"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A cultura jovem dos anos 80: do pós-punk à world music

Nos anos 80, o desenvolvimento tecnológico permitiu uma reciclagem de ritmos do passado pela criação de "instrumentos computadorizados" - sequenciadores, samples e midis -, que gravam, armazenam e inventam qualquer som desejado. Tais "instrumentos" possibilitaram aos músicos criar e recriar qualquer tipo de linguagem musical, como também se apropriar de qualquer trecho de músicas já editadas.

Dentro desse contexto, a partir do final dos anos 70, alguns nomes internacionais (como Joy Division, U2 [...], Depeche Mode [...]) abriram novas perspectivas no contexto da música jovem, independentemente dos rótulos adotados pela crítica especializada como pós-punk [...], trash-metal, tecnopop etc.


Joy Division

A música negra (black music), valendo-se também das novas tecnologias, acabou expandindo seu raio de influência no cenário da música pop da década de 1980, com a revitalização de ritmos como o funk [...] e o reggae [...].

Surgiu também o rap ("conversa", "papo", "tagarelice") ou hip hop - funk eletrônico [...].

O rap surgiu para ser, basicamente, uma forma de expressão e comunicação dentro da comunidade negra dos Estados Unidos. Seus textos falam dos problemas dos jovens negros do subúrbio: música, garotas, discriminação, falta de perspectiva profissional, drogas [...], batidas policiais, tiroteios e gangues. [...]

[...]

Ao longo dos anos 80, a África chamou a atenção do mundo não só pela fome e pelo racismo permanente, mas também pela música. Várias campanhas [...] e shows musicais (Live Aid, Free Mandela Concert etc.) procuraram arrecadar fundos e sensibilizar o mundo para esses graves problemas africanos. Tais eventos contaram com a participação de astros consagrados da música pop, como Michael Jackson, Lionel Richie, Steve Wonder, Bruce Springsteen, Madonna, Tina Turner, Sting, Peter Gabriel, Lou Reed, Dire Straits, U2, entre outros.

O processo histórico africano de dependência econômica acabou determinando, culturalmente, um choque entre a alta tecnologia importada dos países desenvolvidos e as tradições tribais africanas. Na área musical, por exemplo, esse choque entre culturas deu origem a novos ritmos [...], a partir de nomes como Tabu Ley, Manu Dibango [...], Toure Kunda e Youssou N'Dour.

A partir dos anos 80, esse caldeirão efervescente de novos ritmos africanos acabou influenciando músicos conceituados no cenário internacional, como Peter Gabriel [...]. Miles Davis e Paul Simon. Para muitos, essa troca de influências rítmicas [...] originou a chamada "geléia geral do terceiro milênio", que, na música pop, alguns denominam world music [...].

BRANDÃO, Antonio Carlos; DUARTE, Milton Fernandes. Movimentos culturais de juventude. São Paulo: Moderna, 2008. p. 119-122.

NOTA: O texto "A cultura jovem dos anos 80: do pós-punk à world music" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A cultura jovem dos anos 70: do progressive rock ao punk

O avanço do sistema sobre a contracultura, pela assimilação de seus principais elementos, entre eles a música, tornou possível, a partir de uma indústria cultural bem-articulada, uma incorporação dessa contracultura à cultura de consumo. Ou seja, ao mesmo tempo que os jovens ainda deploravam o materialismo da sociedade de consumo, eles adquiriam sofisticados equipamentos de som, motos e carros esporte, roupas coloridas, jeans desbotados, bijuterias etc.

Os abalos da década de 1960 - a Guerra do Vietnã, a violência racial, os movimentos estudantis e a contracultura - fizeram com que, por exemplo, a campanha presidencial nos Estados Unidos, em 1968, englobasse todas as tensões e toda a agitação dos movimentos jovens, suscitando uma profunda preocupação e reavaliação dos problemas sociopolíticos norte-americanos. [...]

O refluxo dos movimentos jovens nos Estados Unidos foi, em parte, produto da própria política conservadora de Nixon, que, habilmente, começou a dissipar a questão da Guerra do Vietnã, com o início das conversações de paz e a retirada gradual das tropas norte-americanas. Por sua vez, havia o declínio da economia capitalista, que atingia seu ponto culminante em 1973, com a Crise do Petróleo, reduzindo sistematicamente as oportunidades de emprego e desviando, então, a atenção e a energia da juventude para a luta contra o desemprego e para a especialização profissional.

[...]

Apesar dessa crise na economia capitalista, a indústria fonográfica expandiu seu mercado, e o rock ficou com a maior fatia do bolo. Toda essa injeção de dinheiro na indústria fonográfica se refletiu numa infinidade de tendências que se impuseram ao longo da década.

O rock, que nos anos 60 havia servido de pano de fundo para o apogeu dos movimentos de contracultura, fragmentou-se numa infinidade de estilos e linguagens [...]. 

[...] no âmbito mundial, dois estilos marcaram a primeira metade dos anos 70: o progressive rock (rock progressivo) e o heavy metal (metal pesado). O primeiro teve sua origem nas experimentações musicais dos anos 60 [...]. Musicalmente, o progressive rock acabou sendo um dos principais responsáveis pelas experimentações de vanguarda (fusões com a música erudita e o jazz) e pelo desenvolvimento da eletrônica, especialmente dos sintetizadores [...] no interior da música pop. O início do movimento progressivo foi marcado por Days of future passed, o LP que os Mody Blues gravaram em 1968 com a Orquestra Sinfônica de Londres. Mas foram grupos como Yes, Genesis, Emerson, Lake and Palmer, Pink Floyd, Jethro Tull [...], que deram uma configuração inicial ao movimento.


Pink Floyd
Foto: TimDuncan

Já o heavy metal não usava nenhum metal (instrumento de sopro); era feito na base da força das guitarras amplificadas e distorcidas por toneladas de equipamentos. Esse estilo também teve sua origem no acid rock dos Estados Unidos [...]; nos grandes guitarristas britânicos como Jimmy Page, Jeff Back e Eric Clapton; em grupos como [...] o Led Zeppelin [...], Black Sabbath [...] e Deep Purple [...].

Logo, o rock passaria do sonho ao pesadelo. A temática do satanismo, explorada pelo heavy metal, refletia, de certo modo, as incertezas de uma década que se iniciava e havia sido prenunciada pelos Rolling Stones em "Simpathy of the devil" ("Simpatia pelo demônio") enquanto um jovem negro morria na platéia, esfaqueado pelos Hell's Angels (Anjos do Inferno) - grupo de motoqueiros desocupados, muitos deles veteranos do Vietnã -, em pleno Festival de Altamont (1969). Na verdade, o rock sofria o impacto dos novos tempos. A Crise do Petróleo [...]; os atentados terroristas [...]; o acirramento do conflito no Oriente Médio [...]; a corrida armamentista entre os Estados Unidos e a URSS, aliada ao desequilíbrio ecológico do planeta, tudo isso caracterizava o clima escatológico ou de fim de mundo, vivido nos anos 70 e não acompanhado pela expansão e sofisticação da indústria fonográfica do rock, cujo ponto culminante seria a discothèque.

A discothèque ou disco music, produto da cultura "underground" (marginal) homossexual, negra e latina dos grandes centros urbanos dos Estados Unidos, incorporada por amplos setores da classe média branca, representava o ponto máximo da expansão e do crescimento da indústria fonográfica mundial [...]. Popularizada pelos meios de comunicação e pela violenta campanha publicitária que acompanhou John Travolta e o filme Os embalos de sábado à noite, a discothéque se apoiou no clima dançante e evasivo das músicas do Village People e de Donna Summer [...]. Apesar de todo esse modismo e escapismo tolo, a discothèque conseguiu abrir caminhos para a influência da música negra (funk e soul) no interior da música pop branca.


Village People

O fenômeno discothèque e a sofisticação do rock [...] não correspondiam à situação desesperadora e sem perspectiva da maioria da juventude nos principais centros urbanos do mundo. Por isso, o elemento seguinte de contestação deveria ser um retorno às origens da energia crítica do rock. Só a partir da postura radical do movimento punk (1976) é que o rock restabeleceu seu poder crítico em relação à sociedade [...] e incorporando outros ritmos do Terceiro Mundo (como o reggae, o afro e outros).

A primeira metade da década de 1970 já apresentava vários componentes que serviriam de base para o movimento punk e o que se seguiu a ele [...]; mas é nas bandas de garagem dos Estados Unidos que encontramos a gênese desse movimento. [...]

Um dado importante na revolução do punk inglês foi a chamada conexão jamaicana, com o reggae. Os jovens londrinos da classe operária começaram a se identificar com esse ritmo antilhano [...] e a situação de miséria da população do Terceiro Mundo. Assim como os jovens da década de 1950 projetaram-se na marginalidade negra do blues norte-americano para criar o rock' n' roll, o reggae iria se tornar uma das principais influências da música pop, liderado por músicos como Bob Marley, Peter Tosh, Bunny Wailer, Jimmy Cliff etc.

[...]

Com a explosão do movimento punk em 1976, a imprensa não queria escrever sobre outro assunto. O espírito da época era punk e correspondia ao desemprego e à onda terrorista na Europa. Retomando o estilo básico - guitarra, baixo, bateria, vocal e amplificadores baratos -, o punk reciclaria o rock em três acordes, tocados o mais primitivamente possível. [...]

Em 1976, o punk foi uma revolução mais pelo estilo de vida agressivo, por suas roupas e atitudes, do que propriamente por suas "ideias anarquistas". [...]

No final de 1977, quando o punk se tornou sinônimo de má reputação e vandalismo, a imprensa mundial começou a tratá-lo como new wave ( (nova onda). Ironicamente, a extravagância e a rebeldia dos punks começaram a ser absorvidas pela indústria cultural, abrindo caminho para outros valores: The Police, Elvis Costelo [...], The Pretenders [...], Talking Heads, [...] B-52' [...]. O próprio esvaziamento da discothèque, em fins  dos anos 70, trouxe essa "nova onda". Como movimento, a new wave é difícil de definir e delimitar. [...]

BRANDÃO, Antonio Carlos; DUARTE, Milton Fernandes. Movimentos culturais de juventude. São Paulo: Moderna, 2008. p. 88-93 e 96-97.

NOTA: O texto "A cultura jovem dos anos 70: do progressive rock ao punk" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A cultura jovem dos anos 60: da canção de protesto ao psicodelismo

Depois de seu apogeu - entre os anos de 1956 e 1958 -, o rock' n' roll começou a se esvaziar, nos Estados Unidos, como meio de expressão e revolta de uma geração. [...]

Esse esfriamento criativo do rock' n' roll começou a repercutir entre os próprios artistas negros, que, a partir de uma fusão de raízes dos gospels e dos spirituals [...] com elementos da canção romântica branca, criaram um tipo mais suave de música vocal, retomando a linha adotada por grupos vocais como The Platters, com seu sucesso "Only you" (1955). Tratava-se de uma música sob medida para ser aceita por um grande público branco. A partir de 1959, Berry Gordy capitaliza esse novo som, construindo em torno de si uma poderosa empresa, que iria dominar o setor da chamada black music (música negra) durante a década de 1960; [...]

Apesar do comercialismo inicial dos seus conjuntos vocais (The Supremes, The Temptation, [...] etc.), o som da Motown, de Detroit, abre o mercado para a consagração de futuros valores da música negra (funk e soul) durante a década de 1960 (Diana Ross, Smokey Robinson, James Brown, Aretha Franklyn, [...], Marvin Gaye, Stevie Wonder etc.), tornando-se uma das influências importantes para a segunda explosão da música jovem, a partir de 1964.

Podemos dizer que o surgimento e a expansão de uma música negra para um mercado nacional, de maioria branca, reflete a luta pela afirmação dos direitos civis dos negros durante a década de 1960.

[...]

Diante desse agitado quadro político-social do início da década de 1960, o rock' n' roll parecia um modismo adolescente e ultrapassado, mesmo porque outro tipo de música, baseada na canção folclórica (folk song) norte-americana, serviria como canal de expressão para a juventude universitária do país refletir sobre os problemas internos e externos dos Estados Unidos. Ao contrário dos despreocupados sons da dança, como o twist, que era a sensação do início da década, o folk song apelava para a consciência política de um público engajado nas lutas estudantis.

Esse renascimento da música folk deve-se a grupos como Kingston Trio (1958), Pete Seeger and the Weavers (1958) e Peter, Paul and Mary (1961). Mas as estrelas maiores do novo movimento foram Joan Baez e Bob Dylan.


Joan Baez e Bob Dylan

Joan Baez tinha 18 anos quando se tornou a sensação do Festival Folk de Newport, em 1959. No ano seguinte, gravou seu primeiro álbum, com temas folclóricos tradicionais. Em novembro de 1962, ela já tinha três álbuns nas paradas e era capa da revista Time. Uma de suas canções, retirada do repertório tradicional da música folk - "We shall overcome" -, tornou-se um dos hinos da juventude universitária que apoiava o movimento pelos direitos civis dos negros, no qual encontramos Joan Baez ao lado do líder negro Martin Luther King.

Nessa atmosfera surgiu a canção de protesto (protest song), como desdobramento da onda folk. Antes, mesmo politicamente engajados, os intérpretes se limitavam a recolher temas do repertório tradicional e aplicá-los à situação da sua época. Mas com o aparecimento de Bob Dylan, em 1962, que usava a canção folk como base para letras incrivelmente atuais, houve uma verdadeira revolução na música popular norte-americana. Suas letras continham denúncias contra o racismo, o militarismo e a corrida armamentista, coisas que ainda não haviam sido ouvidas na música popular da época; o gosto pelo ambíguo, pelo místico, pelo religioso também se fazia presente, mostrando toda a influência dos poetas beats sobre o compositor. [...]

Como muitos outros jovens norte-americanos do seu tempo, Bob Dylan mostrava-se desencantado com o mundo que os homens construíam [...]. Dylan tinha no cotidiano das manchetes e reportagens dos jornais e revistas a fonte de matéria-prima para as suas canções, nas quais o compositor denunciava "os senhores de escravos e os senhores da guerra" da América. Com isso, transformou-se numa espécie de porta-voz da juventude norte-americana, principalmente a partir do sucesso de "Blowin' in the wind" (1963), canção que se tornou mais um dos hinos dos movimentos pacifistas dos anos 60.

[...]

Enquanto se verificava o processo de politização da juventude universitária norte-americana e a ascensão da música de protesto, o rock' n' roll ressurgiu com um ímpeto inesperado na Inglaterra, que, a partir de então, tornou-se um dos principais pólos divulgadores da cultura jovem mundial.

[...]

Na década de 1950, por problemas de distribuição e pela censura da programação radiofônica (controlada pela estatal BBC), o rock' n' roll levou alguns anos para chegar ao Reino Unido. Sem uma infra-estrutura que o divulgasse (rádios, disc-jockeysshows etc.), os jovens ingleses só tinham os discos importados. Esse vazio foi preenchido pela onda skiffe, imitação do blues norte-americano. Esse movimento deu ao rock britânico sua sólida base de blues, com pioneiros como Alex Korner e John Mayall.

Quando o rock' n' roll norte-americano atingiu com maior intensidade o mercado britânico, no início da década de 1960, estava misturado com o rhythm and blues, o country, o rockabilly, o calipso, a música negra da Motown, recebendo uma nova roupagem por parte dos músicos ingleses.

Entre as centenas de grupos musicais de Liverpool e Londres surgidos no início dessa década, dois alcançaram em pouco tempo um sucesso internacional sem precedentes, modificando de modo profundo não somente a música popular, mas todo o estilo de vida da juventude. Os Beatles [...] e os Rolling Stones [...] encarnaram as duas forças básicas que engendraram toda a convulsão cultural dos anos 60.

Ao longo da sua carreira, os Beatles foram um verdadeiro laboratório de influências e pesquisas que iam da música eletrônica à canção folclórica, da música oriental às mensagens existenciais de suas letras, as quais transmitiam uma visão filosófica do desconcertante cotidiano existencial. Na segunda metade da década - com LPs que se transformaram em marcos históricos como Rubber soul (1965), Revolver (1966) e, principalmente, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967) -, os Beatles inauguraram a era do experimentalismo eletrônico na música pop. Já os Rolling Stones, menos sutis e mais intensos, se caracterizaram pelo balanço de sua batida musical, bem próxima das tonalidades negras firmemente enraizadas no blues e na violência, quer nos temas de suas músicas, quer em suas apresentações ao vivo. [...]

[...]

Após as dificuldades de reconstrução do país, as novas gerações inglesas, graças à forte influência do american way of life, despertavam para o prazer individual e o consumo. Divertiam-se entre os conflitos de mods (origem do grupo The Who) e rockers, que opunham basicamente dois estilos de vida. Os mods (derivado de modern, "moderno") eram jovens de classe média que vestiam terninhos de lapela, camisas de colarinho redondo e primavam por um visual bem comportado, andavam em suas lambretas cheias de acessórios cromados e ouviam basicamente música negra dos anos 60 (funk, soul ska); já os rockers viviam ligados à cultura do rock' n' roll dos anos 50, formando bandos de motoqueiros com seus blusões de couro. [...]

Apesar de sua aparente ingenuidade, a juventude inglesa, ao contrário da inconsequente rebeldia da juventude transviada norte-americana, começava a desenvolver uma consciência crítica de sua geração. É o que ocorre, por exemplo, na canção "My generation" (1965) do grupo The Who. Com ironia, humor negro e uma grande dose de "inocência", os roqueiros ingleses começaram a desmascarar a hipocrisia dos valores estabelecidos pela sociedade. Era uma geração que podia não saber ainda o que queria, mas já começava a ter uma noção muito clara do que não queria. [...]

Dessa forma, o antigo rock' n' roll passava a ser simplesmente rock, diversificando-se em várias tendências. Começava a se fundamentar um mundo alternativo, paralelo à sociedade, cheio de blues eletrificado, que acabou se tornando um dos fundamentos básicos dos movimentos jovens da segunda metade da década. [...]

Essa explosão do rock inglês acabou despertando e influenciando a música norte-americana, que [...] estava em refluxo criativo desde os fins dos anos 50 e início dos anos 60. Essa influência tornou-se acentuada a partir de 1964, quando os Beatles fizeram sua primeira excursão aos Estados Unidos, abrindo o mercado para outros grupos britânicos e influenciando a formação de novos músicos norte-americanos: The Jefferson Airplane, The Mamas and The Papas [...], The Doors, The Velvet Underground e outros. [...]

Em meados da década de 1960, enquanto a violência racial e o conflito do Vietnã agitavam os Estados Unidos, surgia uma concentração de fenômenos a que os analistas sociais deram o nome de contracultura. A juventude de classe média começava a postular ideias e a conduzir-se de modo totalmente oposto aos valores apregoados por uma sociedade moralista, racista, consumista e tecnocrata.

[...] não é estranho que a contracultura tenha surgido no seio da sociedade norte-americana, pois foi justamente nos Estados Unidos que a tecnocracia [...] atingiu o auge de seu desenvolvimento, obrigando o jovem a adaptar-se rapidamente a uma realidade mecânica, árida e desprovida de qualquer impulso criativo. Com isso, a contracultura se tornou a forma de expressão mais importante dessa parcela de jovens que procuravam "cair fora" (filosofia do drop out) dos padrões estabelecidos por essa sociedade [...].

[...]

[...] os movimentos de contracultura nasceram a partir de um ponto de vista hedonista, ou seja, do desejo simples e elementar da felicidade individual, porém fora dos padrões de regras e normas repressoras estabelecidas pelo sistema, composto de instituições político-sociais que objetivavam a sustentação da ordem vigente. É dentro desse contexto que se insere a grande utopia dos hippies - a construção de um "paraíso aqui e agora", de "paz e amor". Para tanto, era fundamental criar seu próprio estilo de vida e "cair fora" do mundo materialista e racional da sociedade moderna, o que significava ganhar outro espaço físico e mental. Daí a criação das comunidades hippies e a descoberta do misticismo e do psicodelismo das drogas, principalmente o LSD (ácido lisérgico).

Sediado na costa leste dos Estados Unidos, mais exatamente em São Francisco, a partir de 1966 o movimento hippie começou a constituir suas comunidades em meio a um clima astrológico que previa, com a chegada da Era de Aquário, da peça Hair (musical que melhor retratou os ideias e o estilo de vida dos hippies), o advento de um novo mundo, pacífico e harmonioso.

Esse profetismo acabou revelando todo o misticismo religioso que envolvia a contracultura hippie, misturando parapsicologia, zen-budismo, ufologia, astrologia, magia, iluminações psicodélicas e espiritualismo. Nesse contexto, destacavam-se figuras como Thimothy Lery, o papa do LSD ("ligue-se, sintonize-se e caia fora"), e Alan Watts, o grande "sacerdote" do zen-budismo nos Estados Unidos. Essas experiências místicas eram uma tentativa dos jovens de romper com os esquemas repressores da cultura ocidental, que agiam de forma alienante sobre as consciências individuais, limitando-as na sua sensibilidade por meio de uma racionalidade e uma tecnocracia exacerbadas.

A partir da contracultura, a segunda metade da década de 1960 trouxe em seu bojo um verdadeiro terremoto, difícil de ser enfrentado por quem tinha ideias e objetivos preestabelecidos. A cultura ocidental foi amplamente questionada em seus valores políticos e morais, já que a contracultura estabelecera uma espécie de guerrilha cultural dentro do próprio sistema; um movimento espontâneo e insinuante que, apossando-se dos meios de comunicação de massa ou criando uma imprensa alternativa, conquistou adeptos por toda a parte e ameaçou colocar a utopia no poder, estabelecendo o poder das flores (flower power).

[...] A crônica musical desses anos de contracultura começou em junho de 1967, no Monterrey Pop Festival, que abriu a época dos grandes festivais (Woodstock, Altamont e Ilha de Wight). Foi lá que se apresentou Jimi Hendrix, após ter sido consagrado na Inglaterra. Se as principais expressões do rock britânico eram famosas por procurarem desenvolver o blues a partir do rock, foi Hendrix que concretizou a fusão entre o blues e o rock' n' roll, entre o instinto vital da origem africana da música negra e a sofisticação eletrônica criada pela tecnologia branca, desbravando novos caminhos para o futuro do rock.

O nome Jimi Hendrix só pode ser comparado ao da grande cantora Janis Joplin, que também conseguiu trazer em sua voz essa fusão da música negra coma branca. Janis nasceu no Texas, mas esteve ligada ao rock de São Francisco, cidade que, como Liverpool na Inglaterra, assistiu a uma proliferação de grupos e tendências musicais - desde o conjunto com que Janis trabalhou, o Big Brother and the Holding Company, até o rock latino de Carlos Santana, com seus ritmos dançantes e sua variada percussão.

Mas a tendência mais típica do rock de São Francisco foi o chamado acid rock (rock ácido), que procurava, com a criação de espaços musicais amplos e abstratos, e com o emprego de estranhas sonoridades, reproduzir os sons e ruídos, os climas e sugestões emocionais da experiência psicodélica com as drogas. Os grupos mais famosos dessa audaciosa aventura são o Jefferson Airplane, The Doors, de Jim Morrison, e o Grateful Dead, de Jerry Garcia (guru psicodélico da cena musical norte-americana). [...]

[...]

Mas o acid rock inglês, ou head music (música de cabeça), tinha no grupo Pink Floyd, sob o comando de Syd Barret (1967-1968), o seu principal expoente. O primeiro LP do Floyd - The piper at the gates of dawn, de 1967 - era tão revolucionário quanto o próprio Sgt Pepper's ou Are you experienced (primeiro LP de Jimi Hendrix). Com grupos como o Pink Floyd e o Soft Machine, o rock psicodélico britânico se mostrou mais experimental e instigante que o norte-americano, influenciando toda uma geração de músicos que acabou por desembocar no rock progressivo (fusão entre o rock e música erudita) dos anos 70.

BRANDÃO, Antonio Carlos; DUARTE, Milton Fernandes. Movimentos culturais de juventude. São Paulo: Moderna, 2008. p. 45-46 e 52-63.

NOTA: O texto "A cultura jovem dos anos 60: da canção de protesto ao psicodelismo" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A cultura jovem dos anos 50: do rock' n' roll à geração beatnik

O consumo musical, nas décadas anteriores ao surgimento do rock' n' roll, dividia-se de maneira compartimentalizada no mercado: música para brancos [...] e música para negros [...]. Grande parte da população urbana branca consumia música erudita e/ou música popular romântica [...], ou, então, músicas mais rápidas no balanço diluído das grandes orquestras brancas de swing [...]. Até então, os filhos dessa classe média branca não diferiam grandemente dos pais quanto ao gosto musical e ao estilo de vida. Só a partir do surgimento do rock' n' roll é que, efetivamente, se nota a caracterização de uma cultura jovem.

Por volta de 1950, as pequenas gravadoras exploravam dois importantes mercados específicos: o rhythm and blues negro e a música dos brancos rurais - country-and-western -, também tão marginalizada quanto a música negra, pois era a música dos brancos pobres. Da união desses dois tipos de música surgiria o estilo chamado rock' n' roll, transformando todos os esquemas das grandes gravadoras [...] e, num sentido mais amplo, a própria cultura norte-americana e mundial.

Por ser um estilo composto de elementos de origem diversa - "música negra" e "música branca" -, o rock' n' roll também seria encarado, na racista sociedade norte-americana de então, como race music (música de negro). E, exatamente por essa qualidade, ele foi incorporado por outro grupo que começava a se manifestar no cenário dessa sociedade: a juventude.

[...] o rock' n' roll funcionou como uma inversão psicológica na relação entre dominador (branco) e dominado (negro) que prevalecia na sociedade norte-americana. A cultura promovida pela juventude, a partir do rock' n' roll, seria uma forma de os jovens de classe média branca se colocarem em relação à sociedade estabelecida por seus pais, assumindo, mesmo que inconscientemente, certos valores da cultura negra como bandeira.

Apesar do estilo contestatório do rock' n' roll, essa criação de base negra (blues e rhythm and blues) foi uma mercadoria estilizada pelas grandes gravadoras e vendida ao público branco a partir de meados da década de 1950. Na grande maioria dos casos, trata-se de cópias (covers) que cantores brancos fazem, "cobrindo" material originalmente de músicos negros [...]. São óbvias, portanto, as razões por que o primeiro rock de sucesso, "Rock around the clock" (1954), era de um simpático branco de cabelos louros chamado Bill Halley, o mesmo acontecendo com a superestrela do rock' n' roll, Elvis Presley. [...] Cantando com a voz rouca e sensual de um negro, abriu caminho para a aparição, em âmbito nacional, de rock' n' rollers negros como Chuck Berry, Little Richard e Fats Domino. O rock' n' roll branco, além de Elvis, apresentou também algumas figuras brilhantes como Carl Perkins, Jerry Lee Lewis e Buddy Holly, entre outros.


Elvis Presley

A partir de então, a indústria cultural norte-americana desenvolveu-se a mil por hora. Gravadoras, rádios, cinema e televisão, percebendo o mercado que se abria com o rock' n roll e seu estilo de vida, voltaram-se para essa emergente cultura jovem, estimulando cada vez mais o seu consumo.

[...]

Apesar de chocar os padrões morais da época, o rock' n' roll dos anos 50 não era uma música politicamente engajada. Muito pelo contrário, entre seus temas principais figurava a exaltação à dança e ao ritmo da música, às histórias de colégio, além da descrição de carros e relacionamentos amorosos com as garotas. [...]

Diante de tais incompreensões, alguns grupos de jovens optavam pela delinquência juvenil, fazendo disparar as estatísticas de crime e violência. Nascidos antes do ataque, pelos japoneses, à base americana de Pearl Harbor, no Havaí, [...] que provocou a entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial, eles cresceram em meio ao conflito e, de certa forma, no seu prolongamento, evidenciado no fantasma da Guerra Fria. Mesmo gozando de todos os privilégios da classe média branca norte-americana, esses jovens não podiam escapar a um sentimento de vazio existencial, produto de uma sociedade consumista e materialista; ou a um sentimento de culpa, mesmo que inconsciente, pelas desigualdades sociais e raciais dessa sociedade. Outros, oriundos de lares desajustados, reflexo da própria guerra e da vida moderna norte-americana, eram incapazes de se enquadrar no estilo de vida americano. [...]


A situação de revolta da juventude forneceu farta matéria para o cinema da época, que criou uma galeria de tipos, desde o delinquente juvenil homicida (ou suicida) até o rapaz bem-intencionado, de boa família, que por forças alheias à sua vontade, era desviado do "bom caminho". Três filmes-chave refletiram com extrema atualidade esse problema. O selvagem, de 1953, com Marlon Brando, descreve os momentos vividos por uma pequena cidade subitamente invadida por um bando de motoqueiros. É, de certa forma, uma parábola do choque entre a sociedade organizada e o potencial "selvagem" de uma juventude sem rumo. Juventude transviada, de 1955, com James Dean, revela os problemas individuais dos "rebeldes sem causa" dos anos 50. Mas é Sementes da violência, também de 1955, que expõe de modo mais didático (o tema do filme é a educação) toda a carga de hostilidade no relacionamento entre a juventude marginalizada e a sociedade. A música que anuncia o filme é "Rock around the clock", o primeiro grande hit do rock' n' roll e um verdadeiro hino de guerra dos adolescentes de então. Essa música também é utilizada como uma referência ao conflito entre professores (que representam as regras estabelecidas pela sociedade) e alunos, numa cena altamente simbólica em que os jovens rebeldes quebram toda a coleção de discos com que o bem-intencionado mestre tenta iniciá-los no jazz tradicional.

[...]

A partir dos personagens desses filmes, o cinema conseguiu retratar os dilemas de uma geração, ao mesmo tempo que ofereceu um modelo visual e ideológico para a juventude dos anos 50.

O ídolo da época foi James Dean, que fez os jovens do mundo todo imitarem suas caretas, trejeitos, roupas e corte de cabelo. [...]

O mito cinematográfico James Dean simbolizava tudo o que era jovem, moderno, norte-americano e diferente. Ele inspirava o traje (uniforme) dos jovens, que, com seu jeans apertado e sua jaqueta de couro preta, adotavam uma atitude de rebeldia contra a sociedade consumista, de resistência contra as rígidas convenções sociais do universo adulto, e se entregavam à violência, às bolinhas, ao rock' n' roll e às experiências sexuais.

Não é coincidência o fato de James Dean e o rock' n' roll terem invadido a imaginação do jovem dos anos 50. Esses dois elementos expressavam uma mudança no universo de valores da juventude, algo que esse público não entendia completamente, mas a que intuitivamente aderia, e que a indústria cultural da época começava a explorar na forma de mercadoria. [...]

Mas nem só de jovens transviados e rock' n' roll viveram os anos 50. A Guerra Fria e a cultura de consumo não contribuíram apenas para um sentimento de inquietação em relação aos adolescentes; elas também favoreceram o surgimento de um pequeno grupo de jovens universitários que, através de um movimento literário, tentavam oferecer um estilo de vida alternativo ao mundo materialista da sociedade norte-americana.

Em 1957, com a publicação de On the road (Pé na estrada), de Jack Kerouac, eclodiu no mundo burguês da América de Eisenhower um perturbador fenômeno que Kerouac chamou de beat. Esse termo podia sugerir a busca de uma "purificação do espírito" (beatitude), com influência das religiões orientais (budismo, zen-budismo etc.). Também se referia a um estilo de vida aventureiro adotado pelos que, sem eira nem beira, andavam à deriva pelas estradas da América, em busca de aventura, aproveitando-se da opulência material do estilo de vida americano. Por último, tinha ainda conotações musicais referentes ao be-bop e ao cool jazz.

Ser beat, por extensão, significava fluência, improviso, ausência de normas preestabelecidas na vida e na arte. Significava também a busca de um envolvimento profundo que traz música, balanço, liberdade e prazer, na procura da realidade marginal das minorias raciais e culturais no interior da sociedade norte-americana.

Dessa forma, o termo "geração beat" (beat generation), assim como a cultura produzida por ela, não designa um movimento estético-literário organizado em torno de um programa de objetivos preestabelecidos, mas refere-se a poetas e escritores (Jack Kerouac, William S. Burroughs, Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, Gregory Corso, Gary Snyder etc.) que, em constante deslocamento, viviam a América dos anos 50.

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Aparentemente afastados do rock (os beats nunca esconderam sua aversão pelo rock' n' roll adolescente dos anos 50), os autores beats seriam de grande importância para o rock dos anos 60, influenciando músicos como Bob Dylan, John Lennon e Jim Morrison, dados aos temas críticos do estilo de vida americano: drogas, bebedeiras, sexo livre, visões cósmicas, utopias e o cotidiano. Pode-se dizer que os poetas e escritores beats tentaram fazer a ligação direta entre a arte e a vida no mundo moderno, antecipando um dos princípios básicos dos movimentos jovens dos anos 60, que era obedecer aos instintos de uma cultura alternativa ligada ao cotidiano, independentemente do reconhecimento da cultura oficializada pela sociedade.


BRANDÃO, Antonio Carlos; DUARTE, Milton Fernandes. Movimentos culturais de juventude. São Paulo: Moderna, 2008. p. 26-34.

NOTA: O texto "A cultura jovem dos anos 50: do rock' n' roll à geração beatnik" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.