"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Revolução agrícola. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Revolução agrícola. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Alimentação nas sociedades contemporâneas

Os dois últimos séculos trouxeram para a alimentação os efeitos combinados da Revolução Industrial, agrícola e dos transportes, provocando a maior globalização da história alimentar com o intercâmbio de produtos e a difusão de tecnologias de refrigeração, conservação, cozimento a gás e elétrico.

Consolidou-se também o intercâmbio que fez os produtos americanos como o milho, a batata, o tomate, o pimentão e muitos outros incorporarem-se à agricultura e à culinária europeia, africana e asiática, de onde, da mesma forma, vieram produtos como o trigo, o centeio, o arroz e tantos outros que se espalharam pelo mundo, integrando-se às tradições culinárias locais.

Esse processo dividiu a economia global em países produtores de matérias-primas, que foram submetidos a regimes de exploração colonial para sua especialização em monoculturas de exportação para os países centrais. Assim o açúcar, o café, o chá, o cacau, a carne e outros alimentos foram concentrados em regiões produtoras periféricas, embora o consumo maior se realizasse nas metrópoles europeias.

A invenção da lata, em 1804, também foi uma conseqüência imediata das guerras napoleônicas e da necessidade militar de garantir abastecimento. Depois disso, a invenção da indústria de refrigeração permitiu, a partir do final do século XIX, o transporte internacional de carne em navios frigoríficos. Isso fez países como a Argentina e a Nova Zelândia passarem a economias de intensa especialização pecuária, começando uma criação de animais em grande escala. Mais tarde, a pasteurização e as técnicas de higiene e assepsia também aumentaram a qualidade e a integridade dos alimentos.


Campbells.
 Imagem: Balougador

No século XX, a expansão da eletricidade e do gás na vida doméstica fez com que a cozinha das casas se tornasse o local de maior influência da Revolução Industrial na vida cotidiana do lar. Primeiro fogões e geladeiras e, depois, especialmente no segundo pós-guerra, eletrodomésticos se tornaram bens de consumo de massa.

A descoberta dos fertilizantes artificiais, no início do século XX, após o uso de insumos como o guano e o nitrato, e a utilização maciça de agrotóxicos ampliaram enormemente o volume de grãos produzidos, mas não conseguiram acabar com a fome no mundo, pois as estruturas de renda desiguais entre os países e em seu interior não permitiam o acesso dos famintos aos alimentos.

As conseqüências socioambientais do modelo agroindustrial baseado em grandes unidades de produção extensiva de monocultura com uso intensivo de insumos técnicos são cada vez mais preocupantes. A eutrofização (causada pelos fertilizantes nitrogenados) das águas, a expansão de doenças devido à criação animal intensiva em confinamento (como a vaca louca e, mais recentemente, as gripes aviária e suína) e o uso de terras para a produção maciça de forragem animal como a soja, por exemplo, trazem graves problemas sociais e ambientais. A expansão de um modelo de alimentação excessivamente rico em gorduras animais, açúcares e carboidratos, com o aumento exponencial da obesidade, também é uma característica marcante de um modelo agroindustrial e cultural cujos efeitos são catastróficos para o equilíbrio ambiental do planeta, devido à busca da produtividade máxima a qualquer custo. O consumismo voraz e perdulário nos países centrais é associado a pólos crescentes de miséria e fome nas grandes cidades e nos países periféricos. A alimentação contemporânea faz parte, assim, de um modelo insustentável que compromete os recursos naturais e humanos em contradição com as grandes conquistas tecnológicas que ampliaram a capacidade produtiva.

Henrique Carneiro. Alimentação. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 4: Idade Contemporânea. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 8-9.

NOTA: O texto "Alimentação nas sociedades contemporâneas" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A domesticação do feijão e os primeiros vilarejos na América Central

O nascimento das civilizações é geralmente associado ao cereal que as simboliza: o trigo ao Médio Oriente e à Europa, o arroz à Ásia, o milho à América Central. Não se poderia negar a importância dessa planta alimentadora que, de acordo com múltiplas preparações, ocupa na cozinha um lugar comparável ao trigo na Europa: tortillas, tamales, pozoles, são alguns exemplos dessa riqueza culinária. Numerosos pesquisadores tentaram, com sucesso, determinar as modalidades da domesticação desse cereal. Mas as escavações demonstraram também a presença de outras plantas cultivadas, algumas das quais, como a abóbora, foram domesticadas em datas anteriores (8000 a.C. no vale de Oaxaca).

É graças às espécies complementares, como o pimentão, o abacate, o amaranto, o sapoti branco e preto (árvore frutífera) ou o tomate, que o milho pôde assegurar a base alimentar suficiente para a sedentarização. Além disso, a presença de certas árvores, como o abacateiro ou o sapotizeiro, que necessitam de grande quantidade de água, foi registrada em regiões áridas como o vale de Tehuacán, em épocas anteriores à domesticação do milho. Isso já implica práticas agrícolas elaboradas.

Os primórdios da agricultura na América Central. Desde os primórdios da agricultura, a trilogia alimentar da área mesoamericana - milho, feijão, abóbora - foi objeto de um cuidado particular por parte dos agricultores, e os milpas (campos) permitiam uma exploração simultânea das três plantas. Se as primeiras espigas de milho tinham originalmente alguns centímetros, em poucos séculos atingiram seu tamanho atual. Nesse lapso de tempo, múltiplas variedades de milho e de feijão são criadas pelas sociedades pré-hispânicas. Códice florentino.


Uma exploração organizada dos recursos marinhos, lacustres ou terrestres permite a pequenos grupos ocupar seu território de modo permanente. Outros processos de sedentarização, sem domesticação vegetal, foram também constatados em meios favoráveis, como a costa do Belize e a bacia lacustre do México, onde a sedentarização ocorre entre 5500 e 3500 a.C., bem antes do aparecimento da agricultura.

A passagem para o sedentarismo, com o aparecimento de vilarejos de cinco a dez casas, só é, com efeito, estabelecida por volta de 3000 a.C., em regiões como a bacia do México, o vale de Oaxaca ou a costa do Pacífico de Chiapas. Essa mudança ocorreu pouco depois das primeiras manifestações da domesticação do feijão, por volta de 3500 a.C. O feijão aparece realmente mais tarde, por volta de 2300 a.C., em Tehuacán e, por volta de 2000 a.C., em Oaxaca. A partir do momento em que a trilogia alimentar mesoamericana - milho, feijão, abóbora - está disponível, os homens têm recursos suficientes para se estabelecer. A presença abundante, em certos locais, de mós e almofarizes, objetos frequentemente pesados e difíceis de transportar, confirma o sedentarismo, e as primeiras cerâmicas aparecem, na costa de Guerrero ou em Tehuacán. Por volta de 2300 a.C., por fim, um esboço de estatueta feminina em Zohapilco marca o início da nova etapa de formação das sociedades aldeãs.

Os excedentes agrícolas obtidos pelos camponeses facilitam, com efeito, o desenvolvimento das outras atividades artesanais e permitem o surgimento, dentro de uma sociedade igualitária, de responsáveis religiosos que assumem um papel de dirigentes nas comunidades.

SALLES, Catherine (dir.). Larousse das civilizações antigas: dos faraós à fundação de Roma. São Paulo: Larousse, 2008. p. 17.