"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O cristianismo e o poder da Igreja na Idade Média

Durante o período das grandes invasões, terminada a missão da Roma imperial, começou a missão da Roma cristã, cidade onde, segundo as tradições religiosas, o apóstolo São Paulo teria lançado os fundamentos da Igreja.

A formação de vários reinos germânicos provocou em toda a Europa desordem administrativa, caos econômico e político, bem como o enfraquecimento de antigos valores culturais.

Nesse quadro agitado e confuso, apenas a Igreja cristã conseguiu assegurar certa ordem e disciplina, proteger e socorrer populações indefesas, assumindo papel político de destaque, preservando da destruição o legado cultural greco-romano. A partir desse momento, a Igreja, com sede principal em Roma, denominou-se católica, isto é, universal.

* Organização da Igreja. A partir do século II, de acordo com a expansão cada vez mais intensa da fé cristã e o contínuo aumento de congregações de fiéis, tornou-se necessário dar à Igreja uma organização uniforme, capaz de estruturá-la de forma disciplinada e hierárquica.

A paróquia constituía a menor congregação de fiéis, a ela pertencendo os moradores de pequena zona urbana ou rural. O centro da paróquia era a igreja, nome dado à basílica onde se celebrava o culto religioso. Dirigida por um padre (pároco), aí eram ministrados os sacramentos, oficiadas missas, pelo menos aos domingos - com acompanhamento de hinos - realizadas as grandes festas cristãs, Natal, Epifania ou Reis, Páscoa, Assunção, Pentecostes.

Na igreja paroquial eram também guardadas as relíquias trazidas por fiéis de suas peregrinações a lugares santos, na Palestina, a túmulos de apóstolos ou mártires.

A diocese agrupava, sob a direção de um bispo, várias paróquias, sendo sua sede um núcleo urbano de projeção. O bispo, que gozava também de grande prestígio político, providenciava a distribuição de esmolas e alimentos aos necessitados e, em caso de perigo, assumia a direção da cidade. Em cada antiga província romana um arcebispo dirigia os bispos encarregados das dioceses e os reunia, duas vezes por ano, em Concílios, onde eram tomadas decisões visando a assegurar unidade de fé e unidade de ação.

O Papa. Todos os bispos, inicialmente, eram chamados papa, isto é, pai; a partir do século V, porém, esse título passou a ser reservado unicamente ao bispo de Roma, tido - na qualidade de chefe da maior congregação cristã - como sucessor de São Pedro. A primazia do bispo de Roma custou a ser aceita, mas em fins do século VI foi reconhecida pelos bispos do Ocidente, graças sobretudo à ação enérgica, ao senso administrativo seguro e à habilidade política do papa Gregório o Grande, disciplinando a estrutura da Igreja, definindo a forma do culto, controlando a obediência dos chefes religiosos.

Através de uma estrutura cada vez mais firme e centralizada, enriquecida por grandes doações de terras, a Igreja foi assumindo papel político preeminente e consolidando gradativamente seu poder. Para tanto contribuiu também o movimento monástico, que se desenvolvera paralelamente ao movimento organizador das instituições eclesiásticas.

* Os monges e os mosteiros. O movimento monástico começou no século IV e, partindo do Oriente, expandiu-se rumo ao Ocidente. No período das invasões, muitos cristãos, homens e mulheres, procuraram refúgio e tranquilidade em uma vida rude e simples, afastada de aglomerações urbanas, e formaram comunidades isoladas, vivendo da oração, da caridade dos fiéis e do trabalho agrícola de seus membros.

Assim surgiram os primeiros conventos e mosteiros, dirigidos por um abade, nas comunidades masculinas, ou uma abadessa, nas femininas. Em 525 São Bento fundou, na Itália, o mosteiro de Monte Cassino e criou a Ordem Beneditina (de Benedictus, seu nome em latim). A fim de garantir disciplina e ordem à vida comunitária, estabeleceu normas que serviram de modelo para posteriores reformas da vida monástica e para outras ordens religiosas aparecidas mais tarde (Cistercienses, Cluniacenses, Franciscanos, Dominicanos, Carmelitas, Clarissas, Agostinianos. Segundo a regra beneditina, os monges eram obrigados ao voto de pobreza, castidade, obediência a seus superiores; e os mosteiros deviam bastar-se a si mesmos: possuir terras para cultivo e pastoreio, pomar, horta, poço e construções reunidas em torno de uma área central - claustro - a igreja ou capela, a cozinha, o refeitório, as oficinas, as celas (diminutos dormitórios individuais). Frequentemente os mosteiros davam assistência a gente de fora, mantendo um hospital e uma hospedaria para abrigo de viajantes.


Cistercienses no trabalho em um detalhe da vida de São Bernardo de Claraval, Jörg Breu, o Velho

O papel dos mosteiros, na Idade Média, foi muito importante dos pontos de vista religioso, econômico e cultural.

Do ponto de vista religioso, o movimento monástico, em sua expansão pelo Ocidente, contribuiu para cristianizar os povos germânicos. Dos mosteiros partiram monges missionários para fundar novas comunidades religiosas em terras distantes, nelas difundindo os ensinamentos cristãos: São Patrício (Irlanda), Santo Agostinho (Inglaterra), São Bonifácio (Germânia) e muitos outros. E foi nos mosteiros que se formaram as personalidades de grandes figuras do clero, destinadas a alcançar especial projeção em sua época.

Do ponto de vista econômico, os mosteiros, através do trabalho organizado e metódico de seus membros, sobretudo na lavoura, muito contribuíram para melhorar a economia enfraquecida de várias regiões da Europa e para a formação de aldeias e lugarejos.

Do ponto de vista cultural, foram os mosteiros, durante séculos, os únicos centros conservadores da cultura antiga. Monges copistas transcreveram sobre pergaminho textos clássicos gregos e romanos, "iluminando-os", isto é, ornando-os com iluminuras. Possuindo bibliotecas próprias, os mosteiros eram também centros de ensino: neles eram educados rapazes, exercitando-se na leitura e na escrita ou preparando-se para a carreira eclesiástica; neles muitos aprendiam diversos ofícios, neles eram aperfeiçoadas técnicas agrícolas. Por longo tempo, até o florescimento da vida urbana e a fundação das primeiras universidades, os mosteiros foram a única instituição transmissora de cultura e de informações valiosas que chegaram até nós sob a forma de relatos históricos, as Crônicas e os Anais.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 126-9.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O legado do Egito faraônico

Lago sagrado de Karnak, Carl Wuttke

As valiosas contribuições que o Egito faraônico legou à humanidade podem ser verificadas em diversos campos, como a história, a economia, a ciência, a arte e a filosofia. [...]

De fato, essa herança - ou pelo menos os seus testemunhos, tão importantes para a história da humanidade - transmitiu-se, em grande parte, através da Antiguidade Clássica [...] antes de chegar aos árabes.

Um dos mais antigos e notáveis avanços da civilização egípcia verificou-se no campo da economia. Ao final do Neolítico [...] os antigos egípcios transformaram gradualmente o Vale do Nilo, permitindo que seus habitantes passassem de uma economia de coleta a uma economia de produção de alimentos; [...] O desenvolvimento da agricultura possibilitou aos antigos egípcios adotarem uma forma de vida aldeã, estável e integrada, o que, por sua vez, afetou seu desenvolvimento social e moral, não apenas no período pré-histórico, mas também durante o período dinástico.

Decorre daí um outro desenvolvimento fundamental: a introdução de um novo sistema social no interior da comunidade, ou seja, a especialização do trabalho. Trabalhadores especializados surgem na agricultura, na irrigação, nas indústrias agrícolas, na cerâmica e em diversas outras atividades afins. [...]

A civilização faraônica distinguiu-se pela continuidade do seu desenvolvimento. Toda aquisição é transmitida - e aperfeiçoada - do começo ao fim da história do antigo Egito. Assim, as técnicas do Neolítico foram enriquecidas no período pré-dinástico (-3500 a -3000), mantendo-se ainda em pleno período histórico. É o que testemunha, por si só, a arte de trabalhar a pedra.

Já por volta de -3500, os egípcios, herdeiros do Neolítico do vale, utilizaram-se dos depósitos de sílex ali localizados para esculpir instrumentos de qualidade incomparável, dos quais a faca de Djebel el-Arak é um exemplo entre centenas de outros. A mesma perícia está presente na confecção de vasos de pedra. As técnicas de talhar a pedra foram transmitidas posteriormente ao mundo mediterrânico. Tudo leva a crer que as técnicas de confecção dos vasos de pedra cretenses tenham sido aprendidas se não no próprio Egito, pelo menos num meio inteiramente impregnado da cultura egípcia, como o corredor sírio-palestino. [...]

A habilidade dos canteiros que trabalhavam com pedra dura transmitiu-se aos escultores, o que se pode constatar pelas grandes esculturas egípcias nesse material. A técnica passou, então, para os escultores do período ptolomaico e posteriormente encontrou expressão na estatuária do Império romano.

[...] O legado material compreende o artesanato e as ciências (geometria, astronomia, química), a matemática aplicada, a medicina, a cirurgia e as produções artísticas; o cultural abrange a religião, a literatura e as teorias filosóficas.

A contribuição do antigo Egito à produção artesanal aparece nos trabalhos em pedra, mas também no artesanato em metal, madeira, vidro, marfim, osso e muitos outros materiais.

Já nos primórdios do período dinástico (cerca de -3000), os egípcios conheciam e empregavam todas as técnicas básicas da metalurgia. Além dos utensílios, foram encontradas grandes estátuas egípcias de cobre, datadas de -2300, e cenas de mastabas de um período ainda mais remoto mostram as oficinas onde o ouro e o electro são transformados em joias. [...]

A cultura precoce do linho fez com que muito cedo os egípcios adquirissem grande habilidade na fiação manual e na tecelagem. [...] Para os faraós, os tecidos constituíam um produto de troca particularmente apreciado no exterior. O mais fino, o bisso, era tecido nos templos e gozava de fama especial. A administração central dos Ptolomeus organizava as vendas ao estrangeiro que trouxeram ao rei grandes lucros. Temos aqui um exemplo de uma das maneiras pelas quais se transmitiu o legado egípcio.

As indústrias da madeira, do couro e do metal aperfeiçoaram-se, e os seus produtos conservaram-se em boas condições até nossos dias. Os antigos egípcios tinham um talento especial para tecer junco selvagem, confeccionando esteiras, e a fibra da palmeira possibilitou a produção de redes e cordas resistentes.

A manufatura da cerâmica teve início na Pré-História, com formas bastante rudimentares, evoluindo em seguida para uma cerâmica mais fina, vermelha e de bordas negras, mais tarde polida e gravada. A crença em determinados valores e, em particular, na vida eterna, por exigir a manufatura de uma grande quantidade de objetos para os mortos, levou a uma grande produção, de alto grau de perfeição.

Deve-se ao Egito, se não a invenção, pelo menos a difusão das técnicas de fabricação do vidro a toda a civilização mundial. [...] A partir de -700 aproximadamente, os vasos egípcios de vidro conhecidos como "alabastro" difundiram-se por toda a região do Mediterrâneo. Os fenícios os copiaram, e sua manufatura transformou-se em indústria.

Uma das indústrias mais importantes do antigo Egito foi a do papiro, de invenção autóctone. Nenhuma outra planta teve, no Egito, papel tão significativo. As fibras do papiro eram usadas na fabricação ou calafetagem de embarcações e na confecção de pavios de candeeiros a óleo, esteiras, cestos, cordas e cabos. Vinte folhas de papiro, unidas enquanto ainda úmidas, formavam um rolo de 3 a 6 m de comprimento. Vários rolos podiam ser unidos de modo a formar uma unidade de 30 ou 40 m de comprimento; tais rolos constituíam os "livros" egípcios. Eram segurados com a mão esquerda e desenrolados à medida que se fazia a leitura. O herdeiro direto desse rolo é o "volume" da Antiguidade Clássica.

De todos os materiais empregados como suporte para a escrita na Antiguidade, o papiro certamente foi o mais prático, por ser flexível e leve. A fragilidade, porém, era o seu único inconveniente. Utilizado no Egito desde a I dinastia (cerca de -3000) até o fim do período faraônico, o papiro foi, mais tarde, adotado pelos gregos, romanos, coptas, bizantinos, arameus e árabes. Os rolos desse material constituíam um dos principais produtos de exportação do Egito. O papiro foi, sem sombra de dúvida, um dos maiores legados do Egito faraônico à civilização.

[...]

A tradição e a perícia na construção em pedra não foram uma contribuição técnica menor dos egípcios ao mundo. Não era nada fácil transformar os imensos blocos brutos de granito, calcário, basalto e diorito em blocos bem talhados e polidos, destinados a diferentes projetos arquitetônicos. Além disso, a busca de pedras para a construção dos monumentos, assim como a prospecção de minérios metálicos e a procura de fibras, de pedras semipreciosas e de pigmentos coloridos contribuiu para a difusão das técnicas egípcias na África e na Ásia.

A perícia dos egípcios no trabalho da madeira manifesta-se brilhantemente na construção naval. [...]

O Egito faraônico nos deixou valiosa herança nos campos da física, química, zoologia, geologia, medicina, farmacologia, geometria e matemática aplicada. De fato, legou à humanidade uma grande reserva de experiências em cada um desses domínios, alguns dos quais foram combinados de modo a possibilitar a realização de objetivos específicos.

Um dos melhores exemplos da engenhosidade dos antigos egípcios é a mumificação, que ilustra o conhecimento profundo que tinham de inúmeras ciências [...]. Foram sem dúvida os conhecimentos adquiridos com a prática da mumificação que permitiram aos egípcios o desenvolvimento de técnicas cirúrgicas desde os primeiros tempos de sua história. A cirurgia egípcia é bastante conhecida graças ao Papiro Smith, cópia de um original escrito durante o Antigo Império, entre -2600 e -2400, um verdadeiro tratado sobre cirurgia dos ossos e patologia externa. Ainda hoje são aplicados vários tratamentos indicados nele.

Por sua abordagem metódica, o Papiro Smith serve como testemunho da habilidade dos cirurgiões do antigo Egito, habilidade que, supõe-se, foi transmitida pouco a pouco à África, à Ásia e à Antiguidade Clássica pelos médicos que acompanhavam as expedições egípcias aos países estrangeiros. Além disso, sabe-se que [...] Hipócrates tinha acesso à biblioteca do templo de Imhotep em Mênfis. Posteriormente, outros médicos gregos seguiram-lhe o exemplo.

Pode-se considerar o conhecimento da medicina como uma das mais importantes contribuições científicas do antigo Egito à história da humanidade. Documentos mostram detalhadamente os títulos dos médicos egípcios e seus diferentes campos de especialização. [...] A influência egípcia sobre o mundo grego, tanto na medicina como na farmacologia, é facilmente reconhecível nos remédios e nas prescrições.

A farmacopeia egípcia abrangia grande variedade de ervas medicinais, cujos nomes, lamentavelmente, são intraduzidas. As técnicas medicinais e os medicamentos egípcios gozavam de grande prestígio na Antiguidade, conforme revela Heródoto. Para a execução de seu trabalho, os médicos dispunham de uma grande variedade de instrumentos.

Outro importante domínio da ciência a que os antigos egípcios se dedicaram foi a matemática. As medições acuradas dos seus enormes monumentos arquitetônicos e escultóricos constituem uma excelente prova e sua preocupação com a precisão. [...]

Do Médio Império (-2000 a -1750) chegaram-nos dois importantes papiros matemáticos: o de Moscou e o Rhind. O método egípcio de numeração, baseado no sistema decimal, consistia em repetir os símbolos dos números (unidades, dezenas, centenas, milhares) tantas vezes quanto fosse necessário para obter o número desejado. Não existia o zero. Na matemática egípcia podem-se distinguir três partes: a aritmética, a álgebra e a geometria.

O conhecimento da geometria encontrou considerável aplicação prática na agrimensura, que desempenhou um papel significativo no Egito.

[...]

O calendário civil egípcio constava de um ano de 365 dias, o mais exato conhecido na Antiguidade. Ao lado desse calendário civil, os egípcios também utilizavam um calendário religioso, lunar, estando aptos a prever com razoável precisão as fases da Lua.

[...]

Para determinar as horas do dia, que também variavam conforme as estações, os egípcios utilizavam um gnomon, isto é, uma simples vara plantada verticalmente numa prancha graduada, munida de um fio de prumo. O instrumento servia para a medição do tempo gasto na irrigação dos campos, uma vez que a água tinha de ser distribuída imparcialmente. Assim como o gnomon, os egípcios tinham relógios de água colocados no interior dos templos. Esses relógios foram tomados de empréstimo e aperfeiçoados pelos gregos: são as clepsidras da Antiguidade. Eram feitos no Egito já em -1580.

Os antigos egípcios aplicaram seus conhecimentos de matemática à extração, transporte e assentamento dos enormes blocos de pedra utilizados em seus projetos arquitetônicos. O Egito desenvolveu uma grande variedade de formas arquitetônicas, das quais a pirâmide, sem dúvida, é a mais característica. [...]

Até a conquista romana, a arquitetura civil continuou a empregar o tijolo cru, mesmo nas construções de palácios reais. Outra contribuição no campo da arquitetura é a criação da coluna, que, a princípio, era embutida na parede e mais tarde tornou-se isolada.

A paisagística e o urbanismo são outros aspectos da arquitetura egípcia. Esse gosto egípcio por jardins-parque transmitiu-se aos romanos.

[...]

Um fato, ao menos, parece confirmado: as tradições arquitetônicas dos faraós penetraram na África através de Méroe e, depois, de Napata, que transmitiram formas - pirâmides e pilonos, entre outras - e técnicas - construção com pedras talhadas pequenas e bem modeladas.

A contribuição cultural, esse aspecto abstrato do legado egípcio faraônico, abrange as contribuições nos domínios da escrita, da literatura, da arte e da religião.

Os egípcios desenvolveram um sistema de escrita hieroglífica em que muitos dos símbolos derivaram do seu meio ambiente africano. Pode-se afirmar, portanto, que não se trata de um empréstimo, mas de uma criação original.

Os contatos culturais com a escrita semítica ocorridos no Sinai devem ter contribuído para a invenção de um verdadeiro alfabeto. Este foi tomado de empréstimo pelos gregos, e sua influência estendeu-se à Europa. Os antigos egípcios inventaram igualmente os instrumentos de escrita. A descoberta do papiro, transmitido à Antiguidade Clássica, certamente contribuiu para a difusão de ideias e conhecimentos. A extensa literatura da época faraônica cobre todos os aspectos da vida dos egípcios, desde as teorias religiosas até os textos literários, como narrativas, peças de teatro, poesia, diálogos e crítica. [...]

Bom exemplo dos sentimentos expressos na literatura egípcia é o texto inscrito em quatro urnas funerárias de madeira encontradas em el-Bersheh, no médio Egito. Pode-se admitir, finalmente, que determinados elementos da literatura egípcia tenham sobrevivido até nossos dias graças às maravilhosas narrativas da literatura árabe. Esta, com efeito, parece ter suas fontes na tradição oral egípcia.

[...] Os antigos egípcios aliavam às suas atividades terrenas a esperança de uma vida após a morte; assim, a arte egípcia é particularmente expressiva por representar crenças profundamente arraigadas.

[...]

Pode-se considerar a religião como uma das contribuições filosóficas do Egito. Os antigos egípcios desenvolveram inúmeras teorias sobre a criação da vida, o papel das forças naturais e a reação da comunidade humana frente a elas, assim como sobre o mundo dos deuses e sua influência no pensamento humano, os aspectos divinos da realeza, o papel dos sacerdotes no interior da comunidade e a crença na eternidade e na vida além-túmulo.

Essa profunda experiência do pensamento abstrato influenciou a comunidade egípcia de tal modo que terminou por produzir um efeito duradouro sobre o mundo exterior. Para o historiador, é visível a influência religiosa egípcia sobre certos aspectos da religião greco-romana, como se pode constatar pela popularidade da deusa Ísis e do seu culto na Antiguidade Clássica.

A Fenícia desempenhou um papel especialmente importante na transmissão do legado faraônico ao resto do mundo. A influência do Egito sobre a Fenícia pode ser atribuída aos contatos econômicos e culturais entre as duas regiões. [...] Os contatos com a Fenícia eram indispensáveis para a importação de matérias-primas vitais, como a madeira. Os comerciantes egípcios estabeleceram um santuário em Biblos, cidade com que mantinham estreitos contatos comerciais. A cultura e as ideias egípcias difundiram-se por toda a Bacia do Mediterrâneo por intermédio dos fenícios.

A influência da cultura egípcia sobre a sabedoria bíblica, entre outras, é notável. As relações comerciais e culturais com o Levante estabeleceram-se ao longo do II e do I milênio antes da Era Cristã, período que compreende o Médio e o Novo Império, bem como as últimas dinastias. Os contatos desenvolveram-se naturalmente, acompanhando a expansão política e militar egípcia; traços da arte egípcia aparecem em vários sítios sírios e palestinos.

[...]

Vestígios da escrita hieroglífica egípcia foram encontrados nos textos semíticos do Levante. [...]

Esse vasto legado faraônico, disseminado pelas civilizações antigas do Oriente Próximo, foi por sua vez transmitido à Europa moderna por intermédio do mundo clássico. Os contatos econômicos e políticos entre o Egito e o mundo mediterrânico oriental, no período histórico, resultaram na disseminação de objetos da civilização faraônica por regiões como a Anatólia e o mundo egeu pré-helênico.


Os fragmentos retratam cenas da famosa expedição promovida pela rainha Hatshepsut para o reino de Punt. Relevo em pedra calcária, XVIIIª dinastia (c. 1473-1458 a.C.). A cena mostra o governante de Punt e sua esposa. O príncipe, com cabelos curtos e barba longa, usa um saiote com uma adaga na cintura e um bastão na mão esquerda. A esposa  é retratada como uma figura obesa. Os nativos de Punt carregam produtos para a delegação egípcia.

Ao lado das relações entre o Egito faraônico e o mundo mediterrânico, é importante sublinhar a presença de laços culturais a unir o Egito ao interior africano. Tais vínculos existiram tanto na pré-história quanto na época histórica. A civilização egípcia impregnou as culturas africanas vizinhas. Estudos comparativos comprovaram a existência de elementos culturais comuns à África negra e ao Egito, como, por exemplo, a relação entre a realeza e as forças naturais. [...]

SILVÉRIO, Valter Roberto (coord.). Síntese da coleção História Geral da África: Pré-história ao século XVI. Brasília: UNESCO, MEC, UFSCar, 2013. p. 172-5, 177-181.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Os Toltecas. Os Maias



* Os Toltecas. Por volta do séc. IX, surgiram no México novas culturas, mais militarizadas e bem situadas para se aproveitarem da persistente situação de guerra da região. Entre eles estavam os chichimecas, nômades invasores vindos do norte, e uma outra cultura, mais avançada, conhecida como tolteca, da qual os astecas se diziam descendentes.

Os toltecas entraram no México no início do séc. X e, liderados por Topiltzin Quetzalcoatl, construíram  sua capital em Tollan (atual Tula). De lá, entre 950 e 1150, eles controlaram uma parte do vale do México, Puebla e Morelos. Os locais de imolação adornados com os crânios dos inimigos e os temas de sacrifício humano predominantes em seus baixos-relevos indicam uma cultura de povo guerreiro. Por volta de 1180, tribos inimigas invadiram Tollan, incendiando a cidade e pondo fim ao domínio tolteca no México central. PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar. história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 204.


Ruínas de Tollan. Arquitetura tolteca. 

* Os Maias. O conhecimento que se tem da cultura maia baseia-se em pesquisar arqueológicas e no estudo das estelas e dos códigos manuscritos elaborados por esse povo. Os documentos mais antigos são as estelas, monólitos que apresentam um grande número de inscrições e sinais de calendário. Um outro documento de suma importância pela sua antiguidade é a chamada "tabuinha de Leyda", que remonta aos primórdios do período clássico, por volta de 320 d.C. Com relação aos códigos, apenas três salvaram-se da destruição por parte dos conquistadores espanhóis: o de Dresden, o Trocortesiano e o Peresiano. Esses documentos são feitos de cortiça revestida com uma camada fina de cal, onde estão gravadas inscrições e figuras coloridas alusivas ao calendário, a práticas de adivinhação e a rituais religiosos dos maias.

Apenas a terça parte dos textos inscritos nos monólitos já foi decifrada; e no que diz respeito aos códigos, estes carecem de dados especificamente históricos, deficiência em parte compensada pelos relatos que funcionários e sacerdotes europeus redigiram, com base em informações prestadas pelos nativos. Além disso, existem documentos manuscritos em idioma nativo mas com caracteres latinos que datam do período imediatamente posterior à conquista espanhola. Segundo especialistas, tais registros poderiam ser a transcrição de antigos documentos maias que teriam sido destruídos. HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 10-11. Volume 3.

* Os centros cerimoniais. A civilização maia formou-se por volta do século IV, numa região próxima ao oceano Pacífico, na atual fronteira entre o México e a Guatemala. Espalhou-se depois por toda a Guatemala, sul do México, península do Iucatán, Belize e parte ocidental de Honduras. Era constituída por centenas de centros cerimoniais autônomos, que se ligavam por rotas terrestres e fluviais, permitindo uma intensa troca de produtos: obsidiana, jade, plumas de quetzal, cacau, tecidos de algodão, punhais de sílex, peles de jaguar, cerâmica, centre outros. 

Os centros cerimoniais maias não eram exatamente cidades. Eles reuniam os templos, as residências dos governantes, os monumentos políticos e as praças destinadas às celebrações. Neles moravam somente os sacerdotes, os governantes e os servidores dos templos.  Não tinham muralhas nem fortificações. A população vivia em pequenos casebres dispersos pelos arredores e ia ao centro apenas para as cerimônias religiosas e para o mercado.

As construções maias traziam numerosas inscrições com nomes de governantes e datas.  Marcar o tempo era uma grande preocupação de seus sacerdotes, que usavam dois calendários: um religioso, com 260 dias, e um de uso civil, com 360 dias mais 5 dias considerados nefastos. A cada 52 anos, quando os dois calendários coincidiam, começava uma nova era, comemorada com a construção de novos templos sobre os antigos.  RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 118.

Dignitário maia, Campeche, Ilha de Jaina, ca. 600-800. Artista desconhecido

* Economia. Os maias, cuja economia baseava-se na agricultura, dedicavam-se ao plantio do milho. O cultivo desse cereal absorvia apenas 48 dias de trabalho nos campos, permitindo que o tempo restante fosse empregado na construção de centros religiosos, templos monumentais, observatórios astronômicos, plataformas destinadas a danças e jogos e a rituais religiosos sob a direção de uma poderosa classe sacerdotal.  HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 190.

O trabalho na terra era feito coletivamente. As vastas plantações eram irrigadas com o auxílio de sistemas que aproveitavam as águas do rio San Juan e das chuvas. Os maias também praticavam a caça e a pesca com frequência.

No comércio usavam às vezes sementes de cacau ou contas coloridas como moedas. Não só comercializavam produtos agrícolas, mas também mantas de algodão, camisas, jóias e tintas para pintar o corpo.  REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 175.

Um senhor maia proíbe uma pessoa de tocar em um recipiente de chocolate. Artista desconhecido


* As mulheres. As mulheres encarregavam-se dos serviços culinários. Aproveitavam o milho de muitas maneiras, depois de colocá-lo de molho em água e sal e moê-lo. Com esse produto faziam pão, uma pasta muito utilizada na dieta alimentar, uma espécie de leite e até mesmo uma bebida, à qual também misturavam cacau e pimenta.


Cerâmica maia: mulher com criança, Campeche, Ilha de Jaina, ca. 600-900. Artista desconhecido

As mulheres participavam ativamente da vida social. Como assinala F. de Aparício, delas dependiam "o sustento da casa, o pagamento de tributos, a educação dos filhos, a fiação e a tecelagem, bem como o amanho da terra." REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 175-6.

Vaso: mulher maia, ca. 600-900. Artista desconhecido


* Indumentária. Os homens usavam uma faixa de algodão enrolada ao redor do tronco, passando entre as pernas, caindo uma das extremidades para a frente e outra para trás, e um quadrado de fazenda abotoa nos ombros à guisa de capa. Os cabelos eram tonsurados na frente, deixando uma longa cauda cair pelas costas. Até o casamento, o corpo e o rosto eram pintados de negro, depois de vermelho. Os guerreiros pintavam-se de negro e vermelho, os sacerdotes de azul, os prisioneiros de riscas horizontais brancas e pretas. Tatuavam-se e usavam perfumes. Os nobres e sacerdotes apresentavam um aspecto resplandecente: plumas, ornamentos de jade, pingentes de conchas, peles de jaguar, dentes de crocodilo, colares, braceletes e penachos e, para os chefes, as suntuosas plumas da cauda de quetzal, de cor verde-azul irisada.

As mulheres vestiam uma túnica de algodão, bordada com flores, pássaros, insetos; usavam um longo manto; cobriam a cabeça com um pedaço de fazenda. Seus cabelos eram longos. Tatuavam-se e perfumavam-se. MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 43-4. [História geral das civilizações, v. 10]

Pintura mural, Bonampak. Artistas desconhecidos
Foto: Inakiherrasti


* Produção artística. O alto nível de organização social atingido pelos maias revela-se na extraordinária qualidade de sua produção artística; sobretudo nas artes plásticas, em que se verifica uma acentuada preferência pelos baixos-relevos, presentes nas inúmeras estelas produzidas por esse povo. O grau de perfeição alcançado na pintura pode ser observado nos afrescos descobertos em Bonampak, que cobrem as paredes de três recintos de um edifício, dispostos em largas faixas horizontais superpostas. Estas faixas representam cenas de cerimônias religiosas, danças e batalhas, revelando particularidades a respeito das roupas, ornamentos, armas e instrumentos musicais dos maias. História das Civilizações. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 16. Volume 3.

Vaso maia: cena de batalha, ca. 600-900, Guatemala. Artista desconhecido

* Festas e guerras. Os maias gostavam de se divertir. Promoviam então bailes que chegavam a durar o dia inteiro, nos quais dançavam e bebiam bastante. O saldo dessas festanças nem sempre era agradável, pois elas resultavam às vezes em brigas violentas e até em mortes. As mulheres apenas serviam bebidas aos homens, não chegando a dançar. Tinham, no entanto, suas festas particulares, quando também se embriagavam.

Festas à parte, os maias eram hábeis guerreiros. Usavam arco e flecha, assim como lanças e machados de metal com cabo de madeira. Protegiam-se com escudos. Quando vencedores, cortavam a mandíbula inferior do inimigo morto para usar como bracelete nas festas e cerimônias. REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 176.

Figura masculina com máscara removível, Campeche, Ilha de Jaina ca. 700-900. Artista desconhecido.


* Legado. Legaram-nos [...] belos exemplos de pintura mural, de cerâmica e de objetos de adorno executados em jade, quartzo e turquesas, os materiais mais preciosos para os maias; desenvolveram um calendário aperfeiçoadíssimo [...] e uma escrita hieroglífica com a qual documentaram acontecimentos históricos, dados de astronomia, rituais, métodos de adivinhação, conhecimentos científicos. HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 190-1.

Referências:
HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. Volume 3.
HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974.
MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. [História geral das civilizações, v. 10]
PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar. história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005.
RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. 

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O Império Bizantino e sua cultura (Parte 2): Arte e Legado

Retrato do Imperador bizantino Alexio I Comneno. Artista desconhecido.

- A arte bizantina. Os gostos do povo bizantino, inclinado ao luxo e ao esplendor, expressavam-se abundantemente na sua arte. Esta não era, contudo, um mero emblema de deleite sensorial, mas mostrava-se profundamente condicionada pelos ideias peculiares à própria civilização. Por exemplo, a forte corrente de ascetismo proibia a glorificação do homem; em consequência disso, a escultura não teve grandes possibilidades de desenvolvimento. A arte que mais se destacou foi a arquitetura, que tinha de ser mística e extraterrena. Além disso, sendo a civilização bizantina um composto de elementos romanos e orientais, era inevitável que a sua arte continuasse o amor à grandiosidade e o talento da engenharia romana com a variedade de colorido e a riqueza de detalhes característicos do Oriente.

- A Igreja de Santa Sofia. A suprema obra artística da civilização bizantina foi a igreja de Santa Sofia (Santa Sabedoria), construída com enorme dispêndio de dinheiro pelo imperador Justiniano. Embora projetada por arquitetos de sangue helênico, muito diferia de qualquer templo grego. Seu fim não era exprimir o orgulho do homem em si mesmo ou a satisfação com esta vida, mas simbolizar o caráter introspectivo e espiritual da religião cristã. Eis por que os arquitetos deram pouca atenção à aparência externa do edifício. Nas paredes exteriores não usaram senão tijolos recobertos com argamassa; não empregaram revestimentos de mármore, colunas graciosas nem cornijas esculpidas. O interior, no entanto, era decorado com mosaicos ricamente coloridos, com folhas de ouro, colunas de mármore de várias cores e pedaços de vidro colorido, colocados de quina para refletir os raios solares de modo que cintilassem como pedras preciosas. Por essa razão, também, o edifício foi construído de tal modo que parecia não vir nenhuma luz de fora, mas nascer toda ela no interior.

[...]

- Outras artes bizantinas. As outras artes bizantinas incluíam a escultura, em marfim, os objetos de vidro com relevos, os brocados, as iluminuras em manuscritos, a ourivesaria e a joalheria, e muita pintura. Esta, porém, não se desenvolveu tanto como as outras artes. Os artistas bizantinos em geral preferiam os mosaicos. Eram desenhos conseguidos pela combinação de pequenos pedaços de vidro ou de pedra coloridos, formando padrões geométricos, figuras simbólicas de plantas e animais, ou mesmo uma cena rebuscada de significado teológico. As representações dos santos e de Cristo eram comumente deformadas para criar a impressão de intensa piedade.

- A influência de Bizâncio na Europa Oriental. [...] Foi ela, sem dúvida, o fator mais poderoso na determinação do rumo da evolução da Europa Oriental. A civilização imperial da Rússia baseou-se em grande parte nas instituições e nas realizações de Bizâncio. A igreja russa foi um reflexo da chamada igreja ortodoxa grega ou igreja oriental, que se desligou de Roma em 1054. O czar, como chefe da igreja e do estado, ocupava uma posição análoga à do imperador em Constantinopla. Também eram de origem bizantina a arquitetura, o calendário e grande parte do alfabeto russo. [...]

- A influência bizantina no Ocidente. Mas a influência bizantina não se limitou à Europa Oriental. Seria difícil superestimar a dívida do Ocidente para com os eruditos de Constantinopla e dos territórios vizinhos, que copiaram e conservaram manuscritos, prepararam antologias de literatura grega e escreveram enciclopédias que enfeixavam os conhecimentos do mundo antigo. Além disso, os eruditos bizantinos exerceram influência notável na Renascença Italiana. A despeito de terem os imperadores orientais perdido finalmente o controle da Itália, muitos de seus antigos súditos continuaram a viver lá e alguns outros fugiram para as cidades italianas depois da repressão do movimento iconoclasta. As relações culturais entre o Oriente e o Ocidente foram também favorecidas pelo largo comércio entre Veneza e Constantinopla, na Idade Média. Consequentemente, as bases para um reflorescimento do interesse pelos clássicos gregos já tinham sido lançadas muito antes de Manuel Chrysoloras e outros eminentes eruditos gregos chegarem à Itália, no século XV. Do mesmo modo, a arte bizantina influiu na arte da Europa Ocidental. Alguns especialistas consideram os vitrais das catedrais góticas como uma adaptação dos mosaicos das igrejas orientais. Muitas das mais famosas igrejas italianas, como por exemplo a de S. Marcos, em Veneza, foram construídas partindo de uma fiel imitação do estilo bizantino. A pintura bizantina também influenciou a da Renascença, especialmente a da escola veneziana e a de El Greco. Finalmente, foi o Corpus Juris de Justiniano que possibilitou realmente a transmissão do direito romano à segunda fase da Idade Média e ao mundo moderno.

BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental. Porto Alegre: Globo, 1964. p. 295-297. [Volume 1]

terça-feira, 7 de julho de 2015

O legado cartaginês

O declínio do Império Cartaginês, William Turner

Os múltiplos contatos de ordem econômica que os cartagineses estabeleceram entre diversos povos da bacia mediterrânea resultaram em intercâmbio cultural intenso que contribuiu para a difusão da civilização. [...] Antes de mais nada, os cartagineses podem ser considerados como propagadores do alfabeto fenício ou, pelo menos, da ideia de um alfabeto consonântico. Assim, é que, provavelmente, podemos atribuir a origem das antigas escritas líbicas ao alfabeto púnico. [...]

É interessante notar a influência multissecular, mesmo depois da data fatídica de 146, da civilização cartaginesa nos berberes. G. H. Bousquet, analisando essa influência acentua que Cartago foi, para os berberes, durante séculos "o único farol de uma civilização superior" e indica alguns pontos em que provavelmente se fez sentir tal influência: língua, artes e religião." [...]

Denise Paulme, estudando as civilizações africanas, assinala as relações dos cartagineses com os garamantes, os predecessores imediatos e, numa medida difícil de determinar, antepassados dos tuaregues. Na época de Cartago, caravanas de garamantes transportavam através do deserto do Saara, para as cidades do litoral mediterrâneo, penas e ovos de avestruz. marfim e escravos recolhidos na África Central, ouro em pó do Sudão. Assim, durante séculos, o interior africano esteve em contato permanente com o litoral e sofreu, sem dúvida, o benfazejo influxo dos centros civilizados.

Concluamos com a curiosa observação de que o nome dado ao continente, África, é de origem púnica e era reservado, no Império Romano, para a província de Cartago. "Ainda hoje, os árabes chamam Ifrikia o país que chamamos Tunísia. Como explicar, sem uma influência profunda e durável sobre as regiões situadas ao sul do Saara, a sorte prodigiosa de um nome que se estendeu dos púnicos ao continente inteiro à medida que se avançava na descoberta do mesmo?"

GIORDANI, Mário Curtis. História da antiguidade oriental. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 242-244.

sábado, 13 de junho de 2015

O legado dos lídios

Creso na fogueira, Myson. [Lado A de uma ânfora Ática de figura vermelha, ca. 500-490 a,C.]

[...] Os lídios beneficiaram-se de um patrimônio cultural acumulado durante milênios pelas civilizações mais antigas do Oriente Próximo e que fora, por assim dizer, depositado aos poucos através da tradicional rota milenar que ligava Babilônia, Ptéria e Sardes.

A penetração dos gregos no reino lídio, atraídos certamente pela magia do ouro abundante, fez com que os mesmos aproveitasse, também o legado cultural. “Tomaram eles mais do que os tesouros: a Lídia, bem próxima de suas cidades da Ásia, foi certamente, um dos caminhos, e indubitavelmente o principal, pelo qual entraram em contato com o Oriente. Técnicas artesanais e artísticas, ideias e práticas religiosas, temas míticos, observações científicas: bem pesada foi a soma de seus empréstimos. Isto porque o acaso não é suficiente para explicar o avanço que a Jônia, associada e praticamente submetida a Sardes, tomou, então, sobre as outras províncias do mundo grego: nenhuma encontrava tão grandes facilidades para tirar proveito das experiências do próximo”.

“Os gregos extraíram de um terreno inesgotável toda espécie de noções que renovaram mais ou menos sua religião, seu comércio, sua indústria, sua arte e que lhes permitiram transformar a tradição em ciência [...]”.

“Sem este intermediário não se vê como os cálculos dos astrólogos e as cartas dos geógrafos babilônicos teriam sido transmitidos à Escola de Mileto. Foi na Lídia, enfim, que os gregos observaram, pela primeira vez, o despotismo das monarquias bárbaras: espetáculo instrutivo, que ofereceu modelos aos tiranos, mas que fez também sentir aos cidadãos sua superioridade de homens livres”.

Uma contribuição dos lídios à civilização foi a cunhagem de moedas. Tal cunhagem foi uma necessidade imposta pela intensidade do intercâmbio comercial. O numismata francês Lenormant, estudando a origem da moeda, chegou à conclusão de que a cunhagem de moeda foi feita isoladamente na Lídia e em Argos.

Creso teria sido o primeiro soberano do mundo mediterrâneo a cunhar ouro. Suas moedas possuíam a forma ovóide e apresentavam numa das faces, em meio corpo, um leão e um touro olhando-se de frente. Chamavam-se creseidas da Lídia.


GIORDANI, Mário Curtis. História da antiguidade oriental. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 319-320.

domingo, 12 de abril de 2015

A sociedade fenícia

Cavaleiro. Terracota do século VIII a.C.

"A antiga Fenícia correspondia mais ou menos ao território do Líbano atual. A comunicação por via terrestre era difícil devido ao terreno montanhoso, mas as cidades fenícias tinham fácil comunicação marítima. O litoral tinha bons portos naturais e nas montanhas podia-se encontrar madeira apropriada para a construção de navios. Além do mais, as cidades fenícias estavam localizadas entre a Mesopotâmia e o Egito [...]." (PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 20)

* O comércio era seu principal meio de vida. Como agricultores, os fenícios plantavam nos vales existentes no litoral, cereais, a videira e a oliveira, com os quais produziam farinhas, vinho e azeite.

Essa produção agrícola era lucrativa, porém frequentemente se perdia, porque a região onde se localizavam as cidades fenícias sofria constantes invasões de povos vindos dos desertos ou de exércitos de Estados fortes (como o Egito). O que deveriam fazer os dirigentes fenícios, diante da periódica destruição da sua produção agrícola? É evidente que teriam de buscar outra atividade econômica mais estável. Escolheram o comércio, que também poderia oferecer lucrativos rendimentos.

Aproveitando-se das madeiras existentes nas regiões montanhosas do interior, construíram numerosas embarcações e se expandiram pelo Mediterrâneo, fundando inúmeras colônias [...].

Em seus navios, movidos a remo e a vela, os comerciantes fenícios transportavam mercadorias produzidas em suas cidades ou compradas nos países com os quais mantinham relações comerciais.

Conhecidos como navegadores audazes e por venderem variados produtos de luxo, os comerciantes fenícios também eram vistos como negociantes desonestos. Essa opinião era comum entre os autores do Mundo Antigo, como se verifica em certa passagem da Odisseia, de Homero, poeta grego do século X a.C. [...]:

"Um dia, os fenícios, povo famoso na marinha, mas sutil e trapaceiro, abordaram as praias da nossa ilha com um barco carregado de tecidos e de bijuterias raras e brilhantes. Havia no palácio de meu pai uma escrava, notável pela beleza e pelos trabalhos que saíam de suas mãos. Aqueles estrangeiros astuciosos trataram de seduzi-la [...] e enviaram [...] um homem manhoso, que apareceu no palácio a pretexto de oferecer à venda um colar de ouro, [...] Enquanto minha mãe e as suas criadas tinham os olhos postos no colar [...] o velhaco levou a escrava para o seu barco [...]"

Segundo informações chegadas até nós, as pequenas embarcações fenícias navegavam inclusive fora do Mediterrâneo, atingindo a Inglaterra ou contornando o continente africano, como nos relata Heródoto:

"Saindo, pois, os fenícios do Mar Eritreo [Mar Vermelho], navegaram  pelo Mar do Noto [Oceano Índico], durante sua viagem. cada vez que chegava o outono, colocavam seus barcos na praia de qualquer litoral da Líbia [África], semeavam a região e esperavam a colheita. Recolhida a colheita, continuavam a viagem. Agindo assim durante dois anos, dobraram as Colunas de Hércules [Estreito de Gibraltar] e, no terceiro ano, chegaram ao Egito."

* O alfabeto foi sua principal realização cultural. A realização desses empreendimentos comerciais e marítimos obrigava os comerciantes e empresários fenícios a registrar suas transações, o que apresentava dificuldades, porque os sistemas de escritas conhecidos eram complicados. As escritas egípcias e mesopotâmicas, amplamente utilizadas pelas sociedades do Oriente Próximo, com seus numerosos e complexos sinais, revelavam-se inadequadas à feitura de recibos de compra e venda, listas de preços de mercadorias, relações de gastos com o transporte e o armazenamento dos produtos.

Foi, então, por motivos utilitaristas, que se criou um sistema de escrita simplificado, capaz de ser empregado por qualquer indivíduo. O novo sistema compreendia 22 letras, todas consoantes, e a denominação de alfabeto origina-se dos nomes das duas primeiras letras fenícias, chamadas aleph (touro) e beth (casa).

Inventado por volta de 2000 a.C., o alfabeto fenício veio depois a ser modificado pelos gregos e romanos, dando origem aos alfabetos atualmente utilizados no Mundo Ocidental.

Pouco sabemos das contribuições da sociedade fenícia nas Artes, na Literatura e nas Ciências porque a maior parte de suas realizações foi destruída pela ação do tempo. Escavações arqueológicas revelaram, contudo, que a produção artística e literária fenícia refletia profunda influência de modelos egípcios e mesopotâmicos.

A religião fenícia era politeísta e cada cidade-Estado possuía suas próprias divindades. Estas divindades sempre formavam um casal identificado com a chuva e com a terra, o que reflete o primitivo caráter agrícola da sociedade fenícia. O casal divino também era venerado como protetor da navegação e respeitosamente tratado de Baal (Senhor) e Baalat (Senhora). Assim, Adônis era o Baal e Astarté, a Baalat de Tiro. O culto incluía, no seu ritual, sacrifícios humanos de crianças, talvez uma prática religiosa para limitar o crescimento das populações urbanas.


Fenício representado em mural do Antigo Egito. 
Ca. 1500-1450 a.C.

* O governo era dos ricos comerciantes. A sociedade fenícia, ao contrário do que ocorreu em outras sociedades do Oriente Próximo, foi incapaz de organizar-se em Estado único, politicamente centralizado, como o Egito dos Faraós. Na realidade, não houve uma História Fenícia, mas, sim, das cidades-Estados fenícias que se desenvolveram independentes entre si. As mais importantes foram Sídon, Ugarit e Biblos. Cada uma delas possuía seus próprios dirigentes.

"A primeira cidade a exercer sua hegemonia foi Biblos (ca. 2500 a.C.), que comerciou intensamente com Chipre, Creta e Egito. No Egito trocava a madeira pelo papiro, material utilizado na escrita. Daí a denominação de biblos dada pelos gregos ao rolo de papiro e, por extensão, ao próprio livro.

Em seguida predominou Sídon (ca. 1500-1300 a.C.), que estendeu o comércio por todo o Mar Egeu e pelo Mar Negro, fundando colônias e comerciando com os gregos ainda semi-bárbaros.

Depois a supremacia passou a Tiro (séculos IX-VI a.C.); os fenícios estenderam-se até o norte da África - onde fundaram colônias, entre as quais Cartago (século IX a.C.) - o sul da Itália, as ilhas do Mar Tirreno, a Espanha, chegando até as atuais França e Grã-Bretanha. A partir do século VI a.C. Tiro entrou em declínio, passando a sofrer a concorrência dos etruscos, dos gregos e de sua própria colônia Cartago, a qual acabou dominando as colônias fenícias da África, da Sicília e da Espanha." (HOLANDA, Sérgio Buarque de [et alli]. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 43.)

A forma habitual de governo foi a Monarquia, geralmente com poderes limitados pelo Conselho dos Anciãos, cujos integrantes pertenciam às famílias ricas. A hereditariedade da Monarquia, contudo, não satisfazia aos interesses da poderosa classe de comerciantes, de proprietários de navios e de oficinas artesanais. O resultado foi a substituição das Monarquias hereditárias pelos Sufetas, em número de dois e escolhidos pelo Conselho dos Anciãos para exercer o poder temporariamente. 

Essas modificações políticas também foram apoiadas pela classe sacerdotal, proprietária de templos, de terras e de outras riquezas. Os sacerdotes fenícios integravam a aristocracia dirigente e eram recrutados entre algumas das famílias mais ricas da sociedade.

Nas cidades fenícias, a escravidão praticamente não existia, pois os escravos eram mais utilizados como mercadoria de comércio do que como mão-de-obra produtora.

A maioria da sociedade compreendia artesãos. portuários. trabalhadores domésticos e marinheiros, além de pequeno número de camponeses que, em servidão coletiva, cultivavam as terras vizinhas às cidades-Estados.

Por vezes, as cidades fenícias foram atacadas e pilhadas por exércitos de outras sociedades do Oriente Próximo. Algumas vezes, chegavam a ser conquistadas, mas acabavam recuperando a independência. Finalmente, foram integradas ao Império Persa e, posteriormente, a outros Impérios, como o de Alexandre, o Grande, e o Romano.

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]. Fazendo a História: da Pré-História ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 42-5.
HOLANDA, Sérgio Buarque de [et alli]. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 43
PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 20

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O legado da civilização mongólica

Gengis Khan e emissários chineses, Sayf al-Vâhidî. Hérât

Contrastando com os impiedosos massacres dos inimigos, deve-se apontar, desde logo, um marcante legado dos mongóis a Pax Mongolica. Esta Pax possibilitou, com relativa segurança, o desenvolvimento de atividades mercantis do Oriente ao Ocidente através de regiões e povos os mais diversos. Com os viajantes e com as mercadorias seguem também as ideias e invenções. A presença de mercadores venezianos em Pequim, de emissários mongóis em Bordeaux e Northampton, de cônsules genoveses em Tabriz, de artesãos franceses em Caracórum, de agentes fiscais árabes na China "são uma prova de que o mundo do século XIII estava-se contraindo. Neste sentido, o livro de Marco Pólo era algo mais que um catálogo de maravilhas: simbolizava o amanhecer de uma nova era." Observe-se que, ao lado das rotas continentais que correspondiam à antiga rota da seda, os mongóis reabriram a via marítima, a rota das especiarias. Grousset insiste na importância das rotas mundiais mantidas pelos mongóis: "A reunião da China, do Turquestão, da Pérsia e da Rússia em um imenso império regido por um yassaq severo, sob princípios atentos à segurança das caravanas e tolerantes para com todos os cultos, reabria por terra e por mar as rotas mundiais obstruídas desde o final da Antiguidade."

Viajantes e missionários que, usufruindo da Pax Mongólica, percorreram com segurança a Ásia e registraram o que viram, deixaram uma notável contribuição que iria frutificar nas concepções e atuações dos intrépidos navegantes lusitanos e espanhóis que marcaram com os Descobrimentos o início dos tempos modernos.

Hambly chama a atenção para o novo conceito de imperium surgido com a vida e as conquistas de Gengis-Khan e que cativou a imaginação dos homens, embora a impressão inicial ante o fenômeno fosse de terror. A lembrança desse império "ia ser tão penetrante e tão desafiante para as gerações posteriores como a lembrança do reich de Carlos Magno o foi para a Europa Medieval." "Jamais império tão vasto fora construído; e jamais a teoria do império universal tinha sido formulada com tanta força."

Podemos aferir a profunda impressão que a grandiosidade do império mongol causou na posteridade, especialmente no continente asiático, pelo fato de que "depois da queda do Império Mongol todos os chefes da Ásia Central procuravam, se pudessem, legitimar seu mandato proclamando-se descendentes de Gengis-Khan..."

Gernet aponta as diversas contribuições que da Ásia Oriental chegaram à Europa Medieval e cuja transmissão foram favorecidas pelas cruzadas dos séculos XII e XIII e pela expansão do Império Mongol nos séculos XIII e XIV: "A simples enumeração dos contributos da Ásia Oriental para a Europa Medieval nesta época - influências diretas ou invenções sugeridas pelas técnicas chinesas - basta para revelar a sua importância." 

Miquel lembra o legado que o Islam recebeu da Ásia Central e da China e que acrescentou às heranças iranianas: "somente alguns exemplos: mongol, o hábito de considerar o território como patrimônio teoricamente coletivo e indiviso do clã-Estado; mongol, a eleição do chefe pela assembleia dos príncipes; mongóis, certos atributos ou sinais exteriores do poder..."

Um legado interessante dos mongóis situa-se no campo da escrita: o alfabeto mongol, supra-estudado, encontra-se na origem do alfabeto mandchu. Février sublina: "o aspecto exterior da escrita mandchu é extremamente próxima do aspecto da escrita mongol." Diga-se de passagem que o alfabeto mandchu foi elaborado sob a orientação do imperador mandchu Nurhaci (1599).

A escrita kalmuk, criada em 1648 para uso dos kalmuks estabelecidos na Rússia, tem também sua inspiração no antigo alfabeto mongol.

[...] a ocupação mongol da China deixou o antigo império extremamente enfraquecido e com sérios problemas internos. Os mongóis não afetaram a milenar e avançada civilização chinesa: ao contrário, reforçaram velhas tradições alimentando uma xenofobia latente. A instalação da dinastia Ming implicou um esforço no sentido de apagar o hiato da dominação mongólica e ligar a nova China ao mais remoto passado nacional "elaborando uma civilização essencialmente tradicionalista." Note-se, contudo, a proteção ao budismo por Hong-wu que, lembrando-se do tempo em que vivera como bonzo num mosteiro, "não atendeu aos desejos dos letrados confucianos..."

As civilizações do Extremo Oriente, em virtude da queda do Império Mongol, isolar-se-iam num hermetismo multissecular, cortando as relações com o Ocidente. "Os europeus só reatariam tal contato muitas gerações mais tarde, na aurora do século XVI, com os périplos dos navegadores portugueses. Da grande aventura mongólica sobravam apenas lembranças aviltantes para a nova China, mas em nossos museus ficaram seus admiráveis desenhos de cavaleiros e animais, onde se aliaram, por um instante, a graça chinesa e o realismo mongólico."

GIORDANI, Mário Curtis. História da Ásia anterior aos descobrimentos. Petrópolis: Vozes, 1996. p. 224-26.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O legado da China

A dama Guoguo passeando a cavalo, Li Boshi

Tendo como berço a vasta planície sulcada pelas águas do Rio Amarelo, a civilização chinesa desenvolveu-se e expandiu-se numa imensa área da Ásia Oriental e Central não só recebendo contribuições culturais de outros povos, mas também transmitindo a muitas regiões o legado de uma brilhante civilização.

A obra conquistadora e colonizadora dos Han lembra a realização das legiões romanas. Da Coréia ao Vietnam, os legionários dos Han difundiram as ideias do confucionismo sobre a organização estatal: centralização do poder e regularização da administração. E com as concepções políticas seguiram todas as conquistas intelectuais e materiais: as obras de Confúcio e o arado de metal elevavam harmoniosamente o nível cultural dos povos submetidos. “Pela espada e pelo pincel, a China dos Han criou no Extremo Oriente e em todos os países de sua periferia, destinados a transformar-se em estados satélites, o direito administrativo, o direito público, o direito privado”.

O grande veículo da civilização chinesa foi a língua escrita, “língua de cultura e de administração do Anam, até a conquista francesa, da Coréia até a anexação japonesa, do próprio Japão nos primeiros séculos da introdução da civilização chinesa”. O chinês escrito influiu fortemente o vocabulário do idioma de todos esses países “que lhe pediram e frequentemente ainda pedem emprestados termos de cultura, forjando novas expressões com a ajuda de palavras chinesas da língua escrita, como nós o fazemos com o auxílio das palavras do grego antigo”.

Como sucedeu por ocasião da queda do Império Romano do Ocidente, a quebra dos laços políticos entre o Império Chinês e as regiões distantes outrora conquistadas não impediu o desenvolvimento das sementes de civilização lançadas: cresceram, tornaram-se árvores frondosas que ainda hoje frutificam.

Anotemos agora algumas realizações do gênio inventivo chinês que teriam enriquecido o patrimônio cultural do Ocidente.

A porcelana, a seda, a bússola, a imprensa, a pólvora e o papel, eis alguns progressos de nossa civilização que nos fazem pensar na China. O uso da agulha magnética entre os chineses parece remontar a muitos séculos antes de nossa era; mas somente foi introduzido no Ocidente por volta do século XII pelos árabes que o ensinaram aos normandos da Sicília, os quais, por sua vez, o transmitiram a genoveses e venezianos.

Os eruditos chineses discutem a época em que nasceu na China a arte de imprimir. Já nos primeiros séculos da nossa era, moldes de pedra eram utilizados para a impressão das firmas do imperador e dos príncipes. O ministro Feng-Tao, no século X da Era Cristã, conseguiu que fossem gravados em matrizes de madeira os clássicos chineses. No século seguinte, o ferreiro Pisching ou Pi-Sheng teria inventado os tipos móveis.

É difícil, entretanto, estabelecer uma relação entre a invenção chinesa e o aparecimento da imprensa no Ocidente ao findar a Idade Média.

Quanto ao papel, não há dúvida sobre a contribuição chinesa. O segredo da fabricação foi relevado em Samarcanda no século VIII por prisioneiros chineses, espalhando-se daí para o Ocidente por intermédio dos árabes.

A pólvora também nos foi transmitida pelos árabes, que vieram a conhecer o salitre “no curso de seu tráfico com a China e deram-lhe o nome de “neve chinesa”; trouxeram para o Ocidente o segredo da pólvora, que os sarracenos puseram em uso militar; Roger Bacon, o primeiro europeu que a mencionou, deve ter adquirido esse conhecimento no seu estudo dos árabes ou por meio dum viajante da Ásia Central, De Rubruquis”.

Mencionemos ainda, a título e curiosidade, outra contribuição da velha China: o método de resolução de equação do primeiro grau com uma incógnita, supondo o problema resolvido com uma solução por excesso e outra por falta, consta numa obra de matemática da época dos Han e passou à Europa com o nome árabe de “Al Khataayn”, isto é, “a chinesa”.

A história da China, desde milênios, não conhece solução de continuidade. Eis um fato importante a ser considerado quando se procura definir o legado da China antiga à civilização. As velhas tradições, as grandes sínteses doutrinárias filosófico-religiosas que no passado deitaram raízes na alma chinesa, continuaram durante toda a história a influir na mentalidade das gerações que se sucederam no velho país do Extremo Oriente. Tal asserção pode ser ilustrada com o exemplo do confucionismo que, durante milênios, tem sido o “código ortodoxo de toda a vida moral e espiritual e, apesar dos sistemas concorrentes, continua a ser o princípio diretivo da vida social. Desde a dinastia dos Han, a instrução pública baseia-se inteiramente sobre os ensinamentos de Confúcio, cujo alcance espiritual, malgrado os desvios que a fraqueza humana lhe imprimiu, continua integral. [...]


GIORDANI, Mário Curtis. História da antiguidade oriental. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 435-437.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O legado da Índia

Carregadoras de água no Ganges, Edwin Lord Weeks

A Índia foi, na Antiguidade e em épocas posteriores, uma fecunda encruzilhada de civilizações, um centro de intensa irradiação de ideias filosóficas e religiosas. [...] A Índia, pois, não só recebeu como também transmitiu influências culturais. [...]

O intercâmbio cultural entre o Vale do Indo e as velhas civilizações da Mesopotâmia já foi mencionado. Intercâmbio semelhante existiu com o império dos aquemênidas; essas relações com o Ocidente se intensificaram na época helenística. Escavações recentes efetuadas nas proximidades de Pondichéry atestam, de modo eloqüente, as ligações entre a Índia e o Império Romano. Ptolomeu fala-nos desses portos que se escalonavam do Mediterrâneo à China e os historiadores chineses informam-nos das visitas de embaixadores romanos à corte imperial, na época do Antonino Pio e de Marco Aurélio. Moedas romanas do tempo dos Antoninos, encomendadas no Oriente, confirmam esse intercâmbio que não terá sido exclusivamente comercial.

Os contatos da Índia com o Oriente foram igualmente intensos: a Ásia Central, a China, a Indochina, a Indonésia e o longínquo Japão sofreram a influência da cultura indiana. A expansão do budismo ilustra essa influência sobre a Ásia Oriental: a religião de Buda difundiu-se na China, na Coréia e no Japão. Ruínas grandiosas de santuários bramânicos e budistas falam eloquentemente do prestígio cultural da Índia em Java.

No terreno artístico, a Índia também irradiou sua influência no Oriente. Assim, por exemplo, “a arte greco-budista se propaga, de uma parte através da Ásia Central para a China e o Japão, de outra parte, na Índia e além, através da rota marítima, pela Insulíndia e a Indochina”.

No que tange a influência científica, registremos que da literatura científica da Índia dependem em sua maior parte as obras congêneres da Alta Ásia Antiga, do Tibet, da Mongólia, da Birmânia, Tailândia, Laos, Cambodge e Indonésia. “Estudada em si mesma e traduzida ou continuada em outras línguas, a literatura científica sânscrita desempenhou na Ásia Oriental o mesmo papel que na Europa e na Ásia Ocidental a literatura científica grega traduzida, imitada ou prolongada em siríaco ou em árabe”. Se, agora, voltarmo-nos para o Ocidente, surge uma interrogação: até que ponto teria a Índia influído na cultura da nossa Antiguidade Clássica? No terreno científico, parece inegável essa influência: “A comunicação de ideias indianas a certos meios médicos gregos da época da Coleção hipocrática e de Platão é atestada pela menção, no tratado “Das doenças das mulheres”, de um medicamento indiano, a pimenta, e de receitas médicas indianas”. Admitia-se desde a época de Aristóteles que, mesmo antes da expedição de Alexandre, intelectuais indianos teriam vindo à Grécia. Aristóxenes de Tarento, discípulo de Aristóteles, cita uma anedota em que aparece um sábio indiano visitando Sócrates.

Quanto às elucubrações filosóficas, é possível delinear-se um paralelo entre certos pontos do pensamento indiano e do pensamento grego. Mas, entre as especulações helênicas e as meditações indianas, existem abismos intransponíveis, o que torna temerárias quaisquer afirmações sobre uma influência direta destas sobre aquelas.

E quanto ao nosso patrimônio cultural, existirá alguma contribuição direta de civilização indiana? “Não podemos atribuir à civilização indiana dádivas diretas como as que recebemos do Egito e do Oriente Próximo; porque estas civilizações foram as imediatamente ancestrais da nossa, ao passo que as histórias da Índia, China e Japão correm em outro rumo e só agora estão começando a tocar e influenciar a corrente da vida ocidental. É verdade que, mesmo através da barreira do Himalaia, a Índia nos mandou grandes presentes, como a gramática e a lógica, a filosofia e as fábulas, o hipnotismo e o xadrez, e acima de tudo o nosso sistema decimal. [...] Entre as coisas mais vitais da nossa herança oriental estão os algarismos “arábicos” e o sistema decimal, ambos vindos da Índia através da Arábia. Os algarismos erradamente chamados arábicos aparecem nos “Editos de Pedra de Ashoka (256 a.C.), precedendo de um milênio à sua aparição na literatura árabe. Disse o grande e magnânimo Laplace: Foi a Índia que nos deu o engenhoso método de representar todos os números por meio de dez símbolos, cada um deles recebendo um certo valor de posição, assim como um certo valor absoluto; profunda e importante ideia essa, e de tão simples que nos parece hoje, ignoramos-lhe o verdadeiro mérito. A sua simplicidade, a grande facilidade que imprimiu a todos os cálculos, pôs a nossa aritmética no primeiro plano das invenções úteis; e apreciaremos duplamente a grandeza de tal descoberta se refletirmos que ela escapou ao gênio de Arquimedes e Apolônio, dois dos maiores homens produzidos pela Antiguidade”.

O que há de importante no legado da Índia antiga é que, no Oriente, ele é tão vivo hoje como no passado. Porque a civilização da Índia, ao contrário do que sucedeu às velhas civilizações do Oriente Próximo, não conheceu a morte. Resistiu durante milênios e apresenta-se hoje bem viva, com todos os seus defeitos e virtudes. Assim, por exemplo, a velha literatura transmitida durante séculos pela tradição oral revela-se hoje com o mesmo vigor e pujança com que influiu outrora as massas sedentas de solução para os magnos problemas da vida. A história da Índia não terminou na Antiguidade. Não existe, na península, solução de continuidade entre os tempos de Gandhi e de Nehru e a época de Buda, Jina ou de Açoka.


GIORDANI, Mário Curtis. História da antiguidade oriental. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 397-399.