"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 23 de março de 2014

Os quakers e os católicos nas colônias inglesas da América do Norte

Em 1682, Lord Baltimore obteve da Coroa inglesa a concessão de um território na América do Norte, situado ao sul das possessões holandesas e ao norte da Virgínia, ao qual deu o nome de Maryland. Tendo recebido amplos poderes para governar e legislar, Baltimore instaurou nessa colônia - a única católica - um regime de liberdade religiosa, expressa no Ato de Tolerância de 1649. Essa medida levou muitos puritanos  que não haviam se adaptado à rigidez das leis em outras colônias a se transferirem para Maryland. A economia da colônia baseava-se no cultivo do tabaco, e os agricultores locais - a exemplo do que ocorrera na Virgína - logo recorreram ao trabalho escravo. Para isso muito contribuiu o sistema de distribuição da terra que, ao contrário do que ocorria nas colônias do norte, se caracterizava pelo predomínio da grande propriedade.

Nessa mesma região, surgiu por volta de 1680 a primeira comunidade de colonos quakers, fundada por William Penn (1644-1718), que deu origem à colônia da Pensilvânia. Ao seu principal núcleo povoador foi dado o nome de Filadélfia, cujo significado - amizade e fraternidade - constituía dois pontos básicos do pensamento religioso dos quakers. Membros de uma antiga seita protestante, a chamada "Sociedade dos Amigos", eles não possuíam dogmas, nem uma estrutura eclesiástica, acreditando na livre interpretação da Bíblia e em um relacionamento direto entre Deus e o homem. Sua doutrina religiosa baseava-se na total recusa à violência e à submissão às leis da Igreja e do Estado. Assim, os fiéis orientavam-se nas questões religiosas de acordo com sua consciência e, no plano civil, recusavam-se a pagar impostos.

William Penn negocia um tratado de paz com os índios, Benjamin West

Como consideravam o território americano uma espécie de Terra Prometida, os quakers nele fundaram comunidades abertas a todos os que sofriam perseguições por motivos religiosos, criando uma sociedade relativamente democrática e estabelecendo relações amistosas com os indígenas. Com a chegada de outros grupos de colonos, porém, começaram a ocorrer conflitos que abalaram a primitiva organização social e política dos quakers. Mesmo assim a experiência realizada por esse grupo deixou marcas profundas no processo de colonização da América do Norte, pois suas características essenciais foram herdadas por minorias inspiradas nos mesmos ideais religiosos.

História das Civilizações. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 72 e 74. Volume 4.


NOTA: O texto "Os quakers e os católicos nas colônias inglesas da América do Norte" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Presença estrangeira no Antigo Egito

Joseph, Lawrence-Alma Tadema

Os faraós sempre apresentaram o Egito como uma terra inexpugnável, numa espécie de mistificação que tinha a ver com o poderio militar e com a autoridade religiosa de que eles gozavam. À integridade do território, eles procuravam garantir castigando exemplarmente aqueles que tentavam violá-la. Mas, a realidade era bem diferente. O Egito foi sempre um país poroso, cuja prosperidade atraía seus vizinhos famélicos. No Alto Egito, os planaltos desérticos eram cortados em todas as direções por pequenos cursos d’água que conduziam ao vale do Nilo.

No Baixo Egito, os líbios haviam se acostumado a se espalhar pelo delta. A leste, as zonas pantanosas eram assombradas por populações marginais, e o “caminho de Hórus” ligava o Egito à Palestina. Paradoxalmente, foi o lado do Mediterrâneo que permaneceu o menos atraente para os visitantes.

Em tais condições, houve permanentemente uma presença no seio da civilização do Vale do Nilo, sob diferentes formas e em constante interinfluência.

Se as invasões provocaram traumas, o Egito se acomodou mais ou menos às infiltrações, às imigrações involuntárias ou provocadas, simplesmente porque o país sofria de uma falta crônica de mão-de-obra.

Ao contrário do Egito contemporâneo, de demografia explosiva, sua população era pouco numerosa – e os faraós insistiam em ser construtores infatigáveis. Eles com freqüência eram obrigados a recrutar estrangeiros já instalados no Egito, ou trazidos à força para o país. O episódio bíblico das doze tribos de hebreus encaminhadas para a construção de uma cidade repousa portanto sobre a realidade.

Os estrangeiros não estavam destinados apenas para a fabricação de tijolos, ou para serem chicoteados na construção dos grandes monumentos faraônicos. Eles podiam, por sua competência, atingir as mais altas funções. Assim, um semita foi vizir sob Amenófis III. Um outro supervisionou a construção do templo funerário de Ramsés II. A história de José tem portanto um pano de fundo autêntico. Os egípcios toleravam os particularismos das comunidades estrangeiras. Pelo menos até um certo limite. Se os judeus de Elefantina viram-se às voltas com a hostilidade dos habitantes, não foi por causa de uma pulsão racista, mas sim porque eles pretendiam sacrificar um cordeiro em uma cidade cuja divindade mais importante era um... carneiro!


Pascal Vernus. Estrangeiros construíram o Egito. In: Revista História Viva. Grandes temas, nº 46. p. 67.

NOTA: O texto "Presença estrangeira no Antigo Egito" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.