"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 15 de março de 2014

As primeiras populações na Amazônia

Houve na Amazônia uma fase bastante seca, entre 18.000 e 12.000 anos atrás. Por isso, chegou-se a pensar que a mata tinha quase desaparecido, substituída por uma grande extensão de cerrados, no interior da qual teriam resistido "ilhas" florestais. De fato, acredita-se hoje que o recuo das matas tenha sido moderado, embora um "corredor" de vegetação mais aberta talvez tenha existido no meio da hileia, facilitando uma passagem terrestre no sentido norte-sul para os primeiros colonos.

Em todo caso, parece que a mata atual estava estabelecida no início do Holoceno, período durante o qual algumas flutuações climáticas menores, causadas por episódios do tipo El Niño, causaram em vários momentos um déficit em água. Isso determinou ou facilitou a propagação de incêndios catastróficos. Alguns arqueólogos acreditam que eles poderiam justificar êxodos de populações e sua posterior substituição por outros grupos, explicando a sucessão das tradições ceramistas na Amazônia. No entanto, trata-se de uma hipótese ainda não comprovada.

As mais antigas datações vêm de escavações realizadas no abrigo da Pedra Pintada de Monte Alegre, no Pará. Entre 10.000 e 11.200 anos atrás, encontram-se vestígios de uma densa ocupação de caçadores, pescadores e coletores que deixaram instrumentos de pedra lascada: milhares de lascas e várias pontas de dardo bifaciais, bem como lesmas unifaciais, lembrando a Tradição Itaparica do Brasil central. Pigmentos minerais preparados indicam que parte das pinturas rupestres do abrigo pode ter sido elaborada nessa época. Os restos alimentares incluem muitas espécies vegetais, inclusive a castanha-do-pará e numerosos coquinhos.


Pintura rupestre, Pedra Pintada, Pará

Na bacia do rio Guaporé, o abrigo do Sol também forneceu evidências de ocupação até cerca de 12.000 anos atrás, mas os dados sobre elas ainda não foram publicados.

Sabemos pouco sobre os milênios seguintes, por falta de prospecções e escavações sistemáticas. Mas, contrariando uma opinião tradicional de que não haveria indústrias de pedra lascada na Amazônia, as escavações recentes realizadas em Roraima e na região de Manaus mostram que, onde existiam afloramentos de rocha adequados, os homens pré-históricos produziram lascas cortantes, pontas de projétil com aletas e pedúnculo, e lâminas de machado lascadas. Dessa forma, a presença de caçadores está bem-comprovada entre 8.000 e 3.000 anos atrás em várias partes da bacia Amazônica.

Em sítios de coleta de moluscos - modestos sambaquis do baixo Amazonas e do litoral norte-maranhense - aparece uma cerâmica muito antiga, talvez a mais antiga das Américas, datada de pelo menos 5.500 anos, possivelmente 7.000 anos. As condições climáticas não permitiram a preservação dos vegetais nos sítios a céu aberto, e não se sabe quando teve início o cultivo de plantas. Deve ter sido há mais de 4.000 anos, pois nessa data a mandioca apareceu no Peru, muito provavelmente trazida da bacia Amazônica, de onde seria originária. De qualquer forma, foi preciso esperar o início da Era Cristã para que os sítios arqueológicos (reconhecidos sobretudo pela presença em superfície de vestígios cerâmicos) se multiplicassem. A maioria deles foi agrupada em duas grandes tradições, ambas reconhecíveis a partir do século IV ou V da nossa era.

A primeira, cujas mais antigas manifestações encontram-se na ilha de Marajó, é caracterizada por uma cerâmica decorada com padrões pintados complexos. Sendo por isso chamada Tradição Policroma, apresenta uma versão oriental (Subtradição Marajoara); e outra, ocidental (Subtradição Guarita). Esta parece ter-se desenvolvido no sentido leste-oeste, ao longo do rio Amazonas, a partir de sua foz, até alcançar os primeiros contrafortes dos Andes.

A segunda tradição parece oriunda das Guianas e da Venezuela, também no século IV. Ela penetra posteriormente a Amazônia brasileira, seguindo um eixo norte-sul. Chamada Tradição Incisa-Ponteada, em razão de uma decoração típica, inclui as famosas cerâmicas chamadas de Santarém ou dos Tapajós.

PROUS, André. O Brasil antes dos brasileiros: a pré-história do nosso país. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. p. 110-2.

NOTA: O texto "As primeiras populações na Amazônia" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento arqueológico.

sábado, 1 de março de 2014

Pindorama - Os donos da terra

"Antigamente não havia civilizados, mas apenas índios. Uma mulher indígena ficou grávida. Toda vez que ela ia tomar banho no ribeirão próximo da aldeia, seu filho, que ainda não havia nascido, saía de seu ventre e se transformava em animais, brincando à beira da água. Depois voltava outra vez ao ventre materno. A mãe não dizia nada a ninguém. Uma dia o menino nasceu. Era Aukê. Ainda recém-nascido, transformava-se em rapaz, em homem adulto, em velho. Os habitantes da aldeia temiam os poderes sobrenaturais de Aukê e, de acordo com seu avô materno, resolveram matá-lo. As primeiras tentativas de liquidá-lo não tiveram sucesso. Uma vez, por exemplo, o avô o levou ao alto de um morro e empurrou-o de lá no abismo. O menino, porém, virou folha seca e foi caindo devagarinho, voltando são e salvo para a aldeia. Até que o avô resolveu fazer uma grande fogueira e nela atirá-lo. Dias depois, quando foi ao local do assassinato para recolher as cinzas do menino, achou lá uma casa grande de fazenda, com bois e outros animais domésticos. Aukê não havia morrido mas, sim, transformara-se no primeiro homem civilizado. Aukê ordenou, então, ao avô que fosse buscar os outros habitantes da aldeia. E eles vieram. Quando Aukê os fez escolher entre a espingarda e o arco, os índios ficaram com medo de usar a primeira, preferindo o segundo. Por terem preferido o arco, os índios permaneceram como índios. Se tivessem escolhido a espingarda, teriam se transformado em civilizados. Aukê chorou com pena dos índios não terem escolhido a civilização." (MELATTI, J. C. Índios do Brasil. 1970. p. 27-8)

Aí está resumido o mito das várias tribos Timbira, do grupo Jê, que habitam o sul do Maranhão e o norte de Goiás, a respeito da origem dos brancos. Os nativos revelam em suas lendas uma história de dominação, de subordinação perante os europeus. E a atitude dos primeiros donos da nossa terra diante dos civilizados é parecida com a de muitos outros grupos tribais do continente em relação aos conquistadores, tidos como seres excepcionais: cavalo e cavaleiro num só corpo! Demônios donos do raio e do trovão - gerados por seus canhões.


Banquete funerário dos índios Bororó. Brasil Central. Wilhen Kuhnert

O mito dos Timbira diz que "antigamente não havia civilizados, mas apenas índios". Esse "antigamente" vai muito além do que pensamos. As pesquisas já permitem dizer que desde 8000 a.C. grupos humanos habitam a parte do continente sul-americano que hoje constitui o Brasil. Machados e martelos de pedra, pedaços de cristal de quartzo e ornamentos de conchas encontrados na região de Lagoa Santa, atual Estado de Minas Gerais, foram examinados e deram base a essa afirmação.

Mas isso não quer dizer que o ser humano é originário da América. Ele teria chegado ao nosso continente em sucessivas migrações, através do estreito de Bering, principalmente. Acredita-se que os primeiros homens a chegar à América do Norte, oriundos da Ásia, eram simples caçadores. Isso há mais de quarenta mil anos! Na região Ártica está o último grupo a chegar: o dos esquimós.


Índios brasileiros no mapa "Terra Brasilis". Atlas Miller, ca. 1519

E os povoadores do Brasil? Quase nada se sabe sobre a vida humana aqui até a chegada dos europeus. Isso é muito ruim, pois passamos a analisar tudo com noções criadas pelos colonizadores, que sempre se consideraram superiores aos nativos. O próprio termo índio, por exemplo, é uma criação dos espanhóis, fruto de um engano dos que se imaginavam nas Índias...

Para os diferentes grupos tribais que viviam aqui não existia Brasil. A nação de um índio é a sua terra, é a área onde ele vive com sua tribo. É Pindorama, a terra das palmeiras, para uns, é Piratininga para outros e assim por diante. Como disse um chefe Seattle ao presidente norte-americano em 1855, "somos parte da terra e ela é parte de nós".


Dança em frente ao tronco. Festa do Kuarup, na aldeia Kamayurá. Alto Xingu (MT). Foto: Marcello Casal Jr. Agência Brasil

Os grupos tribais mais importantes eram os do tronco Jê, Nu-aruak e Karib, além do Tupi. Não podemos generalizar os costumes dos Tupi para todos os outros grupos. Isso aconteceu porque foi com as tribos do tronco Tupi que os colonizadores tiveram o primeiro contato. Disso resultou que muitos indígenas aprenderam o tupi-guarani com missionários portugueses, pois não falavam essa língua. E, embora tivessem outras divindades, foram catequizados para crer em Tupã, o ser sobrenatural que, segundo a crença tupi, controlava o raio e o trovão.

Assim como os Tupi não eram o único grupo tribal brasileiro, havia na América pré-colombiana um grande número de povos, com modos de vida bastante diversos. Uma enorme riqueza e variação em matéria de vida social! Os Asteca, os Inca e os Maia realizaram magníficas obras arquitetônicas e artísticas e construíram grandes cidades, como Tenochtitlán, Cuzco e Chichén Itzá, além de conhecerem eficientes técnicas de irrigação e fertilização do solo. Povos como os Jê, os Charrua e os Esquimó, por outro lado, eram nômades ou seminômades, extremamente hábeis na pesca, na caça, na coleta ou na prática de uma agricultura simples.

Foi com os nativos da América que os europeus conheceram o tabaco, o cacau, o milho, o tomate e a batata. Cada sociedade indígena que os conquistadores "conheciam" tinha um novo mundo a revelar.

[...]

Em geral, os nativos do Brasil viviam - e os remanescentes ainda vivem - em regime de comunidade primitiva. A terra pertence a todos e cada casal faz uma roça, de onde extrai alimentos para si e seus filhos. Quando aquele pedaço de terra é abandonado, outros podem utilizá-lo. Arcos, flechas, machados de pedra e outros instrumentos de trabalho, quase sempre rudimentares, são de propriedade individual. A divisão das tarefas de sobrevivência é natural, isto é, por sexo e por idade. Todos trabalham! As mulheres cozinham, cuidam das crianças, plantam e colhem, ajudando diariamente os homens, nesse caso. Estes participam de atividades guerreiras, da caça e da pesca, da derrubada da floresta para fazer a lavoura. Troncos e tocos são queimados antes da semeadura: é a coivara, método que até hoje é utilizado no campo brasileiro.


Aldeia de caboclos, Jean-Baptiste Debret

Uma sociedade organizada dessa maneira não tem classes sociais. O trabalho para a sobrevivência também cabe aos chefes de aldeias, unidades políticas independentes que compõem as tribos. O índio é tão consciente de sua função social que muitos velhos preferem isolar-se do resto do grupo, para não atrapalhá-lo. [...]

Numa sociedade sem classes, a competição não é tão acirrada. Isso explica a forma curiosa como os índios Kanela terminam suas partidas de futebol, jogo que aprenderam com o branco: sempre fazem o possível para dar empate.

Vivendo solidariamente, a penúria de um é a de todos e a fartura chega também para toda a tribo. Assim, nas épocas de escassez, todos emagrecem, voltando ao peso normal nos períodos de abundância. Por isso, se entende o espanto dos índios, neste relato do sertanista Chico Meirelles:

"Quando levei os Xavante ao Rio de Janeiro pela primeira vez, eles quiseram saber de onde vinha nossa comida. Levei-os ao mercado, onde existe uma quantidade enorme de frutas e legumes, mas também existe uma multidão de crianças e velhos catando comida no lixo. Eles me perguntaram como que nós, tão ricos, que dávamos presentes a eles, permitíamos aquele espetáculo. A cena foi um choque para eles. Muitas vezes a camisa que damos ao índio, ele entrega a um trabalhador." (Revista Veja, 23/05/1973)

Numa sociedade com pequeno desenvolvimento técnico, a produção de excedentes é reduzida. Por isso, as trocas são poucas, quase que só existindo no caso de um grupo produzir o que o outro não tem. As trocas rituais servem para estreitar os laços de amizade e isso é feito também com os brancos, conforme comprova o interessante relato de Meirelles:

"No fim da tarde, reúno sanfoneiro, tocador de cavaquinho, de pandeiro, começo a fazer barulho. Passado algum tempo, os índios chegam perto e - sem sair a mata - imitam onças, guarás, gaviões. É fácil perceber que são índios, pois não é possível aparecer tanto bicho diferente de uma só vez... Com os Cinta-Larga, um dos presentes que deixamos foi meia dúzia de cachorrinhos, nascidos em nosso acampamento. Eles ficaram malucos com os animais, mas não sabiam como pedir mais cachorros. Sabe o que fizeram? Pegaram um camaleão, cortaram o rabo e deixaram amarrado numa árvore. Existe muito camaleão na floresta e eles não precisam dessa bicho. Deixei, então, mais cinco cachorros e, quando voltamos, já tinham pegado os cães e havia mais de cem camaleões amarrados nas árvores!"

Nada mais eficiente do que a educação entre os índios. Os curumins aprendem e se divertem ao mesmo tempo: conhecer não é algo desligado da vida, como hoje em dia acontece muitas vezes conosco. As indiazinhas brincam com bonecas, os meninos flecham calangos e passarinhos com pequenos arcos. Nesses jogos infantis, eles imitam os adultos. E os ajudam também: as meninas menores tomam conta de irmãos pequeninos, as maiores mastigam as raízes com que se fazem as bebidas. Os meninos, muitas vezes junto com os velhos, carregam armas e caças ou espantam os pássaros das roças, nas vésperas das colheitas. O valor que os nativos dão aos seus filhos está comprovado num simples exemplo: em muitas tribos os adultos só conversam com as crianças acocorados, ficando assim em pé de igualdade com elas.

Em suma, um universo diferente do nosso. Hoje já se revê tudo que se disse preconceituosamente sobre o "atraso" e a "preguiça" dos índios. E nem todos acham importante "integrar o índio à civilização". Uma grande autoridade no assunto, o sertanista Orlando Villas Boas, criador do Parque Nacional do Xingu, comenta:

"Que diferença enorme entre as duas humanidades: uma tranquila, onde o homem é dono de todos os seus atos; outra, uma sociedade em explosão, onde é preciso um aparato, um sistema repressivo para poder manter a ordem e a paz. Se um indivíduo der um grito no centro de São Paulo, uma rádio-patrulha poderá levá-lo preso. Se um índio der um tremendo berro no meio da aldeia ninguém olhará para ele, nem irá perguntar por que ele gritou. O índio é um homem livre." (Revista Visão, 10 fev. 1975)

A vida em Pindorama era extremamente oposta à do nosso país de hoje. Talvez por isso o escritor paulista Oswald de Andrade (1890-1954) tenha afirmado que "antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade..."

Não podemos, entretanto, mitificar o índio, imaginando-o um ser humano perfeito e suas tribos o paraíso na terra. Como qualquer sociedade, a comunidade primitiva tem suas "falhas": em muitos casos a mulher é discriminada, por vezes ocorrem guerras violentas entre grupos e a solidariedade quase sempre provém mais das adversidades da natureza do que de uma escolha racional. O que não existe é a exploração de uma classe por outra, e isso traz consequências positivas para todo o corpo social.

ALENCAR, Francisco [et alli]. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 4-8.

NOTA: O texto "Pindorama - Os donos da terra" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Arte rupestre do Brasil: Tradição Nordeste

Embora certas pinturas rupestres talvez tenham sido realizadas já no período anterior, a maioria dos grafismos encontrados em abrigos data provavelmente dos últimos seis milênios antes da Era Cristã. Com certeza não eram obras de "arte" no sentido que damos hoje à palavra. É claro que, durante todos esses milênios e em tantos lugares, algumas pessoas podem ter deixado simples graffitti, e outros desenhos talvez fossem feitos para fins decorativos. No entanto, o mais provável é que a maioria dos grafismos tenha sido feita como afirmação de etnicidade, expressão de uma crença, ato mágico, proclamação política de status, trato ou posse. O reconhecimento da existência de complexos temáticos estáveis ao longo de séculos e milênios levou os arqueólogos a definirem as "tradições" rupestres, nas quais variações menores de uma região para outra permitem reconhecer fácies, ou subtradições, enquanto modificações ocorridas ao longo do tempo permitem sucessivos estilos.

Não se encontram grafismos pré-históricos em todo o Brasil central ou nordestino. Em algumas regiões, faltavam suportes rochosos abrigados, e talvez as populações deixassem suas marcas em árvores, retirando as cascas para criar figuras em negativo - como faziam os índios Bakari no século XIX. Mas mesmo em locais onde existem paredes naturais protegidas, há regiões nas quais a "arte rupestre" é inexistente ou raríssima - como as de Arcos e de Pains, em Minas Gerais -, enquanto no vale do rio Peruaçu e na serra da Capivara é difícil andar ao longo dos paredões além de poucas centenas de metros sem encontrar um painel pintado.

[...]

Os sítios da região de São Raimundo Nonato (PI) serviram de referência para estabelecer a sequência de base do Nordeste brasileiro.

O conjunto de pinturas mais antigo é formado por representações humanas agrupadas em cenas, eventualmente acompanhadas por animais. Esses grafismos definem a Tradição Nordeste, que, segundo as pesquisadoras locais, se teria desenvolvido entre 12.000 e 6.000 anos atrás, no Piauí meridional. Nesse estado, o estilo mais antigo, denominado Serra da Capivara, apresenta figuras monocrômicas cuja cor contrasta com a do suporte natural. As representações humanas mostram cabeças por vezes ornadas com cocar, isoladas, e as figuras parecem assexuadas. Quando estão em grupo, o sexo é indicado de maneira convencional (um traço para o pênis, sempre erguido, e um círculo para a vulva). As personagens são geralmente muito dinâmicas. Formam cenas familiares (dois adultos e uma criança), relações sexuais (casais em várias posições, ou vários homens segurando uma mulher, homens segurando um pênis enorme); caça ao tatu (o animal é segurado pelo rabo) ou ao veado (com uma rede). Uma cena muito característica é conhecida como a "da árvore": várias pessoas, de braços erguidos, rodeiam uma árvore, ou uma delas segura um galho. Figuras antropomorfas também formam correntes, evocando acrobatas. As figuras zoomorfas são sobretudo de cervídeos e emas.

Tradição Nordeste: Toca da Extrema II, Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí

Por volta de 9.000 anos atrás, as cenas de violência se multiplicam: estupros, combates, execução de pessoas amarradas a um poste (complexo Serra Talhada). Finalmente, com o estilo Serra Branca, o movimento desaparece e as figuras tornam-se angulosas, com um grande corpo retangular preenchido por desenhos geométricos eventualmente bicrônicos dos quais se destacam pequenos membros filiformes.

Os dois primeiros estilos da Tradição Nordeste se propagaram fora do Piauí, para os estados do Nordeste, o norte de Minas Gerais, o sul de Goiás e até o Mato Grosso. No Rio Grande do Norte desenvolveu-se uma versão original - chamada "Subtradição Seridó", onde os animais são muito raros (somente tucanos e emas), e as figuras humanas apresentam um bico parecido com o de pássaros. Sua influência alcançou as terras baixas da Bolívia e da Colômbia orientais.

A Tradição Agreste substitui aos poucos a tradição Nordeste e seria a única representada na arte rupestre do sul do Piauí entre 6.000 e 2.000 anos atrás. Trata-se de grandes figuras monocromas, toscamente executadas, representando seres humanos isolados ("bonecões") ou animais pouco naturalistas, por vezes acompanhadas por impressões de mãos. Essa Tradição é considerada intrusiva no sul do Piauí, e seria originária de Pernambuco, onde essas figuras são muito mais numerosas.

PROUS, André. O Brasil antes dos brasileiros: a pré-história do nosso país. Rio de Janeiro: Zahar, 2012. p. 73-77.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

As fontes da história pré-cabralina

[...] todas as fontes da história do território hoje conhecido como Brasil, antes da chegada dos europeus, são arqueológicas - ou seja, compostas de registros materiais deixados pelos homens e parcialmente preservados dos processos naturais de degradação. Os ossos humanos informam sobre idade, sexo, características físicas tanto individuais quanto diagnósticas do tipo de população (evita-se o termo raça), posturas frequentes e tipos de esforços mecânicos, doenças e alimentação. Os restos de animais pequenos fornecem dados sobre o ambiente local (umidade, temperatura); os de animais caçados, sobre as escolhas e os hábitos de preparo alimentar. Os vegetais (raramente preservados) evidenciam as técnicas de coleta e/ou de cultivo, e as modificações genéticas sob domesticação.

Cerâmica marajoara: urna funerária. Ca. 400-1400.

Os instrumentos de pedra (mais facilmente preservados, mas nem por isso os mais comuns na época pré-histórica), de osso, de cerâmica ou artefatos vegetais informam sobre as tecnologias conhecidas pelo grupo que os fabricou, mas também as marcas específicas que diferenciavam a produção de um grupo com referência aos vizinhos (por vezes até se pode reconhecer o "jeito" de um indivíduo). Os vestígios de uso nos artefatos (estudados no microscópio ou a partir de análises químicas) podem indicar os produtos fabricados ou preparados. Os grafismos (pinturas, gravuras) deixados em paredões (a chamada arte rupestre) ou em pequenos objetos, assim como as esculturas e modelagens, permitem abordar a esfera do pensamento simbólico por meio de temas, formas e ritmos privilegiados pelas populações.


Pintura rupestre: Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí

Por outro lado, além dos vestígios "culturais", importam os vestígios "naturais" que informam sobre o paleo-ambiente: clima, vegetação, fauna e topografia, que mudam ao longo do tempo, influenciando as coletividades humanas. Além disso, não é somente a presença de vestígios que deve ser verificada, mas também a ausência de outros elementos: por exemplo, a exclusão de determinado animal da dieta é tão significativa quanto a presença de outro; a ausência sistemática de ossos de criança num cemitério pode ser tão importante quanto a presença de esqueletos adultos.

Mas a arqueologia não se faz apenas da coleta de objetos isolados. Somente a relação dos vestígios contemporâneos entre si permite reconhecer as estruturas arqueológicas e arriscar uma interpretação da vida quotidiana. Os vestígios encontram-se em conjuntos que denominamos sítios arqueológicos. Estes podem conter vestígios de apenas uma ocupação ou de várias delas. No segundo caso, é necessário tentar separar os restos de cada ocupação (seja esta breve momento ou um período de vários anos), o que se faz com escavações estratigráficas, procurando-se distinguir os estratos sedimentares uns dos outros. Trata-se de um método de aplicação delicada que permite separar objetos mais recentes dos mais antigos, sem tornar possível calcular a idade exata dos estratos considerados. Para se obter uma cronologia mais precisa, devem-se obter datações por métodos físico-químicos. Destacam-se o do radiocarbono (que possibilita, em certas condições, calcular a idade da morte dos seres vivos a partir da radioatividade residual do carbono preservado em carvões vegetais, em ossos ou em conchas) e o da termoluminescência residual em torrões de barro queimado e cacos de cerâmica.

Os sítios arqueológicos não são entidades isoladas, mas elementos dentro da ocupação de um território por uma população. Alguns deles refletem ocupações sazonais, enquanto outros correspondem a habitações de longa duração. Alguns mostram apenas atividades precisas e limitadas (cemitérios, locais de extração de matéria-prima, ateliês de fabricação de instrumentos, locais de preservação de alimentos etc.), enquanto outros guardam vestígios de atividades diversificadas. Uns evidenciam a exploração de zonas baixas (por exemplo, para agricultura ou pesca), enquanto outros correspondem a um uso casual (tal como caça, coleta de determinadas plantas ou realização de rituais). Cada sítio deve ser abordado de uma maneira específica, e nenhum deles apresenta uma visão completa da ocupação do território.

Dessa forma, a prática da arqueologia é extremamente complexa, e o arqueólogo depende da colaboração de vários especialistas (biólogos, geomorfólogos, físicos etc.). Por outro lado, ele dispõe apenas de fragmentos da realidade do passado - sobretudo o lixo, e ainda por cima selecionado pelos agentes de degradação natural. Enfim, o processo de identificação e coleta em campo, bem como a interpretação dos resultados de análise, deve ser submetido a inúmeras críticas: serão os sítios estudados representativos das atividades da população em pauta? Os vestígios apresentados são significativos o bastante para sustentar as interpretações? Será que alguns dos supostos instrumentos podem ter sido produzidos pela natureza? Os carvões encontrados são de origem antrópica ou não? Os vestígios vegetais e ósseos são restos de alimentação humana ou animal? Ou seriam restos de algum animal morto acidentalmente no lugar onde morava? Será que a escavação foi realizada segundo o procedimento correto? Teria havido perturbações estratigráficas não reconhecidas pelo arqueólogo? Ou contaminação das amostras datadas?

Essas dúvidas costumam ser levantadas em função dos argumentos apresentados pelos arqueólogos (sobretudo quando os resultados são inesperados) e da sua credibilidade em geral. Explicam por que vários especialistas têm opiniões divergentes a partir dos mesmos dados presentes numa publicação. A crítica esperada dos pesquisadores por seus pares é a melhor garantia da qualidade das pesquisas futuras. Nas discussões aparecem os limites do trabalho realizado e surgem novas propostas para responder aos questionamentos.

PROUS, André. O Brasil antes dos brasileiros: a pré-história do nosso país. Rio de Janeiro: Zahar, 2012. p. 13-17.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Assentamentos humanos pré-históricos: os mounds

Escavação do aterro Belém (Ilha de Marajó)

Os diferentes tipos de aterros são conhecidos como tesos, murundus e cerritos nas terminologias regionais do Brasil e como mounds na terminologia técnica da Arqueologia. São obras humanas e possuem dimensões e formatos variados, geralmente construídos dentro ou na margem de áreas alagadiças. A decisão de ocupar esses lugares devia-se a pelo menos dois motivos. Poderia ser em razão da oferta de recursos para alimentação, uma vez que esses ambientes alagadiços são riquíssimos em quantidade e variedade faunística - pelo menos em certas épocas do ano, quando há elevação do nível das águas; também podia ser em virtude do aumento da densidade populacional na região que envolvia as próximas às áreas alagadiças, obrigando a ocupação de tais espaços.

A construção dos aterros implicava a extração e transporte de volumes consideráveis de terra e, dependendo do caso, equivalia a verdadeiras obras monumentais, em decorrência da movimentação de muitos milhares de metros cúbicos de sedimentos. Alguns autores consideram que, em certas regiões, a construção dos aterros foi executada sob a direção que centralizaria a organização dos trabalhos, evidenciando a existência de níveis distintos de hierarquia social, com líderes coordenando as construções, em contraposição à ideia generalizada de que não havia distinções sociais e políticas entre os povos indígenas situados no Brasil. Mas também é possível que essas construções fossem realizadas sem uma divisão social do trabalho, com todo o grupo (ou apenas os homens) entrando com a mão-de-obra.

Dentre os mais conhecidos aterros arqueológicos do Brasil podemos citar os tesos ou murundus da ilha de Marajó, os aterros do Pantanal e os cerritos do Rio Grande do Sul e Uruguai. Os tesos eram ocupados ao longo do ano, enquanto os aterros e os cerritos eram ocupados sazonalmente, seguindo a oferta de recursos associados a mudanças climáticas ou a modificações do regime hídrico (cheias/secas). No caso dos aterros, eles eram ocupados na época de cheia e desocupados na vazante, quando seus proprietários iam para outros assentamentos na margem dos rios perenes do Pantanal. No caso dos cerritos, especialmente os que eram estabelecidos próximos das lagoas e cursos d'água, a ocupação ocorria nos meses mais quentes do ano, quando havia maior abundância de recursos aquáticos. Eram desocupados no inverno, quando sua população se dividia para obter recursos em áreas afastadas, no interior.

Em termos de dimensão, os maiores tesos de Marajó podem alcançar cerca de 235 metros de comprimento, por 30 metros de largura e 10 metros de altura. São cerca de 400 sítios conhecidos, uma fração do total que existe, segundo Anna Roosevelt, dividindo-se em grupos com uma quantidade média de três a cinco tesos (às vezes, há mais tesos reunidos). Estes serviriam tanto para escapar das cheias quanto para defesa, onde haveria aldeias que poderiam abrigar um mínimo de mil pessoas, tendo sido construídos entre 1.400 e 400 AP.

No Pantanal, existem milhares de aterros construídos de modo total ou parcial, com dimensões que alcançam cerca de 300 metros de comprimento, 120 metros de largura e até 3 metros de altura. Em muitos casos, os construtores partiam de elevações naturais sobre a planície de inundação para dar início à construção dos aterros. Enquanto nos tesos marajoaras haveria apenas habitações, os aterros pantaneiros teriam menos habitações e ocupantes, mas se diferenciariam pela inclusão dos capões artificiais de mato formados por plantas alimentícias, drogas vegetais e matérias-primas introduzidas, formando verdadeiras "ilhas de recursos" implantadas no meio das planícies campestres alagáveis. Os mais antigos aterros conhecidos até o momento começaram a ser construídos entre 4140 anos e 3920 anos AP, sendo ocupados até o presente.

Ao redor dos complexos lacunares do litoral Atlântico e de algumas áreas da região da Campanha entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai também existem milhares de cerritos. São similares aos aterros pantaneiros, mas foram construídos por populações distintas, a partir de 5 mil AP. Tudo indica que seus ocupantes não praticavam a agricultura da mesma maneira que no Pantanal, mas informações conhecidas até o presente revelam que seus construtores cultivavam matas de palmeiras, principalmente de butiá, em áreas não alagáveis das cercanias. Há casos de conjuntos de dois, três, quatro ou mais cerritos construídos próximos uns dos outros.

FUNARI, Pedro Paulo; NOELLI, Francisco Silva. Pré-história do Brasil. São Paulo: Contexto, 2002. p. 96-98.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Assentamentos humanos pré-históricos: as "pit- houses"

Na terminologia técnica internacional da Arqueologia, as casas semi-subterrâneas são denominadas pit-houses. Esse tipo de habitação é um claro exemplo da adaptação de nossos antepassados aos ambientes mais frios do Brasil, sobretudo nas áreas de maior altitude - como as altas encostas e os planaltos da Serra Geral, que alcançam altitudes superiores aos 800 metros acima do nível do mar e onde a temperatura pode descer vários graus abaixo de zero. Além da altitude, as temperaturas médias mais baixas em 3 ou 4 graus que as da atualidade, sobretudo entre os séculos I e XVIII da nossa Era, devem ter influenciado esse tipo de adaptação encontrada apenas entre os povos jê, uma vez que outras populações, habitando lugares com clima igualmente frio, não realizaram construções semelhantes. Os geólogos denominaram uma parte desse longo período entre o início do século XV e o início do século XIX, como a "última idade do gelo". Nos séculos XVII e XVIII, foram produzidos numerosos relatos sobre neve e nevascas nos estados do sul do Brasil. Por volta de 1616, o padre Antônio Ruiz de Montoya, no interior do atual estado do Paraná, registrou a designação guarani para neve: ro'y pýá. Também existe uma designação para neve na língua dos kaingangues, descendentes dos construtores das casas semi-subterrâneas, colhida por Úrsula Wiesemann no seu dicionário Kaingang-Português: kukryèn.

Casas semi-subterrâneas dos kaingangs e xockengs utilizadas antes dos europeus chegarem ao Brasil. Croqui do arquiteto L. F. M. Pomier

Assentamentos arqueológicos com casas semi-subterrâneas foram encontrados desde Minas Gerais até o Rio Grande do Sul, no vale do rio Jacuí. Os mais antigos sítios arqueológicos foram datados no Rio Grande do Sul, ao redor de mil e 800 AP.

Também existem documentos históricos referentes a habitações desse tipo na fronteira litorânea entre São Paulo e Rio de Janeiro, na Bahia, assim como nas áreas mais altas do rio Xingu, baseados em relatos míticos dos xikrin-kayapós.

Uma parte da casa ficava abaixo da superfície do solo, que era escavado  com essa finalidade. Acima da superfície ficava o telhado , que deveria ter a forma côncava, com uma abertura servindo como porta e outra, como chaminé. Um relatório escrito pelo padre jesuíta Antônio Ruiz de Montoya, em 1628, retrata a aparência externa de algumas dessas casas localizadas onde hoje é o oeste paranaense: "são redondas, como fornos". Ou seja, os telhados eram semelhantes aos fornos semi-esféricos feitos de tijolos e barro, como aqueles para assar pão ou fazer carvão. Ainda não sabemos como era a estrutura do telhado, mas conhecemos a sua base de sustentação, feita com alicerce de alguns blocos de pedra para suportar seu peso. Isso nos faz deduzir que o telhado era constituído por uma estrutura de madeira coberta com argila e, possivelmente, gramíneas para melhorar a impermeabilização e o isolamento térmico - a exemplo de habitações semi-subterrâneas encontradas em outras regiões temperadas do mundo -, reduzindo a possibilidade de que o telhado fosse coberto apenas com palha, como deduziram os pesquisadores que trataram da questão até o presente.

Os assentamentos são constituídos em média por duas ou três casas, mas existem vários exemplos, com mais de 10 habitações, alguns alcançando 68. Suas dimensões são variáveis, com as menores medindo ao redor de 2 metros de diâmetro e as maiores atingindo até 20 metros. A profundidade também varia de pouco mais de 1,5 metro até 8 metros, havendo formidáveis casas que podem atingir até 22 metros. Algumas casas foram escavadas em solo rochoso de basalto ou arenito, semelhante ao que se faz em uma pedreira, implicando muitos dias de trabalho. A parede abaixo da superfície do solo geralmente é vertical, resultando que, na maioria das casas conhecidas, havia necessidade de instalar escadas para auxiliar a saída do interior.

Muitas vezes os assentamentos com casas semi-subterrâneas também possuem obras monumentais, como os chamados dançadores (locais planos cercados por uma mureta de terra onde eram realizadas cerimônias diversas) e os montículos onde eram enterrados os mortos. Em muitos casos, topos de morros foram aplanados para a instalação dos dançadores, chegando alguns aos 200 metros de diâmetro. Vários dançadores estão cercados por muretas, aterros com cerca de 50-70 centímetros de altura, que talvez servissem como bancos ou para delimitar esses espaços. Os montículos mortuários variavam de tamanho, podendo ultrapassar os 20 metros de diâmetro e 4 metros de altura, conforme o prestígio do falecido.

Ainda não se sabe com detalhes como era o interior dessas habitações, mas no século XVI o português Gabriel Soares de Sousa, em seu Tratado descritivo do Brasil (1587), relatou haver "fogo de noite e de dia e fazem suas camas de ramas e peles". As escavações arqueológicas irão revelar mais detalhes sobre como seria o contexto e a distribuição interna dos bens dessas habitações. Também não sabemos bem como era a forma dessas aldeias, se teriam outras construções externas e se, no verão, os seus habitantes permaneciam ocupando o interior das casas semi-subterrâneas ou se iriam temporariamente para casas acima da superfície do solo.

FUNARI, Pedro Paulo; NOELLI, Francisco Silva. Pré-história do Brasil. São Paulo: Contexto, 2002. p. 93-96.