"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 18 de julho de 2016

Os celtas: a expansão

Imagem 1: Estela funerária céltica.

[...] Heródoto, que escreveu em meados do século V a.C. [...] menciona a presença dos celtas na Península Ibérica, bem perto dos “últimos habitantes da Europa no Ocidente”. Sem dúvida, ele escreveu que o Danúbio nasce entre os celtas e mais precisamente no Roussillon atual. Mas este erro não condena sua dupla afirmação: o Danúbio nasce de fato em região celta e os celtas, antes mesmo do fim da civilização de Hallstatt, já se encontram na Espanha e em Portugal. Certos eruditos falam de celtas, ou pelo menos de protoceltas, na idade do bronze, atribuindo-lhes, desde este momento, migrações em direção a oeste. [...] Desde esta época, encontra-se nas sepulturas o colar aberto que, para os Antigos, foi o símbolo distintivo do celta: o torques, feito de uma haste torcida de ouro ou bronze e terminado por bolas. Quanto à civilização de La Tène, nenhuma dúvida se permite agora: ela é, por excelência, uma civilização celta [...].

Este nome de celta não pode corresponder a qualquer realidade étnica. Os escritores e os artistas da Antiguidade mostram-nos o tipo clássico do celta ou do gaulês: alto, vigoroso, olhos azuis, abundantes cabelos louros ou ruivos. Há nisso muito convencionalismo ou, ao menos, uma generalização abusiva do tipo predominante. Há muito, desde o princípio do I milênio a.C., já não existia, em parte alguma, uma raça pura, no sentido físico da palavra, e em todas as regiões, muito diversas e distantes umas das outras, onde se estabeleceram, os celtas misturaram-se, em maior ou menor escala, com as populações anteriores, por sua vez já muito mestiçadas. [...]

[...]

A lingüística determina que o céltico, pertencente ao grupo indo-europeu, encontra-se em relações diretas, de um lado, com o germânico, e com o itálico, de outro. [...]

[...] o estudo dos topônimos, hidrônimos e orônimos conduz os lingüistas ao reconhecimento de um máximo de densidade indiscutivelmente céltica na Alemanha Ocidental, entre o Reno e o Danúbio. Tomando apenas um exemplo, todos os afluentes da margem direita do Reno, do Neckar ao Lippe, possuem nomes célticos. [...]


Imagem 2: Epona, Senhora dos Animais. Arte céltica.

Ora, esse povo mostrou-se, durante alguns séculos ao menos, antes e depois dos meados do I milênio a.C., um dos mais expansivos que já existiram. Entre as grandes migrações dos indo-europeus para o Oriente, no II milênio a.C., e a dos bárbaros, a partir do século III de nossa era, as migrações dos celtas foram o maior fato humano desta categoria e produziram conseqüências históricas importantes, muitas das quais nos escapam, devido à falta de informações sobre a situação anterior. Transtornaram o povoamento de certas regiões e destruíram, ou, ao menos, enfraqueceram impérios, o poderio etrusco, por exemplo. Levaram a confusão e o terror a sociedades há muito sedentárias e a civilizações já muito evoluídas. Nossa documentação não deixa a menor dúvida sobre a amplitude dos danos praticados, bem como sobre a impressão de desassossego produzida na Itália e, principalmente, no mundo helenístico. O mundo civilizado de então experimentou, durante curto espaço de tempo, o mesmo sentimento trágico de sua fragilidade diante da barbárie desencadeada, que lhe caberia experimentar mais tarde diante do choque das grandes invasões contra o Império Romano. O sentimento de catástrofe suscitado pelo acontecimento foi o mesmo em todos os lugares? É possível, embora o risco ter sido menor nos países de menor densidade demográfica e de equipamento mais rudimentar. De qualquer maneira, o silêncio das fontes não nos permite julgar.

Gostaríamos de conhecer as causas da expansão céltica: excesso de natalidade provocando a necessidade de novos recursos, guerras civis, pressão dos povos nórdicos? [...] Gostaríamos de conhecer também as suas modalidades. Parece ter-se tratado, quase sempre, não de um deslocamento de todo um povo ou mesmo de uma tribo, mas sim da partida de bandos sucessivos em direções diversas: encontram-se Tectosagos na Ásia Menor e em Toulose, Tolistoboianos na Ásia Menor e Boianos na Boêmia – cujo nome provém deste povo – e ao sul do Pó. Conduzidos por chefes nobres, levando consigo mulheres e crianças em carros, esses bandos lançavam-se à aventura, não hesitando em desalojar os que os haviam precedido, não perdendo as ocasiões de pilhagem, mas procurando principalmente terras para se instalarem, prontos, tanto a conquistá-los pela força e pela chacina, como a obtê-las por acordos negociados.

[...]

Imagem 3: Bardo com cítara. Arte céltica.

Em direção ao Oriente, os celtas ocupam a Boêmia e o vale do Danúbio. Passando pela Transilvânia, penetram até a Ucrânia. Ao norte dos Bálcãs, acham-se, desde o início do século IV a.C., em contactos com os ilírios e os trácios, e dentro em pouco com os macedônios: algumas embaixadas célticas chegam a ser recebidas por Alexandre. Em 280 a.C., penetram na Macedônia e, no inverno de 279-278 a.C., os tesouros de Delfos só lhes escapam por milagre. Afastam-se, por fim, dessas regiões que contavam bons meios de defesa. Fundam, na Trácia, um Estado que dura até o fim do século III a.C. A partir de 276, principalmente, estabelecem-se no centro da Ásia Menor e, ao redor de Ancira (hoje Ancara), a Galácia, que lhes deve o nome, só perde a independência na época de Augusto.

Em direção ao Ocidente, espalham-se pela Gália. Sua última vaga, representada pelos belgas, finalmente instaladas até o Sena e o Marne, deve ter vindo pelo norte, no século III a.C., e continuado o seu avanço até meados do século II; mas eles desalojam os celtas chegados anteriormente. Da Gália, os celtas passam, em data desconhecida e sem dúvida em várias vagas, à Grã-Bretanha e Irlanda. É partindo também da Gália que alcançam a Península Ibérica, onde a indicação de sua presença por Heródoto já é válida para o século VI a.C.: acabam por dominar aí todas as regiões do Norte, do Ocidente e do Centro. Enfim, penetram na Itália, vindos talvez ao mesmo tempo da Gália e pelas gargantas dos Alpes Centrais. A partir do princípio do século IV a.C., instalam-se na Lombardia e ao sul do Pó, até os Apeninos e o Adriático: caídas em seu poder, as cidades etruscas de Melpum e Felsina têm como herdeiras Mediolanum (Milão) e Bononia (Bolonha), cujos nomes se encontram em muitas outras regiões do domínio céltico. Por vezes enviam bandos para o sul: pouco depois de 390 a.C., capturam e destroem Roma; surgem mesmo na Campânia e nas costas do estreito de Messina.

Todos estes territórios, submetidos de maneira mais ou menos total e duradoura pelos celtas, encontravam-se demasiadamente dispersos para que se possa imaginar, em dado momento, a existência de um império celta. Desenvolvendo-se por vários séculos, a expansão fez-se sem qualquer plano e sem apresentar coesão. Uma vez sedentarizados, estes povos, mesmo vizinhos, raramente socorreram-se uns aos outros. [...]

[...]

Pouco numerosos, talvez, desde o início, no momento da migração – as fontes gregas e latinas exageram muito os seus efetivos – enfraquecidos pela conquista e pelas guerras subseqüentes, os celtas do exterior jamais conservaram a integridade de sua própria civilização. Parecem ter sido, aliás, sempre muito receptivos às influências estrangeiras, seduzidos, particularmente, pelo luxo das jóias e pelos requintes do vestuário, mas também pelos cultos locais. Como a contaminação étnica auxiliava estas influências, compreende-se por que os antigos falam de celtocitas, celtotrácios, galo-gregos, celtiberos. O celtismo desses valorosos guerreiros que, ao acaso, haviam conquistado boa parte da Europa e tomado pé na Ásia Menor, reduziu-se pouco a pouco a tradições religiosas e lingüísticas de ínfima importância prática.


AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. Roma e seu império. O Ocidente e a formação da unidade mediterrânica. São Paulo: Difel, 1974. p. 62-66. (História geral das civilizações, 3)

sábado, 9 de janeiro de 2016

Povos do mundo: América

Galeria 1 - Povos indígenas

[Índios pampas, Carlos Morel]

[Mulher e criança indígena Secotan, Carolina do Norte, John White]

[Mulher índia puebla, Irving E. Couse]

[Índios simulando búfalo, Frederic Remington]

[Arapahos, Alfred Jacob Miller]

[Uma índia puebla pintando potes, Henry François Farny]

[Tipis sioux, Karl Bodmer]

[Dividindo a propriedade do chefe, Joseph Henry Sharp]

[Água para o acampamento, Charles Marion Russell]

[Fundação da cidade do México, José María Jara]

[Índios Apiaká no rio Arinos, Hércules Florence]

Galeria 2 - Afro-americanos

[Vestido para o carnaval, Winstow Homer]

[As catadoras de algodão, Winstow Homer]

[Lição de banjo, Henry Ossawa Tanner]

[Domingo de manhã, Thomas Waterman Wood]

[O jogador de osso, William Sidney Mount]

[Domingo de manhã na Virgínia, Winslow Homer]

[Um enterro na plantação, John Antrobus]

[A lição de dança (Menino negro dançando), Thomas Eakins]

[A carroça de algodão, William Aiken Walker]

[General Juan Manuel de Rosas no candomblé, Martín Boneoan]

Galeria 3 - Mestiços


[Um homem mestiço e sua esposa índia, Miguel Cabrera]

[Mestiços, Peru, Artista desconhecido]

[Castas na América Colonial, Artista desconhecido]

[Redenção de Cam, Modesto Brocos. Avó negra, filha mulata, genro e neto brancos]

[Mulato, Albert Eckhout]

sexta-feira, 11 de maio de 2012

O caminho em direção à igualdade

Marcha do Dia da Consciência Negra

"[...] multiplicam-se as denúncias de trabalho escravo no Brasil e os criminosos permanecem impunes. As autoridades limitam-se a libertar os trabalhadores escravos, dentre os quais encontram-se até crianças.

Será que, neste novo milênio, a sociedade brasileira continuará marcada por tantas permanências coloniais?

Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó.
(O mundo é um moinho, samba de Cartola)

Será que o mundo persistirá reduzindo a pó o sonho de liberdade dos negros?” AQUINO, R. S. L. et alli. Sociedade brasileira: uma história através dos movimentos sociais. Rio de Janeiro: Record, 2011; p. 49.


[...] Depois do fim da escravidão as elites brasileiras buscaram eliminar nossos laços com as culturas africanas e os sinais da presença dos afrodescendentes entre nós, sonhando com o branqueamento da população. Este seria conseguido com a chegada de grande quantidade de imigrantes europeus, enquanto os negros desapareceriam não só pela miscigenação como pelos altos índices de mortalidade que atingiam as populações mais pobres.

Essa posição brasileira era radicalmente diferente da norte-americana, na qual os preconceitos contra os afrodescendentes resultaram na segregação total entre brancos e negros. A mestiçagem lá era recriminada e o mestiço era considerado negro. Já no Brasil, ele ia ficando cada vez mais branco, o que, pensavam os poderosos, resultaria numa sociedade branca. A força do pensamento dominante fazia com que os afrodescendentes se sentissem inferiorizados devido às suas origens africanas, buscando escondê-las com o abandono de suas tradições (pelo menos entre os mais instruídos) e com a preferência por casamentos inter-raciais que produzissem filhos de pele mais clara, cabelo mais liso, lábios e nariz mais finos. Assim, se aceitávamos e mesmo estimulávamos a mestiçagem, não era por falta de preconceitos, e sim porque queríamos apagar os traços africanos de nossa população. Da mesma forma, buscava-se um distanciamento cada vez maior da África, considerada terra de povos atrasados, incapazes de construir civilizações evoluídas.

O branqueamento, porém, não aconteceu. Como todos sabemos, os brasileiros, mesmo quando são negros ou mestiços, são bastante morenos se tomarmos os europeus e norte-americanos brancos como referência. Apesar da miscigenação que tornou até mesmo a elite mais morena, a maioria dos negros e mestiços foi mantida nos segmentos mais desfavorecidos da população, não só pela precariedade das oportunidades oferecidas para a sua educação e aprimoramento profissional como também pela preferência por pessoas de pele mais clara para ocupar os melhores cargos no mercado de trabalho. [...]

[...] No que diz respeito à África, especificamente, o desenvolvimento dos estudos sobre as suas sociedades, do presente e do passado, mostrou a sua complexidade, no caso dos grandes reinos e impérios, e a sua eficácia, no caso das sociedades descentralizadas, organizadas a partir de aldeias, com formas de estruturação mais comunitárias. [...]

Todas essas mudanças na maneira de ver o mundo, as sociedades e as pessoas, que não eram mais hierarquizadas a partir das suas características biológicas, fortaleceram um movimento de afirmação da negritude e de valorização das coisas africanas, do qual participaram os países que no passado estiveram envolvidos com a escravidão e o tráfico de escravos - razão do transporte de mais de 10 milhões de pessoas da África para as Américas. [...]

Tomando consciência disso, e conhecendo melhor a história e as sociedades africanas, os afrodescendentes passaram, pouco a pouco, a valorizar seus traços distintivos, suas culturas ancestrais, sua contribuição à formação da sociedade brasileira, mudando sua posição de uma vontade de se tornar igual ao branco para uma valorização de suas tradições, estéticas, sensibilidades e aparências. O sentimento de inferioridade criado pela situação anterior deu lugar ao orgulho de ser negro, que será um dos pilares da construção de um novo lugar do afrobrasileiro no conjunto da sociedade.

Isso, porém, não é suficiente. Relações sociais construídas ao longo de mais de trezentos anos não são alteradas de uma hora para outra. Preconceitos profundamente arraigados não são derrubados só com doses de boa vontade. A elite branca não abrirá mão de sua posição privilegiada por livre e espontânea vontade. Para ajudar as transformações, além das mudanças de comportamento e sensibilidade, são fundamentais as alterações na legislação que ordena a sociedade e as relações entre os homens. E isso também vem acontecendo, principalmente a partir dos anos 1990, quando as discussões relativas à reserva de vagas nas empresas e nas universidades para afrodescendentes começaram a virar realidade na forma de leis. Mesmo com sua implantação dificultada por uma série de variáveis e incertezas acerca da pertinência ou não de tais medidas legais, aos poucos as coisas vão mudando, inclusive no plano das sensibilidades.

As ações afirmativas,  como são chamadas essas reservas de vagas em empresas e universidades, certamente têm vários problemas, sendo um dos principais o estabelecimento de critérios de quem estará apto a pleiteá-las numa sociedade mestiça, portanto com os limites entre o branco e o negro extremamente difíceis de serem estabelecidos. Além disso, é evidente que com essa medida não se enfrenta o problema da deficiência da educação fundamental nas escolas públicas, onde estudam as parcelas mais pobres da população, que também são as mais negras e mestiças. Com pior formação escolar, esses estudantes não conseguem competir em pé de igualdade pelas vagas nas universidades públicas com aqueles formados em escolas particulares. Mas, apesar dos problemas, de algum lugar temos de partir, e a garantia de acesso a posições às quais os afrodescendentes estiveram sistematicamente excluídos é uma conquista de condições mais igualitárias para o desenvolvimento de todas as pessoas, independentemente das origens étnicas ou sociais. 

[...]

Ao mudarmos a maneira como nos aproximamos desses temas e percebemos a importância dos africanos e afrodescendentes para a nossa formação, assim como o valor das sociedades africanas, que têm muito a contribuir para a história da humanidade como um todo, estaremos caminhando para o fortalecimento da autoestima de todos os afrobrasileiros e dos brasileiros em geral. Ao superar o sentimento de inferioridade os negros terão mais força para impor o respeito aos seus direitos. Ao percebermos o valor da contribuição africana, teremos mais orgulho do que somos: povo mestiço, no qual a convivência dos diferentes criou a originalidade que nos caracteriza, e que nos faz admirados pelos povos que só agora passam a lutar com a intensificação da mestiçagem. No mundo contemporâneo, cada vez mais mestiço, o Brasil poderá ser um exemplo a ser seguido, dependendo de como lidarmos com a diversidade de nossa população.

SOUZA, Marina de Mello e. África e Brasil africano. São Paulo: Ática, 2007. p. 140, 142-145.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Religião, sexo e família

Coleta de esmolas para a Igreja do Rosário, Debret

[...] a religião funcionava, como justificativa última da escravidão, na medida em que tudo o que acontecia com o escravo seria para o seu bem, para a salvação de sua alma. Mas era importante que também o escravo fosse cristão: abandonando sua religião de origem ele perderia um importante referencial de sua vida como homem livre e adotando o catolicismo teria como se conformar com sua condição. Assim, o escravo não apenas podia ser católico, ele tinha que sê-lo.

[...] A religião, no período da escravatura, deveria ser um freio para os revoltados, um consolo para os desanimados, uma esperança para os desgraçados, um alento para os fracos, como se dizia na época.

O senhor deveria ser entendido como um pai, severo e duro, temido e respeitado, que tudo fazia para o bem dos seus filhos. [...] a par da exploração material, acenava-se com a igualdade espiritual; conviviam o fato da miséria terrena e o ideal do paraíso celeste; argumentava-se com o infinito àqueles que só enxergavam suas cadeias; acenava-se com um assento à mesa de Deus aos miseráveis que engoliam sua comida nojenta de cócoras; falava-se de plenitude aos carentes, de calor aos que tinham frio, de alegria aos tristes, de alívio aos sofridos.

Tudo isso, porém, só poderiam obter se cumprissem o seu dever. Porque a virtude do homem - dizia a religião para o escravo - estava em trabalhar duro para o seu sustento; em conformar-se e se manter manso [...]; em submeter-se à ordem vigente, em respeitar o senhor e em arrepender-se das faltas [...].

O escravo era batizado logo que chegava ao seu local de trabalho - fazenda ou cidade - recebendo um nome "cristão". Devia esquecer a forma pela qual era chamado no seu lugar de origem. A atribuição de um novo nome e o batismo representavam a transformação do cativo em escravo, isto é, o início do trabalho compulsório. Assim, era de se esperar uma identificação feita pelo escravo, entre o poder e a religião. [...]

A religião, ensinando a mansidão e o conformismo, não se afinava com os movimentos de revolta em qualquer nível, ativos e passivos.

Por outro lado, não se pode negar que a grande massa de escravos ia se adaptando, tanto à sua condição quanto à religião. As formas de repressão desenvolvidas pelos senhores tinham por objetivo exatamente desestimular qualquer tipo de revolta ou reação contra si. [...] (Há exceções notáveis aqui, entre as quais a importante revolta dos malês, ocorrida na Bahia, assim como o candomblé e a capoeira como formas de resistência.)

Jogo de capoeira, Rugendas

No decorrer dos anos, o catolicismo imposto aos escravos vai sofrer alterações significativas, digerido tanto pela cultura trazida por eles da África, quanto pela prática social no Brasil. O chamado sincretismo religioso é uma das formas que distinguem a religião dos escravos daquela dos senhores. [...]

Por outro lado, valores morais apregoados pela religião eram sabidamente desobedecidos pelos senhores. Com toda a propalada preocupação em manter unida a família, o escravismo foi um elemento profundamente desagregador de uniões permanentes. Primeiramente porque separava, sem a menor cerimônia, casais que porventura viessem unidos da África. Depois, porque a desproporção entre homens e mulheres trazidos não era de molde a propiciar ligações permanentes. Na verdade, as condições de vida nas senzalas e a existência de uma mulher para quatro ou cinco homens estimulava o caráter transitório das ligações.

[...]

Conscientes do problema que representava a presença de muitos homens sem mulher, os senhores, na prática, estimulavam uniões transitórias, realizadas, frequentemente, apenas com o seu beneplácito, sem as bênçãos da religião - que, aliás, fechava os olhos para o fato. Mais comum ainda era a escrava ter filhos de vários homens, sem mesmo se envolver em ligações transitórias oficializadas pelo senhor.

Quando, excepcionalmente, a cerimônia religiosa ocorria, os sacramentos eram cumpridos pelo padre como formalidade desagradável e não como ato de fé. Considerava-se o ato como um luxo e não como decorrência da formação religiosa ministrada aos negros desde a infância.

Não se levam em consideração esses elementos quando, com enorme carga de preconceito, pretende-se atribuir aos negros características como leviandade nas relações pessoais e promiscuidade sexual. Na verdade, isso não tem, evidentemente, nenhum fundamento biológico, ou mesmo social: era fruto de constrangimento a que eram submetidos, à sua condição.

Interior de uma casa do baixo povo, Guillobel

Mesmo porque os senhores se utilizavam da situação para dar vazão à sua atividade sexual geralmente bastante reprimida em casa. Com efeito, o papel da esposa branca e legítima era apenas o de dar filhos ao seu marido [...]. Limitada em seus movimentos às fronteiras da residência do casal, pouco fazia. Desde menina tinha um bando de negrinhas a segui-la, atentas às suas ordens. Não se abaixava para levantar um lenço do chão, crescia balofa e vadia. Casava-se cedo, cedo começava a procriar. Evitava o "terrível" pecado original do prazer nas relações sexuais: na verdade, isso lhe era implicitamente vedado. Tinha como modelo a própria mãe de Deus, Maria, e supunha-se que deveria chegar perto de Maria como mulher virtuosa. Engordava após o parto e dificilmente voltava às curvas originais - com vinte anos já era uma matrona.

Não é difícil agora, numa época de menor repressão sexual imaginar a frustração dessas verdadeiras matrizes, utilizadas para procriar sem prazer. [...]

Quanto ao senhor, contudo, não há dúvidas. Cumpria com sua mulher branca as obrigações de reprodutor e marido, mas voltava-se às escravas para o prazer sexual. Entregava-se às negras e mulatas com todo o empenho, buscando usufruir delas a satisfação que não encontrava em sua formal cama de casado. O mito das mulheres quentes, atribuído, até hoje, às negras e mulatas pela tradição oral, decorre do papel que lhes era designado pela sociedade escravista. O historiador José Alípio Goulart recolheu [...] duas quadrinhas populares que consagram o caráter de objeto sexual dado às escravas bonitas:

Preta bonita é veneno
Mata tudo que é vivente;
Embriaga a criatura,
Tira a vergonha da gente.

Mulata é doce de coco,
Não se come sem canela.
Camarada de bom gosto,
Não pode passar sem ela.

Por seu turno, para as escravas, uma relação com o patrão poderia reverter em vantagens dentro da sua condição. Sabe-se de violências sexuais atrozes praticadas por senhores e feitores contra as negras escravas. [...] Mas não se pode negar que, diante da possibilidade de melhorar de condição [...] e vislumbrando também a possibilidade de ter um filho livre, a escrava acabasse cedendo ou, até mesmo, seduzindo o seu senhor. Ela sabia que quanto melhor fosse o seu desempenho sexual, mais oportunidades ela teria de prender o senhor, de reverter e até inverter a relação de poder, num ato que era também uma forma de vingança contra a sinhá e expectativa de tratamento privilegiado. Se conseguisse engravidar, via perspectivas de seu filho vir a ser libertado e incluído como agregado à grande família do senhor.

[...]

Às vezes - e muitas - a vingança saía pela culatra. Ofendida em seu amor próprio, a senhora utilizava-se de sua posição e torturava cruelmente a escrava, a ladra de seu homem. Assim morreram muitas jovens escravas, algumas das quais nem sequer quiseram dormir com o patrão, mas viram-se constrangidas a concordar com uma relação que, na sua condição de propriedade alheia, dificilmente conseguia evitar.

De qualquer forma, os documentos registram numerosos testemunhos das incursões que os senhores faziam às suas senzalas, com ou sem o consentimento das sinhás, com ou sem a aprovação das escravas: a multidão de mulatos, filhos de negras retintas; o grande número de agregados que aparecem nas famílias, sem papel definido, mas geralmente exercendo funções de confiança do senhor, e às vezes sendo por eles lembrados nos testamentos; e manumissões, de outras formas inexplicáveis, provavelmente fruto de promessas feitas durante o ato do amor com a mãe do libertado.

A partir de meados do século XIX, a propaganda abolicionista iria revelar vários aspectos da promiscuidade sexual, usando-a como argumento contrário à escravidão, acrescentando, já agora com o apoio de certos setores "progressistas" da Igreja, que ela "corrompia a família brasileira". Só então a legislação tratou de evitar a separação entre cônjuges, de estimular a união duradoura, de impedir a venda de filhos menores de 15 anos, entre outras medidas. [...]

[...]

[...] as relações inter-raciais eram muito complexas, não se reduzindo à já caricata presença da matronal mãe preta: produtora de leite sempre à mão e anjo de guarda das traquinagens dos garotos brancos.

Como consequência da relação senhor/escrava, ou por meio de ligações que ocorreram e ainda ocorrem entre negros e brancos livres, a miscigenação racial tem sido muito intensa no Brasil. [...]

PINSKY, Jaime. A escravidão no Brasil. São Paulo: Contexto, 2019. p. 56, 58, 60, 62, 64-66.

segunda-feira, 19 de março de 2012

O Brasil dos imigrantes

Navio de Emigrantes, Lasar Segall

Eis um país forjado por exilados. Foram, de fato, "povos transplantados" - para usar a expressão de Darcy Ribeiro - aqueles que construíram esta nação. Após quase 30 anos de abandono, apenas em 1532, com a criação das capitanias hereditárias, Portugal começou a fincar as raízes da primeira civilização europeia a se estabelecer nos trópicos - região que os próprios europeus imaginavam, e até descreviam, ora como paraíso ora como inferno. Massacrados os indígenas, miscigenados os portugueses, procriados os mamelucos e cafuzos, o país seria erguido pelo braço escravo: cerca de 4,5 milhões de negros foram trazidos da África para o Brasil ao longo de quatro séculos de tráfico. Com o fim da escravatura - ou, pouco antes, com a efervescência da campanha abolicionista - o país deu início a "importação em massa" de imigrantes europeus.


Emigrantes III, Lasar Segall

De 1886 a 1914, quase três milhões de estrangeiros vieram para o Brasil na tentativa de "fazer a América": foram, mais exatamente, 2,71 milhões os imigrantes que chegaram ao país em 28 anos. Eles fizeram do Brasil uma das três nações do mundo que mais se abriram para o fluxo migratório - EUA e Canadá são as outras duas. As causas dessa vertiginosa transmigração de povos são várias e suas consequências, duradouras e complexas. Embora seja, em seu fundamento, uma nação luso-africana, o Brasil se tornaria também, em especial no Sul, um país altamente europeizado. Imigrantes japoneses, árabes e judeus viriam a seguir, dando uma contribuição igualmente notável.


Tarantella, Henrique Bernardelli

O caldeirão de raças forjou uma nova nação. Mas não foi um processo tranquilo e orgânico. Pelo contrário: os conflitos inerentes da adaptação desses povos ao "novo mundo dos trópicos" acabaram por constituir a própria alma do Brasil. "A tentativa de implantação da cultura europeia em extenso território, dotado de condições naturais, senão adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em consequências. Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra. [...] O certo é que todo fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de outra paisagem", anotou Sérgio Buarque de Hollanda na abertura de seu clássico Raízes do Brasil.

No cafezal, Georgina de Albuquerque

Depois de portugueses e africanos, foram os italianos aqueles que chegaram em maior número ao Brasil: 1,6 milhão em mais de cem anos (921 mil apenas entre 1886 e 1900). O segundo maior contingente de imigrantes veio da Espanha: 694 mil em um século. Os alemães vêm a seguir, com 250 mil. Os japoneses ocupam o quarto lugar, com 229 mil imigrantes. Esses povos não modificaram apenas os hábitos, a língua, as formas de pensar, de agir e de se alimentar: mudaram a própria imagem que o país fazia de si mesmo. E, se não puderam mudar "o clima", transformaram profundamente "a paisagem": especialmente no Sul, o "imperialismo ecológico" dos "povos transplantados" fez brotar um Brasil europeizado, com outras árvores, outros animais, outras raízes. E, é claro, outras gentes: afinal, se na planície litorânea os povos Tupi foram massacrados para dar lugar aos colonos lusitanos, nas serranias do Sul, os Kaingang seriam exterminados para "liberar" a terra para os imigrantes teuto-italianos. No caldeirão brasileiro, algumas raças são mais iguais que outras.

BUENO, Eduardo. Brasil: uma história. São Paulo: Ática, 2003. p. 264.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O legado cultural indígena na sociedade brasileira

"O caboclo", Jean Baptiste Debret

O legado cultural indígena na sociedade brasileira iniciou-se com a própria conquista portuguesa, quando os índios ensinaram os colonizadores a alimentarem-se com os frutos da terra. Assim, iniciou-se o consumo pelos portugueses da mandioca, do milho, da batata-doce, do amendoim, da abóbora, do abacaxi, do caju, da pimenta, do mamão, entre outras iguarias que tanta alegria produzem no paladar do brasileiro. Quem nunca saboreou um mingau de fubá ou um peixe assado ou cozido? Como esquecer as delícias do beiju, da tapioca, da paçoca e da canjica? Quantas vezes você matou a sede bebendo um guaraná ou um mate? Essas bebidas eram desconhecidas dos europeus, mas amplamente consumidas pelos indígenas!

O branco incorporou também diversas técnicas adotadas pelos indígenas. Podemos destacar: a pesca por tarrafa, a coivara dos campos (consiste em clarear os campos com fogo e hoje é mais conhecida como queimada) e o mutirão, originado da prática tupi de realização coletiva de determinada atividade necessária para a manutenção da organização da tribo.

A medicina também utilizou-se da sabedoria indígena para auxiliar na cura dos homens. A quinina, empregada para a malária, ainda hoje é utilizada como medicamento básico. A copaíba, que os tupis utilizavam para curar feridas, igualmente continua a ser utilizada. Podemos citar, ainda, o curare, usado como anestésico, e a pajelança (invocação dos espíritos para efetivar a cura de doenças), praticada mediante a intermediação dos pajés.

A economia industrial europeia, desde as últimas décadas do século XIX e ao longo do século XX, utilizou o tabaco, do qual os índios foram os primeiros consumidores para fins cerminoniais. O algodão, como insumo industrial, tornou-se básico na expansão da produção de tecidos.

Também o folclore foi e ainda é marcado por mitos indígenas. Destacamos o curupira, que protegia a caça e a natureza, garantindo um permamente equilíbrio entre as necessidades do homem e a preservação do ambiente natural; o boto-tucuxi, que, no folclore amazônico, era o responsável pela gravidez de jovens virgens e de mulheres cujos maridos costumavam ausentar-se por longos períodos...

Podemos apontar ainda: o hábito de dormir em redes, tão difundido, sobretudo no Nordeste. O branco igualmente aprendeu a usar instrumentos de pesca, como as redes, o puçá, e a empregar pequenas embarcações, denominadas pirogas, para cortar os rios.

Contribuição inestimável encontramos na utilização de numerosas palavras de origem indígena. Como esquecer a origem de palavras comuns ao nosso cotidiano, como carioca, que significa a casa do homem branco, além de paraná, paranaguá, maracanã, ipanema, tatu e tantas outras empregadas principalmente para nomear acidentes geográficos, como rios, serras etc.

A influência étnica se manifestou na figura do mameluco, chamado ainda de caboclo e curiboca, resultado da miscigenação principalmente de pai branco e mãe indígena; ou do cafuso, ou carafuz, resultante da mestiçagem de índios e negros.

A construção de casas sertanejas apresenta elementos culturais indígenas, como a cobertura de palha, as paredes formadas por galhos entrelaçados, recoberta de barro e com chão de barro batido.

Os indígenas também vulgarizaram hábitos de higiene, como o costume do banho diário.

Dessa forma, a sociedade brasileira vive uma enorme contradição diante das comunidades indígenas: por um lado, convive com uma forte herança cultural recebida pelo conquistador português, e não se furta de saborear um bom guaraná, comer um pirarucu na brasa, degustar do açaí com tapioca; por outro lado, assassina índios em conflitos entre tribos e garimpeiros no interior da Amazônia, ou até mesmo, incendeia e mata um índio pataxó cujo único crime foi dormir num banco de um ponto de ônibus, em Brasília, na noite de 19 de abril de 1997, o Dia do Índio, e ter sido avistado por jovens da classe média alta da cidade que queriam fazer uma brincadeira com o cacique Galdino, da tribo dos pataxós, não sem ironia, a primeira tribo a travar contato com os brancos civilizados por volta de 22 de abril de 1500.

AQUINO, Rubim Santos Leão de et al. Sociedade brasileira: uma história através dos movimentos sociais. Rio de Janeiro: Record, 2008. p. 31-33.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Cultura brasileira: uma contribuição de brancos, negros e índios?

Retrato de negro, Arthur Timótheo

Cultura brasileira. Aventura dos homens, mulheres e crianças que aqui viveram; índios, negros e brancos; católicos, judeus e protestantes; população que simultaneamente forjou-se e ajudou a forjar o país.

Texto 1. [...] Em 2000 tivemos uma série de festividades em comemoração aos 500 anos de história do Brasil. O começo de nossa história estaria marcado pela chegada dos portugueses, pelo descobrimento. Mas basta pensarmos um pouco para vermos que o Brasil ainda não existia por volta de 1550, por exemplo. Não havia povo brasileiro, território brasileiro, leis brasileiras e tampouco um governo brasileiro. Se a cultura de um povo é a sua maneira de ser, ou seja, seus costumes, sua cozinha, suas festas, suas crenças, sua língua, suas vestimentas etc,, não havia também cultura brasileira. O que se tinha era a cultura dos portugueses que vieram para cá, as diversas culturas indígenas e as dos povos negros que foram trazidos como escravos da África. O que podemos chamar de cultura brasileira se formou lentamente a partir do encontro e da convivência entre portugueses, indígenas e africanos.

Esse encontro e essa convivência foram marcados pela exploração e pela dominação que os portugueses impuseram aos indígenas e africanos. Por essa razão, durante muito tempo, só os aspectos de origem portuguesa da nossa cultura eram valorizados pelas elites. Os de origem indígena e africana eram desprezados e até combatidos pelos grupos dominantes. Hoje aprendemos a valorizar as nossas raízes culturais indígenas e africanas.

A cultura brasileira recebeu posteriormente novas influências, em especial dos numerosos imigrantes que vieram para cá a partir da segunda metade do século XIX. Hoje em dia, comer macarronada aos domingos, por exemplo, é um hábito comum a um grande número de brasileiros. Esse costume, incorporado à nossa cultura, se deve à imigração italiana. (PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 23-4.)

                 
Iracema, Antonio Parreiras

"Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português"
(Erro de Português, Oswald de Andrade)

O último tamoio, Rodolfo Amoedo

Texto 2. De acordo com o senso comum, a cultura brasileira resultou da contribuição de brancos, negros e índios. No entanto, essa questão é mais complexa, uma vez que se corre o risco de generalizações e simplificações.

Afinal, quando se fala de "brancos", é preciso considerar não apenas os portugueses (a chamada "matriz portuguesa") mas também os imigrantes italianos, espanhóis, alemães, poloneses, ucranianos, holandeses, sírios, libaneses, dentre outras nacionalidades). Muitos destes imigrantes chegaram ao Brasil a partir da segunda metade do século XIX e, já no princípio do século XX, mais precisamente a partir de 1908, esse fluxo imigratório ganhou uma dimensão ainda maior com a vinda dos japoneses. Mais tarde, outros grupos asiáticos, como coreanos e chineses, também emigraram para o Brasil.


Lenhador, Rafael Pinto Bandeira

O vocábulo "negro" também é uma generalização que camufla a enorme multiplicidade étnico-linguística e cultural dos africanos que foram trazidos e se estabeleceram em determinadas regiões do território brasileiro no contexto do tráfico atlântico.


Fósforos, Firmino Monteiro

Se há alguns anos era comum fazer referência à "contribuição dos africanos na formação sociocultural brasileira", destacando-se, quase sempre a capoeira, o samba e a culinária, na atualidade, tal "legado" é muito questionado, uma vez que simplifica e banaliza a complexidade da história da cultura, relegando à etnia negra apenas um papel secundário em torno do eixo eurocêntrico.


Cena de Candomblé, Wilson Tibério

Em algumas áreas, como no polo açucareiro de Salvador, por exemplo, a presença africana e dos afrodescendentes foi tão expressiva que alguns autores sugerem que houve "uma contribuição portuguesa", num processo de africanização sociocultural.


"Meu pai grande
Ainda me lembro e que saudade de você
Dizendo: eu já criei seu pai, hoje vou criar você
Ainda tenho muita vida pra viver!
Meu pai grande
Quisera eu ter sua raça pra contar
A história dos guerreiros
Trazidos lá do longe, sem sua paz..."
(Pai Grande, Milton Nascimento)


Retrato, Arthur Timótheo

O mesmo raciocínio também se aplica aos "índios" e às suas "contribuições" (hábito de dormir na rede, tomar banho de rio, culinária, etc.). É preciso considerar que, em 1500, eles eram aproximadamente cinco milhões de indivíduos e que, em termos linguísticos, podiam ser agrupados em dois grandes troncos, o macro-jê e o macro-tupi, que englobavam mais de 600 línguas, o que por si só sugere a enorme diversidade cultural dos povos indígenas.



Essa questão se torna mais complexa quando se considera que, em determinadas regiões, como na Amazônia, a cultura indígena foi hegemônica no contexto da formação sociocultural da região. (BERUTTI, Flávio. Caminhos do Homem. Curitiba: Base Editorial, 2010. p. 239-240.)


Feiticeira, Rafael Pinto Bandeira

Texto 3. "A cultura popular viceja sempre. Foi no período anterior à chegada dos europeus que os índios forjaram a tradição de lendas e costumes que ainda hoje estão por aí espalhados, modificados como a história do saci-pererê ou temperados pela mão africana como as canjicas e os munguzás. E os africanos nos trouxeram, de suas distantes pátrias, o ritmo e a força que sobrevivem nas danças e nas religiões populares. Os caboclos e mulatos brasileiros, herdeiros dessa cultura, com as influências da tradição lusitana, mesclaram tudo isso nas festas de São João, nos reisados, nos maracatus, nas capoeiras, nos sambas, na macumba, na poesia popular de cordel". (ALENCAR, Chico [et alli]. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 45-46.)