"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Ex-escravos que tinham escravos

Barraca de negra livre no Rio de Janeiro, Henry Chamberlain

O sistema escravista permeava toda a vida colonial, ou seja, o costume de ter escravos era adotado em todo o Brasil por quem pudesse comprá-los. Claro que havia pessoas que se revoltavam contra a escravidão de seres humanos, mas eram exceções em uma sociedade em que a escravidão fazia parte da ideologia dominante.

Os negros escravizados aproveitavam todas as oportunidades de utilizar seus talentos inatos e suas habilidades adquiridas para melhorar sua sorte. Observando as oportunidades (não muitas) e as condições dos costumes coloniais, procuravam acumular um pecúlio para comprar a própria liberdade e a de sua família (membros com os quais tinham contato). Uma vez estabilizados em algum ofício ou comércio, percebiam a necessidade de possuir mão de obra para obter maiores ganhos. Dadas as condições sociais, a única solução parecia ser a posse e o uso de escravos, o que explica o fenômeno de ex-escravos que possuíam escravos.


MESGRAVIS, Laima. História do Brasil colônia. São Paulo: Contexto, 2015. p. 90.

sábado, 2 de julho de 2016

"O viver em colônias" [Parte 2 - O cotidiano na colônia: tensão permanente]

No final do século, o núcleo colonial luso-brasileiro contava com aproximadamente 4 milhões de habitantes espalhados numa rede extensa de vilas e cidades - pois, afinal, os portugueses e espanhóis eram seres essencialmente urbanos - dispersas no imenso território que corresponde ao Brasil atual. Os mais importantes desses polos urbanos eram, geralmente, os portos dos principais centros de exportação de produtos agropecuários, minerais e pedras preciosas.

Até os últimos anos do século XVIII, a maioria dos habitantes da colônia vivia no Nordeste, em torno dos núcleos açucareiros da Bahia e de Pernambuco. A descoberta de ouro em Minas Gerais alterou o equilíbrio demográfico da colônia, ao atrair um grande contingente de colonos para o interior das capitanias "de baixo". A mineração foi a grande responsável pela fixação de núcleos populacionais estáveis nas capitanias de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.

A partir da segunda metade do século XVIII, o Rio de Janeiro polarizou a vasta hinterlândia das Gerais e dos campos de São Pedro. No Norte, o algodão deu impulso significativo ao Maranhão, principal produtor dessa matéria-prima. Nessa região, negros e mestiços formavam a maioria da população, subnutrida e analfabeta.


Mulheres escravas, Carlos Julião

A violência registrada no cotidiano da vida colonial deve-se, em grande parte, à presença da escravidão em todas as atividades. Era comum os escravos serem brutalizados por seus donos e tratados como animais, podendo ser vendidos a qualquer momento ou punidos por mero capricho do senhor ou do capataz. A vida de um escravo era, quase sempre, sórdida, desumana e curta. As fugas, levantes e castigos eram frequentes. A tensão entre senhores e escravos era permanente, sobretudo no mundo rural, que concentrava o grosso da escravaria africana ou ameríndia. Nessa situação, senhores e escravos, homens e mulheres, brancos, negros e mulatos enfrentavam o dia a dia da casa-grande e das senzalas.

Feitas de pedra e tijolo, cobertas de telhas, as casas-grandes procuravam reproduzir os valores da nobreza europeia - daí a pretensão dos senhores de autointitular-se "nobreza da terra". Os numerosos cômodos da casa-grande eram habitados pela família e os agregados do senhor. Os escravos moravam nas senzalas, habitações precárias e insalubres. As condições de vida nas senzalas eram penosas, a falta de higiene e a promiscuidade faziam parte do "inferno" dos escravos no insuficiente repouso que lhes era permitido. Nos raros momentos de lazer, cantava-se e batucava-se. Rezava-se nos calundus. O trabalho era árduo durante quase todo o ano. Não havia fim de semana, nem feriados religiosos.

Nos meses de entressafra, verificava-se

"uma época de ócio e, para alguns, de volutuosidade, desde que a monocultura, em parte nenhuma da América, facilitou pequenas culturas úteis, pequenas culturas e indústrias ancilares ao lado da imperial, de cana-de-açúcar. Só as que se podem chamar de entorpecentes, de gozo, quase de evasão, favoráveis àquele ócio, àquela volutuosidade: o tabaco, para os senhores; a maconha - plantada nem sempre clandestinamente perto dos canaviais - para os trabalhadores, para os negros, para a gente de cor; a cachaça, a aguardente, a branquinha."

MOTA, Carlos Guilherme; LOPEZ, Adriana. História do Brasil: uma interpretação. São Paulo: Editora 34, 2015. p. 232-4.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Dos descobrimentos à colonização - Parte 6

["Não existe pecado do lado de baixo do Equador"]

Os invasores, Antônio Parreiras

"Não existe pecado do lado de baixo do Equador" - diz um verso do vibrante frevo de Chico Buarque, inspirado em um provérbio português do período quinhentista (século XVI).

Além do Equador, tudo era permitido - ou quase tudo - em nome de El-Rei!

Nossa História, para começar, não foi tão pacífica, como afirmam alguns autores. Ao contrário, ela se fez à custa de muitos e sangrentos conflitos sociais. Foi mair (francês) contra peró (português). Branco contra índio e negro. Senhor x escravo. Colono combatendo padre. Dono de terras se opondo a mascate. Donatário brigando com Governador Geral. Emboaba expulsando paulista. "Vida difícil em uma terra fértil", como previu o escrivão Caminha...

Caraíbas (homens brancos) de várias nacionalidades - portugueses, franceses, espanhóis, holandeses -, negros africanos de diversos grupos étnicos - bantos, jejes, nagôs -, indígenas de vários troncos linguísticos - tupis, aruaques, jês, caribas -, foi essa a diversificada fauna humana que fez da Terra dos Papagaios um lugar chamado Brasil.

Mas a nossa Colonização foi sobretudo obra dos portugueses.

"Dominando vasto território e suas populações, assumiram o controle e a direção de tudo, aqui atuando em forma dominadora durante três séculos, deixando-nos como herdeiros daquilo que realizaram e que constitui o nosso passado colonial."

Era do Brasil que saía a tinta que coloria os tecidos e servia para escrever; o açúcar e o cacau que a Europa consumia; o couro com que se faziam os calçados e o algodão com que os ingleses se vestiam; o ouro que adornava os palácios e igrejas; o tabaco e aguardente para a África...

E para aqui vinham o azeite, o vinho, o bacalhau, as louças e pratarias, os móveis, os tecidos finos, as armas de fogo... sobretudo estas últimas, com que os portugueses erguiam nos trópicos uma original Civilização, baseada no latifúndio, na monocultura e na escravidão - a nossa pesada herança colonial.

"Ao integrar-se no ciclo comercial, a América luso-hispana recebeu um formidável enxerto africano. A mão-de-obra indígena e a outra, de procedência africana, foram os pilares do trabalho colonial americano. América e África - destilado seu sangue pelos alquimistas do comércio internacional - foram indispensáveis ao deslumbrante florescimento do capitalismo europeu."

A História da Colônia está profundamente ligada às diretrizes do Mercantilismo. A Colônia existia para satisfazer os apetites da Metrópole, atendendo aos interesses coloniais portugueses e da política europeia. E o instrumento do Mercantilismo foi o Pacto Colonial, isto é, o direito exclusivo de comerciar com a Colônia.

"Estava, nessas circunstâncias, traçado o sentido da Colonização portuguesa no Brasil: explorar as riquezas naturais da terra recém-descoberta, apropriar-se do que ela possuía de comerciável no mundo civilizado, despojá-lo de tudo o que pudesse proporcionar lucro à metrópole. Nada mais do que isso interessava. E essa foi, com efeito, a política posta em prática durante os três séculos de domínio português no Brasil."

Assim, o pretexto de expandir a fé e o comércio, a Metrópole portuguesa subordinou e explorou durante 300 anos uma terra e seu povo. Afinal, na visão do colonizador, o centro do mundo era a Europa - o resto eram "terras d'além-mar" e gente que vivia nesse tal "lado de lá do Equador"...

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli.]. Fazendo a História: As Sociedades Americanas e a Europa na Época Moderna. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1990. p. 88-9.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

O Estado monárquico e a cultura popular

Chegada da Família Real Portuguesa à Bahia, Portinari

A monarquia absoluta era a grande promotora de festas públicas por ocasião do aniversário do governante, de casamentos ou nascimentos na família real, de celebração de eventos políticos. Esses festejos incluíam geralmente luminárias, fogos de artifício, cavalhadas, corridas de touros, cortejos e desfiles, arrumação de tropas. Durante o período em que Portugal era a sede da monarquia competia aos governos de cada capitania incentivar essas celebrações. Depois de a Corte se ter transferido para o Brasil e ficado sediada no Rio de Janeiro ficou a cargo do intendente da Polícia organizar tais festas públicas. No tempo de Paulo Fernandes Viana ocorreram festejos por ocasião do casamento da princesa D. Leopoldina, mulher do Príncipe Real D. Pedro. Como escrevia o intendente, "era um dever da polícia entrar nestes objectos, não só pela utilidade que se tira em trazer o povo alegre e entretido, como provendo ao mesmo tempo o amor e respeito dos vassalos para com o soberano e sua real dinastia".

[...]

Podemos avaliar o peso destas festas na sociedade colonial pelo cuidado em elaborar relatos dos seus vários momentos e também em publicar tais descrições em folhetos, ou nas páginas das gazetas do Rio de Janeiro e Baía. Lembremos, entre outras, a "Relação das festas que se fizeram no Rio de Janeiro, quando o Príncipe Regente N. S. e toda a sua real família chegaram pela primeira vez àquela capital. Ajuntando-se algumas particularidades igualmente curiosas, e que diziam respeito ao mesmo objecto", publicada pela impressão Régia do Rio de Janeiro em 1810.

Nesta relação, o narrador, sob forma de carta, conta que a cidade celebrou com nove dias de luminárias a chegada de S. A. R., tendo já havido antes outros seis dias de luminárias quando chegara a princesa viúva. Este elemento essencial do festejo público era mais complexo do que se poderia supor. Não bastava iluminar as casas e edifícios mais importantes da cidade; era necessário ainda criar ornamentos adequados, arquitecturas efêmeras logo destruídas quando a festa acabava.

[...]

Nas festas públicas todos os grupos étnicos participavam, senão como actores, pelo menos como espectadores. Resta saber contudo se, no espaço urbano ou rural, havia lugar para a festa própria de cada etnia.

Deixar ou não os negros fazer os seus batuques e as suas danças dependia da maior ou menor flexibilidade dos governadores nas vilas e centros urbanos e dos senhores nas suas fazendas e engenhos. Essas actividades de lazer da gente de cor (das quais por vezes participavam os próprios brancos), por provocarem ajuntamentos perigosos, eram mal vistas pela população branca em épocas de crise e encaradas como demonstrações de uma sexualidade desenfreada pelos representantes da Igreja.

Batuque, Rugendas

Em 1779, na Capitania de Pernambuco, foi denunciada ao Santo Ofício a demasiada condescendência do então governador com os divertimentos dos negros: "Alguns governadores proibiram estas danças, e outras, que se fazem na terra, pelos naturais chamadas foffa, ou batuque entre homens, e mulheres que consiste em representar um acto torpe de fornicação, acompanhada de instrumentos, estrépitos de pés, e mãos, com ditos inhonestos e para maior desgraça nos tempos presentes com ditos blasfêmicos, como 'Oh meu Deus, ora vamos para o Céu'". Estes gestos e palavras constituíam "incentivos para desonestidade ainda nos mais tementes a Deus, quanto mais nos miseráveis pecadores".


Negros dançando fandango (jongo) no Campo de Santana, Rio de Janeiro, Augustus Earle

Também no início do séc. XIX, na Baía, Luís dos Santos Vilhena condenava a excessiva tolerância com as diversões dos negros: "Não parece ser de muito acerto em política, o tolerar que pelas ruas e terreiros da cidade façam multidões de negros de um e outro sexo, os seus batuques bárbaros a toque de muitos e horrorosos atabaques, dançando desonestamente canções gentílicas, falando línguas diversas, e isto com alaridos tão horrendos e dissonantes que causam medo e estranheza, ainda mais aos mais afeitos, na ponderação de consequências que dali podem provir, atendendo ao já referido número de escravos que há na Baía".


Negros tocando cabaça e pandeiro, Johan Nieuhof

O que perpassa nestes textos é a rejeição da cultura negra e a sua condenação, tendo como justificativa a "desonestidade" das suas danças ou a "barbaridade" dos sons produzidos pelos seus instrumentos. Além disso, sendo os cantares em línguas africanas, o branco não as podia entender e portanto temia-as. A estranheza perante o diferente levava ao medo, acentuado este quadro, em 1814, um levante de negros na Baía levou os brancos a exigir medidas repressivas mais severas do que aquelas que tinham sido tomadas pelo governador, conde dos Arcos. Este, se por um lado proibira totalmente "as danças que os negros costumam fazer ao som de instrumentos estrepitosos, e desentoados nas ruas e largos desta cidade", por outro não impedira que os escravos se juntassem nos dois largos da Graça e do Barbalho, podendo aí dançar "até o toque das Avé-Marias". Esta permissão levava em conta o facto de que "muitos senhores reconhecem a necessidade, e vantagem de diminuir os horrores de cativeiro, permitindo que seus escravos se divirtam, e que de dias em dias se esqueçam por algumas horas do seu triste estado".

Estas medidas tolerantes do governador consternaram alguns brancos assustados com as mortes recentemente ocorridas e com as casas incendiadas. Respondendo em parte a uma frase do governador na sua ordem do dia ("em todas as cidades policiadas do mundo se permitem divertimentos públicos proporcionados até às últimas classes da nação"), diziam não se dever permitir aos negros "divertimentos tão profanos em dias de descanso, e dedicados ao culto do verdadeiro Deus" quando muitos brancos, como os soldados e caixeiros, não tinham domingos nem dias santos, "aplicados sempre nos serviços" ou em guardas e rondas.

Todos os males então ocorridos provinham não só dos batuques mas também de se ter permitido aos negros "andarem com vestimentas de rei, coroando-se com espetáculos, e aparatos, fazendo uns aos outros tais, e quais homenagens e ajuntamentos com caixas de guerra amotinando a cidade".

Passado o susto com o levante dos negros, as diversões destes continuaram a ter lugar nos espaços públicos das principais cidades.

NIZZA DA SILVA, Maria Beatriz. Vida privada e quotidiano no Brasil. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. p. 274-5, 278-80.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Xica da Silva

Festival do rei, Rio de Janeiro, ca. 1770. Ao pintar o Brasil à época da mineração, Carlos Julião acabou criando referências sobre a moda e condições sociais dos escravos 

O filme [produção brasileira de 1976] narra a história de Xica da Silva, uma escrava que foi amante do contratador de diamantes João Fernandes. Suas aventuras desenvolvem-se no século XVIII, no momento em que o Arraial do Tijuco (atual Diamantina) era palco da exploração mineradora. O filme trata, nesse cenário, dos contrastes e contradições do sistema colonial.

O diretor do filme [Cacá Diegues] deu um tratamento especial ao tema. Utilizando-se do humor e de uma fina ironia, representou a sociedade escravocrata da época servindo-se da relação desses amantes. Xica é uma escrava, uma bela mulher negra, que conseguiu seduzir um nobre português, e recebeu dele inúmeros presentes: um belo casarão, roupas, jóias e até um lago e um navio. Viveu como uma rainha. Tece bens e exerceu o poder, ao contrário de todas as outras mulheres negras da época, escravizadas, e das mulheres brancas, ricas e pobres. João Fernandes, por sua vez, perdeu tudo, em consequência dessa "desastrosa" paixão.

O cenário em que se desenvolve a trama é a representação dos aspectos básicos da vida colonial, plena de contradições. A primeira delas é entre a cidade e o campo. O arraial, formado em consequência da exploração de diamantes, é uma vila da arquitetura barroca, com seus casarões e igrejas. Produto da riqueza propiciada pela mineração, é também lugar de contrastes, pois ao lado dos casarões dos mineradores e funcionários da Coroa, havia as casas simples dos homens livres, em ruelas estreitas e pobres.


Escravos negros lavrando diamantes. Ilustração do século XIX, artista desconhecido

Nesse cenário urbano, as mulheres cuidavam das casas e frequentavam a igreja, e os homens dedicavam-se ao trabalho produtivo e à administração. Toda essa riqueza resultava da exploração das minas de diamantes, distantes do centro administrativo. Lá, um grande número de escravos trabalhava e produzia a riqueza apropriada pelos portugueses.

Outros contrastes estão na base da sociedade colonial: a oposição entre brancos e negros, entre senhores e escravos e entre homens e mulheres. O casal de amantes rompe com essa ordem e a inverte. A trama apresenta Xica da Silva como aquela que pode pelos seus atributos femininos, subverter essa "ordem", desnaturalizando as relações de dominação quando escraviza homens e mulheres, brancos e negros. Mas termina com o retorno de João Fernandes a Portugal e de Xica à condição primordial, ou seja, de escrava.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza; CARVALHO, Yone de. História do mundo ocidental. São Paulo: FTD, 2005. p. 222-3.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

"Folga nego" [Brincadeira de Angola]

Jogar capoeira, Rugendas

O canto e as palmas vinham lá do fundo do quintal da fazenda. Rodeados pelos companheiros de trabalho, os negros divertiam-se com a brincadeira trazida de Angola. Rabo de arraia, vôo de morcego, tesoura, rasteira, cabeçada, pião, chibata, espada, baião: em todos os golpes, o espaço cortado pelos corpos brilhantes. Um instante de leveza naquela vida de canseiras!

Desconfiado, o feitor olhava. E se sentia ameaçado. Tinha razão: brincando, jogando, cantando, os negros também se preparavam para a fuga. Aprontavam tudo para cair na caa (mato) puera (que foi para). Uma vez na capoeira, era preciso ter pernas e braços bem ágeis. As melhores armas contra os perseguidores!

Folga nego
Branco não vem cá
Se vié
Pau há de levá.

Nas cidades, já no século passado, o negro continuava jogando a capoeira. Ele gostava e precisava, para se defender da polícia. Por isso organizava-se em bandos, as maltas de capoeira. Sentia também que sua cultura não podia morrer como morriam os negros no cativeiro.

A brincadeira ia tomando conta de Salvador, Recife, Rio de Janeiro. As autoridades não gostavam:

- O que os visitantes vão pensar do Brasil?

As autoridades não queriam:

- Os "capoeiras" não passam de vadios e selvagens!

No final do século XIX, o marechal Deodoro, primeiro presidente da República, chegou a proibir a brincadeira. Mas os negros resistiram, com o pé e a mão, navalha e pau.

Capitão do mato
Veja que o mundo virou
Foi no mato pegar negro
Mas o negro o amarrou...

É a mão pelo pé
É o pé pela mão
Bate na cara
Derruba no chão.

ALENCAR, Chico [et alli]. Brasil Vivo 1: uma nova história da nossa gente. Petrópolis: Vozes, 1991. p. 62.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Família brasileira no Império: a frágil família popular

[...]

O primeiro aspecto a salientar nas organizações familiares populares era o seu caráter instável. A tal ponto que se chegou a duvidar de que essas camadas populares constituíssem verdadeiras famílias.

O número de filhos bastardos, o concubinato, a bigamia, os filhos abandonados, os lares desfeitos, a dificuldade de obter o mínimo necessário para a subsistência, a miséria extrema que levava à mendicância eram evidências da extrema fragilidade das famílias populares.

Negra pobre dando a mão ao filho que leva uma cana na mão, Joaquim Cândido Guillobel

As famílias de escravos, pela própria natureza do regime escravista, eram as mais instáveis e existiam em pouco número. A situação precária em que viviam os negros forros também dificultava a constituição de famílias.

Negro pobre carregando cesto às costas, Joaquim Cândido Guillobel

Assim sendo, a família da gente livre e pobre estruturou-se independentemente dos laços matrimoniais. Tanto na sociedade relativamente urbanizada de Minas Gerais, no auge da economia mineira, como em São Paulo ou no Rio de Janeiro do período imperial, a proporção de casas cujos chefes eram mulheres era muito grande.

Interior de uma casa do baixo povo, Joaquim Cândido Guillobel

A historiadora Laura de Mello e Souza estudou essa camada social na sociedade do ouro, mostrando toda a precariedade em que vivia. Eram homens, mulheres e crianças que viviam nos limites da sobrevivência. Nesse meio os filhos bastardos eram maioria absoluta. A maior parte das uniões era legalmente ilícita e contrária à moral católica oficial.

Os lares chefiados por mulheres sem marido ou companheiro representavam quase a metade dos existentes em Vila Rica na segunda metade do século XVIII.

A taxa de prostituição era alta, e a miséria das mulheres era tanta que as que tinham roupas decentes para se apresentar em público despertavam desconfiança dos fiscais por esse "luxo".

A numerosa camada social situada entre a elite e os escravos tinha como característica fundamental a pobreza e a instabilidade. Tanto que a referida historiadora encontrou na expressão desclassificados do ouro a melhor maneira de defini-los. Nesse meio era quase impossível a constituição de famílias estáveis, qualquer que fosse o modelo delas ou sua forma de organização. Na verdade estamos diante de uma "desorganização familiar", determinada pela extrema precariedade das condições de existência material.

Família pobre em casa, Jean-Baptiste Debret. A imagem mostra uma moradia popular. Uma velha viúva e sua filha viviam na pobreza, mas possuíam uma escrava, cujo trabalho de carregadora de água garantia o sustento das três. Na volta de sua jornada, a escrava traz um cacho de bananas. Falta nesse grupo a figura do pai, marido ou companheiro. Eram numerosos os lares chefiados por mulheres nos meios populares.

Outra historiadora, Maria Odila Leite da Silva Dias, levantou dados que demonstraram que cerca de um terço dos lares paulistanos na segunda metade do século XIX também eram chefiados por mulheres. Famílias que também, na sua maioria, viviam na pobreza.

Mulher negra, Almeida Júnior

Para o Rio de Janeiro, além de dados levantados pela pesquisa acadêmica, temos o registro da literatura. O Cortiço, de Aluísio Azevedo, por exemplo, retrata a instabilidade das famílias populares e a precariedade do seu modo de vida. A obra revela ainda a violência que envolvia a vida cotidiana dos membros das camadas sociais populares e marcava as relações familiares.

PEDRO, Antônio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 252-3.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Tituba

Tituba e as crianças, Alfred Fredericks

Na América do Sul tinha sido caçada, lá na infância, e tinha sido vendida uma vez e outra e outra, e de dono em dono tinha ido parar na vila de Salem, na América do Norte.

Lá, naquele santuário puritano, a escrava Tituba servia na casa do reverendo Samuel Parris.

As filhas do reverendo a adoravam. Elas sonhavam acordadas quando Tituba contava contos de fantasmas ou lia os seus futuros numa clara de ovo. E no inverno de 1692, quando as meninas foram possuídas por Satã e se reviraram e uivavam, só Tituba conseguiu acalmá-las, e as acariciou e sussurrou contos para elas até que adormecessem em seu regaço.

Isso a condenou: era ela quem havia metido o inferno no virtuoso reino dos eleitos de Deus.

E a maga conta-contos foi atada ao cadafalso, em praça pública, e confessou.

Foi acusada de cozinhar bolos com receitas diabólicas e a açoitaram até que disse que sim.

Foi acusada de dançar nua nos festins das bruxas e a açoitaram até que disse que sim.

Foi acusada de dormir com Satanás e a açoitaram até que disse que sim.

E quando lhe disseram que suas cúmplices eram duas velhas que jamais iam à igreja, a acusada se transformou em acusadora e apontou com o dedo aquele par de endemoniadas e não foi mais açoitada.

E depois outras acusadas acusaram.

E a forca não parou de trabalhar.

GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 137.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

El Diablo es negro

Crianças negras, Emmanuel Zamor

Como la noche, como el pecado, el negro es enemigo de la luz y de la inocencia.

En su célebre libro de viajes, Marco Polo evocó a los habitantes de Zanzibar: Tenian boca muy grande, labios muy gruesos y nariz como de mono. Iban desnudos y eran totalmente negros, de modo que quien los viere en cualquier otra región del mundo creeria que eran diablos.

Tres siglos después, en España, Lucifer, pintado de negro, entrada en carro de fuego a los corrales de comedias y a los tablados de las ferias. Santa Teresa nunca pudo sacárselo de encima. Una vez se le paró al lado, y era un negrillo muy abominable. Y otra vez ella vio que le salia una gran llama roja del cuerpo negro, cuando se sentó encima de su libro de oraciones y le queimó los rezos.

En América, que habla importado millones de esclavos, se sabia que era Satán quien sonaba tambores en las plantaciones, llamando a la desobediencia, y metia música y memeos y tembladeras en los cuerpos de sua hijos nacidos para pecar. Y hasta Martin Fierro, gaucho pobre y castigado, se sentia bien comparándose con los negros, que estaban más jodidos que él:

- A éstos los hizo el Diablo – decia – para tizón del inferno.


GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p.114-115

domingo, 9 de junho de 2013

O remédio dos bandeirantes

A morte do bandeirante, Antônio Parreiras

A capitania de São Vicente, em cujo litoral se fundou a primeira vila brasileira, logo ficou isolada de outras áreas vinculadas à lavoura de exportação. O Engenho do Senhor Governador não tinha condições de concorrer com seus congêneres nordestinos; a lavoura canavieira ali não iria para frente, ao contrário do que indicava o esforço inicial da colonização. Sua prosperidade (que nunca beneficiou os trabalhadores negros e índios) foi efêmera.

O que explica esse declínio? A distância dos mercados consumidores é um fator que não atraía os capitais mercantis. Durante muito tempo, apenas um barco metropolitano por ano aportou no ancoradouro vicentino. A estreiteza da baixada litorânea e a pobreza de seus solos também não estimulavam os esforços agrícolas. Nessas condições e expostos a ataques marítimos de contrabandistas, os vicentinos subiram a serra do Mar.

Essa transferência de parte da população para o planalto, onde se localizavam as vilas de Piratininga e Santo André da Borda do Campo, resultou em maior isolamento e no aguçamento da pobreza. Para os primeiros paulistas, milho, sal e farinha de mandioca constituíam a dieta principal. Poucas trocas, pequeno consumo, economia de subsistência, com a produção de alguns gêneros similares aos europeus e reduzida exportação para o Rio de Janeiro, em certas épocas. Vida monótona, apagada, a lembrar as velhas aldeias portuguesas, assim era Piratininga:

"Coberto de sapé era tudo o mais: a igreja, a cadeia, a casa do Conselho. Esta, em 1580, caiu, passando a Câmara a reunir-se na casa de um outro vereador. Só em 1585 é que se está em via de construção de nova casa, que serviria também para cadeia." (MOTA, Otoniel. Do rancho ao palácio. São Paulo: Nacional, 1941. p. 10)

A essa pobreza correspondia o isolamento político. É ele que determina o episódio curioso da Aclamação de Amador Bueno, em 1641, quando chega à capitania e à vila de São Paulo a notícia da restauração da monarquia portuguesa. Possivelmente insuflados por espanhóis, que frequentavam muito a região, os paulistas decidiram não aceitar a vinculação com a nova dinastia portuguesa de Bragança. E aclamaram Amador I, rei de São Paulo! Realista - e sem querer ser rei -, Amador teve de se refugiar num convento até que a exaltação autonomista dos seus conterrâneos passasse.

Quem passeia hoje pela capital paulista não imagina que os poluídos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí já representaram a grande esperança dos poucos paulistanos do início do século XVII. Esperança de ganhar o sertão, para encontrar remédio para sua pobreza. A suave inclinação dessas vias fluviais para o interior favorecia isso. Os versos de Guilherme de Almeida, no Monumento aos Bandeirantes, no Ibirapuera, tentam retratar a epopéia:

"Brandindo achas e empurrando quilhas
Vergaram a vertical de Tordesilhas!"


Monumento às bandeiras, Vitor Brecheret 

De início, ainda no século XVI, foi o ciclo do ouro de lavagem. Homens como Luís Martins e Brás Cubas (fundador da vila de Santos) descobrem ouro na própria capitania de São Vicente. Realiza-se a exploração do litoral na direção sul e Heliodoro Eobanos separa do cascalho do leito dos rios o metal precioso, a partir de Iguape. Jerônimo Leitão realiza uma entrada e descobre ouro de aluvião na área onde surgiria logo um núcleo de povoamento, Curitiba, só elevada à condição de vila em 1693.


Caçadores de bugres retornando com escravos presos nas matas de Curitiba,  Jean-Baptiste Debret 

Essa expansão bandeirante à cata de ouro teve efeitos colonizadores no litoral do Paraná e de Santa Catarina. Seguidores dos primeiros vicentinos prosseguem explorando a região e fundam as vilas de Paranaguá, São Francisco do Sul, Nossa Senhora do Desterro (hoje Florianópolis) e Laguna, a partir da segunda metade do século XVII.

A importância desse ouro aluvionário é atestada pela própria medida administrativa tomada pela metrópole, instalando entre 1608 e 1612 a repartição Sul (separada do Estado do Brasil) e decretando o Código Mineiro, ainda no início do século XVII, pelo qual o governo garantia para si a quinta parte da produção e autorizava a fundição do ouro em barras em casas especiais.

O surgimento desses núcleos coincide com o declínio da atividade do garimpo. A pecuária vai manter a ocupação.

[...] é prática comum das áreas com poucos recursos a escravização do nativo. Em São Vicente isso sempre aconteceu. Os colonos, muitas vezes, estimulavam as malocas - expedições de índios para aprisionar e escravizar índios inimigos. Essa reação acaba virando um grande negócio.

Entre 1617 e 1641 a Holanda monopoliza o fornecimento de escravos ao Brasil. A Companhia das Índias Ocidentais controla as praças de São Jorge da Mina, São Tomé e São Paulo de Luanda, gerando grande escassez de mão-de-obra nas áreas fora do controle flamengo. Quem tem monopólio impõe os preços.

O índios torna-se mercadoria altamente valorizada e mais uma vez os paulistas vão vislumbrar a possibilidade de curar sua pobreza: é o ciclo da caça ao índio. Mais uma vez os choques com os jesuítas vão se acirrar. Um dos momentos importantes desse atrito é o movimento ocorrido em São Paulo do campo de Piratininga, em 1641, quando os colonos indispostos com a Companhia de Jesus tentam realizar a "botada dos padres fora", além de aclamar seu rei.

O nativo das missões, acostumado ao trabalho agrícola em regime semi-servil, será o objeto da ação dessas bandeiras comandadas pelos vicentinos. Elas mobilizavam toda a vila, onde só permaneciam mulheres, crianças e velhos. É importante destacar que os índios são o maior contingente: no ataque à região missioneira de Guairá, em 1629, Antônio Raposo Tavares e Manuel Preto comandam 69 brancos, 900 mamelucos e 2.000 índios auxiliares. É a guerra fratricida na terra de Pindorama.

"Os paulistas, conhecidos também pelo nome de mamelucos, tinham levado a cabo pequenas expedições contra guaranis, desde 1618. Em 1628 e nos anos seguintes marcharam com autênticos exércitos. Caíram primeiro de surpresa sobre a redução de Encarnación, que devastaram. Os trabalhadores dispersos pelos campos foram postos a ferro e levados; os recalcitrantes, massacrados. As crianças e os velhos muito fracos para seguirem a coluna em marchas forçadas, foram igualmente mortos pelo caminho." (Relatório dos jesuítas Duran e Crespo, apud LUGON, C. A República Comunista Cristã dos Guaranis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968. p. 46)

As reduções dos jesuítas espanhóis foram as escolhidas para o ataque. Elas acompanhavam a ocupação castelhana no oeste do atual Paraná, onde desde o século XVI existiam a Ciudad Real del Guairá e a Villa Rica del Espírito Santo. Em 1631 também elas são destruídas. Após os primeiros ataques, devastadores, favorecidos pela omissão das autoridades espanholas em função da vigência da União Ibérica, os jesuítas migram e formam novos aldeamentos, a sudoeste do atual Mato Grosso do Sul e centro-oeste do atual Rio Grande do Sul. Ali desenvolvem a criação do gado bovino e eqüino.

A partir de 1632, as missões do Itatim, Tape e Uruguai são atacadas pelas bandeiras paulistas, forçando a retirada dos jesuítas para a margem direita do rio Uruguai.

Com o fim da União das Monarquias Ibéricas e o conflito luso-espanhol (1640-1668), Felipe IV dá ordens aos jesuítas de se armarem. Mas as vitórias que eles conseguem a partir daí se explicam mais pelo declínio do interesse na mão-de-obra. As praças africanas, nessa mesma época, estavam sendo reconquistadas pelos portugueses.

Em 1648, ano da retomada de Angola, Raposo Tavares volta a Itatim e realiza seu périplo, através do vale amazônico, retornando por via marítima a São Vicente. Percorrera 10.000 quilômetros durante três anos. Dos 1.200 componentes da sua bandeira, apenas 58 chegaram a Santo Antônio do Gurupá, nas proximidades de Belém. O pior, para o velho sertanista, era não ter conseguido aproximar-se de Potosí nem encontrado a tão sonhada prata...

Desvalorizado o escravo índio, rareado o ouro de lavagem, nunca encontrada a prata, os vicentinos buscam outras atividades. Uma delas está transcrita na Resolução do Conselho Ultramarino, organismo criado após a restauração Bragantina, para melhor explorar as colônias portuguesas: "o contrato que se fez é terem a sua assistência nos mesmos Palmares, para dali fazerem guerra aos negros levantados, sendo esta a causa principal para que foram chamados."

Trata-se do ciclo do sertanismo de contrato. Grandes proprietários pecuaristas, senhores de engenho do Nordeste e autoridades coloniais contratam vicentinos para a ação repressiva contra o principal obstáculo ao progresso colonizador: a resistência das tribos indígenas e dos negros aquilombados.

As primeiras lutavam pela sua permanência na terra, ameaçada pela expansão das plantações de cana-de-açúcar e pela pecuária extensiva. A desigualdade bélica determinou o extermínio de muitas comunidades primitivas rebeladas, como foi o caso dos Cariri, na Guerra dos Bárbaros ou do Açu. A repressão foi comandada por Domingos Jorge Velho e Matias Cardoso. Na dizimação dos autóctones também se destacou um não-vicentino, rendeiro da Casa da Torre, Domingos Afonso Mafrense, alcunhado "o Sertão".


Domingos Jorge Velho, Benedito Calixto

Quanto aos quilombos, caracterizavam claramente a luta dos escravos pela sua liberação e geravam uma reação violenta dos opressores, que viam nos mocambos uma ameaça a toda a estrutura colonial. A contradição entre os escravos e senhores chegou ao clímax na epopéia de Palmares. 

[...]

De fato, os negros de nenhum modo retornaram para as fazendas de seus ex-senhores. Após quase um século de lutas, o vicentino Jorge Velho, à frente de grande tropa, destruiu o último do quilombo.

No século XVIII, na região das Minas Gerais, as colunas do bandeirante Bartolomeu Bueno do Prado destruíram o quilombo do rio das Mortes.

Na segunda metade do século XVII, a situação de Portugal é crítica: o Tratado de Haia (1661) legalizou a perda da maior parte das suas colônias no Oriente; a Guerra de Restauração contra a Espanha (1640-1668) levou ao fim o lucrativo direito de asiento; as alianças europeias forçam o Estado português a fazer grandes concessões comerciais à Inglaterra, à França e às Províncias Unidas.

O Brasil, agora a principal área colonial lusa, será objeto de grande atenção por parte de Dom João IV, Dom Afonso VI e Dom Pedro I. O sonho era o mesmo dos tempos de Pero Vaz de Caminha, Martim Afonso, Tomé de Souza, Brás Cubas: a descoberta do Eldorado...

Animadas com o declínio da produção mineral na América Espanhola, as autoridades portuguesas incentivam a retomada das pesquisas minerais aqui. A depreciação do açúcar no mercado europeu determina a busca de outras atividades mais lucrativas.

Assim, em 1674 parte na direção do rio das Velhas a bandeira chefiada pelo mais rico e poderoso patriarca paulista, Fernão Dias Pais.

"Doenças, acidentes, deserções, combates com os índios iam dizimando paulatinamente a tropa. [...] Num dos momentos mais difíceis da aventura, o filho bastardo de Fernão, José Pais, compreendeu que a única maneira de retornar à casa seria matando o obstinado líder da bandeira. Mas Fernão descobriu a conspiração e quem morreu - enforcado à vista do arraial - foi José. E com ele seus companheiros de conjura." (MOREIRA DOS SANTOS, C. Jornal do Brasil, Caderno B, 27/04/1974)

O fracasso de Fernão não desanimou outros vicentinos como Garcia Rodrigues e Borba Gato. Em 1695, o governador do Rio de Janeiro comunica à corte a descoberta das primeiras minas, realizada por Antonio Rodrigues Arzão. Borba Gato vai descobrir mais tarde jazidas em Sabará. Sete anos depois, Bartolomeu Bueno [...] repete o feito em Goiás.


Partida da monção, Almeida Junior

As dificuldades desses desbravadores do interior brasileiro estão contadas no relato de um padre participante das monções (bandeiras fluviais que penetravam pelo Tietê, paraná e Pardo) na direção centro-oeste, citado por Capistrano de Abreu em Os caminhos antigos e o povoamento do Brasil: "depois de comidos os cachorros e alguns cavalos, fiz 35 sermões sem mudar de tema, animando a todos que não esmorecessem, certificando-lhes para diante dos rios de muitos peixes, campos de muitos veados, matos de muita caça, mel e guarirobas".

ALENCAR, Francisco et alli. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 58-63.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A difusão do comércio de escravos: dos mercados de escravos do Oriente Médio ao tráfico Atlântico

O comércio de escravos (Escravos na Costa Oeste da África), François-Auguste Biard

A escravidão é cruel. [...] a posse de seres humanos por outros seres humanos está entre as piores práticas para deteriorar a humanidade. Porém, grande parte do que se chama de civilização foi construída sobre a escravidão. Nas culturas antigas, inclusive os sumérios, babilônios, a antiga Grécia e Roma, a escravidão era uma base econômica e geralmente considerada um modo de vida razoavelmente tolerável pelos menos privilegiados, que preferiam a escravidão a morrer de fome.

Os árabes tinham poucos problemas com a escravidão, fazendo deles os clientes ideais para os vikings, que vendiam escravos. Grande parte do litoral da Suécia fica no mar Báltico, de frente para o leste; então, os vikings dessa parte da Escandinávia geralmente navegavam para o leste em vez de irem para o oeste e para o sul, como faziam os vikings noruegueses e dinamarqueses. Conforme esses aventureiros nórdicos da Suécia exploravam pontos nas atuais Letônia, Lituânia e Estônia, eles começaram a navegar mais para o leste, atravessando pequenas baías e rios até chegarem à Rússia. Nas florestas do norte da Rússia, eles encontraram uma fonte de riqueza: um povo tribal, que foi capturado para ser vendido como escravo.

Os vikings não tinham dificuldade para chegar aos mercados de escravos do Oriente Médio pelo mar. Eles simplesmente transportavam sua carga através de um rio. O Dniepre corre pelo atual oeste da Rússia, passando pela Ucrânia e pela Bielorrúsia em seu caminho até o Mar Negro. A partir dali, eles podiam navegar até Constantinopla. Mas a leste, o rio Volga segue na direção sul até o Mar Cáspio, que faz fronteira com o atual Irã. A partir do Mar Cáspio, os vikings podiam chegar aos lucrativos mercados de escravos de Bagdá. Quando os missionários cristãos se aventuraram pela primeira vez na Escandinávia, os nórdicos capturaram e venderam alguns deles.

Os árabes já lidavam com escravos havia muito tempo e tinham outras fontes além dos comerciantes vikings para seres humanos prisioneiros. Desde a conquista de grande parte do norte da África, nos séculos VI e VII, os árabes levavam escravos daquele continente.

As guerras africanas, assim como as guerras em grande parte do restante do mundo desde os tempos pré-históricos, geralmente envolviam uma tribo ou um vilarejo que capturava as pessoas de outra tribo ou vilarejo. Conforme os comerciantes árabes penetraram no continente a partir do século VI, os africanos aprenderam que poderiam trocar seus inimigos prisioneiros por mercadorias valiosas com estes estrangeiros.

O comércio escravo árabe criou uma economia escrava na África, que ainda tinha força no final do século XV. Quando os navegadores portugueses começaram a aportar no oeste africano, encontraram vendedores de escravos locais dispostos a vender trabalhadores. Em 1482, os comerciantes portugueses construíram seu primeiro posto de troca de escravos em Gana. No início do século XVI, os portugueses enviavam prisioneiros para Portugal e as ilhas dos Açores, no Atlântico, onde os colonizadores portugueses precisavam de trabalhadores. Em alguns anos, havia um novo mercado para estes escravos nas Américas e os portugueses foram obrigados a fornecer para ele.


Navio negreiro, Rugendas

Em meados do século XVI, os colonizadores espanhóis das ilhas caribenhas haviam decidido que precisavam de uma nova fonte de trabalho. Os indígenas locais, que haviam sido escravizados, não tinham imunidade contra as doenças da Europa. Muitos estavam doentes ou fracos e muitos haviam morrido.

Os espanhóis começaram a importar escravos africanos, que tinham menos propensão de contrair varíola (a varíola - uma das doenças mais mortíferas entre os europeus e muito mais para os indígenas caribenhos - estava tão espalhada pela África que os escravos africanos acabaram desenvolvendo uma resistência natural). Os primeiros escravos foram comprados de navios portugueses por volta de 1530, iniciando um comércio que aumentou bastante ao longo dos séculos XVI e XVII e teve seu ápice no XVIII.

Também no século XVI, os espanhóis descobriram que o trabalho escravo fazia com que as colheitas, como a do açúcar, que podia ser cultivado em Hispaniola e outras ilhas caribenhas, fossem altamente rentáveis. Assim, eles compraram mais escravos. Por volta de 1700, quatro mil chegavam às ilhas governadas pela Espanha todos os anos.

Os ingleses, que estavam construindo seu primeiro estabelecimento permanente na América do Norte, em Jamestown, Virgínia, em 1607, não esperaram muito para começar a importar escravos. Os ingleses também tinham uma plantação bastante rentável e que exigia muitos trabalhadores: o tabaco. Em 1619, a Virgínia começou a usar escravos africanos nos campos de tabaco.

Portugal levou escravos para o Brasil em uma quantidade tão elevada que, por volta de 1800, metade da população deste país enorme tinha herança africana.

O tráfico de escravos era uma das maneiras mais certas de ficar rico com o comércio intercontinental, de 1500 a 1800. Os europeus se uniram aos comerciantes árabes e aos governantes africanos, que também podiam fazer fortuna com este negócio horrível. Os holandeses, ingleses, franceses e dinamarqueses se uniram aos portugueses, construindo estações de escravos na África.

"No Brasil, um pouco recuperados das agruras da viagem, os africanos eram exibidos nas lojas dos comerciantes de carne negra, amarrados uns aos outros. Às vezes eram tantos os negros que a mercadoria vazava para as ruas, onde ficava exposta à curiosidade dos compradores. Eram examinados como animais: apalpados, dedos enfiando-se pelas bocas, procurando os dentes para adivinhar a idade ou conferir se o vendedor não mentia. Os órgãos sexuais, objetos de cuidadosa inspeção, as mulheres tendo os seios manipulados e os genitais escancarados para a avaliação da sua qualidade como objeto sexual ou como "parideiras". Henry Koster repugna-se ante tamanha brutalidade: '[...] Deus de bondade! é a coisa mais horrível do mundo. Eles, porém, não parecem sentir mais que o desconforto da situação. Seu alimento é carne salgada, farinha de mandioca, feijão e às vezes banana da terra. A comida de cada dia é cozida no meio da rua, em enormes caldeirões. À noite, os escravos são conduzidos a um ou mais armazéns e o condutor fica de pé, contando-os à medida que eles passam. São trancados; e a porta é aberta de novo ao romper do dia seguinte'." (CHIAVENATO, Júlio José. O negro no Brasil, da senzala à guerra do Paraguai. São Paulo: Brasiliense, 1980. p. 127-128.)

Em 1713, a Espanha concedeu à Inglaterra um monopólio para abastecer suas colônias americanas com 4800 escravos por ano durante 30 anos. Ninguém sabe quantas pessoas foram capturadas e vendidas, mas os números podem ter chegado a sete milhões somente no século XVIII. É difícil chegar a um número exato, parcialmente porque muitas pessoas morreram no transporte. As condições aterradoras a bordo dos navios negreiros incluíam colocar escravos acorrentados em ganchos com pouco mais de 90 centímetros de altura. Muitos morriam na sujeira, de doenças e de desespero e os marinheiros jogavam os corpos, sem qualquer cerimônia, no mar. Aqueles que sobreviviam eram vendidos em leilões.

HAUGEN, Peter. História do mundo para leigos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2011. p. 124-126.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Escravidão nas lavras e cidades mineiras

Escravos trabalhando nas minas de ouro de Serro Frio sob o olhar vigilante de capatazes contratados. Aquarela de Carlos Julião

Na zona de mineração, o preço do escravo era muito alto, o que estimulou o comércio interno de mão de obra. Com a economia agrícola em baixa nesse período, várias capitanias vendiam negros para a região das minas. Esse comércio não agradava a Portugal, que deixava de ter lucros com a venda dos escravos africanos. A Coroa chegou mesmo a proibir a transferência de negros das várias capitanias para Minas Gerais.

Ali, os escravos trabalhavam não só nos garimpos, mas também no transporte de carga, levando ouro até o porto do Rio de Janeiro e trazendo para Minas mercadorias importadas de outras regiões. Mais tarde, esse trabalho passou a ser feito por animais.

Nos garimpos, os escravos tinham condições de vida até piores do que nos engenhos: trabalhavam em buracos pouco ventilados, na água ou atolados no barro. Além disso, a alimentação fornecida pelos senhores era reduzida, o que fazia com que os cativos contraíssem facilmente doenças que os levavam à morte. [...]

Não só nos engenhos ou nas minas encontravam-se escravos.

Possuir escravos dava prestígio ao homem branco das cidades: quanto mais rico, mais escravos a seu serviço teria o senhor. Nas casas das famílias mais abastadas havia dezenas de escravos domésticos: amas de leite, babás, mucamas, pajens, arrumadeiras, passadeiras, cavalariços, cocheiros e carregadores de liteiras ou "cadeirinhas", onde os brancos eram transportados de um lugar para outro. As pessoas mais modestas procuravam comprar ao menos um "moleque" para carregar os pacotes quando saíam às ruas. Além do serviço doméstico, eram considerados "trabalho de negro" as obras da construção civil e o comércio ambulante.

Uma prática muito comum nas cidades era a utilização dos chamados "escravos de ganho". O senhor ensinava um ofício ao escravo, que passava a oferecer serviços a terceiros, em troca de um pagamento, chamado ganho. Esse pagamento era repartido com o senhor. A parcela que cabia ao escravo geralmente servia para a compra de matéria-prima ou instrumentos do seu ofício.

QUEVEDO, Júlio; ORDOÑEZ, Marlene. A escravidão no Brasil. São Paulo: FTD, 1996. p. 22-25.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Gangues do Rio de Janeiro imperial


Durante o Império, as maltas de capoeira atemorizaram a capital. Escravos renegados usavam esse misto de dança e luta para desafiar seus senhores e controlar bairros inteiros da cidade
por Maurício Barros de Castro


Rio de Janeiro, século XIX. Os moradores do atual bairro da Lapa estão reunidos para assistir ao desfile de uma banda militar quando, de longe, avistam um grupo de negros que aparece à frente dos músicos, gingando e dando rasteiras. Eles se aproximam. Começam a exibir suas navalhas e ameaçar o público, tanto verbal quanto corporalmente. A multidão se assusta. Todos sabem o que significam aqueles movimentos: é a temível capoeira que desfila pelas ruas da cidade. 


Jogar capoeira, Rugendas

É comum ouvir que essa mistura de dança e luta nasceu no ambiente rural dos quilombos e senzalas, mas os estudos recentes mostram que a capoeira se desenvolveu em diversas cidades portuárias que receberam grande contingente de africanos escravizados, como o Rio de Janeiro. O jogo adquiriu características próprias na capital do Império, onde foi usado pelos escravos “ao ganho”, aqueles que trabalhavam nas ruas da cidade, como instrumento tanto de resistência ao sistema de servidão quanto de controle de determinados territórios.

Os capoeiras, como eram chamados os escravos rebeldes que percorriam os bairros hostilizando os cidadãos, se organizavam em maltas, grupos que funcionavam como espécies de gangues e controlavam áreas específicas da cidade. Temidos pela população, esses bandos eram frequentemente citados nos documentos policiais como uma ameaça à ordem pública, e a capoeira sofreu uma perseguição devastadora no Rio de Janeiro no início da República.

Ocupando territórios delimitados pelas freguesias – como eram chamados os bairros demarcados a partir das igrejas católicas –, o capoeira escravo vivia uma vida dupla entre a casa do senhor e a rua, onde trabalhava carregando água e dejetos, vendendo produtos para o comércio da capital, entre outros afazeres. A rua também era o espaço dos encontros, da organização, das festas, das fugas, dos ataques e onde aprendiam capoeira, que era utilizada nas brigas em grupo ou nos confrontos individuais, fosse à luz do dia ou na escuridão das ruelas e becos que formavam o núcleo da cidade no século XIX.

A condição ambígua do escravo no Rio de Janeiro colonial e, posteriormente, imperial possibilitou a associação dos capoeiras em maltas. A dependência da cidade em relação ao escravo fazia com que ele transitasse por vários segmentos sociais e espaços geográficos. Um lugar-chave para os encontros entre os capoeiras eram os chafarizes. Distribuídos em alguns pontos da capital, eram locais de disputa e integração dos escravos capoeiras que iam buscar água para as casas de seus senhores.

O mais antigo registro da palavra “capoeira” de que se tem notícia data de 1789 e se refere à libertação de um escravo chamado Adão, preso nas ruas do Rio de Janeiro devido à prática do jogo. Esse documento mostra que a repressão à capoeiragem acontecia antes mesmo do período joanino.

Havia muitos motivos para a capoeira ser perseguida. O primeiro deles era que inicialmente se tratava de uma prática de escravos rebeldes, soltos nas ruas, abertos às trocas culturais que levaram a capoeira a assimilar o uso da navalha, a partir de contatos com brancos das classes baixas, como os barbeiros e outros faquistas.

A navalha se tornou a arma-símbolo da capoeira, mas também eram utilizados bengalas e porretes nas lutas. Além disso, havia o repertório de golpes, como rasteiras, cabeçadas e rabos de arraia, entre outros. Ao mesmo tempo que absorveu outras práticas culturais, o capoeira passou a transmitir sua arte para representantes de outras classes sociais, chegando a atingir a elite. As maltas podiam ter poucos integrantes, algumas dezenas ou até 100 capoeiras, entre eles negros escravizados, libertos e uma minoria de brancos.

A geografia das gangues era determinada pelas freguesias, mas, apesar de existirem muitos grupos que pertenciam a essas localidades específicas, a cidade foi dividida em duas grandes maltas: Nagoas e Guaiamuns. A zona portuária e a área central da cidade eram controladas pelos Guaiamuns, que ocuparam os pontos de fundação do Rio de Janeiro, mais densamente povoados e onde foram erguidas as primeiras construções da capital, como o Paço Imperial, os chafarizes, as casas, quiosques e cortiços, também chamados de “cabeças de porco”.

O território dos Guaiamuns avançava pela atual praça Quinze, compreendia os morros de São Bento e Providência e terminava no Campo de Santana, área dominada pelos Nagoas, que estendiam seus domínios pelas freguesias que cercavam a área central da cidade. Controlavam, portanto, os atuais bairros da Lapa, Catete e Glória. Dessa maneira, dominavam uma parte da capital que ainda estava em formação, onde se localizavam as chácaras, sítios, fazendas e até mesmo quilombos. As duas grandes maltas também se distinguiam pelas cores das fitas que utilizavam: os Nagoas se identificavam com a cor branca, e os Guaiamuns, com a vermelha.

Além das disputas entre as maltas, era comum os capoeiras aterrorizarem os moradores do próprio território que ocupavam. Muitas vezes, quando a população se reunia para assistir aos desfiles das bandas militares, eles vinham à frente dos músicos, gingando, dando rasteiras, exibindo navalhas e ameaçando verbal e corporalmente o público. Em outras ocasiões, dezenas deles provocavam as chamadas “correrias”, que visavam tanto assustar o povo quanto resolver disputas entre gangues rivais, e não raramente acabavam com a morte de um capoeira ou mesmo de algum passante atingido durante a batalha.

A contínua ameaça que a capoeira passou a representar para a ordem pública provocou ondas de repressão policial ao longo dos períodos colonial e monárquico. Durante a época de D. João VI, o major Manuel Nunes Vidigal ficou tão famoso pela crueldade com que tratava os capoeiras que chegou a ser citado no célebre romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida.

O major Vidigal foi o criador das “ceias de camarão”, como eram chamadas “as sangrentas sessões de chibata a que eram submetidos os capoeiras e vadios por ele encontrados”, de acordo com o historiador Carlos Eugênio Líbano Soares, no seu livro A capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850). Apesar da virulência de ações policiais como a do major Vidigal, os capoeiras resistiram durante todo o Império.

Um dos motivos para que as gangues se mantivessem mesmo com forte repressão policial era a cobertura que recebiam dos partidos políticos da época. Os Guaiamuns e Nagoas apoiavam, respectivamente, liberais e conservadores. O voto, na época, não era secreto, por isso muitos eleitores eram obrigados pelos capoeiras a votar nos candidatos dos partidos que apoiavam cada malta. Eles também eram responsáveis por criar arruaças nas eleições, que muitas vezes acabavam em confusões e brigas.

A proteção política dos poderosos e a atuação como capangas dos partidos tiraram dos capoeiras o brilho da resistência escrava. Além disso, eles passaram a servir de massa de manobra para interesses ideológicos. Após a assinatura da Lei Áurea, em 1888, eles chegaram a organizar uma milícia, chamada de Guarda Negra, que perseguia os abolicionistas, como prova da lealdade da capoeiragem à princesa Isabel e ao regime monárquico.

O golpe fatal nas gangues do Rio de Janeiro veio justamente com a Proclamação da República, em 1889. No ano seguinte, a capoeira foi inserida no Código Penal Brasileiro, por meio do decreto de 11 de outubro de 1890, cujo artigo 402 qualificou como crime “fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal, conhecidos pela denominação de capoeiragem”.

O responsável pela façanha que culminou com o fim das maltas no Rio de Janeiro foi Sampaio Ferraz, chefe de polícia que comandou a campanha que desterrou os capoeiras para Fernando de Noronha, durante o governo de Deodoro da Fonseca. Dessa maneira, Ferraz entrou para a história como o algoz que decretou a morte da capoeira na cidade.

Estigmatizados como criminosos – já que sua prática se tornou ilegal em 1890 – e perseguidos como indivíduos perigosos, os capoeiras que permaneceram escondidos no Rio de Janeiro saíram, estrategicamente, de cena. Os que voltaram do desterro continuaram na clandestinidade. Poucas décadas depois, entre os anos 1910 e 1920, surgia o “bamba”. De acordo com o pesquisador e sambista Nei Lopes, é um termo que “vem do quimbundo mbamba, que significa exatamente mestre”.

O bamba tinha o domínio do corpo e do ritmo, por isso era um personagem típico do mundo negro, presente nas festas religiosas como ogã, tocando tambores para os orixás, o que o levou a desempenhar também papel fundamental na criação do samba de morro, na organização das escolas e dos blocos carnavalescos. Assim como os capoeiras do século XIX, que serviram de “baliza” para as bandas militares, eram os bambas que vinham à frente dos blocos, dançando ao redor do estandarte do grupo e ao mesmo tempo protegendo-o caso se encontrassem com blocos rivais, embalados pela música, gingando e dançando como se faz na capoeira, divertindo-se no carnaval, preparados para repelir qualquer ataque. Esse ritual mais tarde se tornaria uma das influências da coreografia do mestre-sala e da porta-bandeira.

Profundamente integrado à cultura popular da cidade, o bamba, que depois passaria a ser chamado simplesmente de malandro, vivia de pequenos expedientes, do jogo, do contrabando, da proteção de zonas de meretrício e casas noturnas e, mais tarde, do comércio do samba. Nesse ambiente marginal, vários malandros se tornaram famosos por façanhas que envolviam valentia e confronto com a ordem policial. O mais famoso deles foi Madame Satã.

Envolto em silêncio, o capoeira carioca deixou de se identificar como tal. Com o tempo, ele passou a se apresentar rebatizado como malandro ou bamba. Como afirmou o escritor e historiador Joel Rufino: “Caçada pela repressão a capoeira não acabou; o que nela havia de permanente, de essencial, sobreviveu na figura do bamba”. O capoeira só voltaria à cena novamente no Rio de Janeiro décadas mais tarde, assimilando a malandragem como uma de suas habilidades principais.

Mauricio Barros de Castro. Gangues do Rio de Janeiro imperial. In: Revista História Viva. Fevereiro 2011.