"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 18 de fevereiro de 2017

Império Mongol: uma grande ponte entre a Europa e a Ásia

Batalha entre mongóis e chineses, Rashid al-Din

O incrível Império Mongol formou-se à custa de terríveis destruições. E, no entanto, reinava aí o que se chamava de "paz mongol". Os comerciantes, as caravanas e os viajantes como Marco Polo, circulavam, sem serem atacados, através da rota da seda. Missionários cristãos atravessaram a Ásia sem problemas, porque os mongóis respeitavam a religião dos outros.

Temudjin tinha mandado redigir um código de leis, baseado nos costumes dos nómadas, introduziu nele regras de justiça e recomendava a honestidade, a fidelidade, a hospitalidade e o respeito pelos pais. No império assim unificado, as populações misturaram-se, os saberes trocaram-se do mar da China ao mar Mediterrâneo.

O Império Mongol é um exemplo único na história do homem, de um imenso Estado conquistado e governado por nómadas.

CITRON, Suzanne. A história dos homens. Lisboa: Terramar, 1999. p. 101-2.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O mundo bárbaro: o fim do Império Romano

Invasão dos bárbaros ou Os hunos se aproximando de Roma, Ulpiano Checa

"Repara com que surpresa repentina a morte pesou sobre o mundo inteiro, quando a violência da guerra abateu os povos. Nem o solo rude dos matagais espessos ou das altas montanhas, nem a corrente dos rios, em seus turbilhões rápidos, nem o abrigo que a Natureza proporcionou as cidadelas, os muros, às cidades, nem a barreira formada pelo mar, nem as tristes solidões do deserto, nem as gargantas, nem mesmo as cavernas, sobre os quais pendem sombrios rochedos, puderam escapar às mãos dos bárbaros.

[...] Mas, que aproveita contar a morte de um mundo que desmorona, seguindo a lei ordinária de tudo o que perece? Que aproveita relembrar o número dos que morrem por todo o Universo, quanto tu mesmo vês teu último dia chegar a grandes passos? Quantos males podem causar as espadas, os edifícios que desmoronam, o fogo, o veneno, as torrentes de água? Quanta gente leva a perecer as guerras, a fome, o desencadear das epidemias, a morte, enfim, que, por caminhos diversos se apresenta igual para todos! [...] Em uma corrida [...] nossa vida termina faz precipitarem-se nossos últimos dias."

As palavras anteriores são da autoria de Orêncio, sacerdote e escritor romano, que viveu no século V. Não lhe parece que as palavras estão cheias de angústia e de insegurança? São elas o reflexo da crise, que muitos então viviam. Era o fim de uma época, destruída por forças que não se detiveram diante de nada. Nem obstáculos naturais, nem barreiras levantadas pelos homens do moribundo Mundo Romano conseguiram deter os invasores.

Estes invasores eram os povos bárbaros, como os romanos chamavam os germanos [...].


"As escassas informações existentes sobre os germanos primitivos chegaram até nós através do historiador romano Tácito e de achados arqueológicos, como desenhos em cavernas, gravuras em pedra, utensílios, armas, vestimentas." (HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 125)

"Sua ferocidade supera tudo. Por meio de um ferro, marcam com profundas cicatrizes as faces dos recém-nascidos [...] Têm um corpo grosso, os membros robustos, a nuca espessa. Suas espáduas largas tornam-nos assustadores [...] Os hunos não cozinham, nem temperam o que comem. Nutrem-se apenas de raízes silvestres ou de carne crua do primeiro animal que aparece [...] Entre eles não se usam casa, nem tampouco túmulos. Não encontraríamos nem mesmo uma cabana [...] Cobrem-se de um linho ou de peles de ratazanas do mato, cozidas entre si. Não possuem veste interior, nem roupa para visita. Uma vez que enfiaram a túnica de uma cor desbotada, não a deixam mais, até que ela caia de velha. Cobrem a cabeça com chapéus de abas caídas. Envolvem-se em peles de cabra as peludas pernas [...] A cavalo, dia e noite, é de lá que negociam suas compras e vendas. Não põem pé em terra, nem para comer nem para beber. Dormem reclinados sobre o magro pescoço de sua cavalgadura, onde sonham bem à vontade."

Que sensação lhe provocou a leitura do texto anterior, escrito, em fins do século IV, por Amiano Marcelino, historiador romano? Que sentiria você, se tivesse de enfrentar esse povo que, em seus velozes cavalos, avançava contra sua cidade?

É provável que também fosse tomado pelo mesmo terror vivido pelos romanos, quando souberam da aproximação ameaçadora dos hunos.

De onde vinham esses temíveis cavaleiros? Aos milhares, haviam partido de regiões da Ásia, fronteiriças à China, e iniciado uma caminhada que os levou à Europa. Vivendo da criação de cavalos e da pilhagem, eram nômades bastante primitivos.

Quando chegaram às terras da Europa Oriental, a crueldade dos hunos e a devastação por eles provocada acarretaram um grande deslocamento de povos. Fugindo dos hunos, germanos empurraram-se uns aos outros, acabando por invadir as fronteiras do Império Romano (século IV).

Aos milhares, os visigodos atravessaram o Rio Danúbio, acreditando que estariam protegidos no interior do Império. Com as autoridades romanas fizeram um acordo: protegeriam as fronteiras contra outros invasores, recebendo em troca alimentos, terras e uma elevada soma em dinheiro. Tornaram-se então, federados do Império, prática utilizada, desde o século III, pelos Imperadores romanos: como as legiões romanas eram insuficientes para guarnecer as fronteiras, faziam um tratado (foedus) com um chefe bárbaro, tornando-o aliado ou federado.

Como as autoridades romanas não respeitaram os compromissos assumidos, os visigodos revoltaram-se. Começaram a saquear as cidades dos Bálcãs. O Exército Romano, que tentou contê-los, foi derrotado em Andrinopla (378).

Em 406, vândalos, alanos e servos, em número não calculado, cruzaram o Rio Reno e invadiram a Gália. Também fugiam dos hunos, mas provocaram o pânico e a destruição por onde passaram. Enquanto os suevos e os alanos permaneceram na Península Ibérica como federados, os vândalos deslocaram-se para o Norte da África, onde fundaram seu Reino.

A desagregação do Império Romano acelerou-se com novas invasões:

* os borgúndios também ultrapassaram o Reno e se localizaram a Leste da Gália;
* os saxões e anglos atravessaram o Canal da Mancha e dominaram a Bretanha (atual Inglaterra).

Em meio à crise provocada por tantas devastações, pareceu a muitos habitantes do Império que o fim do mundo estava próximo. E o temor aumentou, quando se espalhou a notícia de que Roma, a antiga capital, fora saqueada pelos visigodos.

O depoimento de São Jerônimo [...] revela o desespero causado pelo ataque a Roma.

"Chega-nos do Ocidente um rumor aterrador, Roma é atacada. Os cidadãos resgatam a vida a preço de ouro [...] Depois de terem perdido seus bens, ainda é preciso que percam a vida. Minha voz se estrangula e as convulsões me interrompem, enquanto dito estas palavras. É conquistada a cidade que conquistou o Universo."

Prosseguindo seu avanço devastador, os visigodos abandonaram a arruinada Península Italiana, invadiram e pilharam a Gália, indo fixar-se na Península Ibérica, onde já viviam alanos e suevos.

Parecia que a paz retornara ao Ocidente.

"A ilusão logo se desfez, pois os hunos, chefiados por Átila (439-453), retiraram-se de terras da atual Hungria, devastaram os Bálcãs e, em troca de elevada soma em dinheiro, renunciaram a atacar Constantinopla. Em 451, invadiram a Gália, destruindo tudo, até serem derrotados na batalha de Campos Mauríacos [...] Para deter os hunos, formara-se uma força militar heterogênea composta de legiões romanas e de contingentes de francos, borgúndios, visigodos, saxões e alanos."

Obrigados a se retirarem da Gália, os hunos voltaram-se contra a Península Italiana, assaltando, incendiando e destruindo cidades, escravizando e massacrando populações. Chamado de Flagelo de Deus, Átila liderou seus terríveis guerreiros para mais um saque de Roma. Embora sua carroças estivessem carregadas de riquezas pilhadas, a fome e a peste vitimaram os hunos, que renunciaram ao saque de Roma e se comprometeram a retirar-se da península; recebendo, em troca, vultoso tributo pago pelo Papa Leão Magno (452). No ano seguinte, com a morte de Átila, os hunos se dispersaram ao nomadismo pastoril.

Durante o século V, a desagregação do Império Romano prosseguiu, em meio às destruições causadas pela guerra e pela formação dos Reinos Bárbaros. Na própria Itália, os hérulos, chefiados por Odoacro, depuseram o Imperador Rômulo Augústulo, fato que, no entender de diversos historiadores, marcou o início da Idade Média (476).

Leia o depoimento de Salviano, monge do século V, sobre o fim do Império Romano do Ocidente, atribuindo a queda de Roma a um castigo divino:

"Já que quase todas as nações bárbaras beberam sangue romano e rasgaram nossas entranhas, por que será que nosso Deus entregou o mais poderoso dos Estados e o povo mais rico, que leva nome de romano, ao forte domínio de inimigos, que eram tão fracos? Por quê?

[...] Os acontecimentos provam o julgamento de Deus sobre nós e sobre os godos e os vândalos. Eles aumentam dia a dia; nós descemos cada dia mais. Eles prosperam; nós somos humilhados. Eles florescem; nós fenecemos.

[...] Eu desejaria, se a fraqueza humana permitisse, gritar além de minhas forças, a fim de ser ouvido no mundo inteiro: Ó cidadãos romanos, tende vergonha; tende vergonha de vossas vidas! Poucas cidades estão livres dos antros de perdição, estão totalmente livres de impurezas, exceto as cidades habitadas pelos bárbaros [...] Não é o vigor natural de seus corpos que os capacita a conquistar-nos, nem foi a nossa fraqueza natural a causa de nossa derrota. Que ninguém se convença do contrário. Que ninguém pense de outra maneira. Fomos derrotados, exclusivamente, pelos vícios de nossa vida má."

Os hérulos, no entanto, logo perderam o domínio de Roma e da Itália para novos invasores: os ostrogodos, que organizaram seu Reino na Península Italiana.

Começavam novos tempos...

AQUINO, Rubim Santos Leão de. [et alli]. Fazendo a História: Da Pré-História ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 106-9.
HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 125)

sábado, 7 de março de 2015

O Magreb: O Marrocos independente

Dia de mercado fora dos muros de Tânger, Louis Comfort Tiffany

No extremo do mundo muçulmano, um tanto isolado pelas cadeias do Atlas, o Marrocos vivia à parte, submetido, não obstante, às vicissitudes do Islã mediterrânico. O Marrocos era particularmente sensível aos progressos dos cristãos. O acordo com os espanhóis em 1479 deixara aos portugueses o direito exclusivo sobre as costas da África, diante das Canárias. Os portugueses se haviam apoderado de Tânger, de Santa Cruz do Cabo de Suez (Agadir, 1504), de Safi (1508). Partindo de suas praças-fortes, realizavam incursões pelo interior e avançavam até Marráquexe. Havia tribos mouras a eles submetidas e encarregadas de seu reabastecimento em cereais. Em 1497, os espanhóis obtiveram dos portugueses a autorização de ocupar Melilha.

Este recuo do Islã provocou especial ressentimento no Marrocos, onde era intensa a vida religiosa. [...] Tal mundo encontrava-se extraordinariamente excitado e exercia grande influência sobre os fiéis a quem os chefes de zaúias ou xeques enviavam palavras de ordem.

O ódio dos sufis contra os cristãos orientava-se contra a dinastia watasida, incapaz de impedir os progressos dos infiéis, de tranquilizar o espírito dos muçulmanos por meio do corpo oficial dos ulemás. Os xeques sustentaram, contra os Watasidas, todas as revoltas de pretendentes, sendo estas apoiadas, ainda, pelos montanheses berberes insubmissos.

Coube ao Sul desempenhar o papel essencial. Os nômades lançaram-se sobre o Marrocos numa guerra santa. [...]

A dinastia atingiu o seu apogeu quando Ahmed Almansur (o Vitorioso) esmagou a cruzada portuguesa em Alcácer-Quebir (1578). [...]

Almansur manteve relações com a Europa. Na sua corte encontravam-se artesãos europeus, financistas judeus, negociantes cristãos. No seu exército eram numerosos os renegados espanhóis. [...]

Almansur localizara sua capital em Marráquexe, na porta do deserto, para melhor controlar os nômades. Queria conquistar o Sudão, a região do ouro, e criar um vasto império ligado pelas rotas saarianas [...].

[...]

A dinastia sadiana desaparece em 1654, depois que oito sultões, num total de onze, morreram assassinados. As tribos dos nômades e caravaneiros e os grupos de zaúias do Sul, mais intransigentes em matéria de fé, disputaram entre si o Marrocos. [...] Criou-se a dinastia alauita. [...]

O Marrocos, assim, conseguiu estabilizar a situação do Islã frente à civilização cristã no noroeste da África. [...]

MOUSNIER, Roland. Os Séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 192-193 e 195. (História geral das civilizações, v. 10).

quinta-feira, 5 de março de 2015

O Magreb: O Estado argelino

Jovens senhoras no terraço em Tânger, Rudolf Ernst

O Estado argelino era governado por um beilerbei designado pelo sultão e suserano dos paxás de Túnis e Trípoli. A partir de 1587, o beilerbei foi substituído por um paxá, constituindo-se Argel, Túnis e Trípoli em Regências. [...] Na realidade, os delegados dos janízaros e dos corsários exerceram o Governo após 1587. [...]

[...] Como o próprio Império Otomano, estas distantes províncias do Magreb foram dirigidas por uma empresa militar de escravos e renegados que exploravam os [...] vencidos. Os "turcos", efetivamente, conquistaram a Argélia, colocaram guarnições nos pontos estratégicos [...]. Os mouros das cidades eram excluídos das funções e do serviço militar, reservados aos turcos de raça ou de "profissão". Frequentemente aliaram-se aos nômades vencidos, aos marabus e aos fanáticos do Islã.

Argel desenvolveu-se. Em meados do século XVI, a cidade contava 60.000 habitantes, renegados na maioria, mais 25.000 cativos cristãos. Em 1650, ultrapassava 100.000 habitantes com 25 a 35.000 cativos. O século XVII foi a idade de ouro do corso, pois os argelinos tiveram a habilidade de acrescentar navios de alto bordo às suas galeras. Em 1615-1616, as presas ultrapassaram 2 a 3 milhões de libras. Os escravos eram objeto do comércio mais lucrativo. Particularmente procurados eram as moças e os rapazes, "cuja sorte era fatal", e os trabalhadores especializados em construção de navios, nos trabalhos portuários e na artilharia. [...] O comércio era ativo. Mercadores europeus instalavam-se duradouramente mediante o pagamento de uma licença à Regência e de direitos de saída. Predominavam os judeus e os marselheses. Após 1685, sofreram a concorrência dos protestantes refugiados do Languedoc. Os europeus exportavam couros, cera, lã, tâmaras, plumas de avestruz, coral, cereais e, de Túnis, esponjas. Importavam armas, vinho e telas. Mas, quando as presas diminuíam, tornava-se necessária a elevação dos impostos, o que provocava perturbações. [...]

Em Argel, bem como em Túnis, encontravam-se entre os corsários as faianças de Delft, os mármores esculpidos da Itália, as sedas e os veludos de Lião e Gênova, os vidros de Veneza, os cristais da Boêmia, as pêndulas da Inglaterra. Os benefícios da pirataria multiplicavam as mesquitas e as fundações pias.

MOUSNIER, Roland. Os Séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 190-192. (História geral das civilizações, v. 10).

terça-feira, 3 de março de 2015

O Magreb: As dependências turcas da Argélia e da Tunísia

Escrava nua com tamborim, Frank Buchser

No fim do século XV, por razões análogas às que mais tarde causariam o declínio do Império Otomano, o reino muçulmano do Magreb estava em plena decomposição. [...] Os portos correspondiam a outras tantas Repúblicas organizadas para o corso [...]. Os corsários, soldados da guerra santa contra os cristãos, pilhavam as costas, atacavam os navios, reabasteciam os mouros. Os espanhóis temiam uma coligação entre o Sultão egípcio e os soberanos do Magreb para auxiliar os mouros da Espanha. Os de Granada já haviam sublevado em 1501.

Para suprimir a ameaça que pesava sobre suas comunicações na bacia ocidental do Mediterrâneo, bem como os riscos de desembarque, para garantir a posse das bases necessárias às suas galeras ou a cabotagem que lhes é imposta, os espanhóis lançaram uma cruzada. Sucessivamente, tomaram Mers-el-Quebir (1505), Orã (1509), Bugia (1510), o Penon (Argel) e vários chefes passaram a pagar-lhes tributo. Mas os negócios da Espanha obrigavam-nos a contentar-se com uma ocupação restrita. [...]

Os muçulmanos solicitaram a ajuda de corsários instalados em Djidjeli, os quatro irmãos Barba-Ruiva. Em 1516, Arrudji Barba-Ruiva assenhoreou-se de Argel e encetou a submissão do interior. [...] seu irmão Khair-ed-Din Barba-Ruiva continuou sua obra e fundou a Regência de Argel. Para triunfar dos espanhóis e dos vencidos muçulmanos que procuravam a libertação, prestou homenagem ao sultão Selim [...].

Sufocou uma conspiração dos argelinos e das tribos, tomou Collo, Bona (1522), logo depois o Penon, constituiu em Argel, onde os corsários até então puxavam suas barcas para a areia, um porto que se transformou na principal base dos turcos, cômodo bastante para vigiar e interceptar as rotas do estreito de Gibraltar ao Mediterrâneo oriental, da Espanha do Sul para a Itália meridional e da Sicília. [...]

MOUSNIER, Roland. Os Séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 189-90. (História geral das civilizações, v. 10.)

domingo, 1 de março de 2015

O Magreb: A maré dos nômades

Loja de ferreiro em Tânger, Edwin Lord Weeks

Durante os séculos XVI e XVII em todo o Magreb, desde o golfo de Gabes até o Atlântico, espalham-se, ao que parece, os nômades da fé. Foi, certamente, o progresso dos cristãos que provocou esta reação do Islã. Os nômades estariam sendo prejudicados pelo declínio do tráfico das caravanas saarianas, pois os portugueses, e em seguida seus sucessores holandeses, ingleses e franceses, haviam desviado para as costas da África negra o ouro e os escravos. Os nômades são atingidos pelas incursões de pilhagem das guarnições europeias lançadas sobre as costas e, talvez, pelas culturas de cereais destinadas ao comércio com os cristãos. Todo o mal provém dos detestados Rumis. O ódio religioso é atiçado nos centros religiosos dos oásis do sul, longe da corrupção das cidades costeiras, pelos santos marabus secundados por milhares de mouros espanhóis refugiados. E o ódio religioso dirige-se primeiramente contra os citadinos, os sultões e os corsários, cuja prosperidade é uma injúria ao empobrecimento dos nômades e que, em certo sentido, poderiam ser acusados de pactuar com o infiel, pois concordam em entregar os cativos mediante resgate, em comerciar com os cristãos, em lançar mão de seus serviços. Na Argélia e na Tunísia, os nômades fracassam na luta contra a artilharia dos turcos. No Marrocos, periodicamente, uma dinastia do sul apodera-se do governo, sedentariza-o, é forçada, por sua vez, a pactuar com o cristão, resvala pelo harém e é seguida por outra que toma igual caminho.

MOUSNIER, Roland. Os Séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 188-9. (História geral das civilizações, v. 10).

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Características da civilização mongólica

Nenhuma civilização, talvez, submeteu-se, tanto como a dos mongóis aos imperativos da geografia e do clima. Seu habitat estépico sofre variações extremas de temperatura: uma breve primavera, um vento tórrido e dessecante, um inverno rigoroso e glacial; ventos furiosos varrem estas extensões onde não encontram qualquer obstáculo. Este clima brutal forja uma saúde inquebrantável e veda a sobrevivência dos fracos. Assim, a raça mongólica, quer a da estepe, quer a dos contrafortes florestais, é extremamente robusta. A rude existência dos caçadores, à horda da taiga, ou a dos pastores, em pleno coração das estepes, exige uma adaptação do físico: torso maciço e tórax desenvolvido sobre as pernas arqueadas pelo constante uso do cavalo; visão penetrante e grande agilidade. Todos são grandes devoradores de carne e consumidores de laticínios, e embebedam-se de bom grado. Joviais e bravos, mas capazes de inusitada crueldade, são amiúde inteligentes, astuciosos, suscetíveis mesmo de policiarem-se.


Arqueiro mongol, artista desconhecido. Miniatura chinesa da dinastia Ming, séculos XV-XVI.

A maioria das tribos são formadas de pastores. Ainda menos civilizados, e menosprezando também os pastores, os caçadores das florestas não possuem gado ou cavalos: vivem exclusivamente da caça e de alguns ofícios artesanais - carpinteiros, ferreiros. No inverno, calçam raquetas (tchana) de tábuas, apoiando-se em altos bastões a fim de caminhar os deslizar sobre a neve; outros, dotados de patins de osso polido, lançam-se sobre a neve endurecida ou sobre o gelo e capturam os animais na corrida. Suas cabanas de ramagem, recobertas de casca de bétula, são transportáveis, inteiramente montadas, em carros.

As tribos pastoris, conforme as variações do clima estépico e o estado das pastagens, são obrigados a periódicas transumâncias e à vida nômade. No inverno, os rebanhos descem para as estepes, onde faz menos frio, e aí permanecem durante a primavera, estação em que o pasto é melhor; no verão, tornam a subir os flancos das montanhas, onde os homens encontram um pouco de frescor e entram em contato com os habitantes das florestas. Em vista destes longos percursos, tudo, no acampamento, é concebido a fim de permitir fácil transporte. Os carros dispostos em círculo formam uma espécie de cercado. Permanecendo o mais das vezes totalmente armadas sobre os carros, as casas são de dois tipos: umas (ger) - impropriamente denominadas iurtas - feitas de feltro negro, em forma redonda, acham-se montadas sobre uma estrutura móvel de perchas e ripas, em torno de uma percha central, considerada sagrada; um pequeno tubo, fixo ao feltro, serve ao escapamento da fumaça e à ventilação. As outras (maican), largas e baixas, apresentam-se cobertas de lã, enquanto a tenda do chefe se distingue por sua cor branca ou "toda dourada".


Cavalaria mongol, artista desconhecido. Ilustração de manuscrito, século XV.

Os carros, de madeira, munidos de dois varais, transportam, além das provisões, um instrumental rudimentar de celhas de madeira, panelas, baldes de couro, odres e foles para o fogo. Cobrem-nos um berço estanque em feltro negro e, puxados por bois, rangem e solavancam ao longo das trilhas. Neles amontoam-se as famílias e os animais novos, demasiado débeis para que possam caminhar muito tempo. Atrás vêm os rebanhos, enquadrados por homens montados nos pequenos cavalos desgrenhados, munidos de uma sela de couro e tão vivos quanto os seus cavaleiros. Nos rebanhos, importunados pelas varejeiras, misturam-se cavalos de remonta e éguas, touros, bois e vacas, bodes domésticos, carneiros e ovelhas, e às vezes até camelos.

Como todos os nômades, os mongóis passam sem transição da fome à comezaina. Cada festa, cada acontecimento jubiloso é ocasião para um banquete. Nutrem-se de carne de cavalo e de carneiro, cozida ou assada, de leite coalhado (tarac), de alho e cebola, e de uma espécie de manteiga batida nas celhas com um pau parcialmente guarnecido de couro; em caso de escassez, cingem-se às sorvas, às bagas silvestres, às raízes comestíveis. Embriagam-se com leite de égua fermentado (cumiz), do qual sempre levam uma provisão, caso se distanciem por alguns dias. Para alimentar as fogueiras de acampamento, acesas com fuzil e mantidas com foles, usam esterco seco, espinheiras e raízes. À aproximação do inverno, abatem carneiros e constituem reservas de carne congelada; do mesmo modo, conservam o leite seco e reduzido a pó. Só as tribos que, como os markites, erram nas rotas das caravanas, conseguem farinha.


Um príncipe mongol estudando o Corão, ilustração de Rashid-ad-Din's Gami' at-tawarih. Tabriz. Século XIV.

Guerreiros, caçadores e pescadores, bem como pastores, manejam com destreza o arco e as flechas contidos num só envoltório de couro, análogo aos goritus dos citas, o sabre curvo, a lança de ferro. Desde a infância, fabricam arcos e flechas com madeira de pessegueiro ou zimbro e armam-se de pontas de osso ou madeira de cipreste. As mais temíveis são guarnecidas de uma ponta de ferro, que arranjam com os ferreiros das tribos das florestas e que untam às vezes de veneno. A caça é feita por meio de batidas em que se encurrala a presa antes de matá-la, ou de açores, gerifaltes e falcões, para caça de aves, ou de laço, para os cavalos selvagens, os hemionos (culan), os carneiros e os argalis, ou ainda mediante a perseguição a cavalo e com o arco, para os cervos, alces, antílopes e gamos. Sabem também desenterrar as marmotas (gerbos) com um instrumento de ferro, prender em armadilha os animais de pêlo, desencovar os ursos, pescar com rede os peixes dos lagos e dos rios; são auxiliados na caça como na guerra por cães famosos pela sua ferocidade. Acima do acampamento voam nuvens de pequenas gralhas; e em volta, durante a noite, rondam os lobos, os chacais e até os tigres.

Instalado o acampamento para o pouso noturno, a vigia organiza-se em torno de fogos de bivaque; os que velam jogam ganizes ou escutam os relatos que se transmitem oralmente ao longo das estepes. Quando da estação do estabelecimento, o acampamento transforma-se em "cidade"; constituem-no uma multidão de círculos de carros; as tendas são erguidas ao sol e orientadas para o sul; as do chefe e de suas mulheres, à parte das outras, compõem um palácio rudimentar ao qual são vinculados, além de numerosos servidores e escravos, um rebanho e pastagens próprias. Durante o repouso, os mongóis calandram o feltro, fabricam correias e cordas, selas e arreios, carcases e armas, vigamentos de madeira para as tendas e os carros, preparam enfim as peles e peliças.


Gengis Cã recebe embaixadores chineses, Jami' al-tawarikh, Rashid al-Din. Século XV

"O povo mongol cheira mal com suas roupas enegrecidas", confessa a História Secreta dos luan: é porque se cobre de peles e peliças, forrando os mais ricos, os seus casacos de inverno com zibelina, arminho, petit-gris ou raposa: e só depois da conquista da China vestem, na estação quente, a seda e o brocado. Os jovens de ambos os sexos conservam os cabelos longos, tapando os ouvidos. Tonsurados entre as duas orelhas, a parte frontal da cabeça rapada numa largura de três dedos, com uma franja de ambos os lados, os homens trançam seus cabelos e os prendem atrás da orelha, conservando sempre um topete que desce até os sobrolhos. As mulheres casadas embiocam-se com uma coifa de casca de árvore, da altura de dois pés chineses, que recobrem às vezes de um pano de lã ou, como sinal de opulência, de seda. O conjunto termina por uma longa cauda, que K'ieu ang-tch'uen (1221), compara a um ganso ou pato.

Sempre em estado de alerta para se defenderem dos animais selvagens ou das tribos vizinhas, estes audaciosos e ardilosos guerreiros espreitam a aproximação do vizinho que descobrem por uma nuvem de poeira no horizonte ou colando o ouvido ao solo. Agrupados em redor de seu estandarte de guerra (tuc), ao qual rendem culto e que os acompanha em todos os combates, são admiráveis cavaleiros, formando um todo com suas montarias, tão robustas como eles - contentam-se com a erva da estepe - , montarias que sabem poupar, mas às quais, no chicote, podem exigir o máximo esforço: o cavalo é o companheiro do homem, e os relatos mongólicos conferem-lhe uma verdadeira personalidade. Cobertos, em pé de guerra, de uma armadura de couro cozido, caindo como raio sobre os seus inimigos, não poupando a vida humana, os mongóis são também temíveis arqueiros, "os melhores que se conhece no mundo", nas palavras de Marco Polo. Suas tropas, perdidas na imensidão do deserto, são capazes de resistência invulgar, satisfazendo-se com leite de égua que bebem dos odres suspensos na sela, com bagos silvestres e caça abatida ao acaso no caminho, dormindo e velando a cavalo, cobrindo as rédeas soltas enormes distâncias. Se faltam os víveres, podem subsistir durante 10 dias, sugando o sangue de seus cavalos, nos quais abrem uma veia, tapada em seguida com estopa, ou diluindo e remexendo o pó de leite seco em um pouco de água.

Em caso de ataque de surpresa, entrincheiram-se atrás de seus carros dissimulados por moitas, ou fogem disparando sempre suas flechas, pois sabem voltar-se para a garupa de seus cavalos lançados a galope: tática terrificante que os citas e os partos já empregavam. Utilizam de bom grado os serviços de trânsfugas e espiões e vêem na guerra apenas uma oportunidade de matanças, raptos e rapinas. Os cativos sofrem bárbaros suplícios: só os que eles apreciam têm direito à morte por asfixia, sem efusão de sangue, pois acreditam que a alma reside no sangue. Salteadores, rapinantes e bandidos, como todos os nômades, travam entre si inexplicáveis vendetas, exterminando sem dó toda uma família, apoderando-se do gado, saqueando o material e queimando mesmo para sempre as pastagens dos clãs vizinhos. Como a presa da caça, o espólio de guerra é repartido entre os chefes, os oficiais e os guerreiros.

PERROY, Édouard. A Idade Média: o período da Europa feudal, do Islã turco e da Ásia Mongólica. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994. (História geral das civilizações, 7)

NOTA: O texto "Características da civilização mongólica" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 1 de julho de 2014

O passado do mundo nômade

Baskaks, Sergey Vasilyevich Ivanov

Desde a Antiguidade, hordas nômades circulavam na imensa zona das estepes que cobre uma importante porção da Eurásia. Seus idiomas ligavam-nos à família lingüística altaica ou turco-mongólica. Mas seu próprio habitat impunha há milênios um modo de vida pastoril que parecia estranhamente rudimentar ao lado das civilizações sedentárias que lhes eram contemporâneas. Eternamente atraídas pelos países cultivados que bordejam a estepe, suas tribos aglomeravam-se lentamente, contentando-se durante certo tempo em realizar nas vizinhanças brutais e fulminantes razias. Depois, bruscamente, todo um conjunto de hordas agrupava-se para uma terrificante invasão que provocava a fuga das populações agrícolas, cujas culturas, logo recaídas no baldio, eram usadas como pastos por nômades preocupados unicamente com suas montarias e rebanhos. Toda a história dos países vizinhos da estepe eurasiática é constituída destes vaivens – os nômades levando a estepe para o interior nas terras cultivadas, e os lavradores expandindo suas culturas até os limites da estepe. O nomadismo relativo das populações dos confins e a confusão das tribos nos terrenos de percurso facilitaram os contatos entre nômades e sedentários. Embora fiéis à rude existência de cavaleiros e pastores, os homens da estepe sentiam-se seduzidos pela opulência e o refinamento das civilizações evoluídas: e, embora encarniçando-se em destruí-las, alguns se deixaram ofuscar a ponto de se adaptar, como neste caso, à civilização sedentária: uns se achinesavam como os mongóis kitates, que se apoderaram no século X de uma parte da China do Norte e fixaram sua residência em Pequim; outros se iranizavam, tais como os turcos uigores que, convertidos ao maniqueísmo e iniciados nas letras, se tornaram os verdadeiros educadores dos demais estados turco-mongóis e recusaram voltar à vida nômade.

Para as grandes potências que julgaram de boa política solicitar sua ajuda ou que se viram constrangidas a tanto, foram às vezes aliados leais e mais frequentemente constituíram uma ameaça tão grave como persistente: especializados em ataques fulminantes, graças à rapidez de seus pequenos cavalos, deixando à retaguarda apenas ruínas e destruições totais, eram terríveis adversários. Não haviam conseguido ainda, por certo, tornar coesos seus agrupamentos de tribos disseminados na estepe. Mas fundaram uma série de fugazes impérios, em que se alternaram ao curso dos séculos a hegemonia turca e a hegemonia mongólica, e com freqüência os menos civilizados destruíam os reinos que os mais evoluídos construíam. Uma rápida recordação desta história, desde as grandes invasões do século IV, cujos prolongamentos atingiram a Europa com Átila e a Índia com Múracula, faz-se aqui necessária, ajudando a compreender não só a gênese, mas também a originalidade da obra de Gengis-Cã.


Batalha de Kulikovo. Artista desconhecido

No século VI, três grandes grupos desdobravam-se da China às bocas do Don: os juan-juan na Mongólia, da Mandchúria até Turfan; os hunos heftalitos, do norte da região Carachar a Merv, e do Aral ao Pendjab; os hunos da Europa, provavelmente de raça turca, em torno do Mar de Azov e da embocadura do Don. Mas, por volta de 550, os juan-juan e os heftalitos do Turquestão foram rechaçados pelos t’u-kieus, fundadores do primeiro império nômade de organização mais estável. É cerdade que os t’u-kiues se dividiram em dois reinos gêmeos, cujo território se estendia da Mandchúria ao Corassã; esta divisão, tanto quanto seu tradicional espírito de anarquia, determinou sua fraqueza. Os do Oeste tinham uma fronteira comum com a Pérsia sassânida, contra a qual Bizâncio solicitou seu auxílio. Mantiveram-se até que a poderosa dinastia chinesa dos t’ang, depois de esmagar seus irmãos da Mongólia (744), os sujeitou. Outro império turco substituiu-os, o dos uigures que, estabelecidos ao sul do Lago Baical, com Cara-balgassum como capital, dominaram igualmente, em torno de Turfan, parte do Turquestão. Transformados em sedentários, debilitados porque se tornavam doravante demasiado civilizados, os uigures foram por seu turno despojados de sua capital, em 840, pelos quirguises, turcos que permaneciam selvagens. Entrementes, os avaros sucederam aos hunos nas estepes russas e fixaram-se entre o Dniester e o Danúbio, enquanto no outro extremo das estepes, turcos achinesados, os cha-t’os, permabulavam nas cercanias de Ha-mi e, aproveitando o enfraquecimento dos t’ang, apoderaram-se do Nordeste da China (808). E, até cerca de 920, os quirguises, muito rudes, devolveram a Mongólia à barbárie, enquanto os uigures, apesar de sua debilidade, mantinham-se no Turquestão.

No início do século X, os quirguises foram por seu turno expulsos e aniquilados por outros bárbaros de raça mongólica, os kitates. Estes, que já haviam tentado há três séculos infiltrar-se em território chinês, mas tinham sido severamente rechaçados pelos t’ang, aproveitaram agora o desmoronamento do poderio chinês para penetrar, sob a direção de um chefe audacioso, o interior da Grande Muralha e para elevar ao trono imperial um general chinês que lhes comprara a proteção. Era o prelúdio de um estabelecimento mais maciço dos bárbaros na China, fato que possibilitaria a sua conquista pelas hordas. Pois a instalação dos kitates foi duradoura: estes se achinesaram, tomaram o nome chinês de kin (ouro) e, sem a menor perda de combatividade, inquietaram durante dois séculos as fronteiras da China do Sul. Sua história é, pois, assaz diferente da de seus contemporâneos magiares, os quais [...], alcançando a Europa Central no fim do século IX, empreenderam durante 60 anos incursões destruidoras, mas intermitentes, em diversas regiões do Ocidente cristão, antes de serem finalmente rechaçados para a planície danubiana, fixados ao solo e enfim cristalizados, servindo doravante de muralha da cristandade contra as últimas vagas das invasões nômades que refluíam sobre a Europa. Outros bárbaros, com efeito, acabavam de instalar-se entre o Volga e o Cáspio: nesta área, onde se encontravam mercadores bizantinos e árabes, compradores de peles, onde se asilaram também muitos judeus que fugiram das perseguições do imperador bizantino Romano Lacapena, os cazares converteram-se, segundo parece, ao judaísmo. Repelidos em 965 por um príncipe russo de Kiev e depois esmagados (1016) pelo Imperador Basílio II, só desapareceram da história em 1030. Neste ínterim, os turcos ocidentais ou carcânidas batiam às fronteiras do Estado muçulmano dos sassânidas – estes iranianos que exerceram [...], vasto, mas efêmero domínio sobre a Bactriana, e Transoxiana, o Kvarism, o Cotassã e o Seistã – e arrebataram-lhes a Transoxiana juntando-lhe a Cachagaria que turquificaram ao introduzir ali o Islã, ao qual estavam convertidos.


Batalha de Homs, 1281. Hayton de Coricos

Após o desaparecimento dos cazares, kitates e carcãnidas conservaram-se em suas posições durante a maior parte do século XI. Depois, cerca de 1071, os carcânidas foram absorvidos pelo império seldjúcida, cujos fundadores, oriundos de uma horda sem passado, os oguzes, acabavam de converter-se ao Islã: sua história, que traçamos, destaca-se doravante da do mundo nômade, embora o velho fundo turcomano reapareça com freqüência em seu comportamento. Ao mesmo tempo, uma tribo tibetana instalava-se no Ordos e no Alacham; sob o nome de si-hias, estes outros nômades submetiam o Noroeste da China enquanto os kitates conservavam sua parte Nordeste.

É ainda nos dois extremos do mundo das estepes que ocorrem os deslocamentos de hordas nômades no decurso do século XII. Nas planícies da Rússia Meridional, os cazares são substituídos pelos perchenegues, que constituíram [...] grande perigo para as fronteiras danubianas do império bizantino, até seu aniquilamento pelo Imperador João Comneno [...]. Em seguida vieram os oguzes, que também assolaram os Bálcãs e aos quais sucederam os quiptchaques. A China dos song de seu lado, via-se ameaçada não só pelos kitates ao nordeste, como pelos si-hias, ao noroeste. O Imperador Huei-tsong, mais esteta e poeta do que político, cometeu o erro irreparável, na tentativa de expulsar os kitates de Pequim, de chamar os djurtchates, povo tangus aparentado com os atuais mandchus. Esses semibárbaros não se contentaram com a Mongólia interior e a Mandchúria, que Huei-tsong lhes destinara. Tendo destruído o império kitakes, os cruais, adaptados à vida chinesa, já estavam bastante assentados e ocuparam toda a China do Norte, levando suas expedições até o interior do território song de onde só foram repelidos a custo.


Guerreiros montados perseguem inimigos. Ilustração de Rashid-ad-Din's Gami' at-tawarih. Tabriz. Século XIV

Na aurora do século XIII, à véspera do gigantesco empreendimento de Gengis-Cã, os djurchates, ocupam, portanto, toda a Mandchúria e a China do Norte, enquanto os si-hias mantêm os territórios do Noroeste. Os uigures, que se tornaram sedentários, radicam-se no osásis do Tarim, de Cuca a Turfan, cuja prosperidade foi alterada, ao que parece, pelo assoreamento. Os cara-kitais, mongóis achinesados e cristianizados, vagueiam em todo o resto do Turquestão, de Há-mi ao Aral e a Cojend, estendendo seu protetorado do Alto Ienissei até o Amu—Daria. Para além deste último rio, o principado dos kvarismianos, turcos muçulmanos, substituiu o dos seldjúcidas sobre um imenso território que compreende, afora o Kvarism propriamente dito, o Corassã, a região de Cabul e Gasna, a Pérsia inteira até a Geórgia. Enfim, todo o Norte da Índia cai em poder dos gúridas, afeganes vencedores dos gasnévidas. O mundo turco engloba todo o Oriente Próximo muçulmano; os turcos-mongóis estendem-se ao longo da Rússia e dos Bálcãs, até as planícies danubianas.

Tal é o espantoso mosaico das populações nômades – algumas das quais se tornaram parcialmente sedentárias – no momento em que aparece Gengis-Cã em incessante movimento há séculos, não possui qualquer coesão real, sendo formada de reinos e impérios movediços e relativamente efêmeros. A unidade lingüística não compensa a miscelânea das crenças e das formações políticas; às vezes achinesados, outras iranizados ou fiéis às tradições turco-mongóis, seus povos converteram-se, ao acaso das peregrinações, quer ao budismo ou ao confucionismo, quer ao cristianismo nestoriano, ao maniqueísmo, o islamismo ou ao judaísmo. Suas alianças são fugazes, e, refratários aos progressos das civilizações, conservam na maioria os hábitos bárbaros.

PERROY, Édouard. A Idade Média: o período da Europa feudal, do Islã turco e da Ásia Mongólica (séculos XI-XIII). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994. p. 120-124. (História geral das civilizações, 7).

NOTA: O texto "O passado do mundo nômade" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

As migrações bárbaras

O encontro entre Átila e o Papa Leão I, Rafael Sanzio

Desde a República, os contatos entre as populações germânicas e o Mundo Romano são mencionados pelos escritores romanos. Esses contatos por vezes eram violentos: em fins do século II a.C., címbrios e teutões invadiram e pilharam a Itália até serem vencidos pelas legiões de Mário em Aix-en-Provence (102 a.C.) e Vercelli (101 a.C.); no século I a.C., o Imperador Augusto enviou expedições para subjugar a Germânia, mas a destruição das legiões de Varo (9 d.C.) resultou no abandono da política de conquistas além do Rio Reno. Os contatos, entretanto, em sua maioria foram pacíficos: Augusto, fundador do Principado, foi quem iniciou a prática de recrutar germanos para integrar as legiões romanas. Desde os Antonino, o recrutamento não era mais de indivíduos, mas de tribos inteiras, que eram alojadas dentro das fronteiras romanas na condição de federados.

À medida que o relacionamento entre o Mundo Germânico e o Mundo Romano se intensificou, modificações processaram-se nas duas sociedades.

Nos séculos IV e V, entretanto, povos inteiros, envolvendo milhares de indivíduos, entraram em massa no Império Romano, levando o pânico e a destruição aonde chegavam. A instalação dessas populações germânicas em territórios romanos acabou precipitando a desintegração do Império Romano: no Ocidente, a antiga unidade imperial fragmentou-se em Reinos independentes, dominados por aristocracias romano-germânicas.

A invasão dos bárbaros, Ulpiano Checa

Essa movimentação de povos germânicos é comumente denominada invasões bárbaras. Essa expressão não é correta, pois "estes movimentos de povos antes são migrações que verdadeiras invasões. Se não foram pacíficas, não se inspiraram na hostilidade que pressupõe o termo invasão [...]. Constituem parte de um conjunto amplo de deslocamentos de populações, que prosseguiram até o século XV e que afetaram não só a parte ocidental do Império Romano mas toda a Europa, a Ásia até a China, e a África do Norte." (GENICOT, L.; HOUSSIAU, P. Le Moyen Âge. Tournai: Casterman, 1959. p. 17.)

Que razões determinariam essa imigração em massa nos séculos IV e V? Entre outras, a busca de novas terras para cultivo e sobretudo para criação do gado, uma vez que a tendência ao resfriamento das frias estepes (tundra) da Europa Setentrional vinha acarretando um progressivo deslocamento de povos para a Europa Meridional. Não se pode deixar de considerar também que as riquezas existentes no Império Romano funcionaram como fator preponderante para os germanos atravessarem fronteiras desguarnecidas ou precariamente defendidas: o saque ainda era uma prática bastante usual entre eles.

É inegável, porém, que foi a chegada dos hunos às planícies da Europa Oriental o fator preponderante para a grande movimentação de povos germânicos: o avanço dos hunos para o Ocidente levou os germanos a recuar, buscando segurança contra esses temíveis invasores.

Os hunos eram povos tártaro-mongóis e procediam de regiões asiáticas fronteiriças à China. Não se conhecem com exatidão as razões que as teriam levado a migrar para as planícies europeias. Bastante primitivos, levaram uma existência nômade, criando seus cavalos, vivendo em carroças e tendas. Eram exímios cavaleiros e arqueiros, e seguiam um chefe que lhes garantisse vitórias capazes de possibilitar pilhagens compensadoras.

"Sua ferocidade supera tudo. Por meio de um ferro, marcam com profundas cicatrizes as faces dos recém-nascidos, a fim de destruir aí todo o germe de barba [...] Não cozinham, nem temperam o que comem. Nutrem-se apenas de raízes silvestres ou de carne crua do primeiro animal que aparece, carne esta que esquentam, por algum tempo, sobre o dorso de seu cavalo entre suas próprias pernas. Não possuem abrigo. Entre eles não se usam casas, nem tampouco túmulos. Não encontraríamos nem mesmo uma cabana. Passam a vida percorrendo as montanhas e as florestas, enrijados desde o berço contra o frio, a fome, a sede [...] A cavalo dia e noite [...] dormem reclinados sobre o magro pescoço de sua cavalgadura." (Descrição dos hunos feita pelo historiador romano Amiano Marcelino (320-390). Citado por COURCELLE, P. História Literária das Grandes Invasões Germânicas. Petrópolis: Vozes, 1955. p. 151-152.)

A chegada dos hunos às planícies da Europa Oriental provocou intensa movimentação de povos germânicos: ao se deslocarem, recuando diante dos hunos, empurravam-se uns aos outros, terminando por se espalharem pelo Império Romano.

Os primeiros a sofrer o impacto dos hunos foram os godos: incapazes de enfrentarem as velozes e ferozes hordas húnicas, os ostrogodos recuaram, obrigando os visigodos a atravessarem o Rio Danúbio (talvez em número de 200 mil) e a buscarem uma ilusória segurança no interior do Império Romano. Acolhidos como federados pelo Imperador Valente (376), a impossibilidade de alimentar tão numerosa massa humana logo transformou os visigodos em saqueadores, que, em seu avanço pelos Bálcãs, a tudo destruíam. A tentativa romana de submetê-los resultou em fragorosa derrota em Andrinopla, onde o próprio Imperador Valente foi morto (378). Era o sinal de novos tempos: a superioridade da cavalaria germânica sobre as tropas imperiais romanas.

Em fins do século IV, os visigodos, sob a chefia de Alarico, abandonaram a Trácia, onde novamente haviam se tornado federados, e recomeçaram suas andanças: pilharam os Bálcãs e se dirigiram para a Itália; tomaram e saquearam Roma (410), marcharam para o sul da Península, destruindo Cápua e Nola. A morte de Alarico paralisou-os momentaneamente.

O saque de Roma pelos vândalos, Heinrich Leutemann

Nesse meio tempo, os vândalos, suevos e alanos (406), aproveitando-se do desguarnecimento das fronteiras do Rio Reno - as legiões haviam sido deslocadas para a Itália a fim de lutarem contra os visigodos - entraram aos milhares pela Gália. Fugiam dos hunos, mas atrás de si deixavam o incêndio, a destruição. a morte... Prosseguiram até a Península Ibérica, onde foram reconhecidos como federados (411): os suevos e uma parte dos vândalos estabeleceram-se na Bética (a futura Andaluzia), enquanto os alanos ocuparam o Vale do Ebro, espalhando-se até a Lusitânia (o futuro Portugal).

"Os bárbaros arremetem pelas Espanhas. O flagelo da peste causa igualmente grande desordem. A tirania dos cobradores pilha as rendas e fortunas, escondidas nas cidades. A soldadesca as esgota. A fome campeia tão atroz que, sob o império dela, os homens devoram carne humana [...] Os animais, acostumados aos cadáveres dos que haviam perecido pela fome, pelo ferro, pela peste, matam mesmo os homens em plena força [...] Assim, os quatro flagelos do ferro, da fome, da peste, dos animais campeiam em toda a parte [...]" (Depoimento do cronista romano Idaco, que viveu no século V. Citado por COURCELLE, P. História Literária das Grandes Invasões Germânicas. Petrópolis: Vozes, 1955. p. 83-84.)

Aproveitando a brecha aberta e o caos reinante na Gália, novos invasores atravessaram o Rio Reno: os alamanos apoderaram-se da Alsácia, e os burgúndios ocuparam regiões entre Spira e Worms.

No mesmo ano, anglos, saxões e jutos assaltaram a Bretanha.

Mas a paz ainda não voltara à Gália, pois nova invasão ocorreu: os visigodos, agora chefiados por Ataulfo (410-415), abandonaram a arruinada Península Italiana e se lançaram sobre a Gália Narbonesa, onde se tornaram federados (413), o que não os impediu de ocupar a Aquitânia. O assassinato de Ataulfo, que chegara a reivindicar o cargo de Imperador, provocou novas mudanças:

- os visigodos receberam a incumbência de reconquistar a Península Ibérica;
- os vândalos, expulsos da região que ocupavam, passaram ao Norte da África, onde o Reino dos Vândalos foi organizado na época de Genserico (428-477);
- os alanos, submetidos aos visigodos, fixaram-se a noroeste da Península Ibérica;
- os suevos formaram seu Reino em terras da Galícia e atual Portugal;
- os visigodos, por sua vez, criaram seu Reino que englobava a Península Ibérica e a Aquitânia (na atual França).

Parecia, enfim, que a paz retornara ao Ocidente. A ilusão logo se desfez, pois os hunos, chefiados por Átila (439-453), retiraram-se de terras da atual Hungria, devastaram os Bálcãs e, em troca de elevada soma em dinheiro, renunciaram a atacar Constantinopla. Em 451, invadiram a Gália, destruindo tudo, até serem derrotados na batalha dos Campos Mauríacos, às vezes erradamente chamada de Campos Catalúnicos. Para deter os hunos, formara-se uma força militar heterogênea, composta de legiões romanas e contingentes de francos, borgúndios, visigodos, saxões e alanos.


Apesar de vencidos, os hunos, sempre sob a chefia de Átila, o chamado "Flagelo de Deus", lançaram-se, no ano seguinte, sobre a Itália. Cidades foram saqueadas, sendo a destruição e a ruína a marca da passagem da horda huna no caminho para nova pilhagem de Roma. Atingidos pela fome e pela peste, os hunos renunciaram ao saque de Roma e se comprometeram a retirar-se da península, recedendo, em troca, vultoso tributo pago pelo Papa Leão Magno (452). No ano seguinte, com a morte de Átila, os hunos se dispersaram, voltando ao nomadismo pastoril.

Genserico saqueando Roma, Karl Briullov

Ao longo do século V, novos Reinos foram-se organizando em meio à deposição do último Imperador do Ocidente (476) e à chegada de novos invasores, como os ostrogodos que se estabeleceram na Itália, onde o Reino dos Ostrogodos foi organizado no governo de Teodorico.

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et al]. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 418-422.

sábado, 5 de outubro de 2013

Os ciganos perseguidos na Europa

Perseguidas de forma mais branda, mas também maltratadas e parcialmente massacradas pelos nazistas, as populações itinerantes vindas da Índia e chegadas à Europa no século XV acabaram constituindo uma outra população mantida à distância. Esses marginais são os ciganos, e por causa dos seus acampamentos foram chamados, na Romênia, de romanichel e, na Boêmia, de boêmios.

LE GOFF, Jacques. Uma breve história da Europa. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 73.

Galeria:

Primeira chegada dos ciganos às muralhas de Berna, no século XV. Eram descritos como de pele escura, usando roupas e armas sarracenas. Diebold Schilling

Mulher cigana com um cigarro, Édouard Manet

Ciganos, Raja Ravi Varma

Ciganos, Károly Patkó

Povo cigano espanhol, Yevgraf Sorokin

Cigana com criança na carroça, Otto Muller

Ciganos de Valáquia, Joseph Heike

Grupo de ciganos galegos, Rudolf Ritter von Alt

O pequeno virtuoso, Antoni Kozakiewicz

Mulher com criança, Tihanyi

terça-feira, 24 de abril de 2012

Impérios de bronze

Cena de caça em um punhal. Túmulo em Micenas, século XVI a.C.

Bronze é uma liga de cobre e estanho, feita pelo aquecimento de metais combinados. É mais duro que o cobre, mas tem um ponto de fusão mais baixo, e é mais fácil de moldar. O cobre é obtido de minérios como a calcopirita (uma combinação de cobre, ferro e enxofre), mas é ocasionalmente encontrado em estado puro - por exemplo, em meteoritos. Muitas sociedades da Idade da Pedra estavam familiarizadas com ele, e o metal era muito procurado para a confecção de ornamentos e joias. Mas sua raridade e maleabilidade eram desvantajosas quando se tratava de fazer ferramentas e armas. No terceiro milênio a.C., as pessoas descobriram como produzir cobre aquecendo minérios de cobre além do ponto de fusão do metal. Aprenderam também a combinar cobre com estanho para aumentar a dureza. A liga resultante - o bronze - revolucionou a manufatura de ferramentas. E levou a uma revolução ainda maior na confecção de armas.

Ponta de dardo de bronze gravada, Lagash, 3º milênio a.C.

O bronze foi produzido pela primeira vez por volta de 3000 a.C., mas por centenas de anos permaneceu escasso, pois era difícil obter estanho. Não foi senão com a descoberta de ricas reservas de estanho, como as da Espanha e da Anatólia, que o bronze pôde ser utilizado em larga escala. Quando isso ocorreu, as armas de bronze transformaram as práticas de guerra. Uma lança de bronze era mais forte que uma pedra. Era feita de uma única peça, ao passo que uma lança de pedra tinha a força somente de sua haste e das amarras que a prendiam à haste. O mesmo pode ser dito da adaga de bronze. A espada de bronze não tinha equivalente na Idade da Pedra. A arma que mais se aproximava de sua eficiência era a clava de pedra.

Capacete de bronze

Armas e ferramentas de bronze não só eram mais eficazes como também mais fáceis de fazer. Ferramentas de pedra produzidas a mão, demandavam tempo e exigiam habilidade considerável. Objetos de metal podiam ser produzidos em massa. Um único modelo feito a mão podia ser usado para fazer centenas de moldes, cujas fornadas podiam ser enchidas com uma concha de metal. Quando o metal esfriava, o trabalho envolvido em desbastar as aparas do molde bruto levava uma fração do tempo envolvido na produção de uma ferramenta ou uma arma de pedra.

Essa mudança na tecnologia da paz e da guerra teve lugar no cenário das transformações da sociedade humana. Uma das consequências de guerras recorrentes foi a redução no número de cidades-Estado, à medida que as derrotadas eram absorvidas pelas fronteiras de suas rivais vitoriosas. Algumas das vitoriosas, por sua vez, eram conquistadas posteriormente, abrindo caminho para Estados ainda maiores. Em 2334 a.C., os exércitos de Sargon da Acádia, na Mesopotâmia setentrional, conquistaram o reino da Suméria, que somava apenas 16 anos de existência mas já possuía mais de um milhão de pessoas. Ao fazê-lo, ele criou o primeiro império do mundo. Mas não estava destinado a durar muito. Os mil anos seguintes na Mesopotâmia testemunharam um processo de ascensão e queda de impérios sucessivos, conforme os povos nas regiões circundantes se deslocavam, e cada um, respectivamente, cobiçava a abundância e as amenidades do rico território.

Essa longa competição entre impérios rivais originou uma melhoria continua na tecnologia de guerra. A eficácia das armas de bronze, e sua facilidade de manufatura, constitui apenas parte da história. O que de fato mudou a guerra foi o uso de armas e armaduras de bronze combinado com outra invenção que surgira na mesma região: o cavalo de batalha.

Cavalos haviam sido domesticados por volta de 4000 a.C. por nômades do leste da Europa e da Ásia Central, mas por muito tempo permaneceram apenas como fonte de alimento. Eles forneciam carne e leite, mas seus donos mais antigos os consideravam montaria tanto quanto teriam pensado em montar uma vaca. Não foi senão por volta de 2000 a.C. que os cavalos foram montados com um propósito sério, e o lugar onde a prática se originou parece ter sido o norte do atual Irã. Assim que a habilidade foi dominada, sua utilidade para o combate logo se tornou aparente, e a tradicional prática de procriação para obter docilidade foi invertida, na medida em que a ênfase recaiu sobre a força e a velocidade. Por volta de 1500 a.C., tropas montadas eram um componente padrão dos exércitos por todo o Crescente Fértil, e a cavalaria nômade instilava o terror nas comunidades de fazendeiros do leste da Europa ao oeste da China. Desse modo, tiveram início recorrentes incursões a cavalo aos territórios povoados da Europa e da Ásia, que continuariam pelos 3 mil anos seguintes. Nesses conflitos, os nômades errantes do leste da Europa e da Ásia Central  contavam com uma arma secreta imbatível: grama. Era algo que os cavaleiros das estepes tinham em abundância, e isso facilitou aos povos nômades manter grandes bandos de cavalos e, mais do que tudo, criá-los visando aprimorar a velocidade e o vigor físico. Uma vida sobre a sela também significava que todo homem e rapaz eram potenciais cavaleiros, capazes de ser mobilizados de um momento para outro.

A combinação de cavalo e metal tornou possível o carro de batalha. Essa invenção foi um avanço comparável à introdução do tanque de guerra no século XX. Assim que os construtores de carros passaram a contar com um material duro e fácil de trabalhar como o bronze, as vantagens do metal sobre a madeira na construção de veículos militares tornaram-se óbvias. Entre 2000 a.C. e 1500 a.C., muitos povos do sudoeste da Ásia desenvolveram algum tipo de carro de batalha. Mas a versão leve dois-homens-duas-rodas criada pelos nômades das estepes foi uma arma de guerra muito mais eficaz do que os desajeitados carros de quatro rodas usados pelos povos das planícies. Esse carro leve e os arqueiros a cavalo, capazes de disparar flechas cavalgando em alta velocidade, criaram um novo tipo de guerra. Exércitos agora podiam deslocar-se por grandes distâncias, e ataques podiam ser lançados contra cidades desprovidas de defesa por forças que nem sequer imaginavam encontrar pelas redondezas.

Essas mudanças na tecnologia de guerra foram acompanhadas por outras igualmente drásticas nos assuntos da vida cotidiana. A rede de comércio agora se estendia por milhares de quilômetros. O transporte fluvial fora transformado com a invenção da vela. [...] Em nenhum lugar isso teve mais importância do que no Egito, um país erguido às margens de um rio. Os egípcios já usavam botes feitos de tábuas, que lhes possibilitaram transportar pesadas cargas a jusante. Mas depois que inventaram a vela, por volta de 3500 a.C., puderam explorar os ventos do norte para viajar a montante com a mesma facilidade com que desciam o rio. [...]

A invenção da vela não só transformou o transporte fluvial: também tornou possível a travessia de oceanos. Em vez de remar ao longo da costa, os marinheiros tornaram-se aptos a enfrentar o desafio do mar adentro. Os primeiros veleiros egípcios contavam com velas longas e estreitas presas a dois mastros. À medida que se aventuravam pelo Mediterrâneo, desenvolveram a vela grande e quadrada, que mais tarde se tornaria o padrão de navegação marítima por toda parte. Essas naus oceânicas [...] ampliaram enormemente o alcance do comércio egípcio e inauguraram uma era de supremacia naval do Egito que durou quase 2 mil anos. Eles traziam cobre de Chipre, estanho da Ásia Menor e, o mais importante, em um país sem florestas, madeira do Líbano.

O desenvolvimento da navegação de alto-mar foi um fator crucial na aceleração da mudança que caracterizou a transição da Idade da Pedra para a Idade do Bronze. O transporte marítimo era muito mais fácil que o terrestre. Isso gerou imensa vantagem para qualquer sociedade com acesso a águas navegáveis; vantagem que perduraria até a invenção da locomotiva a vapor, no século XIX. Em nenhum lugar essa vantagem foi mais importante do que para as sociedades que cresciam em torno do Mediterrâneo. [...] À medida que povoamentos e portos se instalaram às suas margens, ele assumiu cada vez mais o caráter de um grande lago interior, ao redor do qual se estabeleceram diversos Estados [...].

O Egito, com sua localização privilegiada para se beneficiar do comércio oceânico tanto no Mediterrâneo quanto no golfo Pérsico, foi a mais brilhante e poderosa dessas civilizações marítimas. Mas, durante o segundo milênio a.C., outras surgiram em cena. Uma delas, a minóica, estabeleceu-se na ilha rochosa de Creta. Ali, no que à primeira vista era uma paisagem inóspita, uma estirpe de resistentes agricultores cultivava trigo, plantava oliveiras e videiras e criava ovelhas. Por quinhentos anos, eles conduziram um comércio de exportação de lã, vinho e azeite com outros países e com suas próprias colônias em torno do Egeu. os vestígios de seus palácios dão testemunho da prosperidade resultante. Nas ruínas de um deles, um tabuleiro de jogo foi encontrado, incrustado de marfim e lindas pedras de lápis-lazúli de sua única fonte disponível na época, as minas acima de Faizabad, no Afeganistão. Era um achado que condensava tanto o luxo usufruído pelas classes dominantes nas civilizações da Idade do Bronze como as redes mercantis em que esse luxo estava baseado.

Em 1628 a.C., os povoamentos costeiros minóicos foram inundados por um tsunami, e seus campos soterrados pelas cinzas de uma erupção vulcânica da ilha de Thera (Santorini), 160 quilômetros ao norte. A civilização sobreviveu, a despeito da fome e da desordem social, mas em 1450 a.C. finalmente sucumbiu a um ataque de invasores vindos de Micenas, no continente grego, durante o qual a maioria de seus palácios e vilas foram arrasados.

A queda da civilização minóica coincidiu com o surgimento de uma nova cultura marítima no Mediterrâneo oriental - a dos fenícios. Eles falavam uma língua aparentada com o hebraico e viviam em áreas litorâneas onde hoje estão situados os atuais Síria e Líbano. Essa região é abençoada com alguns dos melhores portos naturais do mundo. Em 1500 a.C., já existia um agitado comércio transoceânico com o Egito e a Mesopotâmia. Três produtos em particular formavam sua base: madeira de pinheiro e cedro; tecidos tingidos com o famoso púrpura de Tiro, também conhecido como púrpura "real" ou "imperial", obtido do molusco Murex; e marfim de elefantes africanos, que era destinado à Mesopotâmia e a toda parte.

No início, os fenícios haviam se sujeitado à soberania do Egito, mas este império estava se desmanchando diante dos ataques tanto do norte quanto do sul. Por volta de 1000 a.C., com o enfraquecimento da influência egípcia na região, as principais cidades fenícias - Tiro, Sídon, Biblos, Berytus (Beirute) e Ugarite - evoluíram para cidades-Estado independentes. Elas abrigavam milhares de artífices, que produziam artigos de grande procura, como obras de metal, tecidos finos e bordados. À medida que o mercado marítimo prosperava, os fenícios estabeleceram postos de comércio por toda a extensão e amplitude do Mediterrâneo. Um desses, Cartago, na Tunísia moderna, se tornaria mais tarde a maior cidade fenícia.

Um retrato vívido das atividades comerciais dos fenícios nessa época é fornecido pelo relato de um mercador egípcio chamado Weinamun, que foi enviado a Biblos pelo faraó governante em 1075 a.C. para obter madeira de navio. Ele foi despachado furiosamente por Zeker Ba'l, soberano de Biblos, irritado com a sugestão de que deveria entregar a madeira como um tributo, de acordo com o que se esperava que seus ancestrais fizessem. Quando Weinamum voltou com cinco jarras de prata, quatro jarras de ouro, quinhentas peles de boi, grande quantidade de cordas e tecidos e trinta cestos de peixe, Zeker Ba'l amoleceu, e trezentos homens e 3 mil bois foram convocados para derrubar enormes cedros e transportá-los até o porto.

O império comercial dos fenícios deixou um supremo legado na forma do alfabeto, o mais econômico sistema de escrita de todos. [...] Foi o uso desse alfabeto norte-semítico pelos fenícios, por volta de 1100 a.C., que levou a uma versão posteriormente adotada pelos gregos e, por intermédio deles, por todos os povos da Europa. O alfabeto fenício tinha apenas consoantes e compreendia 22 letras. Foram os gregos que acrescentaram cinco sinais para representar as vogais e deram para os europeus, e as pessoas que falavam línguas de origem europeia, os alfabetos em uso atualmente.

A invenção do alfabeto foi um marco. As escritas cuneiforme, hieroglífica e pictográfica chinesa foram cruciais para o desenvolvimento de suas respectivas civilizações. Mas todos esses antigos sistemas de escrita envolviam um longo aprendizado, que só podia estar ao alcance de uma pequena elite ociosa. A escrita alfabética ofereceu a perspectiva de aprendizado para um número de pessoas muito maior, e o papel que ela desempenharia mais tarde, possibilitando a impressão de livros baratos com o tipo móvel, a situa firmemente nesse supertime de invenções que incluem os veículos com rodas, a máquina a vapor e o computador.

O grande volume de material escrito que herdamos das civilizações da Idade do Bronze no Mediterrâneo e no Crescente Fértil desempenhou um marco na escrita da História. [...]

AYDON, Cyril. A história do homem: uma introdução a 150 mil anos de história humana. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 71-78.