"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 18 de abril de 2016

O Brasil vendido por 30 moedas



"A ditadura perfeita terá as aparências de uma democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão."
Aldous Huxley, "Admirável mundo novo"


Em nome de Deus, da família e a da propriedade. Em nome do capital. Em nome do agronegócio. Em nome da grande tela. Em nome da revista. Em nome da igreja. Em nome da burguesia. Em nome da Fiesp. Em nome da República de Curitiba. Em nome do crime organizado. Em nome dos torturadores. Em nome da p.q.p. esses carrascos.

Um Congresso presidido por um réu. Um Congresso com 150 corruptos. Um Congresso que vendeu o país por 30 moedas. Um cheiro de enxofre. Cristãos hipócritas que depois de 2000 anos continuam do lado dos ladrões. Vitória dos lacaios e vendilhões do templo.

Não há muito o que dizer - as imagens falam: as falas infundadas, os discursos fascistas, os gestos, as expressões faciais mostraram claramente a disseminação do ódio aos movimentos sociais, o machismo, o fundamentalismo religioso dos deputados-pastores, a misoginia, a homofobia. Um espetáculo horrendo o Brasil mostrou ao mundo: o fascismo doentio e maléfico.

Aos que hoje - dia 18 de abril de 2016 - soltam foguetes, brindam com champagne e comem caviar, batem palmas e dão vivas a esse Congresso espúrio e sem ética são coniventes com a corrupção, o falso moralismo e a bandidagem. Todos. Máfia. Está registrado em imagens. Clio não perdoa.

2016 by Orides van der Maurer Jr.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Brazil com "z": o 15 de março intolerante

Monumento "Tortura nunca mais", do arquiteto  piauiense Demétrius Albuquerque Recife, Pernambuco.

“A massa sustenta a marca
A marca sustenta a mídia.
A mídia controla a massa”.
(George Orwell)

[Este post é dedicado a todos os que tombaram, sofreram perseguições, foram presos, torturados e exilados e jamais desistiram de lutar pelo Estado Democrático de Direito]

March 15, 2015. Brazilia, capital do Brazil, com z. Verde e amarelo. Ou, se preferirem, “green and yellow”. Cartazes escritos em inglês com os dizeres “We want military intervention now!”, “Brazilian Army. Please help us! We need military intervention!” – e até cartaz em francês (“Libertè, Egualitè, Fraternitè e fora PT”) e outras insanidades: “Prefiro lavar privada em Miami a passar fome em Cuba!”, “A nossa bandeira jamais será vermelha”, “SOS aposentado: sem dinheiro, sem saúde, sem tesão. Fora corrupção”. Clube militar avisa: “onipresente vigilância”. Faixas com a suástica nazista. Carecas do ABC. Quem dera fossem apenas do ABC. Bandeiras dos USA que nos USAM. Selfies. Faixas pedindo a prisão de Karl Marx (falecido há mais de um século!). Faixas pedindo o exílio das ideias do pensador Paulo Freire. Cadeia para isso. Cadeia para aquilo. Senhoras reeeditando a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. Tradição, família e propriedade. Fundamentalistas religiosos guiando seus fiéis dizimistas. Retórica moralista. Globo, Veja, Folha... instigando e destilando todo seu veneno golpista. “Carnival” da Globeleza. Barbárie e selvageria. Um show de bizarrices. Mentes insanas. “Nem esquerda”, “nem direita”, “meu partido é o Brazil”!!! São Paulo, Avenida Paulista, idem idem idem. Rio de Janeiro, Orla de Copacabana idem idem idem. Praças e avenidas centrais das capitais brazileiras, idem idem idem. Cidades de porte médio. Cidades de porte pequeno. Idem idem idem. Ódio. Ódio ao pobre. Ódio ao nordestino.  Ódio ao gay. Ódio ao outro. Intoleráveis intolerâncias. Aos olhos dos estrangeiros não passamos de bárbaros. A pregação da ditadura militar precisa ser criminalizada. E o Brazil se diz cristão. Desse cristianismo não bebo. “Pai afasta de mim esse cálice”. Amém! 

Orides Maurer Junior é historiador e autor dos blogs "História e Sociedade" e "Private Life".

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Esconder os cabelos das mulheres: a longa história do véu

Mulher em pé segurando seu véu. Beócia (?). Figurino de terracota, ca. 400-375 a.C. 
Foto: Jastrow

O véu era de uso corrente no mundo mediterrâneo antigo. Mas sem obrigação religiosa. É certo que em vários ritos sacrificais greco-romanos deve-se cobrir a cabeça; mas isso vale para os dois sexos. Nem o Antigo Testamento nem os Evangelhos fazem exigências quanto a isso.

O apóstolo Paulo inova. Na primeira Epístola aos Coríntios (11, 5-10), ele escreve que, nas assembleias, os homens devem se descobrir e as mulheres se cobrir.

Toda mulher que ora ou profetiza, não tendo a cabeça coberta, falta ao respeito ao seu senhor, porque é como se estivesse rapada. Se uma mulher não se cobre com um véu, então corte o cabelo. Ora, se é vergonhoso para a mulher ter os cabelos ou a cabeça rapada, então que se cubra com um véu.

Porque a mulher foi criada para o homem, “a mulher deve trazer o sinal da submissão sobre sua cabeça, por causa dos anjos”. As mulheres devem calar-se nas assembleias. Usar o véu ao profetizarem. Usar o véu como sinal de dependência: “a mulher deve trazer sobre sua cabeça o sinal da autoridade”.

Depois de Paulo, os Pais da Igreja acrescentam exigências. Tertuliano, de sua parte, dedica dois tratados ao que se tornou uma preocupação maior da cristandade nascente: Le Voile dês Virges e La Toilette dês femmes.

Assim, o véu reveste-se de significações múltiplas, religiosas e civis, para com Deus, e para com o homem, seu representante. Ele é sinal de dependência, de pudor, de honra.

O véu é sinal de autoridade: já em Roma, uma mulher casada que sai sem seu lenço, a rica, pode ser constrangida ao divórcio. As moças não usam véu: reivindicam não usá-lo. A mulher casada é propriedade de alguém, logo deve ser velada. O véu é instrumento de pudor. Tertuliano considera as toucas e os lenços insuficientes. É preciso velar o corpo das mulheres, e sua cabeleira, objetos de tentações.

Sinal de virgindade, o véu figura o hímen. O véu da noiva é um véu nupcial que apenas o marido deve retirar, assim como é ele que deflora o hímen. Significa oblação, oferenda, sacrifício da esposa.

Ou ainda, véu de oblação da religiosa, que, no dia em que professa, oferece sua cabeleira a Deus e põe o véu para ele. A Igreja faz do véu das religiosas uma obrigação, o selo de sua castidade e de seu pertencimento a Deus, sobretudo a partir do século IV. A Igreja impõe o véu às religiosas e aconselha-o às demais mulheres; devem, pelo menos, ter a cabeça coberta.

Essa prescrição, por vezes, é difícil de aceitar. Marguerite Audox, em seu romance autobiográfico, Marie-Claire, põe em cena uma religiosa que sofre com essa exigência: “Quando me visto, parece que entro numa casa que está sempre às escuras”, diz a irmã Desiree dês Anges; à noite, ela tira, com prazer, hábito e véu e deixa livres os seus cabelos, para grande escândalo de suas “irmãs”, que suspeitam de que ela tenha traído seus votos de castidade. Véronique “julgou que era vergonhoso para uma religiosa deixar ver seus cabelos”.

A questão do véu foi um ponto central nas discussões do Concílio Vaticano II, entre os clérigos e as religiosas, que pediam para tornar mais leves suas roupas, tão pouco compatíveis com as exigências da vida moderna. Fiéis aos Pais da Igreja, os clérigos, eles próprios dispostos a se laicizar, resistiram e mantiveram a obrigação do véu, simplificando-o, no entanto.

As mulheres de Argel em seu apartamento, Eugène Delacroix

As relações entre o islã e o véu são controversas [...]. Segundo Malek Chebel, o Corão não estabelece nenhuma obrigação a esse respeito. Mas o islã cresceu no seio de culturas mediterrâneas que ocultam as mulheres, as mantêm confinadas (gineceu, harém, mulher escondida da cultura árabe-andaluza). O uso do véu pelas próprias mulheres é complexo, como o mostram, para as argelinas, os romances de Assia Djebar. Num mundo de homens, o véu é, para elas, a única possibilidade de circular no espaço público. Na época da Guerra da Argélia, a “mulher sem sepultura” de Cesareia (Cherchell) dissimula suas ligações com o maquis sob o véu. Hoje, as mulheres iranianas, mesmo sendo muito liberadas, usam o véu para se proteger, abrigar-se do olhar, do poder e dos homens. Sob o véu, elas se vestem como querem.

Mas, e talvez seja um sinal de resistência à arabização, as mulheres berberes não usam véu. As feministas do Magreb, embora minoritárias, fazem da recusa ao uso do véu uma afirmação de sua liberdade: é o que acontece no Marrocos.

Ainda mais quando o fundamentalismo pretende submetê-las a isso. O véu é um símbolo de dominação das mulheres e de seu corpo. Eu te ponho um véu porque tu me pertences, Compreende-se que seja um objeto de discórdia, que, na França, está presente tanto no movimento de reivindicações Ni putes ni soumises [Nem putas nem submissas] quanto aos debates em torno da lei sobre a proibição do véu na escola pública, os quais dividiram as próprias feministas.

PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2013. p. 56-58.

domingo, 1 de dezembro de 2013

O fanatismo na História

Fanático, termo cunhado no século XVIII, denomina pessoas consideradas partidárias extremistas, exaltadas e acríticas de uma causa. O que identifica o fanático é a certeza absoluta e incontestável que ele tem a respeito de suas verdades e isto pode representar um grande perigo para os outros. Ao se pretender detentor de uma verdade supostamente revelada especialmente para ele pelo seu deus, o fanático não tem como aceitar discussões ou questionamentos racionais com relação àquilo que apresenta como seu conhecimento; a origem divina de suas certezas não permite que argumentos apresentados por simples mortais se contraponham aos seus. Pode-se argumentar que as palavras de Hitler ou as de Mao mobilizaram fanáticos tão convictos como os religiosos e não tinham origem divina. Ora, de certa forma, esses líderes eram cultuados como deuses e suas palavras não podiam ser objeto de contestação, do mesmo modo que ocorre com qualquer conhecimento de origem especificamente religiosa. A irracionalidade é, portanto, condição essencial do fanatismo. Ao se sentar para debater ideias, de forma receptiva, o indivíduo mostrará que não faz parte de um grupo de fanáticos.

É possível estudar as manifestações de fanatismo na história, inclusive em períodos anteriores à Era Moderna, sem incorrer em anacronismos, se procurarmos compreender o fenômeno lançando mão de uma cuidadosa investigação histórica. Como se sabe, o olhar que lançamos sobre o acontecido é, necessariamente, o de alguém que vive numa determinada época, em um determinado lugar, e é fruto das contingências decorrentes dessas determinações. Assim, ao estudar a história de séculos passados (a partir de nossa perspectiva do século XXI) podemos identificar, em vários contextos, sinais de fanatismo (mesmo que o termo ainda não existisse na época). Afinal, a irracionalidade e a existência das tais supostas verdades reveladas não são coisa recente...

Sistematizamos um conjunto de manifestações de fanatismo baseadas em quatro grandes categorias de justificativas ideológicas adotadas pelos fanáticos: as religiosas, as racistas, as políticas e as “esportivas”.

A religião serviu e serve como explicação/pretexto para perseguições, torturas e assassinatos em diversos momentos da história, dos cruzados medievais aos fundamentalistas do século XXI. Afinal, sob o pretexto de ordens emanadas pelo próprio e verdadeiro (na concepção deles) deus, qualquer crime se justifica...


O massacre de São Bartolomeu, François Dubois

O racismo (contra negros, semitas, orientais, etnias minoritárias) provocou e provoca muitas humilhações e derramamento de sangue. Violência e escravidão têm sido instrumentos de fanáticos em diferentes sociedades contra raças supostamente inferiores. Em pleno século XX, o fanatismo atingiu importantes setores do povo alemão que se deixou seduzir pelo nazismo: pessoas eram confinadas em campos de extermínio, onde foram escravizadas, torturadas e mortas, por uma suposta inferioridade racial congênita. As manifestações mais conhecidas de fanatismo racista são as atividades da Ku Klux Klan, do nazismo e do famigerado e atuante neonazismo.

A política foi e é desculpa para inúmeras violências contra opositores, manifestações agressivas de chauvinismo, opressão e terrorismos – a partir de “verdades definitivas” tão diversas como a comunista, a imperial, a libertária, a do “mundo livre”, a nacionalista. O fanatismo político é facilmente identificável nos expurgos stalinistas, na ação camicase, no macarthismo, na Revolução Cultural da China e no terror com finalidades políticas. Fanáticos políticos têm horror a debates de ideias, preferem fazer os adversários se calar.

E torcer pelo futebol surge como o mais novo fundamento para atitudes antissociais e violências, não só contra simpatizantes dos times “inimigos”, mas também contra determinados grupos étnicos, mulheres, homossexuais e migrantes. Os hooligans e os membros das torcidas organizadas no Brasil são, evidentemente, sujeitos fanáticos. Com certa constância verificamos agressões seguidas de morte nos embates entre torcedores. [...]

O machismo (misoginia, homofobia) – motivação para violências específicas contra mulheres e homossexuais – aparece no interior de várias formas que assumem as justificativas acima mencionadas.

Num tempo de perplexidade, em que olhamos para as conquistas da humanidade, por um lado, mas vemos, por outro, os homens exibindo sua face mais cruel, é muito importante analisar várias das diferentes faces que o fanatismo adquiriu ao longo do tempo e em contextos distintos. Numa época de homens-bomba, atentados terroristas, manifestações racistas, ações extremistas, pensar o fanatismo é atual, relevante e urgente.


PINSKY, Jaime. Por que gostamos de História. São Paulo: Contexto, 2013. p. 31-33.

NOTA: O texto "O fanatismo na História" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O Islã no século XX (Parte IV)

O terrorismo internacional

Símbolo do Islã, Produtor 

O terrorismo internacional aumentava e cada ação bem-sucedida parecia inspirar outra. Era a arma preferida dos que estavam em desvantagem militarmente. Os terroristas se aproveitavam da sensação de contentamento e segurança em países poderosos e prósperos, onde, às vezes, instituições liberais davam cobertura a suas ações. A mídia involuntariamente se tornou aliada dos terroristas ao dar-lhes a publicidade que pediam: sem propaganda maciça, o terror não consegue espalhar-se rapidamente.

No final da década de 1940, o terrorismo havia sido usado de modo dramático pelos extremistas judeus em sua luta pelo controle da Palestina. Duas décadas mais tardem eram os extremistas palestinos que começavam a organizar ações terroristas. Em 22 de julho de 1968, em Roma, três palestinos armados subiram a bordo de um avião comercial israelense. No meio do trajeto para Telavive, ameaçaram explodir a aeronave. Cerca de 110 episódios parecidos aconteceram nos vinte anos seguintes, dos quais metade foi iniciada por palestinos, e um quarto, por iranianos e siques. Outra tática, a de esconder bombas nas bagagens dos passageiros, causou a queda de pelo menos 15 aviões.

Professores e pregadores muçulmanos militantes faziam o recrutamento dos terroristas. Na década de 1980, os escolhidos foram para o Afeganistão com a tarefa de ajudar na expulsão dos invasores soviéticos ateus. Quando a guerra do Afeganistão acabou, o ódio foi direcionado contra os norte-americanos cristãos, apoiadores de Israel e disseminadores de uma cultura materialista que seduzia os jovens muçulmanos.

Um desses recrutas era Osama Bin Laden, cidadão da Arábia Saudita - até seu passaporte ser confiscado. Uma das 57 crianças de uma rica família saudita que se ocupava do próspero negócio da construção civil, ele se ressentia dos elos entre seu país e os Estados Unidos. Adversário religioso da família real, considerava seus membros insuficientemente austeros, portanto desqualificados para a tarefa de portar as chaves de Meca. Foi um membro ativo no combate contra as tropas soviéticas no Afeganistão. Residiu por cinco anos no Sudão, outra nação propagadora da fé islâmica, antes de retornar, em 1996, ao Afeganistão, então nas mãos do Talibã. Lá, ajudou no ensino de jovens muçulmanos, tanto nativos quanto estrangeiros, em questões religiosas e nas práticas terroristas. Bin Laden combinava audácia e inventividade. Suas unidades terroristas foram vitoriosas no final da década de 1990, matando 19 soldados norte-americanos na Arábia Saudita, bombardeando duas embaixadas dos Estados Unidos na África Oriental  (cuasando 260 mortes) e matando marinheiros a bordo do navio de guerra USS Cole, próximo ao Iêmen.

Na manhã de 11 de setembro de 2001, 19 passageiros incomuns se preparavam para embarcar em vários voos domésticos prestes a partir da costa leste dos Estados Unidos. Eram todos homens, e nenhum deles pareceria deslocado se estivesse no Oriente Médio. Quase todos tinham passagens de primeira classe ou de classe executiva, o que possivelmente os ajudaria quando fossem interrogados ou revistados por guardas e outros funcionários nos aeroportos de Boston, Washington e Newark. Um deles, ao ser abordado, quase não tinha noção do que lhe perguntavam, tão pequeno era seu conhecimento do inglês. Embora se comportasse de modo estranho e não possuísse as identificações adequadas, acabou obtendo permissão para juntar-se aos outros passageiros.

Os quatro aviões iriam voar até a Califórnia e por isso tinham o tanque cheio. O último decolou às 8h42, quase quarenta e cinco minutos depois do primeiro. Logo no início de cada voo, os 19 passageiros deixaram seus assentos e rapidamente começaram a fazer o que haviam planejado. Apunhalando os golpeando qualquer membro da tripulação que tentasse impedi-los, invadiram as cabines dos aviões e aqueles que tinham experiência em pilotar tomaram os controles à força. Seus colegas mais fortes, com a ajuda de sprays de pimenta e outras substâncias irritantes, mantiveram os passageiros afastados da parte frontal do avião. Todas as ações, planejadas nos mínimos detalhes, foram executadas com inteligência e determinação.

Um dos aviões que tinha saído de Boston, ao aproximar-se do centro de Nova York, rumou na direção das torres gêmeas do World Trade Center e despedaçou os pavimentos superiores da torre norte, provocando um incêndio. Todos os que estavam a bordo morreram. O acontecimento foi tão surpreendente que as primeiras notícias foram confusas ou atenuadas. Na Flórida, o presidente George W. Bush estava prestes a fazer uma visita a uma escola de ensino fundamental, quando recebeu uma mensagem dizendo que o arranha-céu havia sido atingido. Essa primeira informação identificava equivocadamente o avião como um pequeno bimotor.

Em Nova York, as equipes jornalísticas fotografavam a torre de 110 andares em chamas, quando, às 9h03, filmaram um avião atingindo a segunda torre. Este também havia sido sequestrado logo após a partida de Boston. As notícias foram transmitidas ao presidente, que então se encontrava em uma sala de aula lendo histórias para as crianças. Ele rapidamente se pôs a caminho do aeroporto, onde um voo de emergência esperava para levá-lo a Washington. A capital também corria perigo - era alvo de um avião que havia decolado de lá e mudado de direção. Às 9h37, essa terceira aeronave, após sobrevoar os arredores da Casa branca, colidiu contra o Pentágono.

Um quarto avião continuava a caminho de Washington, seguindo uma rota indireta. Seu alvo podia ser a Casa Branca ou o Capitólio. Um grupo de passageiros decidiu corajosamente invadir a cabine do piloto e tomar o controle, mas seu contra-ataque fez o piloto invasor perder o comando ou agir precipitadamente. O avião girou e mergulhou na direção de um campo desabitado na Pensilvânia.

Em menos de uma hora, três aviões haviam atingido edificações simbólicas em Washington e Nova York. O combustível agiu como explosivo e destruição causada pelo fogo foi imensa. Na torre norte do World Trade Center, centenas de pessoas acima do 92º andar morreram instantaneamente e outras centenas ficaram encurraladas, pois tanto os elevadores quanto as escadas estavam bloqueados. O edifício ficou em chamas em vários andares e a fumaça negra subia vagarosamente. A torre sul, a segunda a ser atingida, desmoronou às 9h59, matando todos os civis e as equipes de resgate no interior do prédio, além de pessoas nas ruas. A torre norte, tomada cada vez mais pelas chamas, resistiu por mais meia hora e também desabou. Durante um longo período, a quantidade de baixas pôde ser apenas presumida, até que finalmente se chegou ao número de 2.973 mortes.

Os 19 assassinos, que estavam entre os mortos, eram originários do Oriente Médio, principalmente da Arábia Saudita, antiga aliada dos Estados Unidos. Acreditavam ser servos do Islã. A nação que atacaram fora rotulada por seu líder como "a cabeça da serpente". Depois desse episódio, a serpente ficou mais agitada do que nunca.

Na história moderna, nenhuma grande nação havia sido atingida de modo tão devastador no próprio território durante um período de relativa paz. Os Estados Unidos nunca haviam perdido tantas vidas num ataque em solo norte-americano. O aspecto completamente teatral do episódio fez a conquista da Lua parecer um acontecimento quase sem importância. O fato de a investida contra a segunda torre ter sido vista ao vivo pela televisão em lugares tão distantes quanto a Suécia e a Nova Zelândia tornou o acontecimento ainda mais chocante e espantoso.

No mesmo ano, os militantes empreenderam outro ataque, contra um inimigo asiático inerte e envelhecido. Fora dos limites da pequena cidade de Bamiyan, a oeste de Cabul, a capital do Afeganistão, situava-se uma escarpa íngreme onde duas enormes estátuas haviam sido esculpidas, ao longo de muitos anos, em rocha maciça. Eram imagens de Buda, impressionantemente grandes - uma delas tinha a altura de um prédio de 15 andares. Situadas em uma velha rota comercial que cruzava a cordilheira de Hindukush e ligava a Índia à Ásia Central, as imagens serviam de conforto e inspiração, século após século, a uma interminável procissão de viajantes, muito tempo após a região ter sido ocupada pelos muçulmanos. Em 2001, membros do Talibã decidiram que as estátuas eram um sacrilégio, um insulto ao Islã, e destruíram suas faces e outras partes com canhões e foguetes.

No mesmo ano, os Budas gêmeos de uma estrada antiga e as torres gêmeas na capital financeira do mundo foram alvo da destruição empreendida pelas ações violentas daqueles que desejavam redenção. Mas só o que ofereciam, ao buscarem tal redenção, era ódio e violência.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 298-303.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O Islã no século XX (Parte III)

Fervor e petróleo no deserto


Símbolo do Islã, Produtor 

Na Arábia, a família Saud era, havia muito tempo, a protetora do wahhabismo, um credo islâmico puritano. Quem revigorou a fortuna da família no século XX foi o rei Ibn Saud, que na prática fundou a nova Arábia Saudita. Ele era um dos homens mais altos do reino, além de um guerreiro habilidoso. Andava de maneira lenta e digna e suas palavras prendiam a atenção. De acordo com uma interpretação liberal do Alcorão, mantinha quatro esposas, quatro concubinas favoritas e quatro "escravas prediletas". Havia um tipo de escravidão que persistia, com a concordância de Ibnm e um escravo chegou a tornar-se ministro da Fazenda durante seu reinado. A disciplina e o fervor religioso, de acordo com os preceitos do wahhabismo, também tinham a bênção do rei.

A Arábia Saudita, com sua grande extensão de areia em várias tonalidades, não teve valor econômico durante muito tempo. Após a descoberta do petróleo em 1938, a riqueza da nação aumentou, primeiro lentamente, e depois com rapidez. O fato de o país possuir as maiores reservas mundiais do recurso fez crescerem as tentações humanas contra as quais o ramo wahhabi do Islã diligentemente alertava. Mesmo envelhecido, o rei tentou deter o fluxo de licenciosidade que vinha do Ocidente. Até 1951, o futebol esteve banido e os estrangeiros que moravam no país eram proibidos de comprar bebidas alcoólicas.

De todas as nações árabes, a Arábia Saudita era a única aliada tradicional de Washington. Os dois países trabalhavam harmoniosamente, um fornecendo o petróleo, e o outro, proteção militar. Os Estados Unidos produziam cada vez menos o petróleo que consumiam e dependiam cada vez mais da Arábia Saudita. Lá, os norte-americanos residentes tinham de seguir, pelo menos aparentemente, os preceitos puritanos do Islã. Na década de 1980, praticamente não havia judeus entre os norte-americanos que viviam no país; os banhos de piscina mistos eram proibidos nos hotéis; e os membros das forças armadas norte-americanas concordaram em não celebrar missas de Natal nas bases. Tais concessões não pareciam suficientes aos olhos dos muçulmanos mais fervorosos, sempre conscientes de que eram eles os guardiões dos locais sagrados em Meca e Medina. Alguns dos mais veementes desaprovavam até mesmo o próprio governo, vindo a patrocinar terríveis atos de terrorismo.

Próximo post: O Islã no século XX (Parte IV): O terrorismo internacional

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do mundo. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 297-298.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O Islã no século XX (Parte II)

Divergências entre muçulmanos e cristãos


Símbolo do Islã, produtor  

As concepções do islamismo e do cristianismo haviam se modificado. Seus modos de pensar eram semelhantes em 1900. Nessa época, as nações cristãs zelavam pela instituição da família, eram mais atentas ao uso excessivo do álcool e consideravam o domingo um dia sagrado. Sua atitude em relação às mulheres era mais parecida com a atitude dos islâmicos do que é hoje. Os crimes mais graves eram vistos com mais severidade e frequentemente punidos com a morte. O domingo em Iowa tinha muito em comum com a sexta-feira no Cairo.

Nos cem anos que se seguiram, as nações cristãs se tornaram mais seculares. O modo de vida norte-americano fazia propaganda do álcool e das drogas, além de tolerar aventuras sexuais e a rebeldia dos jovens. Os muçulmanos mais devotos rejeitavam o espírito mercantilista, o consumismo e a moral frouxa que o Ocidente ostentava através da televisão, dos filmes de Hollywood e do estilo de vida das estrelas pop internacionais. O Islã deplorava as rápidas mudanças do Ocidente, e o Ocidente deplorava a lentidão das mudanças no Islã. O Ocidente lamentava a falta de liberdades pessoais do Islã, e o Islã lamentava o que o Ocidente havia feito com a própria liberdade.

Nas décadas seguintes, o Islã vicejou, Hábil em conservar seus fiéis, empenhava-se em atrair mais partidários. As crianças muçulmanas abraçavam a religião dos pais - e as famílias costumavam ser numerosas. Em 1893, os muçulmanos representavam cerca de 12% da população global; exatamente um século mais tarde, esse índice havia chegado aos 18%. Era a segunda religião em número de fiéis, maior que o número de hinduístas e budistas somados. Os cristãos ainda eram mais numerosos, com um terço da população do planeta, mas sua liderança estava sob ameaça.

A resistência do Islã em seus países tradicionais foi ajudada pelo êxito alcançado em outras terras. Os muçulmanos espalharam sua fé por meio de movimentos migratórios. Em 1900, os viajantes que visitavam as cidades em efervescência - Paris, Chicago, Buenos Aires ou Dunedin - encontravam sinagogas com facilidade, mas nenhuma mesquita. Nos Estados Unidos, os muçulmanos eram raros, mas, no final do século, sua população crescia mais rapidamente que a dos judeus. Ao mesmo tempo, em várias cidades inglesas, as mesquitas atraíam tantos fiéis quanto as igrejas cristãs. Em Paris, enquanto as igrejas católicas permaneciam em silêncio, as mesquitas estavam lotadas.

A grande maioria dos muçulmanos vivia de maneira virtuosa e convivia pacificamente com outros credos. Mas em algumas regiões do Islã o zelo religioso excessivo voltava-se para a militância política. No Irã, milhões de muçulmanos rejeitavam o próprio xá e esperavam sua queda. Seu ansioso oponente era Ruhollah Khomeini, o barbudo que ficou conhecido como aiatolá, palavra cujo significado é sinal de Deus. Khomeini fez todas as suas pregações em segurança - durante a década de 1960, no Iraque e, no final da década de 1970, na França. Depois da deposição do xá, em janeiro de 1979, e de sua ida para o exílio, o aiatolá retornou ao país, criando uma república teocrática na qual a pena de morte era largamente empregada em vários casos de dissidência política e religiosa, bem como de crimes comuns.

Com seu fervor e eloquência, ele reunia grandes multidões a céu aberto. Denunciou os Estados Unidos como "o grande satã". Reagindo ao estímulo de seu líder, fanáticos iranianos sequestraram 66 norte-americanos que viviam no país, mantendo quase todos como reféns por mais de um ano. Aproveitando os distúrbios, o vizinho Saddam Hussein, do Iraque, invadiu o Irã. Essa guerra entre as duas potências islâmicas, uma sunita e outra xiita, foi considerada uma das cinco mais mortais de todos os tempos.

Próximo post: O Islã no século XX (Parte III): Fervor e petróleo no deserto

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 294-295 e 297.

sábado, 4 de maio de 2013

Jerusalém nas perspectivas judaica, islâmica e cristã


Praça do Templo olhando para o Mar Morto em Jerusalém. Tivadar Kosztka Csontváry



Para as Ciências Sociais, a religião é um produto da criação humana. Ela preenche o espaço do desconhecido, daquilo para o que o pensamento racional ainda não encontrou explicação. A religião também é responsável pela formação do pensamento, razão pela qual integra os pilares que criam normas de condutas e valores. Torna-se, assim, um aspecto cultural que muitas vezes pode aproximar ou distinguir um agrupamento humano do outro.

[...]

“A ideia humana de Deus tem uma história, já que sempre significou uma coisa ligeiramente diferente para cada grupo de pessoas que a usou em vários pontos do tempo. A ideia de Deus formada numa geração por um conjunto de seres humanos pode não ter sentido em outra. [...] Por conseguinte, a palavra Deus não contém uma ideia imutável. [...] Sempre que um conceito de Deus deixou de ter sentido ou importância, foi discretamente abandonado e substituído por uma nova teologia. Um fundamentalista negaria isso, pois o fundamentalista é anti-histórico: acredita que Abraão, Moisés e os profetas posteriores experimentaram todos seu deus exatamente da mesma maneira como as pessoas de hoje.” (ARMSTRONG, K. Uma história de Deus: quatro milênios do judaísmo, cristianismo e islamismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 10.)

O Deus dos judeus, cristãos e islâmicos relaciona-se a essa questão pontuada por Karen Armstrong na citação acima. Essas três religiões monoteístas estão ligadas entre si pela crença dos primeiros profetas na fé monoteísta – Abraão e Moisés -, porém cada uma interpreta de forma diferente essa concepção de Deus.

O judaísmo. É a mais antiga das religiões monoteístas citadas. O judaísmo ultrapassa a esfera religiosa e também pode ser entendido como uma tradição cultural. Ser judeu significa ser descendente dos antigos profetas bíblicos Abraão e Moisés.

A crença judaica baseia-se nas escrituras da Bíblia hebraica, composta de cinco livros, entre eles, o Livro de Moisés e a Tora. Além de descrever a criação do mundo, esses escritos tratam da fundação de Israel e das leis divinas, ambas resultantes da aliança estabelecida entre Deus e Abraão e completada por Moisés através das Tábuas da Lei. Em troca da devoção e obediência às leis de Deus, os judeus contariam com a benção e a proteção divinas, sendo, por isso, considerados o povo escolhido. Essa aliança também promete um lar para os judeus na Terra Santa. Ao longo da história desse povo, esse lugar foi identificado como sendo Canaã, Israel e Palestina.

Na crença judaica acredita-se na existência de um messias, que significa “o ungido” e é interpretado como “Aquele que irá reunir o povo judeu, derrotar os seus inimigos e estabelecer o reino de Deus na Terra”.

O cristianismo. No século I nasceu Jesus, em Belém. Em torno desse nascimento, criou-se a esperança da chegada do salvador, do messias. Na Palestina, Jesus teria pregado que era o filho de Deus encarnado na forma humana: o Cristo enviado ao mundo terreno para expiar os pecados humanos e assegurar a salvação de todas as almas para o Reino de Deus, alcançando a vida eterna após o Juízo Final. Alcançariam o prometido os cristãos que seguissem os ensinamentos de Jesus Cristo contidos no livro sagrado dos cristãos, a Bíblia, e que obedecessem aos Dez Mandamentos de Deus, contidos nas Tábuas da Lei de Moisés.

O islamismo. Essa religião foi criada pelo profeta Maomé no século VII. Sabe-se que Maomé participou de inúmeras caravanas comerciais pelo Oriente Médio, o que lhe permitiu entrar em contato com as religiões judaica e cristã. Segundo a fé islâmica, por intermédio do anjo Gabriel, Alá (Deus) revelou-se a Maomé, a quem transmitiu os ensinamentos do Islã, que estão contidos no livro sagrado dos muçulmanos, o Corão. A Suna é um complemento do Corão, no qual se estabelecem os usos e costumes fundamentais nos preceitos de Maomé.

O Corão prega que a religião islâmica é a religião dos profetas hebreus: Abraão, Moisés e Jesus. Cada indivíduo deve adorar a Alá e viver conforme os seus mandamentos, ditados a Moisés. Obedecendo a esses princípios pode-se escapar do fogo do inferno e entrar no céu no dia do Juízo Final. O Islã seria a religião natural para todos os povos.

[...]

Jerusalém, capital de várias religiões e de guerras territoriais.

“Jerusalém [...] ainda é a cidade sagrada de três religiões: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Para cada uma delas, Jerusalém era o palco de importantes acontecimentos que estabeleciam o vínculo entre deus e o homem – o primeiro dos quais foram os preparativos de Abraão para o sacrifício de seu filho Isaac num afloramento de rocha, agora oculto por uma cúpula dourada (referência à Cúpula da Rocha, mesquita de grande beleza construída em Jerusalém durante o Período Omíada).” [READ, P. P. Os templários. Rio de Janeiro: Imago, 2001. p. 17.]

Terra Prometida dos Judeus – Jerusalém é o lugar para o qual Abraão se mudou ao ser chamado por Deus. Lá viveram as primeiras tribos dos hebreus, até sobrevir uma grande fome, que os obrigou a tentar atravessar o deserto, quando foram escravizados pelos egípcios.

Depois de anos de cativeiro, os judeus organizaram uma fuga, com o objetivo de retornar à Terra Prometida por Deus a Abraão. Liderados pelo profeta Moisés, eles vagaram durante quarenta anos pelo deserto antes de chegarem a Canaã, atual região da Palestina, onde formaram o Reino de Israel, que foi desmembrado em 993 a.C., ano em que foi criado o Reino de Judá.

Durante o reinado de Davi, a cidade de Jerusalém foi conquistada e, no local onde Abraão teria aceitado imolar seu filho, planejou-se construir um templo para guardar a Arca da Aliança, que foi erigido no reinado de Salomão.

Os reinos de Israel e Judá sofreram sucessivas conquistas e invasões. No ano 70 d.C., a população judaica de Jerusalém foi dizimada pelos soldados liderados pelo imperador romano Tito, para pôr fim à resistência desse povo ao domínio de Roma. Os judeus que sobreviveram foram escravizados e impedidos de retornar à Palestina. [...]

Terra Santa dos cristãos – Jerusalém tornou-se emblemática para os cristãos. A cidade foi visitada por Jesus, que lá pregou suas ideias, realizou milagres, foi feito prisioneiro, julgado, crucificado e enterrado.

No século IV, com a conversão do imperador Constantino, os templos pagãos dos romanos foram transformados em igrejas. Perto do local onde Jesus teria sido crucificado e enterrado construiu-se a igreja do Santo Sepulcro.

Durante todo o período medieval, a Igreja católica difundiu o cristianismo entre a população romana e entre as tribos bárbaras. Jerusalém passou a ser encarada como o centro do mundo para os cristãos, a Terra Santa [...].

Local de peregrinação islâmica – No século VII, enquanto o cristianismo se expandia na Europa Ocidental, no Oriente Médio, a religião islâmica se formava. [...]

A proclamação da guerra santa islâmica levou à expansão dessa religião, que ganhou adeptos na África setentrional, Europa Ibérica, Oriente Médio e Império Bizantino. A cidade de Jerusalém foi dominada no ano 638, porém o califa Omar permitiu a permanência dos cristãos e judeus que ali viviam. Mediante o pagamento do imposto de proteção, eles continuaram a ter permissão para peregrinar por Jerusalém e a ter seu templo preservado. [...]

No século X, os turcos seldjúcidas, tribo nômade da Ásia Central, dominaram Bagdá; converteram-se ao islamismo e iniciaram uma campanha de anexação territorial em direção ao Império Bizantino e Oriente Médio. [...] O Império Bizantino, baluarte do cristianismo no Oriente, estava ameaçado. As rotas de peregrinação a Jerusalém foram proibidas aos cristãos pelos novos senhores de Jerusalém.

Jerusalém: um palco de conflito entre cristãos e islâmicos. No século XI, o papa Urbano II orientou os cristãos europeus a iniciar um movimento de caráter belicoso e religioso, que tinha entre seus objetivos libertar a Terra Santa – Jerusalém – dos “infiéis”. Iniciavam-se assim as expedições que ficaram conhecidas como Cruzadas.

No século XI, a Europa passava por um período de instabilidade social. O crescimento demográfico provocava o aumento de cavaleiros errantes pelas estradas. Isso facilitava a formação de grupos de saqueadores, que assaltavam nas estradas, principalmente nas rotas de peregrinação incentivadas pela Igreja católica. [...]

Nos anos que antecederam o discurso de Urbano II, a Europa viveu períodos de calamidades, enchentes, secas e epidemias. Nesse contexto, a visão apocalíptica do mundo ganhava espaço. A Terra Santa estava nas mãos de pagãos, a figura do anticristo tomava forma e o combate final estaria próximo. Assim, o discurso do papa conclamando os cristãos para uma “guerra justa” parecia fazer sentido para os cristãos entre os séculos XI e XIII.

Os esforços cristãos para libertar Jerusalém do domínio turco não se concretizaram. Durante mais de duzentos anos, legiões de cristãos foram enviados a Jerusalém e Constantinopla. No final, as duas cidades tornaram-se territórios do Império Otomano, situação que não se alterou até 1918.

Ao findar a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), partes dos territórios pertencentes ao Império Otomano, que se aliaram aos alemães durante o conflito, foram concedidas à Inglaterra. A partir de 1923, a Palestina esteve sob mandado britânico.

Jerusalém: palco de conflito entre israelenses e palestinos. Desde o século XIX, crescia entre os judeus europeus uma corrente de pensamento propagada por Theodor Herzl, o sionismo, que tinha como objetivo a formação do Estado judeu na Palestina. Esse sonho foi alimentado por séculos de perseguições a que esse povo foi submetido no continente europeu.

Após a Segunda Guerra Mundial, os debates sobre o sionismo ganharam proporções mundiais, aumentando, inclusive, o número de países que apoiavam a criação de um Estado judeu na Palestina. Por outro lado, os conflitos territoriais entre árabes palestinos e judeus ganharam proporções cada vez mais belicistas, formando-se grupos paramilitares de ambos os lados.

Em 1947, após um ataque ao quartel-general dos ingleses na Palestina, a Inglaterra retirou-se da região e submeteu o caso à Organização das Nações Unidas (ONU). Em 1948, parte da antiga Palestina foi transformada no Estado de Israel pela ONU. Quanto ao Estado árabe da Palestina, a área que fica na margem ocidental do rio Jordão foi anexada pela Jordânia e a faixa de Gaza pelo Egito. Desde então, Israel vem ocupando áreas de influência árabe, o que tem obrigado muitos palestinos a abandonar seu território, tornando-se refugiados.

A população árabe palestina, que habitava a região há séculos, viu-se cada vez mais destituída da posse das terras. Em 1967, enquanto os judeus ocupavam 92% do território, os palestinos ocupavam apenas 8%. A maioria dos palestinos foi confinada em campos de refugiados ou migrou para países árabes fronteiriços. Nesses campos, a consciência árabe vem se desenvolvendo junto a um sentimento religioso fundamentalista, que contribui para tornar a situação na região mais radical e conflitante.

Em 1964, com o apoio da comunidade árabe, foi criada a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), financiada por um fundo nacional palestino que recebe contribuições dos governos árabes, e campos de treinamentos militares. Ao lado da luta política, de ambos os lados, desencadeava-se a luta armada, o terrorismo. Vários conflitos entre árabes e israelenses ocorreram nos anos que se seguiram: Guerra dos Seis Dias (1967), Guerra do Iom Kippur (1973) e Guerra do Líbano (1982).

Desde o Tratado de Camp David, celebrado em 1978, a intervenção norte-americana na questão palestino-israelense buscou estabelecer a paz na Palestina, através da assinatura de acordos políticos.

Até agora, esses acordos não conseguiram atender às pretensões territoriais dos povos envolvidos, principalmente no que se refere à faixa de Gaza e Jerusalém. [...]

No centro desses conflitos, acirrados por questões religiosas e culturais, encontra-se a cidade de Jerusalém, considerada patrimônio da humanidade por preservar a memória de diferentes povos que têm os seus passados unidos pela fé no Deus de Abraão. Os israelenses conservadores não aceitam a criação de uma Jerusalém árabe e muito menos a sua internacionalização. Por sua vez, facções extremistas palestinas, como o Hamas, se recusam a dividir o território palestino com os judeus.

Em 1993, o Acordo de Oslo, que pretendia estabelecer a paz entre israelenses e palestinos, definiu um plano para a retirada de tropas israelenses e a devolução de áreas ocupadas aos palestinos. No entanto, os conflitos e ataques terroristas voltaram a ocorrer. As posições extremadas acabaram sendo materializadas na situação em que se encontra hoje a Palestina, palco de uma guerra civil desde o levante da intifada, em 2000.

CATELLI JUNIOR, Roberto. Temas e linguagens da História: ferramentas para a sala de aula no ensino médio. São Paulo: Scipione, 2009. p. 190-192, 194-199.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A religião contra o Estado



Uma bancada teocrática instalou-se no Congresso Nacional, pretendendo impor os mandamentos de seu Deus a toda a população. O fundamentalismo religioso, com seus códigos de conduta reacionários, é hoje o maior inimigo político do Estado Democrático de Direito.

Por Túlio Vianna*

A religião é a política realizada em nome de Deus. O líder religioso, assim como qualquer líder político, pretende governar o maior número de pessoas possível. Um governo que se faz não por leis, mas por dogmas.

O monoteísmo é autoritário na sua essência. Nunca houve plebiscitos e nem mesmo reuniões com representantes eleitos pelo povo para criar os dogmas de uma religião. Eles são ditados de cima para baixo, por alguém que fala em nome do próprio Deus e, portanto, é incontestável, mesmo pela vontade da maioria.

Como os líderes religiosos não dispõem, nos dias de hoje, de um braço armado para fazer valer suas leis pela força, precisam convencer seus governados a se sujeitarem às suas normas pelo proselitismo. E mais: precisam convencer também aqueles que não se sujeitam àquelas normas, ao menos a respeitá-las.

A fé é a mais autoritária das ideologias políticas já inventadas. Um instrumento político quase perfeito, que permite ditar normas unilateralmente, governar sem a necessidade de armas e, ainda por cima, blindar-se de críticas em nome da tolerância religiosa.

Como em toda ideologia, há aqueles que acreditam piamente nela e lutam para vê-la concretizada e há também aqueles que simplesmente a tomam como pretexto para satisfazer seus interesses pessoais. Creiam ou não em sua ideologia e em seus deuses, todos agem politicamente no sentido de agregar cada vez mais um número maior de seguidores e de acumular riquezas para sustentar a expansão de sua ideologia e de seu poder político.

E não há nada de errado, por si só, em tentar expandir uma religião ou uma ideologia, acumulando patrimônio e gente disposta a seguir seu código de condutas. É natural que as pessoas se unam em torno de convicções comuns e, a partir daí, surjam lideranças políticas. O problema surge quando estas lideranças reconhecidas dentro de um grupo resolvem expandir seu poder político para além do grupo, impondo suas normas de condutas não a quem resolveu por conta própria aderir a elas, mas a quem tem ideologias e deuses completamente diferentes. Neste ponto, não se trata mais de uma questão meramente política. A religião só é religião até ser imposta; depois disso, é simplesmente política e pode ser exercida tanto pela força das armas como pelos votos de uma maioria fundamentalista. E o uso do nome de Deus para mascarar o exercício desse poder político é a ferramenta política mais hipócrita que já se inventou, mas tem funcionado muito bem ao longo da história.

O exemplo mais bem-sucedido deste exercício de poder político em nome de Deus é o da Igreja Católica Apostólica Romana, que acumulou riquezas e impôs suas normas de condutas para populações espalhadas por todo o mundo em nome de seu Deus, durante vários séculos. A Inquisição e a catequização de índios não foram ações religiosas, mas políticas. E pouco importam as boas ou más intenções daqueles que as realizaram, o fato é que buscavam com elas impor normas de condutas a populações que não a aceitaram por livre e espontânea vontade.

* O neopentecostalismo e a bancada teocrática. Na atualidade, o Vaticano perdeu grande parte de seu poder político na Europa e, mesmo no Brasil, onde sempre foi muito forte, tem perdido espaço para o neopentecostalismo, que, nos últimos anos, vem acumulando grande poder político e econômico.

Se, por um lado, a ausência de uma liderança unificada dificulta o exercício do poder político por essas novas lideranças, por outro, sua ideologia espiritual favorece bastante a acumulação de riquezas pelos seus pastores. Enquanto a moral católica considera a temperança, a caridade e a humildade como virtudes, o neopentecostalismo está fundado na Teologia da Prosperidade e afirma que os verdadeiros fiéis devem desfrutar de uma excelente situação econômica. Há, é claro, um detalhe: para que Deus conceda ao fiel as benesses materiais, é preciso que este faça um pacto com Ele, oferecendo-Lhe toda sorte de oferendas materiais, dentre as quais se destaca o dízimo. É a chamada Doutrina da Reciprocidade, que viabilizou todas estas rápidas expansões de igrejas neopentecostais nos últimos anos.

Escudados na liberdade religiosa, pastores cobram impostos privados de seus fiéis - o famoso dízimo - e não precisam pagar qualquer imposto ao Estado, pois a Constituição da República garante em seu artigo 150, VI, b, a imunidade tributária a templos de qualquer culto. Verdadeiros impérios econômicos vêm sendo erguidos assim, tal como ocorreu no passado com a Igreja Católica. E, tal como ocorreu no passado também, esse dinheiro vem sendo usado para expandir o poder político dos líderes dessas Igrejas, seja por meio da aquisição de meios de comunicações (inclusive de redes de televisão), seja pelo financiamento de campanhas para cargos públicos destes líderes que cada vez mais vêm ocupando cargos, especialmente, no Parlamento brasileiro.

Como sempre, os novos líderes espirituais afirmam que todos esses investimentos materiais têm como único e exclusivo objetivo a expansão da palavra de Deus deles e de seu código moral, que, como em toda boa religião monoteísta, deve ser universalizado para o "bem de todos". Ainda que se admita, porém, que não haja interesses pessoais por trás da expansão destes impérios da fé, fato é que o seu principal objetivo declarado é a expansão de seu poder político, açambarcando a cada dia um número maior de pessoas. Mesmo que para isso precise passar por cima do Estado Democrático de Direito, que, ao contrário do monoteísmo, não impõe normas unilateralmente e pressupõe o respeito à pluralidade de opiniões.

Do ponto de vista exclusivamente político, o Estado Democrático de Direito é o maior entrave à expansão do império econômico e político das igrejas neopentecostais e de seus bispos. Não é à toa que cada vez mais eles têm buscado conquistar cadeiras do Parlamento. E a bancada teocrática tem se tornado a cada dia uma das principais forças políticas de nosso Congresso, restringindo os direitos fundamentais de quem não acreditar em seu Deus em prol da expansão política e econômica de seu império.

A teocracia é incompatível com o Estado Democrático de Direito, dado o autoritarismo inerente ao monoteísmo. Não se realizam votações para saber se é da vontade de Deus receber dízimos ou condenar os homossexuais a passarem a eternidade no inferno. São seres humanos que afirmam isso e que impõem aos outros a palavra de Deus que eles próprios escreveram. E essas são ações políticas, e como tais devem ser tratadas.

E é por isso que o Estado Democrático de Direito é, por sua própria natureza laico. Porque é impossível ser democrático e monoteísta ao mesmo tempo. Assim como é impossível ser candidato a um cargo público e bispo, pastor ou padre ao mesmo tempo. Há um evidente conflito de interesses entre aquele que pretende falar em nome de seu Deus e aquele que pretende falar em nome do povo, em meio ao qual nem todos acreditam em seu Deus.

Para minimizar essa incompatibilidade é necessário, ao menos, que se exija que bispos, padres, pastores e outros clérigos se licenciem de suas atividades sacerdotais um ano antes de se candidatarem a cargos públicos. Restrição semelhante já é aplicada pela Lei Complementar 64/90 a magistrados, diretores de sindicatos e outros cargos públicos, tendo em vista a incompatibilidade de suas funções com uma campanha eleitoral, e poderia perfeitamente ser aplicada também aos sacerdotes de qualquer crença. Projeto de lei, nesse sentido, foi apresentado pela deputada Denise Frossard (PSDB-RJ) na Câmara dos Deputados em 2004 (PLP 216/2004), mas foi arquivado em 2007, pois ainda se encontrava em tramitação no fim da 52ª legislatura, e não houve pedido de desarquivamento na legislatura seguinte.

Uma outra iniciativa necessária é limitar a transmissão de programas religiosos em rádios e televisões para no máximo uma hora diária, tal como foi proposto em 1999 (PLS 299/99) pelo senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT). A Constituição da República é explícita em seu artigo 221, ao determinar que a programação das emissoras de rádio e televisão terá, por preferência, finalidades educativas, artísticas, culturais e informativos. É inconcebível que, no Estado laico, concessões públicas de rádio e TV sejam usadas, como são nos dias de hoje, em prol do proselitismo religioso, que não raras vezes passa boa parte do tempo solicitando doações financeiras a seus fiéis. Um autêntico merchandising da fé, patrocinado pelo Estado, que, por definição constitucional, é laico.

Lamentavelmente, porém, há pouca vontade e coragem política dos parlamentares brasileiros de desafiar o poder político e econômico do novo e do velho clero. A esquerda tem sido bastante leniente com as violações do Estado laico e as poucas iniciativas para amenizar o problema, como se viu, por mais parodoxal que seja, partiram do conservador PSDB.

O Brasil precisa urgentemente de uma bancada secular no Congresso Nacional para fazer frente à bancada teocrática (que prefere ser chamada de evangélica). Os valores democráticos da laicidade precisam ser reafirmados por parlamentares que não temam desafiar o crescente fundamentalismo religioso, que a cada dia ganha espaço na política brasileira. Não se trata de um combate a qualquer religião, mas à política realizada em nome de Deus e que pretende impor seus códigos de condutas conservadores a toda uma população.

A luta pela efetivação do Estado laico é a luta pela democracia. Por leis que sejam ditadas não de cima para baixo por uma autoridade que fala em nome de Deus, mas construídas com base no diálogo plural e com respeito aos direitos fundamentais. E isto, deus monoteísta nenhum poderá conceder, pois seus mandamentos são - por definição - mandamentos.

Monoteísmo e democracia são ideologias políticas antagônicas. É essa a grande cruzada da religião contra o Estado.

* Túlio Vianna. "A religião contra o Estado". Revista Fórum. nº 101, ano 9, agosto de 2011. p. 18-19.