"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 17 de março de 2014

A Arqueologia e as outras áreas do conhecimento

A arqueologia é uma disciplina que não pode ser desvencilhada de muitas outras com as quais está relacionada. O estudo da cultura material, de todo o imenso arsenal de artefatos que fazem parte do cotidiano do ser humano depende, em muitos casos, da interação da arqueologia com outras áreas.


Escavação em Pompeia, Lello Capaldo

A sua relação com a história é particularmente importante, quando mais não fosse porque, para alguns arqueólogos, a sua disciplina nada mais seria do que uma complementação da história [...]. Além disso, na tradição europeia, da qual somos também tributários, a arqueologia surgiu no seio da história. Assim, qualquer que seja o ponto de vista, a relação com a história constitui aspecto central da disciplina [...].

A cultura material estudada pelo arqueólogo insere-se, sempre, em um contexto histórico muito preciso e, portanto, o conhecimento da história constitui aspecto inelutável da pesquisa arqueológica. Assim, só se pode compreender a cerâmica grega se conhecermos a história da sociedade grega, as diferenças entre as cidades antigas, as transformações por que passaram. A história, contudo, não é tampouco uma descrição do passado tal qual aconteceu, é uma interpretação e, por isso, tanto mais será importante conhecer as controvérsias historiográficas sobre o período histórico tratado.

Não se trata, assim, de usar a história como fonte segura de informações, mas de conhecer as discussões dos historiadores e relacionar tais questões à cultura material estudada. As ciências não são apenas auxiliares umas das outras, elas mantém relações entre si. Os dados materiais, analisados pela arqueologia, podem tanto confirmar, como complementar e mesmo contradizer as informações das fontes históricas. Esses dois últimos aspectos são os mais importantes, pois permitem ao arqueólogo ir além daquilo que está nas fontes escritas.

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No século XIX, quando surgiu a antropologia, o contato das potências imperialistas, como Inglaterra, França e Estados Unidos, com povos periféricos, a exemplo dos africanos, asiáticos e latino-americanos, fez com que essa disciplina se desenvolvesse, como uma maneira de conhecer de que modo viviam os chamados "primitivos". Nos Estados Unidos, a oposição entre "nós" (os americanos) e "eles" (os primitivos) dividiu as disciplinas história e antropologia, que se constitui de quatro áreas: etnologia, lingüística, antropologia física e arqueologia.

Todas essas disciplinas ligavam-se ao estudo dos indígenas, vivos ou mortos. Para o conhecimento dos índios mortos, por meio dos vestígios materiais, desenvolveu-se a arqueologia. Com o decorrer do tempo, contudo, a antropologia passou a tratar do conhecimento dos ritos, costumes e características de quaisquer sociedades, em qualquer época, inclusive as nossas contemporâneas. Se a história se preocupa com a transformação e a mudança, a antropologia procura explicar a transmissão de valores culturais, de normas de conduta.

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Mas não é apenas no estudo dos artefatos que a antropologia é importante. A antropologia pode fornecer modelos de funcionamento da sociedade que permitem ao arqueólogo melhor entender o que ele estuda. [...]

[...] a antropologia física pode ser decisiva para o trabalho arqueológico. Para tanto, é necessária a preservação de vestígios esqueletais, algo que nem sempre é fácil, já que solos ácidos consomem os ossos em poucos anos. Quando preservados, sua análise permite que possamos estudar uma infinidade de aspectos da vida daqueles seres humanos. Assim, podemos saber quais as idades aproximadas em que as pessoas morriam e suas condições físicas no final da vida. Com isso, depreendemos que, em muitas sociedades antigas, a maioria das pessoas morria relativamente jovem.

Podemos, ainda, identificar algumas das doenças que afligiam populações antigas, assim como, pelo desgaste dos dentes, sabemos o que comiam ou mesmo se usavam os dentes para trabalhos de cestaria, como era o caso de tribos indígenas brasileiras. Em Herculano, cidade soterrada pela erupção do Vesúvio em 79 d.C., encontraram-se corpos que mostram até mesmo as deficiências alimentares e os maus tratos sofridos pelos escravos romanos.

Mais recentemente, arqueólogos em colaboração com antropólogos físicos, escavaram e identificaram corpos de pessoas assassinadas pelas ditaduras latino-americanas, os chamados "desparecidos". Na medida em que não há registros das pessoas assassinadas pelas ditaduras, a identificação dos mortos assim como da maneira como morreram pode ser muito importante para os familiares das vítimas e para a sociedade como um todo.

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Da antropologia física, passemos à biologia, seja em termos de teorias, seja das técnicas. O evolucionismo, surgido com as teorias de Charles Darwin para explicar as transformações da vida, tem sido aplicado ao estudo arqueológico, em especial o estudo das mudanças nas espécies de primatas e às plantas e animais ligados ao homem. [...]

O estudo do DNA dos animais e das plantas tem sido também muito difundido, trazendo relevantes informações para os arqueólogos. [...] O estudo genético dos indígenas americanos tem indicado, por sua parte, que todos têm origem asiática e que a sua migração nas Américas deu-se do Alaska para o sul.

Já a geografia, tanto física como humana, relaciona-se de maneira estreita com a arqueologia, pois os homens sempre viveram em interação com o meio ambiente. O conhecimento das condições fisiográficas e climáticas, em determinado momento do passado, é importante para se entender, por exemplo, o surgimento da civilização egípcia. [...]

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As diversas histórias da arte e da arquitetura também são áreas importantes para o estudo arqueológico das sociedades históricas, nas quais os estilos artísticos e arquitetônicos marcam as diversas civilizações desde, ao menos, cinco mil anos. Todos vivemos tanto no espaço externo, geográfico, como no espaço construído dos edifícios. A arqueologia da arquitetura tem mostrado como as plantas dos edifícios podem nos dizer muito sobre a maneira como as pessoas viviam, fundamentado no princípio da facilidade ou dificuldade de acesso ao interior e aos aposentos.

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O controle e a vigilância da sociedade capitalista foi incorporado na arquitetura, a partir de fins do século XVIII, tema que foi abordado por estudiosos de outra área do conhecimento: a filosofia. [...] Segundo Foulcaut, a sociedade, a partir do século XIX, tornou-se cada vez mais controladora e vigilante do comportamento das pessoas, o que afetou inclusive a cultura material e não apenas os edifícios [...].

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O marxismo, por sua vez, é tão variado que se poderia citar uma pletora de influências na arqueologia, com destaque para o papel chave da filosofia marxista tal como entendida por Vere Gordon Childe, já no início do século XX, e para os marxismos da Escola de Frankfurt e sua teoria crítica [...].

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Segundo alguns estudiosos marxistas, a arqueologia voltada para o divertimento, à la Indiana Jones, seria mero entretenimento. Seria como se a arqueologia servisse apenas para as pessoas sonharem com as antigas civilizações, "viajarem" como o fazem ao folhear as belas imagens da revista National Geographic. [...]

A arqueologia liga-se a outra ciência humana: a lingüística. Em termos históricos, tanto a arqueologia europeia como americana surgiram no bojo do estudo das línguas. A filologia histórica europeia estabeleceu a existência de troncos lingüísticos e, por analogia, procurou-se identificar, na cultura material, tais transformações e origens. [...]

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A arqueologia não pode ser pensada, ainda, sem a referência à museologia, aos estudos de gestão do patrimônio, ao seu aspecto público. [...]

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A arqueologia cada vez mais deve voltar-se para as disciplinas que refletem sobre o destino da cultura material que ela estuda e o caminho que se tem proposto é a colaboração da população em geral de maneira que esta possa ajudar a definir os usos desse material e mesmo sua interpretação. Também mostra-se relevante a tendência de interação dos arqueólogos com grupos de interesse, como os movimentos de mulheres ou de minorias étnicas (como os indígenas, os afro-descendentes etc.), sempre objetivando uma arqueologia que não seja excludente, mas que propicie a participação das pessoas no acesso ao conhecimento.

FUNARI, Pedro Paulo. Arqueologia. São Paulo: Contexto, 2010. p. 85-98.

NOTA: O texto "A Arqueologia e as outras áreas do conhecimento" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento arqueológico.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A relação Mito-História

Júpiter e Tétis, Ingres

Você conhece a Mitologia grega?

E sabe o que é um mito?


O Homem, no seu enfrentamento diário com a Natureza e com os outros homens, tem necessidade de compreender os fenômenos que ocorrem à sua volta: sua atuação, tanto do ponto de vista individual quanto social, exige um conhecimento do mundo que o rodeia. Não sabemos quando, onde, como e por quem foi lançada pela primeira vez a pergunta por quê? No entanto, podemos constatar que os homens sempre procuraram respondê-la, isto é, sempre procuraram compreender os fenômenos.

Sabemos que, em contextos culturais mais primitivos, o Homem se vincula à vida através de uma percepção predominantemente sensorial. É extremamente dependente do meio ambiente: os problemas de sobrevivência lhe tomam todo o tempo; todo os seus sentidos e seu pensamento estão voltados para isso. E não poderia ser de outra forma. Por isso, o Homem primitivo apenas simboliza: criando um conjunto de símbolos para representar a realidade, ele dá respostas aos porquês; as magias, os totemismos, os mitos nada mais são do que uma expressão desse esforço de compreensão do mundo. Portanto, todo o grupo humano no seu enfrentamento com o mundo cria cultura, isto é, cria objetos, para satisfazer a suas necessidades físicas e materiais, e cria ideias, para satisfazer a suas necessidades intelectuais.

Então, o que você pode concluir?

Toda cultura tem sua forma de explicar a realidade. O que varia é a forma de apreensão dessa realidade, e isso depende das possibilidades de o Homem, em uma dada sociedade, com determinadas condições de vida, tomar consciência de si mesmo, de tudo que o cerca e de sua historicidade. Logo, o mito é uma explicação do mundo, fruto de uma apreensão sensorial-afetiva. É uma explicação que incorpora todos os fenômenos em um contexto transcendental, heróico, divino, mágico...

E, o que é mais importante: os mitos, as magias, os totemismos são explicações do mundo vividas e compartilhadas por todos os elementos de um grupo, em um estágio de comunidade primitiva onde o regime de propriedade é coletivo. Assim, a produção intelectual dessas sociedades significa um esforço de compreensão do mundo, cujo resultado é transmitido através de uma linguagem inteligível para todos no grupo... É, sem dúvida, um estágio de pensamento que ainda hoje convive conosco, mesmo nos grandes centros urbanos... Por quê?

Repare! Quando perguntamos se você conhece a Mitologia grega é porque ela representa um primeiro estágio de explicação do mundo dentro da nossa cultura. Estágio que, longe de ser superado, sobrevive simultaneamente com explicações presididas pelo logos, isto é, por uma apreensão racional.

Ora, qual o significado de uma apreensão racional? Quais as condições necessárias ao seu surgimento?

Quando o grupo humano, vivendo sob o regime da comunidade primitiva, conseguiu, através de um aperfeiçoamento técnico, produzir um excedente econômico, criou condições para maior divisão do trabalho. Evidentemente, os elementos do grupo que passaram a ter por função o controle desse excedente econômico assumiram um poder de coação sobre os demais membros do grupo. Ora, essa minoria, cujo trabalho passou a se fundamentar em tarefas de organização e administração, sentiu a exigência de um maior nível de abstração da realidade, além da necessidade de escrever para registrar os dados importantes. Daí, compreendemos que a própria racionalização começava a ser mais uma forma de exercício do poder dessa minoria em relação aos demais membros do grupo, de vez que a linguagem utilizada para expressar os resultados de seus esforços de compreensão do mundo não mais era compartilhada por todos os membros do grupo.

Percebeu, então, quanto é importante para nós, homens do século XXI, procurarmos reviver todos esses momentos de nossa cultura?

Se desejamos realmente crescer como seres humanos, amadurecer emocional e intelectualmente, precisamos superar etapas. Mas isso só será possível quando a totalidade dos homens puder viver todos os níveis de abstração de sua cultura.

O ato de conhecer, que existe no Homem como essência mesmo - na medida em que sem o conhecimento do mundo não poderia sobreviver (sem conhecer as utilidades do fogo, por exemplo, ele não poderia usá-lo) - passou a ser considerado um saber que, se tornando atributo de alguns poucos "eleitos", fez surgir as figuras do sábio, do filósofo, do cientista... Aprofundou-se a hierarquia e a dicotomia entre os que sabiam e os que não sabiam. Na verdade, a dicotomia era entre os que possuíam e os que trabalhavam...

Agora, preste atenção! Voltemos ao termo "História". Evidentemente, a História não foge à análise que fizemos até aqui. A princípio, você pode imaginar, a História esteve associada às lendas e aos mitos, revividos por todos os elementos do grupo através de rituais. Era a forma de o grupo manter viva na lembrança de todos a História - as tradições culturais transmitidas oralmente. Aos poucos, no entanto, foi-se tornando um saber: a vida vivida por todos a ser revivida por alguns através da palavra escrita. E o saber histórico, isto é, a forma de conhecimento da realidade, assumida como ofício por alguns elementos da nossa cultura, é, aqui, o objeto de nossas preocupações.

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AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 39-41.