"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 11 de julho de 2015

O calendário ocidental

Calendário agrícola medieval, Pietro Crescenzi, c. 1306

"A palavra calendário origina-se do latim calenda, nome dado pelos romanos ao primeiro dia do mês, que era também o dia da cobrança de impostos". (CABRINI, Conceição [et alli]. História temática: tempos e culturas. São Paulo: Scipione, 2009. p. 52.)

Por volta de 50 a.C., a República Romana, conduzida por Júlio César, estava se transformando em Império. Dentre as várias inovações administrativas introduzidas por César, uma foi a criação de um novo calendário, em 45 a.C., que ficou conhecido como calendário juliano.

Até esse ano, Roma adotava o ano de 360 dias, com 12 meses de trinta dias. [...] essa contagem apresentava um erro de cinco dias por ano; para corrigir esse erro, os romanos introduziam, de acordo com a necessidade, um mês extra no fim do ano. [...]

Aconselhado por astrônomos, Júlio César abandonou o mês de trinta dias, que ainda era um resquício do ciclo da Lua, e criou um novo calendário, totalmente baseado no Sol [...], no qual os anos tinham 365 dias, exceto um ano em cada quatro, que 366 dias. [...]

Se o ano de 365 dias fosse dividido em 12 meses iguais, cada mês teria 30,4 dias. Para evitar esse problema, Júlio César estabeleceu que os meses teriam alternadamente 31 e 30 dias, começando com 31.

Dessa forma, somando-se os 11 primeiros meses, chegava-se a 336 dias, restando 29 dias para completar o ano de 365 dias. Ficou então estabelecido que o último mês do ano teria 29 dias e, nos anos bissextos, 30 dias.

O sistema criado por Júlio César era fácil de utilizar e de memorizar: começava com um mês de 31 dias, depois vinha um de 30, um de 31, e assim alternadamente, até que o último tinha duração variável. Infelizmente, alguns anos depois, essa solução foi estragada por interesses políticos. O problema surgiu com a prática de homenagear deuses e imperadores dando seus nomes aos meses do ano. O primeiro mês recebeu o nome do deus Marte (surgindo o mês de março), o quarto mês recebeu o nome da deusa Juno, e assim por diante. Ao próprio Júlio César coube o quinto mês, que até hoje se chama julho. Com a morte de Júlio César, assumiu o poder o imperador Augusto, que foi homenageado com o mês seguinte (agosto).

No entanto, algum bajulador notou que o mês de Júlio César tinha 31 dias, enquanto o mês de Augusto tinha somente 30. Fez-se, então, uma alteração no calendário: o mês de agosto ganhou um dia, roubado de fevereiro, que passou a ter 28 e 29 dias.

Isso trouxe um problema: uma sucessão de três meses de 31 dias - julho, agosto e setembro. Para evitar isso, alteraram-se todos os meses, de setembro a dezembro. [...]

Como os cônsules, eleitos com o mandato de um ano, tomavam posse em 1º de janeiro, essa data passou a marcar o início do ano, prática que se estende até hoje. 

CHIQUETTO, Marcos José. Breve história da medida do tempo. São Paulo: Scipione, 1996. p. 25-28. (Coleção Ponto de apoio)

quinta-feira, 28 de maio de 2015

A vida cotidiana dos astecas: Técnicas e conhecimentos

Xipe Totec no calendário Tonalamatl de 260 dias. Artistas desconhecidos, Codex Bourbon 

[...]


Sua arquitetura, derivada dos toltecas, demonstra uma mestria que pressupõe, por sua vez, amplos conhecimentos de geometria e cálculo. É muito provável que esses conhecimentos não estivessem explicitados de forma abstrata, mas sem eles teria sido impossível ter construído vastos conjuntos como os monumentos religiosos e profanos do centro do México. O mesmo se aplica a realizações como os aquedutos e diques.

A metalurgia do cobre, do bronze, do ouro e da prata penetrou no México tardiamente, no início do II milênio a.C. Alcançou o planalto Central, difundindo-se desde o litoral do Pacífico e das montanhas que se elevam na costa oceânica; pode-se também supor que essas técnicas tenham sido importadas do Peru. Como quer que tenha ocorrido, os astecas sabiam utilizar processos como a fundição do ouro e da prata. A perfeição de sua ourivesaria suscitou a admiração dos primeiros europeus que conheceram suas obras-primas [...].

A contemplação do céu e o estudo do movimento dos astros faziam parte dos deveres sacerdotais. Os sacerdotes astecas, astrônomos e astrólogos, ministros dos cultos astrais, tinham conhecimentos precisos quanto à duração do ano, a determinação dos solstícios, as fases e eclipses da lua, a revolução do planeta Vênus e diversas constelações, como as Plêiades e a Grande Ursa. Como todas as altas civilizações do México, também os astecas atribuíam importância primordial à mensuração do tempo, fundada sobre uma aritmética que tinha por base o número 20. Menos complexas e menos perfeitas que as dos maias, a aritmética e a cronologia astecas nem por isso constituíam um monumento intelectual menos extraordinário. Aspectos objetivos, juntamente com aspectos mágico-religiosos, aí estão inextrincavelmente fundidos. O ano dividia-se em 18 meses de 20 dias, mais cinco dias "ocos". Paralelamente a esse calendário solar, havia um calendário divinatório, o tonalpoualli, de 260 dias, baseado na combinação de uma série de 13 números (de 1 a 13) e de 20 nomes [...].

[...]

Os livros revestiam-se de grande importância aos olhos dos antigos mexicanos. Os templos, os calmecac e as casas dos dignitários possuíam ricas bibliotecas. A profissão de pintor-escriba (=(tlacuiloani) era particularmente valorizada. Muitos livros tratavam de assuntos religosos e de rituais, de adivinhação e interpretação de sonhos. Outros relatavam as migrações das tribos, a fundação de cidades, a origem e história das dinastias e as façanhas de determinados heróis. Os livros eram escritos, ou melhor, pintados sobre folhas feitas de fibras de agave ou cortiça batida, ou sobre tiras de pele de cabrito dobradas como um biombo. A escrita asteca representava um compromisso entre a ideografia e a notação fonética. Certos caracteres designavam ideias ou objetos, enquanto outros, ou os mesmos, denotavam sons. [...] A morte de um soberano era representada por uma "múmia" ou um carregamento funerário; a queda de uma cidade sitiada, por um templo em chamas atravessado por uma lança; um itinerário, por vestígios de passos religando os hieróglifos das localidades. No que concerne à notação numérica, a unidade era representada por um círculo, 20 por uma bandeira, o tzontli (400) por um signo bem semelhante a um arbusto e 8.000, por uma bolsa.

A confecção de livros astecas era fortemente influenciada pela técnica de povos da região de Puebla e Oaxaca, como os mazatecas de Teotitlán, especialistas em iluminuras religiosas, e os mixtecas, cuja história escrita remonta até o século VII d.C. O Codex Borbonicus, manuscrito ritual conservado na Assembleia Nacional de Paris, é um magnífico exemplar de livro asteca, e um dos raros que se conservaram até hoje. Milhares de manuscritos, com efeito, foram destruídos durante a conquista espanhola.

Dentro de uma ordem de ideias totalmente diversa, deve-se mencionar a extensão e precisão dos conhecimentos dos mexicanos quanto à fauna e sobretudo à flora de seu país. O médico de Felipe II, Francisco Hernández, pôde enumerar em torno de 1.200 plantas que os astecas utilizavam na terapêutica. Sem dúvida, empregava-se uma larga proporção de práticas mágicas e feitiços na medicina nativa da época: as doenças eram atribuídas a causas sobrenaturais, à vontade de certos deuses ou aos envolvimentos causados por bruxarias de feiticeiros malévolos. Também o ticitl (médico) asteca recorria à adivinhação e à contramagia, às preces e às imposições de mãos. Ao mesmo tempo, porém, eles sabiam reduzir fraturas, pensar feridas, colocar emplastros, aplicar sangrias e, principalmente, ministrar poções de plantas medicinais cujos efeitos - purgativos, diuréticos, antiespasmódicos, sedativos etc. - eram conhecidos e empiricamente verificados através de uma longa tradição.

SOUSTELLE, Jacques. A civilização asteca. Rio de Janeiro: Zahar, 2002. p. 52-3, 55-7. (As civilizações pré-colombianas)

quarta-feira, 21 de março de 2012

O olho de vidro da ciência: a revolução científica


A ciência estava a todo vapor na Europa. Deixando de engatinhar, começou a andar e, em seguida, a correr. Continuou a correr por algum tempo antes de ultrapassar a China na maior parte das áreas, mas, em 1520, já havia fortes indícios de que estava ganhando velocidade. A mesma imprensa que expôs Lutero explicava as últimas descobertas da ciência. A página impressa viajava com facilidade, ao contrário dos típicos estudiosos europeus. A maioria dos cientistas famosos da Europa de 1550 nunca chegara a conhecer a maioria de seus contemporâneos estrangeiros cara a cara, mesmo quando vivia apenas algumas centenas de quilômetros de distância.

Novos avanços vieram do estudo do sol, da terra e das estrelas. Nessa área, o grande descobridor foi Nicolau Copérnico, um estudioso polonês, que usou toda a sua capacidade de medir e observar, bem como aquela atividade pouco comum, conhecimento como "pensamento", para provar que o sol era o centro do universo. Com isso, destronou o planeta terra, uma vitória tão louvável que parecia inicialmente desafiar a Bíblia e toda a essência do cristianismo, que via a terra como o centro do universo.

Copérnico começou a destronar a terra por volta de 1510, logo após Colombo e suas viagens de descobrimento terem ampliado o mapa. A vitória de Copérnico, entretanto, não estava assegurada, mesmo depois de sua morte em 1543. De certa forma, ainda hoje sua visão é só parcialmente aceita. A voz do povo e a imagem poética ainda indicam que a terra é o centro do universo. Todas as manhãs, aos olhos da mente, é o sol que nasce e, não a terra que se põe.

A ênfase nas medidas e na observação, de fato um método científico completamente novo, conduziu esses avanços. A anatomia ganhou com a nova ânsia das escolas de medicina italianas em dissecar o corpo humano, em vez de confiar no que os antigos estudiosos gregos haviam escrito. A autópsia do corpo do Papa Alexandre V chegou a ser sancionada, após sua morte misteriosa em 1410. O jovem e brilhante médico, Vesalius, originário de Flandres, frequentemente dissecava corpos e, na Universidade de Pádua, ensinava suas descobertas arrojadas, na década de 1540, reescrevendo assim os antigos livros de anatomia.

Laboratório de um alquimista, 1570,Giovanni Stradano


A onda de descobertas, feitas em várias frentes científicas, era o trabalho de centenas de curiosos que passavam seu tempo como cientistas, observadores de estrelas, médicos e religiosos que dispunham de um pouco de tempo para gastar. Muitas eram pessoas de vários talentos e habilidades que estavam decididas a resolver um emaranhado de charadas intelectuais. Assim, Isaac Newton, que foi aclamado em sua vida como o maior de todos os físicos, pesquisou teologia, química, astrologia, astronomia e a fabricação de telescópios, bem como as leis do movimento e da gravidade. Nos séculos XVI e XVII, cientistas famosos raramente eram pesquisadores com dedicação exclusiva, e raramente viviam vidas longas. Isaac Newton foi uma exceção pelo fato de ter passado dos 80 anos de idade [...].

Um avanço na ciência, segundo dizem alguns observadores, nada mais é que a aplicação do bom senso, mas várias teorias pareciam desafiar o bom senso vigente à época, tanto a versão espiritual quanto secular desse bom senso. Por isso, não eram aceitas prontamente. Muitos descobridores sabiamente hesitavam em tornar público o que haviam descoberto, enquanto os descobridores de hoje se entregam à tentação de logo recorrer à imprensa, sem um dia de atraso. [...]

Enquanto a imprensa disseminava muitas das descobertas, os sacerdotes e párocos se sentiam tentados a impedi-los. Os líderes religiosos opunham-se ou mostravam-se extremamente desconfiados com várias ideias revolucionárias da ciência. A própria ideia de que as leis da natureza, até então desconhecidas, agiam no universo e que leis semelhantes poderia ser encontradas agindo sobre os seres humanos, assim como no mundo físico, era um perigo em potencial para a religião que pregava que Deus, soberano em sabedoria e em conhecimento, presidia sobre cada canto do mundo e, portanto, podia suspender qualquer lei da natureza e operar milagres. [...]

A revolução científica foi um avanço maravilhoso na forma em que o mundo era visto. Antes de 1550, enquanto o trabalhador com prática em metais foi responsável por avanços tais como o relógio mecânico e a imprensa, foi o trabalhador com prática em vidro que facilitou descobertas futuras como o microscópio e o telescópio. O vidro tornou-se o olho transplantado do cientista possibilitando ver o invisível.

Os antigos egípcios produziram os primeiros recipientes de vidro, ocos por dentro. Os sírios, por volta de 200 a.C., inventaram o maçarico para soprar vidro, dando-lhes o formato de recipientes arredondados e com paredes finas. Os romanos manufaturavam um vidro rudimentar, normalmente um pouco turvo, mas que quando bem trabalhado era transparente o suficiente. Em Veneza, o Silicon Valley (ou Vale do Silício) de sua era, os antigos métodos romanos de fabricação de vidro foram aperfeiçoados. Os vidreiros de Veneza tornaram-se tão numerosos, e o fogo que queimava em seus locais de trabalho apresentava um perigo tão grande de se alastrar por em toda a cidade que, em 1291, o governo os deslocou para a ilha de Murano, próxima ao local. Os primeiros espelhos feitos com nítidez suficiente foram produzidos em Veneza, por volta de 1500, e os habitantes dessa cidade mantiveram em segredo seu novo processo de manufatura por mais de 150 anos. Os espelhos fizeram o máximo que puderam para realçar a reputação de Veneza como o lar do luxo, da vaidade e, talvez, dos produtos femininos imorais: uma reputação já criada pelas luvas e leques de Veneza, e os calções bordados de Veneza, peças bem justas do vestuário usadas para encobrir as pernas.

Uma revolução da ciência também se encontrava nas mãos dos vidreiros. O poder que o vidro curvo tem de aumentar os objetos observados já era conhecido mesmo antes da civilização grega: mas, lentes de vidro específicas para uso em óculos e como lentes de leitura só foram inventadas por volta de 1300. Óculos preservados no Deutsches Museum, em Munique, datam de 50 anos depois, e já era possível que os médicos, exercendo sua penosa obrigação durante a Peste Negra, colocassem seus óculos para examinar de perto a pele e a língua das vítimas. Quando os livros impressos entraram na moda, a demanda por óculos aumentou, principalmente entre homens e mulheres que desejavam ler sob a luz fraca do inverno do norte da Europa.

O poder esplêndido do vidro foi drasticamente revelado na cidade litorânea de Middelburg, na Holanda. Em 1608, Hans Lippershey, um fabricante de óculos, começou a construir telescópios de bastante utilidade. Para o espanto daqueles que empregavam o telescópio, eles podiam ver claramente uma pessoa a 3 quilômetros de distância. A ideia, mas não o telescópio, chegou a Galileu Galilei, que ensinava matemática em Pádua, no norte da Itália. Fazendo sua própria versão do que ele chamou de "vidro espião", maravilhou-se ao descobrir que podia aumentar a imagem em três vezes. Moendo suas próprias lentes de vidro, ele conseguiu uma proporção de aumento de 8 vezes e, depois, 32 vezes. Na cidade próxima de Veneza, mercadores e donos de navios levaram o excitante telescópio para o alto das torres e, olhando para o mar, puderam ver navios que antes eram invisíveis a olho nu.

O telescópio melhorado de Galileu estava alcançando no céu o que Colombo e Magalhães fizeram ao navegar pelos mares. Ele estava mapeando novos mundos. Através de seus telescópios, feitos principalmente de vidro de Veneza, Galileu inspecionou a lua, a qual descreveu como "a visão mais bonita e mais prazerosa que existe". Detectou também o que ninguém havia visto antes, as crateras da lua e sua superfície acidentada. Foi ele quem primeiro viu as manchas do sol e descobriu que a Via Láctea consistia de estrelas.

Fólio de Galileu, onde retrata as fases da Lua

Ele também chegou à mesma conclusão de Copérnico: a terra não era o centro do universo a quem quase todos os corpos celestes faziam a corte. Essa visão trouxe profundas implicações para certas frases do Antigo Testamento que Galileu denunciou como sendo escritas pelos ignorantes para os ignorantes. A igreja ergueu sua mão ao alto contra ele, em 1616, e ergueu ainda mais após ele ter persistido em suas teorias. Galileu passou os últimos oito anos de sua vida sob prisão domiciliar em sua pequena fazenda perto de Florença.

Ao telescópio, os vidreiros holandeses e italianos acrescentaram o microscópio. Anton van Leeuvenhoek, que vendia materiais de costura e roupas na cidade holandesa de Delft, tornou-se um mestre na fabricação de microscópios. Com uma ampliação de pelo menos 270 vezes, seus microscópios viam mais do que jamais tinha sido visto pelos olhos humanos. Em 1667, pela primeira vez, ele descreveu com precisão um espermatozóide e as células vermelhas do sangue. Seu microscópio possibilitou quebrar vários velhos mitos: que a pulga nascia da areia e que a enguia era chocada pelo orvalho. Enquanto isso, na Inglaterra, Robert Hooke, enquanto olhava os tecidos das plantas ao microscópio, inventou uma palavra fundamental: "célula". Na época, ainda não se sabia que todas as plantas e animais consistiam de células.

O microscópio abriu os olhos da botânica e da zoologia. Exatamente na mesma época em que a exploração de novas terras multiplicava as plantas e animais conhecidos, o botânico e físico sueco, Carolus Linnaeus, ou Lineu, aperfeiçoou seu método que, em breve, tornou-se o método de todo o mundo, o de classificar todas as coisas vivas, dando-lhes dois nomes em latim, um especificando o gênero mais amplo e o outro, a espécie em particular.

O que Lineu fez pela classificação de plantas, outros cientistas, ao sul dos Alpes, alcançaram na classificação do tempo. A reforma do calendário foi um processo vagaroso. No auge de Roma, Júlio César e seus consultores haviam reformado o calendário, abandonando o ciclo da lua e voltando ao ano solar. O ano solar se estendia por 365 dias, cinco horas e 48 minutos e três quartos, mas as horas que sobravam criavam uma dificuldade para o novo calendário. Júlio César adotou uma solução conciliatória sensata. Seu calendário, mais tarde chamado de juliano em sua homenagem, admitia, por questão de simplicidade, que o sol completava seu percurso anual em 365 dias e um quarto. Dessa maneira, o ano somava 365 dias para cada primeiro, segundo e terceiro ano, e 366 dias para cada quarto ano, ou ano bissexto.

César morreu bem antes de a dificuldade inerente de seu calendário se tornar proeminente. O fato estranho era que seu calendário, a cada século consecutivo, atrasava um pouco. Na verdade, a cada ano, o calendário perdia 11 minutos e em seus 1000 anos iniciais, ele perdeu aproximadamente 7 dias. Interferia, também, com a determinação do Domingo de Páscoa, um evento desconhecido da época de Júlio César, mas que veio a ter profunda importância mais tarde.

Finalmente, em 1582, o Papa Gregório XIII agiu decisivamente. Usando os cálculos do astrônomo e médico de Nápoles, Luigi Guiraldi, o papa anunciou sua solução. Exatamente naquele ano, ele eliminaria os 10 dias que iam de 5 a 14 de outubro. Em suma, o calendário seria atualizado com o risco da pena de uma caneta. O futuro também seria controlado com a mesma decisão. Como corretivo a longo prazo, o calendário gregoriano adotou o ano bissexto em 1600 e em 2000, porém não nos anos intermediários de 1700, 1800 e 1900.

Aqueles que viviam na Espanha, Portugal e Itália iriam discutir por muito tempo o memorável outubro de 1582. Dez dias, para seu espanto, simplesmente desapareceram de sua vida. Alguns meses depois, a França e vários estados católicos da Alemanha perderam seus 10 dias. Os países protestantes, no entanto, não tinham certeza se deveriam seguir uma reforma iniciada por um papa. A Inglaterra continuou a seguir seu calendário diferente do que prevalecia na França e Espanha católica. Quando chegou o dia de Natal na Inglaterra, já era janeiro do outro lado do Canal da Mancha. Na Alemanha, somente duas cidades, a poucos quilômetros uma da outra, seguiam um calendário diferente, baseadas no fato de estarem situadas num estado católico ou luterano.

Quando a Inglaterra finalmente adotou esse novo calendário, onze dias não vividos tiveram de ser apagados. Assim, em 1752, seu calendário pulou durante a noite de 2 de setembro para 14 de setembro, uma mudança que causou desordem em muitos cantos e consternação em outros. Em Londres, uma multidão sob um estado compreensível de confusão pôde ser ouvida gritando: "Devolvam-nos nossos onze dias". A Rússia e várias outras nações da igreja oriental ou ortodoxa continuaram a seguir o antigo calendário. A Rússia acabou esperando até o ano de sua revolução comunista, em 1917, para adotar o que o papa e a Itália haviam começado mais de três séculos antes.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do mundo. São Paulo: Fundamento Educacional, 2004. p. 164-169.

sábado, 17 de março de 2012

O fenômeno 2012

Tempestades solares, inversão dos pólos magnéticos da Terra, erupção de um supervulcão, cataclismo planetário... Entenda como o mercado da catástrofe transformou uma data ritual maia em sinônimo de fim dos tempos

por Bruno Fiuza

Descoberta em 1790 na Cidade do México, a Pedra do Sol é uma representação da doutrina das Eras do Mundo que os astecas herdaram dos maias.

Assim como aconteceu por volta do ano 1000, a chegada do terceiro milênio foi acompanhada pela proliferação de profecias escatológicas. Agora, porém, os supostos presságios de cataclismo não vêm da tradição cristã, mas de uma antiga civilização que surgiu em meio às florestas tropicais da América Central e viveu seu período de apogeu entre os séculos II e IX: os maias.

Para esse povo, o ano de 2012 marca o fim de um ciclo de 5.125,36 anos de seu calendário. Segundo a tradição maia, ao fim de cada ciclo a humanidade entra em uma nova era [...].

O sistema de Conta Longa do calendário maia foi utilizado por séculos, até desaparecer após a decadência dos centros de poder do Período Clássico, no século IX. No entanto, cerca de mil anos mais tarde os boatos da existência de uma civilização perdida nas florestas do sul do México despertaram o interesse de exploradores modernos como o mexicano Antonio del Rio, o francês Jean-Frédéric Maximilien de Waldeck, o americano John Lloyd Stephens e o inglês Frederick Catherwood. Entre as décadas de 1820 e 1840 eles localizaram as primeiras ruínas de cidades maias e, com elas, os vestígios dos sistemas de escrita e de calendário dessa civilização.

Inspirado por essas descobertas, na década de 1880 o pesquisador inglês Alfred Maudslay fotografou os glifos gravados nas ruínas localizadas até então. Ao analisar essas imagens, o americano Joseph Goodman identificou o funcionamento do calendário maia. Na mesma época, o alemão Ernst Förstemann chegava a conclusões semelhantes ao estudar textos maias reunidos no Códice de Dresden.

Em 1905, Goodman apresentou um modelo de correlação entre as datas da Conta Longa do calendário maia e as do calendário gregoriano. Sua teoria foi complementada pelo antropólogo mexicano Martinez Hernández e pelo arqueólogo inglês J. Eric S. Thompson na década de 1920. O trabalho combinado dos três deu origem à fórmula usada atualmente para converter as datas da Conta Longa do calendário maia para o calendário gregoriano.

As analisar essas datas à luz da cosmologia maia, os pesquisadores chegaram a uma constatação para esse povo, a história do mundo se dividia em eras de 5.125,36 anos, e cada vez que um desses ciclos terminava nosso planeta passava por um período de intensa renovação, quando começava uma nova etapa para a humanidade.

Como a Longa Data do calendário maia era extremamente precisa e informava que a era atual havia começado em 11 de agosto de 3114 a.C., o arqueólogo americano Michael Coe calculou que o atual ciclo terminaria em 24 de dezembro de 2011. Coe publicou essa data final em seu livro Os maias, de 1966, mas pesquisas posteriores demonstraram que a conta estava errada. O equívoco foi corrigido nas edições seguintes da obra, e hoje a data mais aceita para o fim do ciclo é 21 de dezembro de 2012.

Até esse momento, o calendário maia era um assunto restrito a pesquisadores especializados, mas no início da década de 1970 ocorreu uma mudança que transformaria 2012 em um fenômeno de massas, como explica o pesquisador americano John Major Jenkins em seu livro 2012 - A história. Nessa época, dois escritores americanos viram nas traduções místicas dos povos ancestrais do México um antídoto para os males da civilização industrial moderna.

O primeiro foi Tony Sheaner, jornalista de Denver que no fim da década de 1960 largou tudo para viver no México. No início dos anos 1970 ele publicou dois livros em que relacionou a cosmologia e os ciclos de calendário utilizados pelos astecas para formular uma teoria segundo a qual a humanidade estaria vivendo os últimos momentos de um ciclo que terminaria em 1987. Nessa data que se batizou de Convergência Harmônica, o planeta passaria por um renascimento espiritual que marcaria o início de uma nova era.

O segundo foi Frank Waters, que em 1975 publicou um livro no qual estudou o significado místico da Conta Longa do calendário maia. Segundo Waters, os ciclos de 5.125,36 anos se baseariam em cálculos astronômicos e astrológicos e estariam ligados a uma doutrina de Eras do Mundo. Por ter sido o primeiro autor a tratar o fim de um ciclo do calendário maia como um marco de transformação espiritual, Jenkins afirma que Waters "pode ser considerado o homem que desencadeou o fenômeno 2012".

Inspirado por essas descobertas, o escritor americano José Arguelles organizou um grande evento para celebrar a Convergência Harmônica que Sheaner havia previsto para 1987. Nesse mesmo ano, Arguelles publicou um livro chamado O fator maia, no qual apresentou sua própria interpretação espiritual dos ciclos de Conta Longa. Segundo ele, 2012 seria uma nova Convergência Harmônica, que provocaria uma grande transformação espiritual na Terra.

Graças ao sucesso do livro e da Convergência Harmônica de 1987, Arguelles se tornou o líder de movimento que se propunha a adotar o calendário maia e viver de acordo com seus princípios. Em 1991, o escritor desenvolveu um sistema de contagem de tempo batizado de Dreamspell, que ele inicialmente apresentou como uma versão moderna do próprio calendário maia, mas que tinha diferenças importantes em relação à contagem de dias tradicional desse povo.

* A invenção da catástrofe. O movimento criado por Arguelles transformou o calendário maia em um fenômeno pop, mas ele mesmo não via 2012 como o fim do mundo. As teorias que associavam o fim do atual ciclo a cenários catastróficos ganharam força a partir da década de 1990.

Em 1995, o engenheiro e cientista Maurice Cotterell e o escritor Adrian Gilbert publicaram o livro As profecias maias, que apresenta a teoria desenvolvida por Cotterell segundo a qual os ciclos de Conta Longa do calendário maia estariam relacionados a ciclos de atividade solar. Segundo o cientista, o fim da era atual em 2012 coincidiria com um enorme aumento das explosões no interior do Sol, quando o astro envia nuvens de prótons e elétrons em direção à Terra que poderiam inverter os pólos magnéticos do planeta.

Cotterell não apresenta nenhuma evidência concreta tirada da cultura maia que respalde sua tese, mas o sucesso comercial de As profecias maias popularizou essas ideias. Algumas foram retomadas pelo escritor americano Lawrence Joseph no livro Apocalipse 2012, publicado em 2004. Joseph se baseia na teoria do pico da atividade solar em 2012 e acrescenta alguns elementos à fórmula: segundo ele, o fenômeno poderia ser acompanhado por megarrajadas de radiação com potencial para acabar com a vida em nosso mundo, provocar a inversão dos pólos magnéticos da Terra e aquecer o núcleo do planeta a tal ponto que um supervulcão localizado sob o Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, entraria em erupção.

Por causa dessas teorias absurdas, sem nenhuma ligação com o antigo pensamento maia, o estudo do significado de 2012 para essa civilização foi praticamente descartado pelos pesquisadores acadêmicos. Muitos especialistas afirmam que os maias nunca fizeram nenhuma menção a 2012 e que tudo não passaria  de uma grande invenção moderna.

[...]

Bruno Fiuza. O fenômeno 2012. In: Revista História Viva. Ano IX, n. 99. p. 46, 48-49.