"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 11 de dezembro de 2016

Povos das estepes: os kushana

Os kushana. Ásia central, norte da Índia, séc. I a.C. - c. 350 d.C.

Moeda de ouro de Kanishka 

Possivelmente originários de um povo conhecido pelos chineses como Yuezhi, os kushana dominavam uma região no norte da Índia perto de Punjab desde os primórdios do séc. I d.C.

O Império Kushana atingiu seu auge no governo de Kanishka (c. 78-100 d.C.) e abrangeu praticamente todo o norte da Índia, inclusive as grandes cidades de Ujjain e Pataliputra. Sob grande pressão dos persas sassânidas a partir da década de 220 d.C., o Império Kushana se fragmentou, e a ascensão dos Gupta ao sul de seu território na década de 320 d.C. finalmente levou-o ao fim. A arte desse povo, influenciada pela Grécia e pelo budismo (ao qual se converteram), distingue-se por suas elegantes estátuas.

PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar: história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 145.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Povos das estepes: os hunos

Átila e suas hordas sobre a Itália, Eugène Delacroix

Os hunos. Sul da Rússia, Europa central, Bálcãs, sécs. IV e V d.C.

Mencionados pela primeira vez em 370 d.C., os hunos, que se tornaram os mais temidos e odiados inimigos bárbaros de Roma, eram provavelmente um grupo misto, composto pelos vários povos que eles derrotavam.

Em 434 d.C., o rei huno Rua morreu, e seu filho, Átila, iniciou uma política agressiva, devastando grande parte dos Bálcãs e saqueando uma sequência de cidades em 441-442 d.C., e novamente em 447 d.C. Em 451 d.C., os hunos se voltaram para o oeste, em direção às terras férteis da Gália, mas foram derrotados por uma aliança de última hora entre os romanos do general Aécio e aliados bárbaros. Destemido, Átila entrou na Itália no ano seguinte, mas desistiu de um ataque a Roma, provavelmente devido a uma peste que tinha se propagado naquela cidade. Após a morte do pai, no ano seguinte, os filhos de Átila tentaram em vão manter a integridade do império, mas em um período de 10 anos os hunos praticamente deixaram de existir como um grupo organizado.

PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar: história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 145.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Povos das estepes: os citas

Arqueiro cita. Cerâmica grega, ca. 530-520 a.C., Oltos

Durante milênios, grupos nômades e seminômades viveram nas estepes - terras de vegetação gramínea que se estendiam da Europa oriental até a China. A história do povo das estepes foi influenciada pelas condições geográficas da terra, e suas migrações geraram conflitos com inúmeras potências, desde os romanos, no Ocidente, até os partos, os sassânidas e o Império Mauria, na Índia.

Batalha entre os citas e os eslavos, Viktor Vasnetsov

Os citas. Ásia central, séc. VI a.C. - séc. II d.C.

Mencionados pela primeira vez em fontes históricas no séc. VI a.C, os citas parecem ter migrado da Ásia central para o sul da Rússia aproximadamente nessa época. Seus guerreiros lutavam com arcos, flechas e machados, quase sempre a cavalo. Usavam barretes de feltro e, a não ser por alguns membros da aristocracia, portavam pouca ou nenhuma proteção como armadura.

Os citas possuíram extensos territórios em diferentes períodos, mas é difícil localizá-los, dada a tendência dos autores gregos e latinos a se referirem indiscriminadamente aos grupos das estepes como "citas". Um grupo, os "citas reais", controlava uma área no sul da Rússia, onde a descoberta em túmulos de estonteantes tesouros em artefatos de ouro indica uma cultura bem desenvolvida.

No séc. II d.C., os citas encontravam-se marginalizados pelos sármatas - povo falante de iraniano recém-chegado -, que, por sua vez, foram derrotados pelos hunos no séc. IV d.C.

Os citas deixaram uma grande quantidade de montes de terra funerários em forma de pirâmides, conhecidos como kurgans, no sul das estepes russas, principalmente em Pazyryk. Ali eram enterrados corpos mumificados de governantes juntamente com os de seus cavalos e muitas oferendas em ouro.

PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar: história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 144.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Dos descobrimentos à colonização - Parte 2

[Núcleos europeus no continente asiático]


Vista de Goa em 1509. Atlas Braun e Hogenberg, 1600 

A rota marítima para as Índias, aberta pelos portugueses, e seus vários entrepostos instalados em terras asiáticas, atraíram para o Extremo Oriente outros povos europeus. Primeiramente os holandeses, depois os ingleses e franceses retomaram as rotas portuguesas. A penetração colonizadora inglesa conseguiu impor-se à francesa lançando, até o fim do século XVIII, a base de um futuro império colonial na Índia.


Portugueses
Controlam, até o século XVII, o comércio das Índias Orientais através de entrepostos em Málaca, Java, Sumatra, nas Molucas, da possessão de Macau, das fortalezas de Goa e Diu.

Holandeses
Fundam a Companhia Holandesa das Índias Orientais (início do século XVII). Ocupam Java, fundando Batávia; abrem entrepostos nas Molucas, Célebes, em Sumatra, Málaca, na China e no Japão; ocupam Ceilão, isto é, estabelecem-se nas mesmas regiões em que se achavam os portugueses.

Ingleses
Confiam a iniciativa colonizadora a companhias particulares, controladas pela coroa, como a Companhia Inglesa das Índias Orientais (início do século XVII). Impõem-se na Índia, em Calcutá, Bombaim, Madras e, no fim do século XVIII, entram em conflito com os franceses.

Franceses
Fundam, em meados do século XVII, a Companhia Francesa das Índias; estabelecem entrepostos no Oceano Índico, nas ilhas Bourbon e Maurício; adquirem o território indiano de Pondichéry; abrem entrepostos em vários pontos da costa indiana. Em fins do século XVIII, após disputa com os ingleses, renunciam a maiores pretensões na Índia.

Espanhóis
Ampliam sua iniciativa colonizadora nas Ilhas Filipinas.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 185.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Povos do mundo: Ásia

[Khevsureti, Shalva Kikodze]

[Pastores curdos reunidos, Heinrich Vogeler]

[Lama de Kalmyk, Vasily Vereshchagin]

[Um oficial indiano ao lado de um lanceiro, Alfred Crowdy Lovett]

[Infantaria japonesa: músicos, Auguste Wahlen]

[Dama persa, Auguste Wahlen]

[Família tártara, Auguste Wahlen]

[O mercado de tapetes, Jean-Léon Gérôme]

[A favorita do Emir, Jean-Joseph Benjamin-Constant]

[Senhoras armênias em casa, Henry John Van-Lennep]

[Mulheres de Tiflis, cavaleiro curdo, homem persa e homem circassien, Henri Félix Emmanuel Philippoteaux]

[Senhora japonesa fumando, Korinsai]

[A casa de gueixas, Gyula Tornai]

[Gueixa bebendo saquê na chaleira, Tsukioka Yoshitoshi]

[Festa comemorativa para o Tratado de comércio entre a Coréia e o Japão em 1883, Ahn]

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O legado da civilização mongólica

Gengis Khan e emissários chineses, Sayf al-Vâhidî. Hérât

Contrastando com os impiedosos massacres dos inimigos, deve-se apontar, desde logo, um marcante legado dos mongóis a Pax Mongolica. Esta Pax possibilitou, com relativa segurança, o desenvolvimento de atividades mercantis do Oriente ao Ocidente através de regiões e povos os mais diversos. Com os viajantes e com as mercadorias seguem também as ideias e invenções. A presença de mercadores venezianos em Pequim, de emissários mongóis em Bordeaux e Northampton, de cônsules genoveses em Tabriz, de artesãos franceses em Caracórum, de agentes fiscais árabes na China "são uma prova de que o mundo do século XIII estava-se contraindo. Neste sentido, o livro de Marco Pólo era algo mais que um catálogo de maravilhas: simbolizava o amanhecer de uma nova era." Observe-se que, ao lado das rotas continentais que correspondiam à antiga rota da seda, os mongóis reabriram a via marítima, a rota das especiarias. Grousset insiste na importância das rotas mundiais mantidas pelos mongóis: "A reunião da China, do Turquestão, da Pérsia e da Rússia em um imenso império regido por um yassaq severo, sob princípios atentos à segurança das caravanas e tolerantes para com todos os cultos, reabria por terra e por mar as rotas mundiais obstruídas desde o final da Antiguidade."

Viajantes e missionários que, usufruindo da Pax Mongólica, percorreram com segurança a Ásia e registraram o que viram, deixaram uma notável contribuição que iria frutificar nas concepções e atuações dos intrépidos navegantes lusitanos e espanhóis que marcaram com os Descobrimentos o início dos tempos modernos.

Hambly chama a atenção para o novo conceito de imperium surgido com a vida e as conquistas de Gengis-Khan e que cativou a imaginação dos homens, embora a impressão inicial ante o fenômeno fosse de terror. A lembrança desse império "ia ser tão penetrante e tão desafiante para as gerações posteriores como a lembrança do reich de Carlos Magno o foi para a Europa Medieval." "Jamais império tão vasto fora construído; e jamais a teoria do império universal tinha sido formulada com tanta força."

Podemos aferir a profunda impressão que a grandiosidade do império mongol causou na posteridade, especialmente no continente asiático, pelo fato de que "depois da queda do Império Mongol todos os chefes da Ásia Central procuravam, se pudessem, legitimar seu mandato proclamando-se descendentes de Gengis-Khan..."

Gernet aponta as diversas contribuições que da Ásia Oriental chegaram à Europa Medieval e cuja transmissão foram favorecidas pelas cruzadas dos séculos XII e XIII e pela expansão do Império Mongol nos séculos XIII e XIV: "A simples enumeração dos contributos da Ásia Oriental para a Europa Medieval nesta época - influências diretas ou invenções sugeridas pelas técnicas chinesas - basta para revelar a sua importância." 

Miquel lembra o legado que o Islam recebeu da Ásia Central e da China e que acrescentou às heranças iranianas: "somente alguns exemplos: mongol, o hábito de considerar o território como patrimônio teoricamente coletivo e indiviso do clã-Estado; mongol, a eleição do chefe pela assembleia dos príncipes; mongóis, certos atributos ou sinais exteriores do poder..."

Um legado interessante dos mongóis situa-se no campo da escrita: o alfabeto mongol, supra-estudado, encontra-se na origem do alfabeto mandchu. Février sublina: "o aspecto exterior da escrita mandchu é extremamente próxima do aspecto da escrita mongol." Diga-se de passagem que o alfabeto mandchu foi elaborado sob a orientação do imperador mandchu Nurhaci (1599).

A escrita kalmuk, criada em 1648 para uso dos kalmuks estabelecidos na Rússia, tem também sua inspiração no antigo alfabeto mongol.

[...] a ocupação mongol da China deixou o antigo império extremamente enfraquecido e com sérios problemas internos. Os mongóis não afetaram a milenar e avançada civilização chinesa: ao contrário, reforçaram velhas tradições alimentando uma xenofobia latente. A instalação da dinastia Ming implicou um esforço no sentido de apagar o hiato da dominação mongólica e ligar a nova China ao mais remoto passado nacional "elaborando uma civilização essencialmente tradicionalista." Note-se, contudo, a proteção ao budismo por Hong-wu que, lembrando-se do tempo em que vivera como bonzo num mosteiro, "não atendeu aos desejos dos letrados confucianos..."

As civilizações do Extremo Oriente, em virtude da queda do Império Mongol, isolar-se-iam num hermetismo multissecular, cortando as relações com o Ocidente. "Os europeus só reatariam tal contato muitas gerações mais tarde, na aurora do século XVI, com os périplos dos navegadores portugueses. Da grande aventura mongólica sobravam apenas lembranças aviltantes para a nova China, mas em nossos museus ficaram seus admiráveis desenhos de cavaleiros e animais, onde se aliaram, por um instante, a graça chinesa e o realismo mongólico."

GIORDANI, Mário Curtis. História da Ásia anterior aos descobrimentos. Petrópolis: Vozes, 1996. p. 224-26.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O legado da China

A dama Guoguo passeando a cavalo, Li Boshi

Tendo como berço a vasta planície sulcada pelas águas do Rio Amarelo, a civilização chinesa desenvolveu-se e expandiu-se numa imensa área da Ásia Oriental e Central não só recebendo contribuições culturais de outros povos, mas também transmitindo a muitas regiões o legado de uma brilhante civilização.

A obra conquistadora e colonizadora dos Han lembra a realização das legiões romanas. Da Coréia ao Vietnam, os legionários dos Han difundiram as ideias do confucionismo sobre a organização estatal: centralização do poder e regularização da administração. E com as concepções políticas seguiram todas as conquistas intelectuais e materiais: as obras de Confúcio e o arado de metal elevavam harmoniosamente o nível cultural dos povos submetidos. “Pela espada e pelo pincel, a China dos Han criou no Extremo Oriente e em todos os países de sua periferia, destinados a transformar-se em estados satélites, o direito administrativo, o direito público, o direito privado”.

O grande veículo da civilização chinesa foi a língua escrita, “língua de cultura e de administração do Anam, até a conquista francesa, da Coréia até a anexação japonesa, do próprio Japão nos primeiros séculos da introdução da civilização chinesa”. O chinês escrito influiu fortemente o vocabulário do idioma de todos esses países “que lhe pediram e frequentemente ainda pedem emprestados termos de cultura, forjando novas expressões com a ajuda de palavras chinesas da língua escrita, como nós o fazemos com o auxílio das palavras do grego antigo”.

Como sucedeu por ocasião da queda do Império Romano do Ocidente, a quebra dos laços políticos entre o Império Chinês e as regiões distantes outrora conquistadas não impediu o desenvolvimento das sementes de civilização lançadas: cresceram, tornaram-se árvores frondosas que ainda hoje frutificam.

Anotemos agora algumas realizações do gênio inventivo chinês que teriam enriquecido o patrimônio cultural do Ocidente.

A porcelana, a seda, a bússola, a imprensa, a pólvora e o papel, eis alguns progressos de nossa civilização que nos fazem pensar na China. O uso da agulha magnética entre os chineses parece remontar a muitos séculos antes de nossa era; mas somente foi introduzido no Ocidente por volta do século XII pelos árabes que o ensinaram aos normandos da Sicília, os quais, por sua vez, o transmitiram a genoveses e venezianos.

Os eruditos chineses discutem a época em que nasceu na China a arte de imprimir. Já nos primeiros séculos da nossa era, moldes de pedra eram utilizados para a impressão das firmas do imperador e dos príncipes. O ministro Feng-Tao, no século X da Era Cristã, conseguiu que fossem gravados em matrizes de madeira os clássicos chineses. No século seguinte, o ferreiro Pisching ou Pi-Sheng teria inventado os tipos móveis.

É difícil, entretanto, estabelecer uma relação entre a invenção chinesa e o aparecimento da imprensa no Ocidente ao findar a Idade Média.

Quanto ao papel, não há dúvida sobre a contribuição chinesa. O segredo da fabricação foi relevado em Samarcanda no século VIII por prisioneiros chineses, espalhando-se daí para o Ocidente por intermédio dos árabes.

A pólvora também nos foi transmitida pelos árabes, que vieram a conhecer o salitre “no curso de seu tráfico com a China e deram-lhe o nome de “neve chinesa”; trouxeram para o Ocidente o segredo da pólvora, que os sarracenos puseram em uso militar; Roger Bacon, o primeiro europeu que a mencionou, deve ter adquirido esse conhecimento no seu estudo dos árabes ou por meio dum viajante da Ásia Central, De Rubruquis”.

Mencionemos ainda, a título e curiosidade, outra contribuição da velha China: o método de resolução de equação do primeiro grau com uma incógnita, supondo o problema resolvido com uma solução por excesso e outra por falta, consta numa obra de matemática da época dos Han e passou à Europa com o nome árabe de “Al Khataayn”, isto é, “a chinesa”.

A história da China, desde milênios, não conhece solução de continuidade. Eis um fato importante a ser considerado quando se procura definir o legado da China antiga à civilização. As velhas tradições, as grandes sínteses doutrinárias filosófico-religiosas que no passado deitaram raízes na alma chinesa, continuaram durante toda a história a influir na mentalidade das gerações que se sucederam no velho país do Extremo Oriente. Tal asserção pode ser ilustrada com o exemplo do confucionismo que, durante milênios, tem sido o “código ortodoxo de toda a vida moral e espiritual e, apesar dos sistemas concorrentes, continua a ser o princípio diretivo da vida social. Desde a dinastia dos Han, a instrução pública baseia-se inteiramente sobre os ensinamentos de Confúcio, cujo alcance espiritual, malgrado os desvios que a fraqueza humana lhe imprimiu, continua integral. [...]


GIORDANI, Mário Curtis. História da antiguidade oriental. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 435-437.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O legado da Índia

Carregadoras de água no Ganges, Edwin Lord Weeks

A Índia foi, na Antiguidade e em épocas posteriores, uma fecunda encruzilhada de civilizações, um centro de intensa irradiação de ideias filosóficas e religiosas. [...] A Índia, pois, não só recebeu como também transmitiu influências culturais. [...]

O intercâmbio cultural entre o Vale do Indo e as velhas civilizações da Mesopotâmia já foi mencionado. Intercâmbio semelhante existiu com o império dos aquemênidas; essas relações com o Ocidente se intensificaram na época helenística. Escavações recentes efetuadas nas proximidades de Pondichéry atestam, de modo eloqüente, as ligações entre a Índia e o Império Romano. Ptolomeu fala-nos desses portos que se escalonavam do Mediterrâneo à China e os historiadores chineses informam-nos das visitas de embaixadores romanos à corte imperial, na época do Antonino Pio e de Marco Aurélio. Moedas romanas do tempo dos Antoninos, encomendadas no Oriente, confirmam esse intercâmbio que não terá sido exclusivamente comercial.

Os contatos da Índia com o Oriente foram igualmente intensos: a Ásia Central, a China, a Indochina, a Indonésia e o longínquo Japão sofreram a influência da cultura indiana. A expansão do budismo ilustra essa influência sobre a Ásia Oriental: a religião de Buda difundiu-se na China, na Coréia e no Japão. Ruínas grandiosas de santuários bramânicos e budistas falam eloquentemente do prestígio cultural da Índia em Java.

No terreno artístico, a Índia também irradiou sua influência no Oriente. Assim, por exemplo, “a arte greco-budista se propaga, de uma parte através da Ásia Central para a China e o Japão, de outra parte, na Índia e além, através da rota marítima, pela Insulíndia e a Indochina”.

No que tange a influência científica, registremos que da literatura científica da Índia dependem em sua maior parte as obras congêneres da Alta Ásia Antiga, do Tibet, da Mongólia, da Birmânia, Tailândia, Laos, Cambodge e Indonésia. “Estudada em si mesma e traduzida ou continuada em outras línguas, a literatura científica sânscrita desempenhou na Ásia Oriental o mesmo papel que na Europa e na Ásia Ocidental a literatura científica grega traduzida, imitada ou prolongada em siríaco ou em árabe”. Se, agora, voltarmo-nos para o Ocidente, surge uma interrogação: até que ponto teria a Índia influído na cultura da nossa Antiguidade Clássica? No terreno científico, parece inegável essa influência: “A comunicação de ideias indianas a certos meios médicos gregos da época da Coleção hipocrática e de Platão é atestada pela menção, no tratado “Das doenças das mulheres”, de um medicamento indiano, a pimenta, e de receitas médicas indianas”. Admitia-se desde a época de Aristóteles que, mesmo antes da expedição de Alexandre, intelectuais indianos teriam vindo à Grécia. Aristóxenes de Tarento, discípulo de Aristóteles, cita uma anedota em que aparece um sábio indiano visitando Sócrates.

Quanto às elucubrações filosóficas, é possível delinear-se um paralelo entre certos pontos do pensamento indiano e do pensamento grego. Mas, entre as especulações helênicas e as meditações indianas, existem abismos intransponíveis, o que torna temerárias quaisquer afirmações sobre uma influência direta destas sobre aquelas.

E quanto ao nosso patrimônio cultural, existirá alguma contribuição direta de civilização indiana? “Não podemos atribuir à civilização indiana dádivas diretas como as que recebemos do Egito e do Oriente Próximo; porque estas civilizações foram as imediatamente ancestrais da nossa, ao passo que as histórias da Índia, China e Japão correm em outro rumo e só agora estão começando a tocar e influenciar a corrente da vida ocidental. É verdade que, mesmo através da barreira do Himalaia, a Índia nos mandou grandes presentes, como a gramática e a lógica, a filosofia e as fábulas, o hipnotismo e o xadrez, e acima de tudo o nosso sistema decimal. [...] Entre as coisas mais vitais da nossa herança oriental estão os algarismos “arábicos” e o sistema decimal, ambos vindos da Índia através da Arábia. Os algarismos erradamente chamados arábicos aparecem nos “Editos de Pedra de Ashoka (256 a.C.), precedendo de um milênio à sua aparição na literatura árabe. Disse o grande e magnânimo Laplace: Foi a Índia que nos deu o engenhoso método de representar todos os números por meio de dez símbolos, cada um deles recebendo um certo valor de posição, assim como um certo valor absoluto; profunda e importante ideia essa, e de tão simples que nos parece hoje, ignoramos-lhe o verdadeiro mérito. A sua simplicidade, a grande facilidade que imprimiu a todos os cálculos, pôs a nossa aritmética no primeiro plano das invenções úteis; e apreciaremos duplamente a grandeza de tal descoberta se refletirmos que ela escapou ao gênio de Arquimedes e Apolônio, dois dos maiores homens produzidos pela Antiguidade”.

O que há de importante no legado da Índia antiga é que, no Oriente, ele é tão vivo hoje como no passado. Porque a civilização da Índia, ao contrário do que sucedeu às velhas civilizações do Oriente Próximo, não conheceu a morte. Resistiu durante milênios e apresenta-se hoje bem viva, com todos os seus defeitos e virtudes. Assim, por exemplo, a velha literatura transmitida durante séculos pela tradição oral revela-se hoje com o mesmo vigor e pujança com que influiu outrora as massas sedentas de solução para os magnos problemas da vida. A história da Índia não terminou na Antiguidade. Não existe, na península, solução de continuidade entre os tempos de Gandhi e de Nehru e a época de Buda, Jina ou de Açoka.


GIORDANI, Mário Curtis. História da antiguidade oriental. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 397-399.

domingo, 31 de agosto de 2014

Atividades produtivas no mundo antigo oriental

A base da economia era, então, a agricultura e a criação de animais. No entanto, em algumas épocas, houve conflitos entre as duas atividades, representados pelo choque entre grupos pastores - povos ainda nômades - e os agricultores - povos sedentários. Muitas vezes, as inúmeras invasões sofridas pelos reinos organizados eram resultado desse processo.

Nas cidades, geralmente sob o controle de templos e palácios, desenvolvia-se o artesanato, destacando-se a cerâmica, a tecelagem e o trabalho com metais e pedras preciosas como os setores mais importantes, que cresciam desde longa data.

O artesanato de luxo, produzindo jóias, tecidos finos e ricos, era praticado principalmente na região Sírio-Palestina e particularmente entre os fenícios, que eram também os principais fornecedores para os grandes reinos e impérios.

No decorrer do I milênio a.C., generalizou-se a metalurgia, principalmente a do ferro, que conferiu aos povos que a dominavam uma extraordinária superioridade bélica, em virtude da produção de armas muito mais resistentes do que as feitas de bronze ou pedras. A utilização do ferro para o fim militar parece ter sido iniciada pelos hititas e, mais tarde, largamente utilizada pelos assírios.

Além das atividades produtivas, agropastoril e manufatureira, havia o comércio, outra atividade tipicamente urbana e controlada pelo Estado.

A vinculação entre o comércio e o governo teve seu ponto alto nos reinos semitas da região Síria-Palestina. Os reis eram, antes de tudo, grandes mercadores. O rei Salomão, dos hebreus, é o exemplo clássico.

Os maiores comerciantes da Antiguidade foram, porém, os fenícios, que eram os grandes navegadores do mundo antigo. Eles faziam um comércio verdadeiramente mundial (no contexto da Antiguidade), na medida em que integravam, pela navegação, toda a orla mediterrânea e traziam para os seus portos os produtos e as matérias-primas existentes nos mais diferentes lugares, inclusive grande quantidade de escravos. As cidades fenícias podiam, assim, suprir todo o restante da Ásia e até mesmo o Egito.


Transporte de cedro do Líbano. Baixo-relevo do Palácio de Sargão II, ca. 713-716 a.C., Dur Sharrukin , Assíria

Enquanto os fenícios se destacavam no mar, os arameus eram os grandes distribuidores terrestres. O comércio terrestre de longa distância foi beneficiado pela montagem dos grandes impérios, que construíram extensas vias de comunicação (estradas). Além disso, criaram formas de organização e controle (inclusive defesa contra salteadores) das grandes rotas e caravanas, capazes de transportar as mercadorias para os lugares mais distantes, até mesmo para a Índia ou a China, conforme comprovam escavações mais recentes. No Império Persa, por exemplo, foram construídas estradas, como a que ligava Sardes, na Lídia, a Susa, no Elam, com cerca de 2400 km de extensão.


Ataque assírio a uma cidade com arqueiros e um aríete com rodas. Baixo-relevo do Palácio de Nimrud, ca. 865-860 a.C.

Nos grandes impérios, a própria guerra era, muitas vezes, mais uma empresa comercial do que política ou militar. Algumas campanhas eram levadas a efeito tendo em vista os espólios (saques) de guerra. A conquista militar era também uma conquista econômica, representada pelo confisco dos bens e das propriedades das populações dominadas. Prisioneiros eram transformados em escravos e havia sempre a imposição de tributos, que os povos conquistados, ou seus soberanos, deveriam pagar periodicamente sob a forma de presentes aos conquistadores.


Representação de Hoshea, rei de Israel, pagando tributo ao rei Shalmaneser III da Assíria (2 Reis 17:3). Obelisco negro de Shalmaneser III de Nimrud, ca. 827 a.C. 
Foto: Steven G. Johnson

De certo modo, a guerra substituía o comércio e era a forma, por excelência, de expropriação de riquezas. A formação de um Império Assírio, rico e poderoso, por exemplo, foi o resultado e não a motivação inicial das guerras.

A guerra também tinha um sentido econômico na medida em que beneficiava a classe dos militares: os soldados, além de receberem parte do saque, passaram a ser recompensados com a propriedade da terra e de escravos. Além disso, muitos militares passaram a integrar os privilegiados quadros de altos funcionários do governo.

Mas mesmo o comércio, propriamente dito, era vinculado ao Estado.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 77-78.


NOTA: O texto "Atividades produtivas no mundo antigo oriental" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O exército enterrado chinês

Fileiras de soldados de infantaria de terracota na China.
Foto: High Contrast

Este conjunto excepcional de esculturas em terracota (originalmente pintadas) composto de 100 quadrigas, 500 cavalos e perto de 8 mil soldados, repousa em três fossos descobertos entre 1974 e 1977 bastante perto de Xi’na (na região do Shaanxi, onde Qin Shi Huangdi tinha sua capital). O “exército enterrado” estava encarregado de guardar o mausoléu deste, que está um quilômetro mais a oeste, sob um gigantesco túmulo. O primeiro fosso se compõe de onze corredores paralelos revestidos com tijolos grandes, onde estão de pé, em fileiras de quatro, perto de 7 mil homens. A maioria deles é de infantes armados de lança, mas há também aqueles prontos, no contorno, a enfrentar o perigo, arqueiros e besteiros. Em cada fileira há também carros de combate. O segundo fosso contém 800 guerreiros, entre os quais cavaleiros de pé, puxando sua montaria, e oficiais. O terceiro fosso abrigava sem dúvida o alto comando do exército. Se o conjunto ficou incompleto, a variedade e o realismo das esculturas, notadamente dos rostos (tufos de cabelo, costeletas, bigodes, olhos), não são menos surpreendentes. Essa diversidade se encontra nas túnicas, nas couraças, nos cinturões ou nas caneleiras. Bustos e cabeças são ocos, ao contrário dos braços, das pernas e dos pés.

CATHERINE, Salles (dir.). Larousse das civilizações antigas 2: da Babilônia ao Exército Enterrado Chinês. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 226.

NOTA: O texto "O exército enterrado chinês" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento arqueológico.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O problema do carro de guerra no Oriente Próximo Asiático

Admite-se com frequência que o feudo aparece "nas sociedades onde se conjugam uma economia insuficientemente monetária e um armamento militar oneroso". O soberano retribui o serviço militar mediante a concessão do único capital valioso, a terra. Eis o que teria ocorrido no Oriente, no momento em que o uso do carro de combate se generalizava.


Carro de guerra sumério de quatro rodas. Estandarte de Ur (Lado da Guerra, detalhe).

Antes do século XVII, o carro desempenhava, nas batalhas, um papel apenas secundário. Protegido por grande anteparo frontal e montado sobre quatro rodas maciças, o carro era pesado demais para prestar-se a evoluções táticas. Seu manejo complicava-se tanto mais quanto os animais de tiro parecem ter sido onagros, animais espantadiços, dificilmente domesticáveis, aos quais o processo de atrelagem - um jugo apoiado no garrote - suprimia grande parte da força de tração. Daí que o carro quase só fosse empregado na perseguição do inimigo, não para a ruptura da frente adversária.

A situação modificou-se radicalmente quando se introduziu certo número de melhorias técnicas: a caixa, mais leve e montada sobre um eixo ao qual se fixaram duas rodas de raios, foi atrelada a dois cavalos por peitorais mais simples. O carro tornava-se, assim, um instrumento de manejo flexível, cujas vantagens táticas foram imediatamente percebidas. Os progressos fundamentais, efetuados na Ásia Menor e em território mitanita, difundiram-se por todo o Oriente Próximo, sem que se possam precisar as contribuições respectivas dos diferentes povos.

Se a generalização desse material dispendioso constituísse explicação para a formação dos feudos, ter-se-ia de adtmitir que ficava por conta dos combatentes que o utilizavam: precisamente para atender às despesas de equipamento é que se lhes outorgariam terras. Ora, tal não sucedia, já que os carros se encontravam sob a custódia da administração central.


Carro de guerra assírio de duas rodas. A captura da cidade de Astartu, pelo rei assírio Tiglath-Pileser III, ca. 730-727 a.C., retratados em um relevo de palácio.

O fato está claramente atestado em Nuzi, na época da ocupação mitanita. Os carros eram entregues a título de foro (ishkaru) pelas populações das localidades vizinhas, aos funcionários do poder central, que os depositavam no arsenal. Esse edifício, encostado ao palácio, era dirigido pelo shãkin biti, intendente da casa real. Tais disposições perpetuaram-se na Assíria, depois que alcançou a independência. Um texto de Tell Billa (Bi, 25) revela que as entregas de carros, ou de peças desses carros, no caso um timão de madeira de shakkulu, sempre constavam dos ishkaru exigidos pelo palácio, sendo o hassuklu, governador de Shibaniba (Tell Billa), responsável pela sua guarda. O mesmo se verifica em território hitita: Hattusili III concedera uma carta de imunidade ao templo de Ishtar de Samuha, dispensando-o do serviço (sahann) e das corvéias (luzzi), normalmente devidos ao Estado; ora, entre os encargos citados figuram entregas de carneiros, palha, cevada, forragem, cavalos de guerra, acessórios, além de peças de carros, os shakkulu, certamente timões, e bubutu, que seriam os taipais laterais da caixa. Todos esses fornecimentos visivelmente destinados ao equipamento e à intendência dos exércitos estavam confiados à guarda do comandante da marca (auriyas = bél madgalti). Arquivos oficiais nos informam sobre os maryannu de Ugarit, guerreiros que, via de regra, se encontravam subordinados a um funcionário do palácio, o "mestre dos carros" (akil narkabti), e talvez, em certos casos, diretamente ao rei. Ainda que este lhes concedesse terras, o setor dos carros estava, com toda evidência, sob responsabilidade da administração central. 


Carro de guerra hitita de duas rodas.

Por outro lado, a carta de Hattusili III, tanto quanto as tábulas administrativas de Nuzi, demonstram que nem só os combatentes participavam das despesas com o equipamento militar. Os templos e as populações rurais também estavam sujeitos a elas, detalhe confirmado pelos arquivos assírios de Tell Billa, que contêm listas de localidades (álu) e domínio (ái dunnu) obrigados a fornecer ao governador da região contingentes de homens, carneiros, lã e cereal. Era o conjunto da circunscrição do hassuhlu que participava da preparação dos exércitos assírios. Todos esses fatos traduzem a mesma realidade: os cuidados do equipamento militar não eram deixados à iniciativa individual; eram encargo do governo. Portanto, não teria cabimento estabelecer uma relação de causa e efeito entre as despesas de armamento e as concessões de terras efetuadas pelos soberanos. Estas visavam a um objetivo mais geral.

GARELLI, Paul. O Oriente Próximo asiático: das origens às invasões dos povos do mar. São Paulo: Pioneira/EDUSP, 1982. p. 319-321.

NOTA: O texto "O problema do carro de guerra no Oriente Próximo Asiático" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Características da civilização mongólica

Nenhuma civilização, talvez, submeteu-se, tanto como a dos mongóis aos imperativos da geografia e do clima. Seu habitat estépico sofre variações extremas de temperatura: uma breve primavera, um vento tórrido e dessecante, um inverno rigoroso e glacial; ventos furiosos varrem estas extensões onde não encontram qualquer obstáculo. Este clima brutal forja uma saúde inquebrantável e veda a sobrevivência dos fracos. Assim, a raça mongólica, quer a da estepe, quer a dos contrafortes florestais, é extremamente robusta. A rude existência dos caçadores, à horda da taiga, ou a dos pastores, em pleno coração das estepes, exige uma adaptação do físico: torso maciço e tórax desenvolvido sobre as pernas arqueadas pelo constante uso do cavalo; visão penetrante e grande agilidade. Todos são grandes devoradores de carne e consumidores de laticínios, e embebedam-se de bom grado. Joviais e bravos, mas capazes de inusitada crueldade, são amiúde inteligentes, astuciosos, suscetíveis mesmo de policiarem-se.


Arqueiro mongol, artista desconhecido. Miniatura chinesa da dinastia Ming, séculos XV-XVI.

A maioria das tribos são formadas de pastores. Ainda menos civilizados, e menosprezando também os pastores, os caçadores das florestas não possuem gado ou cavalos: vivem exclusivamente da caça e de alguns ofícios artesanais - carpinteiros, ferreiros. No inverno, calçam raquetas (tchana) de tábuas, apoiando-se em altos bastões a fim de caminhar os deslizar sobre a neve; outros, dotados de patins de osso polido, lançam-se sobre a neve endurecida ou sobre o gelo e capturam os animais na corrida. Suas cabanas de ramagem, recobertas de casca de bétula, são transportáveis, inteiramente montadas, em carros.

As tribos pastoris, conforme as variações do clima estépico e o estado das pastagens, são obrigados a periódicas transumâncias e à vida nômade. No inverno, os rebanhos descem para as estepes, onde faz menos frio, e aí permanecem durante a primavera, estação em que o pasto é melhor; no verão, tornam a subir os flancos das montanhas, onde os homens encontram um pouco de frescor e entram em contato com os habitantes das florestas. Em vista destes longos percursos, tudo, no acampamento, é concebido a fim de permitir fácil transporte. Os carros dispostos em círculo formam uma espécie de cercado. Permanecendo o mais das vezes totalmente armadas sobre os carros, as casas são de dois tipos: umas (ger) - impropriamente denominadas iurtas - feitas de feltro negro, em forma redonda, acham-se montadas sobre uma estrutura móvel de perchas e ripas, em torno de uma percha central, considerada sagrada; um pequeno tubo, fixo ao feltro, serve ao escapamento da fumaça e à ventilação. As outras (maican), largas e baixas, apresentam-se cobertas de lã, enquanto a tenda do chefe se distingue por sua cor branca ou "toda dourada".


Cavalaria mongol, artista desconhecido. Ilustração de manuscrito, século XV.

Os carros, de madeira, munidos de dois varais, transportam, além das provisões, um instrumental rudimentar de celhas de madeira, panelas, baldes de couro, odres e foles para o fogo. Cobrem-nos um berço estanque em feltro negro e, puxados por bois, rangem e solavancam ao longo das trilhas. Neles amontoam-se as famílias e os animais novos, demasiado débeis para que possam caminhar muito tempo. Atrás vêm os rebanhos, enquadrados por homens montados nos pequenos cavalos desgrenhados, munidos de uma sela de couro e tão vivos quanto os seus cavaleiros. Nos rebanhos, importunados pelas varejeiras, misturam-se cavalos de remonta e éguas, touros, bois e vacas, bodes domésticos, carneiros e ovelhas, e às vezes até camelos.

Como todos os nômades, os mongóis passam sem transição da fome à comezaina. Cada festa, cada acontecimento jubiloso é ocasião para um banquete. Nutrem-se de carne de cavalo e de carneiro, cozida ou assada, de leite coalhado (tarac), de alho e cebola, e de uma espécie de manteiga batida nas celhas com um pau parcialmente guarnecido de couro; em caso de escassez, cingem-se às sorvas, às bagas silvestres, às raízes comestíveis. Embriagam-se com leite de égua fermentado (cumiz), do qual sempre levam uma provisão, caso se distanciem por alguns dias. Para alimentar as fogueiras de acampamento, acesas com fuzil e mantidas com foles, usam esterco seco, espinheiras e raízes. À aproximação do inverno, abatem carneiros e constituem reservas de carne congelada; do mesmo modo, conservam o leite seco e reduzido a pó. Só as tribos que, como os markites, erram nas rotas das caravanas, conseguem farinha.


Um príncipe mongol estudando o Corão, ilustração de Rashid-ad-Din's Gami' at-tawarih. Tabriz. Século XIV.

Guerreiros, caçadores e pescadores, bem como pastores, manejam com destreza o arco e as flechas contidos num só envoltório de couro, análogo aos goritus dos citas, o sabre curvo, a lança de ferro. Desde a infância, fabricam arcos e flechas com madeira de pessegueiro ou zimbro e armam-se de pontas de osso ou madeira de cipreste. As mais temíveis são guarnecidas de uma ponta de ferro, que arranjam com os ferreiros das tribos das florestas e que untam às vezes de veneno. A caça é feita por meio de batidas em que se encurrala a presa antes de matá-la, ou de açores, gerifaltes e falcões, para caça de aves, ou de laço, para os cavalos selvagens, os hemionos (culan), os carneiros e os argalis, ou ainda mediante a perseguição a cavalo e com o arco, para os cervos, alces, antílopes e gamos. Sabem também desenterrar as marmotas (gerbos) com um instrumento de ferro, prender em armadilha os animais de pêlo, desencovar os ursos, pescar com rede os peixes dos lagos e dos rios; são auxiliados na caça como na guerra por cães famosos pela sua ferocidade. Acima do acampamento voam nuvens de pequenas gralhas; e em volta, durante a noite, rondam os lobos, os chacais e até os tigres.

Instalado o acampamento para o pouso noturno, a vigia organiza-se em torno de fogos de bivaque; os que velam jogam ganizes ou escutam os relatos que se transmitem oralmente ao longo das estepes. Quando da estação do estabelecimento, o acampamento transforma-se em "cidade"; constituem-no uma multidão de círculos de carros; as tendas são erguidas ao sol e orientadas para o sul; as do chefe e de suas mulheres, à parte das outras, compõem um palácio rudimentar ao qual são vinculados, além de numerosos servidores e escravos, um rebanho e pastagens próprias. Durante o repouso, os mongóis calandram o feltro, fabricam correias e cordas, selas e arreios, carcases e armas, vigamentos de madeira para as tendas e os carros, preparam enfim as peles e peliças.


Gengis Cã recebe embaixadores chineses, Jami' al-tawarikh, Rashid al-Din. Século XV

"O povo mongol cheira mal com suas roupas enegrecidas", confessa a História Secreta dos luan: é porque se cobre de peles e peliças, forrando os mais ricos, os seus casacos de inverno com zibelina, arminho, petit-gris ou raposa: e só depois da conquista da China vestem, na estação quente, a seda e o brocado. Os jovens de ambos os sexos conservam os cabelos longos, tapando os ouvidos. Tonsurados entre as duas orelhas, a parte frontal da cabeça rapada numa largura de três dedos, com uma franja de ambos os lados, os homens trançam seus cabelos e os prendem atrás da orelha, conservando sempre um topete que desce até os sobrolhos. As mulheres casadas embiocam-se com uma coifa de casca de árvore, da altura de dois pés chineses, que recobrem às vezes de um pano de lã ou, como sinal de opulência, de seda. O conjunto termina por uma longa cauda, que K'ieu ang-tch'uen (1221), compara a um ganso ou pato.

Sempre em estado de alerta para se defenderem dos animais selvagens ou das tribos vizinhas, estes audaciosos e ardilosos guerreiros espreitam a aproximação do vizinho que descobrem por uma nuvem de poeira no horizonte ou colando o ouvido ao solo. Agrupados em redor de seu estandarte de guerra (tuc), ao qual rendem culto e que os acompanha em todos os combates, são admiráveis cavaleiros, formando um todo com suas montarias, tão robustas como eles - contentam-se com a erva da estepe - , montarias que sabem poupar, mas às quais, no chicote, podem exigir o máximo esforço: o cavalo é o companheiro do homem, e os relatos mongólicos conferem-lhe uma verdadeira personalidade. Cobertos, em pé de guerra, de uma armadura de couro cozido, caindo como raio sobre os seus inimigos, não poupando a vida humana, os mongóis são também temíveis arqueiros, "os melhores que se conhece no mundo", nas palavras de Marco Polo. Suas tropas, perdidas na imensidão do deserto, são capazes de resistência invulgar, satisfazendo-se com leite de égua que bebem dos odres suspensos na sela, com bagos silvestres e caça abatida ao acaso no caminho, dormindo e velando a cavalo, cobrindo as rédeas soltas enormes distâncias. Se faltam os víveres, podem subsistir durante 10 dias, sugando o sangue de seus cavalos, nos quais abrem uma veia, tapada em seguida com estopa, ou diluindo e remexendo o pó de leite seco em um pouco de água.

Em caso de ataque de surpresa, entrincheiram-se atrás de seus carros dissimulados por moitas, ou fogem disparando sempre suas flechas, pois sabem voltar-se para a garupa de seus cavalos lançados a galope: tática terrificante que os citas e os partos já empregavam. Utilizam de bom grado os serviços de trânsfugas e espiões e vêem na guerra apenas uma oportunidade de matanças, raptos e rapinas. Os cativos sofrem bárbaros suplícios: só os que eles apreciam têm direito à morte por asfixia, sem efusão de sangue, pois acreditam que a alma reside no sangue. Salteadores, rapinantes e bandidos, como todos os nômades, travam entre si inexplicáveis vendetas, exterminando sem dó toda uma família, apoderando-se do gado, saqueando o material e queimando mesmo para sempre as pastagens dos clãs vizinhos. Como a presa da caça, o espólio de guerra é repartido entre os chefes, os oficiais e os guerreiros.

PERROY, Édouard. A Idade Média: o período da Europa feudal, do Islã turco e da Ásia Mongólica. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994. (História geral das civilizações, 7)

NOTA: O texto "Características da civilização mongólica" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 1 de julho de 2014

O passado do mundo nômade

Baskaks, Sergey Vasilyevich Ivanov

Desde a Antiguidade, hordas nômades circulavam na imensa zona das estepes que cobre uma importante porção da Eurásia. Seus idiomas ligavam-nos à família lingüística altaica ou turco-mongólica. Mas seu próprio habitat impunha há milênios um modo de vida pastoril que parecia estranhamente rudimentar ao lado das civilizações sedentárias que lhes eram contemporâneas. Eternamente atraídas pelos países cultivados que bordejam a estepe, suas tribos aglomeravam-se lentamente, contentando-se durante certo tempo em realizar nas vizinhanças brutais e fulminantes razias. Depois, bruscamente, todo um conjunto de hordas agrupava-se para uma terrificante invasão que provocava a fuga das populações agrícolas, cujas culturas, logo recaídas no baldio, eram usadas como pastos por nômades preocupados unicamente com suas montarias e rebanhos. Toda a história dos países vizinhos da estepe eurasiática é constituída destes vaivens – os nômades levando a estepe para o interior nas terras cultivadas, e os lavradores expandindo suas culturas até os limites da estepe. O nomadismo relativo das populações dos confins e a confusão das tribos nos terrenos de percurso facilitaram os contatos entre nômades e sedentários. Embora fiéis à rude existência de cavaleiros e pastores, os homens da estepe sentiam-se seduzidos pela opulência e o refinamento das civilizações evoluídas: e, embora encarniçando-se em destruí-las, alguns se deixaram ofuscar a ponto de se adaptar, como neste caso, à civilização sedentária: uns se achinesavam como os mongóis kitates, que se apoderaram no século X de uma parte da China do Norte e fixaram sua residência em Pequim; outros se iranizavam, tais como os turcos uigores que, convertidos ao maniqueísmo e iniciados nas letras, se tornaram os verdadeiros educadores dos demais estados turco-mongóis e recusaram voltar à vida nômade.

Para as grandes potências que julgaram de boa política solicitar sua ajuda ou que se viram constrangidas a tanto, foram às vezes aliados leais e mais frequentemente constituíram uma ameaça tão grave como persistente: especializados em ataques fulminantes, graças à rapidez de seus pequenos cavalos, deixando à retaguarda apenas ruínas e destruições totais, eram terríveis adversários. Não haviam conseguido ainda, por certo, tornar coesos seus agrupamentos de tribos disseminados na estepe. Mas fundaram uma série de fugazes impérios, em que se alternaram ao curso dos séculos a hegemonia turca e a hegemonia mongólica, e com freqüência os menos civilizados destruíam os reinos que os mais evoluídos construíam. Uma rápida recordação desta história, desde as grandes invasões do século IV, cujos prolongamentos atingiram a Europa com Átila e a Índia com Múracula, faz-se aqui necessária, ajudando a compreender não só a gênese, mas também a originalidade da obra de Gengis-Cã.


Batalha de Kulikovo. Artista desconhecido

No século VI, três grandes grupos desdobravam-se da China às bocas do Don: os juan-juan na Mongólia, da Mandchúria até Turfan; os hunos heftalitos, do norte da região Carachar a Merv, e do Aral ao Pendjab; os hunos da Europa, provavelmente de raça turca, em torno do Mar de Azov e da embocadura do Don. Mas, por volta de 550, os juan-juan e os heftalitos do Turquestão foram rechaçados pelos t’u-kieus, fundadores do primeiro império nômade de organização mais estável. É cerdade que os t’u-kiues se dividiram em dois reinos gêmeos, cujo território se estendia da Mandchúria ao Corassã; esta divisão, tanto quanto seu tradicional espírito de anarquia, determinou sua fraqueza. Os do Oeste tinham uma fronteira comum com a Pérsia sassânida, contra a qual Bizâncio solicitou seu auxílio. Mantiveram-se até que a poderosa dinastia chinesa dos t’ang, depois de esmagar seus irmãos da Mongólia (744), os sujeitou. Outro império turco substituiu-os, o dos uigures que, estabelecidos ao sul do Lago Baical, com Cara-balgassum como capital, dominaram igualmente, em torno de Turfan, parte do Turquestão. Transformados em sedentários, debilitados porque se tornavam doravante demasiado civilizados, os uigures foram por seu turno despojados de sua capital, em 840, pelos quirguises, turcos que permaneciam selvagens. Entrementes, os avaros sucederam aos hunos nas estepes russas e fixaram-se entre o Dniester e o Danúbio, enquanto no outro extremo das estepes, turcos achinesados, os cha-t’os, permabulavam nas cercanias de Ha-mi e, aproveitando o enfraquecimento dos t’ang, apoderaram-se do Nordeste da China (808). E, até cerca de 920, os quirguises, muito rudes, devolveram a Mongólia à barbárie, enquanto os uigures, apesar de sua debilidade, mantinham-se no Turquestão.

No início do século X, os quirguises foram por seu turno expulsos e aniquilados por outros bárbaros de raça mongólica, os kitates. Estes, que já haviam tentado há três séculos infiltrar-se em território chinês, mas tinham sido severamente rechaçados pelos t’ang, aproveitaram agora o desmoronamento do poderio chinês para penetrar, sob a direção de um chefe audacioso, o interior da Grande Muralha e para elevar ao trono imperial um general chinês que lhes comprara a proteção. Era o prelúdio de um estabelecimento mais maciço dos bárbaros na China, fato que possibilitaria a sua conquista pelas hordas. Pois a instalação dos kitates foi duradoura: estes se achinesaram, tomaram o nome chinês de kin (ouro) e, sem a menor perda de combatividade, inquietaram durante dois séculos as fronteiras da China do Sul. Sua história é, pois, assaz diferente da de seus contemporâneos magiares, os quais [...], alcançando a Europa Central no fim do século IX, empreenderam durante 60 anos incursões destruidoras, mas intermitentes, em diversas regiões do Ocidente cristão, antes de serem finalmente rechaçados para a planície danubiana, fixados ao solo e enfim cristalizados, servindo doravante de muralha da cristandade contra as últimas vagas das invasões nômades que refluíam sobre a Europa. Outros bárbaros, com efeito, acabavam de instalar-se entre o Volga e o Cáspio: nesta área, onde se encontravam mercadores bizantinos e árabes, compradores de peles, onde se asilaram também muitos judeus que fugiram das perseguições do imperador bizantino Romano Lacapena, os cazares converteram-se, segundo parece, ao judaísmo. Repelidos em 965 por um príncipe russo de Kiev e depois esmagados (1016) pelo Imperador Basílio II, só desapareceram da história em 1030. Neste ínterim, os turcos ocidentais ou carcânidas batiam às fronteiras do Estado muçulmano dos sassânidas – estes iranianos que exerceram [...], vasto, mas efêmero domínio sobre a Bactriana, e Transoxiana, o Kvarism, o Cotassã e o Seistã – e arrebataram-lhes a Transoxiana juntando-lhe a Cachagaria que turquificaram ao introduzir ali o Islã, ao qual estavam convertidos.


Batalha de Homs, 1281. Hayton de Coricos

Após o desaparecimento dos cazares, kitates e carcãnidas conservaram-se em suas posições durante a maior parte do século XI. Depois, cerca de 1071, os carcânidas foram absorvidos pelo império seldjúcida, cujos fundadores, oriundos de uma horda sem passado, os oguzes, acabavam de converter-se ao Islã: sua história, que traçamos, destaca-se doravante da do mundo nômade, embora o velho fundo turcomano reapareça com freqüência em seu comportamento. Ao mesmo tempo, uma tribo tibetana instalava-se no Ordos e no Alacham; sob o nome de si-hias, estes outros nômades submetiam o Noroeste da China enquanto os kitates conservavam sua parte Nordeste.

É ainda nos dois extremos do mundo das estepes que ocorrem os deslocamentos de hordas nômades no decurso do século XII. Nas planícies da Rússia Meridional, os cazares são substituídos pelos perchenegues, que constituíram [...] grande perigo para as fronteiras danubianas do império bizantino, até seu aniquilamento pelo Imperador João Comneno [...]. Em seguida vieram os oguzes, que também assolaram os Bálcãs e aos quais sucederam os quiptchaques. A China dos song de seu lado, via-se ameaçada não só pelos kitates ao nordeste, como pelos si-hias, ao noroeste. O Imperador Huei-tsong, mais esteta e poeta do que político, cometeu o erro irreparável, na tentativa de expulsar os kitates de Pequim, de chamar os djurtchates, povo tangus aparentado com os atuais mandchus. Esses semibárbaros não se contentaram com a Mongólia interior e a Mandchúria, que Huei-tsong lhes destinara. Tendo destruído o império kitakes, os cruais, adaptados à vida chinesa, já estavam bastante assentados e ocuparam toda a China do Norte, levando suas expedições até o interior do território song de onde só foram repelidos a custo.


Guerreiros montados perseguem inimigos. Ilustração de Rashid-ad-Din's Gami' at-tawarih. Tabriz. Século XIV

Na aurora do século XIII, à véspera do gigantesco empreendimento de Gengis-Cã, os djurchates, ocupam, portanto, toda a Mandchúria e a China do Norte, enquanto os si-hias mantêm os territórios do Noroeste. Os uigures, que se tornaram sedentários, radicam-se no osásis do Tarim, de Cuca a Turfan, cuja prosperidade foi alterada, ao que parece, pelo assoreamento. Os cara-kitais, mongóis achinesados e cristianizados, vagueiam em todo o resto do Turquestão, de Há-mi ao Aral e a Cojend, estendendo seu protetorado do Alto Ienissei até o Amu—Daria. Para além deste último rio, o principado dos kvarismianos, turcos muçulmanos, substituiu o dos seldjúcidas sobre um imenso território que compreende, afora o Kvarism propriamente dito, o Corassã, a região de Cabul e Gasna, a Pérsia inteira até a Geórgia. Enfim, todo o Norte da Índia cai em poder dos gúridas, afeganes vencedores dos gasnévidas. O mundo turco engloba todo o Oriente Próximo muçulmano; os turcos-mongóis estendem-se ao longo da Rússia e dos Bálcãs, até as planícies danubianas.

Tal é o espantoso mosaico das populações nômades – algumas das quais se tornaram parcialmente sedentárias – no momento em que aparece Gengis-Cã em incessante movimento há séculos, não possui qualquer coesão real, sendo formada de reinos e impérios movediços e relativamente efêmeros. A unidade lingüística não compensa a miscelânea das crenças e das formações políticas; às vezes achinesados, outras iranizados ou fiéis às tradições turco-mongóis, seus povos converteram-se, ao acaso das peregrinações, quer ao budismo ou ao confucionismo, quer ao cristianismo nestoriano, ao maniqueísmo, o islamismo ou ao judaísmo. Suas alianças são fugazes, e, refratários aos progressos das civilizações, conservam na maioria os hábitos bárbaros.

PERROY, Édouard. A Idade Média: o período da Europa feudal, do Islã turco e da Ásia Mongólica (séculos XI-XIII). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994. p. 120-124. (História geral das civilizações, 7).

NOTA: O texto "O passado do mundo nômade" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 8 de junho de 2014

A herança mística e extraterrena da Pérsia

Emblema solar de Ahura Mazda. 
Ca. VI século a.C. Susa, Pérsia

A religião dos persas, tal como foi ensinada por Zoroastro, não permaneceu por muito tempo em seu estado original. Foi corrompida principalmente pela persistência de superstições primitivas, pela magia e pela ambição do clero. Quanto mais a religião se estendia, tanto mais nela se enxertavam essas relíquias do barbarismo. Com o passar dos anos, a influência de crenças de outras terras, particularmente as dos caldeus, determinou novas modificações. O resultado final foi o desenvolvimento de uma poderosa síntese na qual o primitivo sacerdotalismo, o messianismo e o dualismo dos persas se combinavam com o pessimismo e o fatalismo dos neobabilônios.

Dessa síntese emergiu, aos poucos, uma profusão de cultos, semelhantes em seus dogmas básicos, mas concedendo a eles valores diferentes. O mais antigo dos cultos era o mitraísmo, nome que se deriva de Mitra, o principal lugar-tenente de Mazda na luta contra as forças do mal. Mitra, a princípio apenas uma divindade menor da religião zoroástrica, encontrou finalmente agasalhado no coração de muitos persas como deus mais merecedor de adoração. A razão dessa mudança foi, provavelmente, a auréola emocional que cercava os acidentes de sua vida. Acreditava-se que nascera num rochedo, em presença de um pequeno grupo de pastores, que lhe trouxeram presentes em sinal de reverência pela sua grande missão na terra. Passou então a sujeitar todos os seres vivos que encontrava, conquistando e tornando úteis ao homem muitos deles. Para melhor desempenhar essa missão, fez um pacto com o sol, obtendo calor e luz para que as plantações pudessem florescer. O mais importante de seus feitos foi, contudo, a captura do touro divino. Agarrando o animal pelos chifres, lutou desesperadamente até forçá-lo a entrar numa caverna, onde, em obediência a uma ordem do sol, o matou. Da carne e do sangue do touro provieram todas as espécies de ervas, grãos e outras plantas valiosas para o homem. Mal esses feitos foram realizados, Ahriman provocou uma seca na terra, mas Mitra enfiou a sua lança numa rocha e as águas dela borbulharam. Em seguida o deus do mal mandou um dilúvio, mas Mitra mandou construir uma arca para permitir a salvação de um homem com os seus rebanhos. Depois de terminados os seus trabalhos, Mitra participou de um festim sagrado com o sol e subiu aos céus. No devido tempo voltará e dará a todos os crentes a imortalidade.


Mitra e o touro. Afresco do Templo de Mitra, Marino, Itália, século II d.C. Artista desconhecido

O ritual do mitraísmo era complicado e significativo. Incluía uma complexa cerimônia de iniciação em sete estágios ou graus, o último dos quais firmava uma amizade mística com o deus. Longas provas de abnegação e mortificação da carne constituíam complementos necessários ao processo de iniciação. A admissão à completa participação no culto habilitava uma pessoa a participar dos sacramentos, sendo o mais importante o batismo e uma refeição sagrado de pão, água e, possivelmente, vinho. Outras observâncias incluíam a purificação lustral (ablução cerimonial com água santificada), a queima de incenso, os cânticos sagrados e a guarda dos dias santos. Destes últimos, eram exemplos típicos o domingo e o dia vinte e cinco de dezembro. Imitando a religião astral dos caldeus, cada dia da semana era dedicado a um corpo celeste. Uma vez que o sol, como fonte de luz e fiel aliado de Mitra, era o mais importante desses corpos, seu dia era, naturalmente, o mais sagrado. O dia vinte e cinco de dezembro possuía, também, significação solar: sendo a data aproximada do solstício do inverno, marcava a volta do sol de sua longa viagem ao sul do Equador. Era, em certo sentido, o "dia do nascimento do sol", uma vez que assinalava a renovação de suas forças vivificadoras para benefício do homem.

Não se sabe exatamente quando a adoração de Mitra se transformou num culto definido, mas sem dúvida não foi depois do século IV a.C. Seus característicos se estabeleceram firmemente durante o período de fermentação social que se seguiu ao colapso do império de Alexandre, e sua expansão nessa época foi muitíssimo rápida. No último século a.C. foi introduzido em Roma, embora tivesse pequena importância na própria Itália até o ano 100 d.C. Fazia conversos principalmente nas classes mais baixas - soldados, estrangeiros e escravos. Finalmente, atingiu a situação de uma das mais populares religiões do Império, tornando-se o principal concorrente do cristianismo e do próprio velho paganismo romano. Depois de 275, no entanto, sua força decaiu rapidamente. É impossível avaliar a influência que esse extraordinário culto exerceu. Não é difícil perceber sua semelhança superficial com o cristianismo, mas certamente isso não quer dizer que os dois fossem idênticos, ou que um fosse derivação do outro. Não obstante, é provável que o cristianismo, o mais jovem dos dois rivais, tenha tomado de empréstimo um bom número dos aspectos externos do mitraísmo, conservando, ao mesmo tempo, virtualmente intata a sua filosofia essencial.


Folha de um maniqueísta. Khocho, ca. VIII-IX século d.C. Artista desconhecido

Um dos principais sucessores do mitraísmo na transmissão da herança persa foi o maniqueísmo, fundado por Mani, um sacerdote de origem ilustre de Ecbátana, aproximadamente em 250 d.C. Como Zoroastro, achava que sua missão na terra era reformar a religião dominante, mas obteve pequena simpatia em seu próprio país e teve que se contentar com aventuras missionárias na Índia e na China Ocidental. Mais ou menos em 276, foi condenado e crucificado pelos seus próprios rivais persas. Depois da morte de Mani, os ensinamentos deste foram levados por seus discípulos praticamente a todos os países da Ásia Ocidental e, por fim, à Itália, mais ou menos em 330. Grande número de maniqueus ocidentais, inclusive o grande Agostinho, acabaram por se tornar cristãos.

De todos os ensinamentos do zoroastrismo, o que causara a mais profunda impressão na mente de Mani fora o dualismo. Era, por conseguinte, natural que se tornasse a doutrina central da nova fé. Mas Mani deu a essa doutrina interpretação mais larga do que tivera nas religiões precedentes. Concebeu não simplesmente duas divindades empenhadas numa luta inexorável pela supremacia, mas todo um universo dividido em dois reinos, sendo um a antítese do outro: um, o reino do espírito dominado por um Deus eternamente bom; outro, o reino da matéria sob o domínio de Satã. Somente substâncias "espirituais" como o fogo, a luz e as almas dos homens eram criadas por Deus. Tinham sua origem em Satã a escuridão, o pecado, o desejo e todas as coisas corporais e materiais. A própria natureza humana era má, pois os primeiros pais da raça receberam seus corpos físicos do rei das trevas.

As inferências morais desse dualismo rigoroso eram demasiado evidentes. Uma vez que tudo quanto se relacionasse com a sensualidade e o desejo era trabalho de Satã, o homem devia esforçar-se por se libertar o mais completamente possível da escravidão de sua natureza física. Devia refrear todos os prazeres dos sentidos, abster-se de comer carne, de beber vinho e de satisfazer o desejo sexual. Até o casamento era proibido, pois levaria à geração de novos corpos físicos para povoar o reino de Satã. Além disso, o homem dominaria a carne por meio de jejuns prolongados e penitências corporais. Reconhecendo que essa norma de austeridade seria muito dura para mortais comuns, Mani dividiu a raça humana em "perfeitos" e "seculares". Somente os primeiros eram obrigados a submeter-se à norma completa como um ideal que todos deviam almejar. À segunda categoria cumpria somente evitar a idolatria, a avareza, a fornicação, a falsidade e a ingestão de carne. A fim de ajudar os filhos dos homens na luta contra o poder das trevas, Deus enviava, de tempos em tempos, profetas e redentores a fim de confortá-los e inspirá-los. Noé, Abraão, Zoroastro e Paulo eram enumerados entre esses emissários divinos, mas o último e maior de todos era Mani.

É muito difícil estimar a influência do maniqueísmo, mas sem dúvida ela foi considerável. Pessoas de todas as classes do império romano, incluindo alguns membros do clero católico, adotaram suas doutrinas. Na sua forma cristianizada, tornou-se uma das seitas principais da igreja primitiva e forneceu a base essencial da heresia albigense, ainda nos séculos XII e XIII. Inspirou extravagantes especulações cristãs em torno do dualismo entre Deus e o diabo e entre o espírito e a matéria. Não somente contribuiu para o ascetismo cristão mas também fortaleceu as doutrinas do pecado original e da depravação do homem, tais como as ensinaram alguns teólogos. Foi, finalmente, a grande fonte da famosa dicotomia dos padrões éticos estabelecida por Santo Agostinho e outros Padres da Igreja: 1) um padrão de perfeição para poucos (os monges e as freiras), que se retirariam do mundo e levariam vida santa para exemplo dos demais; e 2) um padrão socialmente viável para os cristãos comuns.

O terceiro culto mais importante, que se desenvolveu como legado da religião persa, foi o gnosticismo (do grego gnosis, que significa conhecimento). O nome do seu fundador é desconhecido, bem assim como a data da sua origem, mas certamente existia já no primeiro século da nossa era. Atingiu o auge da popularidade na última metade do segundo século. Ainda que granjeasse alguns seguidores na Itália, sua influência se limitou sobretudo ao Oriente Próximo.

O misticismo era o característico que mais distinguia dos outros este culto. Os gnósticos negavam que as verdades da religião pudessem ser descobertas pela razão ou que se pudessem tornar inteligíveis. Consideravam-se como os detentores exclusivos de uma secreta sabedoria espiritual revelada por Deus, sabedoria essa de absoluta importância como guia da fé e da conduta. Suas observâncias religiosas eram também altamente esotéricas, isto é, tinham um significado oculto conhecido unicamente pelos iniciados. Os sacramentos em grande profusão, batismos inumeráveis, ritos místicos e o uso de fórmulas e números sagrados são os melhores exemplos desses ritos.

Foi enorme a influência conjunta desses vários tipos de religião persa. Muitos deles foram lançados numa época de condições sociais e políticas particularmente favoráveis à sua expansão. O fim do império de Alexandre, mais ou menos em 300 a.C., inaugurou na história do mundo antigo um período singular. Foram derrubadas as barreiras internacionais, houve uma extensa migração e caldeamento de povos, e o colapso da antiga ordem social despertou profunda desilusão e um vago anseio de salvação individual. A atenção dos homens se centralizou, como nunca mais acontecera desde a queda do Egito, nas compensações da vida futura. Em tal terreno as religiões do tipo descrito estavam destinadas a medrar como erva nova. Sendo sobrenaturais, místicas e messiânicas, ofereciam na irrealidade que buscavam os homens o verdadeiro refúgio de um mundo de ansiedade e confusão.

A herança deixada pelos persas, ainda que não tenha sido exclusivamente religiosa, continha poucos elementos de natureza secular. A forma de governo característica desse povo foi adotada pelos monarcas romanos de época avançada, não no seu aspecto puramente político, mas no seu caráter de despotismo de direito divino. Quando imperadores como Diocleciano e Constantino I invocaram a autoridade divina como base do seu absolutismo e exigiam que os súditos se prostrassem na sua presença, estavam, em realidade, identificando o estado com a religião como os persas tinham feito na época de Dario. São também discerníveis traços da influência persa em certos filósofos helenistas, mas ainda aqui essa influência foi essencialmente religiosa, pois se limitou quase inteiramente às teorias místicas dos neoplatônicos e dos seus aliados filosóficos.

BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental: Do homem das cavernas até a bomba atômica. V. 1. Porto Alegre: Globo, 1964. p. 106-110.

NOTA: O texto "A herança mística e extraterrena da Pérsia" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.