"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 7 de junho de 2013

A passagem para a era de alta tecnologia


As pessoas de todas as épocas tendem a afirmar que a era em que vivem é a mais dramática, instigante e difícil de toda a longa história da humanidade. A ida do homem à Lua em julho de 1969 parecia marcar um novo estágio e um novo triunfo do engenho humano. A década de 1960 foi, no todo, um período de grande otimismo; a de 1970, não. Na década de 1970 e no começo da de 1980, até mesmo nossas maiores conquistas científicas mostraram seu lado negativo. E alguns dos problemas que desde sempre afligem a humanidade recusam-se obstinadamente a desaparecer. A prevenção da guerra nuclear e a proteção do meio ambiente talvez sejam os maiores desafios já enfrentados pelo homem.

Os espantosos progressos que a ciência deu aos países tecnologicamente avançados e às pessoas que têm dinheiro suficiente parecem não ter limites. Os caríssimos programas de exploração espacial dos Estados Unidos e da União Soviética continuaram. Ambas as potências enviaram naves espaciais para os confins do universo. Em 1970, uma dramática operação de resgate ocorreu no espaço depois que a explosão de um tanque de oxigênio a bordo da nave "Apolo 13" colocou em risco a vida dos astronautas. Alguns anos depois, uma nave não-tripulada transmitiu fotos tiradas nas proximidades do planeta Saturno, revelando alguns dos segredos de seus anéis. Essas naves viajam a uma velocidade de até oitenta mil quilômetros por hora. A "Viking I" pousou em Marte em 1976 e enviou fotos que foram mostradas nos noticiários de televisão. Tantos satélites circulam em volta da Terra que as pessoas que aqui ficaram talvez logo tenham de se preocupar com a queda de "lixo espacial". Os progressos dos programas espaciais russo e norte-americano talvez tenham sido empreendidos com um outro objetivo: a guerra, que transformaria numa aterrorizante realidade a popular série cinematográfica Guerra nas Estrelas e os videogames computadorizados das casas de diversões eletrônicas.

De volta à terra firme, a revolução eletrônica, estágio mais recente da Revolução Industrial, modificou tremendamente a nossa vida, desde o modo como usamos os serviços bancários até o modo como cozinhamos nossos alimentos. Um computador que há vinte anos ocuparia praticamente todo o espaço de uma sala cabe hoje no seu bolso. Chegou a era do "computador pessoal". O conhecimento dos computadores ("alfabetização em informática") pode se tornar obrigatório para estudantes [...]. Os videogames computadorizados entraram na moda no final da década de 1970. Os aviões já são praticamente capazes de voar sozinhos. A telecomunicação instantânea e os "editores de texto" modernizaram os negócios e a educação, gerando amargas guerras econômicas entre a gigantesca IBM e suas concorrentes e entre o Japão e os Estados Unidos. Quando as pessoas pela primeira vez ouviram falar de computadores, na década de 1950, temia-se que a "era do botão" provocasse a deterioração do corpo humano por falta de atividade. Só nossos dedos se exercitariam, apertando botões. Agora, mais do que nunca, os computadores substituíram o trabalho manual em alguns campos. Robôs computadorizados quase dão realidade às antigas histórias de ficção científica, à medida que são instalados nas linhas de montagem de fábricas de automóveis em Detroit e no Japão. Poucos discordam de que os computadores contribuíram muito para tornar mais fáceis certos aspectos de nossa vida, mas os seres humanos também tiveram de pagar um preço por isso. A revolução da informática criou uma nova casta de trabalhadores de escritório formados em computação. Porém, o número de empregos na indústria diminuiu por causa do computador, o que contribuiu, em certa medida, para aumentar o desemprego em alguns setores. O computador "desumanizou" os negócios, pois reduziu o contato pessoal. Ao mesmo tempo em que aumentou muito a produtividade em certos setores, colaborou para que o poder econômico se concentrasse nas mãos de umas poucas empresas gigantes, uma vez que só as maiores têm condições de acompanhar os rápidos e dispendiosos avanços na tecnologia da computação. As que não conseguem competir acabam ficando para trás. Os progressos na eletrônica também tendem a aumentar a distância entre os países ricos e os países pobres. E certas pessoas se preocupam, não sem motivo, com o uso que o governo pode dar aos computadores - reunindo informações sobre os cidadãos com o apertar de um botão. Pode ser difícil proteger as informações computadorizadas armazenadas pelos governos, empresas, universidades e hospitais. O que acontece quando uma empresa rival ou uma potência estrangeira consegue entrar no computador de alguém? Será que as leis poderão ser reformuladas de modo que prevejam um castigo para o roubo de informações digitais, como prevê agora para o roubo de uma loja ou residência? Até hoje, o computador tem sido amigo do ser humano, mas pode também se tornar um seu inimigo se os cidadãos forem arbitrariamente sujeitos ao que um especialista chamou de "violência silenciosa" do computador.

A ciência genética progrediu de modo espantoso e permitiu que os cientistas compreendessem como nunca antes a constituição do corpo humano. Certas possibilidades são ao mesmo tempo reconfortantes e incômodas. À medida que compreendemos os genes humanos, torna-se mais possível prever quem pode herdar certas doenças dos pais ou quem vai correr mais risco de contraí-las no decorrer da vida. Ao mesmo tempo, os médicos podem determinar a constituição genética de um bebê antes de ele nascer; a descoberta do sexo do bebê e de certas deficiências mentais são só os primeiros passos. Pode ser que logo seja possível saber se um bebê será suscetível a doenças como a distrofia muscular e a hepatite. A detecção pré-natal dos defeitos genéticos fica a cada dia mais sofisticada.

Não obstante, à medida que os cientistas avançam na compreensão das origens e das características genéticas das doenças que afligem a humanidade, certas questões éticas se impõem naturalmente. Por acaso os médicos devem ter permissão para alterar certos aspectos da natureza humana? As famílias não se sentiriam tentadas a provocar o aborto de um feto que, segundo o parecer dos médicos, teria alguma probabilidade de desenvolver uma doença daqui a quarenta anos, por exemplo? Um indivíduo não poderia ter a sua proposta de emprego recusada porque um cientista determinou que a sua constituição genética acusa a possibilidade da ocorrência de uma doença no futuro? A manipulação genética já produziu um rato maior do que o normal; quais alterações não poderiam ser provocadas no próprio ser humano no futuro distante?

Outros grandes avanços da ciência e da tecnologia determinaram novas ameaças. Em 1979, um vazamento de água radioativa de uma usina nuclear situada em Three Mile Island, na Pensilvânia, ameaçou a segurança de toda a vizinhança. Por vários dias os especialistas buscaram esfriar o gerador nuclear para impedir o derretimento do núcleo do reator, cujo superaquecimento poderia espalhar materiais radioativos por centenas de quilômetros quadrados de uma região densamente povoada. Os habitantes das cidades próximas esperavam ansiosos, prontos para abandonar suas casas se o desastre ocorresse. Por sorte, os especialistas conseguiram evitar a catástrofe. Porém, esse quase-acidente suscitou novos questionamentos a respeito da segurança e da praticidade da energia atômica como alternativa ao petróleo. Alguns anos depois, os planejadores do governo começaram a tentar resolver o problema de o que fazer com as usinas nucleares depois de desativadas por obsolescência, consideração que provavelmente nem sequer foi levada em conta pelos que as construíram.

A corrida armamentista nuclear representa um perigo ainda maior para o nosso planeta, tanto mais que já não envolve apenas dois países, os Estados Unidos e a União Soviética. O Reino Unido, a França e a China certamente já são capazes de mover uma guerra nuclear, como também, provavelmente, a Índia e o Paquistão (países ferrenhamente inimigos), Israel, a África do Sul e talvez a Argentina. Todo ano, os sobreviventes das explosões atômicas de Hiroshima e Nagasaki, de 1945, se reúnem para lembrar o mundo dos inacreditáveis horrores que de novo podem acontecer. Só nos resta esperar que a humanidade tenha aprendido a lição.

Nos Estados Unidos e em outros países, o meio ambiente também sofreu na década de 1970. Descobriu-se que o lançamento de substâncias tóxicas e outros dejetos nocivos em aterros sanitários localizados em muitas cidades representava grave risco para a saúde, de tal modo que muitos bairros, até cidades inteiras, tiveram de ser evacuados. [...] A “chuva ácida” criou um atrito diplomático entre o Canadá e os Estados Unidos, pois poluentes produzidos neste país estão cruzando a fronteira e depositando-se nas terras canadenses através da chuva contaminada, matando peixes e plantas em lagos distantes. Até mesmo as viagens aéreas supersônicas suscitaram um dilema entre o avanço tecnológico e as necessidades humanas. [...]

Os franceses foram responsáveis pelo mais impressionante avanço no transporte ferroviário. Há muito tempo que o Japão tem um “trem-bala” que interliga suas maiores cidades, mas em setembro de 1981 os franceses inauguraram o TGC (“trem de grande velocidade”). O trem francês é ainda mais rápido do que o japonês e é capaz de deslocar-se com segurança a uma velocidade de até 350 quilômetros por hora. [...]

A chuva ácida, os efluentes tóxicos e a poluição sonora são problemas relativamente novos. Durante a década de 1970, a fome, que é o problema mais antigo do mundo, continuou grave como sempre foi. No final de 1974, as reservas mundiais de cereais chegaram ao nível mais baixo em vinte e seis anos. [...] Cerca de dez mil pessoas morriam a cada mês na África, na Ásia e na América Latina. [...] A chamada Revolução Verde havia aumentado a produtividade das safras agrícolas e a área de cultivo em muitas partes do mundo. Porém, nem essa boa notícia foi suficiente para atender às necessidades alimentares do planeta, em face do rápido crescimento populacional e das mudanças climáticas.

[...] Cidades como Cingapura, Cidade do México, Calcutá e Rio de Janeiro, cujos recursos já não davam conta de sua enorme população, foram tomadas de assalto por milhares de migrantes vindos da zona rural, muitos dos quais passam a viver em favelas construídas às margens da grande metrópole. [...]

[...]

O crescimento populacional, as mudanças climáticas e as limitações da Revolução Verde contribuíram para aumentar a distância entre os países ricos e os países pobres. As pessoas deixaram de se referir somente às diferenças entre “Ocidente e Oriente” e passaram a mencionar também as diferenças entre “norte e sul”, contrapondo os países do norte, mais ricos, aos seus vizinhos menos desenvolvidos do sul.

A fome quase precipitou um conflito global. [...]

[...]

Os direitos das mulheres passaram a ser mais respeitados na década de 1970, sobretudo nos Estados Unidos. Em 1972, o senado aprovou a Emenda de Igualdade de Direitos à constituição norte-americana, para pôr fim à discriminação por sexo. [...] Em 1973, a Suprema Corte legalizou o aborto nos primeiros meses de gravidez. Um número maior de mulheres passaram a trabalhar fora, também como advogadas, médicas, empresárias, executivas e professoras universitárias, muito embora as mulheres continuassem a receber menos do que os homens em muitos setores profissionais. [...] Margareth Thatcher foi a primeira mulher a ser primeira-ministra da Inglaterra, com a vitória do partido conservador nas eleições de 1979. Em 1983, Sally Ride foi a primeira astronauta norte-americana a ir para o espaço. [...] Tudo isso representou um excelente começo. Não devemos jamais nos esquecer que a história da humanidade é também a história das mulheres.

O movimento pelos direitos civis foi um dos acontecimentos mais significativos da década de 1960. Na década de 1970, os negros começaram a ser eleitos para cargos públicos, especialmente para as prefeituras de várias grandes cidades norte-americanas, como Detroit, Los Angeles e Atlanta. [...] Mas ainda havia muito a ser feito. A segregação continua em muitos sistemas escolares. [...] O futuro econômico dos jovens de raça negra permanece indefinido, pois ainda é entre eles que se constata a maior proporção de desempregados, num momento em que o governo cortou boa parte dos programas de seguridade social que ajudavam os pobres a subsistir.

Na década de 1970, os homossexuais começaram a exigir o direito a um tratamento justo. Apesar da reação conservadora, comunidades gays floresceram em muitas cidades, particularmente em Nova York e São Francisco; os gays também passaram a ser mais aceitos do que eram antes e encontraram meios de representação política.

Parada do Orgulho Gay. Nova York, 2008.
Foto: Chefe Tweed


A vida na década de 1970 e no princípio da de 1980 refletia uma combinação de mudança e continuidade. Orquestras sinfônicas, óperas e grandes exposições artísticas trazidas da Europa e alardeadas a toque de trombeta encontraram nas maiores cidades dos Estados Unidos um público interessadíssimo. Mas a televisão, o rádio, as gravações musicais em geral e os livros campeões de vendas – tudo incrementado pelo progresso tecnológico – continuaram a ser as principais fontes de entretenimento para o povo. A televisão a cabo levou muitos canais novos a um número cada vez maior de lares norte-americanos. [...] O desenvolvimento da eletrônica possibilitou que programas de televisão fossem gravados para ser vistos depois e criou o fenômeno do aluguel de filmes populares gravados em fitas cassete [...]. As emissoras de FM continuaram populares [...].

[...]

O tema da capacidade de sobrevivência do homem não é um tema novo na história da humanidade. Castigado pela crise econômica e pela deterioração do meio ambiente, vulnerável às ditaduras e ao terrorismo [...], o povo do nosso planeta é capaz de consolar-se por saber que a humanidade sobreviveu a outros perigos no passado. [...] Quanto mais difíceis forem os desafios que a humanidade terá de enfrentar no futuro, tanto mais teremos de trabalhar juntos.


VAN LOON, Hendrk Willem. A história da humanidade. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 565-599.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Século XIX, o século das máquinas e do dinheiro

Primeiro a Grã-Bretanha, depois são os países do continente que exploram as novas técnicas, constroem máquinas, criam a indústria. A usina invade a paisagem europeia, com suas chaminés e sua fumaça. Explora-se de modo considerável o carvão e o ferro. As regiões negras aparecem na Inglaterra (as Middlands), na França (o Norte e a Lorena) e na Alemanha (o Ruhr). Com o trabalho do algodão surge a indústria têxtil. Dessa forma, aparecem novos trabalhadores, os operários, que formam a classe operária e muitas vezes vivem em condições insalubres e miseráveis. A máquina a vapor provoca uma grande transformação nos meios de comunicação. As estradas de ferro transportam viajantes e mercadorias. Os barcos a vapor desbancam os grandes veleiros.

A Estação de Saint-Lazare: Chegada de um trem, Claude Monet


No fim do século, acontece uma segunda Revolução Industrial. A eletricidade aparece. O motor à explosão permite a utilização do gás e do petróleo. A Torre Eiffel, em 1899, é ainda construída em ferro, mas fabrica-se mais e mais o aço. Os produtos químicos permitem que os colorantes, os têxteis artificiais, os fertilizantes para a agricultura se multipliquem. A produção de tantos produtos novos supõe que se possa comprá-los e financiar sua fabricação. É preciso reunir os capitais, organizar o crédito, fazer com que o dinheiro circule. Os bancos se desenvolvem, o papel-moeda difunde-se, criam-se sociedades por ações nas quais aqueles que trouxeram dinheiro, os acionários, têm um número de títulos que corresponde ao número de ações que eles compraram. É o mundo do capitalismo. A Europa entrou na era do dinheiro. Mais do que nunca, ela se divide entre ricos e pobres.

O carro de primeira classe, Honoré Daumier


A máquina de costura, a bicicleta, o telefone mudam a vida dos europeus. São de fato invenções europeias, mas os Estados Unidos da América participam doravante do progresso científico e econômico. O americano Thomas Edison faz inúmeras invenções, entre as quais a lâmpada incandescente que ilumina por aquecimento intensivo de um fio. Depois é o automóvel, e, então, o avião e, por fim, o cinematógrafo dos irmãos Lumière [...]. Um novo homem apareceu: o engenheiro.

LE GOFF, Jacques. Uma breve história da Europa. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 117-119.

domingo, 10 de junho de 2012

Quase um único mundo

A história recente da raça humana é como um maravilhoso renascimento. Quase todas as partes do corpo ganharam um substituto.

Há dois mil anos atrás, as pernas humanas eram indispensáveis. Não havia substituto, exceto um cavalo ou um navio veleiro. Em todos os lugares, as pernas conduziam as pessoas quando trabalhavam e quando passeavam. As pessoas ficavam em pé durante a maior parte do tempo em que permaneciam acordadas, exceto uma pequena parcela daquelas que executavam serviços sentadas, como por exemplo, os agiotas e os estudiosos, que talvez pudessem se sentar enquanto trabalhavam; o resto ficava em pé, fosse semeando ou trabalhando na colheita, para serem sacerdotes, soldados ou para cozinhar. Até mesmo o hábito da escrita era geralmente executado ficando-se em pé, perante uma carteira mais alta. Hoje, porém, as aeronaves, os trens, os carros, as motocicletas e os ônibus tornaram-se os substitutos das pernas.

Da mesma forma, há 2000 anos atrás, os braços e os seus músculos eram essenciais na maioria das tarefas. No mar, o vento ajudava, mas os braços eram necessários para içar as pesadas velas ou para remar o navio em águas paradas. A força dos bois era fundamental na aragem, mas a força dos braços humanos era necessária para guiar o arado. Os músculos do braço e os dedos eram fundamentais para produzir alimentos, abrigo e segurança.

Foi então que surgiu uma corrente de mudanças drásticas, com o braço e a mão humanos sendo auxiliados ou substituídos pela roda hidráulica e a máquina a vapor, pelo carrinho de mão, pela pólvora e a dinamite, pelo guindaste hidráulico, pelo quebrador de concreto, pela máquina de terraplanagem, pela máquina de rebitagem, pela máquina de lavar roupas e o aspirador de pó, pela máquina de costura, escavadeiras, máquinas de sondagem, teclados de computadores e inúmeros outros substitutos. O braço e os dedos humanos foram transformados ainda mais que as pernas. Os dedos, por exemplo, podem enviar mísseis nucleares de um continente a outro.

A cabeça humana também sofreu mudanças inimagináveis. A visão foi realçada pelo telescópio, pelo microscópio, pela televisão, pelo radar, pelos óculos e pela imprensa. Os ouvidos escutam mais, fala-se com mais clareza e a voz viaja chegando longe através do rádio, do microfone, do telefone e das fitas de música. A criatividade do cérebro humano foi auxiliada e refletida pelo computador. As atividades sexuais foram alteradas pela pílula. A eficácia dos dentes foi prolongada não só pela odontologia e pelo dente artificial, mas pelas mudanças na dieta e no processamento dos alimentos. O conhecimento do corpo humano foi ampliado ainda mais pelo estudo dos genes.

Da mesma forma, a memória dos seres humanos, especialmente a memória coletiva, foi ampliada pelas bibliotecas e pelos arquivos. Curiosamente, essa ampliação da memória humana já era significativa bem antes da ascensão do Império Romano, graças à inovação da contagem, à invenção do calendário, ao surgimento da arte da escrita e a uma forma criativa de retenção da memória, a capacidade da rima. Em contraposição, a maior parte dos surpreendentes ganhos na eficiência das pernas, braços, boca, dentes, olhos, ouvidos, memória e o diagnóstico de doenças humanas vieram após o século XV.

Índios Ikpeng criam base de dados online para preservar memória cultural

Nenhuma dessas profundas mudanças alterou a vontade humana, a inquietação humana, o desejo humano de liberdade e de conformidade. Tantos triunfos da ciência e da tecnologia foram superficiais. Era mais fácil, nessa era de produção em massa, no interior e na cidade, satisfazer ao estômago do que à mente. Era mais fácil dominar as doenças do que dominar o comportamento humano e colocar um fim aos conflitos de guerra.

Os avanços na tecnologia aumentaram o poder dos líderes ou grupos específicos. Há dez mil anos atrás, o líder de uma tribo era raramente capaz de exercer influência a mais de 100 quilômetros de casa. O mundo era como um lago, com espaço para milhares de pequenas ondulações em sua superfície, cada uma refletindo a minúscula esfera de influência de uma tribo. O raio das ondulações tornava-se maior após o surgimento de impérios maiores, da China, da Índia, da Grécia, de Roma e dos Astecas.

A esfera de influência de cada um desses impérios ainda era pequena. A tecnologia predominante da guerra e do transporte era tão grande que praticamente não havia outra forma de alcançar o controle central da disseminação de uma população civil por todos os cantos. Há dois mil anos atrás, nenhum império podia se estender a tão longe assim. Roma, em seu auge, poderia ter conquistado e governado partes da Índia e, até a China, mas seu reino teria sido breve. Hitler, se tivesse saído vitorioso, provavelmente não teria conseguido controlar o mundo inteiro: a tecnologia da guerra, das comunicações e da censura não o permitiriam.

[...]

BLAINEY, Geoffrey. Breve história do mundo. São Paulo: Fundamento Educacional, 2004. p. 264-265.

sábado, 17 de março de 2012

O fenômeno 2012

Tempestades solares, inversão dos pólos magnéticos da Terra, erupção de um supervulcão, cataclismo planetário... Entenda como o mercado da catástrofe transformou uma data ritual maia em sinônimo de fim dos tempos

por Bruno Fiuza

Descoberta em 1790 na Cidade do México, a Pedra do Sol é uma representação da doutrina das Eras do Mundo que os astecas herdaram dos maias.

Assim como aconteceu por volta do ano 1000, a chegada do terceiro milênio foi acompanhada pela proliferação de profecias escatológicas. Agora, porém, os supostos presságios de cataclismo não vêm da tradição cristã, mas de uma antiga civilização que surgiu em meio às florestas tropicais da América Central e viveu seu período de apogeu entre os séculos II e IX: os maias.

Para esse povo, o ano de 2012 marca o fim de um ciclo de 5.125,36 anos de seu calendário. Segundo a tradição maia, ao fim de cada ciclo a humanidade entra em uma nova era [...].

O sistema de Conta Longa do calendário maia foi utilizado por séculos, até desaparecer após a decadência dos centros de poder do Período Clássico, no século IX. No entanto, cerca de mil anos mais tarde os boatos da existência de uma civilização perdida nas florestas do sul do México despertaram o interesse de exploradores modernos como o mexicano Antonio del Rio, o francês Jean-Frédéric Maximilien de Waldeck, o americano John Lloyd Stephens e o inglês Frederick Catherwood. Entre as décadas de 1820 e 1840 eles localizaram as primeiras ruínas de cidades maias e, com elas, os vestígios dos sistemas de escrita e de calendário dessa civilização.

Inspirado por essas descobertas, na década de 1880 o pesquisador inglês Alfred Maudslay fotografou os glifos gravados nas ruínas localizadas até então. Ao analisar essas imagens, o americano Joseph Goodman identificou o funcionamento do calendário maia. Na mesma época, o alemão Ernst Förstemann chegava a conclusões semelhantes ao estudar textos maias reunidos no Códice de Dresden.

Em 1905, Goodman apresentou um modelo de correlação entre as datas da Conta Longa do calendário maia e as do calendário gregoriano. Sua teoria foi complementada pelo antropólogo mexicano Martinez Hernández e pelo arqueólogo inglês J. Eric S. Thompson na década de 1920. O trabalho combinado dos três deu origem à fórmula usada atualmente para converter as datas da Conta Longa do calendário maia para o calendário gregoriano.

As analisar essas datas à luz da cosmologia maia, os pesquisadores chegaram a uma constatação para esse povo, a história do mundo se dividia em eras de 5.125,36 anos, e cada vez que um desses ciclos terminava nosso planeta passava por um período de intensa renovação, quando começava uma nova etapa para a humanidade.

Como a Longa Data do calendário maia era extremamente precisa e informava que a era atual havia começado em 11 de agosto de 3114 a.C., o arqueólogo americano Michael Coe calculou que o atual ciclo terminaria em 24 de dezembro de 2011. Coe publicou essa data final em seu livro Os maias, de 1966, mas pesquisas posteriores demonstraram que a conta estava errada. O equívoco foi corrigido nas edições seguintes da obra, e hoje a data mais aceita para o fim do ciclo é 21 de dezembro de 2012.

Até esse momento, o calendário maia era um assunto restrito a pesquisadores especializados, mas no início da década de 1970 ocorreu uma mudança que transformaria 2012 em um fenômeno de massas, como explica o pesquisador americano John Major Jenkins em seu livro 2012 - A história. Nessa época, dois escritores americanos viram nas traduções místicas dos povos ancestrais do México um antídoto para os males da civilização industrial moderna.

O primeiro foi Tony Sheaner, jornalista de Denver que no fim da década de 1960 largou tudo para viver no México. No início dos anos 1970 ele publicou dois livros em que relacionou a cosmologia e os ciclos de calendário utilizados pelos astecas para formular uma teoria segundo a qual a humanidade estaria vivendo os últimos momentos de um ciclo que terminaria em 1987. Nessa data que se batizou de Convergência Harmônica, o planeta passaria por um renascimento espiritual que marcaria o início de uma nova era.

O segundo foi Frank Waters, que em 1975 publicou um livro no qual estudou o significado místico da Conta Longa do calendário maia. Segundo Waters, os ciclos de 5.125,36 anos se baseariam em cálculos astronômicos e astrológicos e estariam ligados a uma doutrina de Eras do Mundo. Por ter sido o primeiro autor a tratar o fim de um ciclo do calendário maia como um marco de transformação espiritual, Jenkins afirma que Waters "pode ser considerado o homem que desencadeou o fenômeno 2012".

Inspirado por essas descobertas, o escritor americano José Arguelles organizou um grande evento para celebrar a Convergência Harmônica que Sheaner havia previsto para 1987. Nesse mesmo ano, Arguelles publicou um livro chamado O fator maia, no qual apresentou sua própria interpretação espiritual dos ciclos de Conta Longa. Segundo ele, 2012 seria uma nova Convergência Harmônica, que provocaria uma grande transformação espiritual na Terra.

Graças ao sucesso do livro e da Convergência Harmônica de 1987, Arguelles se tornou o líder de movimento que se propunha a adotar o calendário maia e viver de acordo com seus princípios. Em 1991, o escritor desenvolveu um sistema de contagem de tempo batizado de Dreamspell, que ele inicialmente apresentou como uma versão moderna do próprio calendário maia, mas que tinha diferenças importantes em relação à contagem de dias tradicional desse povo.

* A invenção da catástrofe. O movimento criado por Arguelles transformou o calendário maia em um fenômeno pop, mas ele mesmo não via 2012 como o fim do mundo. As teorias que associavam o fim do atual ciclo a cenários catastróficos ganharam força a partir da década de 1990.

Em 1995, o engenheiro e cientista Maurice Cotterell e o escritor Adrian Gilbert publicaram o livro As profecias maias, que apresenta a teoria desenvolvida por Cotterell segundo a qual os ciclos de Conta Longa do calendário maia estariam relacionados a ciclos de atividade solar. Segundo o cientista, o fim da era atual em 2012 coincidiria com um enorme aumento das explosões no interior do Sol, quando o astro envia nuvens de prótons e elétrons em direção à Terra que poderiam inverter os pólos magnéticos do planeta.

Cotterell não apresenta nenhuma evidência concreta tirada da cultura maia que respalde sua tese, mas o sucesso comercial de As profecias maias popularizou essas ideias. Algumas foram retomadas pelo escritor americano Lawrence Joseph no livro Apocalipse 2012, publicado em 2004. Joseph se baseia na teoria do pico da atividade solar em 2012 e acrescenta alguns elementos à fórmula: segundo ele, o fenômeno poderia ser acompanhado por megarrajadas de radiação com potencial para acabar com a vida em nosso mundo, provocar a inversão dos pólos magnéticos da Terra e aquecer o núcleo do planeta a tal ponto que um supervulcão localizado sob o Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, entraria em erupção.

Por causa dessas teorias absurdas, sem nenhuma ligação com o antigo pensamento maia, o estudo do significado de 2012 para essa civilização foi praticamente descartado pelos pesquisadores acadêmicos. Muitos especialistas afirmam que os maias nunca fizeram nenhuma menção a 2012 e que tudo não passaria  de uma grande invenção moderna.

[...]

Bruno Fiuza. O fenômeno 2012. In: Revista História Viva. Ano IX, n. 99. p. 46, 48-49.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A vida na Europa e nos Estados Unidos no fim do século XIX: a ideologia do "progresso"

Uma das grandes novidades do final do século XIX: o cinema. Cartaz de 1896, desenhado por Henri Brispot

Lentamente, o cotidiano das pessoas, sobretudo das que moravam nas cidades, começou a sofrer a imposição de uma espécie de colonização microscópica e diária:

* a vida ganhou novos ritmos, baseados na rapidez, na tensão do dia a dia e na necessidade de deslocamento constante;

* as pessoas modificaram seus hábitos culturais - começaram a frequentar os cinemas, a escutar os fonógrafos, a falar ao telefone e a participar de manifestações públicas;

* foram criados vários padrões de consumo, como tomar café, trocar constantemente o vestuário, adquirir móveis modernos;

* hábitos de higiene e saúde ganharam importância no cotidiano - as pessoas passaram a ter banheiro interno nas residências, a estabelecer rituais de limpeza pessoal, a tomar remédios, a frequentar médicos, etc.;

* diferentes atividades esportivas conquistaram adeptos, desenvolvendo-se as regatas, o futebol e outros esportes coletivos.

"[...] os veículos automotores, os transatlânticos, os aviões, o telégrafo, o telefone, a iluminação elétrica e ampla gama de utensílios eletrodomésticos, a fotografia, o cinema, a radiodifusão, a televisão, os arranha-céus e seus elevadores, as escadas rolantes e os sistemas metroviários, os parques de diversões elétricas, as rodas-gigantes, as montanhas russas, a seringa hipodérmica, a anestesia, a penicilina, o estetoscópio, o medidor de pressão arterial, os processos de pasteurização e esterilização, os adubos artificiais, os vasos sanitários com descarga automática e o papel higiênico, o sabão em pó, os refrigerantes gasosos, o fogão a gás, o aquecedor elétrico, o refrigerador e os sorvetes, as comidas enlatadas, as cervejas engarrafadas, a Coca-Cola, a aspirina, o Sonrisal e, mencionada por último mas não menos importante, a caixa registradora". (Nicolau Sevcenko. Introdução. In: _____ (org.). História da vida privada no Brasil: da Belle Époque à era do rádio. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. v. 3. p. 9-10.)

Os centros urbanos, nos quais se moldava toda essa modernidade, irradiavam para as demais regiões os valores e símbolos de rapidez, educação, cultura, saúde, abastecimento, trabalho e serviços. A transformação foi tão marcante que as ideias de progresso, modernidade e civilização se associaram intimamente às cidades, ao passo que as ideias de tradição, conservadorismo e rusticidade permaneceram associadas ao campo. As pessoas passaram a procurar ainda mais as médias e grandes cidades, impulsionando o crescimento urbano e populacional desmedido e a formação de grandes metrópoles.

Essas transformações científicas e tecnológicas, de acordo com o historiador Geoffrey Barraclough, atuaram ao mesmo tempo como "solventes da velha ordem" e "catalisadores de um novo mundo". Nesse período criou-se a ilusão de que a humanidade vivia um processo de avanço científico sem interrupções, sempre alcançando graus mais elevados de complexidade.

Argumentos como esse foram muito utilizados para justificar a escalada de ocupação territorial realizada pelos países europeus no restante do mundo: o "fardo do homem branco" seria levar a civilização e o progresso a todos os cantos do planeta. Porém, nem sempre o que se chama de "civilização" e de "progresso" significa um salto positivo compartilhado por todas as pessoas e por todas as sociedades.

No fim do século XIX havia sociedades - e ainda existem muitas - que partiam de princípios e de uma lógica de funcionamento distintos dos da sociedade europeia, para as quais a tecnologia e as máquinas tinham significado distinto ou nem mesmo representavam algo. As sociedades que, naquele período, não viviam de acordo com os princípios da "civilização" e do "progresso" acabaram sendo dizimadas (como ocorreu com os povos indígenas nos Estados Unidos) ou profundamente transformadas (como ocorreu na Índia e no Japão). Mas nada disso aconteceu sem resistência ou muita luta.

MORAES, José Geraldo Vinci de. História: Geral e Brasil. São Paulo: Saraiva, 2010. p. 195-197.

sábado, 22 de outubro de 2011

Tradições asiáticas: a China imperial

Afresco da Dinastia Han

帝制時期

De todas as terras estranhas, mas não inteiramente desconhecidas, que ficavam além das fronteiras de Roma, a mais misteriosa e menos conhecida era a China. Os romanos estiveram apenas indiretamente em contato com ela por meio do comércio. De lá se originou a seda - daí o nome latino que os romanos lhe atribuíram: "Serica", ou "seda". Durante séculos, sua cultura foi protegida pelo seu isolamento. A China mantivera com os povos da Ásia Central um relacionamento próximo porém complicado; contudo, depois de unificada, durante muitos séculos não teve nas suas fronteiras nenhum grande Estado com que precisasse se relacionar. Este isolamento aumentaria quando o centro de gravidade da civilização europeia se deslocou para oeste e para o norte, e à medida que afastavam cada vez mais do leste da Ásia os herdeiros do legado helenístico: Bizâncio, a Pérsia sassânida e, depois o islamismo.

Com isto a China permaneceria distante e inacessível à maioria das correntes que mudavam outras partes das terras eurasianas, e bem distante das fontes de distúrbios de outras grandes civilizações. Até mesmo o islamismo, ao chegar lá, influiu muito menos do que em outros lugares. A China também era dotada de grande capacidade de absorver as influências estrangeiras que chegassem. Sua capacidade de assimilação se apoiava na cultura de uma elite administrativa que sobreviveu às dinastias e aos impérios e que a manteve num mesmo curso. Deve-se muito do conhecimento atual sobre a China aos escribas, que mantinham registros desde tempos muito remotos, e que fornecem incomparável documentação [...]. 

[...] A História da China, findo o período dos Estados Combatentes, tem uma espinha dorsal de várias classes alternando períodos de crescimento e decadência de dinastias.  [...]

* Os Ch'in. Os Ch'in vieram de um Estado a oeste, que até por volta do século IV a.C. os chineses ainda consideravam bárbaro. [...] Depois de absorver Sichuan, o povo Ch'in adquiriu condição de reino, em 325 a.C. O auge do sucesso Ch'in foi derrotar o seu último opositor, em 221 a.C., e unificar a China pela primeira vez como um império dirigido por uma dinastia que daria o nome ao país. Foi um grande feito. A partir disto a China pode ser considerada como a sede de uma civilização única e consciente de si mesma. [...]

* Os Han. [...] de 206 a.C. até 220 d.C., a China foi governada por imperadores de duas dinastias com o mesmo nome: os Han. [...] A escrita chinesa só fora padronizada no reinado Ch'in (pouco antes do período Han). Em grande parte do território politicamente controlado pelos Han, principalmente no sul, era normal existir uma sociedade tribal em que poucos líderes eram "achinesados", ou seja, tinham costumes chineses. [...]

Contudo, os imperadores Han estenderam as reivindicações de dominação política da China ainda mais longe do que qualquer dos seus antecessores. [...] O imperador Wu Ti. ou "Imperador Marcial", que reinou de 141 a 87 a.C., foi especialmente ganancioso: anexou ao império uma grande área da Ásia Central, a Bacia do Tarim, bem como o Sul da Manchúria - a região ao norte da Grande Muralha - e grande parte da costa sudeste da China. Os povos Tai do Vale do Mekong também foram subjugados e Annam aceitou a soberania dos Han. Mais tarde os povos mongóis chamados hsiung-nu, mais conhecidos como hunos, foram expulsos do norte do Deserto de Gobi e iniciaram uma longa marcha que os transformou numa força da História mundial.

A expansão aumentou os contatos da China com outras partes do mundo. Com o Mediterrâneo permaneceram apenas indiretos, porque grande parte do comércio da China era feito por terra. A mercadoria mais desejada da sua produção era a seda, que a partir do ano 100 a.C. era enviada por caravanas ao Ocidente, ao longo da Rota da Seda da Ásia Central. Talvez os novos contatos desta época com cavaleiros nômades dos desertos expliquem o surgimento dos belos cavalos de bronze que começaram a ser fundidos na era Han.

* A religião. Apesar desses amplos contatos, a China permaneceu notavelmente isolada e intocada por influências externas. [...] O único possível desafio à tradição foi o budismo, que parece ter aberto caminho na China durante o século I d.C., através das estradas de comércio da Ásia Central. [...] O budismo talvez tenha sido introduzido na China pelos povos Kushan, que o difundiram na Ásia Central; daí seguiu para o norte da China, principalmente na sua forma maaiana. A ideia confortadora de um Buda salvador, em cuja ajuda o fiel podia confiar, deve ter parecido muito atraente numa época de revoltas e de desintegração social. O budismo podia ser tudo para todos: superstição para os humildes, estimulador de novas ideias filosóficas para os instruídos, e o seu estilo artístico exercia um forte apelo.



Grande Buda

Aos poucos o budismo se infiltrou na sociedade. Estudantes e monges começaram a circular entre a China e a Índia em busca de instrução budista. O grande sucesso do budismo aconteceu entre os séculos VI e IX. [...] 

O Estado também contribuiu para regulamentar o budismo, notadamente ao limitar o número de monges e de mosteiros (para evitar que as riquezas escapassem ao sistema de impostos), medidas de difícil execução e que provocaram explosões ocasionais de perseguição. A pior ocorreu no século IX, quando todas as religiões alienígenas foram banidas. Fontes oficiais dizem que mais de 4.600 mosteiros foram destruídos e que mais de 250 mil monges e monjas budistas perderam a isenção de impostos. Isso aconteceu quando o confucionismo recuperava sua antiga importância entre os eruditos, e marcou o começo do declínio do budismo na China [...].

[...] Sem ser muito dogmática, a tradição chinesa só enfatizava que as próprias pessoas deveriam efetuar os rituais de sacrifício e que os antepassados deveriam ser venerados. O confucionismo reforçou isto, o que resultou na notável tolerância dos chineses instruídos (algo que mais tarde os europeus admirariam). Posteriormente, no Período T'ang um imperador editou um decreto permitindo a pregação do cristianismo (que chegara à China por meio de missionários nestorianos). [...] Embora o colapso de grande parte da sociedade tradicional durante os problemas do declínio dos Han, e suas consequências, fizessem com que as pessoas procurassem novos cultos e crenças [...], os beneficiários foram os cultos populares e o desenvolvimento do taoísmo, que se tornou uma miscelânea de curas pela fé, superstições e ideias budistas.

* A civilização chinesa. Apesar das influências estrangeiras da época, os chineses instruídos do Período Han achavam fácil ver o seu país como centro do mundo e sede da verdadeira civilização. Sem dúvida esta convicção intelectual explica em grande parte a sua indiferença ao que acontecia em outros lugares. Mas outros fatores podem ter contribuído. Por exemplo, a enorme distância geográfica [...]. A China também era auto-suficiente, tanto sob o ponto de vista econômico quanto tecnológico. Possuía vastos recursos naturais, e durante o Período Han a agricultura e a tecnologia foram capazes de explorar o meio ambiente com sucesso. [...] O arroz introduzido em tempos bem primitivos, vindo do sudeste da Ásia ou da Índia, foi a última e verdadeiramente radical inovação na vida material proveniente do exterior antes dos tempos modernos.


Jardim imperial na Cidade Proibida

A era Han também trouxe outros refinamentos e invenções. Os cientistas Han criaram a primeira bússola magnética com mostrador e ponteiro [...], o primeiro sistema de cartografia [...], máquinas para registrar terremotos e calibradores com graduações decimais para artesãos. [...] de todas as inovações do período a mais surpreendente é a descoberta do fabrico do papel (anunciada nas oficinas imperiais em 105 d.C.) e que seria de enorme importância para toda a raça humana, mesmo que só tenha alcançado o Ocidente vários séculos depois. O papel era mais barato do que o papiro ou o pergaminho [...].

Os transportes, e portanto as comunicações, também melhoraram no Período Han. O leme ligado à popa do navio, em oposição ao grande remo pendurado de um dos lados, apareceu no século I a.C.; os navios europeus precisaram esperar por isso cerca de 1.200 anos. Também no tempo dos primeiros Han foi desenvolvido um arreio para cavalos [...]. Pouco depois do final da dinastia, os chineses introduziram o estribo, invenção de enorme importância na arte da guerra por proporcionar maior segurança e controle ao cavaleiro. Por outro lado, a nova balestra foi inventada durante o Período Han, o que representou uma grande realização tecnológica, mais poderosa e precisa do que os arcos dos bárbaros [...].

Estas inovações dão testemunho da riqueza da civilização Han, e em muitos aspectos é apenas o início de um período glorioso: nos mil anos seguintes, as ciências e a matemática chinesas lançariam muito mais ideias novas do que as dos europeus. Para os governantes e para os ricos, a China Han, no seu apogeu, também deve ter sido uma esplêndida sociedade. Perderam-se algumas das suas adoráveis criações em seda, madeira e pintura; quando os palácios começaram a ser destruídos, nas últimas décadas conturbadas da dinastia, foram destruídas coleções inestimáveis. Ainda assim, muitas coisas belas sobrevivem graças à prática Han de sepultar ricos e nobres com grande parte dos seus bens, ou cópias. Uma descoberta recente [...] foi a de elaborados trajes em jade com que foram sepultados um príncipe e uma princesa dos primeiros Han. Com os últimos Han, objetos de bronze, especialmente modelos de cavalos, demonstram um novo desenvolvimento de uma das mais antigas artes chinesas, a fundição do bronze, ao mesmo tempo que novos vernizes coloridos eram inventados pelos oleiros.

[...]

Grande parte da evidência da brilhante cultura Han se dissipou ou foi destruída nos séculos IV e V, quando os bárbaros voltaram a importunar nas fronteiras. Então, mais uma vez a China se dissolveu num amontoado de reinos [...].


Guerreiros de terracota

Aos poucos os bárbaros foram seduzidos pelos costumes chineses: perderam a identidade, adotaram roupas e linguagens chinesas e se tornaram simplesmente outro tipo de chineses. O prestígio desfrutado pela civilização chinesa entre os povos da Ásia Central já era muito grande. [...] Em 500, um governante tártaro chegou a impor ao seu povo, por decreto, roupas e costumes chineses.  [...]

* A burocracia. A expansão territorial requeria mais administradores. Uma burocracia maior sobreviveria a muitos períodos de desunião [...] e permaneceu até o fim como uma das instituições mais surpreendentes e características da China imperial. Foi provavelmente a chave para o surgimento do sucesso da China, a partir de uma era em que as dinastias decadentes foram substituídas por Estados locais competitivos e insignificantes, que quebraram a unidade já conseguida. A burocracia unia a China tanto pela ideologia quanto pela administração. Os funcionários civis, treinados e examinados à luz dos clássicos de Confúcio, asseguravam que a instrução e a cultura política se unissem na China como em nenhum outro lugar.

No princípio os funcionários se distinguiam do resto da sociedade apenas pela educação (eram graduados). A maioria provinha da pequena nobreza proprietária de terras, mas eram mantidos isolados dela. Uma vez selecionados para ser funcionário depois de um teste, desfrutavam de uma condição apenas inferior à da família imperial, bem como de grandes privilégios sociais e materiais. Tinham duas tarefas anuais de grande importância: compilar os resultados do censo e os registros da terra nos quais se baseava o cálculo de impostos chineses. Os seus outros deveres principais eram de julgamento e supervisão, pois os assuntos locais ficavam a cargo dos cavalheiros locais, que agiam sob a supervisão de cerca de dois mil magistrados distritais pertencentes à classe oficial. [...]

Esta estrutura tinha um enorme poder conservador. Graças ao sistema de exames, a prática de governo era exercida através de ideais reconhecidos. [...] De tempos em tempos havia casos de corrupção e compra de cargos, mas estes sinais de decadência em geral só aparecem nos registros perto do fim de um período dinástico. Na maior parte do tempo os funcionários imperiais demonstravam notável independência do seu meio de origem. Na teoria, eram os homens do imperador; não tinham permissão de possuir terras na província onde serviam, nem de servir nas suas próprias províncias, nem ter parentes no mesmo ramo de governo. Não deveriam ser representantes de uma classe, mas uma seleção dela, uma elite recrutada independentemente, renovada e promovida pela competição. [...] Para os que alcançaram o nível mais elevado da hierarquia oficial e se tornaram conselheiros imperiais, os únicos rivais em importância eram os eunucos da Corte. Estas criaturas, a quem muitas vezes os imperadores confiavam grande autoridade, porque por definição não podiam constituir família, eram a única força política que escapava às restrições do mundo oficial.

[...]

* A China clássica. Em 618 a civilização chinesa entrou numa fase nova e madura, tendo a seu favor impressionantes realizações. [...] Depois dos Han, a desordem dividiu a China por mais de 350 anos. Então, um general de sangue mestiço de chinês e bárbaro reunificou o país em 581. A Dinastia Sui que ele fundou durou apenas perto de trinta anos quando outro general (também de ascendência mestiça) tomou o trono e inaugurou a Dinastia T'ang, com a qual a China foi novamente uma unidade por aproximadamente três séculos e meio. Seguiu-se outro período de desordem, mas desta vez durou apenas cinquenta anos antes que os Sung ascendessem ao trono imperial em 960. Embora perdessem o controle do norte da China para povos da Manchúria no século XII, os Sung se mantiveram no sul até 1279. Neste ano Kubilai Khan, neto de Gêngis Khan, completou a conquista mongol da China. Adotou o nome dinástico de Yuan, e os seus sucessores governaram a China até 1368, a partir da nova capital, em Pequim, quando foram substituídos por uma dinastia fundada por um plebeu chinês rebelde, a Dinastia Ming, que durou até 1644.

[...]

Assim, a desunião recorrente não impediu que governantes, sábios e artesãos conduzissem a civilização chinesa ao apogeu nos mil anos que se seguiram à posse dos T'ang. Alguns situam o período clássico bem no início do domínio T'ang, nos séculos VII e VIII, enquanto outros o distinguem no Período Sung. A cultura T'ang refletiu o estímulo de contatos com o mundo exterior, mais especialmente com a Ásia Central. Na época, a capital era Changan [...] situada no final da Rota da Seda [...]. Changan significa "paz duradoura" e a ela vieram persas, árabes e centro-asiáticos, tornando-a uma das cidades mais cosmopolitas do mundo. Continha igrejas nestorianas, templos zoroástricos, mesquitas muçulmanas, e o que restou dela sugere ter sido a capital mais esplêndida e luxuosa do seu tempo. Muitos dos seus vestígios refletem o reconhecimento dos chineses a estilos diferentes dos seus - por exemplo, a imitação da prataria iraniana -, enquanto a característica de Changan como entreposto comercial está preservada nas figuras em cerâmica de cavaleiros e camelos carregados, que revelam a vida da Ásia Central circulando pelas ruas da cidade. [...] A partir das pinturas dos túmulos pode-se observar parte da vida aristocrática da Corte. Os homens se divertem caçando, acompanhados de criados centro-asiáticos; as mulheres, de expressão vaga, vestem-se com luxo, e suas criadas aparecem cuidadosamente equipadas com leques, caixas de cosméticos, buchas para as costas e outras parafernálias de toucador. As grandes damas da era T'ang também prezavam as modas da Ásia Central, que tomavam emprestadas da equipe doméstica.

[...]

A cultura Changan nunca se recuperou da destruição causada pela rebelião de 756, apenas dois anos após a fundação da Academia Imperial de Letras [...]. No entanto, a Dinastia Sung produziria mais cerâmicas. A fase primitiva, a fase norte da história Sung, foi marcada pelo trabalho ainda de estilo colorido e padronizado, enquanto que os artesãos do sul favoreceram produtos simples e monocromáticos. Significativamente, vincularam-se a outra tradição: a das formas desenvolvidas pelos grandes fundidores de bronze da China primitiva. Mas apesar de toda a beleza das suas cerâmicas, a Dinastia Sung se notabiliza mais por algumas das melhores realizações da pintura chinesa, cujo tema principal era a paisagem. [...]

[...]


A Grande Muralha

* A China mongol. No fim do século XIII toda a China fora invadida pelos mongóis e estes, como os primitivos invasores, demonstraram o contínuo poder de sedução que a China exercia sobre os seus conquistadores. O primeiro golpe foi muito duro. Algo em torno de trinta milhões de vidas podem ter sido perdidas durante a conquista, ou seja, mais de um quarto de toda a população da China em 1200. No entanto, com Kubilai Khan, o último dos grandes Khans, o Império Mongol deslocou o seu centro das estepes para Pequim. A partir dessa época a China mongol pode ser considerada chinesa e não mongol [...]. A China mudou os mongóis mais do que os mongóis mudaram a China, e o resultado foi a magnificiência relatada pelo surpreso Marco Polo.

No entanto, os mongóis procuraram se manter à parte dos nativos, por meio de uma proibição positiva: os chineses eram proibidos de aprender a língua mongol e de se casar com mongóis. Não tinham permissão de portar armas. [...]

Contudo, as realizações mongóis foram muito impressionantes. Uma vez unida, a China mais uma vez demonstraria o seu grande potencial diplomático e militar. [...]

[...]

O regime mongol não pode ser considerado um sucesso, já que a sua sobrevivência falhou. [...] O comércio exterior floresceu como nunca. Marco Polo relata que os pobres se alimentavam da liberalidade do Grande Khan e que Pequim se tratava de uma grande cidade. Por outro lado, um olhar moderno encontra algum atrativo no tratamento dispensado pelos mongóis à religião. Apenas os muçulmanos foram impedidos de pregar a sua doutrina; o taoísmo e o budismo foram positivamente encorajados, por exemplo, com a liberação de impostos aos mosteiros budistas [...]. No entanto, no século XIV os desastres naturais já se juntavam às extorsões mongóis para produzir uma nova onda de rebeliões rurais, sintoma visível de uma dinastia em declínio. [...]

* Os Ming. Como tantos outros líderes revolucionários chineses, Chu Yuan-Chang gradualmente se tornou um defensor da ordem tradicional. A dinastia que ele fundou, embora presidisse um grande florescimento cultural e conseguisse manter a unidade política da China, só confirmou o conservadorismo e o isolamento do país. No início do século XV, um decreto imperial proibia os navios chineses de se afastarem além das águas costeiras e os indivíduos de viajarem para o exterior. Logo os estaleiros chineses perderam a capacidade de construir os grandes juncos que atravessavam o oceano. Nem mesmo guardaram as especificações destas embarcações. As grandes viagens do eunuco Cheng Ho, que poderia ter sido um Vasco da Gama chinês, foram quase esquecidas. Ao mesmo tempo, os mercadores que haviam prosperado no período mongol foram molestados.


Cantina de ouro com o dragão (Dinastia Ming)

Neste meio tempo a Dinastia Ming se deteriorava, o seu declínio sendo registrado por uma sucessão de imperadores virtualmente confinados aos seus palácios enquanto favoritos e príncipes imperiais disputavam a posse das propriedades imperiais. Com exceção da Coréia, onde derrotaram os japoneses no final do século XVI, os Ming não conseguiram manter as fronteiras do império chinês. A Indochina escapou da esfera chinesa, o Tibete ficou mais ou menos fora de controle, e em 1544 os mongóis voltaram a queimar os subúrbios de Pequim. No século seguinte os Ming foram ameaçados por um povo vindo do norte da Grande Muralha, os manchus, que viviam numa província que mais tarde teria o seu nome: Manchúria. Quando intervieram nos problemas internos da China, foi o fim da Dinastia Ming. Em 1644, uma dinastia manchu, a Ch'ing, subiu ao trono, onde os seus imperadores se manteriam até o século XX.

ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 306-331. 

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Egito Antigo: "dádiva do Nilo"

Pintura mural na tumba da princesa Itet. IV dinastia, 2700 a.C. Na parte superior: cena de caça. Na inferior: cena de trabalhos agrícolas.

1. A importância do Nilo. O Nilo teve influência marcante sobre o desenvolvimento econômico, social, político e cultural do Egito.

Formado pelo Nilo Azul e o Nilo Branco, que se unem junto a atual Cartum, o rio, interrompido por seis cataratas, corre dentro de reduzida faixa verde, em meio a regiões desérticas e deságua em enorme delta no Mediterrâneo. Todos os anos, de junho a setembro, chuvas torrenciais junto às nascentes fazem o Nilo transbordar. Ao retomar seu nível habitual o rio deixa sobre as terras que inundou uma camada de limo fertilizante que proporciona colheitas fartas, no estreito vale cercado de solo árido. Daí ter Heródoto, historiador grego, chamado o Egito "dádiva do Nilo".

Alguém que visite o Egito sem ter previamente ouvido falar algo a seu respeito terá de perceber [...] que o Egito, para onde se dirigem os navios gregos, é fruto de uma dádiva do rio.

Poucos esforços despendem os egípcios para obter frutos da terra. Não precisam sulcar o solo por meio do arado, nem revolvê-lo à custa da enxada ou trabalhar os campos como o têm de fazer outras populações.

Aguardam simplesmente que o rio suba, transborde, inunde, fertilize os campos e torne ao leito normal. Cada um semeia então seu lote de terra e a seguir, solta nos campos porcos e ovelhas que, pisoteando-os, garantem às sementes melhor penetração no solo. Depois apenas têm de aguardar o tempo da colheita [...]. (Heródoto, II, 5 e II, 14)

O Nilo levou os egípcios a construírem diques para impedir a inundação de seus vilarejos na época das cheias, a abrirem canais para a irrigação de terras não atingidas pelas inundações periódicas, a formarem reservatórios de água para enfrentar a época das secas (fevereiro a junho).

O Nilo era a principal via de transporte e de comunicação: embarcações várias desciam o rio levadas pela correnteza, e ventos favoráveis possibilitavam o uso de barcos a vela, rio acima.

2. Evolução histórica do Egito. Por volta de 5000 a.C. os povos do Egito viviam ao longo do vale do Nilo, organizados em pequenos estados chamados nomos, cada qual com seu chefe. Os nomos do Norte e os nomos do Sul acabaram formando dois reinos rivais entre si, o do Alto Egito (vale) e o do baixo Egito (delta). Cerca de 3000 a.C. esses dois reinos foram unificados por um príncipe do Alto Egito, Menés, intitulado faraó, tornando-se a suprema autoridade do país, rei e deus ao mesmo tempo.

A partir de Menés a história do Egito se desenrolou cobrindo aproximadamente 3000 anos, dividida segundo as várias dinastias de reis, em três períodos conhecidos por Antigo Império, Médio Império e Novo Império.

* Antigo Império (ca. 2800 a 2200 a.C., da I à VI dinastias). Teve por capital Mênfis, no delta. Nesse período os egípcios apenas transpuseram suas fronteiras em busca de matérias-primas que não possuíam, como ouro (Núbia), cobre (Sinai), madeira de cedro (Líbano). O Antigo Império terminou em consequência do rompimento da unidade política, causado pelo enfraquecimento da autoridade do faraó, por lutas entre vários nomos em disputa de poder, por agitações internas. Seguiu-se um período intermediário que durou cerca de 150 anos (da VII à X dinastias).

* Médio Império (ca. 2050 a 1750 a.C., da XI à XII dinastia). Príncipes do Alto Egito restauraram a unidade política do império, transformando Tebas em capital e dando ao país uma administração sólida e grandes prosperidade. O Médio Império se dissolveu em consequência de novas agitações políticas internas que enfraqueceram o país, permitindo fosse invadido pelos hicsos, povo nômade de origem asiática. Dominaram facilmente a região do delta, graças ao seu poderio militar, possuindo armas muito eficientes e carros de combate puxados a cavalo. Com a ocupação do Baixo Egito pelos hicsos começou o segundo período intermediário, que durou aproximadamente 150 anos (da XIII à XVII dinastias).

* Novo Império (ca. 1580 a 1090 a.C., da XVIII à XX dinastias). Mais uma vez príncipes de Tebas, no Alto Egito, restabeleceram a unidade do império. Os hicsos foram expulsos e os egípcios, sob Tutmósis III e Ramsés II, expandiram-se territorialmente, assegurando com isso ao país uma fase de extraordinária riqueza e prosperidade. Todavia novas agitações internas e novas ondas de povos invasores provocaram o declínio do império egípcio, que entrou em decadência e foi conquistado pelos assírios (670 a.C.). Após breve reerguimento - Renascimento Saíta - sob os príncipes da cidade de Saís, que expulsaram os assírios, o Egito foi conquistado sucessivamente pelos persas (525 a.C.), pelos gregos (332 a.C.) e pelos romanos (30 a.C.).


3. A sociedade egípcia


Faraó
Para seus súditos era filho de deuses e deus ele próprio. Tinha poder absoluto, dispensava justiça, era o administrador supremo do país. Com a ajuda de funcionários por ele escolhido, zelava pela unidade e pela defesa do império, mantendo a ordem e a paz.

Sacerdotes
Formavam a camada mais culta do país; encarregavam-se das cerimônias religiosas e da transmissão da cultura; constituíram uma classe extremamente poderosa e rica, sobretudo durante o Novo Império, quando os templos receberam grandes extensões de terras e parte das riquezas conquistadas a outros povos.

Escribas
Indivíduos provindos de várias classes, que aprenderam a ler e escrever, rudimentos de aritmética e de medicina, em escolas do palácio real ou dos templos, a fim de seguir carreira administrativa ou religiosa. Para a carreira sacerdotal estudavam as tradições religiosas; para a carreira administrativa, as leis e regulamentos. Formavam uma classe de grande prestígio, desempenhando papel importante no governo ou no clero, chegando mesmo a cargos de altos funcionários, ministros de Estado ou sumos sacerdotes.

Nobres
Geralmente pertencentes às famílias governantes dos nomos (províncias), que conquistaram grande destaque, particularmente durante o primeiro período intermediário e o Médio Império.

Soldados
Como classe distinta só adquiriu importância durante o Novo Império, na fase de expansão territorial, quando foi organizado um exército regular, possibilitando a ascensão das classes mais humildes.

Artesãos
Trabalhavam como pedreiros, carpinteiros, desenhistas, escultores, entalhadores, pintores, marceneiros, tecelões, ourives, etc., nas grandes obras públicas, templos, túmulos, palácios, recebendo seu pagamento em rações de alimento.

Camponeses
Compunham a maioria da população. Não eram, porém, donos de terras: trabalhavam nas propriedades do faraó, dos sacerdotes, e tinham o direito de conservar para si apenas uma pequena parte dos produtos colhidos. Pagavam pesadas taxas ao governo; além disso, na época das cheias do Nilo eram convocados para a construção de estradas, diques, canais de irrigação, palácios, túmulos e templos.

Escravos
Ao que parece, os egípcios só tiveram como escravos elementos estrangeiros, capturados em guerra, e foram relativamente pouco numerosos, a não ser no período de conquistas durante o Novo Império. Eram encarregados dos trabalhos mais árduos e pesados. Alguns serviram no exército, outros fizeram carreira administrativa, - graças a seus conhecimentos de línguas -, alguns foram libertos.

Cenas de trabalho 

“Vi o trabalhador em bronze em seu ofício, na boca do forno; seus dedos estavam mais enrugados do que a pele do crocodilo e cheirava mais do que restos de peixe. O cortador de pedra procura trabalho em toda espécie de pedras duras. Quando termina seu trabalho, tem os braços cansados. Quando ele se assenta, ao crepúsculo, sua espinha e suas coxas estão quebradas. O barbeiro vai de rua em rua e procura seu cliente. Ele se aplica fortemente trabalhando com seus braços para se saciar, como uma abelha que se nutre com seu trabalho. O jardineiro leva pesados fardos; de manhã rega o alho-porro, à tarde a vinha. O pescador é o mais miserável de todos os trabalhadores; trabalha no rio, ao lado dos crocodilos.” (ERMAN, E. “Sátira dos Ofícios do Médio Império”. In: L’Egipte des pharaons. Paris: Payot, 1952. p. 238-239)

4. Economia egípcia. A base da economia egípcia sempre foi a agricultura; os principais produtos da terra eram o trigo, a cevada, a lentilha, frutas, legumes, linho, algodão, papiro. O papiro, caniço natural do delta, servia para fazer uma espécie de papel usado até a Idade Média. Era utilizado ainda para a fabricação de barcos, esteiras, cestas, cordas, sandálias.

Embora a agricultura fosse a fonte mais importante de riqueza para os egípcios, estes também desenvolveram a exploração de pedreiras e de jazidas de metais e criaram uma manufatura muito aperfeiçoada de artigos têxteis, de cerâmica, de vidro e de ourivesaria.

A partir do Médio Império o comércio externo começou a expandir-se trocando mercadorias com Creta, Assíria, Palestina, Mesopotâmia, e teve excepcional destaque durante o Novo Império, quando navios egípcios cruzavam o Mediterrâneo e o Mar Vermelho para alcançar a Europa e a Ásia. Nesse período o Egito exportou, em quantidade, trigo, tecidos de linho e cerâmicas finas e importou cobre, bronze, ferro, ouro, prata, marfim, madeiras, pedras semipreciosas (lápis-lazúli, turquesa), perfumes, especiarias, peles de animais, plumas de avestruz, armas.

O estado egípcio, centralizado nas mãos do faraó, tinha controle absoluto sobre a exploração de pedreiras e minas e sobre o comércio externo; durante o Novo Império esse controle estendeu-se a todos os setores da economia.

5. Religião egípcia. Os egípcios eram politeístas, isto é, acreditavam em vários deuses, alguns representados por cabeças de animais. Cada cidade tinha seus deuses particulares e, quando se tornava capital do império, esses deuses passavam a ser adorados em todo o Egito.

No Antigo Império adorou-se Rá, deus-sol, e seus descendentes Osíris, deus da morte, com a esposa Ísis e seu filho Hórus. Os faraós intitulavam-se filhos de Rá. Durante o Médio e o Novo Império adorou-se Amon, protetor da cidade de Tebas, que passou a chamar-se Amon-Rá.

Em honra aos deuses foram construídos templos gigantescos, magnificamente decorados com esculturas, baixos-relevos e inscrições hieroglíficas, destacando-se, na região de Tebas, os templos de Lúxor e de Carnac.

Os egípcios acreditavam na imortalidade e, por isso, era necessário conservar o corpo depois da morte. Aqueles que podiam sustentar as elevadas despesas dos ritos funerários dispensavam cuidados especiais aos mortos, embalsamando-os, transformando-os em múmias, protegidas por máscaras mortuárias, guardadas em sarcófagos. A múmia teria na vida do além-túmulo as mesmas necessidades terrenas e, assim, junto a ela eram colocados alimentos, roupas, móveis, perfumes, seus pertences de valor, tudo enfim de que ela poderia precisar.

Os túmulos dos faraós, dos nobres e dos ricos eram construídos e decorados como casas. Durante as duas primeiras dinastias os túmulos eram retos em cima, com paredes inclinadas, com várias câmaras, às vezes subterrâneas, chamadas mastabas. Essa forma evoluiu para a de pirâmide, sendo usada durante todo o resto do Antigo Império e no Médio Império. Durante o Novo Império, para evitar a pilhagem, construíram-se túmulos subterrâneos chamados hipogeus.

6. Escrita e literatura. A escrita surgiu contemporaneamente à unificação política (IV milênio a.C.) e foi sofrendo uma evolução que, partindo de símbolos pictóricos, aproximou-se da representação de sons, sem entretanto conseguir criar uma escrita alfabética. Até o fim da civilização egípcia surgiram três tipos:

- Hieróglifos: uma combinação de ideogramas com fonogramas; usada geralmente para inscrições oficiais e sagradas, em pedra;
- Escrita hierática (ou sacerdotal): forma simplificada dos hieróglifos; usada para se escrever na madeira (com pincel) ou no papiro (com pena de ganso);
- Escrita demótica (ou popular): forma cursiva da hierática; usada para cartas, contas ou negócios, especialmente sobre papiro.

Os primeiros livros egípcios foram escritos a partir de 4000 a.C., aproximadamente, em longos rolos de papiro. Alguns tinham conteúdo religioso, como o Drama menfítico (fim do IV milênio a.C.), o Hino de Iknáton (do Novo Império) e o Livro dos Mortos, que era colocado entre as faixas das múmias. Outros contavam aventuras, sendo talvez os primeiros livros de estórias, como as Aventuras de Sinhuê. Do Novo Império, chegaram até nós, entre outras obras, a Canção do harpista e o Discurso do camponês eloquente, refletindo considerações de caráter moral e religioso.


O escriba

Desejo que ames a escrita mais do que a tua própria mãe. Descortino para ti os encantos da arte de escrever; nenhuma outra profissão tem encantos maiores. Em todo o país nada existe capaz de igualar esta arte em beleza. O aprendiz de escriba, mal inicia, criança ainda, seus estudos, já é alvo de saudações e passa a servir de mensageiro. Quando de seu regresso não terá de se ocupar com trabalhos pesados, Dentre todos que exercem uma profissão somente o escriba não está sujeito a receber ordens. Ele próprio manda. Se souberes escrever, terás na profissão de escriba vantagens maiores às das demais profissões. (De um papiro egípcio)

7. Ciência egípcia. Os egípcios desenvolveram a aritmética, conseguindo efetuar cálculos dos mais complicados, embora só soubessem somar e subtrair. Devido às enchentes do Nilo, que frequentemente arrancavam os marcos de limites das terras, desenvolveram também uma geometria para medir as áreas e assim restabelecer os marcos. Sabiam também medir áreas de triângulos, retângulos e hexágonos, ou o volume de cilindros e pirâmides.

Depois do Médio Império fizeram progressos apreciáveis na medicina. Sabiam reduzir fraturas, curar feridas e conheciam as propriedades de certas ervas e de alguns minerais. Sabiam da importância do coração e o significado da pulsação; tinham bons conhecimentos de anatomia humana; compreenderam que as moléstias tinham causas naturais e não mágicas, como ainda acreditava a maioria dos povos da época e mesmo de épocas posteriores.

Já no III milênio a.C. os egípcios chegaram a elaborar um calendário solar - o mais perfeito da Antiguidade - que lhes permitia, entre outras coisas, prever as cheias do Nilo. Compunha-se de 365 dias, agrupados em 12 meses de 30 dias, e mais cinco dias adicionais. Dividiram o dia e a noite em 12 partes iguais, dando origem às nossas atuais horas. Para medir o tempo usavam o relógio de sol e, mais tarde, o relógio de água, a clepsidra, que serviu até a invenção dos primeiros relógios mecânicos, já em plena Idade Média. HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 13-21.

8. A vida cotidiana dos antigos egípcios. A maior parte da população egípcia morava em pequenas cabanas feitas de junco, madeira e barro. As casas eram construídas nos locais mais elevados, para não serem atingidas pelas inundações. Essas casas, além de fornecer abrigo nas noites frias, protegiam das tempestades de areia. Nas épocas de muito calor, as famílias procuravam os telhados para tomar ar fresco e fugir do mormaço do interior das casas.

A casa dos camponeses era simples, geralmente com uma única divisão e quase sem móveis. Os camponeses possuíam apenas algumas esteiras, alguns utensílios de cozinha e alguns vasos.

As casas dos egípcios mais ricos eram mais confortáveis. Feitas com tijolos de barro secos ao sol, elas eram bem decoradas e mobiliadas. Possuíam camas, mesas, cadeiras, e os bancos tinham assentos de couro ou de palha. Mesmo as casas de alguns artesãos, que não eram ricos, eram bem melhores que as casas dos camponeses.

A alimentação dos egípcios consistia de pão, cebola, alho, fava, lentilha, rabanete, pepino e peixe. Essa alimentação era regada por cerveja não fermentada. Os pobres só comiam carne e frutas nos dias de festas. O vinho só aparecia na mesa dos ricos, que, além dos alimentos citados, consumiam frutas, queijos e carnes de animais domésticos e selvagens.

Em suas atividades de caça e pesca no Nilo, os egípcios navegavam em pequenas e frágeis embarcações feitas de feixes de papiro atados. Os pescadores trabalhavam em grupos e utilizavam enormes redes. Os nobres pescavam só por diversão, com o auxílio de lanças.

Os camponeses e artesãos vestiam-se apenas com um pedaço de tecido, colocado em forma de tanga em volta da cintura. As mulheres usavam uma longa túnica e os meninos geralmente andavam nus.

Os ricos usavam trajes mais requintados. Os nobres, por exemplo, usavam um saiote pregueado; suas mulheres, vestidos bordados com contas. Nas cerimônias, tanto os homens como as mulheres usavam pesadas perucas. Além disso, independentemente de idade ou sexo, os egípcios gostavam de usar vários objetos de enfeite - tiaras, brincos, colares, anéis, braceletes e pulseiras. Esses objetos podiam ser de ouro, prata, pedras semipreciosas, contas de vidro, conchas ou pequenas pedras polidas de cores variadas.


Uma família egípcia

Os egípcios tinham ainda seus jogos e divertimentos. Os jovens nobres, por exemplo, costumavam sair em carros puxados por cavalos para ir ao rio pescar, apanhar aves ou caçar hipopótamos e crocodilos.

A luta e a natação eram os esportes mais populares. Os barqueiros costumavam formar equipes e fazer competições no rio. Nessas ocasiões iam armados com paus a fim de derrubar seus adversários na água.

Os egípcios apreciavam muito os jogos de tabuleiro. Esses jogos assemelhavam-se aos jogos de xadrez e de damas que conhecemos hoje.

As crianças egípcias também tinham seus jogos e brinquedos. Gostavam muito de dançar, disputar jogos de equipe, pular carniça e brincar com bonecas e bolas. MILLARD, Anne. Os egípcios. São Paulo: Melhoramentos, s.d. p. 26.


Meninas brincando