"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 13 de setembro de 2016

Uma greve no Egito antigo

Israel no Egito - detalhe, Edward Poynter

Os trabalhadores dos templos eram relativamente privilegiados: eram vestidos e alimentados pelo governo e, graças ao seu número e à união que sempre mantiveram, podiam recorrer à greve quando suas reivindicações não eram atendidas.

O serviço de fornecimento de víveres aos trabalhadores era prejudicado pela preguiça e desleixo dos escribas. Por isso, as queixas eram frequentes; eles queriam apelar ao Governador, e os escribas, temerosos, lhes forneceram mantimentos para um dia, como vemos no documento a seguir:

"O escriba da contabilidade e os sacerdotes da necrópole de Tebas ouviram as reclamações dos trabalhadores [...]
- Nós estamos sem roupas, nós estamos sem medicamentos, nós estamos sem peixes [...] Tendo mandado um representante ao Faraó, nosso Senhor, para expor a situação, nós nos dirigiremos ao Governador, nosso Superior. Que nos dêem os meios para que possamos viver.
Eles lhes forneceram os víveres para aquele dia."

Como suas exigências não foram atendidas, os trabalhadores forçaram os portões da necrópole, sendo contidos pela guarda.

"Por ordem do Governador, o comandante da guarda parlamenta com os trabalhadores:
- Não fui eu que impedi vocês de chegar até os víveres [...] Não fui eu que coloquei os policiais nos portões [...] Abram os celeiros. Eu vos dou tudo aquilo que lá encontrarem."

O Governador, através de seu porta-voz, declarou-se inocente em relação aos abusos cometidos, autorizando os trabalhadores a pegarem nos celeiros tudo o que encontrassem. O escriba, no entanto, procurou reduzir a vitória dos trabalhadores, dizendo:

" - Eu vos dou a metade dos víveres e eu mesmo farei a partilha."

Obviamente, a distribuição foi insuficiente. Um líder dos trabalhadores, então, incitou seus companheiros para que atacassem o porto, onde um carregamento de trigo estava sendo desembarcado, assumindo a responsabilidade de avisar o Governador.

"O escriba, temeroso da invasão, distribuiu todo o trigo que estava no porto. Porém, como encontrasse, mais tarde um portão arrombado, advertiu os trabalhadores:
- Por que vocês forçaram a entrada do porto? Eu vos dei todo o trigo assim que o pediram. Partam logo, senão eu vos considerarei culpados por todo objeto que desaparecer." (Extraído do Papiro Hierático existente no Museu de Turim.)

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]. Fazendo a História: da Pré-história ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989.

terça-feira, 5 de abril de 2016

A resistência dos operários ingleses no século XIX: a luta pelos direitos

Uma noite de greve / Bandeira vermelha, Eugène Laermans

Os trabalhadores não aceitavam passivamente as condições de trabalho que lhes eram impostas e, com o apoio de alguns intelectuais, lutaram para obter melhorias que consideravam justas - como, por exemplo, uma jornada mais curta. Organizando-se em associações e sociedades, tentaram levar suas reivindicações ao Parlamento.

O sapateiro Thomas Hardy, um dos fundadores da Sociedade Londrina de Correspondência inaugurada em 1792, assim rememora uma das reuniões de seus membros:

"Após terem jantado pão, queijo e cerveja, como de hábito, e fumado seus cachimbos, com um pouco de conversa sobre a dureza dos tempos e o alto preço de todas as coisas necessárias à vida [...] veio à tona o assunto que ali os reunia - a Reforma Parlamentar -, um tema importante a ser tratado e liberado por tal tipo de gente." (Apud E. P. Thompson, op. cit., p. 16.)

A participação no Parlamento era importante para garantir direitos de cidadania aos trabalhadores. Diferentemente da ação das turbas, cuja atuação era ocasional, essas organizações promoviam discussões regulares dos temas políticos e econômicos da época. Apesar da constante repressão do governo sobre os reformadores, que se reuniam na clandestinidade, até 1824 as associações de trabalhadores cresceram de maneira expressiva.

Na primeira década do século XIX, a Inglaterra não era ainda uma democracia, tal como a entendemos hoje. Apesar do desenvolvimento econômico que alcançara, os direitos políticos continuavam restritos a uma minoria. A maior parte das pessoas não podia votar, e muitas das cidades que se haviam formado com o processo de industrialização não tinham o direito de ser representadas no Parlamento. Os trabalhadores também não podiam eleger representantes - por isso frequentemente recorriam aos motins e protestos de rua para expressar suas reivindicações. E, por fim, o Parlamento, composto pela Câmara dos Lordes e pela Câmara dos Comuns, defendia somente os interesses dos aristocratas e dos ricos comerciantes.

[...]

Diversas pessoas, na época, acreditavam que as máquinas fossem a causa do desemprego e dos baixos salários. Em 1812, trabalhadores liderados por Ludd, um aprendiz de Midland, destruíram a maquinaria têxtil e revoltaram-se contra os patrões e o sistema de trabalho na fábrica, dando início a um movimento de luta contra as mudanças nas técnicas produtivas. Apavorados com os atentados à propriedade, os membros do Parlamento impuseram medidas repressivas contra as organizações de trabalhadores, tentando vencê-los com a ameaça da força. Como a destruição das máquinas não resolvia seus problemas, os trabalhadores, por sua vez, partiram em busca de outras estratégias.

A greve dos mineiros de Pas de Calais, 1906, Le Petit Journal

Inúmeras petições foram sendo enviadas ao Parlamento, contendo reivindicações de melhores salários e jornadas mais curtas. Algumas concessões foram feitas, mas como nem sempre eram postas em prática os trabalhadores passaram a organizar-se em favor do direito de voto, a fim de eleger seus próprios representantes.

Ao final das guerras napoleônicas, os ingleses que haviam lutado retornavam ao seu país e não encontravam emprego nas indústrias, o que aumentou ainda mais a tensão social. Em Saint Peters Fields, perto de Manchester, reformistas radicais se reuniram em 1819 para discutir mudanças na legislação eleitoral. A polícia interrompeu a reunião e muitos dos participantes sofreram dura repressão; alguns foram mortos, outros, feridos.

Em 1832 o Parlamento ampliou o sufrágio para 200 mil votos, dobrando o número de eleitores. Os trabalhadores, entretanto, continuaram excluídos do processo eleitoral, o que os levou a unirem-se às camadas médias da sociedade inglesa, iniciando revoltas para exigir representação parlamentar. Esse movimento de rebeldia, conhecido como cartismo (1830-1840), reivindicava sufrágio universal para os homens, votação secreta, remuneração dos membros eleitos para a Câmara dos Comuns a fim de que os deputados pobres pudessem se manter, renovação anual do Parlamento, igualdade entre os distritos eleitorais e fim da exigência de propriedade para os candidatos. Exceto a renovação anual do Parlamento, todas as outras exigências aos poucos foram sendo atendidas, e o movimento cartista extinguiu-se.

Greve, Stanislaw Lentz

A via eleitoral não assegurava, em absoluto, melhores condições de vida para os trabalhadores. Na segunda metade do século XIX, o movimento dos trabalhadores tomara outros rumos. O sindicalismo surgiu como força de organização da classe trabalhadora, possibilitando a formulação de novas estratégias na luta pela conquista de direitos. Em 1824, foi votada uma lei que dava aos operários o direito de livre associação, favorecendo a legalização das associações clandestinas.

As organizações de trabalhadores se espalharam pela Inglaterra, dotando os operários de um grande poder de negociação. Engels afirma, em A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, que "os seus fins eram fixar o salário, negociar em massa, enquanto potência, com os patrões, regulamentar salários em função do lucro do patrão, aumentá-lo na altura propícia e mantê-lo ao mesmo nível para cada ramo do trabalho".

As reivindicações incluíam também uma escala de salário que deveria ser respeitada em toda a Inglaterra e um limite à admissão de aprendizes, a fim de evitar concorrência com os operários qualificados e, assim, a redução dos salários.

Fazia parte da elite inglesa a chamada burguesia evangélica, que tentava difundir seu ideal de vida familiar estável tanto entre os aristocratas quanto entre os operários. Nessa família burguesa idealizada, o espaço de atuação da mulher restringia-se à esfera doméstica, conforme se depreende da análise da historiadora Catherine Hall:

"Os evangélicos e utilitaristas empreenderam um enorme esforço de moralização dos pobres através da família. Em todo o país, instituições do ensino, escolas dominicais, sociedades filantrópicas difundiam as concepções burguesas da separação entre os sexos." (Sweet home. In: Phillippe Ariès, Georges Duby, dirs. História da vida privada. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p. 71.)

Alguns setores sindicais, como o de mineração, também não viam com bons olhos o trabalho feminino, que eles consideravam depreciador do salário. Dessa maneira, operários e burgueses evangélicos, por motivos diferentes, concordavam em que era necessário manter as mulheres no universo doméstico.

Na década de 1840, ainda segundo Catherine Hall:

"[...] a comissão nomeada para investigar o trabalho infantil nas minas ficou assombrada e horrorizada ao ver as condições de trabalho das mulheres. Além do mais, elas trabalhavam ao lado de homens, sem estarem inteiramente vestidas como deveriam. Era uma afronta à moral pública, que ameaçava de ruína a família operária. Lançou-se uma campanha inspirada pelos evangélicos, para proibir que as mulheres trabalhassem nas minas." (Op. cit., p. 81.)

Segundo os preceitos dessa moral burguesa, as mulheres deveriam limitar-se a exercer as funções femininas "naturais": cozinhar, costurar, limpar e cuidar de crianças. Até mesmo alguns líderes operários, que supostamente deveriam defender melhores condições de trabalho para ambos os sexos, reivindicavam o chamado salário familiar, com o intuito de evitar que as mulheres trabalhassem.

A greve na região de Charleroi, Robert Koehler

A condição dos trabalhadores chegou a sensibilizar até mesmo aqueles que não compartilhavam a mesma situação econômica. Na Inglaterra, o evangelismo religioso difundiu-se e entrou em choque com o pensamento liberal, contribuindo para que parte das classes média e alta refletisse sobre as péssimas condições de vida da época industrial.

As informações e dados estatísticos publicados pelo governo britânico davam conta da gravidade da situação. Os debates que encaminhavam a abolição da escravidão nas colônias do Império, em 1830, possibilitaram comparações com as condições de trabalho na própria Grã-Bretanha. Assim, embora de maneira limitada, algumas reformas foram introduzidas nas áreas de saúde pública, higiene, moradia, educação, legislação criminal e fabril.

Alguns capitalistas, como Robert Owen, aceitavam e incentivavam as reformas parlamentares. Por iniciativa própria, tentaram formar dentro de suas fábricas uma organização com base na cooperação. Outros se opunham às reformas parlamentares, defendendo o liberalismo e afirmando que a interferência da legislação nos negócios particulares prejudicava o comércio e a indústria. Entretanto, os dados da produção industrial não confirmam tal argumentação: na segunda metade do século XIX, a Grã-Bretanha produziu oito vezes mais algodão do que nas duas primeiras décadas do século; no mesmo período, a produção de carvão mineral teve um aumento significativo, e a produção de ferro-gusa chegou a corresponder à metade da produção mundial.

Mas, se ao longo do século a situação dos trabalhadores melhorou sensivelmente, é certo que as contradições trazidas pelo sistema industrial jamais desapareceriam, O pensador inglês Thomas Carlyle afirmou:

"Temos mais riquezas do que qualquer nação teve antes e temos menos bem-estar do que qualquer nação teve antes [...] em meio à abundância pletórica, o povo perece." (Apud John Linch et alli. A força da iniciativa. Rio de Janeiro: Time-Life/Abril Livros, 1992. p. 72.)

A riqueza continuava concentrada, e a grande maioria da população permanecia excluída dos privilégios sociais e políticos.

REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 315-18.

terça-feira, 1 de maio de 2012

A questão social e a organização sindical na Europa no século XIX

Cena do filme "Oliver Twist", de Roman Polanski. O filme, baseado na obra de Charles Dickens, apresenta uma visão crítica de problemas sociais da Inglaterra em plena Revolução Industrial.

Durante a primeira metade do século XIX, graças ao processo de industrialização, a população das principais cidades europeias cresceu, reforçando o contraste entre as grandes fortunas e a extrema pobreza. Paris, a chamada Cidade Luz, embora tenha mantido seu traçado urbano praticamente inalterado até 1850, experimentou nessa época um grande aumento populacional. A industrialização na França não foi tão intensa quanto na Inglaterra, porém a população parisiense passou de 600 mil habitantes, em 1789, para 1,2 milhão, em 1851.

Nos bairros industriais das metrópoles modernas aglomeravam-se trabalhadores de aspecto cansado e que viviam quase na miséria. A respeito de Londres, no ano de 1839, um reformador sanitário afirmava:

[...] apesar dos esforços sistemáticos, em larga escala, para alargar as ruas [...] aumentar e aperfeiçoar a drenagem e a rede de esgotos [...] nas regiões em que residem as classes mais ricas, nada foi feito para melhorar as condições dos distritos habitados pelos pobres. (Apud E. Thompson. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. p. 187.)

A aglomeração humana em moradias insalubres era motivo de preocupação até para os burgueses, porque as epidemias de febre tifóide e cólera proliferavam pelas cidades.

A possibilidade de que essa multidão de miseráveis se organizasse contra as forças que a oprimiam atemorizava os mais ricos. Sobre esse temor afirma Michelet, historiador francês da época:

[...] que três homens estejam na rua a falar de salários, que eles peçam ao empresário enriquecido com o trabalho deles um centavo de aumento, e o burguês se assusta, grita e usa a força. Ao contrário da antiga burguesia, extasiada com seus privilégios que desejava estender, a nova olha para a multidão que sobe atrás dela, tal como ela um dia subiu, e se assusta e recua, protegendo-se junto ao poder. Liberal em seus princípios, egoísta na prática, ela não sabe o que quer. (Apud M. S. Bresciani. Londres e Paris no século XIX. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 65.)

Nos primeiros quarenta anos do século XIX, os trabalhadores começaram a organizar-se em sindicatos, em geral proibidos pela legislação. Já na metade do século, vários direitos trabalhistas haviam sido conquistados graças à força dos movimentos sindicais que contaram com a adesão de intelectuais e de outros segmentos da sociedade.

Na Inglaterra, no período de 1790 a 1830, formou-se a consciência da identidade de interesses entre os diversos grupos de trabalhadores, ampliando-se suas formas de organização política. Por volta de 1830, havia instituições operárias sólidas, como sindicatos, sociedades de auxílio mútuo, movimentos religiosos e partidos políticos.

O movimento sindical abrigava várias tendências, desde as que se dispunham a lutar em defesa de reivindicações prioritariamente econômicas até aquelas que concebiam o movimento como uma atividade política que poderia contribuir para uma revolução social. Muitos entendiam que a luta de cada categoria de trabalhadores estava inserida num contexto social e político mais amplo. Os que assim pensavam estiveram envolvidos nas Revoluções de 1848, no movimento cartista da Inglaterra e na Comuna de Paris de 1871.

Na segunda metade do século XIX, o sindicalismo revolucionário preconizava a greve geral como instrumento de luta para a transformação da sociedade. Partindo das ideias de Proudhon, George Sorel e Arturo Labriola, estabelecia como objetivo central de sua luta as relações econômicas, privilegiando as greves e a sabotagem das máquinas nas fábricas.

Os sindicalistas revolucionários não pretendiam formar um governo do proletariado, pois rejeitavam toda forma de governo instituído. Queriam o fim do Estado e sua substituição por federações de conselhos executivos de sindicatos, que seriam os administradores das comunidades econômicas.

REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 416-417.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

1968: Make love, not war!

Make love, not war!, Fora americanos: paz no Vietnã!; Viva a universidade popular! Viva a universidade livre!. Abaixo a ditadura!. Fora soviéticos: queremos um socialismo democrático...

Escritas nos muros ou gritadas por muitas vozes, frases como essas eram comuns em Nova Iorque, Paris, Berlim, Rio de Janeiro, Cidade do México, Praga e em muitas outras grandes cidades do mundo. Um novo poder parecia surgir na década de 1960: o poder jovem, o poder estudantil. A revolta estudantil explodia. Por quê?

- A universidade está velha, decadente, só ensina o que não nos interessa. É preciso mudar tudo! diziam os estudantes em muitos países.

- Desconfiem dos chefes e dos heróis. Desconfiem de todas as pessoas de fora que tentam impor a vocês suas estruturas. Façam o que tenham vontade de fazer. Sejam o que vocês são. Se não sabem o que são, descubram, alertava um líder hippie.

A família, a escola, a sociedade industrial, o racismo, o sistema político, tudo os jovens contestavam!

O maior de todos estes movimentos aconteceu na França, em maio de 1968. Os estudantes universitários queriam mudar os programas de ensino e as relações entre professores e alunos. Lutavam também pelo ingresso na universidade de um maior número de jovens, principalmente os das classes mais pobres. Uma greve, com apoio de vários professores, paralisou as aulas em todo o país. E as ruas das maiores cidades francesas foram tomadas pelos estudantes.

O presidente Charles De Gaulle deu ordem à polícia para reprimir as "agitações". A reação dos jovens foi maior: passaram a criticar duramente o próprio governo. A luta tornava-se claramente política.

Solidários com os estudantes, os operários parisienses, que vinham reivindicando melhores salários e o direito de participar das decisões das empresas, também decretaram greve. Greve geral!

Houve quem visse no movimento o início de uma revolução socialista. Nas universidades os estudantes realizavam debates, declamavam poesias, montavam peças de teatro, namoravam... Nas ruas a multidão carregava bandeiras tricolores da França, bandeiras vermelhas dos comunistas, bandeiras negras dos anarquistas.

- Vocês estão ampliando o horizonte do possível, dizia aos jovens Jean Paul Sartre, um importante intelectual francês.

O sistema capitalista era condenado, mas os regimes socialistas da Europa Oriental também recebiam críticas:

- A humanidade só será feliz no dia em que o último burocrata for enforcado nas tripas do último capitalista, escreviam os jovens nos muros da Sorbonne, a tradicional universidade francesa.

Na França, como em outras partes do mundo, estudantes e operários estavam insatisfeitos com a "engrenagem" que comandava suas vidas.

No fim das contas, porém, a "engrenagem" venceu. A polícia foi ocupando as ruas de Paris, em número cada vez maior. A organização dos rebeldes não era muito grande e a maioria da população ficou assustada com as mudanças radicais exigidas pelos jovens. Mesmo os Partidos Socialistas e Comunistas, que apoiaram o movimento no início, ficaram descrentes das suas possibilidades.

- Os jovens são românticos, não têm os pés no chão. E os operários ainda não têm condições de chegar ao poder, diziam os políticos mais velhos da esquerda. 

Também no Brasil os estudantes saíram às ruas. Quem governava o país, desde 1967, era o marechal Costa e Silva, que havia sido ministro do Exército no governo Castello Branco. Escolhido pelo Alto Comando Militar, seu nome foi facilmente aprovado em eleições indiretas no Congresso Nacional, onde a Arena, o partido do governo, tinha a maioria.

Os grandes problemas educacionais do país continuavam, como o analfabetismo, a falta de escolas e os baixos salários dos professores. Os governos militares, além do mais, diminuíam as verbas destinadas à educação, o que piorava as coisas.

- Mais verbas para a educação e menos canhão! reclamava a União Nacional dos Estudantes.

- O governo quer acabar com o ensino público e tornar as universidades pagas! argumentavam muitos jovens.

- Chega do reitor discutir tudo sozinho! Queremos uma universidade democrática! discursavam os estudantes em reuniões agitadas.

Em março de 1968, no Rio de Janeiro, um secundarista, Edson Luís, foi morto a tiros pela polícia militar, quando protestava com seus colegas contra a má alimentação servida num restaurante estudantil. Sua morte foi como um estopim, agravando as lutas entre estudantes e o governo: cinquenta mil pessoas compareceram ao enterro, que se transformou numa grande passeata de protesto.

Aos poucos, a revolta estudantil espalhou-se por outras cidades. Não faltavam ocasiões. No dia 1º de maio, por exemplo, centenas de estudantes e operários foram a uma concentração na Praça da Sé, em São Paulo. O governador do Estado foi apedrejado e a comemoração do Dia do Trabalho terminou em pancadaria.

O ministro da Educação, Tarso Dutra, não aceitava dialogar com os líderes estudantis. Os estudantes então faziam passeatas, que eram reprimidas com rigor. Prisões, ferimentos, explosões e um cheiro ardente de gás lacrimogêneo passaram a fazer parte do cotidiano do centro da "cidade maravilhosa"...

No dia 27 e junho, diversos panfletos eram distribuídos nas ruas à população carioca. Um deles dizia:

- Povo da Guanabara. Não queremos matar.não queremos morrer infrutiferamente. Queremos, sim, viver o engrandecimento e o bem-estar de todo o povo. Mas ante os arreganhos do opressor não recuaremos, não nos acovardaremos nem pediremos a paz.

O panfleto convidava a população para mais uma passeata.

A resposta ao convite foi surpreendente: naquele mesmo dia cerca de cem mil pessoas saíram às ruas, na maior das manifestações contra o governo desde 1964. Padres e freiras, artistas e intelectuais, estudantes, professores, funcionários e comerciantes exigiam a libertação dos jovens que estavam presos.

- Que querem os nossos filhos? Querem apenas estudar e não depredar e queimar a cidade, discursava uma senhora, representando as mães dos estudantes.

O principal líder estudantil no Rio de Janeiro, Wladimir Palmeira, não tinha papas na língua:

- A ditadura adora leis, deixa ela fazer leis! Faça uma, duas, três constituições, instale e depois amordace um, dois, três congressos, a gente deixa, pessoal...

Os estudantes interrompiam o discurso:

- Abaixo a ditadura! Abaixo a ditadura!

Wladimir prosseguia:

- Mas a gente sabe que até o fim dessa luta a gente derruba uma, duas, três constituições e faz uma lei e nossa assembléia, porque esta assembléia não resolve os problemas de ninguém!

O discurso do líder estudantil carregava a certeza de que logo o povo - sobretudo os trabalhadores das indústrias - iria se rebelar. A classe média que enchia as ruas do Rio naquele momento já mostrava sua insatisfação.

Em abril, na cidade mineira de Contagem, 15 mil trabalhadores cruzaram os braços. A greve durou 10 dias e terminou com uma vitória: o governo autorizou um abono salarial de 10%. Os operários de Osasco, em São Paulo, também pararam contra o arrocho salarial. Algumas fábricas foram ocupadas pelos trabalhadores, que chegaram a aprisionar seus diretores. Durante três dias a cidade viveu uma tensão enorme. Ao final, a polícia conseguiu desalojar os grevistas, prendendo mais de 400 pessoas. O aumento de 35% exigido pelos operários não foi concedido.

Os estudantes achavam que estavam vivendo o início de uma grande transformação social, que mudaria radicalmente o país:

- Foi fascinante cavalgar a crista da onda - a nossa pequena marola estudantil que supúnhamos um maremoto... Sentir que exprimíamos a revolta de milhares de pessoas ao desfilarmos nas ruas, relembra o ex-líder Jean Marc, que seria eleito presidente da UNE naquele ano de 1968.

Quais os sonhos daqueles milhares de jovens que gostavam de vestir calça Lee, muitos deles usando barba, parecidos com o guerrilheiro Che Guevara, que tinha morrido um ano antes na selva boliviana? O que ia na cabeça daqueles moços e moças que liam com tanto interesse as obras de Mao Tsé-Tung, presidente da República da China, e Lênin, o líder da Revolução Russa de 1917?

O sonho deles era a revolução. Essa palavra tinha uma estranha magia para aqueles jovens, pois resumia os seus desejos de amor, justiça e felicidade. Ela traria para o Brasil o fim da miséria, da violência, da divisão de classes.

- O dever de todo revolucionário é fazer a revolução, eles diziam, repetindo a afirmação de Che.

Cuba era um exemplo a ser seguido. Naquela ilha do Caribe, menor que o estado de Alagoas, um grupo de guerrilheiros derrubou, em 1959, o ditador Fulgêncio Batista e implantou um governo popular e socialista.

Porém, tal como o movimento de maio na França, as lutas estudantis no Brasil não duraram muito. O governo Costa e Silva criou um grupo de trabalho para fazer a reforma universitária (nenhum de seus membros foi escolhido pelos estudantes). E a polícia foi tomando conta das ruas, terminando com as passeatas. O Congresso da UNE, realizado em outubro, nem terminou: cerca de mil representantes foram presos no próprio local do encontro.

As manifestações de rua acabavam, mas os protestos contra o governo não pararam. Os bispos da Igreja Católica estavam entre os que mais criticavam o regime. Eles citavam sempre a encíclica do papa Paulo VI, Populorum Progressio (O Desenvolvimento dos Povos).

Num de seus trechos, ela dizia: "Não é lícito aumentar a riqueza dos ricos e o poder dos fortes, confirmando a miséria dos pobres e tornando maior a escravidão dos oprimidos".

Estava acontecendo isso no Brasil?

Muitos deputados do MDB achavam que sim. E sempre que podiam faziam discursos criticando o governo. No final de 1968, o deputado Márcio Moreira Alves fez afirmações que os chefes militares consideraram uma ofensa às Forças Armadas. Ele pedia ao povo para não comparecer à parada militar do Dia da Independência, dizendo que "ainda não somos independentes" e que "os militares não merecem os nossos aplausos".

O governo exigiu que o Congresso Nacional processasse o deputado, mas isto não foi feito.

A reação do Governo Militar então foi violenta: decretou o Ato Institucional n. 5, que permitiu ainda mais cassações de mandatos, fechou o Congresso Nacional por tempo indeterminado e levou para a cadeia dezenas de pessoas.

Muitos deputados quiseram que o presidente da Câmara, José Bonifácio de Andrada, a convocasse para tomar uma posição. Ao ser procurado por um grupo do MDB, José Bonifácio, que era da ARENA, respondeu seco:

- Uma bravata inútil.

- A Câmara, que se reúne a propósito de tudo, não pode omitir-se diante do que está ocorrendo, respondeu-lhe o deputado Martins Rodrigues, do MDB.

- Já não existe Câmara, reagiu irritado José Bonifácio. Hoje, aqui, não passamos de um ajuntamento.

Revoltado com o conformismo de José Bonifácio - um descendente do "Patriarca da Independência" -, outro deputado da oposição, Celso Passos, replicou:

- Seja menos Zezinho e mais Andrada, senhor presidente!

Zezinho retrucou... com uma bravata!

A nova situação política do Brasil provocou reações em muitos setores da sociedade.

- O AI-5 é um golpe dentro do golpe, acusaram deputados da oposição, que viam o movimento de 1964 como um golpe e não uma revolução.

[...]

A reação política mais grave viria dos grupos de esquerda, nos quais havia muitos estudantes universitários. Liderados principalmente por ex-integrantes do Partido Comunista Brasileiro, como Carlos Mariguela e Apolônio de Carvalho, esses grupos decidiram iniciar uma luta armada contra o governo:

- Todas as formas de participação estão bloqueadas. Só de armas na mão a ditadura cai! Só organizando a guerrilha na cidade e no campo conseguiremos atrair os trabalhadores, que são os mais oprimidos!

As Forças Armadas, que já se preparavam para combater esses movimentos, iriam permitir?

A primeira etapa da luta armada contra o governo seria a da organização. Grupos clandestinos começaram a se preparar militarmente, e decidiram iniciar uma luta armada contra o governo: Ação Libertadora Nacional (ALN), a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e outros. Como sobreviver e preparar a guerrilha? Era necessário ter fundos, dinheiro. Por isso foram realizados muitos assaltos a bancos.

No início de 1969, um capitão do Exército, Carlos Lamarca, abandonava o seu quartel, em São Paulo, com alguns companheiros, carregando fuzis e metralhadoras. Muitos jovens, alguns deles estudantes secundários ainda, deixavam suas famílias para "fazer a revolução"!

[...]

Iniciava-se uma verdadeira guerra entre as forças militares e os grupos da esquerda armada. Como em toda guerra, muitas pessoas foram vitimadas, mesmo sem ter entrado nos combates. O sonho desses jovens de construir um governo popular e socialista logo daria lugar ao pesadelo das prisões, torturas e mortes.

[...]

Com o correr do tempo, os grupos guerrilheiros seriam derrotados. O sonho logo acabaria para uma geração [...].

ALENCAR, Chico et alli. Brasil vivo: uma nova história da nossa gente - 2. A República.  Petrópolis: Vozes, 1991. p. 210-220.