"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O eterno par de Alexandre Magno: amigos para sempre (Parte 3)

Funeral de Alexandre. Artista desconhecido

Nenhum destes episódios, nem outros que se sucederam durante os onze anos que durou a epopeia de Alexandre, conseguiram separar aqueles dois homens que tinham crescido e brincado juntos no palácio real da Macedônia. Heféstion continuou sempre a acompanhar o seu amigo, foi padrinho do casamento com Roxana, aconselhou-o o melhor que pôde e participou nas gloriosas batalhas, mas sempre vigiado por um chefe mais capaz. Esta posição de privilégio provocou muitas vezes a inveja e o ressentimento de pessoas próximas de Alexandre, como era o caso do excelente general Crátero, com quem Heféstion partilhou funções sem nunca chegarem ao entendimento. De acordo com algumas fontes, a diferença consistia em que Crátero era um philobasileus, ou seja, amante do rei e Heféstion um philoalexandrus, ou seja, amante de Alexandre.

Pouco depois, Alexandre nomeou o seu amigo como vizir, alto cargo dos reinos persas que equivalia a algo como primeiro-ministro. Seguindo a tradição da corte aquemênida, Heféstion passou a usar, a partir daquele dia, o báculo engastado de pedras preciosas para admiração da soldadesca e inveja do secretário imperial, Êumenes, cuja birra de zelo teve de ser firmemente reprimida por Magno.

Heféstion e Alexandre cavalgaram juntos, pela última vez, no Verão de 324, num passeio pacífico pelo Elão e pelo Sul da Babilônia para explorar os grandes rios da Mesopotâmia. O itinerário terminou em Ecbátana, capital da satrapia de Média. O sátrapa Atropates ofereceu aos ilustres visitantes um colossal banquete de boas-vindas, em consequência do qual Heféstion ficou gravemente doente. O vizir das argolas de ouro morreu em Outubro desse ano, proporcionando a inconsolável imagem de Alexandre e Dripetis, que choraram abraçados a sua perda. Êumenes, que procurava agradar ao imperador, propôs que o malogrado herói macedônio fosse homenageado como um deus (deve-se dizer que os Gregos nunca tiveram muito clara a ténue linha que separa os homens dos deuses). Comivido, Alexandre aceitou a ideia - quem sabe também a pensar na sua divinização - e Heféstion recebeu as honras sagradas bum funeral solene na Babilônia, até ao seu sumptuoso túmulo protegido por um enorme leão de pedra. O cadáver foi colocado no sarcófago, com o seu precioso báculo e os seus brincos de ouro e o cargo de vizir jamais voltou a ser ocupado por ordem de Alexandre.

A morte de Heféstion provocou mudanças no carácter de Alexandre, acentuando os seus devaneios de melómano e a sua instabilidade emocional. Comparou-se publicamente a Dioniso e a Héracles e exigiu aos seus vassalos o reconhecimento de sua divindade. [...]

"Plutarco escreveu que Alexandre tinha declarado uma vez que, sem Heféstion, nunca teria sido nada, E é verdade. Heféstion era um guerreiro competente, mas carecia do brilho de outros generais como Parménion ou Crátero. Apesar de tudo, ele estava mais próximo do coração do rei, o que tornou a sua vida difícil: todos os oficiais da corte o invejavam, E isso fez dele um homem solitário e completamente dependente do soberano. Por outro lado, Alexandre podia confiar totalmente em Heféstion." (Jona Lendering. Hephastion)

O imperador adoptou a austeridade espartana e nesse mesmo Inverno dirigiu ferozes expedições de castigo contra os rebeldes das montanhas de Luristão. Depois exigiu que todos os reinos, cidades e satrapias do seu império enviassem embaixadores a prestar-lhe vassalagem como divindade. Continuou a enviar tropas de reconhecimento com o objectivo de continuar a expandir o seu império até a Índia e a outras regiões do Oriente. Para estimular os seus generais e cortesãos, em Junho de 323, ofereceu um prolongado e esplêndido banquete na Babilônia, na sequência do qual ficou muito doente com um presumível delirium tremens alcoólico. Faleceu no dia 13 daquele mês, depois de dez dias de agonia profunda, aos trinta e três anos de idade e doze do glorioso reinado.

É interessante assinalar que, como só sucede em casamentos duradouros, Alexandre não sobreviveu muito tempo a Heféstion. Morreu oito meses mais tarde, de uma causa semelhante e em condições muito análogas às do companheiro de toda a sua vida. E se bem que Heféstion não teria sido ninguém sem ele, também é provável que, sem o afecto e a lealdade de Heféstion, Alexandre tivesse sido menos Magno.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 49-52.

sábado, 22 de outubro de 2016

O eterno par de Alexandre Magno: o amante desprezado (Parte 2)

Busto de Alexandre Magno. Escultura helenística. Artista desconhecido

Ambos os amigos já tinham passado dos vinte anos, o que, segundo os costumes gregos, extinguia a licença para brincar com o mesmo sexo. Estava na hora de assentar e procurar esposa. Alexandre, para ganhar tempo, ligou-se a uma amante persa chamada Bactrina. Heféstion passou discretamente a segundo plano não só na alcova do amigo, mas também pelas inócuas tarefas diplomáticas que este lhe atribuiu para o manter afastado.

Alguns autores registram um eventual ressentimento de Heféstion por essa indiferença do seu chefe e amante, que o teria levado a protagonizar um acto suspeito de deslealdade. O seu erro consistiu em receber um enviado de Demóstenes quando Alexandre se encontrava no Egipto. O político ateniense, entre outros assuntos, era um declarado inimigo de Alexandre e forte crítico do imperialismo macedônio, que provavelmente estava ao corrente do afastamento de Heféstion. A sua intenção não podia ser outra senão convencê-lo a revoltar-se contra Alexandre, obedecendo a um plano que Demóstenes urdia com outros chefes descontentes. Pelo menos foi o que disse mais tarde o mensageiro, embora não exista qualquer registro de que Heféstion tivesse aceitado juntar-se à conspiração, nem de que Demóstenes estivesse envolvido com a verdadeira conspiração que aconteceu em 330 a.C.

Nesse ano, um grupo de oficiais revoltou-se, mas foi rapidamente reprimido pelos chefes leais a Alexandre. Contudo, dois chefes das falanges da infantaria, Crátero e Ceno, acusaram Filotas, comandante-geral da cavalaria, de conhecer as intenções dos rebeldes e de não o ter revelado ao imperador. Numa primeira fase, Alexandre não deu importância ao assunto, mas Heféstion uniu-se aos denunciantes para exigir que o acusado fosse interrogado sob tortura. E Alexandre, que não quis infligir nova humilhação ao seu velho amigo, aceitou contrariado essa exigência. O tal Filotas, filho de outro brilhante general macedônio chamado Parmênion, era o comandante mais aguerrido e a sua cavalaria tivera um papel decisivo nos combates que proporcionaram a glória e o poder a Alexandre. Não era de estranhar, por isso, que os dois comandantes de infantaria e um amante desprezado o quisessem ver humilhado, torturado e, se possível, condenado à morte.

Os cronistas não descrevem o tipo de tortura a que foi submetido Filotas, mas o pobre homem acabou por confessar que ele e o seu pai tinham organizado a revolta para ocupar o trono e o comando supremo, no lugar do imperador. O tribunal militar montado por Alexandre sentenciou a execução imediata do réu e Parmênion foi também assassinado após a sua captura pelos homens enviados para o perseguir. Independentemente da verdade desta história, o imperador decidiu que era melhor não alimentar as ambições dos seus subordinados com demasiado poder. E, por via das dúvidas, dividiu a prestigiosa cavalaria em duas partes. Uma ficou sobre o comando do eficiente general Clito e entregou a outra como prêmio a Heféstion, totalmente inexperiente no comando deste tipo de tropa.

Durante os três anos seguintes, batalhou-se pela conquista da Bactriana e da Sogdiana, onde os cavaleiros desempenharam um papel fundamental. Os correspondentes de guerra da época elogiam Clito repetidamente, mas não citam Heféstion uma única vez. Segundo parece, porque Alexandre, que nunca confiou nas aptidões guerreiras do seu amigo, entregou a outro chefe o comando efectivo dos combatentes cavaleiros. E, por fim, a sorte favoreceu Heféstion, porque durante um festim o imperador matou Clito sem qualquer motivo numa discussão de bêbados e ele acabou por comandar a cavalaria.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 47-8.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O eterno par de Alexandre Magno: um amor na Macedônia (Parte 1)

Alexandre e Heféstion, Andrea Camassei

Alexandre III da Macedônia, apelidado de Magno (o Grande), exemplo insuperável do herói militar da Antiguidade clássica e protótipo da beleza masculina na arte de todos os tempos, foi também um perfeito exemplo de guerreiro bissexual. Os historiadores tradicionais apresentam-no como um guerreiro incansável, obcecado pela conquista do seu império. Os mais ousados chegaram a sugerir que mal tinha tempo para pensar em sexo e que os seus casamentos com várias princesas orientais obedeceram a interesses políticos. Todos são unânimes em afirmar que ele rapidamente se desembaraçava delas para partir para as suas campanhas e raramente voltava a visitá-las. A mais afortunada foi talvez Roxana, filha de um sátrapa de Sogdiana, de quem teve o único filho que se conhece.

Paralelamente a esta imagem de conquistador omnipresente, férreo e um tanto misógino, subsistiu uma discreta e interminável polêmica sobre as verdadeiras tendências sexuais de Alexandre Magno. Se bem que o cerne da questão surgisse da ambígua relação de Alexandre com o seu amigo íntimo e colaborador Heféstion, há quem acredite que também se ligou com outro camarada de armas ou que, em caso de urgência, recorria aos prisioneiros e aos escravos que estavam ao seu serviço. Se, por um lado, parecia que as ocupações da guerra afastavam o jovem imperador das mulheres, por outro, deixaram-no muito unido aos seus homens.

Alexandre nasceu em 356 a.C., em Pela, a antiga capital da Macedônia. Era filho do rei Filipe II, que também teve as suas histórias, e da bela e dominadora Olímpia, princesa do Epiro. O pai andava sempre em guerra, um pouco por todo o lado, para unificar e expandir o seu reino e, por isso, a criança foi criada numa relação muito estreita com a sua sufocante mãe, que o amava com um fervor edipiano. Olímpia, entre beijos e abraços, não podia ter tido melhor ideia do que arranjar-lhe Aristóteles como preceptor, homem tão sábio como disposto a instruir os seus discípulos na diversidade que a vida oferece. O filósofo educou o pequeno Alexandre entre os treze e os dezesseis anos, idade certamente delicada para um jovem que já então tinha como companheiro de estudos e de brincadeiras o seu inseparável Heféstion.

Segundo Anábase, história das campanhas de Alexandre escrita por Arriano, Heféstion pertencia a uma família grega nobre, radicada na Macedônia. O pai, Amintor, fazia parte da colônia de gregos cultos contratados ao serviço do rei Filipe. Estes forasteiros notáveis recebiam tratamento de excepção, o que permitiu a Heféstion, apenas um ano mais novo do que Alexandre, ser educado com ele no palácio real. Filipe morreu em 336 a.C., depois de ter reinado durante duas décadas, e Alexandre sucedeu-lhe no trono com apenas dezanove anos. Incentivado pela sua impetuosa ambição, lançou-se numa vertiginosa campanha para submeter as cidades gregas, o que o obrigou a arrasar a emblemática Tebas. No ano seguinte, influenciados por tão impressionante exemplo, os chefes da Liga de Corinto concordaram em designá-lo comandante e estratego dos seus exércitos. Alexandre deixou como regente da Macedônia o maduro general Antípatro, que tinha sido lugar-tenente de seu pai, e empreendeu uma expedição para Oriente com o objectivo de se apoderar de tudo o que encontrasse pelo caminho.

Não existe notícia histórica de qual foi o papel de Heféstion nessa etapa, mas os cronistas voltam a mencioná-lo na Primavera de 334, quando Alexandre conquista a cidade de Tróia. Apenas o seu nome é citado, como se os contemporâneos já soubessem que era amigo de infância do rei da Macedônia, na época um de seus generais e, por assim dizer, o mais íntimo dos seus camaradas. Dizem as crônicas que Alexandre respeitou a lendária cidade homérica e que ofereceu um sacrifício no túmulo de Aquiles, enquanto Heféstion oferecia o seu próprio no de Pátrocles. Estas homenagens tiveram um curioso simbolismo, pois Homero já sugeria na Ilíada que os heróis troianos tinham sido amantes.

O nome de Heféstion volta a perder-se, enquanto a história registra o avanço de Alexandre na conquista das cidades costeiras da Ásia Menor, e reaparece na decisiva batalha de Issos, em Novembro de 333.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 43-44 e 46.

domingo, 28 de dezembro de 2014

História de Adriano e do jovem grego

Bustos do Imperador Adriano e de Antínoo. Artistas desconhecidos. 
Foto: SanGavinoEN

De acordo com a Historia Augusta, Adriano compôs pouco antes de sua morte o seguinte poema: 

Animula, vagula, blandula
Hospes comesque corporis
Quae nunc abibis in loca
Pallidula, rigida, nudula,
Nec, ut soles, dabis iocos...

Amanhecia no Nilo, no Outono do ano 130 a.C., quando o imperador Adriano acorda bruscamente com os gritos e lamentos dos seus servos. Sai da tenda preocupado e dirige-se ao rio e fica estupefato com o que vê: uns pescadores egípcios arrastam para a margem o corpo inchado e lívido de um jovem com cerca de vinte anos. Adriano dá um grito de dor e ajoelha-se junto do cadáver, beijando entre lágrimas o rosto azulado que ainda conserva uma notável beleza.

Esta trágica cena do suicídio de Antínoo, o jovem amante do maduro imperador, manteve-se através dos séculos como exemplo emblemático do amor homossexual romântico e infeliz. Em meados do século XX, a escritora francesa Marguerite Yourcenar (lésbica) recupera a complexa figura do governante bético e do seu amor pelo adolescente grego, numas imaginárias, mas bem documentadas, Memórias de Adriano (1951). O livro foi um verdadeiro êxito de vendas e, nas suas múltiplas edições e traduções, o público tomou conhecimento da existência de um imperador romano cujo jovem amante se suicidou por amor.

“Amor, o mais sábio dos deuses... Mas o amor não era responsável por aquela negligência, por aquelas durezas, por aquela indiferença misturada com a paixão como a areia com o ouro que o rio arrasta no seu curso, por aquela rude cegueira de um homem demasiado feliz e que envelhece. Como era possível eu ter sido tão densamente satisfeito? Antínoo estava morto. Longe de amar de mais como Serviano certamente pretendia naquele momento em Roma, eu não o tinha amado bastante para forçar aquela criança a viver”. (Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano)

Públio Élio Adriano nasceu em Itálica, cidade bética, perto da actual Sevilha, a 24 de Janeiro do ano 76 da nossa era. Era patrício do futuro imperador Trajano, ainda parente do seu pai. Desde criança que se afeiçoou à cultura e à arte helênicas e, por isso, os seus companheiros de então apelidavam-no de o Grego. Adriano ficou órfão aos dez anos e a sua tutoria ficou a cargo de um amigo da família chamado Acílio Attiano, representando o parente mais próximo, que era Marcos Úlpio Trajano. Pouco tempo depois, Trajano viajou para a Hispânia como comandante das legiões romanas. A sua mulher, Plotina, afeiçoou-se ao pequeno afilhado e levou-o com eles no seu regresso a Roma.


Imperador Adriano. Artista desconhecido. Ca. 127-128 d.C.

Na capital do Império, sob a protecção de Trajano e de Plotina, Adriano seguiu integralmente as passadas que eram esperadas de um jovem ambicioso e de boa família, cujo destino manifesto era o Senado. Em 97, servia como tribuno militar na Moésia, junto ao Danúbio, quando recebeu ordem para se dirigir à Gália para informar Trajano que o imperador Nerva o tinha adoptado como afilhado. Essa adopção, que na prática equivalia a designá-lo como sucessor, correspondia às manipulações palacianas do influente Lúcio Licínio Sura, amigo íntimo e provável amante de Plotina, que, como ela, sentia um enorme afecto por Adriano. Foi ele que o escolheu para levar a boa nova a Trajano, contra a opinião de Júlio Serviano, intrigante cunhado do futuro imperador. Nerva morreu no ano seguinte e Sura teve de fazer uma nova pirueta política para se assegurar de que seria Trajano a ocupar o trono. A nova imperatriz, que não devia ser muito ciumenta, encomendou-lhe então o apoio da carreira de Adriano, tarefa que Lúcio Licínio cumpriu com entusiasmo. Alguns historiadores acreditam que essa devoção correspondia a algo mais do que uma amigável cumplicidade.

Durante os primeiros anos do reinado de Trajano, a imperatriz e Sura continuaram a proteger Adriano das invejosas maquinações de Serviano. O jovem bético ocupou postos importantes e, com freqüência, muito próximos do imperador, como quando o acompanhou nas vitoriosas campanhas da Dácia. No ano 100, Plotina arranjou para Adriano um casamento de conveniência com uma das netas de Trajano, Víbia Sabina, que tinha apenas treze anos. Adriano manteve o matrimônio em branco, dada a tenra idade da noiva e a sua escassa atracção pelo sexo oposto. E o certo é que nunca chegou a ter filhos dela e, pelo que se supõe, nem sequer tentou. A sua carreira política continuou como tribuno do povo, em 105, e pretor, no ano seguinte. Finalmente, em 108, o seu protector, Lúcio Sura, concedeu-lhe o consulado que tinha ocupado por três vezes consecutivas. Pouco depois, para desolação do ascendente cônsul, Sura morre inesperadamente.

O vazio deixado pela morte do hábil conselheiro provocou a brusca queda de Plotina e de Adriano e a ascensão de uma elite cortesã encabeçada por Júlio Serviano. Pouco se sabe do ostracismo a que foi votado ao afilhado do imperador durante cerca de dez anos. Algumas fontes garantem que, durante esse tempo, foi procônsul em Atenas, o que lhe permitiu aprofundar o seu amor pelo helenismo e estudar a arte e a cultura da Grécia antiga. Entretanto, Trajano empreendia as suas grandes campanhas na frente oriental, conquistando a Partia, a Mesopotâmia, a Síria e a Armênia. Nesse intervalo de tempo, a persistente Plotina recuperou o favor do imperador e, em 117, conseguiu que Adriano fosse designado comandante do exército que ocupava o estratégico enclave da Síria.

Trajano morre de apoplexia durante a sua viagem de regresso a Roma e as legiões proclamaram Adriano imperador. O recém-proclamado imperador iniciou um regresso lento, mas calculado, à capital do império, enquanto Plotina limpava a corte de adversários e os seus partidários obtinham a confirmação do Senado, graças ao antigo tutor Acílio Attiano, agora chefe dos pretorianos, que eliminou os quatro senadores mais recalcitrantes. Adriano chegou ao Palatino no meio de uma certa indiferença popular e não permaneceu muito tempo na cidade, nem nessa ocasião nem ao longo dos seus vinte e um anos de reinado. O seu antecessor deixou-lhe um enorme e caótico império, que abarcava quase todo o mundo conhecido (Roma era chamada Caput mundi), com fronteiras em permanente conflito e constantes levantamentos nas províncias mais rebeldes. O novo imperador dedicou-se a percorrer palmo a palmo o seu inabarcável território, alojando-se nos acampamentos militares e comendo e dormindo com os seus legionários. Mas só entrava em guerra se fosse imprescindível; com uma legislação tolerante e generosa e a construção de caminhos, aquedutos, templos e anfiteatros, integrou e romanizou povos orgulhosos e díspares. Foi então que todo o Império tomou o nome de Roma, que até então apenas designava a metrópole do Tibre.

Serviano continuou as suas intrigas no Senado, acusando o imperador de descurar Roma para agradar aos bárbaros, de ter reduzido as fronteiras de Augusto para não enfrentar os Germanos e de praticar o “vício grego” pelo seu decadente helenismo. Apesar de tudo, o certo é que Adriano foi um dos governantes mais sensatos, cultos e progressistas do Império Romano.

O seu reinado caracterizou-se pela consolidação das fronteiras, pela organização das províncias e pelo incentivo dos serviços e das obras públicas, pela promoção das artes e da agricultura e pela compilação do Edito perpetuo, primeiro esboço do que seria o célebre direito romano. Entre as suas obras mais notáveis contam-se o mausoléu (núcleo do actual castelo de Sant’Angelo, em frente ao Vaticano), o templo de Vênus e o de Júpiter, no local que o templo de Salomão ocupara, em Jerusalém, que reconstruiu com o nome de Aelia Capitolina. O seu enorme gosto pela cultura clássica reflectiu-se no seu empreendimento pela educação, pelas artes, pela filosofia e pela literatura. Apesar dos comentários dos seus adversários, nunca escondeu o seu escasso interesse pelas mulheres, o que o prejudicou politicamente, nem as suas preferências homossexuais, que o levaram a uma trágica experiência nos últimos anos da sua vida.

No ano 123, Adriano tinha quarenta e sete anos e tinha deixado crescer uma barba espessa e curta, que mudou a moda do rosto barbeado estabelecida por Júlio César entre os Romanos.

Nesse ano realizava uma viagem pelas províncias da Ásia Menor e, na cidade de Claudinópolis, conheceu um belo jovem grego chamado Antínoo. O imperador apaixonou-se perdidamente por aquele jovem que, nessa altura, teria entre doze e treze anos. Pouco se sabe da origem da família de Antínoo, excepto que tinha nascido na Bitínia (que, ao que parece, produzia os mais belos jovens da Antiguidade) e que desempenhava as funções de pajem na corte de Nicomedia. As crônicas também registram que, em 125, o imperador o levou consigo na sua viagem de regresso a Roma.


Busto de Antínoo, Artista desconhecido. 
Foto: Marsyas

Adriano permaneceu em Roma durante os três anos seguintes, estada pouco usual, talvez provocada pelo ingresso do seu efebo no paedagogium ou escola imperial. A sua única saída da cidade foi uma visita às Ilhas Britânicas, onde, em 127, erigiu uma muralha de 117 quilómetros, de costa a costa, para conter os aguerridos Caledônios da Escócia. Dada a pouca idade de Antínoo, é provável que a relação sexual entre ambos se tenha concretizado no ano 128, quando o jovem atingiu os dezassete anos e o imperador o levou consigo numa longa viagem pela Grécia, Ásia Menor e Norte da África. Diz-se que, ao chegar ao Egipto, no ano 130, Adriano visitou uma adivinha que lhe vaticinou a morte. Como homem racional e letrado que era, desdenhou do mau augúrio; porém, Antínoo ficou deprimido e inquieto, angustiado pela nefasta profecia.

Na época, existia no mundo romano a crença de que o cumprimento de uma profecia de morte só podia ser evitada se outra pessoa, por amor à vítima, se imolasse em seu lugar. E foi isso precisamente o que decidiu fazer o efebo enamorado: oferecer-se aos deuses para salvar o seu amado.

Adriano tinha-o brindado com o seu afecto e protecção, tinha-o educado e requintado e tinha-o ensinado a desfrutar com plenitude dos prazeres sexuais. Que mais poderia oferecer-lhe, senão a própria vida? Uma noite, pegou num dos barcos do séquito imperial e deixou-se arrastar pela corrente entre as trevas do Nilo. Não voltaria vivo à suas margens.

Alguns autores recusam esta versão romântica da morte de Antínoo. Há quem afirme que foi violado e assassinado por um bando de piratas fluviais, outros supõem que a sua inexperiência náutica levou a que a barca se virasse e que foi engolido pelas águas. Mas a verdade é que o suicídio por amor é o único motivo que oferece certos indícios colaterais, como o desânimo do jovem nos dias anteriores ou o sentimento de culpa de Adriano, que o levou a divinizar Antínoo, fundando uma cidade em sua honra e homenageando-o em templos, monumentos e moedas com a sua efígie e o seu nome. Dois séculos mais tarde, Atanásio, patriarca de Alexandria, condenaria essas sumptuosas honras, demonstrando mais uma vez a intolerância eclesiástica:

“Resoluções e actos que efectivamente tornaram público e testemunharam perante o mundo até que ponto a paixão antinatural do imperador sobrevivia ao seu amado; e em que medida o seu amor era devoto à sua memória, exaltando o seu próprio crime e condenação e deixando à Humanidade um enganoso e notório exemplo da verdadeira origem e linhagem de toda a idolatria.” (Santo Atanásio, 295-373).

É possível que esse desolado arrependimento fosse a causa dos ataques de loucura e de fúria que turvaram a mente do imperador nos últimos anos da sua vida. Animado por inesperados desejos amargos e despóticos, tomou decisões arbitrárias e injustas, que começaram a gerar intrigas e conspirações. Aquele que tinha amado cada pedaço do seu Império cometia agora atropelos despropositados nas províncias, como a repressão violenta e desnecessária da revolta judaica de 134, destruindo cerca de mil aldeias e povoações, provocando um total de 580.000 mortos. As suas legiões entraram em Jerusalém para edificar um santuário a Apolo no lugar do templo de Salomão e para refundar a cidade com um nome romano. Receoso de uma conjura, em 136 mandou assassinar o seu velho adversário Júlio Serviano, bem como o seu neto Pedânio Fusco, possível candidato da imaginária conspiração. Naquela triste etapa final, os excessos e abusos de Adriano recordaram a Roma os piores momentos do reinado de Nero. É provável que o tivessem destituído, se o extraviado imperador não tivesse morrido na em Baía (Nápoles), no dia 10 de Julho de 138, depois de uma lenta e insuportável agonia. Tinha 62 anos e os Romanos não choraram a sua morte, no mausoléu de Sant’Angelo.

“Perdeu Antínoo enquanto navegava no Nilo e chorou por ele como uma mulher.” (Historia Augusta)

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Editorial Estampa, 2006. p. 64-71.

domingo, 21 de setembro de 2014

Avanços da tecnologia no Mundo Clássico (500 a.C. - 600 d.C.)

A era clássica assistiu a grandes mudanças da sociedade humana. No mundo inteiro, a população cresceu, a produção de alimentos se intensificou e os Estados ficaram ainda mais complexos, com estruturas sociais e políticas cada vez mais sofisticadas. Desenvolveram-se talentos especializados nas artes e no artesanato, na arquitetura e na poesia; forçaram-se os limites do conhecimento na astronomia, na matemática e na engenharia. Nas civilizações mais desenvolvidas, houve avanços tecnológicos importantíssimos. Descobriram-se o ferro fundido e o aço; o poder do vento e da água foi utilizado; a equitação e a arte da guerra foram revolucionadas com a invenção do estribo por volta de 300 a.C. A chegada do leme e da bússola transformou as viagens marítimas.

- Metalurgia. Na era clássica, o ferro se tornou cada vez mais disseminado como matéria-prima de ferramentas e armas afiadas e resistentes. Por volta de 500 a.C., os chineses aprenderam a produzir ferro fundido acrescentando carbono ao metal quando ainda derretido. Com o baixo ponto de fusão, a facilidade de ser moldado e a resistência ao desgaste, o ferro fundido era excelente para fazer armas e estatuetas. No século III a.C., os indianos misturaram ferro, carvão e vidro para criar um metal muito mais duro e forte: o aço.

- Tecnologia energética. No mundo antigo, a maior parte da energia era fornecida por animais ou seres humanos. Na era clássica, os gregos encontraram meios de amplificar a energia disponível com alavancas e sistemas de roldanas. Entretanto, os métodos de tração animal na verdade pouco mudaram além do desenvolvimento de arreios mais eficazes para bois e burros e rodas que giravam mais suavemente.

Aos poucos, as civilizações descobriram meios de usar a força do vento e da água para mover as suas máquinas. Embora as velas fossem usadas para deslocar barcos e navios desde o quarto milênio a.C., houve avanços importantes no início da era clássica. Por volta de 500 a.C., os gregos e os fenícios começaram a construir navios com dois mastros: um mastro central com vela redonda e um mastro menor com vela triangular. Isso permitiu a construção de navios muito maiores que podiam levar cargas muito mais pesadas.

No século I a.C., inventaram-se na China, na Índia e no Império Romano as primeiras rodas d’água para aproveitar a energia gerada pela água ao cair de certa altura ou se deslocar rio abaixo. No final do século I, na Síria, as rodas d’água foram equipadas com tubos ou baldes para criar meios de irrigação. O eixo giratório da roda d’água também podia mover outras máquinas, geralmente moinhos para transformar cereais e outros grãos em farinha. No entanto, os primeiros moinhos de vento só foram construídos por volta de 650 d.C.

- Transporte. Nas viagens marítimas, surgiram duas inovações importantíssimas na era clássica. Entre 300 e 100 a.C., os chineses inventaram o leme e tornaram a navegação muito mais fácil. Depois, no século I d.C., inventou-se a bússola, também na China. Descobriu-se que uma agulha de ferro imantada que flutuasse na água sobre uma lasca de madeira apontava a linha Norte-Sul. A bússola tornou-se inestimável para os navegantes.


Uma estrada romana em Pompeia. 
Foto: Paul Vlaar

Em termos de viagem terrestre, os melhores construtores de estradas do mundo clássico foram os romanos. Eles inventaram uma ferramenta especial de topografia, chamada groma, para construir as estradas mais retas que fosse possível. As estradas romanas tinham três camadas, com profundidade de cerca de um metro: sobre uma base de areia e argamassa, dispunham-se filas de pedras planas e, superfície, uma mistura de cal e cascalho. Em razão das excelentes estradas, os romanos puderam desenvolver vários veículos com rodas para percorrer grandes distâncias de forma rápida e confortável. Deles, um dos maiores era o clabularium. Puxado por oito bois, podia transportar cargas de até meia tonelada.


WOOLF, Alex. Uma Nova História do Mundo. São Paulo: M.Books do Brasil, 2014. p. 98-99.


NOTA: O texto "Avanços da tecnologia no Mundo Clássico (500 a.C. - 600 d.C.)" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A partilha do mundo entre deuses e homens

Encontro dos deuses nas nuvens, Cornelis van Poelenburch

De todo modo, a existência dos gregos não pode ser referida apenas a si mesma, pois estava entrelaçada aos antepassados, aos fundadores de dinastias, à memória dos heróis e também aos deuses. Para os gregos, as homenagens e os sacrifícios às divindades eram fundamentais, pois eles dependiam das divindades para o sucesso ou não de seus empreendimentos.

O que o divino representava para um grego e como é que o homem se posicionava em relação a ele é muito diferente da maneira como nós lidamos e organizamos o campo do religioso. Jean Pierre Vernant desenvolve a ideia de que para nós a palavra “deus” evoca um ser único, eterno, absoluto, perfeito, onisciente e onipotente. Esse conjunto se associa a outros conceitos como o sagrado, o sobrenatural, a fé, a igreja e o clero que, juntos, definem o campo do “religioso”. Neste sentido, o “religioso” possui um estatuto e uma função que se diferenciam de outros componentes da vida social. Na nossa compreensão do mundo estabelecemos separações entre o sagrado e o profano, entre o natural e o sobrenatural, entre fé e descrença, entre sacerdotes e leigos. Há a separação entre Deus e um universo que depende inteiramente dele porque foi Ele que os criou, e o criou do nada.

Para os gregos, diferentemente, as inúmeras divindades de seu politeísmo não possuíam as características que definem o divino. Não havia noção de eternidade, de perfeição, de onisciência ou onipotência. Os deuses gregos não criaram o mundo, nasceram nele e dele a partir dos poderes primordiais como o Caos (vazio) e Gaia (Terra). Assim, a transcendência dos deuses gregos só valia com relação à esfera humana. Tal como os homens, mas acima deles, os deuses gregos eram parte integrante do Cosmos. Nesse sentido não havia oposição entre natural e sobrenatural. A lua, o sol, uma montanha, um rio etc., podiam ser sentidos como potências divinas. Os deuses da epopéia eram exagerados e se diferenciavam dos homens apenas por sua imortalidade. Homero muitas vezes ridicularizava os deuses colocando-os em situações cômicas. Como personagens irracionais, eles amavam, odiavam e brigavam. Não eram poderes ou forças impessoais. Os gregos aceitavam e compreendiam os deuses de Homero.

Zeus não era o deus das religiões monoteístas; ele era caprichoso e sensual, era frívolo, indeciso e pouco confiável apesar de ser o rei dos outros deuses. Para os gregos, até os deuses estavam submetidos à moira (destino). Quando Zeus tentava dar a vitória aos troianos na Guerra de Troia, gerava confusão entre os deuses e não conseguia seu intento. O destino era mais forte e a vitória já estava destinada aos aqueus.

Os deuses e as potências divinas encarnavam os poderes, as virtudes e os favores de que os homens não podiam usufruir. Os homens, apesar de toda a dedicação ao desenvolvimento e manutenção da areté, não podiam jamais pretender ultrapassar os deuses. Por outro lado, pode-se pensar que o mundo dos deuses, apesar de estar sempre hierarquicamente superior, assemelha-se ao mundo dos homens. Segundo Jean Pierre Vernant, as perfeições de que os deuses são dotados são um prolongamento linear das perfeições que se manifestam na ordem e na beleza do mundo. [...] a harmonia de uma cidade governada segundo a justiça e a elegância de uma vida regida pela moderação e pelo autocontrole era uma conquista humana inspirada pela crença dos gregos em uma legalidade imanente ao cosmos.

A dependência da divindade, para os gregos, não significava servidão, pois o mundo dos deuses ficava a tal distância que não impedia a autonomia dos homens ou, por outro lado, não implicava seu aniquilamento perante a infinidade do divino. A religiosidade do homem grego não desembocava na via de renúncia ao mundo, e sim na sua estetização.

Ainda segundo Jean Vernant, no mundo grego não havia lugar para um setor religioso diferenciado em instituições, comportamentos codificados e convicções profundas que dessem forma a um conjunto organizado e nitidamente distinto de outras práticas sociais, como, por exemplo, a política ou a economia. Em todas as dimensões da vida grega havia sempre uma dimensão religiosa. Neste sentido o problema da fé e da descrença não podia ser pensado por eles. O “crer” nos deuses não se colocava em um plano propriamente intelectual, não pretendia desenvolver um conhecimento do divino ou um caráter doutrinal.

Na perspectiva de Werner Jaeger, em Paidéia, é preciso considerar que, de Homero até a crise das cidades, os gregos sempre intuíram a existência de um cosmos concebido como um todo ordenado em conexão viva no qual e pelo qual tudo – pensamento, linguagem, ação e todas as formas de arte – ganhava posição e sentido. Nesta ordenação os gregos colocaram a imagem do homem genérico, na sua validade universal e normativa, enraizado na vida comunitária. Ou seja, eles criaram uma imagem do humano capaz de se tornar uma obrigação e um dever. Esse ideal de homem integrado e integrante de sua comunidade era uma forma viva que se desenvolveu no solo grego e persistiu por meio das mudanças históricas.

Nada mais afastado da cultura grega do que o cogito (pensamento) cartesiano. O eu penso como condição e fundamento de todo o conhecimento do mundo, de si e de deus [...] Imaginar o mundo não consiste em torná-lo presente no nosso pensamento. É o nosso pensamento, de acordo com Vernant, que faz parte do mundo e é presença no mundo. [...] Todavia, para o homem grego, o mundo não é esse universo externo reificado, separado do homem pela barreira intransponível que divide a matéria do espírito, o físico do psíquico. A relação do homem com o universo dotado de alma, a que tudo o liga, é uma relação de comunhão íntima. Para os gregos, a visão só é possível se entre o que é visto e aquele que vê existir uma total reciprocidade, expressão se não de uma identidade, ao menos de uma estreita afinidade. O Sol que ilumina todas as coisas é também, no céu, um olho que vê tudo, e se nossos olhos vêem é porque irradiam uma espécie de luz comparável à luz do Sol. O objeto emissor e o sujeito receptor, os raios luminosos e os raios óticos pertencem a uma mesma categoria do real, acerca da qual se pode dizer que ignora a oposição físico-psíquico ou que é ao mesmo tempo de natureza física e psíquica. A luz é visão e a visão é luminosa. Quando alcança um objeto, o olhar transmite-lhe aquilo que o observador sente ao vê-lo.


EYLER, Flávia Maria Schlee. História antiga: Grécia e Roma: a formação do Ocidente. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2014. p. 45-49. (Série História Geral)


NOTA: O texto "A partilha do mundo entre deuses e homens" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O Império Romano sob os Ilírios (193-305)

As rosas de Heliogábalo, Sir Lawrence Alma-Tadema

Querendo afirmar-se como representante legítimo do império, o Senado elevou ao trono, para suceder a Cômodo, o filho de um escravo liberto, Pertinax (193). Esperava fazer dele o seu instrumento. Mas os pretorianos o assassinaram e puseram o império em leilão. Os exércitos da ilha da Bretanha, da Síria e da Ilíria nomearam imperadores os seus generais. Disso resultou nova guerra civil, da qual se sagrou vencedor o general da Ilíria, Septímio Severo.

Imperadores ilírios

Septímio Severo
193 a 211
Caracala
211 a 217
Macrino
218
Heliogábalo
218 a 222
Alexandre Severo
222 a 235
Maximino
235 a 238
Diocleciano
284 a 305

(De 238 a 284 seguiu-se um período de grande anarquia militar, com uma série de imperadores inexpressivos.)
NEVES, Joana. História Geral – A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 143.

Imperador, Septímio Severo (193-211) empreendeu uma política de absolutismo autoritário, que provocou a oposição do Senado. O imperador e, depois dele, seu filho, Caracala (211-217), porfiaram em destruir a aristocracia por meio de banimentos e nacionalizações em massa.

Caracala, Sir Lawrence Alma-Tadema

A influência oriental, já preponderante no domínio econômico, tornou-se preponderante também no domínio político. Septímio Severp confiou a prefeitura do palácio ao grande jurista sírio Papiniano. Com ele triunfaram as concepções do direito natural (jus gentium), elaborado no curso do período helenístico. Papiniano estabeleceu a doutrina clássica do direito romano sobre a base do individualismo greco-oriental. Ao individualismo triunfante no direito privado correspondia a tendência igualitária da qual procedeu a destruição das classes privilegiadas e a reforma do funcionalismo, que franqueou o acesso de todas as funções públicas aos oficiais saídos do exército.

As cúrias das cidades perderam a independência que lhes restava. Septímio Severo superpôs a elas comissões de dez membros, responsáveis pela arrecadação dos impostos. Essas instituições se estenderam a todo o império, assim como a cidadania, que, aliás, já não conferia direito algum aos cidadãos, mas apenas uma sujeição igual às obrigações fiscais. O império abandonava a fórmula da democracia censitária, que associava o contribuinte ao exercício do poder. Os cidadãos tornavam-se “súditos” do imperador.

As doutrinas humanitárias que presidiram às reformas de Septímio Severo inspiravam-se, ao mesmo tempo, no respeito à personalidade humana e na noção de solidariedade social. Redundaram, como no Egito, no 2º século a.C., no estatismo, cuja teoria foi formulada, ao tempo dos Severos, pelo grego Calístrato. Para ele, todas as atividades suscetíveis de exercer alguma influência sobre o interesse público, e notadamente a propriedade, são funções sociais e, como tais, devem ser diretamente submetidas à autoridade do imperador, representante do Estado. A liberdade individual só é legítima dentro dos limites fixados pelo Estado, cuja primazia substitui a dos direitos naturais do homem. Em menos de um século, essa evolução redundaria na escravização dos cidadãos ao Estado. Os mais esmagados seriam os que não possuíam bens, os mesmos que essa política tendia a emancipar.

Foi em nome desse princípio que Septímio Severo substituiu a democracia política pelo corporativismo estatal. Como os cidadãos só tinham valor pelas suas funções, as corporações de ofícios tornaram-se os quadros da sociedade. Submetidos à tutela imperial, a elas se deram regras uniformes em todo o império.

Aparecendo a propriedade como função pública, o imperador impôs aos ricos a obrigação de assegurar as percepções fiscais do Estado. Os haveres deles garantiam o pagamento do imposto e, por isso, receberam os privilégios necessários à execução de suas funções, tornando-se, assim, uma classe superior à dos contribuintes que não dispunham de bens.

A crise fiscal, mantida pelo déficit do balanço do comércio externo e pelas despesas da guerra contra os partos, obrigou Septímio Severo a realizar nova desvalorização de 25%. Essa medida não poderia ser senão um paliativo, uma vez que o império não conseguia assegurar o controle da via do comércio com o Extremo Oriente, nem equilibrar o seu comércio exterior.

Caracala e Geta, Sir Lawrence Alma-Tadema

Prosseguindo na política absolutista do pai, Caracala quis obrigar todos os seus súditos a praticar o mesmo culto do grande deus solar de Alexandria, Sarapis. Mas Roma só poderia impor um culto imperial extirpando pela força o monoteísmo cristão. Empreenderam-se, portanto, perseguições religiosas de caráter essencialmente político. Elas cessariam ao findar-se o reinado de Caracala, assassinado em 217.

As termas de Caracala, Sir Lawrence Alma-Tadema 

A morte de Caracala acarretou nova crise dinástica. O seu sucessor, nomeado pelo exército, também foi assassinado. O mesmo aconteceu ao sobrinho neto de Caracala, elevado ao trono aos 14 anos. Sucedeu-lhe seu primo, Alexandre Severo (222-235), que era ainda quase um menino.

O prefeito Ulpiano tentou, então, instaurar o império constitucional. A concepção do imperador-deus foi abolida. O imperador tornava-se um soberano que governava com uma oligarquia, que se cooptava. Mas o estatismo continuou a implantar-se. O corporativismo generalizou-se sistematicamente. Apareceram os primeiros monopólios estatais. O Estado subvencionou as cidades; o ensino científico foi mais e mais incentivado. Os poderes públicos fomentaram o desenvolvimento do maquinismo. A vida social atingiu um nível de conforto até então desconhecido.

Frigidarium, Sir Lawrence Alma-Tadema

O ensino generalizado e subvencionado pelo Estado vulgarizava o pensamento, mas a cultura se estereotipava. Como o pensamento, uniformizava-se a moda. Diz-se-ia que a uniformidade fosse o preço da livre circulação das pessoas e dos bens de uma ponta a outra do império, no qual as pessoas, em toda a parte, poderiam fazer-se compreender numa das duas línguas universais: o latim e o grego.

Rivais inconscientes, Sir Lawrence Alma-Tadema

A moral deixou o plano racional pelo plano místico, assim como o individualismo deu lugar ao social. A sociedade democratizou-se, agrupando-se em pequenas células sociais. As associações assumiram imensa extensão. A facilidade da existência e o bem-estar que se generalizou fizeram com que diminuísse a natalidade. Acentuou-se o êxodo dos campos para as cidades. A terra carecia de braços. A prosperidade imóvel concentrou-se nas mesmas mãos. Constituíram-se vastos domínios, nos quais, a partir de Marco Aurélio, os bárbaros se instalaram como rendeiros. Concentrou-se a indústria, fazendo recuar o artesanato. O recrutamento militar se tornava sempre mais difícil. As despesas militares pesavam cada vez mais.

Alexandre Severo instalou nas fronteiras soldados lavradores, o que tirou do exército a mobilidade e a eficácia. A guerra contra a dinastia persa dos sassânidas, que haviam substituído em 226 o Império dos partos, obrigou o império a desguarnecer as fronteiras do norte. Resultado: os francos atravessaram o Reno e os alamanos o Danúbio. O imperador procurou agradá-los por meio de subsídios e tratados. Foi morto às margens do Reno pelas suas legiões (235).

Malograra-se a experiência da monarquia constitucional, apoiada numa oligarquia de cooptados. Aparecendo para o povo como uma tentativa de restauração aristocrática, só conseguiu arruinar a ideia da monarquia hereditária, que se implantava.

A morte de Alexandre Severo abriu uma era de anarquia, que duraria cinquenta anos.

[...]

O mundo conhecia então um grande movimento de povos. Os hunos orientais, contidos pela China, ao norte da qual viviam, empurraram os hunos ocidentais de leste para oeste, na região do mar Cáspio e, depois, do mar Negro. Simultaneamente, os germanos do norte da Europa desciam para o sul. Impelidos pelos citas, que estavam sendo apertados pelos hunos, os godos cruzaram o Danúbio, invadiram a Trácia, a Grécia e a Ásia Menor. Os vândalos seguiram-nos à Trácia. Os alamanos atravessaram o Reno e chegaram à Itália. Os francos, submergindo a Gália, fizeram incursões até na Espanha. Na África, os berberes atacaram os colonos romanos. No Oriente, os persas tomaram Antioquia, ao passo que Alexandria era saqueada no decorrer das guerras civis. Em toda parte, nas províncias, as guerras intestinas arruinavam o país.

Revelando-se sem valor o exército de soldados agricultores, os imperadores impuseram aos grandes proprietários a obrigação de fornecer-lhes homens recrutados entre os rendeiros, preparando assim a sua transformação em senhores.

As cidades ameaçadas cercaram-se de muralhas. E como se generalizasse o banditismo, os proprietários de imóveis organizaram em seus domínios polícias senhoriais.

Tamanha era a anarquia fiscal que, desde 256, as moedas de prata não continham mais do que 5% de metal precioso. Entre 256 e 280, o custo de vida subiu 1000%.

Aureliano (270-275), proclamado imperador pelo exército da Ilíria (a maior força do império), restabeleceu a ordem implantando o estado de sítio. Mas a restauração do império foi mais aparente do que real. Suprimindo a segurança e provocando a pilhagem das grandes cidades mercantis do Oriente, as guerras civis tinham destruído a corrente comercial para a Ásia.

Praticando uma política de absolutismo por direito divino, Aureliano fez-se chamar Deus e pretendeu governar até os assuntos religiosos dos seus súditos. Mas o paganismo sobre o qual repousava o culto do imperador fora ferido de morte pela expansão do cristianismo, que se tornava a ideia-força do tempo.

Entre Vênus e Baco, Sir Lawrence Alma-Tadema

O assassínio de Aureliano mergulhou o império em nova crise de anarquia, que durou oito anos, antes que o estado-maior do exército designasse Diocleciano (284-305), que empreendeu uma obra radical de reconstrução legislativa.

Dividiu o império em dois grandes governos: o Ocidente, que compreendia também a África, e o Oriente com o Egito; de um lado, todas as províncias de língua latina (com exceção dos países danubianos), de outro, o mundo helenizado. Repartiu-se a soberania entre os dois imperadores. Diocleciano ficou com o Oriente; e entregou o Ocidente a Maximiano. Cada um deles, durante a sua vida, adotou um sucessor e associou-o efetivamente ao poder. O princípio hereditário foi abandonado pela adoção do mais digno.

Reforçou-se a armadura provincial. [...] Dotaram-se as prefeituras de verdadeiros governos, que gozavam de larga autonomia. Estabeleceu-se uma separação absoluta entre as funções civis e militares. Do governo central de cada um dos dois impérios dependia o comando militar, a chancelaria, os negócios exteriores, a gestão de bens da coroa, a das manufaturas do Estado, a moeda e a nomeação dos funcionários superiores. Somente a legislação, reservada ao imperador mais idoso, mantinha a unidade do império.

Entre os imperadores e a população, já não existia colaboração alguma. O poder vinha exclusivamente de cima. Substituíram as assembleias provinciais, mas elas não foram mais do que reuniões de funcionários.

[...]

Como a desvalorização da moeda tornara insignificante as contribuições impostas às cidades por ocasião da sua incorporação ao império, Diocleciano suprimiu os tributos locais e unificou, em todo o império, a base da imposição. Dali por diante, os impostos seriam calculados de modo a cobrir as despesas. A fim de facilitar a repartição do imposto, os bens foram recenseados e divididos, em cada cidade, em pequenas unidades fiscais, cada uma das quais representava a mesma renda imobiliária.

[...]

Abandonada como capital, Roma foi trocada por Milão e Nicomédia, que seria abandonada, trinta anos depois, em favor de Bizâncio. Deixando Roma, os imperadores escapavam ao triplo perigo que aí representavam o Senado, a plebe e os pretorianos.

Como a coesão do império repousasse exclusivamente sobre o prestígio imperial, Diocleciano afirmou, mais uma vez, o caráter divino do poder imperial. O culto solar foi proclamado culto do Estado para servir-lhe de base e ordenou-se, em 303, o fechamento de todas as igrejas cristãs. Começava a mais dura de todas as perseguições que o império já conhecera.

Estimando concluída a sua obra, Diocleciano abdicou em 305 e fez Maximiano abdicar. Imediatamente o filho deste último reivindicou o trono de que seu pai o afastara em proveito de Constâncio Cloro.

O sistema da adoção do mais digno, mais uma vez, se mostrava incapaz de constituir a base do sistema sucessório do império.

NEVES, Joana. História Geral – A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 143.
PIRENNE, Jacques-Henri. Panorama da História Universal. São Paulo: DIFEL/EDUSP, 1973. p. 119-124.

NOTA: O texto "O Império Romano sob os Ilírios (193-305)" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O Império Romano sob os Antoninos (96-192)

Após o assassinato de Domiciano, o Senado, com o concurso dos pretorianos, levou ao império um dos seus, o aristocrata romano Nerva (96-98), que empreendeu uma política democrática. Desejoso de acalmar a apreensão das legiões, cada vez mais recrutadas no escalão das províncias, Nerva não escolheu sucessor na sua família. Introduziu o princípio da adoção do mais digno, e a sua escolha recaiu sobre o general Trajano (98-117).

Dinastia antonina


Nerva
96 a 98
Trajano
98 a 117
Adriano
117 a 138
Antonino, o Pio
138 a 161
Marco Aurélio
161 a 180
Cômodo
180 a 192

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 141.

Com Trajano, o poder imperial foi definitivamente arrancado de Roma. O império deixou de ser romano para tornar-se realmente mediterrâneo. Os imperadores, a partir de então, foram provinciais.


Um amante da arte romana, Sir Lawrence Alma-Tadema

"Com um comando cosmopolita [...] o império estava sempre derrubando barreiras entre os povos dominados. Continuou firme a romanização das famílias importantes nas províncias. Jovens gauleses, sírios, africanos e ilírios, todos aprendiam latim e grego, usavam roupas como as dos romanos e aprendiam a considerar a Romanitas - a herança romana - algo de que deviam se orgulhar. Enquanto isso, os funcionários civis e o exército mantinham a paz respeitando os sentimentos locais, desde que os impostos entrassem regularmente." (ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 231.)

Trajano ampliou o Senado, introduzindo nele gregos e africanos. Mas o papel do Senado passou a ser exclusivamente consultivo. Ratificando a adoção do herdeiro presuntivo do imperador, dava, todavia, ao poder imperial a legitimidade indispensável à sua estabilidade.

É verdade que essa legitimidade só tinha valor para Roma, e não para o império. Eis por que Trajano e, depois dele, os Antoninos, procuraram assentar o seu poder sobre a legitimidade por direito divino, de que gozavam no Egito.

Trajano fez-se representar com os atributos de Hércules, o deus de Gades; Adriano (117-138) assumiu o título de “Olímpico”, reservado a Júpiter, e adotou Sarapis, o deus egípcio, como deus oficial do império. Ao mesmo tempo, seguiu uma política de absolutismo esclarecido, que reavivou a oposição do Senado.

Adriano visitando uma oficina de cerâmica romano-britânica, Sir. Lawrence Alma-Tadema

Antonino (138-161) e Marco Aurélio (161-180), para evitar o conflito, voltaram aos princípios constitucionais. Marco Aurélio quis adaptá-los à monarquia hereditária. Nomeou herdeiro seu filho Cômodo (180-192).

Cômodo reafirmou o caráter de direito divino da monarquia. O imperador apresentou-se como mediador entre a divindade e os homens. Estes, sendo iguais perante o grande deus criador, deviam ser iguais diante do absolutismo divino do imperador. Ameaçado, ao mesmo tempo, em suas prerrogativas políticas e sociais, o Senado reagiu violentamente. O imperador respondeu com o terror. A política de apaziguamento desapareceu na guerra civil, que redundou no assassínio de Cômodo.

O absolutismo divino dos Antoninos foi acompanhado, como ocorreu com o absolutismo egípcio, de uma política de justiça e igualdade. O funcionalismo organizou-se de acordo com as regras do direito egípcio. A hierarquia das funções substituiu a hierarquia das classes, e o valor individual substituiu os direitos adquiridos pelo nascimento.

A organização do poder central foi acompanhado da unificação das instituições. O imperador organizou a jurisdição criminal em princípios uniformes para todos os habitantes do império. Instaurou-se a apelação. Criou-se uma jurisdição contenciosa, calcada no modelo egípcio, para garantir os direitos dos administrados em relação ao Estado. Unificou-se e humanizou-se o processo. O direito romano foi codificado pela primeira vez (Edito perpétuo de Adriano). A política social desenvolveu-se, demagógica em Roma, porém mais orientada para a atenuação real da miséria nas províncias.

Reapareceram as concepções do direito natural que o Egito conhecera no 14º século a.C. Os princípios de autonomia dos governos das cidades foram uniformizados e generalizados. Em toda a parte se introduziu a nomeação dos magistrados pela burguesia rica. Acima das cidades, as assembleias provinciais faziam solicitações e controlavam a gestão dos governadores de províncias.

O equilíbrio entre o imperador e as diversas classes da população assegurava, ao mesmo tempo, a unidade do império, a liberdade dos cidadãos e a proteção dos deserdados.

Escultores na antiga Roma, Sir Lawrence Alma-Tadema

O mundo mediterrâneo jamais viveu sob instituições tão liberais. A vida espiritual voltou a conhecer em Roma uma dignidade magnífica. A preocupação do bem público, a livre discussão da política imperial inspiraram a literatura. “Ordenas que sejamos livres”, diz Plínio, o Moço, a Trajano, “e assim fazes de nós homens e cidadãos”. A elite grega retomou, com Plutarco, o caminho de Roma, onde Dion de Prusa publicou a recusa dos países helenizados de aceitarem ainda, no futuro, um governo que concebesse o império como terra de exploração em benefício de Roma. Essa renovação intelectual, entretanto, procurava antes vulgarizar do que criar. O grande centro científico continuava a ser Alexandria, onde Ptolomeu formulava, na sua geografia, as teorias que só seriam ultrapassadas por Copérnico, e onde Galeno fazia a súmula da ciência médica da Antiguidade. Inspirando-se nas fontes helenísticas, Roma levou às províncias ocidentais latinizadas a aquisição de 35 séculos de civilização greco-oriental.

Ao passo que a política dos imperadores visava a proteger a classe média, na qual repousavam as instituições do império, o domínio cada vez mais tirânico do fisco exercia profunda influência em sentido contrário. O capitalismo de Estado, instaurado pela exploração direta dos domínios estatais pelo fisco, engendrou os mesmos males que o capitalismo particular. Introduziu, na África, desde o 2º século, e generalizou em todo o império, desde o fim do 3º século, o sistema dos arrendamentos a longo prazo, e até hereditários – como no Egito – e a solidariedade de aldeia imposta aos agricultores para o pagamento das rendas devidas ao fisco. Entravadas pelo capitalismo de Estado, as medidas tomadas para favorecer a classe rural foram todas inoperantes. A pequena propriedade desapareceu diante da industrialização da agricultura. O capitalismo de Estado redundaria na escravização da classe rural, provocando uma revolta de camponeses no Egito (2º século) e preparando uma crise rural em todo o império.

O empobrecimento da classe rural acentuou, no 2º século, a crise de superprodução que se seguiu ao impulso industrial, provocado, no 1º século, pelo aparelhamento das províncias ocidentais e pelo retorno da paz. Submergida pelo trabalho servil, a Itália adormeceu numa decadência econômica. Roma, que se tornara a cidade mais populosa do mundo, mas que não exercia atividade econômica alguma, perdeu a direção da economia imperial. Deixou de governar para gozar.

A ausência, nas províncias ocidentais, de produções capazes de suprir à decadência industrial do Egito, a fim de alimentar o comércio do império com o Extremo Oriente tornava deficitário esse comércio. Os seus verdadeiros beneficiários se achavam fora do império; eram as cidades das caravanas da Ásia e o reino dos partas.

Trajano parece ter querido dar ao império um equilíbrio econômico estável. Roma carecia de ouro. Trajano empreendeu a conquista da Dácia (Romênia), rica em ouro. Renunciando à política do monopólio estatal, aí inaugurou o sistema da pequena exploração mineira, que seu sucessor Adriano introduziria em Portugal.

Para controlar as vias do comércio com o Extremo Oriente, Trajano incorporou ao império o reino dos árabes nabateus; para assegurar o controle do mar Vermelho e dominar as vias terrestres empurrou as fronteiras do império até o golfo Pérsico e até o sul do mar Cáspio.

Mas, para garantir as conquistas de Trajano contra a cobiça do Império dos partos, Roma teria precisado despender um grande esforço militar. Ora, ela se orientava para uma civilização essencialmente pacífica. O exército se recrutava cada vez com maior dificuldade. Para completar os efetivos, alistavam-se bárbaros. As legiões se acantonavam onde eram recrutadas. Já não podiam ser enviadas para longe. Adriano renunciou à conservação da Mesopotâmia e tornou a trazer a fronteira para o alto Eufrates. O império cercou-se de um muro-fronteira e limitou-se a conservar o status quo. E o desequilíbrio do comércio com o Extremo Oriente persistiu.

No interior, as despesas das cidades (urbanização, leis sociais, ensino) tornavam-se pesados demais para elas. O império precisou intervir. Passou a vigiar-lhes a gestão. O imperador Marco Aurélio colocou um curador imperial ao lado dos magistrados municipais, que se libertaram, a partir desse momento, do controle da burguesia, que anteriormente os elegia; cooptaram-se; arrogaram-se poderes arbitrários, transformando-se numa espécie de nobreza que pretendeu colocar-se acima das leis.

O estatismo introduzido por Marco Aurélio mudou-se, sob Cômodo (180-192), em absolutismo. Reavivou-se a oposição do Senado. A falta de reservas metálicas, num momento em que reapareciam graves distúrbios políticos, levou Cômodo a desvalorizar maciçamente a moeda em 30%. Disso resultou uma rápida elevação do custo de vida, que provocou a crise econômica e a agitação social. Diante do descontentamento do exército, aumentou-se o soldo. O encargo suplementar que o aumento representou para o tesouro ultrapassou os benefícios da desvalorização. Foi um descalabro. Após um século de prosperidade, o império se via bruscamente atirado a uma crise política, econômica e fiscal, que parecia sem saída. Em 192, Cômodo, que enlouquecera, foi assassinado. Nova guerra dinástica estourou.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 141.
PIRENNE, Jacques-Henri. Panorama da História Universal. São Paulo: DIFEL, EDUSP, 1973. p. 116-119.
ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 231

NOTA: O texto "O Império Romano sob os Antoninos (96-192)" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.