"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

“Entre homens”: homossexualidade e virilidade em 1968

Pátroclo, Jacques-Louis David

Se falar em sexo publicamente ainda era complicado nos anos 1968, era prudente que os homossexuais se reservassem ao espaço privado. Embora causassem polêmica, determinados comportamentos que confrontavam a noção de masculinidade criada pela sociedade não eram debatidos abertamente, como recorda Ricardo:

A gente supunha que algum rapaz que não falava em mulher, não jogava futebol e não bebia, pudesse ser uma mocinha. Mas, os homossexuais eram muito caricaturizados, discriminados, agredidos e era muito natural que não se expusessem.

A caracterização do homossexual atingia direto o estereótipo do "macho" e o preconceito era o preço mais alto a ser pago:

Eu fui criado numa sociedade onde ser homossexual era ser criminoso, era ser pecaminoso, uma coisa feia que não se conta, uma coisa vergonhosa. Então, o meu desejo foi levado... meu desejo ele foi ensinado a se manifestar somente em situações ligadas à marginalidade: Noite! A palavra noite é feminina já notaram? Dia é masculino: claro, luz, razão, precisão! Noite é feminina: escura, obscura, indefinida, marginal!... Então, meu desejo foi educado para ser ativado em locais tipo barzinhos à noite, becos escuros, saunas... Os tipos de caras que me atraem são caras assim, mais ou menos, que lembram esse ambiente, submundo de coisa assim.

Muitas vezes sem poder (e nem querer) frequentar os mesmos lugares que rapazes heterossexuais, a vivência homoerótica levava à prática de uma subcultura masculina, marginalizada. Os espaços de sociabilidade, caracterizados em sua grande maioria pela escuridão e seus sinônimos, eram restritos, e cabia ao jovem descobrir os mesmos. Os cinemas, desde décadas anteriores, eram espaços privilegiados para isso. Armando Antunes relembrou sua primeira experiência num cinema da capital mineira:

A primeira vez que eu fui num cinema e que aconteceu alguma coisa comigo foi no cine Piratininga. Eu sentei lá e de repente eu percebi que sentou alguém do meu lado, mas eu não me toquei, eu não estava ali para caçar. Eu era novo ainda. Quando eu percebi alguém me pegou. Eu senti uma mão me pegar. Mas eu dei um berro que o cara fugiu para um lado e eu fugi para o outro.

O grito instintivo não foi entendido por ele como uma agressão. Na verdade, foi o momento em que se deu conta de que não estava sozinho no mundo ao se interessar por um homem: "Eu não era a aberração da humanidade. Existia um núcleo, mas era um núcleo tão escondido que eu teria que procurar quem era". Armando relembra como começava um namoro na penumbra do cinema:

Você encostava a perna no rapaz e sentia se ele queria. Bom, se encostou e ele não tirou, é porque não se sentiu incomodado. Mas houve uma época em que o lanterninha pegava você no flagra. Ele jogava a lanterna em cima de você e chamava a polícia.

Se as condições permitissem, os contatos sexuais anônimos podiam terminar em masturbação mútua, em sexo ou em um hotel barato fora do cinema, como revelou o historiador americano James Green.

O Rio de Janeiro desde os anos de 1950 passou a atrair homens (que gostavam de homens) vindos de outros estados do país onde se sentiam pressionados, ou ainda hostilizados, pela família e pela sociedade em que viviam. Mudar-se para a cidade maravilhosa significava "livrar-se da supervisão e do controle familiar e da pressão para o casamento e filhos". Além do já consagrado local do centro da cidade nos arredores da Lapa, da Cinelândia e da Praça Tiradentes, os anos 1968 viram o bairro de Copacabana como o lugar de vida noturna mais vibrante não somente para a classe média em geral, mas também para os homossexuais. Este ainda é o momento em que estabelecimentos começam a atrair um público majoritariamente gay sem serem hostilizados pelos empresários locais. Algumas casas noturnas, como o Alfredão, o Alcatraz e o Stop, passaram a abrigar uma clientela composta por rapazes homossexuais. Entretanto, o grande charme de Copa era o mar e o desfile dos corpos seminus, que podiam ser observados sem pudor algum. E, em frente ao luxuoso hotel Copacabana Palace, local reservado ao jet set nacional e internacional, as bichas, como já eram chamadas desde os anos de 1930, fizeram do espaço o seu "posto", que passou a ser conhecido como a Bolsa de Valores: "lugar onde você pode mostrar-se aos holofotes e virar notícia tinha data e local marcado. O concurso de Miss Brasil era ponto de "bonecas", como também eram chamados os homossexuais mais afeminados, do Rio de Janeiro, como apresentou uma reportagem da revista Realidade:

Às oito da noite, 40 mil pessoas já estão no Marcanãzinho lotado, pois nada mais importante existe para elas que um concurso de Miss Brasil. O ginásio está explodindo em gritaria e aplausos, a cada "miss" que dá a paradinha, o rodopio e manda dois beijos para o público. De repente a polícia resolve entrar na "passarela". As "misses" assustadas saem correndo e dando gritinhos desesperados. Levantadas no ar, indefesas, pequeninhas diante do tamanho dos guardas. são levadas para algum canto misterioso. É o fim tradicional do desfile dos bonecas, ou transviados sexuais, que todo ano, em algum pedaço vazio da arquibancada, precede o desfile de verdade.

Entretanto, boa parte dos homossexuais se resignava a um universo privado, pessoal, muitas vezes relutando contra suas próprias vontades em nome do preconceito que lhes atingia. Mesmo nos círculos mais "avançados", como as organizações de esquerda que resistiram à ditadura militar, o homossexualismo era visto com muita reserva. Herbert Daniel, militante de organizações guerrilheiras, como a Polop (Política Operária) e a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), foi um desses que, em nome da aceitação no grupo e das práticas revolucionárias, negou sua sexualidade durante anos. Em seu livro, Meu corpo daria um romance, Herbert desabafa sua vida duplamente clandestina:

Quis extirpar o sexo antigo. Aos poucos, adotei um sexo futuro. novo, que naquele instante se tornava pura abstinência. A última vez que trepei com alguém deve ter sido em meados de 67. Abstinente passei toda a clandestinidade. Sete anos. (Não posso deixar de escrever o prometido elogio à punheta, senão dificilmente poderei fazer alguém compreender a minha clandestinidade. Porque creio que se tivesse apagado meu sexo nunca teria acreditado na militância. Um militante sem sexo é um totalitário perigoso. Um punheteiro é apenas um confuso ingênuo e esperançoso.)

As noites solitárias foram o preço a ser pago em nome de um "ideal" cujo "ideal de homem" era o guerrilheiro, viril e másculo. Os revolucionários dos anos 1968 carregavam muito do traço mais tradicional da cultura patriarcal desde a época colonial: a supremacia masculina. Nesta hegemonia, o importante era parecer "macho", mesmo não sendo.

James Green indicou que muitos homossexuais saíam em busca de homens "verdadeiros": uma reversão dos papéis tradicionais onde o sujeito "passivo" torna-se ativamente aquele que procura uma relação sexual. Segundo o brasilianista, essa dinâmica sexual, na qual o homossexual tinha de tomar a iniciativa, contribuiu para a formação de uma identidade imbuída de autoconfiança e que se contrapunha aos estereótipos sociais do bicha patético e passivo. É interessante ressaltar, com essa constatação. o quanto dos valores viris também foram apregoados por homossexuais. Uma reversão do entendimento, que vem desde o início da era cristã, de que o homem homossexual não era viril (lembrando que as relações homoeróticas entre gregos e romanos eram entendidas sobretudo como viris, expressando a potência masculina em detrimento do elemento feminino). Esta autoridade de si, juntamente com a evolução política dos anos 1968, permitiu o questionamento dos papéis sociais e sexuais rígidos assumidos pelas "bonecas", ou seja, de que para ser homossexual era preciso necessariamente ser efeminado. Certamente esses fatores contribuíram para formação de uma consciência que em fins dos anos 1970 passou a ser expressa pelo movimento gay no Brasil.

Angélica Müller. Não se nasce viril, torna-se: juventude e virilidade nos "anos 1968". In: PRIORE, Mary del; AMANTINO, Marcia. (Orgs.). História dos homens no Brasil. São Paulo: UNESP, 2013. p. 319-323.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Masculinidade em Nossa Senhora do Desterro no século XIX

Uma rua da cidade do Desterro, Victor Meirelles

Foi em busca de uma vida de afetividade e sociabilidade que Duarte Paranhos Schutel, desterrense, estudante de medicina na cidade do Rio de Janeiro, em viagem pelas terras catarinenses, narrou o vivenciado no romance A Massambu (1861). Crônica sobre os costumes do povo catarinense, o romance acompanha as transformações urbanas que ocorriam nas cidades brasileiras no segundo império.

O dia mal tinha amanhecido, Duarte paranhos Schutel, juntamente com alguns amigos, verificava as bagagens e os apetrechos que os auxiliariam na viagem. O dia nublado, chuvoso e frio indicava que o caminho seria cansativo, o que tornava o percurso ainda mais difícil e perigoso. A festa do Divino Espírito Santo, em Santo Amaro da Imperatriz, cidade distante, a 80 quilômetros de Nossa Senhora do Desterro - atual cidade de Florianópolis - prometia fé e namoricos.

Os jovens amigos aventureiros iam com alguns dias de antecedência, com o propósito de participar da folia que antecedia a festa. De tradição açoriana, a folia do divino era uma pequena companhia de músicos e cantores que percorria, dias antes dos festejos, as ruas da cidade batendo de porta em porta a cantar, a comer, a dançar e a beber, recolhendo dinheiro para a igreja e donativos a serem leiloados no dia da festa do Divino Espírito Santo.

A travessia da serra do ubatão fora penosa com muita chuva e trovões que clareavam a mata e o longo paredão de rochas pontiagudas. O barulho da cachoeira com suas águas virgens a escorrer pelo penhasco obtuso num bailar nômade deixava à mostra suas reentrâncias repletas de languidez. Com habilidade e destreza, ao conduzirem suas montarias, os jovens aventureiros foram conquistando a serra. Agora, a descida, com a trilha iluminada pelos raios do sol, que atravessavam as copas da vegetação espessa, surgia como redentora de todos os temores. 

Na descida, já alcançando a pequena planície, repleta de pés de limões, laranjas e mamões cercados por uma roça de mandioca, os moços festeiros foram despertados pelo barulho de um carro de boi que transportava uma família que se dirigia a Santo Amaro da Imperatriz para participar dos festejos. Vinham famílias inteiras, uns a cavalo, outros em carro de boi, e existiam aqueles que se dirigiam ao lugar das festas caminhando pelas trilhas íngremes da região. Não demorou muito para que as pessoas estabelecessem uma conversa cordial, aos poucos dando referências de onde iam ficar na localidade. Nessas ocasiões, recorria-se ao abrigo de parentes próximos e distantes, às casas dos amigos e aos compadres, ou se amontoavam no interior da igreja em busca de proteção para as crianças e as mulheres. Enquanto isso, as moças, todas faceiras, trocavam olhares, sorrisos e gestos sorrateiros com os rapazes vistosos em busca de um enlace matrimonial. Era tempo também de novas alianças políticas e econômicas, de jogos de cartas com os amigos e de visitas a familiares.

E entre conversas despretensiosas, amenas e singelas, Schutel narra uma cena em que o erotismo invade seus pensamentos ao perceber que, distraidamente, uma das jovens sentada na beira da carroça de boi

[...] ia deixando um pezinho que, às vezes com o balanço, parecia fugir e adiante então um tornozelo bem malicioso.

Nesse descuido da inocência a menina ria conversando com os cavalheiros que pareciam não reparar nos desafios daquele pezinho [...].

Atento à cena que seu olhar observa, formula juízo de valor sobre a falta de atenção dos cavalheiros que cavalgavam logo atrás da carroça e que estabeleciam diálogo despretensioso e ingênuo com a moça. Na sua leitura, os cavalheiros não eram dignos de cobiçar os inocentes pezinhos, pois o primeiro "pequenino e magro trazia nas costas uma enorme bossa, que não era ao certo a da inteligência", enquanto o segundo, "gordo como um vigário", se espalhava sobre a montaria, fornido de barriga "para aguentar o peso desse monstro de cavalheiro".

Diante desse cenário bucólico que seu olhar identificava como território da languidez, percebeu ser a feiura a única coisa, em comum, a unir os dois cavalheiros que cavalgavam em conversação com a delicada e angelical menina-moça a balançar seus doces pezinhos de um lado para outro, criando essa despretensiosa inocência, "dando preferência ora à abundância ora à parcimônia".

Estes dois contrastes tinham, contudo uma cousa de comum, era a fealdade do rosto, nenhum se poderia gabar de mais favorecido do que outro, e por isso reinava a mais perfeita harmonia em sua amizade, onde não tinha entrado o ciúme.

O ciúme na província de Santa Catarina quase sempre foi o motivo dos desafetos das festas. Na vila de Tijuca Grande, distante 70 quilômetros ao norte de Florianópolis, o jornal O Campeão narra notícia dos filhos do senhor João Guerreiro, que primaram numa noite de sábado pela libertinagem e dissolução dos costumes. O motivo para o tumulto que se generalizou nas dependências da residência do senhor Ethur, ilustre comerciante da vila, foi a forma como o jovem Aristo dirigiu-se à namorada de um dos envolvidos.

[...] crê-se que levado por ciúmes, por galanteios do recém-chegado à sua namorada, levou de mão, e sem tir-te nem guar-te, descarregou -lhe uma brutal bofetada. Aristo assim ofendido ao baixar-se para juntar a si o agressor e vingar ao insulto, foi filado na goela por José Guerreiro. A este tempo, meteram-se de permeio outros moços ali presentes, tirando da mão ao primeiro a faca com que se preparava para de novo cair sobre sua vítima.

Engraçada e irônica foi a discussão estabelecida entre Manuel José Ferreira e sua esposa Ana Joaquina na Vila de São José da Terra Firme. Pelas páginas do jornal Correio Catharinense, Manuel e Ana Joaquina travaram discussão sobre traição cometida por ela. Enquanto o marido ultrajado acusava a esposa de adultério e de tê-lo abandonado com três crianças pequenas, sua esposa o denunciava por não querer dar-lhe seu quinhão de terras que possuíam no distrito de Picadas do Sul. O entrevero durou dias na imprensa desterrense e, por onde se andava, não se falava de outra coisa.

Vista do Desterro, Victor Meirelles

Logo que a desavença familiar começou a ser esquecida, a população da Ilha de Santa Catarina se viu envolvida em outro caso amoroso. Para delícia dos moradores da pacata e aprazível vila do Desterro, numa manhã de quarta-feira, um suposto amante preterido diante do seu assédio, vendo-se não mais correspondido em suas intenções amorosas, faz publicar na imprensa:

Recebi seu amável recado! Fiquei sabendo que minhas cartas não terão mais a honra de serem recebidas pela senhora, mas, peço, ao menos responda à que tive a honra de dirigir-lhe em 7 do corrente mês, pedindo uma solução favorável aos nossos negócios.

O viajante Auguste de Saint-Hilaire, que visitou a ilha de Santa Catarina, em 1820, e que aqui viveu algum tempo, registrou que, no Desterro, os homens se privavam de muitas coisas em favor das suas mulheres e amantes. Acrescentou ainda que não observou em outras regiões do Brasil patriarcal uma desproporção tão acentuada do vestuário feminino e masculino. Nos dias de festividades, elas se vestiam com elegância e bom gosto, "e a maneira como se acham trajados os seus maridos faz com que eles pareçam seus criados".

Açoriana, Victor Meirelles

Se os maridinhos arrumadinhos da Ilha de Santa Catarina se sacrificavam em nome de suas esposas e amantes, como constatou Saint-Hilaire, não saberíamos asseverar. Contudo, com o sugestivo título "Amor Perdido", o jornal Periódico da Semana narra as artimanhas que uma suposta amante encontrou por ter sido pega pelo amante nos braços de outro.

Tendo um amante encontrado a sua bela nos braços de seu rival, ela lhe negou atrevidamente o fato - Como! Disse ele furioso, atrevei-vos a negar a desmentir aquilo que eu vi com os meus próprios olhos?! Ah! pérfido! lhe disse ela, bem vejo que tu não me amas, visto que crês mas no que tu vês do que no que digo.

Diante da enfermidade do senhor Genuíno, alguém lhe sugere procurar o doutor Bovino, que possui um "meio fácil" para curá-lo.

O senhor Genuíno está atacado de uma moléstia conhecida pelo nome de corno Mania. Um sujeito a quem isto foi dito lembrou um meio fácil para obter-se cura infalível. E era ser consultado sem perda de tempo o doutor Bovino que cura pelo sistema de Rêlhopathia.

[...]

Ao difundir a economia dos gestos e das atitudes, a burguesia, em ascensão na província de Santa Catarina, tratava de patrocinar as clivagens das condutas. A representação do homem cortês, provedor e próspero tornara-se, no século XIX, a imagem a ser conquistada e construída.

Os rituais das ambiguidades e dos contraditórios buscavam a afirmação de si numa sociedade repleta de salões e palcos. A encenação das atitudes e gestos inventava uma corrente de signos e de simbologias. E seu itinerário evaporava-se nos impulsos de um mundo sem limites. Decifrar os códigos e dominar as etiquetas era a única oportunidade para o homem mensurar e distinguir as práticas de afetividade e de sociabilidade. [...]

[...]

Schutel, depois de devidamente instalado nas cercanias da vila, na residência de um parente distante, logo que chegou à festa do Divino Espírito Santo e diante da movimentação no adro da igreja, bem como no seu interior, perscrutou o burburinho de olhares, gestos e palavras sussurradas em segredos. Sinais identificados como espaço da libidinosidade e que, de acordo com seu juízo ético, "era justamente o prazer que os homens buscavam espalhar com essa festa".

Entre sua inocência e inocentes observações, descreve os homens presentes na festa - roceiros, matutos, mal-educados, magros, apatetados, mal trajados, viciados em jogos, feios, obesos - e, em várias oportunidades, não deixa de criticar, com certa ironia, o vestuário dos homens dessa paragem. [...]

[...]

Auguste de Saint-Hilaire, em sua expedição à província de Santa Catarina, ao visitar a ilha em 1820, viu alguma elegância no vestuário dos homens de maiores posses. Seus trajes eram constituídos de calça de algodão, chapéu de feltro preto e sapatos muito limpos.

Robert Avé-Lallemante, que andou por terras catarinenses em 1858, assevera ao seu indulgente leitor que falta à cidade de Nossa Senhora do Desterro "o verniz de certa elegância", porém encontrou na festa da romaria do menino Jesus "cavalheiros e senhoras muito elegantes a cavalo [...] e que tinham boa aparência".

[...]

John Mawe, que chegou a Nossa Senhora do Desterro no dia 29 de setembro, em plena primavera de 1807, participou de algumas reuniões sociais. Conta que "os habitantes, em geral, são muito urbanos e corteses para com os estrangeiros".

[...]

Ao desencadearem uma série de imagens da população masculina da capital da província de Santa Catarina, os viajantes estrangeiros quase sempre construíram as representações masculinas a partir de seu olhar europeu, que via, no novo mundo, o lugar da barbárie.

[...]

Antonio Emilio Morga. Masculinidade em Nossa Senhora do Desterro e Manaós: territórios e ardis. In: PRIORE, Mary del; AMANTINO, Márcia (Orgs.). História dos homens no Brasil. São Paulo: EDUSP, 2013. p. 213-218, 222-223, 230-232.

sábado, 17 de maio de 2014

O homem do século XVI: a afetividade

Cena de aldeia com a pousada (taverna) São MIguel, Pieter Brueghel, o Jovem

Se os tipos físicos são mais diversificados do que hoje, provavelmente o fato é ainda mais verídico no que respeita aos tipos psíquicos. Entre homens tão diferentes e tão estreitamente acantonados, os contatos, salvo vizinhança imediata, só poderiam ser rudimentares e esporádicos. Foram necessários dois séculos para ser estabelecida uma diplomacia europeia. As relações com os mundos exteriores só eram desejadas em caráter de exceção, salvo sob forma de conquista, por causa da confusão de estruturas sociais e políticas e, também, das diferenças de grau no controle de si e da diversificação das formas de afetividade.

Bordel, Joachim Beuckelaer

- O controle de si.  Somente este controle permite a organização e a manutenção de uma ordem social. Entre certos povos, tal controle não é, provavelmente, senão passividade.

Conhece-se melhor o caso dos europeus. O francês do princípio dos Tempos Modernos, bem como seus vizinhos, nos aparecem grosseiros e lascivos, instáveis, emotivos, impulsivos, suscetíveis de sentimentos singularmente violentos. Cupidez e concupiscência são mal refreadas. Assassinatos, crimes passionais, premeditados ou não, violações e raptos são relativamente frequentes em todos os níveis sociais. O clero evita a duras penas tais excessos. Os sentimentos mais elevados, fé religiosa, honra, têm um aspecto visceral e tomam, na ocasião, uma expressão feroz como o testemunham as guerras de religião e os duelos.


Rixa de camponeses, Pieter Brueghel, o Jovem

A crueldade da época nos surpreende. A vista do sangue não provoca repulsa. Atrai, de preferência. Corre-se a assistir as execuções capitais, acompanhadas de grande variedade de suplícios. Encontra-se o mesmo exagero na desesperança e nas penitências livremente consentidas.

Nasce, sem dúvida, na Itália, um tipo de homem superior novo, o cortesão, descrito por Baldassarre Castiglione em um livro célebre desse título (1528), cujo controle de si constitui uma das maiores virtudes, acrescido da distinção das maneiras e da cultura sem afetação. Todavia, tal controle de si é odioso à maioria dos franceses. Contribuiu mais tarde à impopularidade da Corte de Valois.

As paixões individuais mudam-se depressa em paixões coletivas. A peste, o anabatismo, a Guerra dos Camponeses são a oportunidade de "emoções" populares e de matanças generalizadas.

- A sociabilidade. As relações com o próximo correm, amiúde, o risco de serem relações de força. Infeliz do homem só, já o disse a Bíblia; podemos ajuntar: e da mulher sozinha.


Camponeses felizes do lado de fora da taverna "O cisne", Pieter Brueghel, o Jovem

A criança não suscita nenhum interesse por si mesma. Entre os grandes, os nobres, os burgueses, o filho representa o futuro da linhagem. Respeita-se no ancião o benefício da experiência, que ele pode fornecer, e a proximidade do céu na qual talvez se encontre. A caridade, altamente proclamada como uma virtude e um dever, é exercida no interesse do doador e não daquele a quem é dirigida. Os mendigos são tolerados, mas à condição de que não sejam estranhos à localidade.

É que os franceses e seus vizinhos, bastante gregários, constituem células sociais elementares, comunidades rurais, paróquias, muito fortes. Essas comunidades não são entidades, porém sua existência é sentida como a dos organismos vivos, corpos com cabeça e membros. O estrangeiro, o horsain, suscita apenas desconfiança e torna-se facilmente um bode expiatório, sobretudo se não fala a mesma língua, não pratica a mesma religião (judeus), ou exerce, além do mais, uma atividade distinta da do conjunto do corpo (negociante, banqueiro). Então, o ódio que o persegue é endêmico.

Não obstante, solidariedades supralocais são provocadas entre nobres, servidores do soberano. O espírito de corpo, anima determinados ofícios além dos limites da cidade. Os reis da França e da Inglaterra, combateram-se durante muito tempo e, por ser diferente do que veio a tornar-se em consequência, o sentimento nacional existe em seus dois povos.

- A vida e a morte. Estes dois termos não têm o mesmo valor de hoje em dia. A vida é demasiado curta para a maioria dos homens e a duração de todas as idades da vida é diminuída. O homem do século XVI se faz adulto e se desgasta muito cedo. Entre os povos menos resignados, a violência das paixões traduzem uma pressa de viver.

O apego à vida está incessantemente aguilhoado pelo espetáculo cotidiano da morte. Considera-se normal um casal perder a metade de seus filhos numa tenra idade. Somente os pais que perdem um filho único, esperado arrimo de sua velhice, podem, decentemente, afligir-se em público.

No mundo cristão, a morte reveste-se de grande importância, não tanto pelo fato de marcar o termo da vida terrestre, mas porque abre as portas para a vida eterna. Deste além, o homem forma uma representação demasiado concreta e vive-a intensamente quando ela vem ao seu espírito. Esses chamamentos do além suscitam, em todos os níveis, o desejo mais ou menos constante de sacrificar-se. Há, no ocidental do século XVI uma "predominância do afetivo sobre a inteligência" (R. Mandrou). Esta preponderância existe nas relações sociais como, também, nas tentativas de ultrapassagem.

CORVISIER, André. História moderna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 19-21.

NOTA: O texto "O homem do século XVI: a afetividade" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.