"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 1 de junho de 2016

Dos descobrimentos à colonização - Parte 1

[Os primeiros europeus no continente africano]


Mapa do século XVI mostrando as reivindicações portuguesas para a Guiné e São Jorge da Mina. Cartógrafo desconhecido

Aos descobrimentos geográficos do século XV, que revelaram à Europa novas rotas marítimas*, novas terras, seguiu-se, até o século XVIII, uma vasta iniciativa de penetração colonizadora da qual participaram, por motivos econômicos e políticos, todos os grandes Estados europeus.

* O tráfico do Poente (o oeste, o Atlântico) era totalmente desconhecido antes de os espanhóis terem velejado os mares das Índias [...] e de os portugueses, singrando o alto-mar com a bússola, terem-se tornado donos do Golfo Pérsico e, em parte, do Mar Vermelho, e conseguido assim carregar suas naus com as riquezas das Índias e da Arábia vicejante, frustrando os venezianos e os genoveses que iam buscar suas mercadorias no Egito e na Síria, até onde eram trazidas pelas caravanas árabes e persas e vendidas a nós parceladamente e a peso de ouro. (Jean Bodin, Da República)

A penetração tinha como finalidade explorar riquezas minerais, aproveitar riquezas vegetais e estabelecer núcleos europeus em outros continentes. [...] esta iniciativa das nações europeias trouxe enorme transformação econômica e permitiu, alguns séculos mais tarde, o aparecimento, no cenário mundial, de novos países os quais passariam a disputar, com a Europa, a supremacia econômica e política.

As escalas marítimas dos portugueses, ao longo de toda a costa africana, despertaram o interesse dos holandeses e franceses. Enquanto estes se limitaram inicialmente a estabelecer entrepostos comerciais, os portugueses passaram à exploração do comércio escravista, aproveitando-se de um costume já existente entre algumas tribos africanas. O tráfico de escravos, que os árabes já haviam desenvolvido, intensificaram-se a partir do século XVI promovido pelos portugueses e, em seguida, pelos ingleses que se encarregaram de introduzi-los em suas colônias nas Américas. Os espanhóis, embora não participando diretamente do tráfico, compraram a ingleses e portugueses os escravos que introduziram em suas colônias americanas.

Portugueses
Mantêm entrepostos comerciais na Ilha de Zanzibar e em Moçambique, onde iniciam a exploração de jazidas minerais. No século XVII fundam a colônia de Angola.

Holandeses
Estabelecem escalas para seus navios mercantes, fundam em meados do século XVII a colônia do Cabo.

Franceses
No século XVII abrem entrepostos na desembocadura do rio Senegal e na Ilha de Madagascar.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 184.

quinta-feira, 5 de março de 2015

O Magreb: O Estado argelino

Jovens senhoras no terraço em Tânger, Rudolf Ernst

O Estado argelino era governado por um beilerbei designado pelo sultão e suserano dos paxás de Túnis e Trípoli. A partir de 1587, o beilerbei foi substituído por um paxá, constituindo-se Argel, Túnis e Trípoli em Regências. [...] Na realidade, os delegados dos janízaros e dos corsários exerceram o Governo após 1587. [...]

[...] Como o próprio Império Otomano, estas distantes províncias do Magreb foram dirigidas por uma empresa militar de escravos e renegados que exploravam os [...] vencidos. Os "turcos", efetivamente, conquistaram a Argélia, colocaram guarnições nos pontos estratégicos [...]. Os mouros das cidades eram excluídos das funções e do serviço militar, reservados aos turcos de raça ou de "profissão". Frequentemente aliaram-se aos nômades vencidos, aos marabus e aos fanáticos do Islã.

Argel desenvolveu-se. Em meados do século XVI, a cidade contava 60.000 habitantes, renegados na maioria, mais 25.000 cativos cristãos. Em 1650, ultrapassava 100.000 habitantes com 25 a 35.000 cativos. O século XVII foi a idade de ouro do corso, pois os argelinos tiveram a habilidade de acrescentar navios de alto bordo às suas galeras. Em 1615-1616, as presas ultrapassaram 2 a 3 milhões de libras. Os escravos eram objeto do comércio mais lucrativo. Particularmente procurados eram as moças e os rapazes, "cuja sorte era fatal", e os trabalhadores especializados em construção de navios, nos trabalhos portuários e na artilharia. [...] O comércio era ativo. Mercadores europeus instalavam-se duradouramente mediante o pagamento de uma licença à Regência e de direitos de saída. Predominavam os judeus e os marselheses. Após 1685, sofreram a concorrência dos protestantes refugiados do Languedoc. Os europeus exportavam couros, cera, lã, tâmaras, plumas de avestruz, coral, cereais e, de Túnis, esponjas. Importavam armas, vinho e telas. Mas, quando as presas diminuíam, tornava-se necessária a elevação dos impostos, o que provocava perturbações. [...]

Em Argel, bem como em Túnis, encontravam-se entre os corsários as faianças de Delft, os mármores esculpidos da Itália, as sedas e os veludos de Lião e Gênova, os vidros de Veneza, os cristais da Boêmia, as pêndulas da Inglaterra. Os benefícios da pirataria multiplicavam as mesquitas e as fundações pias.

MOUSNIER, Roland. Os Séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 190-192. (História geral das civilizações, v. 10).

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O impacto do tráfico para a África

O envio de escravos africanos para a América foi, sem dúvida, um dos maiores movimentos populacionais da história e a maior migração por mar antes da grande imigração europeia, também para as Américas, que se desenvolveu justamente na medida em que o tráfico de escravos no Atlântico conheceu o seu fim. Mas, é importante ressaltar, essa não foi a única exportação de escravos oriundos da África Tropical. Durante séculos, foram levados escravos negros em direção ao norte, através do Deserto do Saara, pelo Rio Nilo, pelo Mar Vermelho e pelo Oceano Índico. Evidentemente, os números aqui envolvidos não podem ser comparados ao do comércio atlântico.

Existem poucas fontes confiáveis que indiquem os números do tráfico de escravos no Saara e no norte da África. A partir do século IX, entretanto, existem vestígios de um tráfico de escravos transaariano organizado. Os poucos dados existentes apontam para uma média anual de 6 mil ou 7 mil escravos transportados até a década de 1880, apresentando pontos altos nos séculos X e XI, nos quais cerca de 8.700 escravos teriam sido importados por ano, e nos primeiros anos do século XIX, algo como 14.500. O tráfico transaariano pode, no total, ter retirado da África Negra quase tantas pessoas – cerca de nove ou dez milhões – quanto o do Atlântico.

O impacto do tráfico de escravos variou de região para região da África Negra. No que se refere ao tráfico atlântico, quase todos os escravos foram levados da costa ocidental, local onde os europeus haviam estabelecido de forma mais consistente suas relações comerciais. Somente quando a procura atingiu seu auge, no final do século XVIII, e quando as medidas contra o tráfico ao norte do Atlântico, no século XIX, ganharam proporção, é que a costa oriental passou a fornecer escravos para as Américas.


Escravos sendo transportados na África

Assim, nem todas as regiões foram afetadas pelo tráfico de escravos, e, ainda, algumas regiões tinham melhores condições do que outras para resistir aos danos causados por esta movimentação – e para lucrar com ela. Na África Ocidental, por exemplo, verifica-se uma continuidade essencial da população e do aumento populacional, da evolução social, econômica e cultural, desde que seus habitantes se dedicavam à agricultura e à metalurgia em períodos anteriores ao grande tráfico de escravos.

Os casos de Angola e do Congo demonstraram que algumas das populações afetadas não viram seu número diminuído, ou que os efeitos combinados da seca, da fome e das doenças foram tão ou mais importantes do que os do tráfico de escravos. Contudo, a exportação de escravos para outras partes do mundo foi um fator importante para as transformações na África Subsaariana por desestruturar sociedades, arrasar regiões e gerar guerras e revoluções, sendo o auge do tráfico no final do século XVIII e início do XIX um momento crucial. Entretanto, foram os efeitos do imperialismo e do colonialismo do final do século XIX que deixariam mais profundas feridas no continente africano.

VISENTINI, Paulo Fagundes [et alli]. História da África e dos africanos. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 49-50.

NOTA: O texto "O impacto do tráfico para a África" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.