"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Animismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Animismo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Povos da Oceania: os melanésios e os micronésios

Tohunga sendo alimentado no tapu (sagrado/proibido), Gottfried Lindauer. 

Os melanésios encontravam-se num estágio de civilização que recordava o período neolítico adiantado. Fisicamente mais evoluídos, de barba rala, o nariz mais reto, as arcadas supraciliares raramente proeminentes, usavam enfeites mais rebuscados: tatuagens para as mulheres, pinturas no corpo para os homens, deformação da cabeça ou da cintura, descoloração dos cabelos, ou pintura com ocre, colares e braceletes feitos de dentes e de conchas, plumas ou flores nos cabelos.

Seus utensílios eram mais aperfeiçoados: achas de pedra polida, facas de conchas, limas em pele de raia, sovelas de ouro, armas variadas, compreendendo arcos e fundas. Eram principalmente excelentes marinheiros que sabiam construir e dirigir grandes pirogas e também hábeis agricultores que, com um simples pau para revolver a terra, cultivavam inhame e taro. Conheciam o sistema monetário, baseado em plumas ou em dentes, eram ávidos de lucro e alguns faziam belas fortunas, emprestando a um juro de 100%.

Sua sociedade era matriarcal. Eram os tios quem mandavam nos filhos da irmã. Os homens comiam e dormiam numa espécie de clube da aldeia e os dois sexos viviam quase sempre separados. O casamento fazia-se por compra e os ricos eram polígamos.

O Estado político era democrático, mas as sociedades secretas desempenhavam grande papel e nestas só os ricos, que podiam despender grandes somas e dar festas, ascendiam aos graus superiores. Estas sociedades aterrorizavam os não-iniciados por meio de agressões, multas e até a morte.

Suas crenças religiosas eram vivas, embora, ao mesmo tempo, de um nível inferior às dos outros povos precedentes, menos civilizados. Acreditavam no mana, virtude sobrenatural transmissível. Um bom pescador possuía o mana. Para triunfar em qualquer coisa era preciso mana, e este podia conseguir-se através da magia. Algumas formas de mana eram perigosas. Nessa altura o tabu (interdição) era lançado sobre as pessoas, os objetos ou os lugares que o possuíam. Todos eram animistas, isto é, acreditavam na existência de espíritos difundidos nas pedras, nas árvores, nas serpentes, em toda parte. Mas não se elevavam ao politeísmo; acreditavam na sobrevivência dos espíritos dos mortos. Entregavam-se a preces, sacrifícios, cantos ritmados e talhavam na madeira a figura do antepassado que participaria na vida de seus descendentes.

Os micronésios assemelhavam-se-lhes muito, embora num grau um pouco mais elevado. Navegadores notáveis, os seus comerciantes realizavam longas viagens em pirogas de balancim, servindo-se de mapas feitos de canos de bambu. Tinham uma nobreza e servos. Os navegadores mais peritos eram recompensados com a concessão de feudos. Certas ilhas haviam atingido o politeísmo e possuíam um rico panteão, dominado por um Deus.


MOUSNIER, Roland; LABROUSSE, Ernest. O século XVIII: o último século do antigo regime. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 376-377 (História geral das civilizações, v. 11)

NOTA: O texto "Povos da Oceania: os melanésios e os micronésios" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O homem do século XVI: o conhecimento

A quermesse de São Jorge com a dança ao redor do poste, Pieter Brueghel, o Jovem

A um nível diferente do psiquismo, o homem do século XVI não possui exatamente as mesmas faculdades naturais de conhecer o mundo exterior, nem mesmo a aparelhagem mental do homem do século XX. Entretanto, sua necessidade de certeza é, talvez, ainda maior do que a nossa. Porém, por um exemplo, o da França, esclarecido por trabalhos recentes, quantos outros permanecem de nós desconhecidos.

- Os sentidos. Eles são, provavelmente, mais aguçados do que os nossos num universo em que o homem se situa, mais amiúde, num estado de alerta. A hierarquia não é a mesma de hoje (L. Febvre).

A vista, que é o nosso sentido primordial, não vem, então, senão após o ouvido e o tato. Antes da propagação do livro impresso, a leitura constitui um meio de informação menos utilizado do que a audição. Os conselheiros dos soberanos são chamados auditores e as relações quase sempre são orais. A Palavra de Deus é comunicada muito mais pelo sermão ou pela prédica do que pela leitura. Entendimento significa compreensão. O tato é o órgão da certeza. Fornece ao homem a confirmação do que ele vê. As práticas religiosas ratificaram tal confiança (imposição das mãos, toque das relíquias). Todavia, no século XVI, desenvolve-se a função da vista, época em que o uso dos vidros brancos e dos óculos dão um prolongamento à atividade do homem.

- A influência do meio natural sobre o pensamento. Devido à falta de confiança na vista, o órgão do conhecimento científico, o homem permanece orientado para o qualitativo. Nem o espaço, nem o tempo são medidos com exatidão.

As medidas do espaço são tomadas de empréstimo ao corpo humano: polegada, pé, passo, cúbito, ou ao deslocamento do homem: dia de marcha. A jornada de carruagem é a unidade de superfície mais difundida. Todas estas medidas têm um valor variável. Não existe nenhuma possibilidade de avaliar as grandes distâncias.

Depara-se a mesma imprecisão para a expressão do tempo. A duração é o tempo vivido. Não se conta em horas, mas em preces: o tempo de uma ave, de dois padres-nossos. O tempo-instante é fixado pelos incidentes metereológicos contemporâneos. A data é expressa segundo um acontecimento e com relação às festas.

A divisão do tempo é baseada na alternância do dia e da noite. A relojoaria já produziu obras estimáveis a serviços das municipalidades, mas frágeis e pouco numerosas. O começo da jornada não estava fixado com uniformidade. Situa-se, na Itália, no começo da noite. Ocorre o mesmo com o início do ano. É somente no decorrer do século XVI que se introduz a ordem na questão da data.

Na realidade, só o ritmo das estações e a alternância do dia e da noite é que contam. Os meses são expressos pelos trabalhos do campo ou, entre as pessoas de saber, pelos símbolos do zodíaco. A divisão do dia em horas equivalentes durante todos as estações mal começa a impor-se. É verdade que, vivendo embora uma vida mais curta do que a nossa, o homem do século XVI é menos apressado que o do século XX. Dia de entrevista e tempo transcorrido num trabalho são noções muito elásticas.

Em contrapartida, o homem é muito mais sensível às concomitâncias percebidas na natureza. O animismo é alimentado por uma imaginação muito concreta: demônios, íncubos, súcubos, lêmures para as pessoas de saber, duendes, diabretes para todos, são companheiros da vida cotidiana.

- A fraqueza da expressão abstrata. As línguas vivas não permitem expressar perfeitamente os conceitos. Faltam ao francês da época muitos termos abstratos. O progresso da tipografia não permitiu ainda a codificação de Villers-Cotterêts que torna o seu emprego obrigatório nos atos jurídicos (1539). Mas ele não convém de todo à ciência. É, pois, verossímil que as outras línguas europeias não estejam melhor aparelhadas.

O latim, que apresentava a vantagem de ser compreendido pelo mundo erudito da Europa, podia enriquecer-se de neologismos, mas tendo sido "feito para exprimir as tentativas de uma civilização morta há uma dúzia de séculos... seria ele capaz de acolher ideias ainda por vir?" (L. Febvre).

A expressão do quantitativo está ainda mal dividida. O cálculo, contudo, dotou-se de usos simples, mas apenas para a contabilidade comercial. O cálculo científico está embaraçado por dificuldades de expressão. Os algarismos gobar (ditos árabes), hindus de origem, não penetraram a vida corrente onde imperam sempre os algarismos romanos cuja utilização nas contas feitas no papel é de tal modo complicado, que se empregam preferentemente o tabuleiro de xadrez, o ábaco e as fichas.

- Necessidade de certeza. Será talvez por causa de todas estas debilidades que se torna imperioso a necessidade de certeza? Prisioneiro do meio natural, o homem o conhece mal. Ele desdenha a observação metódica e não vê nela senão curiosidade, mas não faz disso um dever. O homem prefere raciocinar, sem se preocupar com o valor das bases desse raciocínio.

Consciente da fragilidade de sua ação sobre a natureza, ele considera como uma experiência miraculosa tudo quanto sabe fazer, sem ousar arriscá-lo por mudanças demasiado rápidas de método. Ele situa a idade de ouro nas origens da humanidade e apóia-se na tradição, não por preguiça de espírito ou por rotina, mas por razão. Por isso os trabalhos científicos estão atulhados de citações. Entrincheira-se atrás de autoridades e discute-se, sobretudo, os desacordos. É por aí, unicamente, que o pensamento avança.

Enfim, a necessidade de certeza sacia-se nas crenças animistas que se misturam às mais evoluídas religiões. Assim se explicam, sem se admitir a dúvida, as relações entre os seres, os seres e as coisas e entre as próprias coisas. Agir sobre a natureza é descobrir o caráter dos espíritos e forçá-los a agirem. Por isso a magia é apenas uma falsa ciência.

A magia é inocente. Não ocorre o mesmo com a feitiçaria. A feitiçaria, praticada entre os cristãos, é muito mais temível. Faz-se acompanhar de perversão ou mesmo de inversão de todos os preceitos das leis divinas e naturais. Sabemos hoje que ela revela do domínio da patologia. A feitiçaria só teria para o historiador um interesse limitado se as autoridades humanas não tivessem crido nas narrativas dos feiticeiros e na realidade do sabá. A feitiçaria constitui, portanto, um elemento negativo do conhecimento que não se deveria subestimar.

Fraco domínio sobre a natureza, força da tradição, magia e feitiçaria eram, igualmente, obstáculos aos progressos da humanidade. É na Europa Ocidental que o espírito de empreendimento suscita os maiores esforços no sentido de lhes escapar.

CORVISIER, André. História moderna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 21-23.

NOTA: O texto "O homem do século XVI: o conhecimento" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Cultura e religião na África pré-colonial

A história do continente africano, geralmente, é construída de fora para dentro, com base nos interesses que buscaram (e buscam ainda) dominar a África e os africanos, mas também por culpa de africanos que se espelham e vivem à imagem dos povos que os dominaram, sem referência ao seu passado histórico. Segundo Ki-Zerbo (2010), é imperativo que a história e a cultura da África sejam também vistas de dentro, sem serem analisadas por parâmetros de valores exclusivamente europeus. Portanto, apesar dos mitos e preconceitos de todo tipo, que durante um longo período de tempo ocultaram a real história deste continente, existiu e existe até os dias de hoje culturas, religiões e grupos linguísticos diversos, bem como uma organização social própria dos povos africanos.



O continente africano é conhecido pela diversidade e pela riqueza de suas culturas e religiões, mas sobre o período pré-colonial a maioria dos filmes e documentários mostra uma imagem essencialmente primitiva e "bárbara". No entanto, essa visão não passa de um olhar racista e ideológico que busca descaracterizar o continente para poder controlá-lo com facilidade. Apesar disso, nenhuma dessas classificações pode apagar a história da mais antiga região do mundo, que é, culturalmente, um conjunto plural, um mosaico de nações étnicas correspondentes a identidades distintas.

Nesse sentido, Cheikh Anta Diop (1999) observa que não se deve construir a humanidade apagando a cultura de uns em benefício de outros e, tampouco, renunciando prematuramente e de forma unilateral sua cultura nacional no intuito de se adaptar à do outro em nome da simplificação da "globalização", pois isso seria um suicídio. Ou seja, importa resgatar as culturas africanas do período anterior ao colonialismo europeu, bem como suas relações com o resto do mundo, principalmente, devido às diferenças físicas, linguísticas e de organizações sociopolíticas que caracterizam a realidade africana.

Desse modo, podemos definir a cultura como sendo o conjunto da maneira de pensar, agir e se comportar de um povo que vive em coletividade, compartilhando símbolos e valores. Segundo Giddens (2004), o conceito de cultura se refere aos aspectos da sociedade humana que são apreendidos e não herdados, porém compartilhados pelos membros das sociedades e tornam possível a cooperação e a comunicação. Desse modo, a cultura é composta tanto por elementos materiais como por obras de arte, técnicas ou instrumentos de trabalho do grupo, bem como suas vestimentas, elementos espirituais ou religiosos que incluem ideias, crenças, normas, valores e costumes do grupo. Portanto, a compreensão de qualquer cultura deve evitar privilegiar, como foi feito no caso da África, o fator psicológico da identidade cultural em vez de considerar também as dimensões históricas e linguísticas (DIOP, 1987). No caso da África pré-colonial, a consideração desses elementos nos leva a falar, além da origem egípcia da civilização africana e mundial, da história dos Estados africanos conhecidos como impérios ou reinos, que foram grandes centros de divulgação da cultura africana.

Durante esse período, apesar do Deserto do Saara dividir o continente africano em dois, gerando o desenvolvimento de estilos de vida diferentes entre o norte e o sul, sempre houve trocas comerciais, culturais e sociopolíticas entre os povos das duas partes do continente. Assim o desenvolvimento de relações intercomunitárias e a organização no âmbito da formação de Estados foram facilitados. Um exemplo disso foi o Império de Gana, o mais antigo da parte ocidental do continente [...], que teve como respectivos sucessores os impérios Mali e Songhai. Essa sucessão mostra, em parte, a continuidade histórica dos povos africanos cuja base da civilização é a cultura egípcia, contrariando as afirmações das teorias que tentam distinguir a civilização e a cultura egípcia da dos demais povos do continente.

Segundo Diop (1999), a civilização do Egito Antigo é a base do patrimônio cultural, filosófico e científico de todos os africanos do continente, influenciando também a diáspora. Importa dizer que apesar de a África ser definida, primariamente, como um continente pobre e que pouco inovou, antes da colonização europeia o continente era uma das partes do mundo mais dinâmicas do ponto de vista da pesquisa e do florescimento cultural graças à organização política e socioeconômica de seus impérios. Assim, segundo Cissé (2010), na África Ocidental, por exemplo, mais especificamente na zona sudanesa-saariana, os contatos entre a população local e a cultura árabe-muçulmana, entre os séculos VIII e IX, propiciou uma grande produção de manuscritos em árabe nos principais centros urbanos como Gao, Djene e Timbuktu.

Considerando um intervalo de tempo um pouco maior, do século VII ao XVI, e sob vários aspectos, o continente africano passou por momento importante, pois este foi um período privilegiado para o desenvolvimento de culturas originais. Sem perder sua identidade, os africanos assimilaram influência externa. Foi nesta época que o grande Império do Sudão, situado ao sul do Saara, entrou em contato com a cultura e a religião islâmicas, as quais a partir de então passaram a fazer parte da cultura africana, convivendo quase que em harmonia com as religiões e crenças locais. Portanto, de forma oposta ao cristianismo, que chegou ao continente negro juntamente com os exploradores e futuros colonizadores europeus, o islamismo chegou à África pregado por africanos que tiveram contato com os fundamentos islâmicos a partir de viagens ao Oriente Médio. Conforme Diop (1999), a penetração do islã na África foi feita de forma pacífica, exceto o caso da islamização do movimento almoravida, durante a primeira metade do século XI, quando os berberes tentaram impor o islã pela força das armas.

Vale ressaltar que o contato dos africanos com o mundo árabe marcou o início de novos relacionamentos do continente negro com o exterior. Essas relações se intensificaram, resultando em formações sociais, políticas e culturais complexas, baseadas na diversidade que caracteriza o continente. Essa diversidade, por sua vez, dificulta a compreensão da formação, em termos de crença, de um sincretismo ou hibridismo religioso que se observa no continente até na atualidade. Desse modo, o entendimento das religiões africanas tradicionais se torna mais complicado devido à incorporação pelas mesmas de outros elementos provindos dos contatos com o exterior, notadamente do islamismo, e mais tarde do cristianismo.

Assim, segundo Tedanga (2005), para caracterizar as práticas religiosas na África tradicional os estudiosos das religiões e antropólogos do mundo moderno fabricaram todo tipo de denominação reducionista e ideológica das crenças africanas. Nesse sentido, encontramos na literatura conceitos como animismo, fetichismo, ancestralismo, magismo e totemismo, entre outros. Independentemente do termo ou conceito que se use, percebe-se a carga reducionista. No entanto, se considerarmos que fetichismo, animismo ou totemismo são três fenômenos da vida humana, é normal que a religião africana tenha interesse por eles, embora seja abusivo reduzir o conjunto de suas crenças focando somente esses elementos.



Importa dizer que as religiões da África são tão diversas quanto as línguas e etnias do continente, já que cada uma delas tem seus deuses, gênios ou ancestrais cuja adoração, ritos, oração ou sacrifício segue uma lógica única. Por isso, segundo Dieng (2007), à primeira vista tudo parece ser diferente entre as religiões dos dogons, dos malis e dos zulus da África do Sul, ou entre os pangos e os iorubás da Nigéria. Porém, um olhar mais aproximado pode diagnosticar algumas características fundamentais, que são idênticas entre esses cultos essencialmente destinados a ligar os homens ao mundo invisível, seja na forma natural ou sobrenatural. Na África, os povos têm mais ou menos a mesma concepção sobre seus ancestrais, sobre os gênios, seus modos de encarnação ou de reencarnação, bem como o entendimento sobre os vivos. Portanto, pode-se encontrar no totemismo e no fetichismo uma relação sutil entre o homem, o animal e a natureza.

Fica evidente que, do ponto de vista religioso, o continente africano apresenta uma rica variedade que reflete o importante papel das crenças nas organizações políticas e socioeconômicas. Isso mostra a importância da religião, da divindade ou do sagrado na vida dos africanos, bem mesmo antes da chegada das chamadas religiões reveladas (cristianismo e islamismo). [...]

Desse modo, pode-se afirmar que o monoteísmo africano é anterior ao islamismo, pois as religiões e o comportamento da maioria dos povos do continente se baseiam na moral e no respeito à vida em conjunto harmonioso, tanto entre os homens quanto entre eles e a natureza. Apesar da grande presença do islamismo na África Subsaariana nos séculos que antecederam à chegada do cristianismo e da colonização, importa sublinhar que a religião que dominava nos principais Estados ou impérios como Songhai, Mali e Benin, por exemplo, é aquela ligada às crenças ancestrais, as quais acreditavam em um ser supremo, do qual procedem todas as pessoas. Consequentemente, todos os indivíduos são valiosos e dignos de respeito. Ou seja, a cultura tradicional africana põe especial ênfase nas virtudes como a tolerância, a hospitalidade, a paciência e todos os valores que asseguram a harmonia social. Daí o rápido crescimento do cristianismo e do islã no continente, pois, segundo Dieng (2007), a rápida expansão dessas religiões na África se deve, em grande parte, ao sentido religioso, ao respeito e a tolerância inerente à cultura tradicional.

Nesse sentido, conclui-se que, do ponto de vista cultural, principalmente no que diz respeito à religião, a África tem sido uma grande precursora dos valores humanos incorporados pelas religiões reveladas (cristianismo e islamismo), apesar do discurso que anunciava a tarefa de "civilizar" os povos africanos a partir de seus valores. [...]

De qualquer modo, a religião dominante na África pré-colonial foi o animismo ou religião tradicional, apesar da islamização do continente a partir do século IX. O animismo consiste na crença em um único criador do universo que colocou um espírito em todas as coisas, sejam elas animadas ou não. Igualmente são cultuados os ancestrais, e se dá um valor particular à magia, notadamente a que cercam os ferreiros. Desse modo, percebe-se que a entrada e a expansão do islamismo se deram, principalmente, devido a essa coincidência de culto ao ser superior único, mas também por não ser uma religião de elite e aceitar sua expansão sem a erradicação do animismo (SYLLA, 1994). Nessa lógica, os seres são hierarquizados. Até o ser supremo, que pode ser confundido com o ancestral, nunca é uma abstração, mas sim energia viva, forças submetidas aos princípios de interação e que, como as forças físicas não mecânicas, podem se somar, se destruir ou se neutralizar (WADE, 2005).

Portanto, mesmo com a entrada das religiões monoteístas (islamismo e cristianismo), vale ressaltar que a religião tradicional continuou sendo a principal crença, pois nesse campo, na maioria das vezes, a aceitação e a adoção das religiões estrangeiras eram vistas pelos africanos como uma forma de receptividade e de acesso ao outro para fins comerciais. [...]

Grosso modo, a cultura e a religião são dois elementos fundamentais para o entendimento da sociedade tradicional africana [...]. Porém, continuam pouco conhecidas e, principalmente, encaradas a partir do etnocentrismo ocidental, pois sempre foi importante justificar a presença estrangeira no continente africano. Mas independentemente dos aspectos negativos dessa presença, importa dizer que as crenças tiveram uma influência profunda sobre a organização social africana, centrada no núcleo tradicional, baseada no clã dirigido pelos anciãos.

VISENTINI, Paulo Fagundes et al. História da África e dos africanos. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 21-26.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O mundo dos espíritos: animismo e xamanismo

Reconhecendo as forças naturais e sua habilidade de afetar vidas humanas, muitas comunidades humanas primitivas desenvolveram sistemas de crenças baseados na ideia de que os mundos natural e animal eram favorecidos pelo poder espiritual (animismo). No xintoísmo essas forças são chamadas de kami, e podem ter incluído de tudo, desde cachoeiras e montanhas até divindades com características humanas como a Deusa do Sol. Entre muitos povos mesoamericanos, incluindo os zapotecas (cerca de 500 a.C. - 500 d.C.) e os maias, a noção do sopro, a brisa ou espírito animístico incorporado em forças naturais e no mundo natural foi fundamental à sua cosmologia: tudo aquilo que se move deveria ser respeitado como  o reflexo de um criador único, incorpóreo. Essas forças eram, então, personificadas como deuses ou deusas.

Xamã de uma tribo indígena da Amazônia venezuelana.

Comunidades humanas antigas também praticavam o xamanismo, crenças e práticas focadas em indivíduos com habilidades especiais que permitem a comunicação com espíritos. O xamanismo persiste no mundo contemporâneo, em lugares como a Coréia e até mesmo nos Estados Unidos e na África. Xamãs, que podem ser mulheres ou homens, que se pensava que poderiam se comunicar com outros seres antropomórficos ou espirituais em favor da comunidade por meio de transes cerimoniais. Na sociedade coreana moderna, refletindo práticas que podem ser originárias dos primeiros habitantes da península coreana, xamãs femininos realizam cerimônias para dar assistência a seus clientes que buscam ajuda com uma onda de azar ou para garantir um futuro benéfico.

Jorge Nopaltzin Guaderrama. Tradição asteca. Nopaltzin ensina as pessoas a viverem diretamente do coração, incondicionalmente.

Algumas artes rupestres têm sido interpretadas como representações das experiências xamânicas, notavelmente nos exemplos do sul da África, oeste da América do Norte e na Austrália. Entre os povos san do sul da África, acreditava-se que os xamãs influenciavam os rebanhos de elandes, um tipo de antílope que eles caçavam. Imagens de figuras antropomórficas (parte humana, parte elandes) em artes rupestres recentes e antigas podem ser referência às experiências de transes, nas quais os xamãs tornavam-se um elande. De forma semelhante, utilizando evidências etnográficas e arqueológicas, acadêmicos interpretaram artes nas pedras de 4 mil anos, da região do baixo curso do Rio Pecos no sudoeste do Texas e no norte do México, que retratavam figuras antropomórficas atravessando uma abertura em forma de um arco sinuoso que eram a representação pictográfica de uma jornada xamânica dentro do mundo espiritual.

Curandeiro Nez Perce, George Catlin.

Junto à arte rupestre, os artefatos mais antigos que oferecem uma dica sobre as ideias e práticas religiosas da América do Norte são cachimbos com figuras humanas que pareciam estar em transe, esculpidas na parte saliente. Esses cachimbos, datando de 3 mil anos atrás, provavelmente eram usados em cerimônias xamânicas nas quais fumar uma substância produzia um estado de transe que permitia que o xamã entrasse em contato com o mundo espiritual. Os cachimbos surgiram quando os construtores de altares norte-americanos começaram a erguer plataformas nas quais as cerimônias - que presumivelmente deveriam utilizar esses cachimbos - podiam acontecer no alto de grandes montes de terra.

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 100-101.