"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Relações de gênero na sociedade helenística

O sistema grego do patriarcado teve seu maior desafio quando um conjunto mais amplo de mudanças ocorreu sob o grande império estabelecido pelo conquistador macedônio, Alexandre, o Grande, a partir do século IV. Nessa época, as cidades-estado gregas estavam em declínio. Os macedônios conquistaram a Grécia e depois usaram soldados gregos, burocratas e intelectuais para construir um império abarcando Oriente Médio e Egito. Ainda que o império tenha se diluído rapidamente em reinos regionais, a mistura de elementos gregos com outros permaneceu por muitos séculos. Alexandre casou-se com uma princesa persa, para simbolizar seu desejo de forjar uma nova fusão cultural no Mediterrâneo oriental. O resultado, a sociedade helenística, foi sem dúvida diferente da Grécia clássica, embora intimamente relacionada com ela, em particular na questão cultural.

Pintura mural helenística. Século III a.e.c.

O confronto cultural mais dramático que Alexandre desencadeou foi entre os gregos e os indianos, no nordeste do subcontinente, num reino então chamado de Bactria. Por dois séculos, os gregos governaram esse reino indiano, criando muitas oportunidades de mútua imitação. Dos gregos, os indianos emprestaram estilos artísticos, pinturas do Buda com togas mediterrâneas e corte de cabelo, num padrão que resistiu na região por cem anos. Matemáticos indianos promoveram trocas com cientistas gregos para benefício mútuo - embora mostrando a grande distância entre as culturas e a fragilidade das trocas, uma vez que o sistema numeral indiano, apesar de muito superior ao dos gregos, não foi encampado. Certo número de líderes gregos em Bactria converteu-se ao budismo. Alguns missionários budistas aparentemente foram enviados para o Oriente Médio e, segundo alguns historiadores, teriam trazido novas ênfases em ética e espiritualidade que mais tarde haveriam de influenciar aspectos religiosos e filosóficos. As especificidades, no entanto, são difíceis de fixar. E nas relações entre homens e mulheres, não fica claro se o encontro entre gregos e indianos teve algum impacto sério. Possivelmente os detalhes eram diferentes demais para emergirem; possivelmente, como com Heródoto, os gregos estavam tão confiantes em seus próprios caminhos que o exemplo de outro conjunto de relações de gênero, mais sensual e espiritual, parecia irrelevante ou repelente. O contato, de qualquer forma, teve vida curta. Provavelmente há necessidade de ímpeto e troca maior para afetar valores tão pessoais como as relações entre homens e mulheres. Certamente a ausência de um resultado evidente contrasta com o tipo de troca desenvolvida poucos séculos mais tarde entre a Índia e a China.

No âmbito mais emblemático da penetração grega - Oriente Médio e Egito - a situação era diferente. As condições do helenismo para as mulheres eram, em muitos aspectos, importantes, melhores do que as que prevaleciam na Grécia, e o intercâmbio cultural tinha a ver com o contraste. As mulheres desempenhavam um papel político maior, manobrando com príncipes e algumas vezes assumindo o governo. As leis afrouxaram, permitindo que mais mulheres adquirissem propriedades e dirigissem negócios. As mulheres participaram mais ativamente na vida cultural, e surgiram muitas escritoras notáveis. Da mesma forma, textos sobre mulheres mostraram-se mais favoráveis a elas, embora não chegassem a sugerir igualdade. Por fim, representações artísticas mudaram dramaticamente, com um crescente interesse na representação do nu feminino, em contraste com o estilo pesado e coberto de roupas, característico da Grécia.

Muitos acontecimentos contribuíram para esses novos padrões. A mudança para monarquias autocráticas eliminou a pressão por famílias dirigidas pelo homem - isso não mais era visto como base para a expansão da participação política -, mas os intercâmbios culturais também fizeram sua parte. Da Macedônia veio a tradição de mulheres da realeza politicamente ativas, contrastando com o papel declaradamente passivo das mulheres da maior parte dos líderes políticos gregos. O Egito contribuiu com leis que permitiam às mulheres atuar por conta própria sem requerer guardiões. Talvez mais importante ainda tenha sido uma nova onda de religiões, chamadas religiões misteriosas, da África do Norte e do Oriente Médio, nas quais a devoção altamente emocional diferia do ritualismo das cerimônias mais características da religião grega. Nas religiões misteriosas, as deusas gregas, como a Isis egípcia, podiam desempenhar um papel central. A ênfase na criatividade realçava o princípio feminino; Isis se tornou a deidade mais importante em seu culto, com uma série de funções, incluindo presidir os ciclos do nascimento e renascimento da natureza.

Não se devem exagerar os resultados desses contatos culturais. As condições na Grécia mudaram menos do que em outros lugares. Por exemplo, uma mulher grega morando no Egito podia dispensar um protetor, mas sua contrapartida na terra natal mantinha o velho sistema. Além disso, a mudança afetava particularmente as classes altas; não há evidências de que as relações de gênero nas classes baixas tenham mudado muito. De fato, a incidência crescente de infanticídio feminino, como forma de controle populacional, sugere que essa autoestima recém-adquirida pelas mulheres pode ter sido bem superficial. Não havia, com certeza, uma reavaliação sistemática dos atributos e papéis das mulheres, do tipo implementado pelo budismo (embora com resultados comprovadamente limitados) na China mais tarde.

Padrões de diversidade cultural persistiram na era romana, a última fase da civilização clássica no mundo mediterrâneo. Inicialmente, no tempo em que Roma era cidade-estado, os impulsos voltados às mulheres parecem ter sido, a princípio, bem severos; [...] sob a lei romana, por exemplo, um marido podia matar a mulher por adultério. No entanto, o aprimoramento gradual da lei, combinado com a exposição a influências helenísticas moderadas, produziram um sistema mais brando por volta do século II a.e.c., à medida que a república amadureceu e se expandiu. Os intelectuais romanos copiaram os escritores gregos em discussões sobre a inferioridade das mulheres e seus apetites sexuais aviltantes, mas também copiaram o impulso helenístico para honrar as mulheres boas, incluindo aquelas que, como esposas e mães leais, contribuíam para o Estado. A religião romana, embora muito semelhante à grega, devotou mais atenção às deusas, aclamando Vênus, por exemplo, como o "poder orientador do universo". A influência helenística, vinda do comércio e das conquistas romanas no Mediterrâneo oriental, também ajudou a criar direitos legais para as mulheres possuírem propriedades e algumas proteções contra acusações improcedentes feitas pelos maridos. Também ajudou a gerar literatura com abertura para o sensual, como os poemas de amor de Ovídio.

As influências da Grécia e do Mediterrâneo oriental também forneceram às mulheres romanas da classe alta novos modelos de ornamentos e luxo. No início da República Romana, uma vida simples era altamente valorizada, tanto para homens quanto para mulheres. Após uma conquista bem-sucedida e os contatos resultantes, no entanto, joias, sedas importadas e outros adornos viraram moda. Isso emprestou uma nova dimensão à vida das mulheres, embora pudesse tê-las afastado de outras metas e assim ajudado a confirmar a desigualdade do patriarcado. Alguns homens romanos desaprovavam a frivolidade, enquanto outros apoiavam as mulheres com a justificativa de que elas tinham poucas coisas além disso na vida. Em determinado momento, a discussão sobre padrões de beleza importados se estendeu à política. A lei opiana foi aprovada após uma série de guerras sem trégua, limitando a quantidade de ouro e roupas coloridas que uma mulher podia usar. Em 195 a.e.c., o Senado romano discutiu a revogação da lei. As mulheres se juntaram nas ruas, pedindo a restauração do luxo, agora que a República florescia novamente. Os políticos reclamaram, alegando que as mulheres não deveriam ter voz política, e sim permanecer em casa, mantendo-se modestas. Outros, no entanto, defendiam as mulheres: "O fato é que nós temos ouvidos orgulhosos, pois, enquanto patrões não zombam dos apelos dos escravos, nós ficamos zangados quando mulheres honradas nos pedem alguma coisa." Segundo eles, os homens gostavam de roupas elegantes, portanto as mulheres deveriam poder compartilhar esse direito. "As mulheres não podem partilhar a magistratura, sacerdócio, triunfos, insígnias oficiais, presentes, ou despojos de guerra: elegância, fineza de lindas roupas são as insígnias das mulheres, e nisso elas encontram alegria e ficam orgulhosas, e é isso que nossos antepassados chamavam do mundo da mulher." A lei foi anulada, embora o texto a favor da revogação tenha exposto os limites da opinião dos homens sobre as mulheres.

Roma se manteve firmemente patriarcal e, no geral, sua abordagem das mulheres foi mais dura do que a dos estados helenísticos. Uma forte ênfase na família, retornando nos primeiros dias do Império, trouxe a reafirmação da autoridade masculina sobre, por exemplo, a questão do adultério. A literatura romana posterior começou a condenar as mulheres assertivas, imitando temática grega. O fato é que, como na Grécia, as considerações políticas dominaram o tratamento dado às mulheres, pelo menos nas classes altas, e isso era expresso na lei. Contatos com diversas culturas apenas limitaram, em geral de forma transitória, o impacto nessa situação. Além do mais, não havia um sistema claro alternativo que acenasse a homens e mulheres com um conjunto diferente de padrões. Mesmo nos séculos helenísticos, embora fossem permitidos contatos maiores entre gêneros do que na Grécia clássica, não foi desenvolvido um modelo suficientemente distinto e poderoso para reconfigurar o patriarcado romano.

O período clássico no Mediterrâneo e no Oriente Médio gerou incontáveis contatos culturais para os povos na Ásia Ocidental, sul da Europa e norte da África. Os resultados, no que se refere ao relacionamento entre homens e mulheres, não estão sempre bem documentados. Parece que alguns contatos tiveram de fato poucos resultados: as partes envolvidas em ambos os lados , ou porque se sentiam suficientemente confiantes de seus próprios valores, ou absolutamente convictas de que as alternativas eram estranhas e bizarras demais, acabaram deixando virtualmente intocadas leis e imagens. Outros contatos influenciaram padrões em certa medida, em particular nos séculos III e IV a.e.c., quando os reinos helenísticos prevaleceram. Roma participou nessa interação de alguma forma, mas por fim preferiu afastar-se em favor de uma renovada ênfase na submissão feminina. Os exemplos desse período na história do Mediterrâneo, são complexos, mas sugerem fortemente uma considerável imunidade a contaminações na questão de papéis de gênero, mesmo em meio a substancial diversidade cultural.

STEARNS, Peter N. História das relações de gênero. São Paulo: Contexto, 2012. p. 54-59.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Homofobia: um preconceito crescente

“[...] as novas tecnologias reprodutivas, as possibilidades de transgredir categorias e fronteiras sexuais, as articulações corpo-máquina a cada dia desestabilizam antigas certezas; implodem noções tradicionais de tempo, de espaço, de “realidade”; subvertem as formas de gerar, de nascer, de crescer, de amar ou de morrer”. (Guacira Lopes Louro, professora aposentada da UFRGS)


Bandeira gay. Dia do Orgulho Gay, Madri, Espanha, 2008. Onanymous

Homofobia é uma palavra cujo significado implica medo daquele que sente atração sexual por indivíduos do mesmo sexo. Ou seja, é o medo do homossexual. Apesar do nosso costume em usar essa palavra, sua prática extrapola a fobia propriamente dita. Podemos afirmar, sem correr o risco de estarmos exagerando, que há em todo o mundo um conjunto de atitudes marginalizadoras que segregam aqueles de orientação homossexual. Nesse sentido, o termo homofobia, tão comumente usado, é incapaz de abarcar tudo o que a homofobia realmente envolve. Esse termo deveria ser substituído minimamente pelo conceito de preconceito sexual. O preconceito sexual se caracteriza no dia a dia pela totalidade das atitudes marginalizadoras de sexualidades não heterossexuais.

Esse tipo de preconceito sexual parece estar vinculado ao fato de existir em grande parte das diferentes culturas uma predominância heterossexual. A predominância heterossexual vem sendo usada para justificar o que chamamos de heteronormatividade. Heteronormatividade é a crença dos heterossexuais em determinar sua orientação sexual, não só como predominante, mas também como uma possibilidade unânime absoluta. Há embutida nessa visão de mundo que os seres humanos recaem em duas categorias distintas e complementares: macho e fêmea. E, por isso, relações sexuais e maritais são normais somente entre pessoas de sexos diferentes. Há também a defesa que em função da heteronormatividade cada sexo tem certos papéis naturais na vida. Em outras palavras, o ato sexual físico, a identidade de gênero e o papel social de gênero deveriam enquadrar qualquer pessoa dentro de normas integralmente masculinas ou femininas – sendo a heterossexualidade considerada a única orientação sexual normal. As normas às quais a heteronormatividade implica podem ser abertas, encobertas ou implícitas. Essa é uma tese ultrapassada desde 1789, quando entramos na contemporaneidade e com isso num mundo de inclusão e entendimento da diversidade. A contemporaneidade nos deu o direito de aceitação daquilo que é plural – daquilo que é diversificado. Qualquer um que acredite e defenda a heteronormatividade com base em sua predominânica estará em última instância negando seu próprio tempo e realidade.

Os músicos, François Barraud 

Além da predominância dos indivíduos heterossexuais, na maioria das culturas, outra premissa usada para justificar a heteronormatividade consiste na associação heterossexual com a reprodução. Crê-se que a reprodução da espécie e sua manutenção estão necessariamente vinculadas ao ato sexual heterossexual, considerado o único legítimo por natureza. O ato homossexual, por não permitir reprodução da espécie, se torna automaticamente, dentro dessa perspectiva, um ato inadequado e inapropriado. Assim sendo, sujeito a ser banido, perseguido e combatido.

A utilização desse tipo de raciocínio para sustentar a normatividade heterossexual poderia ser plausível no mundo antigo, medieval e moderno, quando pouco ou nada se sabia sobre reprodução humana. Era tamanha a ignorância nesses períodos sobre tal assunto que o sexo dos bebês era atribuído às mulheres. Mulheres que por sua vez pagavam preços altíssimos quando não pariam os varões que a sociedade tanto cobrava. Pagavam o preço da nossa ignorância. Do mesmo modo como a contemporaneidade responsabilizou os cromossomos XY pelo sexo dos bebês, também libertou a reprodução humana das vias naturais. Ou seja, a reprodução da espécie não depende mais do ato sexual físico e pode ser garantida artificialmente. São técnicas inovadoras de inseminação que beneficiam todos os tipos de famílias. Não só as técnicas de inseminação artificial permitem novas formas de reprodução, como também a legalização de barrigas de aluguel proporciona que casais homossexuais se reproduzam consaguineamente. Na verdade já estamos caminhando para algo mais elaborado do que o simples uso de ovócitos e barrigas de aluguel. O avanço científico permitirá que casais de mulheres homossexuais sejam capazes de se reproduzirem consanguineamente tal qual casais de heterossexuais. Tudo indica ser perfeitamente possível extrair e isolar cromossomos dos gametas de uma mulher inserindo-os, posteriormente, no ovócito de sua parceira. A gestação poderia ser feita no útero de qualquer uma das duas. Somente nasceriam meninas, dada a predominância de cromossomos XX. Essas meninas seriam biologicamente filhas de duas mães, e quando submetidas ao teste do DNA, só haveria, necessariamente, vínculo genético das duas mulheres que a geraram – com total ausência de DNA masculino.

Nesse sentido, para aqueles que ainda procuram sustentar a homofobia com base na impossibilidade reprodutiva entre os homossexuais haveria novo problema: a continuidade da espécie somente pelo sexo feminino e a extinção do sexo masculino. Isso implicaria a real supremacia feminina no que concerne à reprodução humana – dado que, até o momento, o útero é a única garantia de reprodução insubstituível.

Portanto, a crença de que somente relações heterossexuais são legítimas com base na reprodução da espécie, ou com base numa reprodução natural, se torna irracional. É uma tese passada (primitiva) e deixada para trás desde que a inseminação artificial foi inventada em meados finais do século passado.

Contudo, a normatização da sexualidade heterossexual com base na possibilidade reprodutiva tem ainda outro grande equívoco: a premissa de que nós nos relacionamos sexualmente exclusiva e estritamente para procriarmos. Essa tese vem sustentando atos de violência em todo o mundo, não só contra os homossexuais como também contra as mulheres. O absurdo das mutilações de clitóris feminino em tribos africanas e os recentes estupros coletivos indianos provam o tamanho do equívoco em restringir sexo a procriação. A mesma violência que considera relações sexuais homossexuais antinaturais também sustenta a mutilação do clitóris. Os estupros coletivos denotam a mentalidade primitiva de que mulheres não devem ter espaço no mundo profissional – muito menos autonomia. É uma mentalidade inverossímil que considera a existência de mulheres exclusivamente para a vida doméstica e para a procriação da espécie. Considerar os homossexuais uma aberração comportamental porque são incapazes de procriar naturalmente inclui exatamente esse tipo de pensamento irracional e intolerante. É intrigante que em pleno século XXI ainda haja tanta gente considerando o sexo exclusivamente para procriação.


Hoerle Zwei Frauen, Heinrich Hoerle

O ato sexual deveria ser considerado por todos algo fisiológico e natural do corpo humano. Precisamos de sexo tanto quanto de alimento e água. E não para por aí. Tendemos a procurar parceiros sexuais também na expectativa de trocarmos experiências afetivas e emocionais. Ou seja, fazemos sexo ora por carência, ora por alegria e ora por interesse em conhecer melhor outra pessoa – numa busca constante por intimidade. Na verdade, os caminhos que nos levam à prática sexual são diversos. Incluem a procriação, mas não se esgotam nessa possibilidade. [...] Quando buscamos parcerias afetivas procuramos quem ofereça afinidades de valores e estilo de vida, interesses econômicos semelhantes, expectativas de uma vida em comum, construção de núcleo familiar funcional, buscamos parceiros admiráveis, confluências de interesses e gostos pessoais. [...] Homossexuais, como todos os demais seres humanos, querem ser amados, querem construir família, querem melhorar de vida, querem encontrar cumplicidade e comprometimento em seus parceiros afetivos. [...] A grande e única diferença entre heterossexuais e homossexuais está em heterossexuais procurarem tal parceria de vida no sexo e gênero oposto, enquanto homossexuais a procuram no mesmo sexo e gênero.


Doze meninos nus na praia, Charles Demuth

Há também outro tradicional equívoco heteronormativo. Boa parte da discriminação se baseia na repulsa ao ato sexual físico homossexual. Muito da chamada fobia calca-se no incômodo causado pela presença de dois órgãos genitais idênticos presentes num mesmo ato sexual. [...] Contudo, quando avaliamos mais detalhadamente tal aversão normalmente encontramos nela muita fantasia e imaginação. Os heterossexuais comumente criam uma imagem mental do ato sexual homossexual num cenário promíscuo e pervertido. Heterossexuais fantasiam com o ato sexual homossexual envolto numa atmosfera de vulgaridade digna de filmes pornográficos da pior qualidade. Fazem isso sem se darem conta do quão distante da vida real está a pornografia. Trata-se de uma repulsa estigmatizada, imatura e estúpida. Não condiz com a realidade dos relacionamentos afetivos e prende os homossexuais num estereótipo vulgar e empobrecido. Uma prisão enclausurante e sem saída. Trata-se de um preconceito que simplesmente nega vínculos afetivos. 

Ana Augusta Carneiro. Homofobia: preconceito nega vínculos afetivos. In: Filosofia. Ano VII, nº 83, junho de 2013. p. 45-49.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O mundo mediterrâneo às vésperas das Cruzadas 1: o mundo islâmico

“Já havia muito tempo que essas duas irmãs, essas duas metades da humanidade, a Europa e a Ásia, a religião cristã e a muçulmana, tinham-se perdido de vista, quando foram postas face a face pela Cruzada e olharam uma para a outra. O primeiro olhar foi de horror”. 
(Jules Michelet, Histoire de France)


Batalha entre cruzados cristãos e cavaleiros árabes, artista desconhecido.

Ao final do século XI, o espaço mediterrâneo dividia-se entre o mundo islâmico, o Império Bizantino e o mundo cristão ocidental. O Oriente muçulmano e bizantino, governado por verdadeiros Estados, era sede de uma civilização secular brilhante, enquanto o Ocidente cristão mal acabara de sair da barbárie em que mergulharam as invasões e o retrocesso econômico.


[O mundo islâmico, um imenso espaço de unidade incontestável] Estendendo-se da Índia à Espanha, sua unidade era extraída da preeminência do Islã e da língua árabe. Era igualmente caracterizado pelo número e pelo esplendor de suas cidades, especialmente na Síria e na Mesopotâmia, onde a tradição da vida urbana remontava a milênios. Todas essas cidades apresentavam o mesmo aspecto, tendo no centro uma mesquita e mercados e, nas capitais, um palácio para o governador. Tinham muralhas e uma cidadela. Populosas e industriosas, sedes de comércio internacional ou distantes de centros de intercâmbios regionais, elas figuravam entre as maiores cidades do mundo e podiam ter até centenas de milhares de habitantes. Cenários da vida da elite, afirmavam desde sempre um desejo de autonomia com relação ao governo central e a seu representante local.

[Depois da morte de Maomé, todos os territórios dominados pelo Islã foram reunidos sob a autoridade de um chefe religioso e político - o califa] Depois de um apogeu sob os omíadas e sob os primeiros abássidas, o califado conheceu um longo declínio político. Sofreu os efeitos da secessão das regiões mais distantes e foi obrigado a enfrentar a contestação de sua legitimidade por dissidentes no seio do islamismo. Aos sunitas, que defendiam a legitimidade do califado abássida, se opunham os caridjitas e sobretudo os xiitas. Estes últimos estimavam que o califado deveria ser devolvido a um descendente de Ali, genro do profeta, mas se dividiam em ismaelitas e duodecimanos. Nos séculos X e XI, os ismaelitas eram os mais poderosos. Na África do Norte, os fatímidas, que eram ismaelitas, se proclamaram califas, conquistaram o Egito e fundaram O Cairo – “A Vitoriosa” -, e depois tomaram caminho de Bagdá para derrubar os abássidas. Mas, não conseguindo ultrapassar Alepo, se contentaram em alcançar a Síria meridional.

A essa contestação radical do poder se acrescentaram imposição de tutela ao califado abássida pelos vizires bouyidas que prestavam obediência aos xiitas, a intervenção de mercenários na sucessão do califado e mesmo as dissidências regionais nas vizinhanças de Bagdá, na Síria do Norte e no norte da Mesopotâmia. O califado foi ficando, cada vez mais, acantonado em um papel puramente espiritual.

[A entrada dos turcos seljúcidas em Bagdá, em 1055, parece dar início à reconstituição da unidade islâmica] Os turcos, que viviam como nômades nas planícies da Eurásia, foram convertidos ao islamismo no século X. Dentre eles, os seljúcidas adquiriram importância particular por meio das lutas conduzidas contra os principados muçulmanos do norte do Irã. Toghrul-Beg, seu chefe, se impôs ao califa de Bagdá, e outorgou a si mesmo o título de sultão, que lhe dava autoridade temporal, tendo como missão o restabelecimento da unidade do califado e a predominância do sunismo. O principal objetivo era, portanto, a derrubada do califado fatímida. Entretanto, os sultões não detinham o controle total de suas tropas, pois as tribos turcomanas, cujas tendências à autonomia eram acentuadas, estavam interessadas sobretudo em pilhar e se apropriar dos territórios percorridos por suas tropas. Sob este ponto de vista, a Síria e a Mesopotâmia absolutamente não lhes agradavam, uma vez que era proibido efetuar operações de pilhagem contra muçulmano e o clima tórrido dessas regiões não era adequado para seus rebanhos.

[Os turcos obtém uma vitória importante sobre Bizâncio em Mantzikert, em 1071] A Anatólia bizantina, em compensação, era um lugar ideal. Além disso, o sultão Alp Arslan precisou comandar contra o Império Bizantino – que as incursões nascentes dos turcomanos obrigaram a uma contra-ofensiva – uma grande batalha em Mantzikert. Traído por seus inimigos internos, o imperador Romano IV Diógenes foi completamente derrotado e feito prisioneiro. Alp Arslan, que não desejava se deixar desviar de seu objetivo por uma guerra contra Bizâncio, libertou o prisioneiro imperial. Enquanto isso as tribos turcomanas, a favor da guerra civil em que soçobraria Bizâncio, desferraram-se contra toda a Anatólia até o mar de Mármara.

[Mas os seljúcidas fracassaram em sua tentativa de unificação] Os sultões conseguiram reunificar sob sua autoridade o califado abássida, mas não tiveram sucesso em reduzir o califado fatímida e, sobretudo, depois da morte de Malik Shah, sucessor de Alp Arslan, em 1092, o sultanato, por sua vez, começou a se fragmentar. Para sucedê-lo, uma amarga competição opôs seus irmãos e seus filhos. A Síria e a Alta Mesopotâmia dependiam nominalmente do sultanato da Pérsia, cuja sede ficava em Bagdá e coube a Barkyaruq. Nas principais cidades foram implantados emirados efetivamente autônomos e governados por atabegues, termo turco designando os tutores dos príncipes seljúcidas, geralmente chefes militares. Em parte alguma a fragmentação foi tão grande quanto na Alta Mesopotâmia e na Síria: Alepo e Damasco pertenciam respectivamente, a sobrinhos de Malik Shah; Trípoli era governada por um civil, o cádi; Sheizar, pela dinastia árabe dos munqidhitas; Mosul, por Kerbogha; e a região de Diyar Bakr, pelos ortoquidas. No final do século XI, instalou-se a seita ismaelita dos Assassinos nas montanhas de Ansariye. Mais que por suas crenças, eles se caracerizavam por sua profunda hostilidade ao sunismo e pela prática do assassinato. Os adeptos observavam uma obediência absoluta ao grão-mestre. Abrigados em verdadeiros ninhos de águia, conseguiram preservar sua independência.

[Os turcos não colonizaram a Síria, cuja população permaneceu árabe] Etnicamente, eles eram uma minoria que pouco a pouco foi assimilada pelo elemento árabe. Suas divisões, portanto, se sobrepuseram a outras, mais antigas, de ordem regional: a oposição entre a Síria do litoral e a Síria interior, entre Alepo, Damasco e a Palestina. Oposição também de ordem confessional: os sunitas dominavam a Síria do Sul e a Palestina; os xiitas, a Síria do norte, onde recebiam reforço dos Assassinos. Os drusos, presentes no Líbano, constituíam uma seita derivada do cisma: não acreditavam na morte, em 1021, do sexto califa fatímida, Al-Hakim, que havia proclamado sua divindade. Ainda se mantinham numerosos os elementos não muçulmanos na população e, dentre eles, judeus e cristãos se beneficiavam de um estatuto particular: "povos da Bíblia", eram considerados como sendo crentes do mesmo deus, mas faltava-lhes a revelação suprema e derradeira, a de Maomé. Os judeus se disseminaram nas cidades da Síria do Norte e da Palestina, mas se reagruparam sobretudo em Jerusalém. Os cristãos mais numerosos são os sírios ortodoxos, ou seja, jacobitas, que são monofisistas: podemos encontrá-los tanto nas regiões do campo como nas cidades, particularmente na Síria do Norte e na Alta Mesopotâmia. Os gregos ortodoxos, na verdade sírios que foram helenizados na época bizantina, mas que se tornaram cada vez mais arabizados, quase não aparecem nas cidades. E, finalmente, encontramos maronitas no monte Líbano, monges georgianos, armênios gregorianos, também monofisistas.

Esta diversidade da Síria produziu dois efeitos opostos. De um lado, ela constituiu uma fraqueza, pois talvez pudesse ser causa de divisão, mas de um outro lado, tornava indispensável a coexistência com a diferença e permitia contatos e associações que, em outros lugares, na mesma época, eram impossíveis. Não se pode, portanto, ficar surpreendido com o fato de que, depois de uma expansão ideológica e conquistadora inicial, o Islã tenha renunciado ao jihad, ou à "guerra santa", nesta Síria que a tradição considerava como a terra do jihad.

TATE, Georges. O Oriente das Cruzadas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. p. 15-24.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A América Indígena: algumas reflexões

Templo de las tres Ventanas, Machu Picchu, Peru

As origens do homem americano e a história da ocupação da América são temas ainda muito debatidos pelos pesquisadores. Até recentemente, acreditava-se que o homem havia entrado no continente americano por um único caminho, o estreito de Bering, há cerca de 12.500 anos. No entanto, estudos arqueológicos realizados nas últimas três décadas, sobretudo no Brasil, no México e no Chile, indicam que a presença humana na América pode datar de 18 mil, 30 mil ou até 50 mil anos atrás. Tais estudos também admitem a possibilidade de os seres humanos que deram origem à população americana terem chegado em diversas ondas de migração e de povoamento, em diferentes épocas e por caminhos distintos. Esses outros caminhos possíveis para o lento processo de povoamento do continente teriam sido o oceano Pacífico e suas ilhas, e o Atlântico Norte. Ainda que as hipóteses que empurram a entrada do homem na América para trás precisem ser comprovadas, o fato de terem sido encontrados, em escavações no sul da Patagônia, vestígios com idade superior a 11.500 anos sugere que a versão da chegada há cerca de 12.500 anos pelo caminho exclusivo do estreito de Bering é praticamente insustentável.

De qualquer modo, o processo de povoamento resultou na ocupação de todo o continente, desde as terras geladas do Alasca e das ilhas do oceano Ártico, no extremo norte, até a Patagônia e a Terra do Fogo, no extremo sul, e desde o litoral do oceano Pacífico até o litoral do Atlântico. Todos esses povoadores e seus descendentes, ao longo de milhares de anos, criaram modos de vida muito diferentes e tiveram histórias muito particulares e pouco conhecidas por nós. Na época da chegada dos europeus, a América apresentava uma das maiores diversidades linguísticas e culturais do planeta, constituindo um verdadeiro mosaico de povos. Assim como num mosaico, cada pequena peça se assemelhava a uma série de outras e, ao mesmo tempo, se diferenciava de outras tantas.

Os grupos que habitavam localidades vizinhas evidentemente mantinham mais contatos diretos entre si do que os que viviam em regiões distantes. Esses contatos permitiam o compartilhamento e o intercâmbio de conhecimentos, técnicas e produtos, como alimentos coletados ou plantados, modos de cultivar a terra e de plantar, saberes sobre a fauna, a flora e as estações do ano, métodos de curar doenças, formas de construção e de organização do espaço habitado, modos de governo, explicações sobre a origem do mundo e do homem. A continuidade desses contatos por um longo período resultava, em geral, na predominância de modos de vida e de pensamento relativamente semelhantes na região onde habitavam esses grupos. A isso podemos chamar de região cultural, expressão usada para designar uma grande área geográfica ocupada por povos que compartilhavam elementos fundamentais em seus sistemas produtivos e/ou de pensamento, os quais, por sua vez, embasavam suas formas de organização social e de exercício do poder político, suas explicações sobre a realidade circundante e sobre o mundo passado, além de pautar suas relações político-comerciais.

A possibilidade de agrupar as centenas - ou os milhares - de povos indígenas americanos em regiões culturais nos ajuda a entender suas semelhanças e diferenças. Por exemplo, vemos que algumas semelhanças entre a sociedade maia do século VII e a asteca do século XV devem-se à sua pertinência à Mesoamérica, uma das regiões culturais americanas, não obstante o distanciamento geográfico e temporal que separou essas culturas. Por outro lado, também percebemos que as grandes diferenças entre grupos como os olmecas da costa do golfo do México, os tapajós da bacia amazônica, os taironas do norte da Colômbia e os mapuches das planícies argentinas estão ligadas ao fato de pertencerem a regiões culturais distintas.

Levando em consideração a amplitude geográfica do continente, a relativa antiguidade de sua ocupação e a diversidade cultural de seus povos nativos, é muito problemático fazer assertivas universalistas sobre a cultura e a história dos povos americanos. Da mesma forma, é inadequado nos atermos apenas a particularidades, que acabam por reforçar a distância desses povos em relação a nós. Ao contrapor a América indígena ao mundo europeu, muitos autores tendem a romantizar a história do contato e do confronto, propondo uma versão em que os atores se resumem a vencedores e vencidos. Esse tipo de visão pressupõe uma homogeneidade social e política que nunca fez parte da história do continente americano, e sim resultou da concepção romântica do "bom selvagem", que na sua "inocência" ou no seu "pacifismo" se teria rendido ao homem europeu e ampliado seu universo com os novos conceitos por ele introduzidos. Esse tipo de visão é na verdade pautada em uma série de preconceitos que infelizmente persistem em nossa memória histórica até os dias de hoje. Por que entendemos, por exemplo, que é importante conhecer os nomes dos participantes da Revolução Francesa, mas não nos importamos em desconhecer os nomes dos incas que durante 40 anos resistiram de maneira nada pacífica às forças espanholas, até serem derrotados em 1572? Em outras palavras, se nós, brasileiros, fazemos parte de um país formado a partir da convivência e do confronto entre europeus, indígenas e africanos, por que privilegiamos o estudo da história de um grupo e dedicamos aos demais apenas poucas palavras em nossos livros didáticos, jornais e revistas?

Parte da resposta a essa pergunta se encontra no fato de que a América e a África foram, por muito tempo, os principais alvos da dominação colonial praticada pelos povos europeus. E essa dominação, que provocou a morte, a escravidão e a fuga de milhões de indígenas e de africanos de suas terras, era justificada pela ideia de que os habitantes desses dois continentes eram "idólatras" ou "primitivos". Esse tipo de pensamento se materializou e foi difundido nos livros de história, filosofia e teologia, nas pinturas e em outras produções intelectuais de europeus e de seus descendentes na América, desde o início do período colonial até meados do século XX. Tais produções ajudaram a fortalecer a ideia de que o mundo ocidental - tanto pelo cristianismo quanto pelo avanço científico - representava o mais alto nível de desenvolvimento da história humana, e de que seu modo de vida era o modelo de "civilização" a ser seguido.

Esse tipo de pensamento consolidou estereótipos sobre a história dos povos indígenas, alguns dos quais ainda são muito fortes entre nós - por exemplo, a ideia de que são impermeáveis à transformação, a ideia de que são representantes de um estágio anterior da história humana, a ideia de que não são atores de sua própria história, mas apenas vítimas do expansionismo europeu. Contudo, graças à intensificação dos estudos e pesquisas, esse tipo de visão vem sendo progressivamente invalidado. Pesquisas recentes têm demonstrado que, assim como qualquer outro grupo humano, esses povos se transformam ao longo do tempo, segundo forças sociais internas, resultantes das relações dentro do grupo, e externas, resultantes das relações com outros grupos.

É importante perceber que a história dos povos indígenas na América, ou pelo menos de parte deles, não terminou com a chegada dos europeus, apesar da violência, do alto índice de mortalidade e da perda de suas terras. Ao contrário, os povos indígenas continuaram a atuar historicamente, relacionando-se entre si e com os europeus durante a época colonial e, depois, com as sociedades e Estados nacionais, até os dias de hoje. Para ficarmos apenas em dois exemplos, passados mais de 500 anos da chegada dos europeus à América, há cerca de 10 milhões de indígenas no México, num total de 100 milhões de mexicanos, e há aproximadamente 350 mil no Brasil, controlando cerca de 12% do território nacional.

[...]

CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL. Por ti América. Rio de Janeiro: Pancrom, 2005. p. 21-24.

terça-feira, 29 de maio de 2012

"A Aliança das Civilizações"


As correntes do Bósforo são conhecidas por sua força e por terem o sentido inverso na superfície e na profundidade. No entanto, há séculos o povo turco aprendeu a negociar entre estas correntes, na fronteira entre a Europa e a Ásia e entre o mundo islâmico e o Ocidente, o que contribuiu para a sua prosperidade. O relatório "A Aliança das Civilizações" ressalta justamente que a fusão das diferenças, sejam de opinião, de cultura, de credo ou de modo de vida, foi desde sempre o motor do progresso humano. Na época em que a Europa atravessava a idade das trevas, a Península Ibérica construiu seu progresso sob a interação entre as tradições muçulmanas, cristãs e judaicas. Mais tarde o Império Otomano prosperaria graças, sem dúvida, ao seu exército, mas também porque, neste império de ideias, a arte e as técnicas muçulmanas foram enriquecidas pelas contribuições judaicas e cristãs.

Infelizmente, muitos séculos mais tarde, é o crescimento da intolerância, do extremismo e da violência que marca nossa era de mundialização. Longe de semear a compreensão e a amizade mútuas, o estreitamento das distâncias e a melhora nas comunicações têm frequentemente engendrado tensão e desconfiança. Muitos são os que chegam a temer, especialmente nos países em via de desenvolvimento, a existência da comunidade planetária - sinônimo, a seus olhos, de agressão cultural e de sangria econômica. A globalização ameaça tanto seus valores quanto seu bolso.

Os ataques terroristas do 11 de setembro, a guerra e os conflitos no Oriente Médio, as propostas e os projetos mal-inspirados só servem para reforçar este sentimento e provocar tensão entre os povos e as culturas. As relações entre os fiéis das três grandes religiões monoteístas foram fortemente postas a prova. [...] 

No momento em que as migrações internacionais levam um número sem precedentes de pessoas das mais diversas religiões e culturas a viver lado a lado, os radicalismos e estereótipos que sustentam a ideia de "choque das civilizações" são cada vez mais propagados. Alguns grupos parecem impacientes para fomentar uma nova guerra de religiões, desta vez em escala mundial. E indiferença ou até mesmo desprezo que os outros manifestam em relação a suas crenças ou símbolos apenas lhes facilita a tarefa.

Em suma, a ideia de uma aliança das civilizações não poderia chegar em melhor hora, visto que não vivemos em mundos diferentes, como acontecia com nossos ancestrais. As migrações, a integração e a técnica têm aproximado as diferentes comunidades, culturas e etnias, fazendo cair velhas barreiras e desvendando novas realidades. Nós vivemos como jamais seria possível antigamente, lado a lado, submetidos a várias influências e ideias diferentes.

A demonização do "outro" revelou-se o caminho mais fácil. Neste século 21, continuamos reféns de nossa própria percepção da injustiça e de nossos direitos. Nosso discurso tornou-se a nossa prisão. Para muitas pessoas ao redor do mundo, em particular os muçulmanos, o Ocidente é uma ameaça a suas crenças e valores, interesses econômicos e aspirações políticas. Qualquer prova em contrário está condenada ao desdém e ao descrédito. Do mesmo modo, muitos ocidentais consideram o Islã como uma religião de extremismo e violência, mesmo sabendo que os dois mundos mantêm há muito tempo relações nos quais o comércio, a cooperação e as trocas culturais têm ocupado no mínimo tão importante quanto o dos conflitos. [...]

Inspiremo-nos por uma inscrição que pode ser vista no museu de Arqueologia de Istambul. Ela contém o tratado de paz firmado entre os impérios hitita e egípcio, depois da sangrenta batalha de Kadesh, em 1229 a.C. Tendo colocado um ponto final em décadas de desconfiança e guerra, este acordo marcou uma etapa histórica: os dois campos comprometeram-se a trocar assistência mútua e a cooperar. Esta é, de fato, a representação literal de uma aliança entre duas grandes civilizações. [...]

[Parte do discurso do ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, em Istambul. In: Le Monde Diplomatique: Brasil, São Paulo, fev. 2007.]

quinta-feira, 3 de maio de 2012

"Enterrem meu coração na curva do rio": a diversidade cultural das tribos indígenas norte-americanas

[...] Foi então, no começo da década de 1860, que os homens brancos entraram em guerra entre si - os Casacos Azuis contra os Casacos Cinza, a Grande Guerra Civil. Em 1860, havia provavelmente 300 mil índios nos Estados Unidos e territórios, a maioria deles vivendo a oeste do Mississípi. Segundo cálculos que variam, seu número diminuíra da metade, ou de dois terços, desde a chegada dos primeiros colonos à Virgínia e Nova Inglaterra. Os sobreviventes agora estavam pressionados entre as populações brancas em expansão no Leste e no litoral do Pacífico - mais de 30 milhões de europeus e seus descendentes. Se as tribos livres remanescentes acreditavam que a Guerra Civil dos homens brancos trouxesse qualquer trégua em suas pressões por territórios, logo se desiludiriam.

Seis chefes tribais fotografados a cavalo em 1900, durante um encontro. Da esquerda para a direita: Little Plume (piegan), Buckskin Charley (ute), Geronimo (apache chiricahua), Quanah Parker (comanche), Hollow Horn Bear (sioux brulé), e American Horse (sioux oglala). Foto de Edward S. Curtis.

A mais numerosa e poderosa tribo do Oeste eram os Sioux, ou Dakota, separados em várias subdivisões. Os Sioux Santee viviam nas florestas de Minnesota e, durante alguns anos, retiraram-se ante o desenvolvimento dos acampamentos. Corvo Pequeno, dos santee mdewakanton, depois de ser levado a uma viagem pelas cidades do Leste, convencera-se de que não poderia haver resistência ao poder dos Estados Unidos. Ele estava tentando, relutantemente, levar sua tribo pelo caminho do homem branco. Wabasha, outro líder santee, também aceitara o inevitável, mas tanto ele como Corvo Pequeno estavam determinados a se opor a qualquer outra cessão de suas terras.

O chefe sioux Touro Sentado, fotografado em 1881 com o calumet, um longo cachimbo usado em cerimoniais. Foto de Orlando Scott Goff

Mais ao oeste, nas Grandes Planícies, viviam os sioux teton, todos índios cavaleiros e completamente livres. Estavam bastante aborrecidos com seus primos santee das florestas por terem capitulado diante dos colonos. Mais numerosos e mais confiantes em sua capacidade de defender seu território eram os tetons oglala. No começo da Guerra Civil dos brancos, seu líder principal era Nuvem Vermelha, de 38 anos, um astuto chefe guerreiro. Ainda jovem demais para ser guerreiro, era Cavalo Doido um inteligente e destemido adolescente oglala.

Entre os hunkpapas, uma divisão menor dos sioux teton, um jovem, com seus 25 anos, já conseguira reputação de caçador e guerreiro. Em conselhos tribais ele defendera a oposição radical a qualquer invasão de homens brancos. Era Tatanta Yotanka, o Touro Sentado. Era o mentor de um menino órfão chamado Galha. Junto com Cavalo Doido, dos oglalas, fariam história dezesseis anos depois, em 1876.

Embora ainda não tivesse 40 anos, Cauda Pintada era o porta-voz principal dos tetons brulé, que viviam nas planícies do extremo oeste. Cauda Pintada era um belo e sorridente índio que gostava de festas alegres e mulheres complacentes. Adorava seu modo de vida e a terra em que vivia, mas estava disposto a negociar para evitar a guerra.

Intimamente ligados com os sioux teton eram os cheyennes. Nos velhos tempos, os cheyennes viviam no território do Minnesota, dos sioux santee mas gradativamente se mudaram para oeste e conseguiram cavalos. Agora, os cheyennes do norte dividiam o Rio Powder e o território de Big Horn com os sioux, frequentemente acampado perto deles. Faca Embotada, com seus 40 anos, era um líder importante do ramo norte de sua tribo. (Por seu próprio povo, Faca Embotada era chamado Estrela Matutina, mas os sioux chamavam-no de Faca Embotada e a maior parte dos relatos contemporâneos costuma chamá-lo assim.)

Os cheyennes do sul dirigiram-se para baixo do Rio Platte, estabelecendo aldeias nas planícies do Colorado e de Kansas. Chaleira Preta, do ramo sul, havia sido um grande guerreiro em sua juventude. No fim de sua meia-idade, era o chefe reconhecido, mas os jovens e os hotomitaneios (dog soldiers) dos cheyennes do sul estavam mais inclinados a seguir líderes como Touro Alto e Nariz Romano, que estavam em seu vigor.

Os arapahos eram velhos companheiros dos cheyennes e viviam nas mesmas áreas. Alguns continuaram com os cheyennes do norte, outros seguiram o ramo sul. Corvo Pequeno, em seus quarenta anos, era o chefe mais conhecido nessa época.

Ao sul das áreas de búfalos de Kansas-Nebraska havia os kiowas. Alguns dos kiowas mais velhos podiam lembrar as Black Hills, mas a tribo fora forçada a ir para o sul ante o poder conjunto dos sioux, cheyennes e arapahos, Por volta de 1860, os kiowas haviam feito paz com as tribos das planícies do norte e se tornaram aliados dos comanches em cujas planícies sulinas haviam entrado. Os kiowas tinham vários grandes líderes - um chefe idoso, Satank; dois vigorosos guerreiros de aproximadamente 30 anos, Satanta e Lobo Solitário; e um estadista inteligente, Pássaro Saltador.

Os comanches, constantemente em marcha e divididos em muitos grupos pequenos, não tinham a liderança de seus aliados. Dez Ursos, muito velho, era mais um poeta que um chefe guerreiro. Em 1860, o mestiço Quanah Parker, que levaria os comanches a uma grande e última luta para salvar uma área de búfalos, ainda não tinha 20 anos.

No árido sudoeste, havia os apaches, veteranos de 250 anos de guerra e de guerrilhas com os espanhóis, que lhes ensinaram as refinados artes da tortura e da mutilação, mas que nunca os derrotaram. Embora poucos - provavelmente não mais que 6 mil, divididos em vários grupos - sua reputação como defensores tenazes de sua árida e impiedosa terra já estava consagrada. Mangas Colorado, no fim dos seus 60 anos, assinara um tratado de amizade com os Estados Unidos, mas já estava desiludido pelo influxo de mineiros e soldados em seu território. Cochise, seu genro, ainda acreditava que poderia coexistir com os americanos brancos. Victorio e Delshay não confiavam nos invasores brancos e os evitavam. Nana, com seus 50 e poucos anos, mas duro como couro cru, considerava os brancos de fala inglesa iguais aos mexicanos de fala espanhola que ele combatera a vida toda. Gerônimo, com 20 anos, ainda não se salientava.

Os navajos ficavam próximos dos apaches, mas a maior parte dos navajos seguira o caminho do branco espanhol e estava criando carneiros e cabras, cultivando cereais e frutas. Como criadores e tecelões, alguns grupos da tribo ficaram ricos. Outros navajos continuavam nômades, atacando seus velhos inimigos, os pueblos, os colonos brancos ou membros prósperos de sua própria tribo. Manuelito, um criador bigodudo e musculoso, era o chefe principal - escolhido por uma eleição dos navajos, realizada em 1855. Em 1859, quando alguns navajos selvagens atacaram cidadãos dos Estados Unidos em seu território, o Exército americano replicou, não caçando os culpados, mas destruindo os hogans [cabanas] e atirando em todo o gado de Manuelito e membros de seu grupo. Por volta de 1860, Manuelito e alguns seguidores navajos entraram numa guerra não declarada contra os Estados Unidos no norte do Novo México e no Arizona.

Nas Montanhas Rochosas, ao norte dos territórios dos apaches e navajos, havia os utes, uma agressiva tribo montanhosa, inclinada a atacar seus vizinhos mais pacíficos do sul. Ouray, seu líder mais conhecido, favoreceu a paz com os homens brancos a ponto de alistar seus guerreiros como mercenários contra outras tribos índias.

No extremo oeste, a maioria das tribos eram muito pequenas, muito divididas ou muito fracas para oferecer muita resistência. Os modocs da Califórnia do Norte e do sul do Oregon, menos de uma centena, lutaram por suas terras travando guerrilhas. Kintpuash, chamado Capitão Jack pelos colonos da Califórnia, era apenas um jovem em 1860. Sua trajetória como líder chegaria ao auge doze anos depois.

A noroeste dos modocs, os nez percés viveram em paz com os brancos [...]. Em 1855, um ramo da tribo cedeu terras dos nez percés aos Estados Unidos para colonização e concordou em viver dentro dos limites de uma ampla reserva. Outros grupos da tribo continuaram a vagar entre as montanhas Azuis do Oregon e as Bitterroots de Idaho. Devido à amplidão do território do Noroeste, os nez percés acreditavam que sempre haveria terra suficiente para brancos e índios usarem como entendessem. Heinmot Tooyalet, depois conhecido como Chefe Joseph, teria de tomar uma decisão fatal em 1877, entre a paz e a guerra. Em 1860, tinha 20 anos, era filho de um chefe.

No território do Nevada dos paiutes um Messias futuro chamado Wovoka, que depois teria uma influência breve mas poderosa sobre os índios do oeste, só tinha quatro anos em 1860.

Durante os trinta anos que se seguiram, esses líderes e muitos outros entrariam na história e na lenda. Seus nomes se tornariam tão conhecidos quanto os dos homens que tentavam destruí-los. A maioria deles, jovens e velhos, cairia por terra bem antes do final simbólico da liberdade índia, em Wounded Knee, em dezembro de 1890. Agora, um século depois, são talvez os mais heróicos de todos os americanos.

BROWN, Dee. Enterrem meu coração na curva do rio. São Paulo: Círculo do Livro, s.d., p. 26-29.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Os povos indígenas na época do "descobrimento"

Família tupinambá, John White

Os índios americanos teriam origem asiática. Sua entrada no continente? Entre 25.000 e 33.000 anos atrás. Acredita-se que entraram por uma conexão terrestre que seria hoje o Estreito de Bering. O mais provável é que tenham penetrado em sucessivas migrações ao longo de um lapso de tempo indeterminado. Que talvez tenha durado séculos ou milênios, e foram se esparramando até chegar ao extremo sul mais remoto, a chamada Terra do Fogo.

Parece haver provas suficientes de que eles também teriam chegado por via marítima, vindo das longínquas ilhas da Polinésia, realizando prodigiosas navegações em naus bastante frágeis.

Que conhecimentos esses povos asiáticos tinham? Quais eram as diferenças entre eles? Não sabemos. Assim como não sabemos os motivos que os fizeram abandonar suas terras de origem. Só possuímos presunções.

Não há dúvida de que na nova terra enfrentaram problemas de diferentes naturezas para a subsistência. Alguns povos os resolveram. Outros, provavelmente, sucumbiram. Obviamente, cada povo, tribo ou como se queira chamar aquelas comunidades humanas, enfrentou os desafios da natureza com suas próprias armas, com o conhecimento que possuíam. Problemas similares encontraram diferentes soluções, todas válidas na medida que permitiram subsistir e manter a coesão das comunidades. Alguns povos foram mais felizes nas suas conquistas, talvez por estar melhor preparados, pelas condições do meio ambiente natural, mais favoráveis, ou porque ambos os fatores coincidiram. Quando Cristóvão Colombo descobriu a América, o desenvolvimento cultural, social e econômico dos diferentes povos era extremamente heterogêneo, e a distribuição da população era também desigual.

Nos lugares em que foi possível  retirar do trabalho produtivo de alimentos massas consideráveis de pessoas, abriu-se a possibilidade para a construção de cidades, templos, palácios, fortalezas, diques, caminhos, aquedutos; para elaborar uma ciência, uma arte e uma produção espiritual bastante refinadas. Ali tornou-se também possível a construção de vasta s e complexas estruturas políticas, a criação de castas de sacerdotes e burocratas; o desenvolvimento de mercadores, transportadores, médicos, engenheiros, arquitetos, historiadores, poetas, etc. Esse fenômeno aconteceu no vale do México, península do Yucatã e parte da Guatemala, e no vasto território andino onde se constituiu o Império Inca. Em menor medida na atual Colômbia, entre os chibchas. [...]

O historiador Pedro Armillas divide os períodos culturais anteriores ao descobrimento da seguinte maneira:

* Pré-agrícola: Teria transcorrido entre os anos 25.000 e 3.000 antes da nossa era. As comunidades caçavam, pescavam e colhiam os frutos naturais. Ao final do período, alguns povos implantaram a agricultura.

* Proto-agrícola: Entre os anos 3.000 e 500 antes da nossa era. Desenvolve-se a agricultura nas áreas das futuras grandes civilizações. O resto continua na etapa anterior.

* Civilização: Aproximadamente do ano 500 antes da nossa era até o século XV. Surgem as civilizações asteca, maia e inca. Nascem as cidades, os caminhos e os aquedutos. A agricultura utiliza os canais de irrigação e o cultivo em terraços. Conhece-se a escrita, a educação pública e o comércio. Florescem prodigiosas manifestações artísticas, a maioria delas vinculada aos cultos e rituais religiosos.

Watu Ticuba, uma vila Wapisiana, Charles Bentley. [Mulheres indígenas da Guiana em atividades cotidianas]

Na época do descobrimento, o desenvolvimento é claramente desigual. Os espanhóis constataram, rapidamente, que os tainos das grandes Antilhas (Cuba, São Domingos) eram extremamente pacíficos, cultivavam o algodão e esculpiam a pedra. Não longe deles, os caribes (dos quais teria derivado a palavra "canibais") eram valentes guerreiros. Os chibchas que habitavam os planaltos de Bogotá e Tunya (Colômbia), pareciam estar prestes a organizar uma espécie de império. Os maias, também conhecidos como maias-quichés, estavam vivendo um tempo de decadência. A Confederação Asteca mostrava-se em pleno crescimento.

Elementos principais e decisivos para uma organização social são:

- o cultivo de cereais e outras plantas alimentícias;
- a qualidade nutritiva desses cultivos;
- a técnica utilizada e a produtividade lograda;
- a domesticação de animais para consumo, transporte e fornecimento de matérias-primas (lã, couro, crina, etc.).

No México tinha-se conseguido domesticar o peru, enquanto os tainos não tinham conseguido domesticar nenhum animal. Nas regiões andinas, o homem transformou a lhama e a alpaca em animais de carga [...] e deles extraía lã para tecidos e carne para consumo. O guanaco e a vicunha, ainda que tenham continuado selvagens, forneciam carne e couro. Determinadas tribos criavam tartarugas para alimento e abelhas para aproveitar o mel. O papagaio fornecia penas para enfeites e serviu para diversão. [...]

As grandes civilizações desenvolveram uma agricultura comparada às melhores do mundo na época. Plantas como o cacau, milho, batata, mandioca, tomate, abacate, amendoim, goiaba, mamão, abacaxi e muitas outras são americanas. A essas, deve-se acrescentar uma infinidade de ervas e raízes medicinais, e plantas ornamentais. Madeiras que seriam apreciadas no mundo inteiro, são nativas do continente. 

POMER, León. História da América hispano-indígena. São Paulo: Global, 1983. p. 3-5.

sábado, 10 de março de 2012

Novos e antigos deuses

A tendência da religião era florescer com mais vigor quando a vida cotidiana estava em perigo e quando havia muita dor. A religião florescia quando enchentes, secas e outras catástrofes da natureza eram mais destruidoras, quando a fome esperava logo na esquina, e a morte precoce era a expectativa da maioria das pessoas. A religião florescia quando as pessoas viviam da terra e sabiam como era fácil uma colheita, há tanto tempo esperada, ser arrasada por pestes, seca, exaustão do solo ou tempestades. Durante a maior parte da história, a vida humana estava em perigo. A religião dava as respostas aos acontecimentos inexplicáveis da vida de um estado, de uma região ou de uma família. Satisfazendo uma ânsia profunda e, às vezes, inexplicável, ela era também uma fonte de força e inspiração.

A religião era a base de muitas sociedades que, de outra forma, possivelmente teriam desmoronado. Monarcas poderosos ganhavam muito ao sustentá-la. A religião oficial lhes permitia proclamar que eram mesmo descendentes de deuses. As revoluções da França em 1789, na Rússia em 1917 e na China em 1949 se empenharam em derrubar as antigas religiões porque sustentavam a antiga ordem.

No século XX, a religião enfrentou outras dificuldades. Com o aumento da prosperidade e da longevidade, parte do apelo da religião, foi enfraquecido. Na Europa e em algumas regiões dos Estados Unidos, a frequência às igrejas decaiu rapidamente, assim como a aceitação de códigos sexuais e morais pregados por elas.

Apesar disso, no mundo como um todo, a religião permanecia poderosa. O cristianismo e o islamismo conseguiram muito mais adeptos do que o século anterior e seus locais de reunião traçavam uma linha pontilhada por toda a terra. O budismo já não mais tão poderoso na China, reteve sua vitalidade em muitas terras. Na Índia, os hindus, os jainistas, os parses e os sikhs eram extremamente presentes e atuantes. O judaísmo estava vivo e grato por estar vivo. Na África, havia mais pessoas praticando fervorosamente as religiões do que na Europa, em qualquer época. De forma bastante expressiva, exatamente as mesmas igrejas que se recusavam a dar uma trégua às tendências profanas, e continuavam a afirmar sua crença na importância do próximo mundo, eram geralmente as mais vigorosas.


O Islã não dava trégua, havia somente um Deus e Alá era seu nome. A maioria de seus pregadores se opunha à profanação, ao consumismo, ao materialismo e ao que viam como uma cultura cada vez mais atordoada e ímpia em Nova York, Paris, Moscou e Cingapura. Dentro do Islã, os extremistas evangélicos eram evidentes. Eles não eram típicos, mas eram forçados a serem típicos porque suas atividades estavam geralmente nos noticiários. Eram totalmente opostos ao judaísmo e ao cristianismo. Denunciavam o mundo ocidental secularizado como decadente, e extremamente permissivo e tolerante. Por sua vez, eram denunciados como retrógrados e extremamente intolerantes. Disputas tão arraigadas como essas haviam ocorrido repetidas vezes na história da humanidade. Enquanto no ocidente a diversidade cultural e religiosa, talvez pela primeira vez na história, era aclamada por muitos como uma virtude suprema, nas mesquitas era vista quase como um pecado supremo.

Predominantemente uma religião do interior e dos vilarejos, o islamismo no início do século XXI cresceu em ritmo acelerado, em parte porque acreditava em si e em parte porque acreditava em famílias numerosas. Era agora a religião de aproximadamente uma em cada cinco pessoas no mundo e estava crescendo mais rapidamente que o cristianismo, embora ainda muito atrás em seu número total de adeptos. Hoje, os lugares realmente enormes de adoração construídos no mundo são provavelmente as mesquitas islâmicas e, não mais, as catedrais cristãs. Na cidade marroquina de Casablanca, foi recentemente construído o minarete mais alto do mundo e, até mesmo na Venezuela, considerada uma nação católica, os habitantes devotos dos vilarejos do interior ficaram impressionados com o surgimento de uma dessas imponentes mesquitas em seu país.

[...]

A ciência, aclamada no século anterior como a benfeitora da raça humana, era agora condenada por muitos críticos ocidentais como uma destruidora. Uma luta ambiental vigorosa resumiu a tecnologia e a ciência como inimigas que estavam poluindo o céu, a terra e o mar. A poluição tornou-se uma palavra que servia a todos os propósitos de desaprovação. Esse era o primeiro século em que a poluição era vista como uma força mundial. A hostilidade disseminada em relação à ciência e à tecnologia veio quando seus triunfos ainda eram muito mais abrangentes do que suas ameaças.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do mundo. São Paulo: Fundamento Educacional, 2004. p. 261-263.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A diversidade latino-americana

A diversidade de ingredientes da América Latina vem chamando a atenção de cozinheiros do mundo inteiro. [...] Para discutir a riqueza da gastronomia latino-americana, a Menu convidou para um bate-papo o historiador Henrique Carneiro [...] e o sociólogo Carlos Alberto Dória [...].

Astecas preparando refeição. Ilustração do Codex Florentine. Século XVI.

Como vocês veem o fato de a diversidade e a complexidade das cozinhas americanas estarem mais evidentes em alguns países, como México e Peru?
Henrique Carneiro Acho que as grandes civilizações pré-colombianas tiveram essa primazia por conta de serem mais cosmopolitas que os índios do Brasil. No Peru, há uma ascendência da civilização pela combinação dos produtos da floresta e do mar. É o mar mais viscoso do planeta, e há recursos, oriundos do que eles chamam de pisos ecológicos, que até hoje fazem a riqueza da região: batatas plantadas acima de três mil metros, amarantáceos (como as quinuas) plantados há mais de quatro mil metros de altitude. E há o cultivo do algodão, que permitiu a eles tecer redes e armadilhas para os peixes.

Carlos Alberto Dória Acho errada a visão de que aos povos da floresta, como os do Brasil, estaria reservado um lugar não tão marcante. Nos anos 1980, houve uma revisão disso: há indícios  de que no Alto Xingu já se tinha uma sociedade bastante complexa, com cidades muradas ligadas por estradas largas e, entre elas, pomares de frutas como pequi e grandes tanques de criação de tartarugas.

Carneiro Ainda assim, me parece que a diferença marcante entre as sociedades andinas pré-colombianas e os povos da floresta é a poderosa rede de intercâmbios entre diferentes regiões e altitudes. Essa homogeneidade da civilização tropical florestal, embora tenha sido desprezada, é de uma riqueza de produtos disponíveis menor do que a dos povos andinos.

Dória As culinárias andina e mexicana têm um viés popular duradouro. Nós, brasileiros, nos ocidentalizamos demais. Nos orgulhamos dos italianos, espanhóis e alemães que vieram para cá, mas não do índio. Na época da independência mexicana (1910), a burguesia deste país reivindicou para si a cultura popular. Houve, então, uma incorporação simbólica, principalmente da cultura pré-colombiana.

E quanto às bebidas tradicionais?
Carneiro O Brasil é o único país de tradição indígena que perdeu o hábito de suas bebidas fermentadas. A chicha (fermentado de milho), feita do Chile à Colômbia, e o pulque mexicano continuam vivos até hoje. Outro exemplo dessa perda das tradições é o cactus: essa planta só existe na América. Em todas as culturas do continente, o cactus faz parte dos pratos. No Nordeste brasileiro, ele só é comido quando a fome é extrema. Retomando a questão da maior complexidade ou diversidade deriva, também, do uso do sal, escasso no contexto indígena brasileiro, enquanto no Peru havia uma corrente de tráfego de sal que abastecia os povos com elementos nutricionais importantes.

Quais seriam os ingredientes fundamentais para a construção das cozinhas latino-americanas?
Carneiro No México, milho, feijão e chiles (pimentas). Depois, alimentos complementares, como as abóboras, o tomate e o abacate.

Dória No Brasil, as guerras entre tupis e tapuias é, no fundo, a guerra do milho e da mandioca. Acho que o milho e a mandioca são alimentos distintivos na América do Sul. É inegável que, entre os alimentos proteicos, a riqueza de peixes na Amazônia é grande, um sustentáculo da alimentação. E, combinada à mandioca, na medida em que o tucupi, além de alimento, é um conservante. E no plano dos pequenos ingredientes, o Brasil é muito rico.

E quanto às frutas?
Dória A variedade de frutas em São Paulo era imensa. Há frutas da minha infância que os jovens hoje desconhecem, como o cambucá. Essa destruição recente influi muito na visão que se tem da nossa culinária. Embora o valor culinário de São Paulo, por exemplo, seja a própria diversidade, por conta das migrações, ela nega a diversidade original nativa. Tanto é que a palavra exótica é aplicada pelo brasileiro às coisas do próprio país.

Carneiro Lembremos que o tomate, americano, é uma fruta. Mas uma fruta destacada nas Américas é a banana-da-terra. Em Cuba, no Equador e na Colômbia, é o acompanhamento geral das comidas. Vende-se banana como se vende batata chips.

É possível traçar diferenças entre a colonização espanhola e a portuguesa na culinária de suas colônias?
Dória O fundamental, quando se trata do período colonial, é perceber que a mesa europeia advém das colônias, quer sejam as especiarias do Oriente, quer sejam os vegetais das Américas.

Carneiro Há também a questão dos cozidos, como a olla podrida (ou puchero) espanhola, que nas Américas tem equivalentes como o ajiaco (colombiano), o sancocho (peruano e boliviano) e o locro (boliviano). No Brasil não temos um cozido dessa natureza, com vegetais. Na Espanha usa-se, sobretudo, grão-de-bico.

Dória Essa relação que se faz na América espanhola com o cozido, nós fazemos com o vatapá. E o que é o vatapá? É a açorda portuguesa. Em todas as colonizações portuguesa, há um equivalente: uma sopa que leva pão. Mas o que unifica a colonização ibérica é o porco, que chega à América e se torna um pilar da alimentação de vários países.

Propala-se hoje uma certa "superioridade" gastronômica do Peru...
Dória A Amazônia é anterior ao Peru e ao Brasil. Então, ela vai engolir o Peru e o Brasil!

Carneiro Na qualificação dos ingredientes e receitas, duvido que o Peru possa ser mais amplo do que as diferentes tradições do Brasil. Mas o País tem produtos muito peculiares, que originam combinações peculiares. E uma diversidade de ecossistemas num espaço pequeno.

Dória Essa "oposição" entre Peru e Brasil se baseia no equívoco de achar que as receitas é que fazem uma culinária. O que o Peru tem de marcante é um grande chef, Gastón Acurio, cujo discurso político é muito articulado, e onde a culinária é um fator de emancipação do trabalhador e está ligada à construção de um modo de vida, o que falta no Brasil. Nossos chefs ainda veem o Brasil pelos olhos europeus, não mais pelos dos franceses, mas, agora pelos dos espanhóis.

E quanto ao trabalho que se faz com relação à Amazônia?
Dória O que existe hoje em termos de atenção culinária na Amazônia está concentrada no Peru, exatamente por causa de Acurio. Nós sentimos falta disso, parece que a Amazônia não nos pertence. Mas se atentarmos a Belém, particularmente ao jovem cozinheiro Thiago Castanho, podemos ver com esperança um tratamento da cozinha amazônica a partir da própria Amazônia.

Carneiro Mas há aqui um intérprete nacional da culinária como Acurio? O próprio (Alex) Atala fez pesquisas na região, mas não se incorporaram. A própria coca peruana, não é só uma droga, pois tem vários usos culinários que foram recuperados, como torta de coca, farinha de coca, e são motivo de orgulho dos peruanos.

Cristiana Couto. Revista Menu. Outubro 2011. p. 57-59.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Um supermercado cruza o Atlântico

Os europeus estavam começando a dominar as Américas, mas a corrente de influências corria nas duas direções. Nunca antes, na história do mundo, haviam sido transferidas tantas plantas valiosas de um continente ao outro.

O milho era a mais notável das novas plantas, e Cristóvão Colombo, pessoalmente, transportou sementes de volta em seu navio. O milho tinha a impressionante capacidade de produzir, na época da colheita, muito mais grãos do que o trigo ou o centeio; [...] Em 1700, os pés altos e verdes de milho podiam ser vistos balançando ao vento na maior parte das zonas rurais da Espanha, Portugal e Itália.

A batata americana foi para o norte da Europa o que o milho representou para o sul. Os irlandeses acolheram bem a batata, pois em seus pequenos pedaços de terra, ela oferecia mais calorias do que qualquer outro produto. [...] a batata quente era o principal prato da população pobre da Irlanda. [...] Os alemães também se regozijaram com a batata, ao descobrirem que essa plantação, ao contrário de milho maduro, não era facilmente danificada ou destruída por exércitos violentos.

Nas plantações europeias, também podiam ser achadas outras novidades americanas: a batata doce, o tomate [...] e a alcachofra [...].

O peru, a única carne a ser trazida das Américas, também foi igualmente disfarçada por seu nome europeu. [...] Os perus, que mais rigorosamente falando deveriam ter sido chamados de "méxicos", já eram populares nas mesas da Espanha e Inglaterra, no Natal de 1573.

[...]

Das Américas vieram presentes como o abacaxi, a ser comido somente na mesa dos muito ricos, a pimenta de Caiena (ou cápsico), o cacau e o tabaco. Como quase todas as novidades transatlânticas, o tabaco se espalhou aos poucos pela Europa [...].

As monarquias da Europa não tinham certeza de como controlar essa nova moda de fumar tabaco em cachimbos ou de cheirá-lo na forma de rapé; alguns reis tentaram bani-lo. Na Rússia, um fumante podia ser punido com a amputação de seu nariz. Outros países, que tinham colônias tropicais, tentaram proibir a plantação de tabaco em solo nacional para que pudesse ser cultivado nas colônias e importado através de um porto onde pudessem ser recolhidos impostos sobre cada lote de tabaco desembarcado. A Inglaterra estabeleceu colônias na Virgínia e Maryland, principalmente para o cultivo desse produto. [...]

O tráfico de minerais, no curto prazo, foi o comércio mais dramático do Atlântico. O primeiro presente para os espanhóis na América Central e do Sul foram o ouro e a prata. Uma vez que haviam conseguido total controle de seus territórios americanos e enviado trabalho forçado para operar nas minas, os espanhóis despachavam para casa, em comboios altamente armados, uma quantidade anual tão grande de ouro e prata que a inflação monetária começou a mexer com a Espanha e, em seguida, com a Europa.  [...]

Nos primeiros navios que traziam metais preciosos, plantas e sementes valiosas pelo Atlântico, veio um outro turista: a doença da sífilis [...]. A sífilis tornou-se comum no século XVI [...].

As viagens europeias também abriram a Ásia para o mundo. Durante séculos, uma infinidade de produtos e plantas asiáticos atravessou toda a extensão da Ásia por terra, mas agora tudo fluía pelas rotas do mar. O chá da China encontrou seu caminho para a Europa, assim como a misteriosa porcelana e muitas outras manufaturas.

[...]

Da China, vinham novas flores de jardim para a Europa. O crisântemo era a favorita. [...]

O Novo Mundo também deu aos ávidos europeus um prazer que não era comum: deu-lhes as cores vivas. Ainda em 1500, a maioria das cidades e vilarejos era fria em suas cores. As cabanas podiam receber uma mão de cal, mas raramente eram pintadas. As casas de madeira tinham uma aparência pardacenta, embora, na Holanda, os tijolos chegassem a dar um tom vermelho aconchegante. [...] Em muitas cidades, a pedra era naturalmente escura e, com o passar dos anos, até as pedras claras eram aos poucos descoloradas pela fumaça de madeira [...]. Em algumas catedrais medievais, os vitrais ficavam realmente bonitos quando o sol estava brilhando, mas essas cores eram destacadas exatamente porque a maioria das ruas da cidade não tinha brilho algum.

As roupas dos europeus eram geralmente pardas, exceto as usadas pelos ricos. Os artigos não eram embrulhados em cores vivas porque qualquer forma de embrulho era muito cara. Os papéis para embrulho eram pura extravagância e nunca coloridos. Faixas e bandeiras eram atraentes porque eram muito mais ricas em cor do que as roupas usadas pela maior parte dos cidadãos.

Um dos milagres das recém descobertas Américas foram as novas cores. Os mexicanos, bem antes da chegada dos espanhóis, haviam observado como um inseto sem asas, alimentando-se da planta do cáctus, e estando prenhe, continha uma cor escarlate de grande intensidade. Eram necessários 70.000 insetos mortos para produzir somente meio quilo de pó de cochonila, que, podia ser usado para criar tinturas das mais vivas. [...]

A rota marítima ao redor da África abriu as portas para uma fonte barata da cor azul. O índigo, planta da qual o mais fino azul era extraído, era cultivado em Bengala. [...] Por muitos séculos, consignações pequenas e caras da tintura do índigo, provavelmente da Índia, ocasionalmente chegavam no Mediterrâneo pela rota terrestre, mas agora começava a chegar em milhares de baús de madeira acondicionados em navios holandeses e portugueses. [...] Em pouco tempo, nos recintos mais elegantes de Amsterdã e Veneza, homens e mulheres usando chapéus e casacos, capas e túnicas de azul índigo desfilavam como pavões. Até o exército francês abandonou o uniforme castanho-avermelhado e vestiu-se de azul.

[...]

Muitos pacotes pequenos, caixas e barris vinham nas novas cargas até os armazéns e eram considerados tão preciosos quanto ouro. Da China, vinham pequenos potes contendo aquele ingrediente precioso da medicina, do perfume e da arte de embalsamar, o almíscar. [...] Na era de pouquíssimos analgésicos, o almíscar induzia a sonolência. [...]

Em todos os lugares, o mercado de novos remédios era enorme. A Europa, na época, sofria muito com a malária e, nos pântanos da Itália, ela era extremamente mortal. Uma possível cura era oferecida pela casca de um arbusto peruano, a cinchona. Principalmente importada para a Europa pelos sacerdotes católicos, foi conhecida inicialmente como casca dos Jesuítas. O ingrediente fundamental presente na casca era a quinina, descoberta pelos franceses durante o período das Guerras Napoleônicas.

Na Europa, o cravo-da-índia, originário do arquipélago indonésio, era apreciado como remédio, principalmente para dor de dente, e como um tempero para comida e bebida. Aos olhos da maioria dos mercadores, a pimenta era o presente do sudeste da Ásia. Uma trepadeira que se enroscava nos galhos das árvores, seus frutos eram colhidos quando estavam vermelhos e brilhantes e, em seguida, eram espalhados em tapetes sob o sol quente, onde ficavam até murcharem e se tornarem escuros. Era tão cara que, em muitas cozinhas europeias, era salpicada em algumas carnes especiais de forma tão meticulosa como se fosse pó de ouro. [...]


Mapa da América do cartógrafo Sebastian Munster, 1561

Não só a mesa de refeições dos europeus mais abastados, mas também a própria agricultura em si estava se alterando. As viagens de Colombo, Vasco da Gama e outros navegadores europeus pelos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico promoveram uma revolução na agricultura do mundo. Junto com as cargas acondicionadas nos conveses ou trancadas no porão, havia pequenas consignações de sementes e mudas que eram eventualmente transportadas por uma série de acontecimentos premeditados e casuais para todos os continentes. O café, algodão, açúcar e o índigo foram para as Américas para serem cultivados em larga escala, com suas colheitas sendo exportadas para a Europa. Para a Argentina foi o gado e, mais tarde, para a Austrália foram as ovelhas. [...]

[...]

Durante esse intercâmbio internacional de plantas e matérias-primas, aconteceram casualidades. Muitas aves, animais e plantas foram ameaçados pela chegada de novas pessoas, novos animais, novas armas e armadilhas.

Nas ilhas vulcânicas de Maurício e Reunião, há vários anos, havia vivido um pássaro que não podia voar, o dodó. Membro da família dos pombos, grande e dócil, com pernas grossas e calosas, penas brancas e cabeça pouco comum, o pássaro vivia em segurança, longe do ataque de qualquer predador. [...] Em seguida, os exploradores europeus chegaram, trazendo porcos e ratos; os ovos colocados pelo dodó em ninhos sobre o chão ficaram vulneráveis.


Dodó (Raphus cucullatus). Artista desconhecido. Gravura do século XVII

O último dodó de que se tem notícia, pego na ilha de Reunião [...] morreu num barco francês em algum momento antes de 1764. [...] Em todas as regiões do Novo Mundo, uma variedade de espécies, seja o pombo-passageiro da América do Norte ou o "tigre" marsupial listrado da Tasmânia, seguiram o mesmo caminho que o dodó.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do mundo. São Paulo: Fundamento Educacional, 2004. p. 158-163.