"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 13 de março de 2017

O Extremo Oriente na Antiguidade: Religiões

Figuras pintadas em uma telha cerâmica de um túmulo da dinastia Han Oriental, Luoyang, província de Henan. Artista desconhecido. 

Nas sociedades extremo-orientais, a religião era profundamente ligada à filosofia. Dessa interligação, e a partir de elementos comuns originários das religiões primitivas - como o culto aos mortos e aos antepassados, culto e sacralização (às vezes divinização) de forças da natureza, principalmente as ligadas à fertilidade da terra, e deuses astrais ou celestiais -, surgiram importantes sistemas religiosos e filosóficos que perduram até hoje.

* Bramanismo-hinduísmo. Religião que se compôs pelo sincretismo entre as formas praticadas pelas populações indianas aborígenes e as que foram introduzidas pelos dominadores arianos. O bramanismo é a expressão e a fundamentação ideológica do sistema que divide a sociedade em castas.

* Budismo. Doutrina criada por um princípe do clã Sakya Muni, chamado Sidharta Gautama, que se tornou o Buda (o Desperto ou o Iluminado). Ele nasceu na segunda metade do século VI a.C. e viveu até quase o final do século V a.C. Sua doutrina expandiu-se na Índia a partir da época do rei Açoka (273-232 a.C.) e atingiu todo o Extremo Oriente, graças ao trabalho de missionários hindus e de peregrinos estrangeiros, sobretudo chineses que buscavam os ensinamentos do Mestre. O budismo prega a plena realização da natureza humana e a criação de uma sociedade perfeita e justa. Aberto a todos os grupos sociais e culturais e a diferentes nacionalidades, hoje se faz presente também no Ocidente.

* Taoísmo. Religião popular na China antiga, baseada em uma fusão de cultos aos espíritos da natureza e aos ancestrais e nas doutrinas de Lao-tsé (570-490 a.C.), sobre o qual as informações existentes são carregadas de componentes lendários. Sua doutrina pregava uma moral de salvação individual, sem preocupação social, como forma de cada um integrar-se ao Tao, concebido como o Elã Cósmico e a Energia Universal.

* Confucionismo. Confúcio (Kung-fu-tzu, Mestre Kung), que viveu entre 551 a.C. e 479 a.C., não foi um líder religioso, mas suas ideias exerceram profunda influência sobre a religião chinesa. Para ele, a realização de uma existência desenvolvida sob o signo de Tao só seria possível numa sociedade justa e civilizada.

* Xintoísmo. De xintó, palavra de origem chinesa, que significa caminho ou via dos deuses. Era a religião original do Japão, anterior à penetração do budismo. Preservou-se como crença popular nas divindades locais, em oposição à crença em Buda, de origem estrangeira. 

O pensamento religioso e filosófico produziu, no Extremo Oriente, uma vasta e rica literatura.

Uma das obras mais importantes é o conjunto de textos hindus, conhecido como Veda, que significa o saber. É o principal fundamento para o bramanismo e expressa a dominação ariana.

Na China, a literatura religiosa, tal como a religião propriamente dita, assumiu um acentuado teor filosófico.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. Sâo Paulo: Saraiva, 2002. p. 88-9.

sábado, 11 de março de 2017

O Extremo Oriente na Antoguidade: economia e sociedade

Na estrada para Dwarka, Abhimanyu e Subhadra encontram Ghatotkacha. Cena da história do casamento de Abhimanyu e Vatsala. Artista desconhecido

O Extremo Oriente é a parte do continente asiático que, durante a Antiguidade, viveu processos históricos independentes do conjunto mediterrânico.

Esse afastamento, ou mesmo desligamento, não significou, porém, ausência de contatos: a área dos atuais Afeganistão e Paquistão foi intermediária entre as culturas do Extremo Oriente e as do Mediterrâneo (Ásia Ocidental), propiciando assim mútua influência. Além disso, existiram, desde as épocas mais remotas, relações comerciais entre as duas grandes regiões.

[...] 

[...] essas civilizações, ao contrário do que ocorreu com as civilizações centradas no Mediterrâneo, não se extinguiram. Elas passaram, evidentemente, por profundas e radicais transformações. Contudo, a ruptura com as características que as situavam em uma Idade Antiga foi bem mais tardia, ultrapassando em séculos a era cristã. Mas, ainda mais importante, para efeitos de diferenciação, é que essa ruptura não significou, aos respectivos povos, perda de identidade em relação ao seu passado remoto.

Os impérios orientais, apesar das distâncias e do isolamento em relação ao mundo mediterrânico, estabeleceram contatos políticos e militares com o Ocidente. Os territórios dos atuais Afeganistão e Paquistão foram áreas atingidas pelas conquistas persa e macedônica. A China, por sua vez, a partir do século IV, foi periodicamente invadida por nômades altaicos: hunos, turcos e mongóis. Esses grupos, usando cavalos, expandiram-se também sobre a Ásia Ocidental e a Europa, criando grandes impérios.

Dos hunos de Átila, do século V, aos mongóis de Gêngis Khan, dos séculos XII-XIII, a história do Extremo Oriente integrou-se à história europeia.

As sociedades antigas do Extremo Oriente estruturam-se também em uma base agrária.

A partir da economia agrícola, organizaram-se rígidos sistemas de divisão e estratificação sociais. O exemplo mais expressivo foi o sistema de castas da sociedade hindu.

O sistema de castas, cuja origem remonta ao período de instalação dos arianos, formou-se progressivamente no século I da era cristã. A distinção inicial estabeleceu-se a partir dos componentes étnicos. A palavra usada para indicar as castas (varna = cor) distinguia o invasor ariano, branco, do aborígene de cor escura. Na Índia védica (XVI-VII a.C.), apresentavam-se perfeitamente distintos os quatro grupos fundamentais: brâmanes (sacerdotes), xátrias (guerreiros), vaixás e sudras (trabalhadores).

De distinção étnica, o sistema de castas tornou-se a expressão das diferenças socioeconômicas, apresentando-se cada vez mais rígido. Ele estabelecia, ou pressupunha, uma total separação entre os grupos sociais: era proibido o casamento entre membros de castas diferentes. Além da distinção das funções, as castas tinham tipos e condições de vida distintos, inclusive as práticas e os ritos religiosos.

Mesmo onde e quando a sociedade não se apresentou tão rigidamente estratificada como na Índia, prevaleceu uma divisão segundo a qual os proprietários de terra constituíam a categoria social privilegiada e poderosa por excelência, enquanto o camponês, ou seja, o trabalhador da terra, compunha o segmento mais explorado e dominado.

Em todos os Estados extremo-orientais havia, também, a escravidão. O trabalho escravo, explorado pelos senhores de terra e, sobretudo, pelo Estado, representado pelo rei ou pelos templos, era largamente empregado nas grandes construções e em outras tarefas que exigiam mão-de-obra numerosa, como a irrigação de terras.

Os Estados do Extremo Oriente constituíram-se na forma de monarquias despóticas, nas quais se fundiam o poder político e o religioso. O soberano era chefe de Estado e sumo sacerdote, sendo em geral divinizado ou considerado descendente ou mandatário de deuses.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 86-8.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Império Mongol: uma grande ponte entre a Europa e a Ásia

Batalha entre mongóis e chineses, Rashid al-Din

O incrível Império Mongol formou-se à custa de terríveis destruições. E, no entanto, reinava aí o que se chamava de "paz mongol". Os comerciantes, as caravanas e os viajantes como Marco Polo, circulavam, sem serem atacados, através da rota da seda. Missionários cristãos atravessaram a Ásia sem problemas, porque os mongóis respeitavam a religião dos outros.

Temudjin tinha mandado redigir um código de leis, baseado nos costumes dos nómadas, introduziu nele regras de justiça e recomendava a honestidade, a fidelidade, a hospitalidade e o respeito pelos pais. No império assim unificado, as populações misturaram-se, os saberes trocaram-se do mar da China ao mar Mediterrâneo.

O Império Mongol é um exemplo único na história do homem, de um imenso Estado conquistado e governado por nómadas.

CITRON, Suzanne. A história dos homens. Lisboa: Terramar, 1999. p. 101-2.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Vida cotidiana em Constantinopla

Texto 1. Nas ruas de Constantinopla conviviam ricos e pobres, sem que houvesse diferenciação de locais para a construção de moradias. Era comum existirem quarteirões residenciais  elegantes rodeados por sobrados de madeira, ocupados por grupos médios ou ainda por pequenos casebres, pertencentes aos trabalhadores pobres. Contudo, a existência de muros altos em torno das moradias dos grupos privilegiados impedia o convívio entre pessoas de diferentes status sociais.


Mapa de Constantinopla. Desenhado pelo cartógrafo florentino Cristoforo Buondelmonti,1422.

Em Constantinopla, a vida urbana concentrava-se praticamente em torno de três grandes construções: a Igreja de Santa Sofia, o Hipódromo e o Palácio Imperial, que representavam respectivamente a religião, o povo e o poder do governo. Os prédios ficavam numa praça pública, bem próximos uns dos outros.

A Igreja de Santa Sofia, projetada e construída durante o reinado de Justiniano, entre 532 e 537, é uma das expressões máximas da arquitetura do Império Bizantino. Assim como grande parte das construções da civilização bizantina, as paredes internas de Santa Sofia apresentam ricas decorações de murais cobertos por mosaicos feitos com pedaços de vidro e pedra. Eles representam imagens de ícones religiosos e dos governantes. Há também mosaicos que trazem cenas da vida cotidiana e elementos naturais.

O Hipódromo era o local privilegiado de encontro entre os bizantinos. Nesse local aconteciam as corridas de biga, disputadas entre os partidos Verde e Azul. O primeiro representava as camadas populares, enquanto o último estava ligado à aristocracia. As roupas utilizadas durante os espetáculos no Hipódromo estavam entre os principais indicativos da condição social dos bizantinos.


O Palácio do Hipódromo. Século X, artista desconhecido.

Na maioria das vezes, o casamento dos nobres constituía um ato diplomático. Damas da sociedade eram enviadas a reinos estrangeiros distantes para desposar e "civilizar" nobres ricos e poderosos, ou seja, levar até eles a cultura helenística.

Alguns autores relatam que para o casamento de um imperador o processo era diferente. Era tradição que um grupo de funcionários reais saísse à procura de uma noiva por todo o território do império. As candidatas deveriam ser muito bonitas, discretas e possuir as medidas do busto, da cintura e dos pés de acordo com o gosto do rei.

A Igreja desempenhava um importante papel na educação das crianças. Tanto as famílias mais abastadas como as parcelas mais empobrecidas da sociedade tinham a oportunidade de mandar seus filhos para as escolas. O ensino religioso processava-se paralelamente ao laico. Nas escolas religiosas - com raras exceções - era permitido o estudo de escritores e filósofos pagãos. As crianças começavam a frequentar as escolas aos 6 anos de idade, e os filhos dos aristocratas faziam estudos mais aprofundados, equivalentes ao nível superior, por volta dos 18 ou 20 anos. Esses estudos incluíam a filosofia e conhecimentos gerais de matemática, geometria, música e astronomia.

Os segmentos mais pobres, no Império Bizantino, viviam melhor que os de outras sociedades cristãs da época. O desenvolvimento comercial, urbano e manufatureiro dos bizantinos propiciou maior estabilidade econômica para a população, aumentando a oferta de empregos.

Mesmo as camadas mais humildes de Constantinopla eram servidas por água abundante e canalizada. Esta era transportada por aquedutos e armazenada em muitas cisternas abertas e cobertas. Das cisternas, era encanada para fontes localizadas em esquinas de ruas e nas praças públicas, onde todos podiam servir-se gratuitamente. O esgoto era desviado para o mar por meio de um sofisticado sistema de drenagem subterrânea. A cidade dispunha de banhos públicos, acessíveis para homens e mulheres em horários diferentes, e o governo e a Igreja proporcionavam cuidados médicos e hospitalares para aqueles que não podiam pagar. BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. Das origens da humanidade à Reforma Religiosa na Europa. São Paulo: Moderna, 2010. p. 171-2.

Parábola dos trabalhadores da vinha. Evangelho bizantino, século XI, artista desconhecido.

Texto 2. O vestuário dos bizantinos era derivado ao mesmo tempo dos gregos, romanos e asiáticos. Durante oito séculos, o feitio quase não mudou. Homens e mulheres usavam túnicas com mangas e capas, tendo sido adotadas as calças (braccae) dos soldados romanos que atuaram no norte da Europa. O feitio característico, para ambos os sexos, mantinha um corte folgado para ocultar as formas do corpo. A moda bizantina reinou no mundo feudal da Idade Média Românica, pois Constantinopla era a Paris de então! O ouro dominou a escala de cores, ao lado do nobre púrpura, do vermelho, do marrom, do preto e do branco - cores observadas nos mosaicos bem conservados de Ravena que, aliás, não retratavam a classe popular. Os motivos de decoração eram formas diversas de animais e vegetais, além de símbolos cristãos como a cruz, o cordeiro e a vinha. Os tecidos nos circos eram brocados enriquecidos com bordados de prata, ouro e pedras preciosas. [...] Podem-se definir as ricas roupas da corte imperial como vestimentas hierárquicas, com um certo ar eclesiástico, nada de sedução nem muito menos de utilidade, demonstrando as influências do Oriente, com seu colorido forte, bem diferente da simplicidade dos velhos trajes romanos. A partir do século XIII. ocorreu uma orientalização maior nas roupas bizantinas. A vestimenta do clero continuava a ser ainda composta da dalmática, da stola e da paenula. [...] Capas, a paenula circular e a paladamentum semicircular, cobriam as túnicas compridas femininas. Um véu retangular tinha que cobrir sempre as cabeças das mulheres. Os decotes eram geralmente altos para os dois sexos. NERY, Marie Louise. A evolução da indumentária - subsídios para criação de figurinos. São Paulo: Senac, 2003. p. 55-6.

sábado, 8 de agosto de 2015

Pérsia sassânida امپراتوری ساسانیان

امپراتوری ساسانیان



A Pérsia dos partos entrou em colapso em 226 d.C., por causa de lutas internas. O ressurgimento da Pérsia aconteceu sob os sassânidas, cujo primeiro rei, Ardachêr I, governou de 226 a 241 d.C. Os reis sassânidas, de sua capital em Ctesiphon, às margens do Tigre, estabelecem um Estado mais centralizado do que o dos partos, conseguindo defender-se com facilidade dos romanos no oeste de seu país. Em 238 d.C., haviam conquistado as cidades fronteiriças de Nisbis e Hatra. No reinado de Shapur I (gov. 241-272 d.C.), os sassânidas deram um golpe duplo nos romanos, derrotando primeiramente o imperador Gordiam III, em 244 d.C., e em seguida Valeriano, em 260 d.C. Shapur parecia decidido a arrasar as províncias romanas do Oriente, porém o governante árabe de Palmira, na Síria, não o deixou passar.

Pavimento de chão representando uma mulher tocando harpa. Mosaico de mármore, ca. 260 d.C. Palácio de Sapor, Irã. Artistas desconhecidos


Nos três séculos que se seguiram, o pêndulo balançou entre vitórias dos romanos e dos sassânidas em uma região maciçamente defendida de cidades fronteiriças fortificadas. No início do séc, VII, Khusrau II Parviz (gov. 591-628 d.C.) finalmente rompeu esse equilíbrio, conquistando a Síria romana, a Palestina e o Egito, em 619 d.C. Porém, o Império Bizantino (romano-oriental) reagiu e recuperou todas as conquistas de Khusrau em 627 d.C. Os exaustos sassânidas foram então derrotados por exércitos árabes muçulmanos que os atacaram pelo sul e pelo oeste. Derrotado em Qadisia em 637 d.C. e em Nehavend em 642 d.C., o último rei sassânida, Yazdegird III (gov. 632-651 d.C.), retirou-se para o Oriente e morreu como fugitivo em Merv, na Ásia central.

CLARK, Philip. Guia ilustrado Zahar: história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 115.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O Império Bizantino e sua cultura (Parte 2): Arte e Legado

Retrato do Imperador bizantino Alexio I Comneno. Artista desconhecido.

- A arte bizantina. Os gostos do povo bizantino, inclinado ao luxo e ao esplendor, expressavam-se abundantemente na sua arte. Esta não era, contudo, um mero emblema de deleite sensorial, mas mostrava-se profundamente condicionada pelos ideias peculiares à própria civilização. Por exemplo, a forte corrente de ascetismo proibia a glorificação do homem; em consequência disso, a escultura não teve grandes possibilidades de desenvolvimento. A arte que mais se destacou foi a arquitetura, que tinha de ser mística e extraterrena. Além disso, sendo a civilização bizantina um composto de elementos romanos e orientais, era inevitável que a sua arte continuasse o amor à grandiosidade e o talento da engenharia romana com a variedade de colorido e a riqueza de detalhes característicos do Oriente.

- A Igreja de Santa Sofia. A suprema obra artística da civilização bizantina foi a igreja de Santa Sofia (Santa Sabedoria), construída com enorme dispêndio de dinheiro pelo imperador Justiniano. Embora projetada por arquitetos de sangue helênico, muito diferia de qualquer templo grego. Seu fim não era exprimir o orgulho do homem em si mesmo ou a satisfação com esta vida, mas simbolizar o caráter introspectivo e espiritual da religião cristã. Eis por que os arquitetos deram pouca atenção à aparência externa do edifício. Nas paredes exteriores não usaram senão tijolos recobertos com argamassa; não empregaram revestimentos de mármore, colunas graciosas nem cornijas esculpidas. O interior, no entanto, era decorado com mosaicos ricamente coloridos, com folhas de ouro, colunas de mármore de várias cores e pedaços de vidro colorido, colocados de quina para refletir os raios solares de modo que cintilassem como pedras preciosas. Por essa razão, também, o edifício foi construído de tal modo que parecia não vir nenhuma luz de fora, mas nascer toda ela no interior.

[...]

- Outras artes bizantinas. As outras artes bizantinas incluíam a escultura, em marfim, os objetos de vidro com relevos, os brocados, as iluminuras em manuscritos, a ourivesaria e a joalheria, e muita pintura. Esta, porém, não se desenvolveu tanto como as outras artes. Os artistas bizantinos em geral preferiam os mosaicos. Eram desenhos conseguidos pela combinação de pequenos pedaços de vidro ou de pedra coloridos, formando padrões geométricos, figuras simbólicas de plantas e animais, ou mesmo uma cena rebuscada de significado teológico. As representações dos santos e de Cristo eram comumente deformadas para criar a impressão de intensa piedade.

- A influência de Bizâncio na Europa Oriental. [...] Foi ela, sem dúvida, o fator mais poderoso na determinação do rumo da evolução da Europa Oriental. A civilização imperial da Rússia baseou-se em grande parte nas instituições e nas realizações de Bizâncio. A igreja russa foi um reflexo da chamada igreja ortodoxa grega ou igreja oriental, que se desligou de Roma em 1054. O czar, como chefe da igreja e do estado, ocupava uma posição análoga à do imperador em Constantinopla. Também eram de origem bizantina a arquitetura, o calendário e grande parte do alfabeto russo. [...]

- A influência bizantina no Ocidente. Mas a influência bizantina não se limitou à Europa Oriental. Seria difícil superestimar a dívida do Ocidente para com os eruditos de Constantinopla e dos territórios vizinhos, que copiaram e conservaram manuscritos, prepararam antologias de literatura grega e escreveram enciclopédias que enfeixavam os conhecimentos do mundo antigo. Além disso, os eruditos bizantinos exerceram influência notável na Renascença Italiana. A despeito de terem os imperadores orientais perdido finalmente o controle da Itália, muitos de seus antigos súditos continuaram a viver lá e alguns outros fugiram para as cidades italianas depois da repressão do movimento iconoclasta. As relações culturais entre o Oriente e o Ocidente foram também favorecidas pelo largo comércio entre Veneza e Constantinopla, na Idade Média. Consequentemente, as bases para um reflorescimento do interesse pelos clássicos gregos já tinham sido lançadas muito antes de Manuel Chrysoloras e outros eminentes eruditos gregos chegarem à Itália, no século XV. Do mesmo modo, a arte bizantina influiu na arte da Europa Ocidental. Alguns especialistas consideram os vitrais das catedrais góticas como uma adaptação dos mosaicos das igrejas orientais. Muitas das mais famosas igrejas italianas, como por exemplo a de S. Marcos, em Veneza, foram construídas partindo de uma fiel imitação do estilo bizantino. A pintura bizantina também influenciou a da Renascença, especialmente a da escola veneziana e a de El Greco. Finalmente, foi o Corpus Juris de Justiniano que possibilitou realmente a transmissão do direito romano à segunda fase da Idade Média e ao mundo moderno.

BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental. Porto Alegre: Globo, 1964. p. 295-297. [Volume 1]

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O Império Bizantino e sua cultura (Parte 1): Política, economia e sociedade

A embaixada de João, o gramático em 829, entre o imperador bizantino Teófilo (à direita) e o califa Abássida Al-Ma'mun. Séc. XII-XIII.  Artista desconhecido. 

"Tratava-se de um Estado multirracial, que aceitava como cidadão todo aquele que falasse grego e seguisse o cristianismo ortodoxo".(FRANCO JR., Hilário; FILHO, Ruy de Oliveira Andrade. Atlas História Geral. São Paulo: Scipione, 1994. p. 18)


- A fundação do Império Bizantino. No século IV Constantino fundou uma nova capital para o Império Romano, no local da antiga colônia grega de Bizâncio. Quando se desintegrou a metade ocidental do Império, Bizâncio (ou Constantinopla como a cidade passou a ser comumente chamada) sobreviveu como capital de um poderoso estado que incluía as províncias dos Césares no Oriente Próximo. Aos poucos esse estado veio a ser conhecido como o Império Bizantino, embora não fosse antes do século VI, claramente reconhecida a existência de uma civilização bizantina. [...]

- A cultura bizantina. Embora a história bizantina tenha abrangido um período equivalente ao da Idade Média, o padrão cultural era bem diferente ao que dominava na Europa Ocidental. A civilização bizantina possuía um caráter muito mais pronunciadamente oriental. Não só Constantinopla entestava com o Oriente, mas também grande parte dos territórios do Império se localizava fora da Europa. Os mais importantes dentre eles eram: a Síria, a Ásia Menor, a Palestina e o Egito. Além disso, elementos gregos e helenísticos entraram na formação da cultura bizantina em porção maior do que aconteceu na Europa Ocidental. A língua predominante do estado oriental era o grego, ao mesmo tempo que se caracterizavam como profundamente helenísticas as tradições literárias, artísticas e científicas. Por último, o cristianismo do Império Bizantino diferia do da Europa Latina por ser mais místico, abstrato e pessimista, e por estar mais completamente sujeito ao controle político.

- As nacionalidades do Império Bizantino. A população dos territórios sob o governo bizantino compreendia um grande número de nacionalidades. A maioria dos habitantes eram gregos e orientais helenizados: sírios, judeus, armênios, egípcios e persas. Além disso, as partes europeias do Império incluíam numerosos bárbaros, especialmente eslavos e mongóis. Havia, também, alguns germanos, mas em geral os imperadores de Constantinopla conseguiram desviar as invasões germânicas para o Ocidente. Por outro lado, foi-lhes muito mais difícil obstar aos avanços dos eslavos e dos mongóis. A pátria original dos eslavos [...] provavelmente ficava no nordeste dos Montes Carpatos, sobretudo no que hoje constitui a região sudoeste da Rússia. Sendo um pacífico povo agrícola, raramente recorriam à invasão armada, mas aos poucos, desde que surgia uma oportunidade, expandiam-se em territórios pouco habitados. Não somente dirigiam-se para os vastos territórios despovoados da Rússia Central mas também ocuparam muitas regiões abandonadas pelos germanos e, daí, aos poucos, se infiltraram através das fronteiras do Império Oriental. No século VII formavam o mais numeroso povo de toda a península balcânica e de toda a Europa a leste dos germanos. Os habitantes mongólicos da Europa incluíam os búlgaros e os ávaros, que chegaram à Europa vindos das estepes da região que forma hoje a Rússia Asiática. Ambos esses povos eram pastoris, dotados de grande energia e dos hábitos guerreiros peculiares a esse modo de existência. Depois de penetrarem no vale do Danúbio, muitos deles forçaram a passagem para o território bizantino. Foi a fusão de alguns desses povos mongóis com os eslavos que deu nascimento às nações modernas dos búlgaros, dos sérvios e outros.

[...]

- O governo do Império Bizantino. O governo do Império Bizantino assemelhava-se ao de Roma depois de Diocleciano, exceto quanto a ser ainda mais despótico e teocrático. O imperador era soberano absoluto, com poder ilimitado sobre todos os setores da vida nacional. Seus súditos não somente se prosternavam diante dele, mas ao fazer-lhe uma petição usualmente diziam-se seus escravos. Além disso, a dignidade espiritual do imperador não era de modo algum inferior à sua força temporal. Era o vigário de Deus, com uma maturidade religiosa equiparada à dos apóstolos. Embora alguns imperadores fossem administradores capazes e dedicados, a maior parte das funções efetivas do governo era exercida por uma vasta burocracia, muitos de cujos membros se distinguiam por sua alta eficiência. Um grande exército de amanuenses, inspetores e espiões mantinham um controle minucioso sobre a vida e as posses de cada habitante do país.

- O controle estatal do sistema econômico. O sistema econômico era tão estritamente regulamentado quanto o do Egito faraônico. O Império Bizantino foi descrito, mesmo, como o "paraíso do monopólio, do privilégio e do paternalismo". O estado exercia controle absoluto sobre quase todos os gêneros de atividade. O salário de cada trabalhador e o preço de cada produto eram fixados por decreto governamental. Em muitos casos não podia o indivíduo nem sequer escolher sua própria ocupação, uma vez que ainda se mantinha o sistema de corporações estabelecido no extinto Império Romano. Cada trabalhador herdava sua condição de membro desta ou daquela corporação, e as muralhas que cercavam cada organização eram hermeticamente fechadas. Também o produtor não gozava de maior liberdade. Não podia fixar por si mesmo a quantidade ou a qualidade da matéria-prima que desejava comprar, nem lhe era permitido adquiri-la diretamente. Não podia determinar o total da produção, nem em que condições venderia o produto. Todos esses assuntos eram regulamentados pela associação comercial a que pertencia, sendo esta, por sua vez, submetida à supervisão do governo. A fim de tornar menos dispendiosa a administração do sistema, os imperadores encorajavam negociantes rivais e trabalhadores a fazerem-se delatores uns dos outros. O governo possuía e movimentava certo número de grandes empresas industriais. Entre as principais contavam-se a da pesca da púrpura ou múrice, as minas, as fábricas de armamentos e os estabelecimentos têxteis. Em certa época tentou-se estender o monopólio à indústria da seda, mas as fábricas do governo foram incapazes de atender aos pedidos e foi preciso permitir que as manufaturas particulares reiniciassem a produção.

[...]

- Condições sociais no Império Bizantino. As condições sociais do Império Bizantino apresentavam contraste notável com as da Europa Ocidental na primeira fase da Idade Média. Enquanto grandes zonas da Itália e do sul da França haviam baixado quase completamente ao nível primitivo do ruralismo, a sociedade bizantina continuava a manter seu caráter essencialmente urbano e suntuário. Só na cidade de Constantinopla vivia cerca de um milhão de pessoas, sem falar nos milhares que residiam em Tarso, Nicéia, Edessa, Tessalonica e outros grandes centros urbanos. Os mercadores, banqueiros e industriais igualavam-se aos grandes proprietários de terras como membros da aristocracia, pois não havia a tendência, que existira em Roma, de desprezar o homem que auferia seus rendimentos da indústria ou do comércio. Os ricos viviam elegante e comodamente, cultivando como arte superior a satisfação de gostos opulentos. Uma grande parte da atividade industrial da nação era absorvida na produção de artigos de luxo para atender às necessidades das classes mais ricas. A seguinte lista compreende apenas alguns poucos artigos da produção suntuária das fábricas e oficinas, tanto públicas como particulares: magníficas vestimentas de lã e de seda entrelaçada de fio de ouro e prata, tapeçarias de brocado e damasco esplendidamente coloridas, primorosos artefatos de vidro e porcelana, evangelhos com iluminuras e raros e caríssimos adereços.

- As classes inferiores. A vida das classes inferiores era, em comparação, pobre e mesquinha, mas apesar disso é bem provável que o homem comum do Império Bizantino estivesse em melhores condições que o cidadão médio de muitas das outras partes do mundo cristão desse tempo. O largo desenvolvimento industrial e comercial e o alto grau de estabilidade econômica ofereciam oportunidade ao emprego de milhares de trabalhadores urbanos, exceto no período das invasões dos muçulmanos, quando Constantinopla se viu abarrotada de refugiados que não podiam ser absorvidos pelo sistema econômico. Mesmo a sorte dos servos adscritos às terras de alguns grandes proprietários seculares era possivelmente superior à dos camponeses da Europa Ocidental, pois que o poder de exploração dos senhorios ao menos era regulamentado por lei. Não obstante, a condição dos servos era bastante má, pois estavam condenados a uma vida de ignorância e estúpida rotina, limitada ao horizonte estreito em que nasciam. Sua condição era inalteradamente determinada pelo simples acidente de nascerem de pais servos. A população bizantina compunha-se também de uma percentagem considerável de escravos, mas grande parte deles eram empregados em serviços domésticos e gozavam, sem dúvida, duma existência mais ou menos confortável.

- Extremos de ascetismo e de sensualidade. O nível de moralidade do Império mostrava certos contrastes um tanto chocantes. O povo bizantino, a despeito de seus antecedentes gregos, não tinha na aparência nenhuma aptidão para as virtudes tipicamente helênicas do equilíbrio e da moderação. Em lugar do meio termo, parecia preferir sempre os extremos. Por conseguinte, encontravam-se frequentemente, lado a lado com a mais extravagante intemperança, a mais humilde anto-negação e até a laceração da carne. As qualidades contraditórias de sensualidade e de piedade, de caridade e de crueldade, eram comumente encontradas na mesma camada social ou até nos mesmos indivíduos. Por exemplo, o grande imperador reformista Leo III tentou abolir a servidão, mas também introduziu a mutilação como pena judiciária. A vida na corte imperial e entre alguns membros do mais alto clero parece ter-se caracterizado pela indolência, pelos vícios elegantes, pelas maneiras efeminadas e pela intriga. Em razão disso, a própria palavra "bizantino" veio a sugerir sensualidade elegante e refinamento de crueldade.

BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental. Porto Alegre: Globo, 1964. p. 283-285, 287-288, 291-292. [Volume 1]

sábado, 31 de maio de 2014

Legado da civilização sarracena

"Ilustração médica representando uma operação para castração". Charaf-ed-Din. C. 1466

Quase incalculável foi a influência da civilização sarracena na Europa Medieval e na Renascença, e alguma coisa dela certamente persistiu até hoje. A filosofia dos sarracenos foi quase tão importante como o cristianismo no fornecimento de uma base para o pensamento escolástico do século XIII, uma vez que foram os muçulmanos que tornaram acessíveis ao Ocidente as obras completas de Aristóteles e indicaram de modo mais completo o uso que se podia fazer de tais obras em apoio da doutrina religiosa. As conquistas científicas dos muçulmanos representavam contribuições ainda mais duradouras. A lista dessas contribuições inclui: a numeração arábica, a álgebra, descobertas médicas como o fenômeno do contágio e a natureza da varíola e do sarampo, numerosas drogas e compostos, e os processos químicos da sublimação e da filtragem. Embora a atividade dos sarracenos no campo literário não tenha sido tão extensa quanto na ciência, foi muito importante a sua influência literária. As baladas dos trovadores e alguns outros exemplares da poesia amorosa da França medieval inspiraram-se diretamente nas obras sarracenas. Algumas histórias das Mil e Uma Noites transparecem no Decameron de Boccaccio e nos Canterbury Tales de Chaucer, ao passo que o Livro dos Reis de Firdausi ofereceu a Matthew Arnold, escritor inglês do século XIX, o material para a sua história Sohrab and Rustum. Do mesmo modo, a arte sarracena teve uma influência de profundo significado, particularmente sobre a arquitetura gótica. Um número surpreendentemente grande de elementos arquitetônicos das catedrais góticas parece ter derivado das mesquitas e dos palácios muçulmanos. Uma relação incompleta incluiria: os arcos lobulados, as janelas rendilhadas, o arco ogival, o uso de caracteres e arabescos como recursos decorativos e possivelmente as abóbadas com nervuras. A arquitetura dos castelos medievais do segundo período era cópia ainda mais fiel das plantas de edifícios muçulmanos, em especial das fortalezas da Síria.


"Bayad toca o ud para as damas". Manuscrito árabe do século XII do conto Qissat Bayad wa Reyad

Finalmente, os sarracenos exerceram profunda influência no desenvolvimento econômico da segunda fase da Europa medieval e também do começo da Europa moderna. O reflorescimento do comércio que teve lugar na Europa ocidental durante os séculos XI, XII e XIII dificilmente teria sido possível sem o desenvolvimento da indústria e da agricultura dos muçulmanos, que estimulou a procura de novos produtos no Ocidente. Dos muçulmanos os europeus ocidentais adquiriram o conhecimento da bússola, o astrolábio, a arte de fabricar papel e talvez a produção da seda, embora o conhecimento dessa última possa ter sido obtido um pouco antes, do Império Bizantino. Além disso, é provável que o desenvolvimento, pelos muçulmanos, das sociedades comerciais por ações, cheques, cartas de crédito e outros instrumentos das transações comerciais, tenha larga relação com o início da revolução comercial da Europa, mais ou menos em 1400. Talvez seja mais claramente revelada a extensão da influência sarracena pelo grande número de palavras de origem árabe e persa usadas atualmente. Entre elas podemos citar: tráfico, tarifa, risco, cheque, magazine, álcool, cifra, zero, álgebra, musselina e bazar.¹

¹ Esta lista compreende somente palavras de formação árabe que penetraram na língua inglesa. O português e o espanhol, devido à longa ocupação da península ibérica pelos muçulmanos, contêm um número maior de palavras dessa proveniência e seus derivados. Entre elas contam-se muitas iniciadas pela sílaba al, que é o artigo definido em árabe. 

BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental: do homem das cavernas até a bomba atômica. Porto Alegre: Globo, 1964. p. 310-311. V. 1.


NOTA: O texto "Legado da civilização sarracena" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

As epopeias do Ramayana e do Mahabharata रामायण और महाभारत के महाकाव्य

रामायण और महाभारत के महाकाव्य

Rama sentado com Sita , abanado por Lakshmana, enquanto Hanumam faz reverência. Artista desconhecido

Composta entre 400 a.C. e 400 d.C., as duas epopeias se tornaram rapidamente os relatos literários mais populares da Índia, e isso apesar de sua extensão monumental: o Ramayana (As Gestas de Rama), conta com 24 mil versículos, enquanto o Mahabharata (A Grande Gesta de Bharata), é, com quase 100 mil versículos, a maior epopeia de todas as literaturas. As condições de elaboração desses gigantescos poemas não gozam sempre de unanimidade entre os indianistas: para alguns, elas devem ser atribuídas a um único autor, para outros resultam de adições e remanejamentos sucessivos. Seja como for, sua transmissão, pela recitação, pela canção, pelo teatro ou pela dança, nunca foi interrompida até nossos dias.


Krishna e Arjun na carruagem. Artista desconhecido

Pela riqueza de seu conteúdo, de inspiração religiosa e filosófica, essa literatura se dirige a todos. As crianças se entusiasmam com as façanhas maravilhosas do "deus macaco", Hanumam, que ajuda o príncipe Rama a libertar a bela Sita. Os letrados encontram no Bhagavad Gita (Canto do Senhor), que constitui o episódio mais famoso do Mahabharata, do que alimentar sua reflexão sobre os deveres das diferentes castas e a conformidade necessária de sua ação com o Dharma, a ordem cósmica.

Se as duas epopeias são inesgotáveis em matéria de mitologia, é difícil extrair delas fatos de valor histórico. Ainda que certos especialistas tenham visto no Mahabharata  um reflexo dos enfrentamentos que ocorreram entre os árias (ou arianos) e as populações autóctones, no 2º milênio a.C., o significado histórico dessa obra reside sobretudo no fato de que é uma resposta - ou, melhor, uma réplica - dos brâmanes diante da expansão do budismo.

SALLES, Catherine (dir.). Larousse das civilizações antigas 3: das Bacanais a Ravena. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 251.

NOTA: O texto "As epopéias do Ramayana e do Mahabharata रामायण और महाभारत के महाकाव्य" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 29 de março de 2014

No, as origens do teatro japonês 能

能

O movimento artístico que se desenvolveu durante o predomínio dos Ashikaga foi fruto, sobretudo, do mecenato dos xoguns e da forte influência exercida pelos mosteiros zen na cultura japonesa da época. Além da pintura à maneira dos grandes paisagistas Song, da arte da jardinagem, dos arranjos florais e do ritual da cerimônia do chá – todos elementos fundamentais da cultura clássica japonesa – esse período destacou-se, no século XII, pelo surgimento do No, uma forma de drama lírico bastante apreciado pela aristocracia e que serviria de modelo ao teatro nacional japonês.


Nogaku zue, Kōgyo Tsukioka

Denominado drama musical, drama poético ou drama dançado, o No constituiria uma das mais importantes contribuições do Japão à arte mundial. Bastante estilizadas, suas peças possuem uma alta qualidade literária, muito superior à do Kabuki, teatro popular que seria desenvolvido mais tarde, a partir do século XVII.

Atribui-se a origem do No a primitivas formas de espetáculo, relacionadas às danças e pantomimas que faziam parte dos ritos celebrados para se obter boas colheitas e, também, ao repertório de fantasias inspiradas no xintoísmo. Antes de se converter no passatempo preferido da nobreza, o No era encenado nos templos budistas, cujos monges costumavam convidar grupos de artistas ambulantes para apresentar espetáculos de danças e canções e, assim, atrair o público por ocasião das grandes festas religiosas. Com o tempo, esses comediantes passaram a adaptar seus repertórios ao gosto dos poderosos senhores que os contratavam, encenando farsas e intrigas que, pelo ritmo, tom e intenções, assemelhavam aos autos encenados diante das catedrais ocidentais durante a Idade Média.


Nogaku zue, Kōgyo Tsukioka

No século XIV, Kanami Kujotsugu (1332-1384), ator e autor que chefiava um desses grupos ambulantes, deu novas características aos espetáculos tradicionais do No. Isolando o elemento cômico do dramático, escreveu uma série de peças curtas, dotando-as de grande força poética. Seu filho, Zeami Motokujo (1363-1443), continuou essa reforma, codificando as regras cênicas que caracterizaram o No. Em seu manual Tradição Secreta do No (descoberto somente em 1906), Zeami transmitia confidencialmente a seus sucessores uma “estética teatral” repleta de reflexões muito originais sobre as relações entre o ator e o público.

Embora o cenário utilizado nos espetáculos do No fosse de uma rigorosa simplicidade, os trajes dos atores possuíam riqueza e colorido excepcionais, com máscaras que podem ser consideradas verdadeiras obras de arte. Os atores, todos homens, eram treinados desde a infância, quando já aprendiam que até o mínimo gesto deveria estar carregado de significação.

Patrocinado pelos xoguns, o No passou a ter como temática, por muito tempo, as virtudes dos cavaleiros, recebendo proteção oficial sobretudo nas escolas de Kanze, Komparu, Hosho, Kongo e Kita, criadas para a sua preservação.


HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 124 e 129. Vol. II.

domingo, 3 de novembro de 2013

As religiões de salvação

A religião de Zoroastro, que nasceu no Irã talvez antes de 1000 a.C. (da qual restam, hoje somente 130.000 praticantes, dentre os quais os mais conhecidos são os pársis da Índia) introduziu ideias novas no mundo das religiões: a da existência de um princípio do bem e um princípio do mal que se enfrentam (o que denomina-se, comumente, de dualismo que, através do maniqueísmo, chegará a muitas heresias cristãs) e a crença de que, no fim da vida, há um juízo em que são pesadas todas as ações humanas e que, como conseqüência deste juízo, todos os que merecem têm um céu e os que não, um inferno; ao final do mundo haverá, além do mais, um juízo geral e uma ressurreição. Essas ideias sobre a sobrevivência fantasmagórica dos mortos, passaram ao judaísmo e, através deste, ao cristianismo.



A história do judaísmo é difícil de ser seguida pois os textos em que nos baseamos, denominados pelos cristãos de Antigo Testamento, foram compilados e corrigidos muito mais tarde, entre 600 e 100 a.C. Sua religião tinha, inicialmente, um deus supremo, El, até que os seguidores de Moisés conquistaram a terra de Canaã em nome de um novo deus chamado Jeová, uma divindade da tempestade. O reino de Israel foi unificado por Davi, ao redor de 1000 a.C. e seu filho Salomão construiu, na capital Jerusalém, um templo em honra ao deus supremo Iahvé, o que impedia que também fossem venerados outros deuses até que, em 600 a.C., surgiu o movimento que faria de Iahvé o deus único. A religião dos judeus incorporou as ideias de salvação e de um apocalipse, que seria sucedido por um mundo em paz, somente depois do exílio da Babilônia: as ideias de raiz zoroástrica que se desenvolveram nos grupos de Qumran e entre os cristãos, passando a fazer parte de nosso caudal de crenças. Um aspecto importante da evolução religiosa dos judeus foi a confrontação entre o conservadorismo do clero do Templo e a atuação crítica e renovadora dos profetas.

A derrota da resistência judaica à dominação romana iniciou a longa etapa do judaísmo rabínico em que a religião centrada no estudo do Tora (Bíblia hebraica e, especialmente, seus cinco primeiros livros, o Pentateuco, atribuídos a Moisés) e na oração iria converter-se no signo de identidade e o traço de união das comunidades judias, que reforçaram, por este motivo, a observação dos ritos e das normas jurídicas compiladas no Talmud.

A diáspora, que dispersou os judeus e espalhou sua cultura, dividiu a cultura rabínica em dois grandes ramos, a dos askenazies, no centro e leste do continente e a dos sefarditas, na Península Ibérica, que contribuíram em grande medida para o florescimento místico da cabala que, após a expulsão dos sefarditas da Espanha em 1492, alimentou as correntes de esperança messiânica que culminaram, no século XVII, com o aparecimento, na Turquia, de um homem nascido em Esmirna em 1626, Sabatai Zeti, que se proclamava o Messias esperado, abalando as comunidades judaicas europeias.

Após o fracasso do “sabatismo” – o pretenso Messias foi obrigado, pelos turcos, a converter-se ao Islamismo – as esperanças apocalípticas que ele alimentara conservaram-se em um substrato cabalístico – sabatista que influiu nas duas correntes divergentes do haisidismo piedoso e puritano (nascido na Europa do leste e que tem hoje, seus grupos mais representativos em Nova York) e do “frankismo”, que combinava o gosto por aspectos esotéricos do cabalismo com uma preocupação ilustrada (com personagens como Moses Dobruska, um sabatista que militou com os jacobinos na Revolução Francesa e foi guilhotinado com Danton, em 1794).

No transcurso dos séculos XIX e XX, as correntes modernizadoras conduziram, em grande parte, o judaísmo europeu a uma direção secularizadora que culminara com o sionismo, em que a velha esperança messiânica transformou-se na vontade política da refundação de um Estado de Israel.


FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: Edusp, 2000. p. 300-301.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

As grandes religiões do Oriente

O hinduísmo é uma das grandes religiões antigas que chegaram até o presente, sendo, também, uma das que apresentam maior diversidade interior. Seus textos sagrados mais antigos, os Veda (“saber”), contêm hinos que datam de, ao menos, mil e quinhentos anos antes de nossa era e se referem aos deuses dos indo-europeus, como o deus do céu, Dyaus Pitar, que é o Zeus dos gregos e o Júpiter dos romanos (o nome provém de uma voz que significa “luz celestial” e deu lugar, também, a nossa palavra “dia”). Porém, o hinduísmo sofreu uma grande transformação com a introdução das ideias da reencarnação, liberação e yoga entre os anos 800 e 400 a.C., numa época caracterizada por um novo conjunto de textos sagrados, os Upanixades ou “ensinamentos secretos”, complementando o corpo inicial dos Veda, escritos numa língua que havia se tornado incompreensível para os fiéis, com textos de uma grande diversidade que vão desde códigos, como as Leis de Manu, até as duas grandes epopéias do Mahabbarata e o Ramayana, ou a vasta literatura dos Puruna, dedicados geralmente a deuses concretos e a seus mitos particulares.

No hinduísmo, havia uma grande multiplicidade de deuses – diz-se que até 330 milhões -, entre os quais se distinguiam três figuras principais – Brahma (o Criador) e suas duas manifestações complementares Vishnu (o Preservador) e Shiva (o Destruidor) – com suas respectivas deusas consortes, concebidas como manifestações pessoais de força criativa (o pensamento indiano considerava a fêmea como ativa e o macho como mais passivo). Os deuses podiam receber diversos nomes (assim Vishnu seria, em diversos “avatares” ou encarnações, Rama ou Krishna) e aparecer em numerosas variações locais, de maneira que o hinduísmo poder ser interpretado como um politeísmo extremo ou como uma espécie de panteísmo que venera, mais que deuses distintos, formas diversas da divindade.


O Budismo se baseia na vida e nos ensinamentos de Siddartha Gautama (século VI a.C.), chamado Buda o Iluminado, que ensinou a forma de superar a miséria da existência e de chegar a um estado de iluminação por meio de um processo de purificação moral e intelectual. O ensinamento de Buda, transmitido de forma oral e recolhido, mais tarde, nos textos da “cesta tripla” ou “tripitaka”, não é, estritamente, uma religião – não contém a ideia de um deus ou ser supremo que controle o universo -, mas sim uma regra de vida que ensina a forma de libertar-se das baixezas e sofrimento da existência indo até à extinção ou nirvana.

O fato em si de que o Budismo não tenha um dogma nem uma autoridade religiosa – Buda não deixou nenhum sucessor pessoal -, ocasionou que sua expansão tenha se produzido de acordo com modalidades diferentes. No Sri Lanka, manteve-se em sua maior pureza o Budismo Theravada, que estabeleceu o que se chamou de um “misticismo sem deus”, no qual se utilizam técnicas de lavagem cerebral semelhantes às dos contemplativos islâmicos ou cristãos para chegar a um estado de libertação pessoal. Na Índia, ao contrário, desenvolveu-se, a partir do século VII de nossa era, o chamado Budismo Vajrayana ou Mantrayana, que poria a ênfase em ritos mágicos e sacramentais e na recitação de “mantras” ou fórmulas sagradas. Esta modalidade, que na Índia foi assimilada gradualmente pelo hinduísmo (o que explica que o Budismo acabou ali), foi a que se difundiu no Nepal e no Tibete, onde após o enfrentamento armado entre duas facções religiosas, acabou constituindo uma teocracia que destituiu a monarquia, dando o poder político e religioso aos 14 Dalai Lamas que foram se sucedendo, desde Gedun Truppa (1391-1475) até Tenzin Gyatso (nascido em 1935). A expansão pela China, Vietnã, Coréia e Japão fez com que o Budismo se associasse, nesses países, a outras tradições religiosas, dando origem a correntes originais, como o zen japonês.

A China é descrita, geralmente, como “a terra das três religiões”, referindo-se ao confucionismo, ao Taoísmo e ao Budismo. Entretanto, o confucionismo não é propriamente uma religião, mas uma norma social e de conduta, ainda que inclua manifestações de culto, especialmente aos antepassados. Não tem dogmas, nem clero, nem templos, nem monastérios, o que explica que seja confundido com a cultura tradicional chinesa. O Taoísmo religioso, que não deve ser confundido com o filosófico, é uma religião popular com uma hierarquia clerical, liturgia, textos sagrados e um panteão de deuses santos. Não tem uma organização nem um credo unificados, mas apresenta uma espécie de federação de comunidades, em sua maior parte laicas, que tem especial importância em Taiwan e em Hong Kong. O Budismo, que se difundiu na China a partir do século II de nossa era, o fez através de variantes ecléticas, próximas da prática do Taoísmo. A religião popular, o que melhor se pode qualificar como “religião chinesa”, formou-se com um conjunto de ideias e de práticas provenientes tanto do Taoísmo, como do Budismo e da “religião do Estado”, convencionalmente denominada de confucionismo (uma combinação normal seria, por exemplo, a de tomar as normas do confucionismo como guia da vida cotidiana, recorrer ao Taoísmo para os ritos de purificação e dos exorcismos, e ao Budismo, para a celebração dos funerais).

Resta, ainda, o xintoísmo japonês, que não é outra coisa do que um amálgama de religiões tradicionais anteriores à chegada do Budismo, tendo vivido longamente associado a este, já que a doutrina e o culto xintoísta eram compatíveis. A restauração Meiji de 1868 quis convertê-lo em uma religião nacional, unida ao culto do imperador, porém teve que acabar aceitando a coexistência das “três religiões” (xintoísmo, Budismo e cristianismo) e perseguindo as seitas extremistas e as novas religiões. Apesar do imperador ter sido “desdivinizado” em 1945, como conseqüência de sua derrota na Segunda Guerra Mundial, os japoneses continuam participando das festas e dos ritos xintoístas, como se fossem atos de uma cultura que lhes é própria.


FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: Edusc, 2000. p. 295-298.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Os reinos combatentes (479-221 a.C.)

O período dito dos “reinos combatentes” estende-se aproximadamente da morte de Confúcio (479 a.C.) à fundação do Império, em 221 a.C. É uma época de aceleração da história: as transformações políticas, econômicas e sociais dos séculos VIII-VI foram concluídas. O território chinês, ainda nominalmente sob a autoridade do rei da dinastia dos Zhu, é dividido em vários principados que se entregam a guerras mortíferas, segundo alianças e reversões incessantes, terminando com a vitória fulgurante do reino de Qin, que reunificará o território.

A guerra se transforma: é mais longa, mais “profissional”, realizada por exércitos de soldados de infantaria anônimos enviados ao matadouro e com armas de ferro mais sofisticadas. É dessa época que data a estratégia militar chinesa e o famoso tratado, a Arte da guerra. Nos principados, os soberanos já se cercam de conselheiros, antepassados dos letrados do Império. É o momento das reformas administrativas políticas, econômicas (generalização do distrito, do imposto, do serviço militar) e dos grandes trabalhos de valorização do território, embora novas mentalidades apareçam, voltadas para a eficácia ou até mesmo para o cinismo.

Um dos personagens-chave dos reinos combatentes é o rico mercador, que detém um papel político junto aos príncipes. A guerra estimula, com efeito, a economia: a produção agrícola, nervo da guerra, mas também a indústria mineira e a metalurgia. As cidades, os contratos, as moedas se desenvolvem.

Bronze, século III

 A essas transformações corresponde uma efervescência intelectual intensa: a grande liberdade de expressão favorece a eclosão de múltiplas correntes de pensamento, que estão na origem da cultura chinesa, e cujos partidários se enfrentam por meio de escritos interpostos ou por meio da retórica. Os reinos combatentes ainda não revelaram todos os seus segredos: continua-se hoje a fazer descobertas arqueológicas sensacionais que confirmam que a China da época era a um só tempo avançada e multicultural.


SALLES, Catherine [dir.]. Larousse das civilizações antigas 2: da Babilônia ao exército enterrado chinês. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 186.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Os Vedas, literatura sagrada da Índia

Críxena (à esquerda), a oitava encarnação de Vishnu, com sua consorte, Rada. Pintura do século XVII.

Os textos védicos são os primeiros monumentos literários da Índia. Considerados como "Revelação", constituem os textos fundamentais do hinduísmo. Os Vedas, palavra sânscrita que significa o "Saber" por excelência, cada uma das quatro grandes coletâneas de textos, entre os quais o Rigveda, o "Saber disposto em estrofes", que é o mais antigo. Se os Vedas só foram postos por escrito a partir de 500 a.C., concorda-se que esses escritos fixaram tradições bem anteriores.

Os primeiros textos foram compostos por volta de 1500 a.C., a seguir foram transmitidos oralmente durante gerações pelos árias (ou arianos), um povo originário da Ásia central que se estabeleceu na Índia a partir de 1000 a 800 a.C. Nada tem de surpreendente o fato de o período de transmissão oral ter sido tão longo - prosseguindo mesmo depois que a escrita entrou em uso: para os hindus, tal como foi transposto em palavras por sábios míticos, os Vedas, que são intemporais e de inspiração divina, devem ser "ouvidos". É por isso que Veda é também chamado de a "audição" e, hoje, ainda a regra é que seja aprendido de cor, da boca de um mestre.

Além dos conhecimentos relativos aos mitos e aos ritos sacrificiais, o Rigveda nos ensina que a religião védica preconiza uma sociedade ideal dividida em quatro grandes classes hierárquicas: no alto estão os brâmanes, sacerdotes depositários dos Vedas, seguidos dos guerreiros e dos produtores de bens. Vêm, por fim, os servidores, que não têm acesso aos textos sagrados. Essa estrutura sociorreligiosa está na base do sistema de castas que sobrevive até nossos dias.

SALLES, Catherine [dir.]. Larousse das civilizações antigas 1: dos faraós à fundação de Roma. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 43.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Impérios marítimos e terrestres no Sudeste da Ásia: Srivijava e Khmer

A importância de alianças pessoais - baseadas em laços de parentesco ou em relações contratuais - pode ser vista na forma que até impérios tomaram em algumas partes do mundo. Os Estados do sudeste da Ásia podem ser pensados como sistemas complexos de lealdades pessoais que formaram a base de relações de poder, mais do que como territórios com limites definidos administrados por representantes de um ou outro governante. Os limites precisos dos territórios controlados por um governante não eram uma preocupação principal; o que importava era a rede de lealdades das quais o governante poderia depender. Os impérios marítimos e terrestres do sudeste da Ásia são exemplos disso.

O grande império insular de Srivijayan (670-1025) foi construído sobre a riqueza produzida pelo comércio marítimo, juntamente com uma combinação de força militar e perspicácia política do datus (chefes ou governantes) da capital, Palembang, na ilha de Sumatra. Dadas as flutuações do comércio internacional e as variações nas habilidades humanas, o poder militar e a capacidade política, sozinhos, eram insuficientes para garantir a sobrevivência de Srivijava. Os líderes precisavam também de um sistema de crenças que pudesse unir as regiões conquistadas, com diferentes religiões e grupos étnicos, sob uma lealdade comum a Palembang, Os governantes de Srivijava encontraram tal ideologia unificadora na religião universal do budismo.

O budismo cresceu rapidamente no arquipélago sudeste-asiático durante o século XII. Inscrições rupestres antigas, em Palembang, revelaram que houve um governante que misturou o imaginário local da montanha sagrada e do mar com a veneração tradicional dos ancestrais com símbolos budistas e éticos. Os temas budistas impostos sobre as tradições nativas providenciaram um conjunto comum de ideias que transcendiam as comunidades locais. Para reforçar essa ideologia e construir o prestígio regional sobre ela, os governantes de Srivijava utilizaram alguns dos lucros de seu império para serem patrocinadores da escolástica budista em seus territórios e financiar grandes construções de templos, como o grande monumento budista de Borobudur, do século VIII, na ilha de Java. Nos séculos X e XI, o império dedicava-se a templos em locais tão distantes quando Bengala e a costa sudeste da Índia.

No sudeste do continente asiático, o Império Khmer (802-1432), em seu auge no século XII, controlava provavelmente um milhão de pessoas na área dos atuais Camboja, Laos, Tailândia e partes de Burma, Vietnã e da península malaia. Uma rede de canais, utilizados tanto para transporte como para irrigação, ligava fisicamente o Estado Khmer, e os reservatórios ajudavam a controlar a precipitação irregular de um clima de monções, estocando a água das chuvas de monções para uso posterior.

Tanto o hinduísmo quanto o budismo sancionaram a autoridade dos governantes e os laços culturais e religiosos comuns entre o povo Khmer. Seus governantes misturaram o hinduísmo com as crenças nativas para consolidar seu poder sobre o território em expansão, e a linguagem sânscrita foi adotada pela Corte Khmer. A adoração do deu hindu Shiva, que era identificado como o "Senhor da Montanha", estava ligada à crença nativa na santidade das montanhas, a casa dos espíritos ancestrais. A adoração a Shiva foi formalizada no culto ao devaraja (deus-rei), do governador Jayavarman II (770-834), que construiu o Estado Khmer, por meio de uma combinação de conquista e formação de uma rede de alianças pessoais. Seguindo Jayavarman, as estátuas dos deuses eram fundias com a pessoa do governante, simbolizada pela emergência do título pessoal do monarca com o nome de um deus. Após o século XII, na cidade capital de Angkor Thom, o domínio budista era refletido pelas fachadas do complexo de templos de Bayon, que retratavam a divindade budista de Lokeshvara. Essa divindade budista era identificada com o construtor de Angkor Thom, Jayavarman VII (1181-1218?), cuja autoridade foi reforçada por meio do novo culto ao Buddha-raja (rei-Buda).

Projetos de obras públicas massivas, realizados pela monarquia Khmer, como o complexo de templos hindus de Angkor Wat (wat significa "templo") construído no século XII, são testemunhos da habilidade do Estado Khmer em coletar e redistribuir recursos econômicos em grande escala. Isso foi realizado por meio de uma rede de templos, que serviam como centros de redistribuição, de vilas para templos locais, e subindo hierarquicamente até o templo central na capital do reino. Dessa forma, tanto a riqueza material quanto a capital simbólica, os símbolos culturais e religiosos utilizados para integrar a sociedade Khmer, foram distribuídos por uma complexa rede de templos espalhada pelo reino.



Angkor Wat

Embora o Khmer não tenha controlado o comércio marítimo que o teria permitido conectar os arredores agrícolas ao comércio marítimo, como fez Srivijava, ambos os impérios controlaram recursos massivos, incorporando diferentes povos e culturas dentro de seus reinos, e criando bases ideológicas com o uso da hinduísmo e do budismo, que unificaram a região sob seu controle. Tanto no Império de Srivijaya, quanto no Khmer, novas identidades coletivas foram construídas por meio da religião e suportadas por riquezas econômicas produzidas pelo trabalho de pessoas envolvidas na agricultura ou no comércio marítimo e fluvial. Templos e outros monumentos religiosos foram expressões vitais da identidade coletiva, conforme eles manifestam a riqueza material comandada por governantes e sancionada pela religião. As alianças pessoais estão no coração de ambos os impérios, e não há dúvida de que estavam presentes em um âmbito local, onde eles faziam parte de uma vida cotidiana que permanecia sem registros. As pessoas continuaram a se identificar intimamente com os parentes e com a vila, mesmo quando eles viviam à sombra de poderosos impérios.

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 204-206.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O mundo mediterrâneo às vésperas das Cruzadas 2: o mundo bizantino

Cruzados atacam Constantinopla em 1204, artista desconhecido

[Em Bizâncio, o brilho da civilização urbana mascara o enfraquecimento político] Em 1025, por ocasião da morte de Basílio II, o Império Bizantino estava em seu apogeu. Cobria toda a Ásia Menor até a Armênia, o norte da Mesopotâmia e da Síria, Chipre, Creta, os Bálcãs, com todas as regiões compreendidas ao sul do Danúbio até Trieste e uma parte da Itália do Sul. Sua defesa era assegurada pelo exército (de soldados profissionais) da capital, reforçada pelos das diversas thémas, ou regiões. Sobre esse imenso conjunto reinava o imperador, o basileu, herdeiro direto dos imperadores romanos. O imperador bizantino era a lei encarnada, o eleito de Deus, o intermediário entre Deus e os homens, o agente supremo da justiça sobre a terra. Na prática, ele era tão poderoso quanto as condições da época o permitiam. A Administração formava uma rede que buscava circunscrever toda a sociedade do império. Na verdade, se desincumbia mal dessa tarefa, pois o império era muito vasto e os deslocamentos eram lentos.

As cidades renasceram a partir da metade do século IX e a capital, Constantinopla, excepcional em todos os sentidos, se aproximava do meio milhão de habitantes, ou seja, a metade de Bagdá. Distinguia-se pelo esplendor de seus monumentos: igrejas, palácios, residências suntuosas, muralhas do século V que desafiaram os invasores. Centro de cultura, a “Cidade” era também o centro econômico e social do império. Graças a seus comerciantes, estava na encruzilhada do mundo medieval, tanto pelos laços estabelecidos com o Islã como com o Ocidente bárbaro e com as planícies da Rússia.

[Inteiramente dedicado à sua prosperidade econômica, o império se põe, pela primeira vez em sua existência, em estado de paz] A aristocracia militar e rural via seu poder enfraquecido pela ascensão de novas classes sociais. Os imperadores renunciaram às conquistas, dissolveram os exércitos das thémas e deram acesso às funções imperiais e às dignidades a homens originários da burguesia rica da cidade, formados nas universidades. Enquanto isso, acontecimentos externos virão oferecer à aristocracia a oportunidade de um retorno ao poder. Invasores se apresentaram nas fronteiras: normandos da Itália do Sul a oeste, turcomanos a leste. Os turcos desfecharam invasões por toda a Ásia Menor até o mar de Mármara e ali se instalaram.

Em 1081, Aleixo I Comneno, oriundo de uma grande família da Ásia, tomou o poder e reagiu contra a política de seus predecessores, afastando a burguesia responsável pelas atividades comerciais e financeiras. Para reconquistar os territórios perdidos, ele pediu soldados ao papa. Em seu espírito, este pedido não comportava nenhuma ambiguidade: era uma questão de obter mercenários, não de requisitar a intervenção de exércitos ocidentais.

[Apesar de separados pela religião, os bizantinos sentiam-se mais próximos dos muçulmanos do que dos ocidentais] No princípio do século X, o patriarca Nicolas Mystikos escreveu a um emir muçulmano que existiam duas soberanias: “a dos sarracenos e a dos romanos que inundam com sua luz o conjunto da Terra. Portanto, é preciso viver em comunidade e em fraternidade com ambas; não é porque sejam separadas por modos de vida, costumes e religião que devem ser hostis uma com a outra.” Ao longo das guerras e por meio do comércio em tempos de paz, bizantinos e muçulmanos criaram laços e aprenderam a se conhecer. Com relação aos ocidentais, entretanto, os bizantinos nutriam sentimentos de condescendência, desprezo e desconfiança. Essa diferença de mentalidades se traduzia no domínio religioso. Em 1055, os legados do papa excomungam o patriarca Miguel Cerulário. A excomunhão não dizia respeito à Igreja ortodoxa, somente à pessoa do patriarca. Para justificar a tomada de Constantinopla pelos cruzados em 1204, o papado transformaria, a posteriori, este incidente em cisma. Porém, mais grave que este acontecimento simbólico, uma mentalidade carregada de mal-entendidos opunha bizantinos e ocidentais.

TATE, Georges. O Oriente das Cruzadas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. p. 24-27.