"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Ritos de passagem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ritos de passagem. Mostrar todas as postagens

sábado, 4 de outubro de 2014

Povos da Oceania: os australianos

Pōtatau Te Wherowhero, chefe Waikato, Giles e Merrett

Os australianos, que pertenciam a um nível um pouco superior, raça formada por uma mistura de elementos europóides e negróides, encontravam-se no estádio paleolítico europeu do Moustier. De pele morena, ou cor de chocolate, com o corpo coberto de pêlos, as arcadas supraciliares enormes, a testa deprimida e fugidia, os maxilares salientes, a boca grossa, o nariz largo, tinham um cérebro nitidamente inferior em peso e desenvolvimento ao dos brancos.

Vestidos sumariamente, sabiam, entretanto, construir cabanas de ramos, fazer fogo por meio da rotação rápida de um furador numa tábua. Dispunham de armas de pedra, desde o coup-de-poing lascado do Moustier com a lança neolítica, a azagaia e o famoso boomerang, mas ignoravam o arco e a flecha, assim como a cerâmica, aliás. Viviam da coleta e principalmente da caça: caracóis, ameijoas de água doce, lagartas, aves, cangurus, lagartos, opossuns e uma espécie de avestruz, a ema. Aliás, sabiam obrigar um canguru a correr e descobrir a pista da caça, farejando a terra.

A sua organização social era mais elevada. A tribo tinha chefes permanentes, os anciãos; dividia-se em grupos, com a regra imperiosa do casamento fora do grupo; possuía territórios de percurso distinto das outras tribos; havia, portanto, um direito internacional.

As concepções religiosas eram desenvolvidas. A crença na sobrevivência da alma era geral. Os espíritos dos mortos podiam reencarnar-se: os primeiros europeus, seres que saíram do mar, de pele pálida, olhos brilhantes (por causa do desenvolvimento maior do sistema nervoso), encheram os australianos de um terror físico e foram tomados por fantasmas. Os australianos prestavam regularmente honras fúnebres aos mortos. Algumas tribos até comiam os cadáveres para assimilarem o seu princípio vital. Todas possuíam o seu totem, ou antepassado comum, cujos descendentes celebravam fraternalmente cerimônias mágicas. Alguns concebiam um deus imortal que subira ao céu depois de ter vivido na terra e ao qual os iniciados iam juntar-se, quando morriam. Todos conheciam a magia. Os jovens ficavam aptos a casar-se e a exercer funções sociais mediante uma iniciação complicada que compreendia a extração de um incisivo superior, a circuncisão, apresentação de desenhos e narrativas míticas mantidas em segredo para as mulheres.

Os outros povos encontravam-se em níveis nitidamente superiores. Se excetuarmos os papuas, de nariz adunco, de ponta grossa em forma de bico e que pareciam uma raça pura, julga-se, hoje, pelo estudo das línguas e de certos hábitos materiais, como a piroga da balancim, que todos estes povos, apesar das suas diferenças, participavam da mesma cultura oceânica e tinham todos a mesma origem. Seriam provindos da Malásia, donde se teriam espalhado para leste, por todo o Pacífico e talvez até a América, a oeste de Camboja para Ceilão, Madagáscar (Hovas), assim como pela costa leste da África. As migrações desses povos teriam começado entre os séculos II e V d.C., atingindo o apogeu entre 900 e 1350. Seguidamente, verificou-se o declínio dessas populações, assim como de suas aptidões para a navegação.

MOUSNIER, Roland; LABROUSSE, Ernest. O século XVIII: o último século do antigo regime. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 375-376. (História geral das civilizações, v. 11)

NOTA: O texto "Povos da Oceania: os australianos" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Art rock made in África

"Arte rupestre da África é a herança comum de todos os africanos, mas é mais do que isso. É patrimônio comum da humanidade. "

Nelson Mandela


A pintura rupestre do continente africano constitui um valioso testemunho da mentalidade mágica dos povos pré-históricos. Suas representações transcendiam objetivos artísticos, cumprindo, primordialmente, um conjunto de funções mágicas de finalidade pragmática: a perpetuação da existência de caça abundante, o alcance do êxito nas guerras e a preservação da capacidade de reprodução da espécie humana. Seu estudo permitiu a reconstituição histórica da vida de povos caçadores, pastores e de civilizações que já haviam adotado a utilização da roda.

As sociedades africanas tradicionais assentavam-se sobre categorias de sexo, idade, relações de parentesco. As divisões baseadas no sexo abrangiam as tarefas e funções de grupo social, manifestando-se já no ritual de iniciação dos jovens e na participação em sociedades distintas e exclusivas. Em geral, cabia às mulheres a tarefa de cultivar a terra, o que as tornava responsáveis pela sobrevivência do grupo, tanto ao nível de subsistência imediata - assegurando a alimentação - como a longo prazo, pela reprodução da espécie. Aos homens pertencia o monopólio das relações com o sagrado e, portanto, a exclusividade das decisões que diziam respeito à coletividade.

Outro elemento regulador da sociedade africana tradicional foi a idade. As gerações apresentavam relações de dominação/subordinação, com preeminência dos mais velhos. Os anciãos possuíam grande prestígio. Existiam também classes de idade: a dos meninos, formada a cada sete anos na época da iniciação sexual; outra reunia os guerreiros solteiros, que só poderiam se casar quando atingissem a terceira classe de idade, por volta dos trinta anos. Todos esses grupos rigidamente estruturados, asseguravam o cumprimento das funções sociais mais significativas segundo as categorias de idade. A passagem de uma classe para outra exigia uma formação complementar, coroada pela realização de um cerimonial específico.

Quando o exercício do poder político é regulado por cerimônias e ritos, o fato geralmente provoca uma ativa criação artística. Tal pressuposto encontra confirmação na África, onde os mais importantes centros de manifestação artística desenvolveram-se junto aos grandes grupos tribais e reinos mais importantes: África ocidental e África central. O domínio do sagrado constitui também ambiente propício às manifestações artísticas. As representações dos ancestrais, os objetos e as máscaras utilizadas pelos membros de associações o atestam. A vida religiosa, assim como as práticas mágicas, é particularmente rica em símbolos materiais e rituais que estabelecem a relação com o sagrado.

Entre os povos primitivos é praticamente inexistente a distância entre o mundo da objetividade e o da subjetividade. Inserido em um ambiente do qual depende de maneira absoluta, o homem primitivo atribui à natureza uma força muito maior do que a sua. As doenças, a morte, os insucessos na caça ou na agricultura, a fome, a seca são acontecimentos que, a um tempo, o desafiam e o submetem. Ser pensante, o homem busca explicar, em termos religiosos, essa força que o domina. Nesse processo de adaptação entre o homem e a natureza, a realidade e a fantasia são fundidas, resultando no aparecimento dos elementos mais conhecidos das religiões primitivas: o culto aos antepassados, as práticas mágicas, o mundo dos espíritos, o animismo e o totemismo.

HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 31-35. Volume III.

Galeria de imagens:

Homem com arco e flecha e cão. Argélia

Gatos em combate. Líbia

Girafa e homens. Namíbia

Figura com atributos masculinos e femininos. África do Sul

Homens e girafas. Zimbábue

Cavalo e homem armado. Mauritânia

Guerreiro e girafas. Argélia

Tchitundu Hulu. Angola

Detalhe de duas pessoas copulando. Argélia

Mulher e cão. Malawi

Inscrição geométrica. Uganda

Homem lançando lança. Argélia

Figuras brancas com as mãos nos quadris. Tanzânia

Antílope. Marrocos

Homens e animais. Zimbábue

Rinocerontes. Botswana

Homem com arco. Argélia

Quatro homens correndo com equipamentos sobre os ombros. África do Sul

Vaca e animal simbólico. Somália

Camelo. Sudão

Crocodilo. Líbia

Dois homens nus com o pênis ereto. África do Sul

Guerreiro montado em cavalo. Chade

Leão, dois guerreiros com lanças e montados em cavalos. Abaixo, cães, uma mulher e um guerreiro. Nigéria

Arte rupestre. Mali

Homem sentado com as pernas cruzadas. Argélia

Camelo branco montado por guerreiro. Chade

Homem e vaca. Egito

Inscrição rupestre. Gabão

Vacas e bezerros. Etiópia

Elefante, homens e girafas. Quênia

Guerreiro. Nigéria

NOTA: O texto "Art rock made in África" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico/antropológico.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Cultura afro-brasileira

Dança de negros, Zacharias Wagener

Texto 1: Calundu

No Brasil dos séculos XVII e XVIII, calundu representava a prática de curandeirismo e uso de ervas com a ajuda dos métodos de adivinhação e possessão. O termo calundu era associado à palavra "quibundo", de origem quimbundo (língua banto), que designa a possessão de uma pessoa por um espírito. As pessoas que praticavam o calundu eram conhecidas como curandeiras. Possuíam grande influência sobre a comunidade, pois eram consideradas importantes líderes religiosos. Por isso, eram sempre perseguidos pelas autoridades locais. Na cidade de São Paulo, por exemplo, algumas africanas curandeiras eram famosas, como Maria D'Aruanda e Mãe Conga, procuradas por serem "desinquietadoras de escravos".

Os curandeiros detinham o conhecimento de certas "técnicas medicinais". Na realidade, elas eram uma mistura de costumes africanos, portugueses e indígenas, que consistiam, basicamente, no uso de ervas, frutos e produtos naturais fáceis de encontrar. Com isso, os curandeiros atendiam a doentes de todas as camadas sociais, sobretudo os escravos, que possuíam poucos recursos. Além de produtos naturais, também sabiam manipular substâncias químicas, como venenos, sendo procuradas pelos escravos maltratados desejosos por matar os seus proprietários ou apenas por deixá-los mais tranquilos. Nesse caso, era-lhes dado algum calmante, que os tornavam inofensivos, parecendo estar sob efeito de encanto ou feitiço. Por isso, os curandeiros eram conhecidos como feiticeiros ou bruxos.

Esses indivíduos, na sua maioria africanos, eram considerados verdadeiros líderes, na medida em que conseguiam amenizar as agruras causadas pelo sistema escravista ao "amansar" ou até mesmo matar os senhores mais cruéis, curar as doenças dos cativos, prever-lhes um futuro melhor e, enfim, propiciar apoio e solidariedade aos seus companheiros. Dessa forma, eram perseguidos e controlados pelas autoridades locais.

Por conta de suas características, pode-se afirmar que a prática do calundu ou do curandeirismo recebeu influências das tradições da África Centro-Ocidental, nas quais, além dos ancestrais, outros indivíduos são dotados de caráter sagrado. É o caso dos reis, chefes, pais e os ligados à religião, como aqueles que praticam a adivinhação e o curandeirismo.

Nessas sociedades centro-ocidentais africanas, os valores positivos, como a saúde, a harmonia, a fecundidade e a riqueza eram considerados importantes. Tudo aquilo que era contrário, isto é, a doença, a inferioridade e a escravidão, resultava de feitiçarias provocadas por pessoas mal-intencionadas, por espíritos malévolos ou esquecidos pela comunidade. Para conseguir se livrar dos aspectos negativos e retomar a harmonia, era necessário, em primeiro lugar, descobrir a causa dos infortúnios. Por ser oculta, a causa só seria descoberta pelo curandeiro, que, dotado de um poder especial, se comunicava com os ancestrais, que a revelavam. Em segundo lugar, era preciso realizar cerimônias com danças, músicas e rituais de possessão, bem como utilizar símbolos, como os objetos sagrados e mágicos em homenagem aos ancestrais.

Para muitos africanos que estavam no Brasil, o calundu ou curandeirismo, além de ser uma oportunidade de expressar suas visões de mundo e crenças religiosas, era uma forma de luta e de resistência ao sistema escravista, uma tentativa de retomarem o que consideravam importante e que haviam perdido com a escravidão e a diáspora.

No conjunto de crenças africanas sobre o universo, em especial na região Centro-Ocidental, era (e ainda é até hoje) atribuída uma grande importância aos espíritos dos ancestrais, pois são considerados os seres intermediários entre o homem e o Ser Supremo, criador de todo o universo. Para tanto, os ancestrais são dotados de muita energia, chamada de energia vital, adquirida e acumulada durante a sua existência na Terra. Os ancestrais foram grandes homens, que tiveram uma existência repleta de ações dignas e realizações importantes. Deixaram, assim, uma lição, uma herança a ser seguida pelos seus descendentes.

Por isso, para se conseguir os valores positivos e levar uma vida com harmonia, não se poderia deixar de cultuar os seus ancestrais mortos, agradando-os com oferendas, sobretudo, aqueles que deram origem às comunidades. Ainda mais quando se acreditava que, com a morte, a energia vital poderia se dissipar. E, para que isso não ocorresse, era necessário realizar oferendas, preces e rituais fúnebres, objetivando a manutenção da energia vital mesmo depois da morte.

As oferendas e homenagens aos ancestrais eram oferecidas em lugares sagrados, em geral, no meio da natureza, debaixo de árvores, num bosque, em rios, ou mesmo em suas tumbas, nos cemitérios e altares construídos nas aldeias e nas encruzilhadas. Era muito comum oferecer alimentos e bebidas.

Além de serem cultuados e reverenciados, os mortos tinham que receber um enterro digno. Como verdadeiro rito de passagem, no qual acontece a separação física do mundo profano e a chegada do morto ao mundo sagrado dos ancestrais, os enterros deveriam ser realizados conforme as tradições, com velório, preparação do morto, sepultamento e luto.

MATTOS, Regiane Augusto de. História e cultura afro-brasileira. São Paulo: Contexto, 2008. p. 156-159.

Texto 2: Ilê Aiyê

Mulheres africanas, Surama Caggiano


Se me perguntares de que origem 
eu sou
Eu sou de origem africana
Com muito orgulho, eu sou [...]

Pisando firme no chão, cantando alto, valorizando suas raízes, o bloco Ilê Aiyê enche de alegria as ruas de Salvador, na Bahia. E mostra o quanto o Brasil é preto. Mesmo tendo sido abafada durante quatro séculos, a cultura negra espalha-se pelo país. E explode com força nos terreiros religiosos, nas rodas de samba, nos afoxés baianos, como o Filhos de Gandhi e o Badauê, no sonho de Buziga, compositor do Ilê Aiyê:

O que será do Ilê Aiyê
Será integração negras raízes
Pisando firme no chão
Até que um dia haverá de alguém
Compreensão, meu povo
Nós somos todos irmãos [...]

Em diversas cidades, inúmeros grupos negros buscam afirmar o valor de sua gente e denunciar as injustiças que vieram da escravidão. Eles continuam a luta de Zumbi, Isidoro, Chico Dragão do Mar, Tonho Paciência, Nico Mulungu, João Cândido e muitos outros. [...]

Dom José Maria Pires, negro, arcebispo da Igreja Católica de João Pessoa, na Paraíba, resume num sermão os novos tempos:

- Pretos, meus irmãos! Como nossos antepassados, viemos de vários lugares. Diferentes deles, trazemos na pele colorações variadas. Na alma, crenças diferentes. Mas neles e em nós estão presentes as marcas da negritude. Somos negros e não nos envergonhamos, não queremos mais nos envergonhar de sê-lo!

ALENCAR, Chico et alli. Brasil vivo 2: a República. Petrópolis: Vozes, 1991. p. 255.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A terra, uma dimensão sagrada para o homem primitivo

Três gerações, Howard Terpning

Para o homem primitivo, a terra onde plantava não existia separada das suas relações sociais. Não era desligada da sua vivência religiosa, da sua relação de parentesco, enfim, de todos os aspectos que faziam parte de sua existência. A terra tinha para ele uma dimensão sagrada. Ele criou ritos mágicos para auxiliá-lo a vencer a Natureza e o medo do desconhecido.

[...] os ritos são práticas seguidas pelos homens, em qualquer religião. Os ritos buscavam, então, favorecer a caça, trazer chuvas e condições climáticas favoráveis às plantações. Foram os ritos mágicos que inspiraram as primeiras manifestações artísticas desenhadas e pintadas, nas paredes das cavernas, com carvão, tintas minerais e vegetais, representando o seu dia-a-dia. Também pintavam imagens femininas, simbolizando a fecundidade da Natureza: assim como as crianças nascem das mulheres, plantas e frutos nascem da Mãe Natureza.

"O Homem primitivo dependia universalmente da Natureza [...] da sucessão regular das estações, da queda das chuvas nas ocasiões apropriadas, do crescimento das plantas e da reprodução dos animais. Estes fenômenos naturais não ocorreriam, a não ser que ele cumprisse certos sacrifícios e ritos. Instituiu, assim, cerimônias destinadas a fazer chover, nas quais se borrifava água sobre espigas de milho para imitar a precipitação das chuvas [...] A totalidade dos habitantes de uma aldeia, ou mesmo dos componentes de uma tribo, vestia peles de animais e arremedava os hábitos e atividades de alguma espécie, da qual dependesse para a obtenção de alimento. Pareciam ter a vaga noção de que, com o imitar o gênero de vida da espécie, estavam contribuindo para garantir a sobrevivência dela."

Tendo a terra uma dimensão sagrada, aqueles que possuíam os poderes mágicos mais fortes, que garantiam a fertilidade dos campos e dos animais, exerciam um controle sobre a produção e os bens de sua comunidade.

Em cada comunidade havia um grupo social com mais direito sobre a terra do que os outros, apesar de ser possível a todos o acesso à terra, produtora de alimentos.

O exercício da função religiosa por alguns garantiu-lhes o poder e o controle sobre os meios de produção. "A terra é um meio de produção. Sem ela não se pode produzir."

Assim começou a existir uma separação entre os interesses dos dirigentes religiosos e o interesse coletivo.

[...]

Se a terra não é mais uma propriedade comum a todos os componentes da comunidade, se só algumas pessoas detêm a posse, o que acontece com aquelas que não a têm? Para a maioria, a vida começa a tornar-se muito difícil. Foi o que aconteceu com grande parte da população das sociedades primitivas.

"A produção de excedente trouxe consigo a propriedade privada; alguns elementos do grupo, apropriando-se do excedente comunal, puderam também controlar o intercâmbio comercial e, aos poucos, acumular uma riqueza que lhes permitiu imporem-se aos demais membros da comunidade como dirigentes [...] A acumulação da riqueza nas mãos de alguns foi a base para o advento da Civilização."

Você deve estar pensando que estas sociedades primitivas ocorreram há milênios. Que hoje não existe nenhum grupo humano em estágio semelhante aos das sociedades pré-históricas. Está equivocado.

"Ainda hoje, na América Latina, na Oceania, na África e na Ásia, povos pré-letrados maravilham-se com os ciclos do nascimento e morte, expressando sua integração na Natureza, através de rituais, cuja principal característica é a vivência, a participação de todos os membros da tribo nas cerimônias religiosas. Essa vivência se estende a totalidade social e natural. A economia e a vida da tribo são cíclicas e repetitivas, como também o são a própria Natureza e o organismo humano. A expressão dessa harmonia é constituída pelo mito primitivo, que narra os ciclos exemplares. Ao repetir o que já foi vivido por antepassados míticos, o homem primitivo encontra a explicação e a justificação de sua vida.

Uma das formas frequentemente encontradas na configuração do sistema religioso desses grupos consiste na concepção do mana, força sobrenatural, presente nos objetos, nos espíritos dos ancestrais e dos que governam os elementos da Natureza. Temida, respeitada e ambicionada pelo homem, cujo propósito fundamental é conquistá-la, assegura ao seu possuidor o respeito e o prestígio social.

[...] Complexos e elaborados sistemas explicativos introduzem, entre os grupos pré-letrados, heróis nacionais, deuses e semideuses, aos quais se atribuiu o conhecimento das técnicas de produção econômica. Animais, plantas e acidentes geográficos são unidos ao homem por laços míticos de parentesco, propiciando a compreensão sobre a estabilidade e o sentido dos fenômenos da Natureza bem como da organização social [...] Embora nem sempre seja fácil distinguir a religião da magia, a posição desses dois sistemas de relacionamento com o mundo sagrado é essencialmente de mútua oposição. Enquanto a vida religiosa se caracteriza pela submissão e aceitação da vontade de Deus e de sua Providência, a manipulação mágica pretende obrigar às forças sobrenaturais a realizar desejos particulares.

[...] Todas as culturas [...] tendem a reservar, paralelamente ao cotidiano [...] outra esfera, que diz respeito a aspectos fundamentais da existência humana, que envolvem atitudes de respeito, temor e piedade. Estreitamente vinculados e interdependentes, esses dois mundos - o do sagrado e o do profano - se misturam, evidenciando-se a supremacia do primeiro em momentos decisivos da existência: por ocasião do nascimento, nos ritos da puberdade, no casamento, na morte. [...] Também os fenômenos de maior significado social acham-se protegidos pela sacralidade: na esperança dos agricultores pela fecundidade da terra; no emprego, pelos caçadores, de artimanhas propiciatórias e mágicas; nos ritos protetores e nas festas solenes que comemoram o convívio pacífico ou preparam a guerra contra sociedades rivais. Cultuam-se, dessa forma, as forças do mundo natural, bem como os heróis lendários que representam as tradições e a história mítica da cultura.

[...] Isso ocorre, por exemplo, com as diversas tribos indígenas brasileiras que habitam o Parque Nacional do Xingu e que têm em comum, nas suas tradições míticas, aspectos que explicam a origem e o domínio das forças naturais, bem como o papel desempenhado pelo herói lendário, que ensina aos homens como ambientar-se ao meio."

Veja o depoimento do sertanista Orlando Vilas Boas, publicado na revista Visão, de 10 de fevereiro de 1975:

"O índio, em sua tribo, tem um lugar estável e tranquilo. É totalmente livre, sem precisar dar satisfações de seus atos a quem quer seja. Toda a estabilidade tribal, toda a coesão, está assentada em mundo mítico [...] Seus hábitos são os mesmos; organizam-se identicamente; possuem em comum as mesmas crenças e superstições; realizam festas e ritos cerimoniais perfeitamente semelhantes, no fundo e na forma. E têm, sobre todas as coisas e aspectos da vida e do mundo, as mesmas concepções. O ritmo, a natureza e o ciclo das atividades, em geral, são praticamente um só em todas as aldeias. Há até mesmo uma estreita semelhança psicológica entre os membros de várias tribos. As particularidades anulam-se, em face das inúmeras correspondências e relações que igualam e vinculam os vários grupos entre si, dando ao seu conjunto um perfeito ar de família. Laços de toda natureza concorrem para essa homogeneidade. São, por exemplo, tão intimamente interligados em suas atividades religiosas que algumas das suas mais  importantes festas só podem ser realizadas por uma determinada tribo com a obrigatória participação de outra. No plano social, as relações mútuas se concretizam nos frequentes casamentos intertribais."

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. Fazendo a História: da Pré-história ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 21-23.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Da toga "praetexta" à toga viril: um "rito de passagem" para a cidadania em Roma

Augusto

"Numa lista de festas que, em Cumas, na Campânia, deviam ser celebrados todo ano em honra de Augusto e de alguns membros de sua família, o dia 18 de outubro tinha o registro: 'Nesse dia, César (Augusto) recebeu a toga viril. Sejam feitas súplicas à Esperança e à Juventude'.

O fato de que esse dia também tivesse de ser celebrado anualmente, junto com as demais grandes datas que haviam marcado a vida do príncipe (por exemplo, o dia do nascimento, o primeiro consulado, a nomeação para pontífice máximo, as batalhas por ele vencidas), indica com extrema clareza o valor que os romanos atribuíam a semelhante rito: verdadeiro 'rito de passagem' que consistia no abandono da toga praetexta (franjada de púrpura) e na envergadura da toga viril. Embora pouco saibamos a respeito dos 'ritos de passagem' arcaicos que tinham lugar na gruta Lupercal sob o signo do deus Fauno, sob a proteção conjunta de Ianus Curiatius e Iuno Sororia, conhecemos relativamente bem essa cerimônia de mudança de hábito que introduzia de pleno direito o jovem romano enquanto cidadão livre - claro que sempre sob o vínculo do patria potestas - no interior de sua cidade.

Em geral, entre os quinze e os dezesseis anos, para o rapaz a cerimônia acontecia em primeiro lugar em casa, e não devemos nos admirar, depois do que se disse sobre o 'poder dos pais' romanos, de que fosse presidida pelo pai de família.

Na noite precedente, o jovem, como sinal de bom augúrio (omnis causa), vestira uma túnica particular, com a qual dormira (a tunica recta), assim como faziam as virgines na noite anterior às núpcias. Portanto, na manhã seguinte, o rapaz abandonava os 'emblemas da infância' (insígnia pueritiae). A bulla, ornamento que levava no pescoço com fins protetores, era dedicada aos Lares, divindades que protegiam o território da casa e consequentemente a família que a habitava. Além disso, junto com a bulla, ele abandonava a toga praetexta e vestia a toga viril, a cândida toga 'livre' que em Roma era a roupa por excelência dos cidadãos: a mesma vestimenta, observe-se bem, da qual se privavam, uma vez por ano, os jovens lupercos quando, durante as Lupercálias, corriam 'nus' ao redor do Palatino.

A parte privada da cerimônia era complementada por outra mais propriamente 'pública', na qual acompanhava-se o jovem até o Fórum e o Capitólio. Tratava-se de cortejos compostos por amigos e parentes que, dependendo do nível social, da riqueza e das conexões gentílicas da família, podiam assumir feições muito faustosas. Sobretudo, eram cortejos que, segundo seu fausto e ostentação de riqueza e poder, podiam até ser comparados aos triunfos."

FRASCHETTI, Augusto. O mundo romano. In: LEVI, Giovanni; SCHMITT, Jean-Claude (orgs.). História dos jovens: da Antiguidade à Era Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 72-74.

Ritos de passagem e cidadania na Grécia Antiga

Jovem grego

"De acordo com numerosos testemunhos escritos, na Grécia Antiga, os rapazes passavam por um período longo de iniciação, através do qual se preparavam para o seu futuro papel de cidadãos e pais de família, incorporando-se definitivamente ao grupo social. Isso implicava casar-se e participar ativamente da falange dos infantes no exército ou na marinha. Privado de uma dessas coisas, o jovem permaneceria à margem da comunidade e do Estado, não sendo, portanto, cidadão em sua plenitude.

Dois tipos de iniciação persistiam nas épocas clássica e helenística em Atenas. A primeira, de origem mais arcaica, era a apresentação do adolescente à fratria paterna, e a segunda, provavelmente estabelecida na época clássica, era o serviço militar, chamado efebia. Ambas tinham igual importância (...) e era indispensável que o jovem passasse pelas duas.

A apresentação do jovem à fratria paterna ocorria em torno dos 16 anos, durante as festas das fratrias locais, que se davam a cada ano no mês de Pianepsion (outubro). (...)

O ritual de iniciação do jovem consistia, em primeiro lugar, em um sacrifício oferecido pelo pai aos deuses da fratria: Zeus e Atena. Esse sacrifício era denominado coureion, e o sacerdote que o oficiava recebia como pagamento uma parte do animal sacrificado e uma quantia em dinheiro do pai do jovem. (...)

A etimologia da palavra coureion, que vem do verbo keiro - cortar os cabelos -, sugere que os jovens cortavam ritualmente a cabeleira e a ofertavam aos deuses protetores da fratria (...).

O coureion marcava a entrada do jovem em um período de transição, depois do qual ele estaria apto a desempenhar suas funções sociais. Essa transição tinha sequência com a efebia. (...)

Quem explica o funcionamento da efebia é Aristóteles (filósofo grego do século IV a.C.), no capítulo 42 da Constituição de Atenas (...):

'Participam da cidadania os nascidos de pai e mãe cidadãos, sendo inscritos entre os démotas aos 18 anos (...). Após o exame por que passam os efebos, seus pais se reúnem por tribos e, sob juramento, elegem, dentre os membros da tribo com mais de 40 anos., os três que eles achem serem os melhores e os mais indicados para se encarregarem dos efebos. (...) Também são eleitos por mãos levantadas dois treinadores mais os instrutores que os ensinam a lutar como hoplitas, a atirar com o arco, a lançar o dardo e a disparar a catapulta. (...) Prestam serviço (militar) durante dois anos, vestindo clâmide, e transcorrido esse período, reúnem-se aos demais cidadãos'."

FLORENZANO, Maria Beatriz Borda. Nascer, viver e morrer na Grécia Antiga. São Paulo: Atual, 1996. p. 29-32.