra do Vietnã (1961-1975)

Laos, Camboja e Vietnã, países que resultaram da decomposição do domínio francês na Indochina, foram violentamente atingidos pelos conflitos decorrentes da divisão do mundo em dois blocos. O mais sangrento e dramático foi a Guerra do Vietnã (1961-1975), que, a rigor, foi continuação das lutas de independência.


"Diante das dificuldades para se lutar num território desconhecido e com florestas muito densas, os norte-americanos desenvolveram armas químicas, como o napalm, objetivando a queima de árvores, e o "agente laranja", um poderoso desfolhante, que poderiam facilitar a localização de redutos de soldados vietnamitas. O napalm era uma espécie uma espécie de gasolina gelatinosa que queimava ao contato. Calcula-se que os Estados Unidos lançaram sobre o Vietnã cerca de 340 mil toneladas de napalm. Na foto, crianças fogem de um ataque no qual foi utilizado esta substância. À direita, fotógrafos registram a cena. A divulgação de imagens como esta comprometeu a posição dos EUA tanto no plano externo como junto à opinião pública interna." (BERUTTI, Flávio. Caminhos do homem 3. Curitiba: Base Editorial, 2010. p. 134.)

A tensão política no Vietnã, dividido em norte e sul, persistiu depois da independência (1954), apesar dos acordos feitos em Genebra. No sul, o primeiro-ministro Ngo Dinh Dien, católico e anticomunista, com ajuda norte-americana, adiou as eleições previstas para 1956, afastou Bao-Daí do governo e proclamou a República do Vietnã do Sul, declarando-se presidente. Em contrapartida, os comunistas organizaram a resistência, criando, em 1960, a Frente de Libertação Nacional (FLN) e, em 1961, o Exército de Libertação Nacional, chamado pelos norte-americanos de Vietcong.

Em 1963, a tensão política agravou-se com o assassinato de Ngo Dinh Dien. O governo norte-americano, sob a presidência de Lyndon Johnson, resolveu intervir militarmente e, em agosto de 1964, ordenou ataques aéreos ao Vietnã do Norte. A partir daí a guerra se generalizou no país. O Vietnã do Sul e as forças norte-americanas passaram a lutar contra as tropas do Vietnã do Norte e o Vietcong, que usava táticas de guerrilha. Os efetivos norte-americanos na área chegaram a contar com 541 mil homens.


Big Guns, David Fairrington

Em 1968, com o avanço do Vietcong, foram suspensos os bombardeios norte-americanos e iniciaram-se, em Paris, as negociações entre Washington e Hanói (capital do Vietnã do Norte).

Os encontros, porém, arrastavam-se, sem solução. Nos Estados Unidos cresciam as manifestações contrárias à guerra¹, conforme eram divulgados pela imprensa (principalmente a TV) a violência e os ataques norte-americanos à população civil das cidades e aldeias camponesas indefesas², além da devastação das plantações e dos recursos naturais provocada pelo uso de agentes químicos proibidos por convenções internacionais.³

Em 1970, contrariando a opinião pública do país e a internacional, o presidente dos Estados Unidos Richard Nixon ampliou o conflito, bombardeando o Camboja sob o pretexto de eliminar “redutos” comunistas. Em 1972, tropas norte-americanas atacaram, com intensidade sem precedentes, a capital norte-vietnamita. As forças do Vietnã do Norte, a FLN e o Vietcong resistiram. Em 1973 foi assinado, em Paris, um acordo, segundo o qual as forças norte-americanas deveriam se retirar do Vietnã, seria formado um conselho para organizar eleições no Vietnã do Sul e os prisioneiros seriam libertados.

Contudo, a saída dos Estados Unidos não significou o fim das lutas. De 1973 a 1975 a guerra foi “vietnamizada”, ou seja, as forças comunistas do norte avançaram sobre as províncias do sul e acabaram dominando todo o país. Em 1975, os comunistas ocuparam Saigon, encerrando-se a guerra com a reunificação do país, que passou a constituir a República Socialista do Vietnã. 

Mas o fim da Guerra do Vietnã não trouxe a paz para a região. Além dos graves problemas internos – determinados pelas divergências político-ideológicas, não eliminadas pelo conflito, e pelos efeitos devastadores das lutas prolongadas -, o Vietnã enfrentou os países fronteiriços: Camboja, em 1977; China, que em 1979 chegou a invadi-lo por 15 dias; e Tailândia, em 1980.

Wietnamska Pieta, Edward Knapczyk.

¹ "Assim, a guerra foi se tornando extremamente impopular junto à opinião pública nacional e internacional, deixando o governo dos EUA praticamente isolado no plano político internacional. No final da década de 60 e início da década de 70, manifestações contrárias à guerra aconteceram em quase todas as grandes cidades da Europa Ocidental e da América Latina. A queima de bandeiras norte-americanas em frente às sedes diplomáticas dos EUA no exterior tornou-se uma cena comum relatada pelo noticiário internacional.

Na Europa, foi criado até mesmo um tribunal internacional, formado por figuras eminentes do mundo cultural, que julgou e condenou o governo dos EUA de ter praticado crimes de guerra no Vietnã. [...]


O termo Vietnã entrou para o vocabulário político com o significado de 'o atoleiro em que se mete um país quando intervém em outro'. [...] Aparentemente, a chamada maioria silenciosa apoiava os atos do governo, mas o "barulho" feito pelos ativistas - estudantes, intelectuais, liberais, pacifistas etc. - teve um efeito muito grande sobre a opinião pública. Os jovens, especialmente, questionavam não apenas a guerra em si, mas o próprio estilo de vida americano - american way of life -, cujos dogmas tinham permanecido praticamente intocáveis durante décadas (os movimentos hippies, undergrounds e de contracultura surgiram mais ou menos nessa época).


Contudo foram as cenas mostradas pela TV que abalaram sensivelmente a sociedade norte-americana - pois a imagem da guerra transmitida pelo governo era muito diferente da realidade. [...] As feridas deixadas pela Guerra do Vietnã ainda não cicatrizaram de todo. Os mais de 50 mil mortos, os mais de 300 mil feridos e o drama vivido por inúmeros veteranos do Vietnã, que não conseguiram superar psicologicamente os traumas causados pela guerra, ainda estão vivos nas lembranças do povo norte-americano." (OLIC, Nelson Bacic. A Guerra do Vietnã. São Paulo: Moderna, 1988. p. 45-46.)

² "A Guerra do Vietnã foi marcada, entre outros aspectos, pelo grande sofrimento da população civil. Durante os 15 anos de conflito, essa população sofreu agressões sem precedentes do maior aparelho militar do mundo, que inclusive utilizou armas químicas e bacteriológicas contra militares e mesmo contra a população civil. Muitas aldeias foram atacadas por soldados norte-americanos, como foi o caso de My Lai, em abril de 1968. Os 120 soldados da "Companhia Charlie" foram encarregados de "limpar" a aldeia, que, segundo os norte-americanos, estaria servindo de abrigo a soldados inimigos. Ao final da invasão, 508 aldeões foram mortos em suas choupanas, em sua maioria mulheres, crianças e idosos." (BERUTTI, Flávio. Caminhos do homem 3. Curitiba: Base Editorial, 2010. p. 134.)

³ "Entre 1961 e 1971, o exército norte-americano realizou pulverizações maciças de desfolhantes sobre o Vietnã. Pretendia arrasar a cobertura vegetal, para impedir que o adversário se camuflasse, e destruir as colheitas para matar de fome as populações e os combatentes. O segundo objetivo era explícito: como as operações de guerrilha dependiam estreitamente das colheitas locais para seu abastecimento, os agentes antiplantas possuíam um elevado potencial ofensivo para destruir ou limitar a produção de alimento.

Os desfolhantes compreendiam essencialmente o agente laranja - que contêm a dioxina, um produto químico particularmente tóxico. [...] Foi uma catástrofe sanitária e ambiental para o Vietnã. E ainda é, porque a dioxina, produto químico muito estável, degrada-se lentamente e se integra na cadeia alimentar. Seus efeitos persistem no ambiente e afetam os habitantes das zonas atingidas. [...] Trinta anos após o fim das pulverizações, o agente laranja continua a provocar mortes, patologias de extrema gravidade e malformações no nascimento. [...]

Em relação ao meio ambiente, ainda que as taxas de dioxina no solo sejam felizmente baixas, regiões inteiras tornaram-se impraticáveis para os agricultores. [...] Perante a amplitude do desastre, a questão fundamental permanece: responsabilidade." (GRENDEU, Francis. Quem faz as guerras químicas. Le monde diplomatique, 1º jan. 2006.)

BERUTTI, Flávio. Caminhos do homem 3. Curitiba: Base Editorial, 2010. p. 134.
NEVES, Joana. História Geral – A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 499-500.
OLIC, Nelson Bacic. A Guerra do Vietnã. São Paulo: Moderna, 1988. p. 45-46.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Poder jovem


Jovem oferecendo uma flor para o policial, 1967

Na segunda metade do século XX, a ação da juventude foi marcada por uma palavra: protesto. Manifestando-se individualmente ou em grupo, os jovens contestaram os valores do mundo "adulto", ou seja, as normas, regras e instituições estabelecidas, bem como concepções e comportamentos determinados pela tradição cultural. O protesto jovem ocupava todos os espaços: a casa (família), a escola, as ruas e as praças.

Na década de 1960, o protesto jovem concretizou-se em dois movimentos que, mesmo articulados, tinham características e propósitos diferentes: o movimento estudantil e o movimento hippie. Ambos tiveram origem nos Estados Unidos e estenderam-se a quase todos os países.

A primeira grande manifestação estudantil ocorreu na Universidade de Berkeley (Califórnia), reivindicando a reforma dos cursos e estudos universitários. A movimentação logo se expandiu, e os estudantes passaram a organizar protestos contra a participação norte-americana na guerra do Vietnã.

Foi, porém, em Paris que o movimento estudantil se caracterizou como protesto político, contestando não só a universidade, mas a ordem social geral.

O movimento estudantil de caráter eminentemente político estruturou-se principalmente nos países que viviam sob regimes ditatoriais. A contestação transformou-se em movimentos que organizavam a luta armada. Em todos os lugares a repressão foi arrasadora, e os jovens foram suas principais vítimas.

O movimento hippie, em contrapartida, pregava paz e amor. Representou uma espécie de alternativa para a contestação estudantil, trocando o engajamento político dos estudantes por uma proposta genérica de liberdade. Os hippies não se propunham a mudar o mundo, mas pretendiam viver como bem entendessem.

Nesse sentido, o movimento hippie levava à alienação, ao desligamento das questões sociais que geravam o descontentamento da juventude. No entanto, em relação a valores, visão de mundo e comportamento, era profundamente contestador.

Os hippies criaram uma nova cultura, baseada na vida em comunidades (nas quais a antiga estrutura familiar estava ausente), na produção artesanal, na prática de uma religiosidade esotérica, no cultivo da música que se identificou com a juventude (o rock 'n' roll e todas as suas variantes) e na liberação do sexo, dos sentimentos, das emoções e (o que foi trágico para a juventude) do uso de drogas.

Depois de ter se imposto como uma nova força no mundo, a juventude, a partir de meados da década de 1980, parece ter sofrido um recuo conservador. Líderes estudantis radicais e hippies deram lugar a yuppies, jovens executivos preocupados apenas com o próprio sucesso.

O "poder jovem" tornou-se um componente da sociedade, na medida em que a juventude passou a ser idealizada, tornando-se símbolo e sinônimo de saúde, vitalidade e, principalmente, beleza - um dos mitos mais importantes do século XX. A juventude ficou na moda e tornou-se, ela própria, moda.

Os jovens continuaram formando grupos específicos que os distinguissem da grande massa, mas sem nenhuma proposta de renovação ou mudança. Mais do que formação de grupos, tornou-se comum o aparecimento de gangues, como os punks e os skinheads.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 516-517.