"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador América anglo-saxônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador América anglo-saxônica. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O grande medo: o pânico vermelho

"Haverá uma matança; nós não vamos nos esquivar; terão que acontecer assassinatos; nós mataremos porque é necessário; nós vamos destruir para livrar o mundo das suas instituições tirânicas."

Manifesto anarquista, 1919, EUA

Em 1919, chocados com a onda de atentados a bomba que se espalhou pelo país, promovida por anarquistas e outros simpatizantes comunistas, os cidadãos norte-americanos aceitaram que uma série de direitos e liberdades fossem momentaneamente suspensos ou limitados. Permitiram que o procurador-geral Mitchel Palmer agisse com mão de ferro na captura dos esquerdistas, prendendo-os em massa ou banindo-os da América. Tal como passou a ocorrer a partir dos atentados de 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center e ao Pentágono, muitas das prerrogativas individuais dos norte-americanos começaram a ser desconsideradas em vista do clima de insegurança que pairou sobre a nação. Mas como indica a própria história e como os acontecimentos do passado mostraram, as infrações aos direitos lá são sempre temporárias, rápidas como uma chuva de verão.

Cartoon político, 1919. 
Alley

Nem bem Ethel Williams, a secretária de um senador sulista, abriu o pacote, o conteúdo explodiu-lhe no seu rosto. Perdeu os braços, e a vida por muito pouco também não se foi. Era o dia 1º de maio de 1919, data memorável, escolhida pelos anarquistas para darem início à sua grande ofensiva de primavera-verão contra o estado norte-americano. Trinta dias depois, no 2 de junho, foi o próprio procurador-geral da república, A. Mitchel Palmer, homem de confiança do Presidente W. Wilson, quem teve parte da sua casa em Washington atingida por um outro petardo. "Pois bem", teria dito Palmer, "se gostam tanto de Lenin e de Trotsky, vou mandar todos eles para lá."

A casa do procurador-geral A. Mitchell Palmer, depois de ser bombardeado por Galleanist Carlo Valdinoci.
Fotógrafo desconhecido

Entrementes, os Estados Unidos inteiros tremeram. Greves e motins raciais em Chicago tinham como pano de fundo um festival de explosões em Boston, em Nova York e mais seis outras grandes cidades americanas. Os acontecimentos pareciam ter fugido do controle. A vitória dos bolcheviques na Rússia, seguida da derrota dos exércitos contra-revolucionários, acendera a luz verde para toda a esquerda norte-americana. Alucinados, acreditaram que era possível reproduzir na América as jornadas de Petrogrado e de Moscou, onde os guardas vermelhos levaram tudo de roldão. Se bem que a esquerda pró-soviética em geral apostasse nos movimentos de massa, apoiando a formação de sindicatos e o sufrágio feminino (recentemente aprovado), eram os anarquistas quem lideravam os desatinos.

Cinco policiais e um soldado com rifle na comunidade de Douglas, Chicago, durante a revolta de 1919. 
Foto Chicago Daily News

Numa só batida, a polícia encontrou 38 bombas. O temor impregnou a sociedade americana; o Red Scare, o Pânico Vermelho, tomara conta dos espíritos. Não demorou muito para que Palmer concentrasse enormes poderes. Se bem que o Congresso tivesse rejeitado uma legislação que fixava em vinte anos de prisão e pena para quem atentasse contra instituições americanas, estabelecendo ainda uma multa de vinte mil dólares para quem atacasse prédios públicos, Palmer, em sua ofensiva, infringiu a I, a IV, a VI, a VIII, a IX e a XIV emendas. As tão celebradas garantias individuais, orgulho maior dos americanos, logo viraram letra morta. A polícia de Palmer, reforçada pela contratação do jovem Edgar J. Hoover, que mais tarde seria o mandão do FBI, não se embaraçava por nada. Portas arrombadas, invasões ilegais, tiros para todos os lados, detenções arbitrárias - não houve o que os caçadores de comunistas e anarquistas não infringissem. O procurador-geral não queria perder tempo em distinguir quem era um esquerrdista ativo ou não. Prendeu todos. Legalmente amparado nos porretes jurídicos do Spionage Act de 1917 e no Sedition Act de 1918, num só dos seus Palmer Raids, um arrastão policial feito no dia 7 de novembro de 1919 para "comemorar" o segundo aniversário da revolução russa de 1917, levou dez mil para as cadeias. Foi a maior detenção em massa ocorrida na história dos Estados Unidos em tempos de paz. No ano seguinte, em janeiro de 1920, chegaram a mais de seis mil os encarcerados. Nenhum deles fora acusado formalmente de nada. Bastava serem suspeitos.

Anarquistas, comunistas e radicais reunidos no porto de Nova York para serem deportados, 1920.
Fotógrafo desconhecido.

Pessoas comuns foram sentenciadas a vários meses de cadeia por delito de opinião, tal como elogiar Lenin numa conversa de bar. Algo até então inédito no país. Mas a mão do xerife Palmer não abateu apenas a esquerda. Como a maioria dos anarquistas eram imigrantes italianos e os comunistas eram de origem judaica, os bairros latinos e judeus foram devastados pela fúria policial, alimentada pela histeria dos cidadãos anglo-saxões. "Carcamanos", "traidores de Cristo" era o que se ouvia em todas as partes. Situação que de alguma forma criou o clima para o célebre caso Sacco-Vanzetti, que logo iria eletrizar os Estados Unidos e o mundo (os dois italianos anarquistas foram acusados de assalto seguido da morte de um policial num crime ocorrido em Boston, em 1920).

Protesto para salvar Sacco e Vanzetti, Londres, Inglaterra, 1921. 
Fotógrafo desconhecido

No porto de Nova York, em dezembro de 1919, 249 esquerdistas pró-soviéticos foram embarcados à força no Buford, um barco de transporte da marinha de guerra. Palmer cumpria a sua promessa. Que fossem para a Rússia. A bordo da "Arca Soviética", como logo a imprensa o denominou, estava a nata da inteligência anarco-comunista daquela época, gente como a líder feminista Emma Goldman, Alexander Berckman, Mollie Steimer e tantos outros. Era o presente de Natal, disse Palmer, que os Estados Unidos mandavam para lenin e seus comparasas. Que fizessem bom proveito dele.

Emma Goldman abordando uma multidão na Union Square, em Nova Iorque, 1916.
 Fotógrafo desconhecido.

Em 1921, a coisa acalmou. Gradativamente os direitos civis foram recuperados, e a ordem constitucional reassumida na sua plenitude. A era louca dos Anos de Jazz começava. O som do trompete e do saxofone, do piano e do banjo tomou conta dos salões de dança. Se bem que a Lei Seca começasse a vigorar em 1920, isto não pareceu ter estragado a festa de ninguém. O Grande Gatsby, o herói de Scott Fitzgerald, abria os salões na sua mansão em Long Island, mandando acender uma luz verde no embarcadouro na esperança de atrair para si a bela Daisy Buchanan. O perigo passara, a vida continuava. Mitchel Palmer, homem de ocasião, não foi adiante com sua carreira política. Pior deu-se com Emma Goldman. Ao ver a terrível máquina que os bolcheviques criaram, testemunha do aplastamento da revolta dos marinheiros anarquistas da Fortaleza do Kronsdat, deixou a União Soviética em 1921, apontando-a como "a maior desilusão da minha vida".

SCHILLINGH, Voltaire. América: a história e as contradições do império. Porto Alegre: L&PM, 2004.p. 151-3.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Billie Holiday, diva do jazz

Billie Holiday, 1949.
Foto Carl van Vechten

Na tarde de 1º de dezembro de 1955, os 50 mil habitantes negros do bairro de Montgmery, no Alabama, Estados Unidos, estavam em polvorosa. A secretária da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), que lutava pelo fim da segregação racial, Rosa Parks, tinha sido presa por ter utilizado um assento no ônibus, reservado por lei para brancos. Em 1954 o Supremo Tribunal dos Estados Unidos tinha declarado ilegal a discriminação racial nos colégios. Isso impulsionou a numerosa comunidade negra a empreender diversas lutas contra o racismo. O ápice desse processo se deu no dia do julgamento de Parks. Um boicote geral aos transportes foi marcado, contando com cerca de 90% de participação da comunidade negra local. Rosa Parks foi considerada culpada. O boicote foi ampliado. Nesse cenário, um jovem de 26 anos desponta como uma liderança capaz de aglutinar desejos, anseios por mudanças numa sociedade profundamente desigual. Seu nome era Martin Luther King, ou para alguns posteriormente, como o presidente Barack Obama, apenas o rei. Devido à forte atuação de Luther King, o boicote atingira seu objetivo, e em 13 de novembro de 1956 o Supremo Tribunal confirmava a decisão de um Tribunal Distrital transformando em inconstitucional a separação dos lugares dos ônibus de acordo com as raças. Essas vitórias judiciais vieram com duras e constantes lutas do movimento negro para se tornar reais, chegando ao ponto de o presidente D. Eisenhower ter de enviar tropas de paraquedistas para fazer cumprir o direito dos estudantes negros e brancos a uma educação comum. Foi nesse tumultuado contexto que a mais comovente cantora de jazz, Billie Holiday, narrou sua autobiografia.

Lançada nos Estados Unidos em 1956, a autobiografia, escrita com a colaboração do jornalista William Duft, da musa do jazz Billie Holiday, Lady Sings the Blues, foi fortemente influenciada pelo contexto das lutas raciais, da qual ela foi importante ativista. [...]

Com um estilo único e muito mais ligado ao jazz do que ao blues, a cantora americana Billie Holiday dava às músicas uma interpretação única que envolvia ao mesmo tempo uma técnica muito pessoal e uma dramatização vocal, transformando em belos sons músicas muitas vezes simples. Poucos foram os cantores ou cantoras que conseguiram influenciar músicos instrumentistas tão variados como os clarinetistas Artie Shaw e Tony Scott, o saxofonista Lester Young e os trompetistas Buck Clayton e Miles Davis, este último reconhecido como um dos principais músicos do século XX, além, é claro, de sua forte influência em cantores como Frank Sinatra e Ella Fitzgerald. Por não ter estudado música nem tampouco fazer leitura de partituras, talvez a única grande influência externa à obra de Holiday tenha sido o cinema, de onde tirou seu nome artístico em homenagem a atriz Billie Dove. Essa influência que o cinema exerceu no início desse modelo de canção não é perceptível apenas nas escolhas de Billie Holiday, podemos lembrar que Eunice Waymon adotou o nome Nina Simone em homenagem à atriz Simone Signoret.

Nascida no estado da Filadélfia em 1915, Eleanor Fagan, filha do músico Clarence Holiday e de Sarah Fagan, sua vida foi marcada por traumas e abandonos que a conduziram a um temperamento forte e, muitas vezes, impaciente e rude. Desde quando ainda era muito criança, seu pai saiu em excursão com sua banda e, a partir de então, ficou apenas com sua mãe, que ora a deixava com parentes, ora com vizinhos. Muito cedo começou a trabalhar como empregada e com 10 anos sofreu abusos sexuais de um vizinho, marcando para sempre sua vida. Aos 14 anos passou a morar definitivamente com sua mãe em Nova Iorque, onde começou a prostituir-se. Aos 15, então, começa seu contato mais próximo com a música. Desde cedo, quando trabalhava como empregada, Holiday pagava para escutar discos na casa de uma família. Seu dinheiro era gasto no aluguel de uma vitrola em que pudesse escutar seus discos prediletos, ou, em larga medida, os discos possíveis. Suas principais influências foram a popular cantora da década de 1920 Bessie Smith, conhecida como "A imperatriz do blues", e o trompetista Louis Armstrong, que, mesmo com estilos diferentes daqueles apresentados por Holiday ao longo da carreira, tiveram importância basilar em sua vida. Sua carreira teve início no Harlem, região com várias casas de música onde diariamente se apresentavam os mais variados músicos de jazz dos anos 1930. Depois de alguns anos cantando em casas noturnas, gravou seu primeiro LP com a banda do famoso clarinetista judeu Benny Goodman.

A partir de então sua carreira deslancha, chegando a gravar com as renomadas big bands de Artie Shaw e Count Basie. Seu sucesso passou a representar não só sua vitória pessoal, mas também a vitória do movimento negro contra o apartheid nos Estados Unidos, visto que ela foi a primeira negra a cantar com uma big band.

A música If my heart could talk fala de sonho, amor, e representa parte do que Billie Holiday sempre desejou. Ela teve relacionamentos com vários músicos, cineastas, artistas, e seu casamento foi um desastre, a conduzindo a um rude rompimento e uma profunda depressão. Na década de 1940, já estava presa ao mundo das drogas, sendo detida, processada, tendo shows cancelados e seu cabaret card cassado pela polícia, o que a proibia de cantar em bares que vendessem bebidas alcoólicas. O mundo das drogas, com uma constante pressão da mídia por conta de seus internamentos para tratamento, levou Holiday a um beco sem saída. O alcoolismo e a cocaína enfraqueceram sua já fragilizada saúde, levando Holiday a diversos problemas no fígado e coração. Com 44 anos, em 1959, o mundo perdia a voz mais singular do jazz, que morreu da forma como começou: simples, presa ao medo de não ser lembrada e amada. Holiday morreu com setenta centavos no banco e 750 dólares em notas grandes presos em sua meia. Junto com a cantora francesa Édith Piaf e com o pianista e cantor Ray Charles, foi uma das figuras mais polêmicas e discutidas de sua geração. Desde sua aparição no cinema em New Orleans, onde interpretava a empregada Endie, até suas canções de maior sucesso, como Strange fruit, que conta a história dos linchamentos sumários e das execuções públicas de negros nos Estados Unidos do século XX utilizando-se de metáforas extremamente singulares e chocantes, todos foram rodeados por muitas histórias de uma cantora que falou em forma de vida, uma vida contada e cantada. O compositor e ativista Josh White relembra o quanto Strange fruit era mais do que uma canção para Billie Holiday:

Ouvi o disco de Billie, e era algo tão forte que percebi que a canção [Strange Fruit] deveria ser usada para abrir os olhos das pessoas a certas coisas que não deveriam existir. Não queria lhe roubar nada. Amava sua interpretação da canção, mas queria apresentar Strange Fruit do meu jeito. Expliquei isso a Billie e acho que ela entendeu, depois veio frequentemente ao Café - em geral para o último espetáculo [...]. Por vezes arrastava-se e nem sequer entrava. Vinha de carro ao Village e sentava-se do lado de fora, ouvindo o rádio do carro, em companhia do seu grande boxer, Mister. Então começávamos a rodar de automóvel por todos os locais que ainda estavam abertos [...].

Falar de Billie Holiday, ou melhor, de Lady Day, como a chamava Lester Young, é ao mesmo tempo lembrar-se do quão popular foi o jazz e do quanto alguém conseguiu mergulhar em seu próprio tempo.

Mais do que uma singularidade complexa, Billie Holiday é, sem quaisquer dúvidas, uma das principais representantes da difusão do jazz e do blues nos Estados Unidos do início do século XX. Ultrapassando os núcleos de preconceitos raciais, Billie conseguiu atingir uma gama enorme de ouvintes ainda em vida e, a partir daí, demonstrar as fragilidades da sociedade americana. O famoso historiador inglês Eric Hobsbawn, em seu livro História Social do Jazz, estava correto quando afirmou que o jazz representou, em grande medida, uma forma de inserção social dos negros na preconceituosa sociedade norte-americana. O jazz em sua raiz é uma música popular tanto do mundo rural do sul quanto do urbano do norte. E, segundo o próprio Hobsbawn, algumas de suas caracterísitcas, mais no que concerne ao popular, foram mantidas por toda sua história: a importância da tradição oral na transmissão, a improvisação e velocidade de trocas e execução, dentre outros. Muitos desses aspectos podem até ser pouco reconhecidos no jazz contemporâneo, mas isso só comprova a tese de que é uma arte que não está morta, ao contrário, se mostra em constante desenvolvimento e dinamismo, ainda vinculada diretamente às percepções da sociedade nas quais está inserida.

SOUZA NETO, José Maria Gomes de [et alli]. Pequeno dicionário de grandes personagens históricos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2016. p. 383-87.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Condições de vida dos homens livres na América colonial inglesa

Desembarque dos puritanos na América, Antonio Gisbert

Entre as massas trabalhadoras livres das colônias americanas a vida era dura, e a belicosidade generalizada. [...] Para os 70 por cento da população trabalhadora colonial livre as condições de vida eram melhores do que para seus irmãos de classe na Europa, e o grau de mobilidade social era de certo modo maior, mas os dois aspectos evidenciavam-se apenas num sentido relativo. No sentido absoluto, a vida era muito cara, pois os salários mal chegavam para levar mesmo a comida mais simples às bocas do produtor, sua mulher e seus filhos [...].

Nas cidades proliferava a prostituição, eram numerosos os mendigos, os abrigos de pobres viviam cheios, os cortiços já estavam presentes e as centenas de indivíduos que dependiam de ajuda pública para se manterem vivos tinham de usar um emblema denunciando sua condição "degradada".

Nas áreas rurais o passadio mais simples, o abrigo mais rude, a roupa mais grosseira eram a regra para quase todos os que labutavam com as próprias mãos. E nas cidades e nas fazendas os pobres livres trabalhavam como os pobres sempre trabalharam - muito e por muito tempo.

Os ricos viviam na América colonial como viveram em toda parte. Uma casa de cidade e de campo, centenas e milhares de acres; dezenas de empregados e/ou escravos; refeições lautas; festas incessantes; seda e cetim, veludo e pérolas; carruagens e baixela de ouro; peças da moda e música e livros; negócio, alianças, intrigas; altas e poderosas funções; e intensa preocupação com a conservação de tudo isso e em manter a "gentinha" em seu lugar.

Desembarque dos peregrinos em Plymouth, 1620, N. Currier

Essas diferenças eram a obra e a vontade de Deus, porque de outro modo não existiriam. Quem as põe em dúvida demonstra, portanto, sua falta de fé e de crença; quem as põe em dúvida pertence ao Diabo, e deve ser tratado de acordo com isso. Os pobres devem ser postos a trabalhar, e é o medo de morrer de fome que os fará trabalhar.

Quanto aos mendigos e desocupados, é bem verdade, escreve o Reverendo Cotton Mather em 1695 (Riquezas Permanentes), eles "vergonhosamente crescem entre nós, assim como os mendigos que nosso senhor Jesus Cristo expressamente nos proibiu de proteger". Daí sua palavra apostólica: "Que morram de fome".

APTEKHER, Herbert. Uma Nova História dos Estados Unidos Unidos: A Era Colonial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967. p. 53-54.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Cotidiano e violência no Oeste dos Estados Unidos

Riso mata solitário, Charles Marion Russell

As pessoas que migraram para o oeste dos Estados Unidos buscavam novas oportunidades, mas, em geral, o que encontravam era uma uma dura rotina de trabalho. Dedicavam-se a atividades como agricultura, pecuária ou mineração. Em qualquer dessas atividades executavam tarefas pesadas, por não disporem de máquinas e instrumentos e pela necessidade de sobreviver em um ambiente natural muitas vezes árido e inexplorado.


Fumaça de uma 45, Charles Marion Russell

A maioria vivia em casas feitas de toras de madeira ou de torrões de terra amassada. Internamente, peles de animais ou cobertores separavam os cômodos. Eram casas insalubres, sujeitas a ataques de insetos que transmitiam diversas doenças, o que causava constante preocupação, pois praticamente não havia médicos nessa área. Assim, eram comuns doenças como a pneumonia, a tuberculose, a malária e as epidemias de cólera e varíola, que se alastravam facilmente.


Problemas no Camp Cook, Charles Marion Russell

Outra preocupação constante era a violência, já que a grande maioria das vilas e pequenas cidades que se formavam estavam distantes do poder central. Aventureiros em busca de fortuna fácil ou mesmo pessoas que não conseguiam trabalho assaltavam fazendas e aterrorizavam os habitantes do campo e dos povoados. Além disso, eram frequentes os enfrentamentos com os índios, que resistiam à ocupação de suas terras.


O desistente do rebanho, Charles Marion Russell

Em razão do reduzido número de autoridades policiais, a segurança era garantida por comitês de vigilantes escolhidos entre os cidadãos mais respeitáveis. Esses comitês realizavam julgamentos e execuções sumárias de pessoas suspeitas de assalto ou assassinato.


Índios descobrindo Lewis e Clark, Charles Marion Russell

A dura rotina de trabalho era quebrada pela reunião das pessoas em torno da praça da vila ou cidade, aos domingos. As famílias compareciam aos cultos religiosos e se inteiravam das notícias. A grande maioria da população, porém, era formada por homens solteiros, que trabalhavam como mineradores ou como vaqueiros dos grandes ranchos. Estes tinham como lazer jogar cartas, cantar e dançar nos salões ou beber nas tavernas. Apenas nas cidades maiores havia outras atrações, como circos itinerantes e companhias de teatro e de ópera.


Jogo de pôquer, Charles Marion Russell

Mesmo nos momentos de lazer, a violência era uma constante, pois os excessos com as bebidas e a reunião de um grande número de homens aventureiros geravam confusões e brigas. Muitas vezes acabavam em tiroteio e morte, pois era costume os homens andarem armados. Enfim, a violência era uma constante em um meio que reunia pessoas de origens muito diferentes e em geral frustradas pela não realização do sonho de riqueza fácil que motivara sua fixação no Oeste.


Um dia calmo em Utica, Charles Marion Russell

DREGUER, Ricardo; TOLEDO, Eliete. Novo História: conceitos e procedimentos. São Paulo: Atual, 2009. p. 159.


NOTA: O texto "Cotidiano e violência no Oeste dos Estados Unidos" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 10 de maio de 2014

A 1ª Guerra Mundial: Os Estados Unidos na guerra [Parte VII]

Soldados na floresta, Vilmos Aba-Novák

A revolução na Rússia agradou a Alemanha. A notícia de que um de seus três principais oponentes havia deposto armas era a mais animadora que se ouvia em Berlim, desde 1914. A paz no leste permitiria que um enorme número de soldados alemães se deslocasse para o front ocidental. Lá, finalmente poderiam vencer a França, onde o entusiasmo inicial pela guerra vinha se esgotando.

Presidente Woodron Wilson pedindo ao Congresso para declarar guerra à Alemanha, fazendo com que os Estados Unidos entrassem na guerra. Artista desconhecido

Naqueles meses de tumulto na Rússia, outra incerteza dizia respeito à neutralidade dos Estados Unidos. Seu presidente, Woodrow Wilson, era imprevisível. Muito talentoso, Wilson era filho de um clérigo presbiteriano e de uma mãe devotada que, assim como suas duas filhas mais velhas, dedicava cuidados um tanto exagerados ao garoto. Cresceu nos estados do sul durante e após a Guerra Civil norte-americana, mas seu talento não foi detectado prontamente, devido a doenças que tivera durante a infância. Na Princeton University, deu sinais de originalidade (característica que os examinadores nem sempre reconhecem), mas nenhuma amostra de brilhantismo. Quase foi advogado em Atlanta, na Geórgia, retornando porém como professor a sua antiga universidade, onde assumiu em 1902 o cargo de reitor. Pregador leigo, quase seguindo os passos do pai, Woodrow demonstrava fluência, sinceridade, empatia e um leve nervosismo que, disfarçando a confiança suprema em suas opiniões, atraía os ouvintes. Como democrata, tornou-se governador de New Jersey em 1900. Menos de dois anos mais tarde, venceu a corrida presidencial dos Estados Unidos. Na política, havia subido como um foguete - foguete, como ele às vezes mencionava, guiado por Deus.


Trico para os soldados: High Bridge Park. George Luks

Em 1916, Wilson novamente disputou e venceu as eleições presidenciais. Tentou manter seu país neutro na guerra, mas não resistiu às frequentes provocações da Alemanha. Em abril de 1917, o Congresso concordou em declarar guerra contra os alemães. O exército norte-americano era pequeno e foi necessário treinar muitos recrutas. No começo de 1918, que acabaria sendo o último ano da guerra, apenas 175 mil soldados haviam chegado à França.

"A comida vai ganhar a guerra, não desperdiçe-a". Nova Orleans. Foto: Charles L. Franck

A Alemanha ainda podia vencer o conflito. Após os russos terem apelado por paz, o país transferiu soldados do front leste para o oeste, onde lançou uma ofensiva feroz que chegou a 70 quilômetros de Paris e então parou. Depois disso, suas chances de vitória foram se extinguindo lentamente. Talvez nenhum fator isolado tenha colaborado tanto para convencer os alemães de que a guerra estava perdida quanto um exército norte-americano que então totalizava 1,5 milhão de soldados. Tal tropa foi um fator decisivo para a derrota da Alemanha - não por aquilo que fez, mas por aquilo que poderia fazer.

Mulheres trabalhando em fábrica de material bélico, Midvale Steel, Nicetown, Pensilvânia, 1918. 
Fotógrafo desconhecido

Em setembro de 1918, os aliados da Alemanha decidiram que estavam fartos. A Bulgária assinou um armísticio separado, A monarquia austro-húngara estava em pedaços, e os iugoslavos, tchecos e húngaros formavam as próprias nações. No fim de outubro, os turcos firmaram uma trégua. Alguns dias mais tarde, o pedido de rendição do Império Austro-Húngaro foi aceito.

A Alemanha estava sozinha. Seus soldados ainda lutavam bravamente no front ocidental, mas nos primeiros dias de novembro de 1918 a vida civil na Alemanha se despeda;ava diante de tensões, privações e desesperança. No porto de Kiel, marinheiros alemães se amotinavam; na Bavária, ocorreu uma revolução socialista bem-sucedida; em Berlim, o imperador Wilhelm II abdicou. Em 11 de novembro – um dia de ignomínia para a Alemanha, porém desejado havia muito por outros países – um armistício foi assinado.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 69-71.

NOTA: O texto "A 1ª Guerra Mundial: Os Estados Unidos na guerra [Parte VII]" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 23 de março de 2014

Os quakers e os católicos nas colônias inglesas da América do Norte

Em 1682, Lord Baltimore obteve da Coroa inglesa a concessão de um território na América do Norte, situado ao sul das possessões holandesas e ao norte da Virgínia, ao qual deu o nome de Maryland. Tendo recebido amplos poderes para governar e legislar, Baltimore instaurou nessa colônia - a única católica - um regime de liberdade religiosa, expressa no Ato de Tolerância de 1649. Essa medida levou muitos puritanos  que não haviam se adaptado à rigidez das leis em outras colônias a se transferirem para Maryland. A economia da colônia baseava-se no cultivo do tabaco, e os agricultores locais - a exemplo do que ocorrera na Virgína - logo recorreram ao trabalho escravo. Para isso muito contribuiu o sistema de distribuição da terra que, ao contrário do que ocorria nas colônias do norte, se caracterizava pelo predomínio da grande propriedade.

Nessa mesma região, surgiu por volta de 1680 a primeira comunidade de colonos quakers, fundada por William Penn (1644-1718), que deu origem à colônia da Pensilvânia. Ao seu principal núcleo povoador foi dado o nome de Filadélfia, cujo significado - amizade e fraternidade - constituía dois pontos básicos do pensamento religioso dos quakers. Membros de uma antiga seita protestante, a chamada "Sociedade dos Amigos", eles não possuíam dogmas, nem uma estrutura eclesiástica, acreditando na livre interpretação da Bíblia e em um relacionamento direto entre Deus e o homem. Sua doutrina religiosa baseava-se na total recusa à violência e à submissão às leis da Igreja e do Estado. Assim, os fiéis orientavam-se nas questões religiosas de acordo com sua consciência e, no plano civil, recusavam-se a pagar impostos.

William Penn negocia um tratado de paz com os índios, Benjamin West

Como consideravam o território americano uma espécie de Terra Prometida, os quakers nele fundaram comunidades abertas a todos os que sofriam perseguições por motivos religiosos, criando uma sociedade relativamente democrática e estabelecendo relações amistosas com os indígenas. Com a chegada de outros grupos de colonos, porém, começaram a ocorrer conflitos que abalaram a primitiva organização social e política dos quakers. Mesmo assim a experiência realizada por esse grupo deixou marcas profundas no processo de colonização da América do Norte, pois suas características essenciais foram herdadas por minorias inspiradas nos mesmos ideais religiosos.

História das Civilizações. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 72 e 74. Volume 4.


NOTA: O texto "Os quakers e os católicos nas colônias inglesas da América do Norte" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Mudanças sociais e desafios culturais nos anos 1920 nos Estados Unidos

Apesar do abafado clima intelectual e social da década de 1920, as mudanças sociais e econômicas continuaram produzindo protesto social e cultural. Uma geração de escritores desencantados, como John dos Passos, Sinclair Lewis, F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Gertrude Stein, criticou a futilidade da sociedade de consumo, as atitudes repressivas do Estado e das corporações e as francas limitações à liberdade individual e aos direitos sociais no país.

Reações à “sociedade moderna” não vieram somente da esquerda: americanos rurais e religiosos revigoravam a defesa de valores tradicionais. As religiões evangélicas, que insistiram na leitura fundamentalista da Bíblia, ganharam bastante apoio em alguns estados como Tennessee, em campanhas anti-seculares para, por exemplo, banir o ensino da Teoria da Evolução, de Charles Darwin.

O movimento antialcoólico convenceu o governo federal a proibir por lei, em 1920, a fabricação e venda de álcool (a proibição durou 13 anos), o que acabou fortalecendo o crime organizado e dando origem a um próspero mercado negro.

Uma tenebrosa ramificação da “defesa da tradição” foi o ressurgimento da Ku Klux Klan (KKK). Falida desde o fim da década de 1870, renasceu em 1915, no ambiente chauvinista dos tempos de guerra. Um dos primeiros produtos da nova indústria do cinema, o filme Nascimento de uma nação (1916), do diretor D. W. Griffiths, glorificou abertamente esse grupo racista. Preocupado primariamente com negros, a KKK ampliou sua mensagem de ódio e violenta intimidação nos anos 1920, denunciando imigrantes (especialmente católicos e judeus) e todas as forças (socialistas e feministas) que ameaçaram a “liberdade individual” e “o jeito americano de viver”. Até 1925, o grupo conseguiu recrutar quatro milhões de membros, muitos dos quais mulheres e “cidadãos respeitáveis” dos estados do Norte. Apesar do seu extremismo e posterior declínio no fim da década, o grupo, sem dúvida, refletiu sentimentos nativistas bem enraizados na sociedade americana.

A modernidade na comunidade negra expressou-se numa série de movimentos e tendências políticas radicais nesses anos. Como outros americanos, alguns negros também foram influenciados por ideias como anticolonialismo e solidariedade entre trabalhadores, decorrentes dos movimentos socialistas e da inspiração da Revolução Russa. Em 1919, o movimento “Novo Negro”, do socialista Hubert Harrison, visionou a emancipação do afro-americano como um projeto a ser levado a cabo por uma aliança multirracial e militante, ao contrário das campanhas meramente legais da NAACP. Embora os movimentos socialistas no país tenham ignorado ou marginalizado a luta contra o racismo, ideias em favor da sindicalização e da classe trabalhadora podiam ser amplamente encontradas nas páginas da imprensa popular negra.

A decepção diante das traições das promessas do governo americano em favor da autodeterminação e democracia para os oprimidos, depois da Primeira Guerra, impulsionou muitos negros ativistas em direção ao que chamavam de “nacionalismo negro” (black nationalism). A Associação Universal para o Melhoramento dos Negros (UNIA em inglês), fundada pelo imigrante jamaicano Marcus Garvey, argumentou que negros precisavam formar um movimento separatista para obter a liberdade. Em 1921, Garvey proclamou:

“Em todo lugar, nós ouvimos o grito de liberdade. [...] Desejamos uma liberdade que vai nos elevar ao padrão de todos os homens [...] liberdade que vai nos dar chance e oportunidade de subir até o ápice pleno da nossa ambição e que nós não conseguimos em países onde outros homens predominam.”

O líder negro rejeitou a assimilação como também a aliança com brancos e fomentou orgulho na “raça negra”. A UNIA montou uma rede de supermercados e outros negócios tocados por negros e aconselhou afro-americanos a voltarem para África, onde eles poderiam criar uma “nova sociedade”. A organização e sua influência perderam força quando Garvey foi condenado por fraude em 1923. Mas o apelo ao “nacionalismo negro” nas cidades do Norte, por alguns anos, mostrou a profundidade dos anseios da população negra por alternativas políticas e teria influência significativa mais tarde em movimentos sociais negros nos Estados Unidos e no Caribe.


Vida noturna, Archibald John Motley

Nos anos 1920, o chamado “renascimento do Harlem” – o florescimento da arte e pensamento centralizado em um grupo de escritores, artistas, músicos e intelectuais negros de Nova York – explorou as possibilidades da ação cultural e política por meio de uma consciência positiva das heranças e tradições afro-americanas. Esses artistas inovadores desenvolveram a ideia de que a vida intelectual e artística era capaz de valorizar os afro-americanos, desafiar o racismo e promover políticas progressistas no país. Escritores como Jean Toomer, Zora Neale Hurston, Langston Hughes, James Weldon Johnson e Claude McKay e artistas plásticos como Richard Nugent e Aaron Douglas misturaram feições modernas e tradicionais de expressão artística, resgatando história e tradições da comunidade negra. Inspiraram gerações de artistas e ativistas pelos direitos civis e tiveram influência enorme na cultura afro-americana ao longo de todo o século XX.


Sean Purdy. Mudanças sociais e desafios culturais nos anos 1920. In: KARNAL, Leando [et alli]. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 2010. p. 203-205.


NOTA: O texto "Mudanças sociais e desafios culturais nos anos 1920 nos Estados Unidos" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

As repercussões da Independência das 13 colônias da América do Norte

Washington atravessando o Delaware, Emanuel Leutze

O primeiro país atingido pela independência dos Estados Unidos foi a Inglaterra. O rei Jorge III, que vinha tentando uma maior concentração de poderes, ficou extremamente desacreditado com a separação das 13 colônias. A derrota inglesa e o Tratado de Paris abalaram momentaneamente a expansão inglesa.

A França absolutista de Luís XVI também foi atingida. Os soldados franceses que haviam lutado na independência voltaram para a Europa com ideias de liberdade e república. Haviam lutado contra uma tirania na América e, de volta à pátria, reencontravam um soberano absoluto. No entanto, só 13 anos depois da independência norte-americana, esse germe de liberdade frutificará na França.

As despesas do Estado francês com a guerra no além-mar foram elevadas, fazendo o já debilitado tesouro francês sofrer bastante. As vantagens obtidas pelo Tratado de Paris só supriram parte do déficit. Dessa forma também, a Revolução Americana colaborou para enfraquecer o poder real e desencadear a Revolução Francesa.

Para o resto da América, os Estados Unidos serviriam como exemplo. Uma independência concreta e possível passou a ser o grande modelo para as colônias ibéricas que desejavam separar-se das metrópoles. Os princípios iluministas, que também influenciavam a América Ibérica, demonstraram ser aplicáveis em termos concretos. Soberania popular, resistência à tirania, fim do pacto colonial; tudo isto os Estados Unidos mostravam às outras colônias com sua independência.

Para os índios, a independência foi negativa pois, a partir dela, aumentou-se a pressão expansionista dos brancos sobre os territórios ocupados pelas tribos indígenas.

Para os negros escravos, foi um ato que em si nada representou. Temos notícia de um grande aumento do número de fugas durante o período da Guerra de Independência. Thomas Jefferson declarou que, em 1778, a Virgínia perdeu 30 mil escravos pela fuga. No entanto, nem à Inglaterra (que dependia do trabalho escravo em áreas como a Jamaica) nem aos colonos - os sulinos em particular - interessava que a Guerra de Independência se transformasse numa guerra social entre escravos e latifundiários, o que de fato não aconteceu.

Com todas as suas limitações, o movimento de independência significava um fato histórico novo e fundamental: a promulgação da soberania "popular" como elemento suficientemente forte para mudar e derrubar formas estabelecidas de governo, e da capacidade, tão inspirada em Locke, de romper o elo entre governantes e governados quando os primeiros não garantissem aos cidadãos seus direitos fundamentais. Existia uma firme defesa da liberdade, a princípio limitada, mas que se foi estendendo em diversas áreas.

Já nas dez primeiras emendas à Constituição, em 1791, os direitos e liberdades individuais são esclarecidos e aprofundados. Essas emendas, chamadas Bill of Rights, são muitas vezes consideradas mais importantes do que todo o texto da Constituição.

A Primeira Emenda proíbe que se estabeleça uma religião oficial ou se limite o exercício de qualquer religião. A liberdade de expressão e de imprensa são declaradas fundamentais e o povo tem o direito de reunir-se pacificamente e fazer petições contra um ato governamental que não lhe agrade. A Segunda Emenda garante o direito de cada cidadão ao porte de armas. A Terceira trata da proibição de se alojar soldados nas casas sem consentimento do proprietário. Outras emendas falam do direito ao júri, do direito a um julgamento público e rápido, proíbem multas excessivas e penas cruéis e - no máximo cuidado democrático - a Nona Emenda afirma que todos os direitos garantidos nas emendas não significam que outros, não escritos, não sejam válidos também.

Surgia um novo país que, apesar de graves limitações aos olhos atuais (permanência da escravidão, falta de voto de pobres e de mulheres), causava admiração por ser uma das mais avançadas democracias do planeta naquela ocasião. Essas realidades encantariam um pensador francês em visita aos Estados Unidos no século XIX, Alexis de Tocqueville, que, entusiasmado, afirmou:

Há países onde um poder, de certo modo exterior ao corpo social, age sobre ele e o força a marchar em certa direção. Outros há em que a força é dividida, estando ao mesmo tempo situada na sociedade e fora dela. Nada de semelhante se vê nos Estados Unidos; ali, a sociedade age sozinha e sobre ela própria [...] O povo reina sobre o mundo político americano como Deus sobre o universo. É ele a causa e o fim de todas as coisas, tudo sai de seu seio e tudo se absorve nele.

Entretanto, o mesmo Tocqueville, vindo de uma sociedade aristocrática, não deixa de tecer críticas à maneira de ser da jovem nação. Em passagem venenosa, o autor declara:

Frequentemente observei nos Estados Unidos que não é fácil fazer uma pessoa compreender que sua presença pode ser dispensada, e as insinuações nem sempre bastam para afastá-la. Se contradigo um americano a cada palavra que diz, para lhe mostrar que sua conversação me aborrece, ele logo se esforça com redobrado ímpeto para me convencer; se mantenho um silêncio mortal, ele julga que estou meditando profundamente nas verdades que profere; se por fim fujo da sua companhia, ele supõe que algum assunto urgente me chama para outro lugar. Esse homem nunca compreenderá que me cansa mortalmente, a não ser que eu diga, e, assim, a única maneira de me ver livre dele é transformá-lo em meu inimigo pela vida inteira.

Como vemos, a admiração pela política do novo país não era ampliada para a admiração pela conversa dos novos cidadãos.

KARNAL, Leandro. Estados Unidos: a formação da nação. São Paulo: Contexto, 2012. p. 93-97.