"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 3 de abril de 2017

Billie Holiday, diva do jazz

Billie Holiday, 1949.
Foto Carl van Vechten

Na tarde de 1º de dezembro de 1955, os 50 mil habitantes negros do bairro de Montgmery, no Alabama, Estados Unidos, estavam em polvorosa. A secretária da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), que lutava pelo fim da segregação racial, Rosa Parks, tinha sido presa por ter utilizado um assento no ônibus, reservado por lei para brancos. Em 1954 o Supremo Tribunal dos Estados Unidos tinha declarado ilegal a discriminação racial nos colégios. Isso impulsionou a numerosa comunidade negra a empreender diversas lutas contra o racismo. O ápice desse processo se deu no dia do julgamento de Parks. Um boicote geral aos transportes foi marcado, contando com cerca de 90% de participação da comunidade negra local. Rosa Parks foi considerada culpada. O boicote foi ampliado. Nesse cenário, um jovem de 26 anos desponta como uma liderança capaz de aglutinar desejos, anseios por mudanças numa sociedade profundamente desigual. Seu nome era Martin Luther King, ou para alguns posteriormente, como o presidente Barack Obama, apenas o rei. Devido à forte atuação de Luther King, o boicote atingira seu objetivo, e em 13 de novembro de 1956 o Supremo Tribunal confirmava a decisão de um Tribunal Distrital transformando em inconstitucional a separação dos lugares dos ônibus de acordo com as raças. Essas vitórias judiciais vieram com duras e constantes lutas do movimento negro para se tornar reais, chegando ao ponto de o presidente D. Eisenhower ter de enviar tropas de paraquedistas para fazer cumprir o direito dos estudantes negros e brancos a uma educação comum. Foi nesse tumultuado contexto que a mais comovente cantora de jazz, Billie Holiday, narrou sua autobiografia.

Lançada nos Estados Unidos em 1956, a autobiografia, escrita com a colaboração do jornalista William Duft, da musa do jazz Billie Holiday, Lady Sings the Blues, foi fortemente influenciada pelo contexto das lutas raciais, da qual ela foi importante ativista. [...]

Com um estilo único e muito mais ligado ao jazz do que ao blues, a cantora americana Billie Holiday dava às músicas uma interpretação única que envolvia ao mesmo tempo uma técnica muito pessoal e uma dramatização vocal, transformando em belos sons músicas muitas vezes simples. Poucos foram os cantores ou cantoras que conseguiram influenciar músicos instrumentistas tão variados como os clarinetistas Artie Shaw e Tony Scott, o saxofonista Lester Young e os trompetistas Buck Clayton e Miles Davis, este último reconhecido como um dos principais músicos do século XX, além, é claro, de sua forte influência em cantores como Frank Sinatra e Ella Fitzgerald. Por não ter estudado música nem tampouco fazer leitura de partituras, talvez a única grande influência externa à obra de Holiday tenha sido o cinema, de onde tirou seu nome artístico em homenagem a atriz Billie Dove. Essa influência que o cinema exerceu no início desse modelo de canção não é perceptível apenas nas escolhas de Billie Holiday, podemos lembrar que Eunice Waymon adotou o nome Nina Simone em homenagem à atriz Simone Signoret.

Nascida no estado da Filadélfia em 1915, Eleanor Fagan, filha do músico Clarence Holiday e de Sarah Fagan, sua vida foi marcada por traumas e abandonos que a conduziram a um temperamento forte e, muitas vezes, impaciente e rude. Desde quando ainda era muito criança, seu pai saiu em excursão com sua banda e, a partir de então, ficou apenas com sua mãe, que ora a deixava com parentes, ora com vizinhos. Muito cedo começou a trabalhar como empregada e com 10 anos sofreu abusos sexuais de um vizinho, marcando para sempre sua vida. Aos 14 anos passou a morar definitivamente com sua mãe em Nova Iorque, onde começou a prostituir-se. Aos 15, então, começa seu contato mais próximo com a música. Desde cedo, quando trabalhava como empregada, Holiday pagava para escutar discos na casa de uma família. Seu dinheiro era gasto no aluguel de uma vitrola em que pudesse escutar seus discos prediletos, ou, em larga medida, os discos possíveis. Suas principais influências foram a popular cantora da década de 1920 Bessie Smith, conhecida como "A imperatriz do blues", e o trompetista Louis Armstrong, que, mesmo com estilos diferentes daqueles apresentados por Holiday ao longo da carreira, tiveram importância basilar em sua vida. Sua carreira teve início no Harlem, região com várias casas de música onde diariamente se apresentavam os mais variados músicos de jazz dos anos 1930. Depois de alguns anos cantando em casas noturnas, gravou seu primeiro LP com a banda do famoso clarinetista judeu Benny Goodman.

A partir de então sua carreira deslancha, chegando a gravar com as renomadas big bands de Artie Shaw e Count Basie. Seu sucesso passou a representar não só sua vitória pessoal, mas também a vitória do movimento negro contra o apartheid nos Estados Unidos, visto que ela foi a primeira negra a cantar com uma big band.

A música If my heart could talk fala de sonho, amor, e representa parte do que Billie Holiday sempre desejou. Ela teve relacionamentos com vários músicos, cineastas, artistas, e seu casamento foi um desastre, a conduzindo a um rude rompimento e uma profunda depressão. Na década de 1940, já estava presa ao mundo das drogas, sendo detida, processada, tendo shows cancelados e seu cabaret card cassado pela polícia, o que a proibia de cantar em bares que vendessem bebidas alcoólicas. O mundo das drogas, com uma constante pressão da mídia por conta de seus internamentos para tratamento, levou Holiday a um beco sem saída. O alcoolismo e a cocaína enfraqueceram sua já fragilizada saúde, levando Holiday a diversos problemas no fígado e coração. Com 44 anos, em 1959, o mundo perdia a voz mais singular do jazz, que morreu da forma como começou: simples, presa ao medo de não ser lembrada e amada. Holiday morreu com setenta centavos no banco e 750 dólares em notas grandes presos em sua meia. Junto com a cantora francesa Édith Piaf e com o pianista e cantor Ray Charles, foi uma das figuras mais polêmicas e discutidas de sua geração. Desde sua aparição no cinema em New Orleans, onde interpretava a empregada Endie, até suas canções de maior sucesso, como Strange fruit, que conta a história dos linchamentos sumários e das execuções públicas de negros nos Estados Unidos do século XX utilizando-se de metáforas extremamente singulares e chocantes, todos foram rodeados por muitas histórias de uma cantora que falou em forma de vida, uma vida contada e cantada. O compositor e ativista Josh White relembra o quanto Strange fruit era mais do que uma canção para Billie Holiday:

Ouvi o disco de Billie, e era algo tão forte que percebi que a canção [Strange Fruit] deveria ser usada para abrir os olhos das pessoas a certas coisas que não deveriam existir. Não queria lhe roubar nada. Amava sua interpretação da canção, mas queria apresentar Strange Fruit do meu jeito. Expliquei isso a Billie e acho que ela entendeu, depois veio frequentemente ao Café - em geral para o último espetáculo [...]. Por vezes arrastava-se e nem sequer entrava. Vinha de carro ao Village e sentava-se do lado de fora, ouvindo o rádio do carro, em companhia do seu grande boxer, Mister. Então começávamos a rodar de automóvel por todos os locais que ainda estavam abertos [...].

Falar de Billie Holiday, ou melhor, de Lady Day, como a chamava Lester Young, é ao mesmo tempo lembrar-se do quão popular foi o jazz e do quanto alguém conseguiu mergulhar em seu próprio tempo.

Mais do que uma singularidade complexa, Billie Holiday é, sem quaisquer dúvidas, uma das principais representantes da difusão do jazz e do blues nos Estados Unidos do início do século XX. Ultrapassando os núcleos de preconceitos raciais, Billie conseguiu atingir uma gama enorme de ouvintes ainda em vida e, a partir daí, demonstrar as fragilidades da sociedade americana. O famoso historiador inglês Eric Hobsbawn, em seu livro História Social do Jazz, estava correto quando afirmou que o jazz representou, em grande medida, uma forma de inserção social dos negros na preconceituosa sociedade norte-americana. O jazz em sua raiz é uma música popular tanto do mundo rural do sul quanto do urbano do norte. E, segundo o próprio Hobsbawn, algumas de suas caracterísitcas, mais no que concerne ao popular, foram mantidas por toda sua história: a importância da tradição oral na transmissão, a improvisação e velocidade de trocas e execução, dentre outros. Muitos desses aspectos podem até ser pouco reconhecidos no jazz contemporâneo, mas isso só comprova a tese de que é uma arte que não está morta, ao contrário, se mostra em constante desenvolvimento e dinamismo, ainda vinculada diretamente às percepções da sociedade nas quais está inserida.

SOUZA NETO, José Maria Gomes de [et alli]. Pequeno dicionário de grandes personagens históricos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2016. p. 383-87.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Sou negro

Capoeira, Augustus Earle


Sou negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh' alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gonguês e agogôs.

Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.

Depois meu avô brigou como um danado
nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso.

Mesmo vovó
não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou.

Na minh' alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação.

TRINDADE, Solano. In: Suplemento literário do jornal O Estado de Minas Gerais. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, n. 1 098, 7 maio 1988. p. 24.

domingo, 9 de junho de 2013

O remédio dos bandeirantes

A morte do bandeirante, Antônio Parreiras

A capitania de São Vicente, em cujo litoral se fundou a primeira vila brasileira, logo ficou isolada de outras áreas vinculadas à lavoura de exportação. O Engenho do Senhor Governador não tinha condições de concorrer com seus congêneres nordestinos; a lavoura canavieira ali não iria para frente, ao contrário do que indicava o esforço inicial da colonização. Sua prosperidade (que nunca beneficiou os trabalhadores negros e índios) foi efêmera.

O que explica esse declínio? A distância dos mercados consumidores é um fator que não atraía os capitais mercantis. Durante muito tempo, apenas um barco metropolitano por ano aportou no ancoradouro vicentino. A estreiteza da baixada litorânea e a pobreza de seus solos também não estimulavam os esforços agrícolas. Nessas condições e expostos a ataques marítimos de contrabandistas, os vicentinos subiram a serra do Mar.

Essa transferência de parte da população para o planalto, onde se localizavam as vilas de Piratininga e Santo André da Borda do Campo, resultou em maior isolamento e no aguçamento da pobreza. Para os primeiros paulistas, milho, sal e farinha de mandioca constituíam a dieta principal. Poucas trocas, pequeno consumo, economia de subsistência, com a produção de alguns gêneros similares aos europeus e reduzida exportação para o Rio de Janeiro, em certas épocas. Vida monótona, apagada, a lembrar as velhas aldeias portuguesas, assim era Piratininga:

"Coberto de sapé era tudo o mais: a igreja, a cadeia, a casa do Conselho. Esta, em 1580, caiu, passando a Câmara a reunir-se na casa de um outro vereador. Só em 1585 é que se está em via de construção de nova casa, que serviria também para cadeia." (MOTA, Otoniel. Do rancho ao palácio. São Paulo: Nacional, 1941. p. 10)

A essa pobreza correspondia o isolamento político. É ele que determina o episódio curioso da Aclamação de Amador Bueno, em 1641, quando chega à capitania e à vila de São Paulo a notícia da restauração da monarquia portuguesa. Possivelmente insuflados por espanhóis, que frequentavam muito a região, os paulistas decidiram não aceitar a vinculação com a nova dinastia portuguesa de Bragança. E aclamaram Amador I, rei de São Paulo! Realista - e sem querer ser rei -, Amador teve de se refugiar num convento até que a exaltação autonomista dos seus conterrâneos passasse.

Quem passeia hoje pela capital paulista não imagina que os poluídos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí já representaram a grande esperança dos poucos paulistanos do início do século XVII. Esperança de ganhar o sertão, para encontrar remédio para sua pobreza. A suave inclinação dessas vias fluviais para o interior favorecia isso. Os versos de Guilherme de Almeida, no Monumento aos Bandeirantes, no Ibirapuera, tentam retratar a epopéia:

"Brandindo achas e empurrando quilhas
Vergaram a vertical de Tordesilhas!"


Monumento às bandeiras, Vitor Brecheret 

De início, ainda no século XVI, foi o ciclo do ouro de lavagem. Homens como Luís Martins e Brás Cubas (fundador da vila de Santos) descobrem ouro na própria capitania de São Vicente. Realiza-se a exploração do litoral na direção sul e Heliodoro Eobanos separa do cascalho do leito dos rios o metal precioso, a partir de Iguape. Jerônimo Leitão realiza uma entrada e descobre ouro de aluvião na área onde surgiria logo um núcleo de povoamento, Curitiba, só elevada à condição de vila em 1693.


Caçadores de bugres retornando com escravos presos nas matas de Curitiba,  Jean-Baptiste Debret 

Essa expansão bandeirante à cata de ouro teve efeitos colonizadores no litoral do Paraná e de Santa Catarina. Seguidores dos primeiros vicentinos prosseguem explorando a região e fundam as vilas de Paranaguá, São Francisco do Sul, Nossa Senhora do Desterro (hoje Florianópolis) e Laguna, a partir da segunda metade do século XVII.

A importância desse ouro aluvionário é atestada pela própria medida administrativa tomada pela metrópole, instalando entre 1608 e 1612 a repartição Sul (separada do Estado do Brasil) e decretando o Código Mineiro, ainda no início do século XVII, pelo qual o governo garantia para si a quinta parte da produção e autorizava a fundição do ouro em barras em casas especiais.

O surgimento desses núcleos coincide com o declínio da atividade do garimpo. A pecuária vai manter a ocupação.

[...] é prática comum das áreas com poucos recursos a escravização do nativo. Em São Vicente isso sempre aconteceu. Os colonos, muitas vezes, estimulavam as malocas - expedições de índios para aprisionar e escravizar índios inimigos. Essa reação acaba virando um grande negócio.

Entre 1617 e 1641 a Holanda monopoliza o fornecimento de escravos ao Brasil. A Companhia das Índias Ocidentais controla as praças de São Jorge da Mina, São Tomé e São Paulo de Luanda, gerando grande escassez de mão-de-obra nas áreas fora do controle flamengo. Quem tem monopólio impõe os preços.

O índios torna-se mercadoria altamente valorizada e mais uma vez os paulistas vão vislumbrar a possibilidade de curar sua pobreza: é o ciclo da caça ao índio. Mais uma vez os choques com os jesuítas vão se acirrar. Um dos momentos importantes desse atrito é o movimento ocorrido em São Paulo do campo de Piratininga, em 1641, quando os colonos indispostos com a Companhia de Jesus tentam realizar a "botada dos padres fora", além de aclamar seu rei.

O nativo das missões, acostumado ao trabalho agrícola em regime semi-servil, será o objeto da ação dessas bandeiras comandadas pelos vicentinos. Elas mobilizavam toda a vila, onde só permaneciam mulheres, crianças e velhos. É importante destacar que os índios são o maior contingente: no ataque à região missioneira de Guairá, em 1629, Antônio Raposo Tavares e Manuel Preto comandam 69 brancos, 900 mamelucos e 2.000 índios auxiliares. É a guerra fratricida na terra de Pindorama.

"Os paulistas, conhecidos também pelo nome de mamelucos, tinham levado a cabo pequenas expedições contra guaranis, desde 1618. Em 1628 e nos anos seguintes marcharam com autênticos exércitos. Caíram primeiro de surpresa sobre a redução de Encarnación, que devastaram. Os trabalhadores dispersos pelos campos foram postos a ferro e levados; os recalcitrantes, massacrados. As crianças e os velhos muito fracos para seguirem a coluna em marchas forçadas, foram igualmente mortos pelo caminho." (Relatório dos jesuítas Duran e Crespo, apud LUGON, C. A República Comunista Cristã dos Guaranis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968. p. 46)

As reduções dos jesuítas espanhóis foram as escolhidas para o ataque. Elas acompanhavam a ocupação castelhana no oeste do atual Paraná, onde desde o século XVI existiam a Ciudad Real del Guairá e a Villa Rica del Espírito Santo. Em 1631 também elas são destruídas. Após os primeiros ataques, devastadores, favorecidos pela omissão das autoridades espanholas em função da vigência da União Ibérica, os jesuítas migram e formam novos aldeamentos, a sudoeste do atual Mato Grosso do Sul e centro-oeste do atual Rio Grande do Sul. Ali desenvolvem a criação do gado bovino e eqüino.

A partir de 1632, as missões do Itatim, Tape e Uruguai são atacadas pelas bandeiras paulistas, forçando a retirada dos jesuítas para a margem direita do rio Uruguai.

Com o fim da União das Monarquias Ibéricas e o conflito luso-espanhol (1640-1668), Felipe IV dá ordens aos jesuítas de se armarem. Mas as vitórias que eles conseguem a partir daí se explicam mais pelo declínio do interesse na mão-de-obra. As praças africanas, nessa mesma época, estavam sendo reconquistadas pelos portugueses.

Em 1648, ano da retomada de Angola, Raposo Tavares volta a Itatim e realiza seu périplo, através do vale amazônico, retornando por via marítima a São Vicente. Percorrera 10.000 quilômetros durante três anos. Dos 1.200 componentes da sua bandeira, apenas 58 chegaram a Santo Antônio do Gurupá, nas proximidades de Belém. O pior, para o velho sertanista, era não ter conseguido aproximar-se de Potosí nem encontrado a tão sonhada prata...

Desvalorizado o escravo índio, rareado o ouro de lavagem, nunca encontrada a prata, os vicentinos buscam outras atividades. Uma delas está transcrita na Resolução do Conselho Ultramarino, organismo criado após a restauração Bragantina, para melhor explorar as colônias portuguesas: "o contrato que se fez é terem a sua assistência nos mesmos Palmares, para dali fazerem guerra aos negros levantados, sendo esta a causa principal para que foram chamados."

Trata-se do ciclo do sertanismo de contrato. Grandes proprietários pecuaristas, senhores de engenho do Nordeste e autoridades coloniais contratam vicentinos para a ação repressiva contra o principal obstáculo ao progresso colonizador: a resistência das tribos indígenas e dos negros aquilombados.

As primeiras lutavam pela sua permanência na terra, ameaçada pela expansão das plantações de cana-de-açúcar e pela pecuária extensiva. A desigualdade bélica determinou o extermínio de muitas comunidades primitivas rebeladas, como foi o caso dos Cariri, na Guerra dos Bárbaros ou do Açu. A repressão foi comandada por Domingos Jorge Velho e Matias Cardoso. Na dizimação dos autóctones também se destacou um não-vicentino, rendeiro da Casa da Torre, Domingos Afonso Mafrense, alcunhado "o Sertão".


Domingos Jorge Velho, Benedito Calixto

Quanto aos quilombos, caracterizavam claramente a luta dos escravos pela sua liberação e geravam uma reação violenta dos opressores, que viam nos mocambos uma ameaça a toda a estrutura colonial. A contradição entre os escravos e senhores chegou ao clímax na epopéia de Palmares. 

[...]

De fato, os negros de nenhum modo retornaram para as fazendas de seus ex-senhores. Após quase um século de lutas, o vicentino Jorge Velho, à frente de grande tropa, destruiu o último do quilombo.

No século XVIII, na região das Minas Gerais, as colunas do bandeirante Bartolomeu Bueno do Prado destruíram o quilombo do rio das Mortes.

Na segunda metade do século XVII, a situação de Portugal é crítica: o Tratado de Haia (1661) legalizou a perda da maior parte das suas colônias no Oriente; a Guerra de Restauração contra a Espanha (1640-1668) levou ao fim o lucrativo direito de asiento; as alianças europeias forçam o Estado português a fazer grandes concessões comerciais à Inglaterra, à França e às Províncias Unidas.

O Brasil, agora a principal área colonial lusa, será objeto de grande atenção por parte de Dom João IV, Dom Afonso VI e Dom Pedro I. O sonho era o mesmo dos tempos de Pero Vaz de Caminha, Martim Afonso, Tomé de Souza, Brás Cubas: a descoberta do Eldorado...

Animadas com o declínio da produção mineral na América Espanhola, as autoridades portuguesas incentivam a retomada das pesquisas minerais aqui. A depreciação do açúcar no mercado europeu determina a busca de outras atividades mais lucrativas.

Assim, em 1674 parte na direção do rio das Velhas a bandeira chefiada pelo mais rico e poderoso patriarca paulista, Fernão Dias Pais.

"Doenças, acidentes, deserções, combates com os índios iam dizimando paulatinamente a tropa. [...] Num dos momentos mais difíceis da aventura, o filho bastardo de Fernão, José Pais, compreendeu que a única maneira de retornar à casa seria matando o obstinado líder da bandeira. Mas Fernão descobriu a conspiração e quem morreu - enforcado à vista do arraial - foi José. E com ele seus companheiros de conjura." (MOREIRA DOS SANTOS, C. Jornal do Brasil, Caderno B, 27/04/1974)

O fracasso de Fernão não desanimou outros vicentinos como Garcia Rodrigues e Borba Gato. Em 1695, o governador do Rio de Janeiro comunica à corte a descoberta das primeiras minas, realizada por Antonio Rodrigues Arzão. Borba Gato vai descobrir mais tarde jazidas em Sabará. Sete anos depois, Bartolomeu Bueno [...] repete o feito em Goiás.


Partida da monção, Almeida Junior

As dificuldades desses desbravadores do interior brasileiro estão contadas no relato de um padre participante das monções (bandeiras fluviais que penetravam pelo Tietê, paraná e Pardo) na direção centro-oeste, citado por Capistrano de Abreu em Os caminhos antigos e o povoamento do Brasil: "depois de comidos os cachorros e alguns cavalos, fiz 35 sermões sem mudar de tema, animando a todos que não esmorecessem, certificando-lhes para diante dos rios de muitos peixes, campos de muitos veados, matos de muita caça, mel e guarirobas".

ALENCAR, Francisco et alli. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 58-63.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A Revolução Haitiana

Batalha em Santo Domingo, January Suchodolski

Os ideais europeus do século XVIII, como o de que "o homem nasce livre e igual em direitos" e de "liberdade, igualdade e fraternidade", também se espalharam para as praias do Caribe, onde foram traduzidos em questões sobre propriedade, trabalho e raça. Logo depois da Revolução Francesa (1789), fazendeiros brancos em Santo Domingo (o terço ocidental da ilha de Hispaniola, atual Haiti) receberam o controle das assembleias coloniais e uma grande parcela de autonomia. Então, na Assembleia Nacional de Paris, em 1791, respondendo às pressões da sociedade abolicionista europeia, Lês Amis des Noirs ("Os Amigos dos Negros"), aprofundaram a extensão dos direitos a todas as pessoas livres, incluindo mulatos (aqueles com mistura de raças), decretando que as "pessoas de cor, nascidas de pais livres" deveriam ter direito a voto nas assembleias coloniais. Os fazendeiros brancos exigiram que a lei fosse repelida e ameaçaram aliar-se ao império britânico se não fossem atendidos. Tanto os fazendeiros brancos quanto os mulatos começaram a se armar, e então o conflito que estourou entre eles ofereceu aos escravos a oportunidade de se revoltar.

Ataque e tomada de Crête-à-Pierro, Auguste Raffet

A ameaça potencial da revolta escrava de Santo Domingo foi enorme. A maior parte dos escravos, diferentemente daquelas nos Estados Unidos, era nascida na África, e eles formavam a maioria da população, superando em números outros grupos étnicos por uma razão de 30 para 1. Como o interior montanhoso da colônia oferecia amplos esconderijos inacessíveis, existiram várias comunidades de quilombos (em guerra pela liberdade). Crenças comuns, como aquelas da religião derivada da África do Vodum (Vudu), e o compartilhamento de mitos e heróis, uniu diversas populações escravas. Em 1791, os escravos do norte de Santo Domingo exigiram sua própria liberdade e se rebelaram; durante grande parte do período entre 1791 e 1792, ataques e revoltas escravas se espalharam pela ilha. Os franceses enviaram tropas com  relutância. Tentativas de negociação para restaurar a ordem colonial falharam ao tentar ganhar o apoio de escravos. Em 1793, a Assembleia Nacional Francesa garantiu a emancipação dos escravos, um ato que liberou os negros e irritou ainda mais os fazendeiros, que aceitaram o auxílio dos britânicos (os quais estavam alarmados com a possibilidade de que a rebelião escrava pudesse se espalhar para suas colônias) contra os escravos rebeldes.

O general Toussaint L'Ouverture, Artista desconhecido

Mais de 100 mil escravos participaram da rebelião sob a liderança de Toussaint L'Ouverture (1746-1803), o filho instruído de pais escravos. Em seus esforços para libertar seus companheiros negros escravos, Toussaint lutou durante uma década contra a intervenção, e o bloqueio das nações escravocratas (França, Grã-Bretanha, Espanha e Estados Unidos), e até mesmo contra a oposição dos mulatos. Em 1801, ele e seus apoiadores controlaram toda a ilha de Hispaniola, mas muitas batalhas foram travadas antes da vitória final estabelecer a independência do Estado-Nação do Haiti.

Uma vez que Napoleão assumiu firmemente o controle na França, ele enviou um enorme exército para invadir Santo Domingo. L'Ouverture foi induzido a se encontrar com os franceses, e foi traçoeiramente capturado e levado para a Europa, onde foi aprisionado e depois morto em 1803. Jean-Jacques Dessalines e Henri Christophe continuaram a luta no Haiti; a tenacidade negra e a febre amarela derrotaram os massivos esforços franceses de recuperar o controle de Santo Domingo. Em 1º de Janeiro de 1804, a independência da metade ocidental de Hispaniola foi proclamada, à nova nação foi dado o nome de Haiti. Mas a independência veio com um alto preço, deixando o país empobrecido e infestado de disputas políticas pelos próximos 200 anos.

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 214-215.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O "problema negro" nos Estados Unidos após a Guerra Civil

Marcha pelos Direitos Civis, Washington

O problema negro - a escravidão - não foi o cerne da Guerra de Secessão. Lincoln, apesar de ter horror à escravidão, era reticente quanto à igualdade de direitos entre brancos e negros, chegando a dizer que: "Se pudesse salvar a União, sem libertar nenhum escravo, o faria."

Os negros, libertados durante a guerra civil, ficaram sem propriedade porque não houve reforma agrária nos EUA, e nem a União cumpriu o que havia prometido: 40 acres de terra e uma mula para cada família.

Quando o exército nortista abandonou o Sul, os negros que haviam obtido o direito de voto, sem nenhuma propriedade, ficaram sem respaldo e se espalharam pelos Estados Unidos à procura de trabalho, migrando para Norte e Oeste, onde havia escassez de mão-de-obra.

O sucessor de Lincoln, Andrew Johnson, procurou restabelecer no Sul governos estaduais semelhantes aos que ali existiam antes da guerra. Os líderes confederados foram anistiados e quase nada mudou politicamente nos estados do Sul. É necessário dizer que, logo após a vitória, a ocupação militar do Sul implicou a alforria de todos os escravos e a proibição do direito de votar a todos os ex-líderes confederados. Os governos sulistas passaram a ser dependentes dos votos negros e dominados por brancos favoráveis à União. A partir de 1877, o governo federal foi retirando a sua força militar do Sul, e as comunidades brancas foram recuperando seu poder. Nesse mesmo ano, os sistemas político, social e econômico do Sul eram semelhantes aos de antes da guerra, com uma única diferença: o negro era agora um trabalhador sem terra e não mais um escravo. No dizer de McKitrick "no esforço geral para reconstruir a estrutura desmantelada pela guerra civil e pela restauração, até as pequenas conquistas do negro - para não falarmos nos direitos sociais mínimos que ele adquirira  [...]. - lhe foram sistematicamente retiradas". Os estados sulistas começaram a impor sistemas de segregação social e de abolição dos direitos civis dos negros. Mais ou menos no início do século XX, o processo de segregação do negro estava completado.

Os negros, quando queriam lutar por seus direitos civis, eram ameaçados pelas organizações terroristas que agiam implacavelmente no Sul, como a Ku-Klux-Klan.

Nos princípios do século XX, a mecanização da agricultura expulsou grandes massas de trabalhadores rurais negros para as cidades do Norte. Nessas cidades, ficavam segregados nos chamados guetos negros e ocupavam os serviços rejeitados pelos brancos. Os negros eram discriminados nos seus locais de trabalho, nos jardins públicos etc. Mas assim mesmo a vida nas cidades do Norte era melhor do que do Sul, onde eram surrados e ate linchados.

A situação dos negros nos guetos do Norte foi magistralmente descrita por Hughes, um poeta negro, nos seguintes versos:

"Que fazer?
Aqui ao lado do inferno
Está o Harlem
Que recorda as eternas mentiras
As eternas patadas no traseiro
O eterno sed pacientes
Que nos disseram tão amiúde
Por certo que o recordamos
Porém quando o garoto do bazar da esquina
Nos diz que o açúcar voltou a subir dois centavos
E o pão um centavo
E que há novas taxas para o cigarro...
Então recordamos o emprego que jamais tivemos
Que jamais podemos ter
E que agora não temos
Porque somos gente de cor
Então ficamos aí
Ao lado do inferno
No Harlem
E olhamos de costas o mundo
E nos perguntamos o que vamos fazer
Com todas estas recordações aí
Diante de nós."

Com a Primeira Guerra Mundial, que mobilizou toda a economia e força de trabalho americanas, o negro teve a sua primeira oportunidade de ascensão "à condição de operário e de cidadão". Não como eleitor, mas como soldado.

Finda a guerra, o negro perdeu todas as posições conquistadas.

Durante a grande crise econômica de 1929, devido ao desemprego em massa, os brancos passaram a ocupar os postos subalternos que antes recusavam. Os negros foram maciçamente desempregados e o número de negros desocupados era proporcionalmente maior ao de brancos.

A Segunda Guerra Mundial deu ao negro uma nova chance mais igualitária na luta e no trabalho. O negro comportou-se bravamente na guerra. Era a única forma de recuperar a dignidade que lhe haviam tirado. A Divisão Búfalo do exército americano, composta somente de negros, foi uma das melhores da Segunda Guerra Mundial.

Nos anos do pós-guerra recrudesceu a violência contra o negro altivo, que havia participado da guerra e trabalhado na grande indústria. A partir daí, os negros americanos se organizaram melhor do que nunca, para a conquista da igualdade social e dos direitos civis. Os negros e muitos brancos também haviam tomado consciência da injustiça que significa a segregação racial.

O novo negro, que lutava em grandes manifestações pelos seus direitos civis em 1960, tinha como motivação a independência das ex-colônias africanas, onde os negros derrotaram os ex-colonizadores brancos. O negro americano, com isso, sentiu-se forte para lutar contra a segregação. Segundo Darcy Ribeiro, "o negro americano passou a constituir a vanguarda do movimento revolucionário mais ativo dos Estados Unidos de nossos dias. Toma, desde então, em suas mãos, a luta pelos seus próprios direitos..."

Durante a década de 70 houve uma série de insurreições negras contra a segregação racial. Mas não só de insurreições passou a ser feita a luta dos negros. Utilizaram-se também de passeatas e boicotes às empresas que promoviam a segregação racial.

Devido à luta dos negros pelos direitos civis, o governo federal americano em 1966 elaborou e colocou em prática a Lei dos Direitos Civis, proibindo a segregação racial. Mas, na verdade, os direitos civis dos negros ainda não estão assegurados. No Sul a lei praticamente não é cumprida, e no Norte a comunidade negra é marginalizada econômica e socialmente.

CÁCERES, Florival. História da América. São Paulo: Moderna, 1986. p. 113-115.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Rebeldias e sublevações na América espanhola: os negros

Negro cimarrone. Gravura do século XVIII

As manifestações de rebeldia negra vão desde a atitude permanente individual até a fuga em grupos e as insurreições coletivas. Individualmente, o negro expressa sua resistência à escravidão tentando trabalhar da maneira mais lenta possível, destruindo os instrumentos de trabalho. Recorre aos seus deuses ancestrais na procura de socorro e faz suas orações invocando os espíritos contra seus amos. Se há oportunidade, comete atentados contra o senhor e seus capangas, levado por um acesso de fúria ou mesmo de maneira sigilosa e fria.

Na Venezuela, a primeira concentração de escravos africanos é encontrada na mina de ouro de Buria, em 1550. Logo se rebelam, fogem do acampamento mineiro, criam um pequeno exército e, em conjunto com os índios, avançam sobre Barquisimero. Nas minas colombianas, entre 1750-1790, os escravos deflagram o que Jamillo Uribe define como uma verdadeira guerra civil. Um dos resultados desse movimento é o surgimento de vários palenques, redutos de negros livres, equivalentes aos quilombos brasileiros. Mas, o surgimento dos palenques é anterior a esse movimento. Em 1599/1600 o escravo Dionisio Bicho funda palenque San Basilio, que se prolonga no tempo e durante o século XVIII chega a ter existência oficial.

Em 1749, em Caracas, correm rumores de que os negros preparam uma rebelião. A autoridade reprime violentamente. Em 1795 começa a rebelião em Coro, comandada por José Leonardo Chirino [...]. Ainda na Venezuela e em 1810 [...] o número de negros (mas também o de índios e mestiços) fugitivos é maior que dos que estão sob controle. As rebeliões e fugas formam uma população flutuante que vive nas  montanhas; são os chamados cimarrones que em 1721 são calculados por volta de 20.000, isto é, 10% ou mais da população africana existente na Venezuela.

Nas montanhas da região fronteiriça entre o São Domingos espanhol e Saint Domingue (depois Haiti) francês, existem comunidades de fugitivos (cimarronas) de ex-escravos. Originam-se do lado francês da ilha e são chamados Negros do Maniel. Durante 50 anos é impossível fazê-los abandonar seu refúgio. Em 1786, a monarquia espanhola dá a anistia e eles aceitam viver num povoado perto da fronteira, onde lhes é permitido viver em liberdade. Em troca das concessões outorgadas pela Coroa, os Negros de Maniel se comprometem a entregar à autoridade os fugitivos que daí em diante cheguem ao povoado. Mais ainda: receberão 50 escudos por escravo fugitivo que entregarem.

No Cabo Beata, ainda em São Domingos, uma comunidade de negros também vindos de Saint Domingue mantém uma economia regular de subsistência, com cultivos e criações de aves e animais domésticos. A autoridade francesa solicita à espanhola que esta permita o envio de uma tropa para "caçar" os fugitivos. Mas a reação da população branca vizinha do lugar os impede. Generosidade? Muito mais seu interesse em manter os negros ali: mão-de-obra barata (bastante escassa) e, em algumas ocasiões, sem pagamento algum. Os negros das plantações de cana da colônia francesa que fogem para o lado espanhol, são recebidos como verdadeiro presente do céu pelos criadores de gado e outros fazendeiros brancos que os acolhem como diaristas ou como simples agregados em troca de trabalho que, como já foi dito, é menos penoso do que o trabalho nas plantações de cana e engenhos. Com os chamados negros Minas, da mesma origem, forma-se a aldeia de San Lorenzo de Minas em 1692, com uma população que oscila entre 400 e 500 habitantes.

O [...] Abade Raynal lembra que na Jamaica, quando os espanhóis são obrigados a deixar a ilha nas mãos dos ingleses, grande número de negros e mulatos aproveita a ocasião para fugir para as montanhas e nelas encontrar a liberdade que lhes é negada entre os brancos. Plantam milho e cacau e enquanto as plantações crescem, descem à planície para roubar alimentos. "A política - diz o Abade - que tem olhos mas não coração, exige que se extermine esse bando de fugitivos", referindo-se aos cinquenta ou sessenta negros que conseguem sobreviver à intensa repressão. As tropas enviadas ao seu encalço, logo sentem a fadiga de um combate contra fantasmas escorregadios que fazem das montanhas e florestas um refúgio que desespera seus perseguidores. A autoridade renuncia a continuar a busca: o risco de uma sublevação das suas próprias tropas não recompensa os eventuais benefícios da captura. Mas os fugitivos aumentam em número. Em certas ocasiões, fogem em grupos matando seus amos, roubando as casas e incendiando-as. A repressão renova-se: emprega assalariados que recebem 900 libras por negro massacrado, cuja cabeça deve ser apresentada como prova para o recebimento do dinheiro prometido. Tudo em vão. Os ingleses constroem fortes, usam artilharia, militarizam toda a colônia, e todos os seus recursos são colocados a serviço da imposição da paz dos cemitérios. Os negros continuam incendiando as plantações e nem os selvagens índios mosquito que são usados contra eles conseguem alguma coisa de efetivo. A Jamaica, todo o Caribe, as Guianas, a Terra Firme, são povoadas pelos fugitivos. São milhares. Formam comunidades. Organizam sua vida. Produzem e se defendem. Procuram recuperar uma parte da humanidade que lhe foi roubada.

A fuga massiva de africanos para áreas mais distantes amplia o cruzamento com mulheres índias. As tribos guerreiras do distrito de Esmeraldas, sob a jurisdição da Audiência de Quito (Equador), e as da Costa de Mosquito na Nicarágua, são produtos deste cruzamento.

A América espanhola está cheia de "vagabundos". As autoridades se queixam, reclamam, reprimem, mas a vagabundagem aumenta. Negros e mestiços se introduzem nas aldeias índias. Criam conflitos. Como têm de viver, apossam-se das terras dos índios. Nas planícies do Orenoco surge um tipo de marginal com alta porcentagem de sangue africano: o habitante das planícies. Na fronteira do sul do Chile, região de gado, prosperam os desocupados; o mesmo se verifica nas planícies argentinas da região de Buenos Aires e nas áreas da fronteira do norte do Uruguai e parte do Rio Grande do Sul, no Brasil. A economia pecuária da região do México chamada El Bajio atrai grande quantidade desses errantes. Certamente, e não casualmente, em 1810, nessa região, há a rebelião popular que inicia a guerra da independência encabeçada por Allende e pelo padre Hidalgo.

[...]

POMER, León. História da América Hispano-indígena. São Paulo: Global, 1983. p. 124-125.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Gangues do Rio de Janeiro imperial


Durante o Império, as maltas de capoeira atemorizaram a capital. Escravos renegados usavam esse misto de dança e luta para desafiar seus senhores e controlar bairros inteiros da cidade
por Maurício Barros de Castro


Rio de Janeiro, século XIX. Os moradores do atual bairro da Lapa estão reunidos para assistir ao desfile de uma banda militar quando, de longe, avistam um grupo de negros que aparece à frente dos músicos, gingando e dando rasteiras. Eles se aproximam. Começam a exibir suas navalhas e ameaçar o público, tanto verbal quanto corporalmente. A multidão se assusta. Todos sabem o que significam aqueles movimentos: é a temível capoeira que desfila pelas ruas da cidade. 


Jogar capoeira, Rugendas

É comum ouvir que essa mistura de dança e luta nasceu no ambiente rural dos quilombos e senzalas, mas os estudos recentes mostram que a capoeira se desenvolveu em diversas cidades portuárias que receberam grande contingente de africanos escravizados, como o Rio de Janeiro. O jogo adquiriu características próprias na capital do Império, onde foi usado pelos escravos “ao ganho”, aqueles que trabalhavam nas ruas da cidade, como instrumento tanto de resistência ao sistema de servidão quanto de controle de determinados territórios.

Os capoeiras, como eram chamados os escravos rebeldes que percorriam os bairros hostilizando os cidadãos, se organizavam em maltas, grupos que funcionavam como espécies de gangues e controlavam áreas específicas da cidade. Temidos pela população, esses bandos eram frequentemente citados nos documentos policiais como uma ameaça à ordem pública, e a capoeira sofreu uma perseguição devastadora no Rio de Janeiro no início da República.

Ocupando territórios delimitados pelas freguesias – como eram chamados os bairros demarcados a partir das igrejas católicas –, o capoeira escravo vivia uma vida dupla entre a casa do senhor e a rua, onde trabalhava carregando água e dejetos, vendendo produtos para o comércio da capital, entre outros afazeres. A rua também era o espaço dos encontros, da organização, das festas, das fugas, dos ataques e onde aprendiam capoeira, que era utilizada nas brigas em grupo ou nos confrontos individuais, fosse à luz do dia ou na escuridão das ruelas e becos que formavam o núcleo da cidade no século XIX.

A condição ambígua do escravo no Rio de Janeiro colonial e, posteriormente, imperial possibilitou a associação dos capoeiras em maltas. A dependência da cidade em relação ao escravo fazia com que ele transitasse por vários segmentos sociais e espaços geográficos. Um lugar-chave para os encontros entre os capoeiras eram os chafarizes. Distribuídos em alguns pontos da capital, eram locais de disputa e integração dos escravos capoeiras que iam buscar água para as casas de seus senhores.

O mais antigo registro da palavra “capoeira” de que se tem notícia data de 1789 e se refere à libertação de um escravo chamado Adão, preso nas ruas do Rio de Janeiro devido à prática do jogo. Esse documento mostra que a repressão à capoeiragem acontecia antes mesmo do período joanino.

Havia muitos motivos para a capoeira ser perseguida. O primeiro deles era que inicialmente se tratava de uma prática de escravos rebeldes, soltos nas ruas, abertos às trocas culturais que levaram a capoeira a assimilar o uso da navalha, a partir de contatos com brancos das classes baixas, como os barbeiros e outros faquistas.

A navalha se tornou a arma-símbolo da capoeira, mas também eram utilizados bengalas e porretes nas lutas. Além disso, havia o repertório de golpes, como rasteiras, cabeçadas e rabos de arraia, entre outros. Ao mesmo tempo que absorveu outras práticas culturais, o capoeira passou a transmitir sua arte para representantes de outras classes sociais, chegando a atingir a elite. As maltas podiam ter poucos integrantes, algumas dezenas ou até 100 capoeiras, entre eles negros escravizados, libertos e uma minoria de brancos.

A geografia das gangues era determinada pelas freguesias, mas, apesar de existirem muitos grupos que pertenciam a essas localidades específicas, a cidade foi dividida em duas grandes maltas: Nagoas e Guaiamuns. A zona portuária e a área central da cidade eram controladas pelos Guaiamuns, que ocuparam os pontos de fundação do Rio de Janeiro, mais densamente povoados e onde foram erguidas as primeiras construções da capital, como o Paço Imperial, os chafarizes, as casas, quiosques e cortiços, também chamados de “cabeças de porco”.

O território dos Guaiamuns avançava pela atual praça Quinze, compreendia os morros de São Bento e Providência e terminava no Campo de Santana, área dominada pelos Nagoas, que estendiam seus domínios pelas freguesias que cercavam a área central da cidade. Controlavam, portanto, os atuais bairros da Lapa, Catete e Glória. Dessa maneira, dominavam uma parte da capital que ainda estava em formação, onde se localizavam as chácaras, sítios, fazendas e até mesmo quilombos. As duas grandes maltas também se distinguiam pelas cores das fitas que utilizavam: os Nagoas se identificavam com a cor branca, e os Guaiamuns, com a vermelha.

Além das disputas entre as maltas, era comum os capoeiras aterrorizarem os moradores do próprio território que ocupavam. Muitas vezes, quando a população se reunia para assistir aos desfiles das bandas militares, eles vinham à frente dos músicos, gingando, dando rasteiras, exibindo navalhas e ameaçando verbal e corporalmente o público. Em outras ocasiões, dezenas deles provocavam as chamadas “correrias”, que visavam tanto assustar o povo quanto resolver disputas entre gangues rivais, e não raramente acabavam com a morte de um capoeira ou mesmo de algum passante atingido durante a batalha.

A contínua ameaça que a capoeira passou a representar para a ordem pública provocou ondas de repressão policial ao longo dos períodos colonial e monárquico. Durante a época de D. João VI, o major Manuel Nunes Vidigal ficou tão famoso pela crueldade com que tratava os capoeiras que chegou a ser citado no célebre romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida.

O major Vidigal foi o criador das “ceias de camarão”, como eram chamadas “as sangrentas sessões de chibata a que eram submetidos os capoeiras e vadios por ele encontrados”, de acordo com o historiador Carlos Eugênio Líbano Soares, no seu livro A capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850). Apesar da virulência de ações policiais como a do major Vidigal, os capoeiras resistiram durante todo o Império.

Um dos motivos para que as gangues se mantivessem mesmo com forte repressão policial era a cobertura que recebiam dos partidos políticos da época. Os Guaiamuns e Nagoas apoiavam, respectivamente, liberais e conservadores. O voto, na época, não era secreto, por isso muitos eleitores eram obrigados pelos capoeiras a votar nos candidatos dos partidos que apoiavam cada malta. Eles também eram responsáveis por criar arruaças nas eleições, que muitas vezes acabavam em confusões e brigas.

A proteção política dos poderosos e a atuação como capangas dos partidos tiraram dos capoeiras o brilho da resistência escrava. Além disso, eles passaram a servir de massa de manobra para interesses ideológicos. Após a assinatura da Lei Áurea, em 1888, eles chegaram a organizar uma milícia, chamada de Guarda Negra, que perseguia os abolicionistas, como prova da lealdade da capoeiragem à princesa Isabel e ao regime monárquico.

O golpe fatal nas gangues do Rio de Janeiro veio justamente com a Proclamação da República, em 1889. No ano seguinte, a capoeira foi inserida no Código Penal Brasileiro, por meio do decreto de 11 de outubro de 1890, cujo artigo 402 qualificou como crime “fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal, conhecidos pela denominação de capoeiragem”.

O responsável pela façanha que culminou com o fim das maltas no Rio de Janeiro foi Sampaio Ferraz, chefe de polícia que comandou a campanha que desterrou os capoeiras para Fernando de Noronha, durante o governo de Deodoro da Fonseca. Dessa maneira, Ferraz entrou para a história como o algoz que decretou a morte da capoeira na cidade.

Estigmatizados como criminosos – já que sua prática se tornou ilegal em 1890 – e perseguidos como indivíduos perigosos, os capoeiras que permaneceram escondidos no Rio de Janeiro saíram, estrategicamente, de cena. Os que voltaram do desterro continuaram na clandestinidade. Poucas décadas depois, entre os anos 1910 e 1920, surgia o “bamba”. De acordo com o pesquisador e sambista Nei Lopes, é um termo que “vem do quimbundo mbamba, que significa exatamente mestre”.

O bamba tinha o domínio do corpo e do ritmo, por isso era um personagem típico do mundo negro, presente nas festas religiosas como ogã, tocando tambores para os orixás, o que o levou a desempenhar também papel fundamental na criação do samba de morro, na organização das escolas e dos blocos carnavalescos. Assim como os capoeiras do século XIX, que serviram de “baliza” para as bandas militares, eram os bambas que vinham à frente dos blocos, dançando ao redor do estandarte do grupo e ao mesmo tempo protegendo-o caso se encontrassem com blocos rivais, embalados pela música, gingando e dançando como se faz na capoeira, divertindo-se no carnaval, preparados para repelir qualquer ataque. Esse ritual mais tarde se tornaria uma das influências da coreografia do mestre-sala e da porta-bandeira.

Profundamente integrado à cultura popular da cidade, o bamba, que depois passaria a ser chamado simplesmente de malandro, vivia de pequenos expedientes, do jogo, do contrabando, da proteção de zonas de meretrício e casas noturnas e, mais tarde, do comércio do samba. Nesse ambiente marginal, vários malandros se tornaram famosos por façanhas que envolviam valentia e confronto com a ordem policial. O mais famoso deles foi Madame Satã.

Envolto em silêncio, o capoeira carioca deixou de se identificar como tal. Com o tempo, ele passou a se apresentar rebatizado como malandro ou bamba. Como afirmou o escritor e historiador Joel Rufino: “Caçada pela repressão a capoeira não acabou; o que nela havia de permanente, de essencial, sobreviveu na figura do bamba”. O capoeira só voltaria à cena novamente no Rio de Janeiro décadas mais tarde, assimilando a malandragem como uma de suas habilidades principais.

Mauricio Barros de Castro. Gangues do Rio de Janeiro imperial. In: Revista História Viva. Fevereiro 2011.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Quebra-quilo, cortiço e vintém

Revolta do Vintém. Caricatura de Angelo Agostini

Tião Carga d'Água era um negrão simpático. No seu burrico ele levava barris e vendia água para toda a gente de Quipapá. Quem não conhecia o Tião naquela cidadezinha do interior de Pernambuco?

Pois num dia de feira o Carga d'Água virou "atirador de rapaduras". Tudo começou com um bate-boca. De um lado, os feirantes inconformados, pois julgavam que o governo havia criado novos impostos:

- A gente dá um duro danado para tirar da terra o que vende e o governo ainda cria novas taxas?

De outro lado, os funcionários do Império: eles tentavam explicar que não se tratava de impostos, mas sim de um novo sistema de pesos e medidas, o sistema métrico decimal.

Quem vai entender? Quem aceitaria?

O tempo foi esquentando, e Tião Carga d'Água,  junto com outros populares, entrou na briga. Se era contra o governo, podiam contar com ele! Logo o delegado baqueou com uma rapadura que lhe atingiu a testa, sendo amparado por seus soldados. Os feirantes ficaram mais animados ainda:

- Vamos botar esses ladrões para correr! Fora, cambada do governo!

No ano de 1874 conflitos como o de Quipapá ocorriam em muitas outras cidades do interior de Pernambuco, Alagoas e Paraíba. Onde as autoridades chegassem para implantar o novo sistema de pesos e medidas os protestos explodiam. Era a Revolta do Quebra-Quilo.

Como fogo em capim seco, a desobediência se alastrava. Os mais exaltados jogavam longe os pesos que o governo de D. Pedro II havia mandado, enquanto os arquivos das Coletorias e Cartórios, onde estavam guardadas as listas dos devedores, eram destruídos.

Manuel do Carmo era tão simpático e popular como o Tião de Quipapá. Só que era escravo e trabalhava na terra. Morava em Campina Grande, na Paraíba.

Ele e seus companheiros de cativeiro cercaram a casa-grande do Sítio Timbaúba:

- Nós qué sabê pruquê os nossos fio continua trabaiando como escravo!

Pela Lei do Ventre-Livre, em 1871, os filhos das escravas nascidos daquele ano em diante deviam estar em liberdade. O capataz mostrou um livro de registro. Nele, para surpresa dos negros escravos, não havia anotação de nenhum nascimento depois de 1871... Dessa forma nenhuma criança negra poderia estar livre!

Manuel do Carmo e os outros negros, que já não acreditavam muito nas leis do governo, ficaram furiosos. Naquela mesma noite eles reuniram todos os escravos, inclusive as crianças de peito, e fugiram para a mata. Quebravam à força a gaiola da escravidão.

Nas últimas décadas do século XIX, o Nordeste estava mesmo agitado. Pequenos roceiros revoltavam-se, escravos reagiam, havia descontentamento por toda parte. E uma seca terrível tornava a situação ainda mais grave. Os grandes fazendeiros, com os seus jagunços e a ajuda da política, trataram de se defender:

Toca, toca, minha gente
Toca, toca a reunir
Que os matutos quebra-quilos
Por aí não tardam a vir!

A violência contra os matutos e os escravos rebeldes foi enorme. Era preciso "manter a ordem", diziam as autoridades e os fazendeiros. Inúmeras prisões ocorreram e alguns presos morreram cruelmente. Eles foram obrigados a vestir um colete de couro fresco, que encolhia com o calor e os sufocava lentamente!

Mas o sofrimento e a revolta não existiam só no Nordeste.

O Rio de Janeiro, capital do Império, não era nenhum paraíso. Dos seus 235 mil habitantes, cerca de 50 mil eram escravos e 40 mil eram pessoas muito pobres, que viviam de biscates e esmolas. Havia também milhares de brancos, mestiços e negros livres obrigados a trabalhar 10, 12, às vezes 14 horas diárias, recebendo, em troca, míseros salários. Eram comerciários, trabalhadores do porto e operários das manufaturas e das primeiras fábricas que surgiam. Muitos deles eram estrangeiros e tinham vindo "tentar a sorte" no Brasil.

Boa parte dessa gente morava em habitações coletivas - as casas de cômodos e os cortiços - do centro da cidade. As condições dessas habitações eram péssimas. Os quartos eram pequenos, não tinham janelas e havia um só banheiro para várias famílias que lá moravam. Tudo contribuía para as epidemias de febre amarela, tifo, varíola, tuberculose e diarréia.

Os donos dos cortiços eram portugueses bem-sucedidos no comércio. Ou barões e viscondes que não queriam mais morar no centro. Ou mesmo instituições de caridade, como a Santa Casa de Misericórdia. Para todos esses, o negócio era lucrar, mesmo às custas da saúde da população.

A alimentação do povo da Capital chegava a ser pior que a dos pobres do interior. Quem podia pagar os preços da carne, depois que ela passava pelas mãos de poderosos comerciantes intermediários?

Sobravam no prato o feijão, a farinha e a carne-seca. E a laranja ou banana na sobremesa. Faltavam as proteínas da carne fresca, do leite e dos ovos, o ferro e as vitaminas das verduras e de muitas outras frutas.

Na cidade de São Paulo, um número menor de pessoas vivia nessas condições. Mas só por um motivo: menos gente morava aí... Essa que hoje é a maior cidade brasileira não tinha, em 1880, mais que 80 mil habitantes.

Como no Rio de Janeiro, a maioria da população era subnutrida e vivia em choupanas ou cortiços que só agradavam mesmo os ratos. Quando os rios Tietê e Tamanduateí transbordavam, devido às chuvas, inúmeras famílias ficavam desabrigadas.

No Rio de Janeiro e em São Paulo, alguns não sentiam na carne esses problemas. Eram as famílias das classes abastadas, que moravam em confortáveis chácaras, comiam do bom e do melhor e se vestiam elegantemente. Pareciam viver em outro país.

O que pensaria Tião Carga d'Água ao ver aquela gente passeando num coupé - um veículo fechado, de quatro rodas, puxado por dois burros bem tratados? E o que dizer daquele milionário extravagante, que mandou vir da África uma parelha de zebras para puxar sua carruagem?

Morando e comendo mal, parte da população do Rio de Janeiro ao menos podia viajar nos bondes puxados a burro, um meio de transporte coletivo. Mas certas madames condenavam:

- É imperdoável deslize de polidez misturar pessoas de hábito educado com gente do povo!

Um senhor, que já começava a se destacar como político e advogado da "Light" - companhia que passou a explorar todas as linhas -, não pensava assim:

- O bonde foi a salvação da cidade, o grande instrumento de seu progresso material. Foi ele que dilatou a zona urbana, arejando a cidade e tornando possível a moradia fora da região central. Se não existisse, era preciso inventá-lo.

Esse senhor era Rui Barbosa. Apesar de tantos elogios aos bondes, ele não dispensava, no entanto, sua chique carruagem modelo landau...

Pois o bonde, a "salvação da cidade", foi o estopim de um conflito que fez a Corte parecer o sertão do Quebra-Quilo! No primeiro dia de 1880 o governo deu um "presente de ano novo" para a população carioca: aumentou as passagens dos bondes em 20 réis...


Morar mal, comer pior e ainda por cima ter que pagar mais pelo transporte era insuportável!

Daí, cerca de quatro mil pessoas decidiram ir até a Quinta da Boa Vista, para entregar um "Manifesto ao Imperador". Lá encontraram a polícia, que lhes barrou o caminho. Disposta assim mesmo a impedir o aumento, a multidão reuniu-se no Campo de São Cristóvão, iniciando um grande comício de protesto. A cavalaria imperial atacou os manifestantes, e eles reagiram. Era o começo da "Revolta do Vintém".

Para se defender, o povo atirou pedras na polícia, arrancou trilhos e quebrou muitos bondes. Os tumultos duraram três dias e estenderam-se por vários bairros da cidade, como se em cada um houvesse um barril de pólvora. Diversas lojas foram saqueadas. De forma desordenada e explosiva, a população mostrava que daquele jeito não era possível viver.

A "Revolta do Vintém" só terminou quando o Exército entrou em ação. Nas ruas da cidade, semidestruída pela rebelião popular, havia dez mortos.

O imperador explicou-se:

- É a primeira vez que sucede isso no Rio, desde 1840. Há quase quarenta anos que presido esse governo, sem que houvesse necessidade de atirar no povo. Mas que remédio? A Lei tem que ser respeitada.

Os belos e calmos dias do Segundo Reinado estavam no fim. É o que pareciam mostrar acontecimentos como a Revolta do Quebra-Quilo e a Revolta do Vintém. Não era à toa que a cabeça do imperador ficava cada dia mais branca...

ALENCAR, Chico et alli. Brasil Vivo 1: uma nova história da nossa gente. Petrópolis: Vozes, 1991. p. 146-148.

domingo, 13 de maio de 2012

Abolição da escravidão. Livres para quê?


Quando iô tava na minha tera
Comia minha garinha
Chega na tera dim baranco
Cane seca co farinha.

Durante séculos de escravidão, milhares de negros repetiam o lamento do Pai João. Os horrores dessa exploração do trabalho humano continuavam em plena segunda metade do século XIX. Em 1870, o Brasil era o único país americano que ainda mantinha o cativeiro!

Desde o fim do tráfico África-Brasil, em 1850, os fazendeiros do Nordeste vendiam muitos escravos para o Sudeste. Um deputado baiano descreveu, ainda em 1850, um comboio que rumava para São Paulo:

- Entre homens de gargalheira no pescoço caminhavam outras tantas mulheres, levando sobre os ombros seus filhos, entre os quais se viam crianças de todas as idades. Toda essa marcha era feita a pé, ensaguentando a areia quente dos caminhos.

Essas longas viagens ligavam o Nordeste às regiões mais antigas do café. Nessas marchas forçadas, muitas vezes nasciam crianças... que morriam sob o sol ou, por ordem dos capatazes, eram abandonadas no vazio dos grandes sertões!

As crueldades da escravidão já não passavam despercebidas. Mesmo gente de elite, começava a levantar sua voz contra a "marcha negra". Joaquim Nabuco, filho de senhor de engenho e senador do Império, era um dos que defendiam o fim da escravidão:

- A escravidão impede a imigração, desonra o trabalho manual, retarda a aparição das indústrias, afasta as máquinas, excita o ódio entre as classes e produz uma aparência ilusória de ordem, bem-estar e riqueza.

Joaquim Nabuco, assim como outros políticos de sua época, achava que os 300 anos de escravidão tinham marcado muito a mentalidade do brasileiro e a nossa sociedade. Era hora, portanto, de abolir a escravatura!

Em várias províncias começaram a surgir associações de combate à escravidão. No Rio, em 1870, foi fundada a Sociedade Emancipadora do Elemento Servil. Em São Paulo um grupo de mulheres criou a Sociedade  Redentora da Criança Escrava, para libertar os menores negros. Na década de 80, formaram-se novas organizações: o Clube Abolicionista de Pelotas, o Abolicionista Maranhense, a Sociedade Cearense Libertadora, a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão e muitas outras.

Em 1883, essas associações uniram-se na Confederação Abolicionista, agrupando militares, médicos, jornalistas, políticos, estudantes. Maioria absoluta de brancos! E de oposicionistas ao regime monárquico. Ser contra a escravidão era ser contra a Monarquia.

Mas havia outras formas de luta. Menos organizadas, porém mais radicais. Nessas a participação dos negros era bem maior.

Ceará, 1881. Cerca de 1.500 pessoas aglomeram-se no porto de Fortaleza. No mar, avista-se ao longe um cargueiro, o "Pará". E nenhuma vela de jangada: todas estavam nas areias da praia do Mucuripe.

Os donos das jangadas ouvem o discurso inflamado do mais popular dos jangadeiros, o mestiço Francisco Nascimento, o "Chico da Matilde". Ele tenta convencer seus companheiros a não transportar escravos em suas jangadas até o "Pará", que faz o tráfico para províncias do Sudeste:

- Nossas jangadas devem carregar ou peixes desse mar, fruto do nosso trabalho, e não irmãos acorrentados!

- No porto do Ceará não se embarcam mais escravos! - repetiu o povo. E assim foi feito. Viva Chico Nascimento, o "Dragão do Mar"!

São Paulo, 1886. Antônio Bento é advogado, promotor e juiz. Sua figura é estranha, não tira uma capa preta das costas e um chapelão de abas largas da cabeça. Mas estranha mesmo para ele é a existência da escravidão num país que se diz cristão; Antônio Bento quer acabar com a escravidão já, por todos os meios. O que adianta só fazer belos discursos no Parlamento? Foi por isso que nasceu o grupo dos caifazes.

Os caifazes têm adeptos como o Tonho Paciência, negro livre que voltou a trabalhar como escravo só para poder organizar fugas. Ou como Nico, que entrava de madrugada nas senzalas e animava todo mundo a sair daquele inferno. Um dia Nico parou: foi assassinado em plena ação.

Os ferroviários escondiam em seus trens os que fugiam. Na cidade de São Paulo os fugitivos eram acolhidos na igreja Nossa Senhora dos Remédios ou numa pensão mantida pelos caifazes. Muitos tomavam o caminho de Santos, onde cresceu o Quilombo de Jabaquara, com suas cabanas de madeira, palha, barro e telhado de zinco, entre o mar e as montanhas.

Luís Gama, ex-escravo e incansável abolicionista, criticava as discriminações da sociedade de sua época:

Se negro sou, ou sou bode,
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda a casta,
Pois que a espécie é muito vasta.
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus e outros nobres,
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes...
Aqui nesta boa terra,
Chifram todos, tudo berra...

Nesse mundo de ricos e pobres, de sábios e tratantes, os escravos continuavam sendo os mais oprimidos. Uma opressão tão antiga e tão forte que muitos dos próprios negros já achavam a escravidão um "mal necessário":

- É a nossa sina, ser o braço do sinhô... Nego véio tá cansado, só quer um pouco de paz...

Outros continuavam a luta de Zumbi, de Isidoro, de preto Cosme, dos malês, de Manuel do Congo e Manuel do Carmo. Tinham consciência de seu valor e de seus direitos.

João Mulungu, 25 anos, era um desses negros. Com seus irmãos construiu um quilombo nas matas de Sergipe. Mas uma dúvida confundia seu pensamento:

- Não fomos nós que construímos a fazenda? Por que fugir para tão longe? Merecemos nosso pedaço de terra...

Capturado em 1876, Mulungu preferiu ser enforcado em praça pública a voltar para o cativeiro... Os negros rebeldes não conseguiam se organizar o suficiente para liderar a luta abolicionista e conquistar terra e trabalho livre para todos.

O Governo Imperial sabia, porém, que a escravidão ia acabar. Mais cedo ou mais tarde. Afinal, desde 1850, não entravam mais escravos no país. Isso encarecia o seu preço, ficando cada vez mais difícil para os senhores sustentá-los. Os fazendeiros de café do Vale do Paraíba, que ainda tinham muitos escravos, eram dos poucos que [...] continuavam querendo a escravidão. Já os fazendeiros do Oeste Paulista, que empregavam o trabalhador livre, não se interessavam mais por ela.

Para proteger os velhos senhores do Vale do Paraíba, o Império fazia leis que nunca acabavam de vez com a escravidão. Um exemplo foi a Lei do Ventre Livre, de 1871. Os filhos de escravos nascidos a partir dessa data estariam livres? Não era bem assim. Os meninos permaneciam com suas mães, obrigatoriamente, até oito anos (desde os quatro já colhiam ovos, tangiam os bezerros, alimentavam os porcos e engraxavam as botas dos senhores). Depois dos oito, se os patrões quisessem, eles teriam que continuar ali, trabalhando de graça até os 21. Caso os liberassem antes, os fazendeiros receberiam uma boa indenização em dinheiro!

- Ventre livre coisa nenhuma: prisão de ventre! - comentou com humor um abolicionista.

Outra lei que deixou os senhores tranquilos foi a dos sexagenários, votada em 1885. Ela fez com que certos fazendeiros, como um tal coronel Zé Lopão e um outro, conhecido como Sinhô Lalau, suspendessem a matança em suas fazendas de escravos inválidos. Os negros velhos eram queimados vivos nas fornalhas, enforcados ou mortos por afogamento! Com a lei dos sexagenários, todos os escravos de mais de 65 anos estavam livres. Os senhores não tinham mais que cuidar deles.

- Livres para quê? - perguntou um abolicionista.

- Para morrer de fome, sem ter onde cair! - respondeu outro.

Em 1888, a Lei Áurea aboliu a escravidão. Em algumas províncias, porém - Amazonas, Pará, Bahia e Rio Grande do Sul - já não havia mais negros cativos. No Oeste da província de São Paulo, onde a lavoura cafeeira modernizava-se, a mão-de-obra escrava não tinha grande importância. Ter escravos já não era um bom negócio.

Lei Áurea

A Lei Áurea foi assinada pela princesa Isabel Cristina Augusta Leopoldina Francisca Micaela Gabriela Rafaela de Orléans e Bragança. A lei era curtinha, nada dizia sobre o destino dos ex-escravos...

A Monarquia quis aproveitar ao máximo a abolição para melhorar sua imagem. Os festejos na Corte duraram três dias: a elite assistiu a corridas de cavalo no Derby Clube e o povo passeou de graça nos trens da Estrada de Ferro D. Pedro II. Os teatros também foram franqueados ao público. E em Botafogo realizou-se uma regata comemorativa. D. Pedro II, que estava em tratamento de saúde, aprovou a medida de sua filha regente:

- Grande povo! Grande povo! - exclamou emocionado.

Passada a alegria, as rugas voltaram na testa de muitos homens do governo. O pequeno grupo de fazendeiros do Vale do Paraíba estava furioso. Sentindo-se prejudicado pela abolição, exigiram uma indenização e chegaram a chamar a princesa de "vaca"...

E os 700 mil escravos agora libertos? Onde trabalhar? Onde morar? Para onde ir?

Preocupada com esses problemas, a Confederação Abolicionista não se dissolveu após o 13 de maio. Seus integrantes achavam que era preciso mudar mais coisas, inclusive fazer uma distribuição de terras. Não bastava declarar livres os escravos. Nada conseguiram, porém.

No Rio de Janeiro, para ter onde morar, muitos desses negros marginalizados subiram as encostas dos morros. Num dos morros perto do centro da cidade, eles encontraram outros brasileiros de destino semelhante, gente que vinha do sertão miserável da Bahia. No morro havia uns arbustos que davam uma vagem: era o angico-vermelho-do-campo, que os baianos também chamavam de... favela. O morro virou Morro da Favela.

Empurrados para s favelas, os negros continuaram, depois da Lei Áurea, sofrendo todo tipo de discriminação e sendo constantemente advertidos:

- Vê se te enxerga! Fique no seu lugar, nego safado!

Muitos negros tiveram que ficar no lugar inferior que lhes reservaram os que mandavam na sociedade. Outros, porém, foram enxergando sua força, que colocou pedras nos alicerces do mundo. Foram sentindo a sabedoria de seus orixás. Vendo a beleza de sua negritude.

ALENCAR, Chico et alli. Brasil Vivo 1: uma nova história da nossa gente. Petrópolis: Vozes, 1991. p. 156-158.