"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

“Entre homens”: homossexualidade e virilidade em 1968

Pátroclo, Jacques-Louis David

Se falar em sexo publicamente ainda era complicado nos anos 1968, era prudente que os homossexuais se reservassem ao espaço privado. Embora causassem polêmica, determinados comportamentos que confrontavam a noção de masculinidade criada pela sociedade não eram debatidos abertamente, como recorda Ricardo:

A gente supunha que algum rapaz que não falava em mulher, não jogava futebol e não bebia, pudesse ser uma mocinha. Mas, os homossexuais eram muito caricaturizados, discriminados, agredidos e era muito natural que não se expusessem.

A caracterização do homossexual atingia direto o estereótipo do "macho" e o preconceito era o preço mais alto a ser pago:

Eu fui criado numa sociedade onde ser homossexual era ser criminoso, era ser pecaminoso, uma coisa feia que não se conta, uma coisa vergonhosa. Então, o meu desejo foi levado... meu desejo ele foi ensinado a se manifestar somente em situações ligadas à marginalidade: Noite! A palavra noite é feminina já notaram? Dia é masculino: claro, luz, razão, precisão! Noite é feminina: escura, obscura, indefinida, marginal!... Então, meu desejo foi educado para ser ativado em locais tipo barzinhos à noite, becos escuros, saunas... Os tipos de caras que me atraem são caras assim, mais ou menos, que lembram esse ambiente, submundo de coisa assim.

Muitas vezes sem poder (e nem querer) frequentar os mesmos lugares que rapazes heterossexuais, a vivência homoerótica levava à prática de uma subcultura masculina, marginalizada. Os espaços de sociabilidade, caracterizados em sua grande maioria pela escuridão e seus sinônimos, eram restritos, e cabia ao jovem descobrir os mesmos. Os cinemas, desde décadas anteriores, eram espaços privilegiados para isso. Armando Antunes relembrou sua primeira experiência num cinema da capital mineira:

A primeira vez que eu fui num cinema e que aconteceu alguma coisa comigo foi no cine Piratininga. Eu sentei lá e de repente eu percebi que sentou alguém do meu lado, mas eu não me toquei, eu não estava ali para caçar. Eu era novo ainda. Quando eu percebi alguém me pegou. Eu senti uma mão me pegar. Mas eu dei um berro que o cara fugiu para um lado e eu fugi para o outro.

O grito instintivo não foi entendido por ele como uma agressão. Na verdade, foi o momento em que se deu conta de que não estava sozinho no mundo ao se interessar por um homem: "Eu não era a aberração da humanidade. Existia um núcleo, mas era um núcleo tão escondido que eu teria que procurar quem era". Armando relembra como começava um namoro na penumbra do cinema:

Você encostava a perna no rapaz e sentia se ele queria. Bom, se encostou e ele não tirou, é porque não se sentiu incomodado. Mas houve uma época em que o lanterninha pegava você no flagra. Ele jogava a lanterna em cima de você e chamava a polícia.

Se as condições permitissem, os contatos sexuais anônimos podiam terminar em masturbação mútua, em sexo ou em um hotel barato fora do cinema, como revelou o historiador americano James Green.

O Rio de Janeiro desde os anos de 1950 passou a atrair homens (que gostavam de homens) vindos de outros estados do país onde se sentiam pressionados, ou ainda hostilizados, pela família e pela sociedade em que viviam. Mudar-se para a cidade maravilhosa significava "livrar-se da supervisão e do controle familiar e da pressão para o casamento e filhos". Além do já consagrado local do centro da cidade nos arredores da Lapa, da Cinelândia e da Praça Tiradentes, os anos 1968 viram o bairro de Copacabana como o lugar de vida noturna mais vibrante não somente para a classe média em geral, mas também para os homossexuais. Este ainda é o momento em que estabelecimentos começam a atrair um público majoritariamente gay sem serem hostilizados pelos empresários locais. Algumas casas noturnas, como o Alfredão, o Alcatraz e o Stop, passaram a abrigar uma clientela composta por rapazes homossexuais. Entretanto, o grande charme de Copa era o mar e o desfile dos corpos seminus, que podiam ser observados sem pudor algum. E, em frente ao luxuoso hotel Copacabana Palace, local reservado ao jet set nacional e internacional, as bichas, como já eram chamadas desde os anos de 1930, fizeram do espaço o seu "posto", que passou a ser conhecido como a Bolsa de Valores: "lugar onde você pode mostrar-se aos holofotes e virar notícia tinha data e local marcado. O concurso de Miss Brasil era ponto de "bonecas", como também eram chamados os homossexuais mais afeminados, do Rio de Janeiro, como apresentou uma reportagem da revista Realidade:

Às oito da noite, 40 mil pessoas já estão no Marcanãzinho lotado, pois nada mais importante existe para elas que um concurso de Miss Brasil. O ginásio está explodindo em gritaria e aplausos, a cada "miss" que dá a paradinha, o rodopio e manda dois beijos para o público. De repente a polícia resolve entrar na "passarela". As "misses" assustadas saem correndo e dando gritinhos desesperados. Levantadas no ar, indefesas, pequeninhas diante do tamanho dos guardas. são levadas para algum canto misterioso. É o fim tradicional do desfile dos bonecas, ou transviados sexuais, que todo ano, em algum pedaço vazio da arquibancada, precede o desfile de verdade.

Entretanto, boa parte dos homossexuais se resignava a um universo privado, pessoal, muitas vezes relutando contra suas próprias vontades em nome do preconceito que lhes atingia. Mesmo nos círculos mais "avançados", como as organizações de esquerda que resistiram à ditadura militar, o homossexualismo era visto com muita reserva. Herbert Daniel, militante de organizações guerrilheiras, como a Polop (Política Operária) e a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), foi um desses que, em nome da aceitação no grupo e das práticas revolucionárias, negou sua sexualidade durante anos. Em seu livro, Meu corpo daria um romance, Herbert desabafa sua vida duplamente clandestina:

Quis extirpar o sexo antigo. Aos poucos, adotei um sexo futuro. novo, que naquele instante se tornava pura abstinência. A última vez que trepei com alguém deve ter sido em meados de 67. Abstinente passei toda a clandestinidade. Sete anos. (Não posso deixar de escrever o prometido elogio à punheta, senão dificilmente poderei fazer alguém compreender a minha clandestinidade. Porque creio que se tivesse apagado meu sexo nunca teria acreditado na militância. Um militante sem sexo é um totalitário perigoso. Um punheteiro é apenas um confuso ingênuo e esperançoso.)

As noites solitárias foram o preço a ser pago em nome de um "ideal" cujo "ideal de homem" era o guerrilheiro, viril e másculo. Os revolucionários dos anos 1968 carregavam muito do traço mais tradicional da cultura patriarcal desde a época colonial: a supremacia masculina. Nesta hegemonia, o importante era parecer "macho", mesmo não sendo.

James Green indicou que muitos homossexuais saíam em busca de homens "verdadeiros": uma reversão dos papéis tradicionais onde o sujeito "passivo" torna-se ativamente aquele que procura uma relação sexual. Segundo o brasilianista, essa dinâmica sexual, na qual o homossexual tinha de tomar a iniciativa, contribuiu para a formação de uma identidade imbuída de autoconfiança e que se contrapunha aos estereótipos sociais do bicha patético e passivo. É interessante ressaltar, com essa constatação. o quanto dos valores viris também foram apregoados por homossexuais. Uma reversão do entendimento, que vem desde o início da era cristã, de que o homem homossexual não era viril (lembrando que as relações homoeróticas entre gregos e romanos eram entendidas sobretudo como viris, expressando a potência masculina em detrimento do elemento feminino). Esta autoridade de si, juntamente com a evolução política dos anos 1968, permitiu o questionamento dos papéis sociais e sexuais rígidos assumidos pelas "bonecas", ou seja, de que para ser homossexual era preciso necessariamente ser efeminado. Certamente esses fatores contribuíram para formação de uma consciência que em fins dos anos 1970 passou a ser expressa pelo movimento gay no Brasil.

Angélica Müller. Não se nasce viril, torna-se: juventude e virilidade nos "anos 1968". In: PRIORE, Mary del; AMANTINO, Marcia. (Orgs.). História dos homens no Brasil. São Paulo: UNESP, 2013. p. 319-323.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A política de "tolerância zero": a dureza impiedosa

Texto 1
As coisas começaram assim: primeiro foram os deficientes mentais, depois os mendigos, comunistas, judeus, ciganos... e terminaram com o horror, com o extermínio de milhões de pessoas. O objetivo era de limpar a nação dos párias, dos improdutivos, dos oposicionistas e construir um povo superior, etnicamente puro, bonito, inteligente, trabalhador e que governaria o mundo por mil anos. [...]

O tempo passou, o monstro aparentemente foi morto, mas o seu espírito sobreviveu. Nos tempos modernos, a "dureza impiedosa" passou a chamar-se "tolerância zero" (tolerance zero), versão moderna da mesma política adaptada à cidade de Nova York pelo prefeito Rodolph Giuliani, que, ampliando o espectro do totalitarismo, incluiu os vendedores de cachorro-quente e pipoca, os artistas de parques e os pedestres infratores de trânsito. E, por ser tão importante, a cidade passou a ser referência para vários lugares do mundo, alguns discretos como a nossa pequena Florianópolis, a sua Praça 15 e suas ruas do centro. Da praça foram-se os artesãos, os punks, os hippies, os pobres, as prostitutas do caramanchão, os músicos populares, os religiosos, as ciganas que liam as mãos e os que protestavam contra essa política. Alguns sumiram, ninguém sabe dos seus paradeiros. Nada informam. Reina, agora, o medo.

Os que hoje sentem vergonha da "dureza impiedosa" lamentam não ter feito nada contra tudo aquilo quando ainda havia tempo. E hoje os que se calam e aceitam a "tolerância zero" com certeza amanhã farão o mesmo. (PAVESE, Júlio. A dureza impiedosa. Caros Amigos.)

Diálogo entre neonazistas e antifascistas, Bélgica. 
Foto: Dereckson

Texto 2
[...] Nos anos 90, a ocorrência de mudanças profundas na estrutura e composição do capital produtivo, a abertura da economia, as privatizações e a política de juros altos têm gerado a dispensa em massa de trabalhadores.

O desemprego, a precarização das condições de trabalho, a expansão do trabalho informal atingem a cifra de milhões de trabalhadores. Muitos encontram respostas simplistas para problemas complexos como estes, e enxergam em alguns grupos sociais a responsabilidade pela situação vigente. Identificar a culpa em negros, nordestinos, homossexuais, judeus, entre outros, é como achar que o Sol gira em torno da Terra, a partir de uma constatação superficial, além de carregada de preconceitos.

A gravidade é tão grande que, muita gente, das mais variadas condições sociais, defende ideias desse tipo, mesmo sem usar coturno, suspensório, calça camuflada. Não andam por aí de taco de beisebol na mão, nem tampouco de cabeça raspada. Mas se aproximam, no campo das ideias, dos princípios racistas e xenófobos que estes grupos professam e praticam. [...]

Vivemos um inconsciente coletivo, onde parcelas da sociedade não refletem sobre o que defendem, mas reproduzem com energia palavras e ideias desprovidas de conteúdo, validade científica e comprovadamente reprovadas pela história humana, como solução aos problemas contemporâneos.

[...]

No mundo, por vezes, vence a ilusão da hipocrisia. Tão importante quanto agir com rigor, no caso da condenação  pública destas pessoas, que se julgam os parâmetros do bom comportamento, é necessário estancar o crescimento, no seio da sociedade, de ideais desta natureza. A cumplicidade é tão ou mais violenta que a própria ação destes grupos. [...] (ALVES, Ricardo. Os carecas do ABC e do mundo. Correio da Cidadania.)

domingo, 6 de julho de 2014

Influência da América sobre a Europa

Da América chegaram à Europa diversas plantas novas, que deviam contribuir para transformar a civilização européia, o milho, a batata, o feijão, que, até meados do século XIX, foi o único legume que na Europa nunca sofreu os ataques de praga, pois sua larva não o acompanhara na travessia do Atlântico, o morando graúdo, o tomate, a quina, o amendoim, que se desenvolveu em seguida na África tropical, a coca e finalmente um narcótico leve, o tabaco. Já no século XVII, entre seus intoxicados, gozava o tabaco a fama de afastar as preocupações, de franquear os condutos e facilitar a circulação dos humores, de preservar dos resfriados, de desopilar o baço etc. Em muitos países era um monopólio do Estado e fonte de apreciável recurso fiscal.

Pipestone Quarries, Catlin

Sobretudo, a América alterou profundamente a vida européia com seus metais preciosos e sua repartição, por meio do grande comércio marítimo, entre as sociedades européias ainda apoiadas sobretudo na terra e na agricultura. [...] Lembremos simplesmente que, por sua influência sobre o movimento dos preços, os metais preciosos da América ritmavam toda a vida econômica, social, política e, por intermédio desta, toda a vida intelectual e religiosa da Europa nos séculos XVI e XVII. Toda a vida da Europa ficou em função da atividade das minas da América.

O conhecimento dos índios americanos apenas lentamente difundiu-se e influiu no pensamento. Tomemos o exemplo da França. Inicialmente, os homens do século XVI estavam mal informados a respeito das descobertas. Informações orais chegam com a volta das expedições. Apresentavam um caráter prático, acima de tudo, e não ultrapassavam o setor das cidades litorâneas. Para além recebiam-se apenas vagos rumores. Maior influência tiveram os índios que todos os capitães, nomeadamente, desde 1504, Jacques Cartier e Villegaignon, levaram consigo para provar a veracidade de seus relatos. Em 1550, na festa brasileira dada por ocasião da entrada de Henrique II em Ruão, figuravam 50 Tupinambás e 250 marinheiros capazes de representar o papel de selvagens. Em 1557, Henrique II distribuiu, aos grãos-senhores, indígenas enviados por Villegaignon. Em 1562, em Ruão, três Tupis-Guaranis foram presenteados a Carlos IX. Montaigne tentou conversar com eles por meio de um intérprete. Em 1564, quando da entrada do rei em Troyes, figuravam no desfile os representantes de diferentes nações selvagens. Muitos índios ficaram na França, integraram-se na civilização cristã pelo batismo, na sociedade mediante o casamento. O filho do Rei Arosca, o brasileiro Essonerico, fixou-se na Normandia, herdou o nome, títulos e parte dos bens de seu padrinho Binot Paulmier de Gonneville. Tais fatos provam a aptidão intelectual dos índios para assimilar a civilização européia e testemunham a favor da unidade da espécie humana e de seu futuro. Isto não significa que, se os índios viessem em grande número, a sociedade branca deixaria de ter reflexos de defesa contra estes concorrentes às herdeiras, às terras e títulos, e que esta mesma sociedade não segregasse as raças. De qualquer maneira, estes índios divulgavam certo conhecimento relativo à sua região de origem.

Narrativas de viagem aparecem a partir de 1515. Mas não permitem distinguir claramente que se tratava de um continente novo e as assertivas pareciam confirmar, para o leitor, as narrativas da Idade Média. Jacques Cartier, provavelmente, sem se dar conta disso, sugeriu a Donnacona as afirmativas deste sobre as pessoas que não comem, só têm uma perna e voam de árvore em árvore. Em 1575, o cosmógrafo Thevet declarava que, na América do Sul, havia homens que atingiam 12 a 15 pés de altura. Descrevia, baseado nos companheiros de Magalhães, um animal com cara de criança que apenas se alimentava de vento. E chegava a afirmar ter possuído um destes animais, durante um mês. Tais relatos não exerceram qualquer influência sobre os escritores. O público preferia as lendas medievais ou as descrições do Império Turco e das Índias Orientais. Publicou-se o dobro das obras e dez vezes mais brochuras sobre os turcos, que então ameaçavam a Europa e a cristandade, do que sobre a América.

Os franceses interessaram-se mais pela América quando os projetos de Coligny a fizeram entrar nas lutas religiosas. Mas procuravam nela menos conhecimentos do que material para polêmica e continuaram a interessar-se ainda mais pelo Império Turco e pela Ásia. Entre 1580 e 1609, editam-se 80 brochuras sobre os turcos, 100 sobre os demais asiáticos e 40 sobre a América. Não obstante, as cartas de Nicolas Barre, companheiro de Villegaignon (1556), as obras do franciscano André Thevet (1557-1584), a Viagem, publicada em 1578, do pastor Jean de Léry, que se demorou dez meses na Ilha dos Franceses em 1557-1558, vulgarizaram as informações dadas pelos intérpretes, 20 a 25 franceses que haviam adotado os costumes indígenas e os apresentavam de maneira favorável. Obnubilados pela lenda da idade do ouro, desejosos de dar uma lição a seus compatriotas considerados maus cristãos, os humanistas buscaram nestes escritos, nos de Las Casas e de sua progenitura espiritual, nas conversas, falseadas pelos intérpretes, que puderam manter com os índios levados à França, os elementos da lenda do “bom selvagem”.

Montaigne é o mais notável desses autores. No capítulo “Do Costume”, utiliza os selvagens para mostrar as contradições humanas, escarnecer da família, da propriedade e da religião, declarar os costumes e a moral como outros tantos preconceitos. Recusa-se a ver que não existem contradições, mas simplesmente reações naturais a situações diferentes.

No “Dos Canibais”, declara a sociedade selvagem como a mais pura, por haver permanecido mais próxima das leis naturais. Escreve que os índios não se servem de vinho, que não praticam o comércio, que são dados ao ócio, que dançam para se distrair, que suas guerras são desinteressadas e empreendidas com o objetivo de conquistar glória. Esquece, é claro, sua tendência à embriaguez, sua sodomia, é indulgente para com seus incestos e desculpa sua antropofagia institucional, sob o fundamento de que os europeus, levados pela paixão, chegaram a queimar vivos os seus inimigos. Para ele, os selvagens deveriam servir-nos de modelos: nós é que somos os bárbaros.

O “bom selvagem”, este personagem mítico, que vive em liberdade, seguindo sua natureza, guiado por seu prazer, ocioso, despreocupado inocente, sem malícia, sem propriedade, sem governo, alegre, feliz, estava destinado a uma espantosa fortuna. Caber-lhe-ia abrir caminho para os libertinos Pierre Charron, La Mothe Le Vayer, contribuir para o abalo dos espíritos e para a crise do século XVII, inspirar em seguida os “filósofos” e os anticolonialistas do século XVIII, para triunfar com Jean-Jacques Rousseau. A corrente de ideias provenientes da América contribuiria para orientar a civilização européia, movida pelo ouro e pela prata americanos.


MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII: a Europa e o mundo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 141-144. (História geral das civilizações, v. 10)

NOTA: O texto "Influência da América sobre a Europa" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

El Diablo es indio

The Moose Chase, George de Forest Brush

Los conquistadores confirmaron que Satán, expulsado de Europa, habia encontrado refugio en las islas y las orillas del mar Caribe, besadas por su boca llameante.

Allí habitaban seres bestiales que llamaban juego al pecado carnal y lo practicaban sin horario ni contrato, ignoraban los diez mandamientos y los siete sacramentos y los siete pecados capitales, andaban en cueros y tenian la costumbre de comerse entre si.

La conquista de América fue una larga y dura tarea de exorcismo. Tan arraigado estaba el Maligno en estas tierras, que cuando parecia que los indios se arrodilaban devotamente ante la Virgen, estaban en realidad adorando a la serpiente que ella aplastaba bajo el pie; y cuando bessaban la Cruz estaban celebrando el encuentro de la lluvia con la tierra.

Los conquistadores cumplieron la misión de devolver a Dios el oro, la plata y las otras muchas riquezas que el Diablo habia usurpado. No fue fácil recuperar el botin. Menos mal que, de vez en cuando, recibian alguna ayudita de allá arriba. Cuando el dueño del Inferno preparó de los españoles hacia el Cerro Rico de Potosí, un arcángel bajó de las alturas y le propinó tremenda paliza.

GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p.118-119.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

El Diablo es gitano

Dança cigana no jardim de Alcázar, Alfred Dehodencq

Hitler creia que la plaga gitana era uma amenaza, y no estaba solo.

Desde hace siglos, muchos han credo y siguen creyendo que esta raza de origen oscuro y oscuro color lleva el crimen en la sangre: siempre malditos, vagamundos sin más casa que el camino, violadores de doncellas y cerraduras, manos brujas para la baraja y el cuchillo.

En una sola noche de agosto de 1944, dos mil ochocientos noventa y siete gitanos, mujeres, niños, hombres, se hicieron humo en las câmaras de gas de Auschwitz.

Una cuarta parte de los gitanos de Europa fue aniquilada en esos años.

Por ellos, ¿ quién preguntó?

GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p.118.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

El Diablo es homosexual

O banho turco, Charles Demuth

En la Europa del Renacimiento, el fuego era el destino que merecian los hijos del inferno, que del fuego venian. Inglaterra castigaba con muerte horrorosa e quienes hubiesen tenido relaciones sexuales con animales, judios e personas de su mismo sexo.

Salvo en los reinos de los aztecas y de los incas, los homosexuales eran libres en América. El conquistador Vasco Nuñez de Balboa arrojó a los perros hambrientos a los indios que practicaban esta anormalidad con toda normalidad. Él creia que la homosexualidad era contagiosa. Cinco siglos después, escuché decir lo mismo al arzobispo de Montevideo.

El historiador Richard Nixon sabia que este vicio era fatal para la Civilización:

¿ Ustedes saben lo que pasó con los griegos? La homosexualidad los destrujó! Seguro. Aristóteles era homo. Todos los sabemos. Y también Sócrates. ¿ Y ustedes saben lo que pasó con los romanos? Los últimos seis emperadores eran maricones…

El civilizador Adolf Hitler habia tomado drásticas medidas para salvar a Alemania de este peligro. Los degenerados cukpables de aberrante delito contra la naturaleza fueron obligados a portar un triângulo rosado. ¿ Cuántos murieron en los campos de concentración? Nunca se supo.

En el año 2001, el gobierno alemán resolvió rectificar la exclusión de los homosexuales entre las víctimas del Holocausto. Más de medio siglo demoró en corregir la omisión.

GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p.117-118.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

El Diablo es extranjero

Imigração, Fabrício Dom

El culpómetro indica que el immigrante viene a robamos el empleo y el peligrosimetro lo señala con luz roja.

Si es pobre, joven y no es blanco, el intruso, el que vino de afuera, está condenado a primera vista por indigencia, inclinación al caos o portación de piel. Y en cualquer caso, si no es pobre, ni joven, ni oscuro, de todos modos merece la malvenida, porque llega dispuesto a trabajar el doble a cambio de la mitad.

El pánico a la pérdida del empleo es uno de los miedos más poderosos entre todos los miedos que nos gobiernan en estos tiempos del miedo, y el immigrante está situado siempre a mano a la hora de acusar a los responsables del desempleo, la caida del salario, la inseguridad pública y otras terribles desgracias.

Antes, Europa derramaba sobre el sur del mundo soldados, presos y campesinos muertos de hambre. Esos protagonistas de las aventuras coloniales han pasado a la historia como agentes viajeros de Dios. Era de Civilización lanzada al rescate de la barbarie.

Ahoram el viaje ocurre al revés. Los que llegan, o intentan llegar, desde el sur al nortem son protagonistas de las desventuras coloniales, que pasarán a la historia como mensajeros del Diablo. Es la barbarie lanzada al asalto de la Civilización.

GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p.116-117.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

El Diablo es pobre

Pena - as tristezas de um homem velho, Théodore Géricault

En las ciudades de nuestro tiempo, immensas cárceles que encierram a los prisioneros del miedo, las fortalezas dicen  ser casas y las armaduras simulan ser trajes.

Estado de sitio. No se distraiga, no baje la guardia, no se confie. Los amos del mundo dan la voz de alarma. Ellos, que impunemente violan la naturaleza, secuestran países, roban salarios y assesinan gentios, nos advierten: cuidado. Los peligrosos acechan, agazapados en los suburbios miserables, mordiendo envidias, tragando rencores.

Los pobres: los pelagatos, los muertos de las guerras, los presos de las cárceres, los brazos disponibles, los brazos desechables.

El hambre, que mata callando, mata a los callados. Los expertos, los pobrólogos, habian por ellos, Nos cuentan en qué no trabajanm qué no comen, cuánto no pesan, cuánto no miden, qué no tienen, qué no piensan, qué no votan, en qué no creen.

Sólo nos falta saber por qué los pobres son pobres. ¿ Será porque su hambre nos alimenta y su desnudez nos viste?

GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p. 116.

domingo, 20 de outubro de 2013

El Diablo es mujer

Mulheres protestando, Di Cavalcanti

El libro “Malleus Maleficarum”, también llamado “El martillo de las brujas”, recomendaba el más despiadado exorcismo contra el demonio que lleva tetas y pelo largo.

Dos inquisidores alemanes, Heinrich Kramer y Jacob Sprenger, escribieron, por encargo del papa Inocencio VIII, este fundamento jurídico y teológico de los tribunales de la Santa Inquisición.

Los autores demostraban que las brujas, harén de Satán, representaban a las mujeres en estado natural, porque toda brujeria proviene de la lujuria carnal, que en las mujeres es insaciable. Y advertían que esos seres de aspecto bello, contacto fétido y mortal compañía encantaban a los hombres y los atraían, silbidos de serpiente, colas de escorpión, para aniquilarios.

Este tratado de criminologia aconsejaba someter a tormento a todas las sospechosas de brujeria, Si confesaban, merecian el fuego. Se no confesaban, también, porque sólo una bruja, fortalecida por su amante el Diablo en los aquelarres, podia resistir semejante suplicio sin soltar la lengua.

El papa Honorio III habia sentenciado:

- Las mujeres no deben hablar. Sus labios llevan el estigma de Eva, que perdió a los hombres.

Ocho siglos después, la Iglesia Católica les sigue negando el púlpito.

El mismo pánico hace que los fundamentalistas musulmanes les mutilen el sexo y les tapen la cara.

Y al alivio por el peligro conjurado mueve a los judios muy ortodoxos a empezar el dia susumando:

- Gracias, Señor, por no haberme hecho mujer.


GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p.115-116

sábado, 19 de outubro de 2013

Estigmatizados e perseguidos pelos nazistas: ciganos, judeus, homossexuais, eslavos, comunistas...

Os condenados, Felix Nussbaum
 

Os ciganos, outro alvo do nazismo, por serem vistos como constituintes de uma raça bastarda, de marginais e parasitas, também foram estigmatizados, levando na roupa um triângulo negro com o objetivo de se fazerem reconhecidos. Em 1939 havia em torno de 750 mil ciganos na Europa; cerca de 260 mil deles foram exterminados durante a guerra. [...]

A implantação do processo de aborto e esterilização permitiu que os médicos ficassem mais acostumados a intervir no corpo humano, mas nem por isso as mortes eram menos comuns. Depois de experimentos químicos e com o uso de raios X, os métodos abortivos foram aprimorados; criou-se, por exemplo, a injeção uterina, que diminuía os riscos de hemorragia e evitava outras complicações. Experiências dessa natureza eram feitas em mulheres judias e ciganas até que fossem devidamente testados os mecanismos de contracepção e de eugenia. [...]

Fileiras de cadáveres no campo de concentração de Nordhausende, Alemanha, 1945

Para uma visão de mundo que considera o diferente uma anomalia, não era difícil classificar o homossexual como culpado e dispensar-lhe o mesmo tratamento dado aos outros grupos perseguidos. [...] Em 1940, Himmler radicalizaria seu discurso: "É preciso abater esta peste pela morte". Os homossexuais eram obrigados a usar um triângulo rosa que os distinguia, classificava, isolava, estigmatizava, tornando-os presa fácil do racismo que crescia a cada dia.

Os eslavos, por sua vez, também eram vistos como subumanos pelos nazistas. Entre eles, os poloneses sofreram particularmente. As elites foram neutralizadas; a população, subjugada. Na verdade, durante todo o século XIX, a Polônia permaneceu dividida entre as grandes potências da região (Áustria, Rússia e Prússia), o que muito deve ter colaborado para a formação de um conceito depreciativo desse povo por parte dos nazistas. Provavelmente a fragilidade tão à mostra desse país muito contribuiu para que os nazistas, cujo pensamento considera as mudanças e os acasos da história como incompetência de sujeitos sociais incapazes de serem vencedores, formassem um conceito extremamente negativo dos poloneses. Hitler e seus seguidores tinham uma repulsa doentia pelo que consideravam fraqueza nas pessoas, grupos ou povos - "fraqueza" que, na realidade, é apenas sinal de vida. [...]

Os soviéticos sofriam duplo preconceito, por serem eslavos e por serem comunistas. Em relação a eles também o objetivo era a destruição completa. A invasão da União Soviética pela Alemanha, em junho de 1941, reforçou a arrogância dos alemães, e o massacre impetrado a civis e militares deu-lhes a ilusão de que o objetivo seria atingido. Entre 1941 e 1945, 60% dos 5 milhões e 700 mil prisioneiros de guerra soviéticos foram mortos pelos alemães. [...]

Os campos de concentração e extermínio, locais onde se eliminavam os que eram considerados dissonantes do todo homogêneo e coerente imaginado pelos nazistas, foram a materialização perfeita da visão de mundo totalitária. Ali a humanidade seria depurada, e a produção da morte em massa possibilitaria a emergência de uma nova raça, idêntica a si mesma, ou seja, mais "pura" e pronta para o domínio universal. Nos campos estava condensada a essência do regime nazista.

CAPELATO, Maria Helena; D'ALESSIO, Márcia Mansor. Nazismo: política, cultura e holocausto. São Paulo: Atual, 2004. p. 32, 92-95. (Coleção Discutindo a história)

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

El Diablo es negro

Crianças negras, Emmanuel Zamor

Como la noche, como el pecado, el negro es enemigo de la luz y de la inocencia.

En su célebre libro de viajes, Marco Polo evocó a los habitantes de Zanzibar: Tenian boca muy grande, labios muy gruesos y nariz como de mono. Iban desnudos y eran totalmente negros, de modo que quien los viere en cualquier otra región del mundo creeria que eran diablos.

Tres siglos después, en España, Lucifer, pintado de negro, entrada en carro de fuego a los corrales de comedias y a los tablados de las ferias. Santa Teresa nunca pudo sacárselo de encima. Una vez se le paró al lado, y era un negrillo muy abominable. Y otra vez ella vio que le salia una gran llama roja del cuerpo negro, cuando se sentó encima de su libro de oraciones y le queimó los rezos.

En América, que habla importado millones de esclavos, se sabia que era Satán quien sonaba tambores en las plantaciones, llamando a la desobediencia, y metia música y memeos y tembladeras en los cuerpos de sua hijos nacidos para pecar. Y hasta Martin Fierro, gaucho pobre y castigado, se sentia bien comparándose con los negros, que estaban más jodidos que él:

- A éstos los hizo el Diablo – decia – para tizón del inferno.


GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p.114-115

El Diablo es judío

Gassing, David Olère

Hitler no inventó nada. Desde hace dos mil años, los judíos son los imperdonables asesinos de Jesús y los culpables de todas las culpas.

¿Cómo? ¿Qué Jesús era judío? ¿Y judíos eran también los doce apóstoles y los cuatro evangelistas? ¿Cómo dice? No puede ser. Las verdades reveladas están más aliá de la duda: en las sinagogas el Diablo dicta clase, y los judíos se dedican desde siempre a profanar hostias, a envenenar aguas benditas, a provocar bancarrotas y a sembrar pestes.

Inglaterra los expulsó, sin dejar ni uno, en el año 1290, pero eso no impidió que Marlowe y Shakespeare, que quizá no habian visto un judío en su vida, crearan personajes obedientes a la caricatura del parásito chupasangre y el avaro usurero.

Acusados de servir al Maligno, estos malditos anduvieron los siglos de expulsión en expulsión y de matanza en matanza. Después de Inglaterra, fueron sucesivamente echados de Francia, Austria, España, Portugal y numerosas ciudades suizas, alemanas y italianas. En España habian vivido durante trece siglos. Se llevaron las llaves de sus casas. Hay quienes las tienen todavía.

La colosal carnicería organizada por Hitler culminó una larga historia.

La caza de judíos ha sido siempre un deporte europeo.

Ahora los palestinos, que jamás lo practicaron, pagan la cuenta.


GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p.114.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

El Diablo es musulmán

Derviches, Jean-León Jérôme

Ya el Dante sabia que Mahoma era terrorista, Por algo to ubicó em uno de los circulos del Inferno, condenado a pena de taladro perpetuo: Lo vi rajado, celebro el poeta en “La divina comedia”, desde la barba hasta la parte inferior del vientre...

Mas de un Papa habia comprobado que las hordas musulmanas, que atormentaban a la Cristiandad, no estaban formadas por seres de carne y hueso, sino que eran um gran ejército de demônios que más crecia cuanto más sufria los golpes de las lanzas, las espadas y los arcabuces.

Allá el año 1564, el demonólogo Johann Wier habia contado los diablos que estaban trabajando em la tierra, a tiempo completo, por la perdición de las almas cristianas. Habia siete miliones cuatrocientos nueve mil ciento veintisiete, que actuaban divididos em setenta y nueve legiones.

Muchas águas hirvientes han pasado, desde aquel censo, bajo los puentes del inferno. ¿Cuántos suman, hoy dia, los enviados del reino de las tinieblas? Las artes de teatro dificultan el conteo. Estos engañeros  siguen usando turbantes, para ocultar sus cuernos, y largas túnicas tapan sus dolas de dragón, sus alas de murciélago y la bomba que llevan bajo el brazo.


GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p. 113-114.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

A América Latina no século XIX: o fenômeno do caudilhismo

Autorretrato na fronteira entre México e Estados Unidos, Frida Kahlo. 

Em meados do século XIX, México e Estados Unidos travaram uma guerra que deve ser analisada no contexto da expansão territorial norte-americana. Como resultado da derrota, o México perdeu mais da metade de seu território original. A pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1954), na obra intitulada Autorretrato na fronteira entre México e Estados Unidos, de 1932, representa a si própria com um vestido colonial e usando colar, que faz referência a um dos deuses da cultura asteca. Há uma grande quantidade de justaposições entre sua roupa, seus adereços e a bandeira de parada cívica do México, que se contrapõem a inúmeros símbolos da moderna cultura norte-americana, representada pelos maquinários e a poluição de uma era industrial. Estes estabelecem para o observador uma ambiguidade quando colocados ao lado de símbolos da cultura asteca, como uma pirâmide e outros ligados à terra e à cultura camponesa. Como bem observou Andrea Kettenmann, "o mundo mexicano é pintado com cores naturais e quentes da terra; nascem flores e mesmo os produtos das esculturas feitas pelos homens e as pirâmides são construídas com materiais naturais. As nuvens do céu mexicano têm o seu correspondente na fumaça que sai das chaminés das fábricas da Ford, enquanto a rica flora, à esquerda, dá lugar a vários itens de equipamento elétrico, à direita em que cabos rasteiros se transformam em raízes, através das quais a energia do chão é sugada. Há o contraste entre a paisagem do antigo México, dominada pelas forças da natureza e pelo ciclo natural da vida, e, do outro, a paisagem morta norte-americana, dominada pela tecnologia". (KETTENMANN, Andrea. Frida Kahlo. 1907-1954. Dor e paixão. Lisboa: Paisagem, 2003. p. 33;)

Diferentemente do que ocorreu no Brasil, país no qual se manteve a unidade territorial construída no contexto da colonização portuguesa, implementou-se a Monarquia e viveu-se uma experiência parlamentarista, o processo histórico do restante da América Latina ao longo do século XIX foi bastante diferente.

Examinar a história da América Latina ao longo do século XIX significa compreender que os movimentos de independência não provocaram profundas transformações na estrutura socioeconômica. Ao contrário, uma das características marcantes da fase que se seguiu à dos movimentos de independência foi a conservação dessa estrutura, isto é, a chamada "herança colonial".

No contexto da organização dos Estados latino-americanos, o ideário liberal, pelo menos em tese, esteve presente. A tradição autoritária e a mais absoluta hegemonia socioeconômica das antigas elites criollas dificultaram a aplicação prática dos princípios liberais.

Assim, na elaboração de suas respectivas constituições, puderam ser identificados os princípios do liberalismo (liberdade, igualdade e divisão de poderes), assim como os conceitos de República e de federalismo (segundo o modelo da Constituição dos Estados Unidos).

No entanto, tanto o modelo federativo quanto a ideia de res publica (coisa pública), assim como os princípios liberais, de uma maneira geral, encontraram sérios limites - também no Brasil - que inviabilizaram sua real aplicação.

O modelo federativo, por exemplo, aplicado à realidade da América Latina, se revelou inadequado, devido, em parte, à falta de tradição de autonomia dos governos locais, secularmente submetidos à Coroa espanhola. Ao federalismo se opôs o unitarismo (centralização), mais associado à cultura política das lideranças latino-americanas.

A exclusão política das camadas populares, resultante da adoção do voto censitário - inspirado nas Constituições liberais de países europeus e dos Estados Unidos -, contribuiu para que o poder político ficasse concentrado nas mãos dos grandes proprietários de terra, núcleo original das oligarquias, predominantemente agrárias, que exerceram, de fato, a hegemonia política ao longo do século XIX e até mesmo em boa parte do século XX. À exclusão política das camadas populares - negros, índios e mestiços - somou-se o preconceito e a discriminação em relação a elas, reforçados por critérios étnicos ("povos de cor") mantidos e legitimados pelas elites "brancas", que se orgulhavam da "pureza do sangue" e de suas origens europeias.

Largo do paço, Rio de Janeiro, Luigi Stallone. A cidade do Rio de Janeiro, capital do Império, no contexto da modernização latino-americana do século XIX, tornou-se um "palco de contrastes": se, por um lado, as ferrovias já se impunham, assim como os bondes utilizados no transporte urbano e a iluminação pública, por outro, graves problemas de saneamento ainda persistiam a ponto de a cidade ser evitada, quando possível, por europeus que visitavam a América do Sul. Nesta pintura, pode-se ver o Largo do Paço, onde localizava-se o Palácio Imperial.

A vida política dos países latino-americanos durante o século XIX foi marcada pela instabilidade política, pela submissão das massas e pelo predomínio das oligarquias rurais.

Diante da ausência de um poder político institucionalizado, no contexto dos movimentos de independência, surgiram os caudilhos, chefes locais que, à frente de exércitos particulares, foram responsáveis por uma tradição militarista que se manteve durante o século XIX, de forma predominante. Os caudilhos vincularam-se aos interesses das oligarquias agrárias e mesmo do capital estrangeiro, pois contribuíram para a perpetuação de uma ordem econômica que, em última instância, vinha ao encontro dos interesses desse capital.

O fenômeno político do caudilhismo foi, portanto, característico da América hispânica ao longo do século XIX e teve suas origens nas dificuldades decorrentes do processo de consolidação de Estados Nacionais unificados com forte poder central.

Assim, ao poder econômico os caudilhos somaram, por seu prestígio militar regional, o poder político.

Contribuíram, dessa forma, para que o militarismo, a instabilidade política, o desrespeito à ordem constitucional, a tradição autoritária, os sucessivos golpes militares (pronunciamentos), a desarticulação da sociedade civil e, por conseguinte, a fragilização da própria democracia e da noção de cidadania fossem uma constante na história da América hispânica.

BERUTTI, Flávio. Caminhos do homem. Curitiba: Base Editorial, 2010. p. 225-228.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

O caminho em direção à igualdade

Marcha do Dia da Consciência Negra

"[...] multiplicam-se as denúncias de trabalho escravo no Brasil e os criminosos permanecem impunes. As autoridades limitam-se a libertar os trabalhadores escravos, dentre os quais encontram-se até crianças.

Será que, neste novo milênio, a sociedade brasileira continuará marcada por tantas permanências coloniais?

Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó.
(O mundo é um moinho, samba de Cartola)

Será que o mundo persistirá reduzindo a pó o sonho de liberdade dos negros?” AQUINO, R. S. L. et alli. Sociedade brasileira: uma história através dos movimentos sociais. Rio de Janeiro: Record, 2011; p. 49.


[...] Depois do fim da escravidão as elites brasileiras buscaram eliminar nossos laços com as culturas africanas e os sinais da presença dos afrodescendentes entre nós, sonhando com o branqueamento da população. Este seria conseguido com a chegada de grande quantidade de imigrantes europeus, enquanto os negros desapareceriam não só pela miscigenação como pelos altos índices de mortalidade que atingiam as populações mais pobres.

Essa posição brasileira era radicalmente diferente da norte-americana, na qual os preconceitos contra os afrodescendentes resultaram na segregação total entre brancos e negros. A mestiçagem lá era recriminada e o mestiço era considerado negro. Já no Brasil, ele ia ficando cada vez mais branco, o que, pensavam os poderosos, resultaria numa sociedade branca. A força do pensamento dominante fazia com que os afrodescendentes se sentissem inferiorizados devido às suas origens africanas, buscando escondê-las com o abandono de suas tradições (pelo menos entre os mais instruídos) e com a preferência por casamentos inter-raciais que produzissem filhos de pele mais clara, cabelo mais liso, lábios e nariz mais finos. Assim, se aceitávamos e mesmo estimulávamos a mestiçagem, não era por falta de preconceitos, e sim porque queríamos apagar os traços africanos de nossa população. Da mesma forma, buscava-se um distanciamento cada vez maior da África, considerada terra de povos atrasados, incapazes de construir civilizações evoluídas.

O branqueamento, porém, não aconteceu. Como todos sabemos, os brasileiros, mesmo quando são negros ou mestiços, são bastante morenos se tomarmos os europeus e norte-americanos brancos como referência. Apesar da miscigenação que tornou até mesmo a elite mais morena, a maioria dos negros e mestiços foi mantida nos segmentos mais desfavorecidos da população, não só pela precariedade das oportunidades oferecidas para a sua educação e aprimoramento profissional como também pela preferência por pessoas de pele mais clara para ocupar os melhores cargos no mercado de trabalho. [...]

[...] No que diz respeito à África, especificamente, o desenvolvimento dos estudos sobre as suas sociedades, do presente e do passado, mostrou a sua complexidade, no caso dos grandes reinos e impérios, e a sua eficácia, no caso das sociedades descentralizadas, organizadas a partir de aldeias, com formas de estruturação mais comunitárias. [...]

Todas essas mudanças na maneira de ver o mundo, as sociedades e as pessoas, que não eram mais hierarquizadas a partir das suas características biológicas, fortaleceram um movimento de afirmação da negritude e de valorização das coisas africanas, do qual participaram os países que no passado estiveram envolvidos com a escravidão e o tráfico de escravos - razão do transporte de mais de 10 milhões de pessoas da África para as Américas. [...]

Tomando consciência disso, e conhecendo melhor a história e as sociedades africanas, os afrodescendentes passaram, pouco a pouco, a valorizar seus traços distintivos, suas culturas ancestrais, sua contribuição à formação da sociedade brasileira, mudando sua posição de uma vontade de se tornar igual ao branco para uma valorização de suas tradições, estéticas, sensibilidades e aparências. O sentimento de inferioridade criado pela situação anterior deu lugar ao orgulho de ser negro, que será um dos pilares da construção de um novo lugar do afrobrasileiro no conjunto da sociedade.

Isso, porém, não é suficiente. Relações sociais construídas ao longo de mais de trezentos anos não são alteradas de uma hora para outra. Preconceitos profundamente arraigados não são derrubados só com doses de boa vontade. A elite branca não abrirá mão de sua posição privilegiada por livre e espontânea vontade. Para ajudar as transformações, além das mudanças de comportamento e sensibilidade, são fundamentais as alterações na legislação que ordena a sociedade e as relações entre os homens. E isso também vem acontecendo, principalmente a partir dos anos 1990, quando as discussões relativas à reserva de vagas nas empresas e nas universidades para afrodescendentes começaram a virar realidade na forma de leis. Mesmo com sua implantação dificultada por uma série de variáveis e incertezas acerca da pertinência ou não de tais medidas legais, aos poucos as coisas vão mudando, inclusive no plano das sensibilidades.

As ações afirmativas,  como são chamadas essas reservas de vagas em empresas e universidades, certamente têm vários problemas, sendo um dos principais o estabelecimento de critérios de quem estará apto a pleiteá-las numa sociedade mestiça, portanto com os limites entre o branco e o negro extremamente difíceis de serem estabelecidos. Além disso, é evidente que com essa medida não se enfrenta o problema da deficiência da educação fundamental nas escolas públicas, onde estudam as parcelas mais pobres da população, que também são as mais negras e mestiças. Com pior formação escolar, esses estudantes não conseguem competir em pé de igualdade pelas vagas nas universidades públicas com aqueles formados em escolas particulares. Mas, apesar dos problemas, de algum lugar temos de partir, e a garantia de acesso a posições às quais os afrodescendentes estiveram sistematicamente excluídos é uma conquista de condições mais igualitárias para o desenvolvimento de todas as pessoas, independentemente das origens étnicas ou sociais. 

[...]

Ao mudarmos a maneira como nos aproximamos desses temas e percebemos a importância dos africanos e afrodescendentes para a nossa formação, assim como o valor das sociedades africanas, que têm muito a contribuir para a história da humanidade como um todo, estaremos caminhando para o fortalecimento da autoestima de todos os afrobrasileiros e dos brasileiros em geral. Ao superar o sentimento de inferioridade os negros terão mais força para impor o respeito aos seus direitos. Ao percebermos o valor da contribuição africana, teremos mais orgulho do que somos: povo mestiço, no qual a convivência dos diferentes criou a originalidade que nos caracteriza, e que nos faz admirados pelos povos que só agora passam a lutar com a intensificação da mestiçagem. No mundo contemporâneo, cada vez mais mestiço, o Brasil poderá ser um exemplo a ser seguido, dependendo de como lidarmos com a diversidade de nossa população.

SOUZA, Marina de Mello e. África e Brasil africano. São Paulo: Ática, 2007. p. 140, 142-145.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A Revolta da Chibata

Em 1907 as epidemias tinham diminuído bastante na capital e em São Paulo. Oswaldo Cruz agora era elogiado: "Messias da Higiene", "Mestre Oswaldo"... Mas a sociedade brasileira do início do século XX continuava com uma grave doença: o racismo, a discriminação contra os negros. A abolição da escravidão não aboliu a ideia de que o negro era um ser inferior.

Nas Forças Armadas os pretos podiam entrar, mas os preconceitos também existiam. Principalmente na Marinha, que tinha a tradição de ser uma força de elite, dirigida por estrangeiros ou descendentes de estrangeiros. Foi justamente lá que os marinheiros negros resolvera dar um basta.

Num certo dia de 1910 a tripulação do encouraçado Minas Gerais assistiu a uma cena horrível: o marujo Marcelino foi castigado com 250 chibatadas, ficando com as costas em carne viva. A corda de linho molhado, com agulhas de aço, arrancou sangue e gritos da vítima.

Na noite do dia 22 de novembro daquele mesmo ano o presidente da República, Hermes da Fonseca, assistia a uma ópera de Wagner. Ela foi porém interrompida pelo barulho de bombardeios. Começava na baía de Guanabara a Revolta da Chibata.

Marinheiros revoltosos em 1910. João Cândido ao centro.

Dois mil marujos tinham-se amotinado. Mataram quatro oficiais e, com manobras que deixaram admirado um almirante inglês, levaram sete navios para fora da barra. João Cândido, o líder do movimento, apelidado por um jornalista de "Almirante Negro", definiu a posição dos companheiros de Marcelino:

- O governo tem que acabar com os castigos corporais, melhorar nossa comida e dar anistia para todos os revoltosos. Se não a gente bombardeia a cidade, dentro de 12 horas.

Não foi necessário. O governo, pego de surpresa, aceitou as exigências. Alegres e acreditando nas autoridades, a marujada depôs as armas, devolveu as belonaves, mas caiu na armadilha dos poderosos. O governo que havia concedido anistia aos revoltosos, logo voltou atrás. Sem maiores explicações, expulsou os marinheiros que considerava indesejáveis e prendeu os líderes do movimento. Isso provocou um novo levante, desta vez no Batalhão dos Fuzileiros Navais da Ilha das Cobras. A repressão foi violenta, como contou a revista A Careta anos depois,

Foi lá na ía das Cobras
Que se deu o sucedido:
Pegaro uns preso e meteram
Num baraco bem cumprido
E os sujeitos lá ficaram
Sufocado e espremido
Se sarvaram quatro ou cinco
Os de forgo mais cumprido
Mas pra esses assim mesmo
(Veja só que malvadez)
Puseram cal no buraco
Pra matá eles de vez
Mas os bichos resistiram
À tortura do xadrez
Vieram contá cá pra fora
O que o governo lhes fez

Na noite de Natal de 1910, quase cem marinheiros foram embarcados à força num navio, para serem levados à Amazônia. Lá, eles teriam que trabalhar nos seringais, de três da manhã às sete da noite. Nem todos chegaram ao fim da viagem: um motim frustrado levou sete deles ao fuzilamento, enquanto dois outros se jogaram no mar.

Manchete do jornal Correio da Manhã (27-11-1910)  sobre o fim da Revolta da Chibata 

Episódios como a Revolta da Chibata e da Vacina, massacres como o de Canudos, Contestado e Caldeirão não eram uma novidade na nossa história. Apesar de a Monarquia ter sido substituída pela República, a sociedade brasileira continuava muito dividida e desigual. A grande maioria do povo vivia mal e queria por isso mudar sua situação. Rebeldes como Lampião, Antônio Conselheiro, o Monge José Maria, o Beato Lourenço, Pata-Preta e João Cândido eram exemplos de que havia muita gente revoltada com as coisas erradas no Brasil.

RIBEIRO, Marcus Venício; ALENCAR, Chico. Brasil vivo 2: A República. Petrópolis: Vozes, 1991. p. 43-44.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Raça e escravidão: do Neolítico ao século XX

Menino escravo em Zanzibar. 
Ca. 1890. Fotógrafo desconhecido

Uma das justificativas mais antigas e mais persistentes da desigualdade é a que se baseia em diferenças físicas entre diversos grupos humanos. De acordo com isso, há homens superiores e homens inferiores, a superioridade de uns justificando que os outros sejam subordinados e utilizados - explorados - como animais. Cada grupo humano tende a identificar-se como o melhor e a supor que os outros são inferiores: são os "bárbaros", uma onomatopéia que indica que falam com dificuldade, ou os "mudos", os que não sabem falar (ou que não falam em "cristão"). Daqui, pode-se deduzir que o bárbaro é um tipo de animal diferente, sendo lícito tratá-lo como uma besta.

A forma mais elementar de analisar as diferenças físicas se baseia na pigmentação da pele, que é o mais fácil de se observar. Por esta razão, as "raças" tradicionais eram identificadas por cores. Seus membros eram brancos, negros, amarelos, peles vermelhas ou mais ou menos obscuros (as cores das argolas olímpicas respondem, em alguma medida, a esta tipologia, estabelecendo uma caracterização "racial" dos cinco continentes tradicionais). Porém, a verdade é que as cores da pele são pouco definidas e que, entre o "branco", que é bastante discutível que seja branco e o "negro", que por vezes é muito negro, há muitos matizes e variações que tornam praticamente impossível dizer onde acaba um e começa o outro. E mais, a percepção da cor é também "histórica": os viajantes europeus consideravam brancos tanto os habitantes da China como os do Japão até o século XVIII. Foi, então, no momento em que nasceu o mito do atraso oriental, que se passou a considerá-los "amarelos". Porém, são mais amarelos que uma grande porcentagem dos europeus?


Um mercado de escravos em Roma
Jean-León Jérôme

A pigmentação dos homens que vivem nas zonas equatoriais é mais escura porque estes têm uma pele que resiste melhor às queimaduras, provocadas pela intensa exposição ao sol. Esta resistência é adquirida graças à melanina (nós mesmos, "brancos", nos "escurecemos" quando, no verão, nossa pele se expõe ao sol). O negro resiste muito melhor à insolação das zonas em que vive e sua pele escura é uma característica positiva. As pessoas de pele muito "branca", que frequentemente têm os cabelos loiros, padecem quando se expõem ao sol e têm menor capacidade visual na escuridão. Não parece, pois, que isto seja uma amostra de superioridade, mas o contrário. Porém, não impede que o preconceito faça que a palavra "fair" signifique além de "ruivo" - que não é uma cor, mas a ausência de cor nos cabelos -, "belo, de forma ou aparência agradável, elegante, atrativo, justo, impecável etc." Afora isto, convém recordar o fato perturbador de que [...] os estudos sobre as origens do homem, baseados na genética, mostram que todos somos descendentes de algumas primeiras mulheres africanas, previsivelmente negras.

As tentativas de legitimar a superioridade racial levaram a buscar outros argumentos baseados nos traços biológicos, como o peso do cérebro, porém a inteligência não está relacionada ao peso da massa encefálica [...]. Desta espécie de racismo, nasceu o mito que sustenta que há duas formas de inteligência: a do homem primitivo, que seria prelógica, favorável às associações de ideias da natureza mágica etc., e a racional, do homem branco. Pretensão desmentida não somente pela história - por fatos como a dedicação de Newton à Astrologia -, mas pela irracionalidade cotidiana que domina nosso mundo (o governo norte-americano manteve, durante 20 anos, um programa de investigações paranormais com fins militares, por um custo de milhões de dólares e, como é lógico, sem nenhum resultado prático).


Mercado de escravos em Roma
Jean-León Jérôme

Da educação de que os outros são inferiores, uma espécie de ser intermediário entre o homem e a besta, nasceu a justificativa da escravidão, uma das instituições humanas mais antigas, já que existe desde o Neolítico, e mais persistentes. Os primeiros documentos legais que se conhece fazem referência à venda de escravos. A primeira menção escrita da escravidão aparece no UrNammu, o mais antigo dos códigos conhecidos, e no de Hamurabi, os homens se dividem em livres, dependentes e escravos, com regras e leis diferentes para cada um dos grupos. A escravidão é um fenômeno quase universal nas sociedades organizadas: os únicos que não a conhecem são os caçadores-coletores, como os indígenas australianos. Os gregos e os romanos a consideravam normal - aos gregos, agradava assistir ao espetáculo de tortura dos escravos -, era abundante na Ásia e muito importante na África onde era a forma normal de propriedade, em lugar da terra (os escravos eram, além disso, necessários para o transporte devido à falta de animais de carga).


Escravos trabalhando numa mina. 
Pintura em vaso corintiano. Século V a.C.


O que é um escravo? A resposta mais simples é: um homem propriedade de outro. Porém, esta é uma definição insuficiente porque há uma grande quantidade de nuanças entre o livre com plenitude de direitos e o escravo: há muitas formas de dependência. Uma teoria formulada por Nieboer dizia que a escravidão surge onde os recursos da natureza são abundantes e não há outra forma de exploração possível que a sujeição direta dos homens. Quando os recursos produtivos são controlados - por exemplo, onde a terra é propriedade de poucos, - pode-se dominar os homens através de seus meios de subsistência com a servidão, que prende o homem à terra.

A distinção que se estabelece com maior frequência no estudo da escravidão é a que existe entre a doméstica (o escravo como servente da casa) e a produtiva (o escravo como trabalhador forçado numa plantação, mina ou manufatura). Porém, esta diferença é mais formal do que real, porque pode-se passar de uma condição a outra facilmente (a imagem agradável da vida dos escravos domésticos norte-americanos, oferecida pela literatura e pelo cinema, serve para esconder a realidade da vida na plantação).


O mercado de escravos
Jean-León Jérôme

[...] os escravos eram abundantes na Grécia e em Roma. Seguiram sendo com o cristianismo, que não se culpava por isso: há textos , nas cartas de São Paulo, que não só os admitem, mas que dizem: "Escravos, obedecei a vossos amos". E Santo Agostinho escreveu: "A primeira causa da escravidão é o pecado que submeteu o homem ao jugo do homem e isto não foi feito sem a vontade de Deus, que ignora a iniquidade e soube repartir as penas como pagamento dos culpados". Se bem que a libertação fosse considerada como uma ação piedosa, a Igreja era um dos grandes proprietários de escravos. Na Espanha visigótica, por exemplo, o Concílio de Toledo afirmou que uma igreja rural não podia manter um cura por tempo integral se não tivesse, no mínimo, dez escravos a seu serviço (e, com somente dez, era classificada de "paupérrima"). Entre 567 e 700 desde Leovegildo até Égica, 46% das leis dos visigodos que são conhecidas, referem-se a escravos. A lei sálica fixava que a compensação a ser dada pelo roubo de um escravo deveria ser do mesmo valor pago por um boi, porém menos do que por um cavalo. As leis determinavam que um homem caísse em escravidão por dívidas, quando não pudesse devolver o que se lhe havia emprestado e permitiam que os pais vendessem os filhos de até 14 anos como escravos (depois desta idade, era necessário o consentimento do filho).

A escravidão rural, predominante no mundo antigo, desapareceu em torno do ano 1000, sendo substituída pela servidão, que prendia o homem à terra. Continuava a haver, entretanto, escravos, sobretudo urbanos: domésticos ou utilizados como trabalhadores de ofícios. A maior parte dos que eram vendidos na Europa medieval era denominada de "eslavos" (é, nesse momento, que se difunde a forma sclavus para designar o que, em latim, se chamava servus), como reflexo de seus locais de procedência, que eram as colônias genovesas e venezianas do mar Negro, porém não eram apenas eslavos, mas turco-mongóis ou caucasianos.


Os mongóis na Hungria,1285. 
Os mongóis desmontados, com mulheres capturadas, estão à esquerda, os húngaros, com uma mulher salva, à direita

Nos séculos XV e XVI, a procedência predominante dos escravos alterou-se e venderam-se grandes quantidades de escravos africanos na Europa. No norte da África, havia tantos negros que os europeus acreditavam que todos os seus habitantes o eram (por este motivo Shakespeare fez de Otelo, que era "mouro", um negro). Em Sevilha, eram tão numerosos que se dizia que seus habitantes eram como "as casas do xadrez", tantos brancos quanto negros. Era exagerado: em Lisboa, onde havia tantos quanto em Sevilha, representavam 10% da população. A presença da população negra nestas cidades não se manteve significativa devido , principalmente, ao fato de que os negros se reproduziam pouco e seus filhos apresentavam uma taxa de sobrevivência muito baixa (num mundo em que apenas sobrevivia uma criança em cada três, no do escravo, talvez não sobrevivesse um em cada cinco dos seus filhos).

Ao contrário do que se pensa, entretanto, a escravidão não foi um fenômeno da Antiguidade e da Idade Média. Sua idade de ouro são os tempos modernos. [...] a mão-de-obra escrava foi força de trabalho essencial da agricultura de plantação que produzia café, algodão e açúcar. Entretanto, esta escravidão "moderna", ainda que se baseasse, como a antiga, na crença de que o escravo era inferior ao homem livre por inteligência e por caráter, era, em muitos sentidos, um fenômeno novo.


A velha plantação 
(Escravos dançando em uma plantação de Carolina do Sul), c. 1785-1895. Atribuída a John Rose

A escravidão "moderna" envolveu grandes grupos de homens, transportados através do Atlântico em um comércio da morte - "uma mercadoria que morre tão facilmente", como disse um alto funcionário português -, que destinava os escravos a atividades que consumiam , rapidamente e em grandes proporções, as vidas humanas. Se em todo o processo, que ia desde a captura no interior da África, até o desembarque na América, morria, geralmente, a metade dos escravos em sua adaptação às novas condições de vida e de trabalho, durante os três ou quatro primeiros anos passados na plantação, morriam  em proporções consideráveis, de modo que, ao final deste período, só permaneciam vivos 28 a 30% dos escravos capturados (um de cada três ou quatro). Os engenhos cubanos, onde trabalhava-se até quase 20 horas por dia, ou nas plantações brasileiras, destruíram-se vidas humanas em grande quantidade, substituindo-as por novas importações. Isto era mais rentável do que fazê-los trabalhar menos para que vivessem mais, ou reproduzi-los e criá-los, já que, como disse um proprietário cubano, "quando pode trabalhar, o negro que nasce em casa custou mais que o de igual idade, comprado em feira pública".

A escravidão "moderna" surgiu das necessidades de um sistema econômico novo, justificando-se, essencialmente, por razões econômicas. [...] A Constituição norte-americana, que diz que "todos os homens são iguais", não considerou inadequado que, nos Estados Unidos, chegasse a haver quatro milhões de escravos, o que os convertia na maior potência escravista do mundo [....].

[...]

[...] a metade de todos os escravos que saiu da África entre 1700 e 1900, nos dois séculos de ilustração e progresso cultural, seus compradores foram brancos, europeus, cristãos e civilizados. [...]

[...]


À espera de venda de escravos
Richmond, Virginia. Eyre Crowe

O "tráfico" foi abolido, oficialmente, nos inícios do século XIX, depois da comoção produzida pela grande revolta dos escravos haitianos, mas sobreviveu, mais ou menos clandestinamente, durante muitas décadas (1821 a 1852, foram levados 1.100.000 escravos da África às plantações do Brasil), complementando-se, ainda, com um novo comércio de homens procedentes da China e do sudeste asiático: os "culis", que embarcavam, em teoria, como trabalhadores contratados sob condições que os condenavam a longos períodos de trabalho forçado na Austrália, na Califórnia, no Canadá e no Peru (onde morriam rapidamente, em consequência do trabalho de coleta do "guano", que servia de fertilizante à agricultura europeia), em Cuba (onde, mesmo com o desespero dos plantadores, os membros da "raça malvada" dos chineses se suicidavam frequentemente) ou na África oriental e do Sul. Calcula-se que, no transcurso de um século, de meados do XIX a meados do XX, foram retirados da Ásia entre um mínimo de 12 e um máximo de 37 milhões de "culis".

A escravidão desapareceu legalmente há pouco tempo. Em 1944, na  "26ª conferência internacional do trabalho", proclamou-se: "O tráfico de escravos e a escravidão em todas as suas formas serão proibidos e suprimidos". Em 1948, as Nações assumiram este princípio na Declaração de Direitos dos Homens e, em 1954, constituíram um comitê para vigiar o seu cumprimento. A Arábia Saudita aboliu-a, oficialmente, em 1962 (ainda que haja notícias de peregrinos que tenham ido a Meca levando escravos como cheque de viagem) e os sultanatos de Mascate e de Omãn em 1970, mas parece persistir, nos dias de hoje, no Sudão (não apenas na África, entretanto: faz alguns anos que uma mulher de Detroit vendeu seu filho aos traficantes de drogas para pagar uma dívida de mil dólares).


A pérola do mercador
Alfredo Valenzuela Puelma

A verdade é que, mais do que abolida, a escravidão foi substituída, no século XX, por formas de trabalho e de retenção por dívidas que continuam a ser praticadas e, principalmente por modalidades de exploração das mulheres e das crianças que, não se diferenciando muito da servidão, geram grandes lucros às marcas de roupas e de calçado esportivo que aproveitam o baixo preço deste trabalho.

O racismo servia, também, para justificar diversas formas de discriminação no interior das próprias populações europeias, como no caso dos judeus ou dos mouros na Península Ibérica, que não foram expulsos por não serem cristãos [...] mas por serem diferentes. Conversos e mouriscos (descendentes de judeus e de muçulmanos convertidos) permaneciam estranhos e perigosos, ainda que fossem cristãos. Na Baixa Idade Média, os "cristãos velhos" sentiam repugnância pelos judeus porque cozinhavam com azeite de oliva em vez de gordura de porco, considerando esta "cozinha mediterrânica" repulsiva. [...] a convicção da superioridade racial do "cristão velho" permanecerá até o século XX.

Com os mouriscos conversos ocorreu de forma semelhante. O problema nem era sua religião. Nos inícios do século XVII, Cervantes lhes acusava de, principalmente, trabalhar e poupar em demasia [...]. Pediu sua expulsão, que efetivamente aconteceu e em condições desumanas [...]. 

No século XIX, os argumentos raciais foram utilizados para legitimar as diferenças sociais na Europa e, em especial, para justificar a superioridade da aristocracia, integrada pelos descendentes de uma raça superior de conquistadores [...], dominadores naturais de uma população racialmente distinta e inferior [...]. A decadência dos impérios e das civilizações era explicada, precisamente, pela mescla de sangues que, com hibridismo, conduzia à degeneração das raças criadoras.

Estas ideias raciais foram o fundamento da política nazista, que exterminou mais de cinco milhões de judeus, ciganos, homossexuais, comunistas e outros "seres inferiores" em nome do princípio de que pertenciam a espécies diferentes do ariano germânico, e que reinventou as regras da escravidão nos campos de concentração. [...]


Vítima do fascismo
Siqueiros

Por outro lado, o racismo do século XX está muito longe de limitar-se ao dos nazistas. No período que sucedeu a Primeira Guerra Mundial - uma época que assistiu o auge da Ku Klux Klan, com mais de dois milhões de seguidores - praticou-se, nos Estados Unidos, uma política de esterilização de "variedades biológicas (humanas) socialmente inadequadas" e executou-se uma política de restrições à imigração destinada a "manter puro o sangue da América", favorecendo a entrada de indivíduos da "raça nórdica" e dificultando a de pessoas dos povos mediterrâneos, de eslavos, de judeus e de outras raças inferiores.


Trabalhadores escravos russos libertados de um porão.
Osnabruck, 7 de abrl de 1945.

No período atual, há um retorno às atitudes racistas, dirigidas contra os imigrantes em muitos países europeus e, inclusive, uma nova "ciência racista" que vigora predominantemente nos Estados Unidos, onde é utilizada para justificar a marginalização das camadas mais pobres, aos que são considerados incapazes de melhorar, o que justifica a suspensão dos programas do bem-estar. Não se trata, neste caso, somente da atitude de grupos extremistas como o da Nação ariana - que afirma que os judeus são satânicos e os negros, subumanos - mas de cientistas financiados por fundações como o "Pionner Fund" (que gasta um milhão de dólares por ano para a promoção de estudos sobre raça e eugenia) que estão difundindo uma nova visão do racismo, que pode suscitar protestos no mundo intelectual, como ocorreu em 1994, com a publicação de The Bell curve, mas que traduz, na realidade, pela implementação de medidas legais que limitam os direitos sociais dos filhos de imigrantes, sem que, neste caso, haja protestos.

FONTANA, Joseph. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: EDUSC, 2000. p. 212-222.